Analogias e pensamento

setembro 15, 2021

Em 1983, fiz no mestrado em tecnologia educacional estudo independente, orientado por Brock Allen, sobre analogias e metáforas. O Brock tinha grandes expectativas sobre o paper que que iria produzir e planejava uma discussão nossa com David Rumelhart, nome importante das ciências do conhecimento na época e professor da Universidade da Califórnia em San Diego (La Jolla). Infelizmente, meu estudo não ficou tão bom como o esperado o Brock perdeu oportunidade de encontro com Rumelhart. Para mim, porém, o que andei investigando foi um grande ganho. Aprendi muito sobre analogias metáforas e como elas influenciam nosso pensar.

Entre meus guardados há uma tradução do começo da Justificativa que escrevi para a proposta de estudo independente. Acho que vale reproduzi-la aqui.

Raciocínio Analógico e Estratégias de Aprendizagem

Jarbas Novelino Barato

ETL 798/1983 SDSU

Dois problemas gerais aparecem quando enfrentamos o desafio de ensinar conceitos. O primeiro refere-se à congruência entre o processo de instrução e o processo de compreensão de conceitos. Ou seja, numa situação de ensino, a ausência da paralelismo entre as maneiras escolhidas para apresentar informações conceituais e as maneiras que as pessoas utilizam para construir estruturas abstratas do conhecimento pode causar alguma dissonância que torna mais lento  o ritmo natural de aprendizagem. Esse é um caso que leva alguns críticos a dizerem que aprendemos apesar do ensino que recebemos. O segundo problema refere-se aos efeitos das estratégias instrucionais. Parece que as estruturas de conhecimento requerem não apenas uma dimensão estática do conteúdo do conceito, mas também uma dimensão dinâmica  dos modos pelos quais nós criamos relações, classificamos e aplicamos informações. Tradicionalmente, esse problema aparece na literatura como a questão da transferência (Dansereau, 1978). Praticamente, ele pode ser formulado como segue

  • Os alunos irão aplicar o conhecimento escolar a situações de trabalho?
  • Que habilidades conceituais preparam as pessoas para enfrentar as situações cotidianas num mercado de trabalho cambiante?

Não há respostas definitivas para essas duas questões. E as causa para essa ausência de solução clara decorre da complexidade do conhecimento assim como de dificuldades de verificar efeitos pós instrucionais da aprendizagem de conceitos. Apesar deste estudo não ser espaço adequado para discutir tais limitações, consideramos ser útil sugerir que:

  1. Teorias que lidam com a compreensão de conceitos são modelos probabilísticos, não verificáveis diretamente.
  2. Em atividades de ensino, sem uso de instrumentos desenhados especificamente para tanto, não há possiblidade de verificar congruência entre estratégias e os reais caminhos empregados para lidar com conceitos.
  3. Não há fórmula para determinar a priori todos os conceitos que uma pessoa precisará utilizar em futuras atividades. Do ponto de vista do ensino, isso significa que não é possível cobrir todos os conceitos dos quais uma pessoa necessitará, considerada a complexidade do trabalho alvo ou atividade para o/a qual se volta dada atividade educacional.

Até aqui, o quadro que pintamos parece levar as escolhas instrucionais do ensino de conceitos para um beco sem saída. Mas não acreditamos nessa decorrência pessimista. Acreditamos que as atuais descobertas sobre a cognição humana podem sugerir soluções aproximativas para os citados problemas. Esse estudo é uma tentativa para mostrar uma dessas soluções com as quais intructional designers podem contar quando confrontados com o desafio de criar materiais para o ensino de conceitos.

Nosso pressuposto é o de que o raciocínio analógico como ferramenta instrucional pode oferecer um caminho confiável  para se lidar não só com os conteúdos conceituais – a dimensão estática – mas também com a compreensão de conceitos – a dimensão dinâmica. Porém, cumpre assinalar que o raciocínio analógico não exclui outras estratégias de ensino.

Do ponto de vista do ensino, a solução ideal seria um formato instrucional que permitisse tanto o raciocínio analógico como outros caminhos instrucionais de acordo com as habilidades intelectuais dos aprendizes. Allen (1980) sugere que uma apresentação hierárquica de conceitos, por exemplo, pode ser um formato instrucional para lidar tanto com  forma menos avançada de aprendizagem de conceitos – aquela baseada em discriminação de conceitos – quanto forma mais avançada – aquela baseada em raciocínio analógico.

