Capacitação de professores e TI

outubro 16, 2019

Abordei, em meu trabalho no campo de informática e educação, diversas vezes a questão da capacitação de professores para uso de computadores. Sempre segui a linha de que os mestres deveriam ter voz ativa no processo. Ao mesmo tempo, sempre critiquei propostas que subordinavam os professores à pseudo-sabedora de informatas e pedagogos. Exemplo de como pensava e ainda penso a questão é um pequeno texto que escrevi para responder à questão que me foi feita após palestra nume evento em Floripa na metade da década de 1990. A resposta está datada. Na época ainda não havia web. Mesmo assim, acredito que a direção geral do que escrevi continua válida. Por isso trago para cá o velho texto.

MENSAGEM PARA TINA, SILVANA E EDNA, COORDENADORAS DE INFORMÁTICA EDUCATIVA

Jarbas Novelino Barato

Tento responder aqui questão que vocês formularam por ocasião da Jornada de Tecnologia e Educação. A pergunta estava assim escrita:

  • As Escolas estão com seus laboratórios montados, mas seus professores nunca tiveram acesso ao uso do computador. Não sabem nem ligá-lo. Como os núcleos de treinamento podem capacitar estes professores pedagogicamente?

Para início de conversa, tento clarear alguns pontos. Dá-se muita ênfase à capacidade de manejar computadores. De certa forma isso é uma mistificação. Vocês dizem que os mestres sequer sabem ligar a maquineta. Tal expressão é mistificadora. Professores são usuários de muitos artefatos que precisam ser ligados (TV´s, toca CD´s, liquidificadores, secadores etc. etc.). Ligar computadores não é algo muito diferente daquilo que se faz para colocar outros aparelhos eletrônicos em funcionamento. Provavelmente os professores não precisam aprender a ligar computadores. Vocês falam em capacitar os professores pedagogicamente, sublinhando a última palavra. Não sei se entendo suas intenções. Por causa de experiências desagradáveis que já tive com pedagogos, sempre fico com um pé atrás com pretensões de fazer algo pedagogicamente. Aliás acho que a maioria dos professores não quer ser capacitada pedagogicamente…

A questão, a meu ver, deve ser discutida no âmbito de preocupações com o reconhecimento da importância do ofício de ensinar. Tal reconhecimento é uma forma de valorizar o trabalho do professor. E se reconhecemos tal trabalho como importante, não podemos perder de vista que os mestres devem dispor das melhores ferramentas para poderem exercer o seu ofício. Deixem-me abordar mais diretamente a pergunta de vocês. Penso que a capacitação de professores passa pelo uso de ferramentas na organização de espaços e percursos de aprendizagens. O centro da questão, é claro, só pode ser como criar ambientes favorecedores de aprendizagem. No geral, os mestres estão preocupados com isso e não precisam de capacitação pedagógica (chamo aqui de pedagógicas aquelas generalidades irrelevantes e jurássicas da Didática Geral que pouco ou nada tem a ver com o ensino nosso de cada dia). Tento ressaltar um pressuposto para a capacitação. Ou seja, acho que é preciso reconhecer que professores são profissionais do ensino. Estão preocupados com as questões de aprendizagem e já tem alguma experiência no ramo. Nesse sentido, qualquer plano de capacitação centrado em aplicações dos computadores no ensino, escolhidas a priori por pedagogos e/ou informatas, é pura perda de tempo.

Acho que um plano de capacitação deve estar centrado em projetos que os próprios professores possam propor. Dizendo isso de outra forma: um treinamento para professores, no caso, deveria desde o início estar orientado para usos da maquineta de acordo com escolhas dos treinados. Em qualquer área, aprender aplicativos ou sistemas computacionais sem uma articulação com atividades profissionais é uma opção pouco proveitosa. Não tem muita consequência, por exemplo, ensinar Word ou qualquer outro processador de textos para analfabetos funcionais. A ferramenta, no caso, será pouco usada, pois o aprendiz é incapaz de  vê-la profissionalmente. Meu velho e sábio professor de Usos Educacionais de Computadores (Computer Education), Al Rodgers, responderia a questão de vocês de maneira curta e grossa: “dêem a chave do laboratório para os professores”. Mais do que capacitação, professores precisam de acesso e tempo para utilizar a maquineta como uma ferramenta. Muitas capacitações que conheço resumiram-se a introduções aos aplicativos mais conhecidos, sem desafiar os mestres a pensarem seus próprios projetos de utilização da nova máquina no trabalho de sala de aula. Na sequência da tal capacitação, sempre que os professores comparecem ao laboratório, o informata de plantão é quem dirige o espetáculo. Os professores não vem fazer o seu trabalho. Vem apenas trazer os alunos para que estes usem o computador… Em situações como essas, a pouca aprendizagem dos aplicativos vai regredindo e os professores não ficam (uma vez mais) capacitados.