Educação radical no século 20

setembro 5, 2021

Uso o termo radical aqui para falar de coisas que vão à raiz. No caso da educação, falo de proposta que vão fundo, não ficam na superfície. Neste sentido, experimentos de educação radical são raros. No século que passou podem ser encontrados na Colônia Górki, na Escola de Barbiana, nos fazeres de Freinet. Todos estes experimentos nada têm a ver com a maior parte das reformas que aconteceram no século que passou. Tais reformas sempre foram superficiais e nada mudaram, exceto o discurso dos educadores. Na lista que faço de experimentos radicais de educação no século 20 sempre entra o Black Mountain College. Já falei aqui um pouco sobre ele. Desta vez apenas indico um vídeo muito bom sobre o BMC.

Há também um bom texto sobre o Black Mountain College, com informações que vale ver: https://www.widewalls.ch/magazine/black-mountain-college .

Curso técnicos prep p/ universidade…

agosto 24, 2021

Tempos atrás, o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, ao fazer propaganda de seus cursos técnicos, usava como argumento principal que seus alunos iam muito bem no ENEM. Nada a ver com a tradição da casa no campo da formação profissional. A propaganda apenas repetia uma verdade que todo mundo conhece: as escolas técnicas de boa qualidade são porta de entrada para as melhores universidades.

Notícia sobre ensino técnico no SENAC em jornal de Bauru:

“Em 2021, o Senac Bauru passou a ofertar o Ensino Médio Técnico em Informática, que integra a grade curricular do ensino médio a um programa de qualificação técnica em informática. O curso prepara o aluno para o Enem e o vestibular, e pode ajudar também a antecipar a entrada no mercado de trabalho, pois concede certificado de profissional técnico em TI.”

Reparem na ênfase dada a ENEM e vestibulares. Reparem no envergonhado “pode ajudar também…”.

Está aqui mais um argumento para minha velha tese de que a formação técnica deve ser pós secundária. Uso de cursos técnicos para adolescentes e jovens imberbes, em instituições que oferecem educação de qualidade, como degrau para ingresso em boas universidades não é novidade. Há um estudo clássico do Luiz Antônio Cunha sobre o assunto.

Perde-se muito tempo ensinando a esses jovens uma profissão que não lhes interessa. Os tais cursos deviam assumir sua função propedeutica sem o difarce da profissionalização. Nada tenho contra uma educação que bem prepare os alunos para enfrentar seleção de ingresso na universidade (pelo menos enquanto durar tal seleção…), embora eu seja contra os processos seletivos para tanto. Muito tenho contra investimentos em profissionalização para quem nela não está interessado.

Notícia completa sobre o curso técnico no SENAC de Bauru pode ser vista aqui.

Mestres de oficina

agosto 24, 2021

Professores de formação profissional.Estou revendo texto que escrevi sobre atuação e formação de docentes em educação profissional e tecnológica. No escrito, sugiro nas entrelinhas que mestres de uma ofício, mesmo sem educação universitária e capacitação formal para o magistério, são os melhores docentes em oficinas. Mas, esses mestres estão desaparecendo das instituições de ensino e a legislação não permite que eles sejam docentes. Seu lugar está sendo ocupado por gente com formação superior, mas sem qualquer identificação com o ofício que supostamente ensinam. O problema é ignorado por acadêmicos que pontificam sobre formação de professores.

Não tinha intenção de escrever parágrafo tão longo para introduzir essa conversa. Mas foi preciso para situar o que segue.

Ao considerar o papel de mestres de ofício, me lembrei de experiência acontecida no Peru, década de 60/70. Uma ótima escola superior de administração preparou programa para pequenos empresários do Interior do país. Tal programa tinha como meta formar pessoas para modernizar os negócios em todos os aspectos. Para a missão foram preparados os melhores estudantes da instituição que partiram para os recantos remotos do país a fim de levar a boa nova da administração moderna. Os pequenos empresários frequentaram os cursos (tinham incentivos financeiros do governo para tanto). Resultado: retumbante fracasso. Os cursistas nada aprenderam.

Alguém teve a ideia de reformular o projeto. Em vez de estudantes universitários brilhantes para ensinar moderna administração dos negócios, este alguém sugeriu que pequenos empresários com sucesso no que faziam assumissem a docência. Isso foi feito. Resultado: grande sucesso no programa.Infelizmente, passado tanto tempo, não sei mais onde li o caso aqui contado. Será que alguém sabe?

Um exemplo de inclusão em educação

agosto 23, 2021

Sobre inclusão nas escolas.

Em 2014, em investigação que estava desenvolvendo sobre formação profissional e valores, projeto da UNESCO, estive numa turma de salgadeiros em escola do SENAI de Mato Grosso. O professor era um moço de vinte e poucos anos, sem formação universitária. As aulas aconteciam em torno de uma bancada de granito onde os alunos preparavam o salgado do dia. Quando lá estive era dia de pão de queijo. A massa estava semipronta. Era preciso prepara-la sobre a bancada e ir produzindo as porções que iriam ao forno.

Tudo correndo conforme o script esperado. Mas, havia na turma três cegos, um homem e duas mulheres. Segundo alguns intérpretes de situação como a que vi, seria preciso que o docente tivesse apoio de especialistas. Mas, ele não tinha. Tratava os alunos com deficiência visual com muita naturalidade, inventando modos de integra-los ao que estava sendo desenvolvido. O mesmo acontecia com os demais alunos.

Num primeiro momento, para um observador externo, seria difícil perceber que havia alunos sem visão naquela oficina de preparação de alimentos. Eu sabia desde o início que ali havia ali algo diferente porque a coordenação pedagógica me havia dito que a turma era muito especial por causa dos três alunos que não enxergavam. Para fazer as porções de massa que iriam ao forno, os alunos cegos teriam alguma dificuldade para separar quantidades adequadas para o trabalho. Precisavam de alguma pista. O jovem professor fez isso. Preparou tubos de massa suficientes para produzir várias porções de pão de queijo e os colocou frente a cada um dos alunos com problema de visão. Pediu a eles para manipularem aqueles tubos e os orientou para separar cerca de dois dedos de massa para cada porção. A partir disso deixou-os à vontade para fazerem a tarefa. Observei que os três alunos especiais estavam produzindo porções equivalentes às dos outros alunos. Além disso, produziam tanto ou mais que seus colegas.

Acampanhei outras iniciativas do docente para apoiar os alunos cegos. Ele fazia isso com naturalidade e sem prejuízo para aprendizagem dos demais. Estrevistei posteriormente os três aunos. Eles se sentiam perfeitamente integrados à escola e à turma dos salgadeiros. Uma das entrevistadas, mulher de cerca de 40 anos, me disse que usava com orgulho a camisa de uniforme do SENAI, pois era reconhecida como estudante no ponto de ônibus. Esse orgulho de voltar à escola na idade adulta foi observado por meu amigo Mike Rose nos EUA. É algo que emociona. E emociona muito mais quando a estudante é uma senhora que perdeu a visão aos 17 anos e voltou à escola naquele curso, vinte e três anos anos após abandonar o ensino médio.

Registro essa minha experiência para mostrar que o SENAI de Mato Grosso e o jovem instrutor do curso de salgadeiro viam a inclusão de alunos com necessidades especiais com muita naturalidade e encontravam caminhos para que alunos cegos pudessem participar da educação junto com outros alunos. Ao mesmo tempo, minhas observações e as entrevistas com os alunos cegos mostraram que os demais estudantes da escola (alunos de cursos de qualificação profissional, cursos técnicos e cursos tecnológicos) acolhiam sem problemas os alunos especiais. Vale finalmente registrar que os alunos cegos tinham rendimento igual ou superior aos demais.

Redigi este textão para mostrar que alunos cegos, surdos, mudos, cadeirantes etc.. não estorvam os demais. Eles, inclusive, oferecem lições de vida para os colegas. No SENAI de Mato Grosso, os três alunos cegos que entrevistei estavam educando seus colegas de escola de muitas maneiras.