Tento ser mais claro. Há uma concepção de uso de computadores em educação que transparece em  expressões como “informática educativa”. Existe, nesse caso, uma crença de que o computador tem em si virtudes educacionais. Na continuação da crença, presume-se que especialistas podem determinar usos adequados de computadores no ensino. E os tais especialistas sentem-se qualificados para treinar professores, essa gente ignara e bronca, que resiste inutilmente mas, se bem trabalhada, pode aprender alguns truques úteis em termos de uso dos computadores. O que não se percebe, dentro dessa moldura, é que novas ferramentas exigem um repensar da atividade educacional. Mudanças de meios de comunicação significam mudanças que não se resumem a aspectos formais. Novas ferramentas de comunicação estão embutidas em novas culturas, novos valores. Eles abrem horizontes. Mas, também, fecham algumas portas.  Capacitação de professores para usar computadores não é, portanto, apenas uma questão operacional. É ou deveria ser uma oportunidade para uma conversação densa e exigente sobre o ofício de ensinar.

Num trabalho clássico sobre necessidades em treinamento, o velho Mager nos ensina que prescreve-se treinamento quando instruir é uma solução adequada para alguma dissonância entre situação existente e situação desejada. Há casos porém, continua o grande Mager, em que a dissonância verificada não pode nem deve ser resolvida por meio de ações educacionais. No caso que vocês pintam, um laboratório bem montado (?) mas com professores não qualificados, fica parecendo que a solução é treinar. Mas eu acho que essa situação real ou hipotética deve ser melhor analisada Não descarto a incapacidade dos professores. Acho, porém, que o problema principal está no modelo organizacional. Fica implícito que a solução laboratório é boa desde que os professores sejam bem qualificados (no fundo o insucesso será atribuído aos mestres). Não se pensa em alternativas organizacionais (ninguém declara, com todas as letras, que a chave deve estar com os professores; nas escolas que eu conheço, a chave – em todos os sentidos – está ou com os informatas ou com a coordenação).

Como regra geral, no modelo laboratório, os computadores estão destinados aos alunos. Não há projetos que priorizem computadores para professores… Essa última alternativa exigiria outro modo de localizar computadores no espaço escolar. Talvez isso seja mais importante que treinar professores se quisermos mudanças significativas no ensino contando com usos de computadores. Mas será que escolas e sistemas de ensino estão dispostos a imaginar outras situações de acomodar as maquinetas no espaço escolar?

Elaboro um pouco mais essa coisa do modelo. A forma hegemônica de introduzir computadores no ensino por meio de um laboratório retrata vontade administrativa de nada mudar. O laboratório é um espaço que pode ser bem controlado e, no geral, será entregue a um informata júnior ou a uma pedagoga que consegue circular com alguma desenvoltura pelo ambiente Windows. Os professores comparecerão eventualmente ao laboratório para levar alunos para sessões de informática educativa. No geral as atividades no laboratório serão conduzidas pelo funcionário responsável pelas maquinetas. A participação do mestre nessas atividades será, quando muito, complementar. Como já disse, nesse ambiente que descrevo satiricamente, não há muito espaço para que o professor exerça sua capacitação.

Mas a minha preocupação não cessa aí. Além de desestimular mestres, o tal modelo impede mudanças. O tempo de uso do laboratório é o tempo de uma aula. No geral o trabalho dos alunos será individualizado ou reduzido a tarefas para pequenos grupos. O uso das maquinetas deverá adequar-se a conveniências administrativas. Nenhum projeto que rompa com a organização tradicional da escola terá chances reais de frutificar (penso, por exemplo, numa simulação como as fundadas em softwares da série Decisions Decisions do Tom Snyder, feitas com a classe inteira e com uma duração média de três horas). Quase não existe espaço para romper com cargas horárias, calendário escolar, duração de uma aula etc. Mas se a gente levar a sério os possíveis usos educacionais das novas maquinetas será preciso alterar de modo significativo a organização da escola E é claro que alterações ambientais podem provocar mudanças profundas. Mas quem é que está disposto a mudar de fato? Fica mais fácil, mais uma vez, colocar a culpa do fraco aproveitamento de computadores em educação nas largas costas dos professores.

Até agora as ferramentas computacionais não são – para usar o jargão informático – completamente amigáveis. Mas, como ocorre com qualquer ferramenta, o ideal é um artefato cuja operação não seja mais importante que a finalidade do trabalho. Assim, um redator quer é redigir, produzir um bom texto; ele não pode ficar preocupado com questões técnicas de operação da ferramenta. Ferramentas que chamam atenção para o seu próprio funcionamento interferem na fluência do trabalho.

A pergunta que vocês fizeram mereceria uma conversa longa com todas aquelas trocas de ideias que um bom papo requer. Mas, por agora, devo parar por aqui. Se vocês quiserem continuar, compareçam.

 

Educação divertida 2

outubro 5, 2019

Sempre me preocupou a ideia de que a educação deve ser divertida. Tentei, em meus tempos de professor em faculdades de educação, combater essa crença. Mas, confesso que não tive muito sucesso. Por isso, certo dia resolvi aderir ao movimento. Já tinha me esquecido disso. Hoje minha memória foi reativada quando encontrei um rascunho de texto que comecei a escrever em defesa da educação divertida. Tal rascunho pode ser muito melhorado. Por isso, publico-o aqui, solicitando colaboração dos amigos.

MANIFESTO POR UMA EDUCAÇÃO DIVERTIDA

Não dá mais pra suportar. A educação que temos é muito chata. Já é hora de virar o jogo. E podemos começar com as medidas que seguem neste manifesto.

  1. Extinção do Conselho Nacional de Educação (CNE) e demais conselhos de educação em todos os níveis, substituindo-os por órgãos capazes de julgar e animar espetáculos. Há exemplos de coletivos que podem exercer tal papel com muita competência. Sugere-se que os novos conselhos se inspirem em grupos de jurados como os do Chacrinha, Flávio Cavalcanti, Raul Gil, Bolinha e Silvio Santos.
  2. Fechamento imediato das faculdades de educação. Elas devem dar lugar a escolas circenses que formam palhaços, malabaristas, trapezistas, showpeople, profissionais muito necessários nas escolas de hoje. Entre os novos profissionais da educação, destaque especial será dado aos palhaços. Queremos já bons doutores em palhaçadas. Eles serão adorados pelos estudantes.
  3. Proibição de livros do Paulo Freire e autores assemelhados. Fora com a chateação de discursos articulados sobre fins da educação, Eles serão substituídos por manuais de como organizar espetáculos. Em vez de Freire, queremos Bial.
  4. Reforma urgente de espaços escolares, com derrubada de salas de aula, bibliotecas, laboratórios, oficinas. Os ambientes ideais das novas escolas serão picadeiros, arenas, palcos, estúdios. E enquanto a demolição da velha escola não se concretiza, façamos tudo via celular.
  5. Proibição de livros de disciplinas chatas como Anatomia e Fisiologia, Estatística, Física, Matemática, Cálculo, Lógica e História. Mas não basta proibir livros assim. É preciso proibir também as disciplinas. Elas são muito desagradáveis, exigentes, Não há qualquer razão para aprendê-las,
  6. Proibição de pesquisas científicas que deverão ser substituídas por roteiros capazes de gerar bons programas de TV, de jogos eletrônicos e de outros produtos que promovam o riso e a diversão.
  7. Eliminação de exercícios exigentes para a formação de artistas na música, na pintura, na dramaturgia etc. Toda a produção artística deverá ser levada à frente por robôs.
  8. Eliminação da chatice do dia a dia, as obrigações aborrecidas. Para gente que delas não consiga se livrar, serão administradas generosas doses diárias de SOMA ou de outra droga mais eficaz para promover o prazer.
  9. Há um objeto maldito que se aliou à escola e tem ojeriza quase que total dos alunos, o tal de livro. Ele precisa desaparecer. Não merece lugar nem mesmo em museu. E não venham com essa história de que o livro pode se transferir para a banda digital. Isso é golpe baixo, além de baita equívoco. As bibliotecas e livrarias serão conservadas apenas para alimentar uma diversão que deixará os estudantes muito contentes: fogueiras de livros em praças públicas. Essa diversão será provisória e desaparecerá quando o último livro for consumido pelo fogo.