Vinho da família

agosto 8, 2021

Gosto de bons vinhos. Tenho certa preferência pelos argentinos. E cultuo um tannat do Uruguai. Dos europeus, gosto mais dos italianos. Mas, com a inflação cada vez mais crescente e com o dólar que não para de subir, está bastante difícil encontrar vinhos de qualidade acessíveis. Enquanto isso, sonho com alguns vinhos que não posso mais comprar e com outros que não conheço, mas gostaria de experimentar. Entre eles, há os que levam o nome da minha família por parte do nono Santo Barato. Baratto é marca de uma vinícola da Austrália, e há um vinho italiano que também é Baratto. Quem sabe um dia eu possa degustar um Baratto australiano ou italiano.

Dia dos pais

agosto 8, 2021

Reproduzo obra de meu amigo Ary de Lazari. Ele, como eu, filho de pedreiro, resolveu produzir uma série de pinturas sobre o ofício do qual meu pai tinha muito orgulho. O profissional da foto lembra meu pai, magro, de chapéu, usando a colher, ferramenta símbolo de sua profissão. Este ano, meu velho chegaria aos 102. Partiu antes, perto de chegar aos 94. Era um artista no seu ofício, e com ele aprendi muito sobre a vida e sobre o trabalho.

Música e educação

agosto 2, 2021

Já abordei o tema aqui outras vezes. E o fiz a partir de um precioso livrinho que fala de uma bela experiência de introdução de música no ensino fundamental. O livro a que me refiro é “A well-tempered mind: using music to help children listen and learn”. Para informação sobre o conteúdo dessa obra, pode ser útil visitar resenha do livro, num escrito que produzi em 2008.

Blogs: já foram uma febre

julho 30, 2021

Blogs já foram uma febre. No começo deste século eles eram os locais em que mais se publicava na web. Ganharam notoriedade. Foram usados como rascunhos iniciais de livros. Alguns deles deram fama a muita gente que não conseguiria espaço nos meios tradicionais de publicação (livros, revistas, jornais). Foram usados por jornalistas para contar histórias que não seriam aceitas pelas publicações em que trabalhavam (o caso mais célebre é o dos warblogs do Iraque). Foram utilizados para publicar assuntos de interesse pessoal como marcenaria, mecânica, ufos etc. Eu entrei na febre blogueira bem cedo, ali por 2001. Cheguei até a ser citado como uma das referências de blogs educacionais cá na Terra de Santa Cruz. Hoje sou um blogueiro eventual que posta uma ou outra matéria aqui no Boteco.

Hoje a febre passou. Os blogs foram ficando pelo caminho. Muitos morreram. Outros dormem um sono profundo do qual, me parece, não serão despertados. Outros foram esquecidos até mesmo por seus autores. Blogs novos são raros.

Nos velhos tempos havia um burburinho de conversas nos blogs.Por isso, muita gente, eu incluso, chegou a comparar os blogs com os velhos cafés parisienses, locais de conversa livre, locais de bons papos. Hoje as conversas blogueiras cessaram. A gente publica, mas ninguém comenta. O conversê da web migrou para o Face, para o Twitter, para o Instagran, para o WhatsApp.

Quantos blogs criei? Sete ou oito. Os primeiros (em 2001)foram quase sempre experimentos para testar ferramentas, para aprender a manejar aquela novidade de publicação. Dois blogs que iniciei tiveram tal finalidade. Não me lembro o nome deles, muito menos sei em que endereço estavam ou ainda estão. Lembro-me de blogs alojados em espaços na França, Itália e Romênia. Criei-os por farra, apenas para testar novidades. No italiano armazenei alguns escritos meus, mas perdi inteiramente a referência. Em 2004 criei o Aprendente e mantive-o bastante ativo até 2011. Hoje ele é um canto quase que esquecido. Em 2007 criei este Boteco Escola, um sobrevivente no mundo da blogosfera.

Tudo que escrevi até aqui serve de introdução a uma descoberta. Fuçando em velhos arquivos de minhas aventuras na web acabei encontrando o Poranduba, blog que iniciei em 2002. Era um experimento, mas eu pretendia que ele fosse um local de diálogo com meus alunos. Ficou pelo caminho, com poucas publicações. Substitui-o por outro de cujo nome não me lembro, que teve existência fugaz, e que foi substituído pelo Aprendente. Milagosamente, o Poranduba ainda está no ar, apesar de nada eu ter nele publicado depois de 2002. É um sobrevivente. É um momento a ser lembrado na história dos blogs.

Celular no hospital

julho 14, 2021