 

Mulheres soldadoras

setembro 27, 2019

Trago para cá vídeo de uma reportagem da PBS sobre mulheres em cursos de soldagem. Já examinei mais a fundo esse ingresso das mulheres em atividade que ainda é predominantemente masculina em investigação recente que fiz para a UNESCO. Continuo interessado no assunto e pretendo reunir aqui algumas referências sobre ele. Começo com este vídeo.

 

Uso de ferramentas

agosto 13, 2019

Ótimo vídeo sobre uso de ferramentas. Macacos-prego preparam coco antes de leva-lo a uma bigorna, onde o abrem para chegar à castanha. Um comportamento inteligente e,provavelmente, aprendido socialmente. É preciso reparar que se fala muito em comportamentos assim em chimpanzés. Mas, os macacos-prego, bem mais antigos na história da evolução, já fazem uso de instrumentos para conseguir resultados que querem.

Bom material para conversas sobre invenção de ferramentas.

 

Evolução Humana

agosto 13, 2019

Estou relendo O Colar do Neandertal, de Juan Luis Arsuaga, coordenador das pesquisas paleontológicas da Serra de Atapuerca. O livro destaca descobertas de como viveu o homem de neandertal na Europa, com base nos achados arqueológicos em Sima de los Uesos.  O autor faz referência a um belo documentário sobre Atapuerca, as descobertas lá realizadas e o trabalho dos cientistas que investigam os achados na dita serra: Atapuerca: el misterio de la evolución humana. Interessados pelo documentário poderão vê-lo com um clique aqui.

 

 

 

Internet, liberdade e censura

junho 11, 2019

 

Em 2009, a revista Carta Capital Escola me pediu um artigo. escrevi o tal, mas não me lembro se o mesmo foi publicado. Hoje, limpando meu email, encontrei troca de correspondência com gente da revista sobre a matéria. Encontrei também a própria matéria. Minha memória sugere que já publiquei o texto aqui, mas sem dizer que o mesmo era na origem um escrito para a Certa capital. Na dúvida, faço este registro e reproduzo o artigo que, acho eu, não foi publicado.

Internet, liberdade e censura

 

Jarbas Novelino Barato

 

Há alguns dias tive de fazer um longo intervalo em pesquisa que realizei numa faculdade. Gentilmente, uma das coordenadoras me cedeu uma sala para que eu pudesse usar a internet. Quis escrever um post no meu blog. Não foi possível. Quis verificar mensagens novas no meu twitter. Não foi possível. Em ambos os casos apareceu na tela um Protection Alert, comandado por um cão de guarda. Tal sistema protetor tinha algumas informações que resolvi ler. Uma das mensagens dizia que o twitter é um Social Networking (rede social). Motivo suficiente para ser censurado naquela escola. Como o protetor tinha um link para Social Networking fui conferir. Aprendi então que “redes sociais da internet podem conter material ofensivo”.

Narro outro episódio. Carta Capital na Escola publicou uma reportagem sobre WebGincanas, modelo de uso da internet que desenvolvi com meus alunos. Certo dia na universidade eu quis ver a reportagem em versão digital.  Não consegui. A cada tentativa era informado que estava acontecendo um erro. Achei estranho, pois outras buscas na internet estavam funcionando normalmente. Demorei a entender o que estava acontecendo: o título da matéria procurada – Saberes em Jogo – contém uma palavra proibida. O bloqueador da universidade não deixa ninguém ler qualquer texto que tenha a palavra jogo. Problema sério para alunos de educação física. Em pesquisas sobre muitos esportes, eles precisam de permissão especial dos gestores da segurança de sistemas na universidade. Nesses casos, depois de muita burocracia, são destinadas aos pesquisadores algumas máquinas sem os bloqueios usuais.

Como é que as pessoas justificam esses atos de censura? Há duas explicações mais utilizadas. Uma tem a ver com disciplina intelectual. Outra, com moralidade. No primeiro caso, os censores dizem que a internet nas escolas deve ser usada apenas para atividades de estudo. No segundo caso, os censores dizem que é preciso proteger crianças e jovens contra os perigos de gente que usa a internet para explorar a inocência de nossos filhos. Acho que a censura promovida pelos bloqueadores não atinge nenhum dos objetivos propostos.

Examinemos o argumento da disciplina. A internet é um ambiente que pode dar margem a muita dispersão. Num laboratório de informática, quando professores propõem alguma atividade com apoio da rede mundial de computadores, é comum ver alunos navegando por sites que nada têm a ver com a matéria estudada. Já vi isso em toda parte, dos cursos de pós-graduação a aulas no ensino fundamental. A possibilidade de dispersão parece justificar bloqueio a redes sociais e a sítios dedicados a distração e lazer. Mas, os bloqueios não resolvem o problema; os alunos, se quiserem, sempre encontram meios de usar a internet de maneira dispersiva.

O segundo argumento parece mais sólido. Já ouvimos muitas histórias de como pessoas mal intencionadas utilizam a internet para corromper crianças e jovens. Crimes relacionados com sexo e drogas são as ocorrências mais freqüentes que os censores utilizam para justificar bloqueios em computadores das escolas. Mas a providência é inócua. O uso criminoso da internet não acontece em situações de uso público dos computadores.

A meu ver, num e noutro caso, escolas jogam dinheiro fora quando compram sistemas de bloqueio da internet. Esta, porém, não é minha preocupação principal. Preocupa-me a aceitação da censura no ambiente escolar. Algumas coisas que aprendemos nas escolas passam muito mais por meio do ambiente que por meio dos discursos feitos pelos educadores. Assim, um ambiente de censura passa para professores e alunos a mensagem tácita de que a comunidade escolar não merece viver em liberdade. O aluno de educação física que precisa de permissão especial para pesquisar jogos na internet aprende que a escola não confia nele. O aluno de ensino fundamental que vê seu twitter bloqueado aprende que ele é incapaz de fazer escolhas sem proteção contínua de adultos.

Volto à questão da disciplina nos estudos. Quando professores levam alunos ao laboratório de informática para pesquisas na internet, sem qualquer plano de trabalho consistente, a dispersão será inevitável. Bloqueio, como já disse não é solução no caso. A solução passa por propostas bem estruturadas de uso da internet para pesquisa. WebGincanas e WebQuests bem feitas, por exemplo, são muito mais efetivas que a censura a sites supostamente dispersivos. E, acima de tudo, a decisão de estudar é do aluno. A censura não ajuda ninguém a se dedicar à pesquisa. Aprender é um ato de liberdade.

A questão da moralidade é mais delicada. Proteger as crianças contra todo tipo de ameaça é uma tese aceita pela maioria dos adultos. Mas, crianças e jovens querem muitas vezes tomar decisões sem supervisão de pais ou professores. E esse desejo não é um capricho. É expressão de um sentimento de que a moralidade é fruto de escolhas livres.

Em qualquer dos casos comentados, parece-me que o caminho da liberdade é muito mais educativo que a censura à internet nas escolas.

Todos pela educação

maio 15, 2019

Hoje, 15/05/2019, professores, estudantes e cidadãos preocupados com o futuro de seus filhos estão se manifestando contra a destruição da educação que o desgoverno de Bolsonaro vem promovendo. Faço este registro para mostrar que este Boteco Escola é também um espaço de defesa da educação pública de boa qualidade.

Hora de união

maio 5, 2019

Estamos no começo de maio de 2019. A loucura de um desgoverno destrutivo está criando bases para uma união nacional de resistência. Eu não saberia como colocar isso em palavras, mas felizmente encontrei um texto do Antônio Prata que diz tudo o que precisa ser dito. Copio Antônio Prata.

Bolsonaro vai unir o Brasil

Acabou o flá-flu: agora é todo mundo contra o Olaria

Devo admitir que pelo menos uma coisa boa o Bolsonaro conseguiu neste início de governo: pacificou meus grupos de WhatsApp. Havia dez anos que o flá-flu vinha corroendo os grupos da família, do trabalho, da faculdade; o grupo Réveillon 2012, cujo momento de maior tensão tinha sido um impasse sobre leite integral ou desnatado transformou-se, a partir de 2013, em mais um campo de batalha entre coxinhas e petralhas.

Na terra de ninguém do meu celular, a guerra chegou ao ápice logo depois das eleições, quando o tio Eurípedes perguntou o que podia levar pro Natal da tia Eugênia, o tio Agenor falou “Leva mortadela, não é disso que VOCÊS gostam?!” e o peru subiu no telhado. (Nomes e situações foram ligeiramente alterados para o bem do meu convívio familiar).

Então Bolsonaro assumiu e, diante do seu show de horrores, começou a pacificação. Até fevereiro ainda se lia nos meus grupos um ou outro “Mas e o PT, hein?!”, “E o Lula, hein?!”. Em algum momento, porém, entre o vídeo do “golden shower” e a fala sobre gays, turistas & sexo, até o tio Agenor deu o braço a torcer: “Gente, esse homem é louco ou burro?”.

O burro, percebo agora, se parece com o gênio. Ele é imprevisível, surpreendente, criativo: o burro vê o que ninguém mais vê. Bolsonaro é como um Picasso que realmente enxergasse o mundo retorcido. Ou plano? É como uma criança de dois anos que não pode ficar só, sob risco de botar a Presidência na tomada, engasgar com uma reforma, emporcalhar com guache todas as instituições, botar fogo na casa.

Ilustração
Adams Carvalho/Folhapress

Fosse um burro feliz, feito um Forrest Gump, menos mau. Acontece que, como escreveu aqui na Folha Sérgio Rodrigues, o ethos deste governo é o ressentimento. Do ressentimento brota o ódio ao conhecimento, à arte, à diversidade, a qualquer forma de dissenso. Resultado: no grupo da família, tio Agenor e tio Eurípedes sentem-se tão diferentes da atual gestão que esqueceram as próprias diferenças.

Não é só nos grupos de WhatsApp que sinto os antigos flás e flus se unirem diante da ameaça do tenebroso Olaria que tomou a política nacional. Vejo Renato Janine Ribeiro, por exemplo, buscando pontos de concordância numa entrevista do Luciano Huck. Amigos de esquerda dando share nas colunas do Reinaldo Azevedo. Eu mesmo concordo com tudo o que o Demétrio Magnoli escreve e dou like atrás de like nos tuítes do meu ex-antípoda Carlos Andreazza. Mudou a esquerda? Mudaram estes colunistas? Eu? Talvez um pouco de cada, mas mudou sobretudo o cenário. O buraco, agora é bem mais embaixo.

Quem sabe o tiro da arminha de mão não esteja saindo pela culatra e Bolsonaro consiga o que o PSDB e o PT não conseguiram: juntar no mesmo barco todos os que, mesmo que com diferentes visões de mundo, tenham apreço pela democracia, pelas leis, pelos direitos humanos, enfim, por todo esse mimimi efeminado chamado civilização.

Precisamos de um movimento como o das Diretas Já. Do sociólogo ao metalúrgico. Da feminista negra ao pastor. Do banqueiro ao tio Agenor. (Não podemos deixar de fora o tio Agenor, todos os tios Agenores: acorda, esquerda! Vocês precisam conquistar o eleitor não bolsonarista-raiz do Bolsonaro e não espezinhá-lo com posts lacradores tipo “Bem feito!”, “Eu avisei!”).

Podem me chamar de ingênuo, mas acho que tal união é possível: contrastados com a barbárie do Bolsonaro, começo a enxergar pontos de convergência entre pessoas tão distantes quanto Boulos e Arminio Fraga. Espero que eles também enxerguem —antes que a burrice, o ressentimento e o ódio passem por cima de todos nós.

Antonio Prata

Fazer Bem Feito: Resenha

maio 3, 2019

fazer bem feito

O Boletim Técnico do Senac acaba de publicar resenha do meu livro Fazer Bem Feito: Valores em Educação Profissional e Tecnológica, uma edição da UNESCO. O texto foi escrito por professores do Instituto Federal de Santa Catarina: Crislaine Gruber, Olivier Allain e Paulo Wollinger. A apreciação que fizeram é bastante simpática e relata alguns dos pontos mais importantes do meu livro.

Quem se interessar pelo assunto pode acessar a resenha clicando aqui.

Meus escritos no BTS

abril 15, 2019

Parte das matérias que escrevi para o Boletim Técnico do Senac aparece numa relação organizada pela revista. Boa parte da relação é composta por resenhas. Ana, antiga editora do periódico, me convidou para publicar resenhas no BTS. Era algo que eu não havia feito até então. O convite tinha cara de desafio. Topei. E aprendi fazendo. Com o tempo, acho que minhas resenhas foram melhorando. Além disso, com os resultados, acabei gostando muito de tal tipo de produção textual. Em parte, aprendi a resenhar lendo os ótimos artigos sobre livros publicados no New York Review of Books.

Para quem quiser ver a relação dos meus textos no BTS, clique aqui.