Archive for junho \22\UTC 2012

Pobreza e aprendizagem

junho 22, 2012

Nos debates que acontecem hoje no cenário americano, Diane Ravitch vem insistindo na ideia de que uma das causas mais importantes do fracasso em educação é a pobreza. Por diversos motivos, as crianças pobres vão ficando para trás. E o déficit educacional dos mais pobres vai aumentando com o passar do tempo. Assim, no final dos estudos secundários, jovens oriundos das camadas populares  acumulam insucessos escolares que se refletirão em insucessos na vida.

Intuitivamente, Dom Lorenzo Milani, o grande educador italiano, percebeu o problema no final do anos cinquenta do século passado. Por isso, em sua escola, filhos de camponeses e operários, fracassados crônicos no sistema educacional italiano, tinham que estudar muito mais que os filhos de papai. E Milani queria que seus alunos não apenas superassem enormes falhas educacionais. Ele achava que, para poderem ter suas vozes ouvidas, filhos de camponeses e operários tinham que saber muito mais que os filhos da burguesia.

O tema da pobreza em suas relações com a educação não é muito estudado. Em 1990, meu amigo Sigfredo Chiroque, chamou atenção para a questão em seu livro Mapa de La Pobreza Educativa en el Perú. Mas, a voz de Chiroque foi pouco ouvida. É comum atribuir fracassos escolares mais aos professores que à pobreza. Ou, no caso americano, muitos economistas, travestidos de reformadores da educação, ignoram a pobreza como uma das causas do fracasso escolar.

Minha intenção neste post é apenas a de levantar o problema. E faço isso para motivar quem se interessar pela leitura de uma nota sobre pobreza e fracasso escolar já na fase em que as crianças dão seus primeiros passos no campo da educação sistemática em pre-escolas. Vejam isso no link que aponto a seguir:

Somos todos italianos

junho 21, 2012

Pura hora do recreio. Indico link para um desenho animado fantástico. O autor mostra por que não há possibilidade da Itália ser como os demais países europeus. Na Bota a União Européia fracassa.

Aqui, nestes trópicos, somos todos italianos. A cultura européia também fracassa no Brasil. Vejam e me digam se não tenho razão. Para acessar o vídeo, cliquem em: italy 

junho 19, 2012

videos.asp?v=2f6fa94f5989d789cc7bb375e337ee75

 

Finalidade da escola

junho 16, 2012

Nos últimos tempos tenho criticado ideias que enfatizam uma escola voltada para a eficiência. Tais ideias guardam parentesco com entendimentos de que a educação acerta quando as pessoas alcançam sucesso econômico ou obtem altas notas em testes padronizados. Nessa visão, aspectos essenciais da educação ficam esquecidos. Não vou fazer um longo discurso sobre a questão (pelo menos não vou fazê-lo agora). Escrevo sobre o tema apenas para introduzir uma citação excelente que encontrei no Facebook da comunicadora Chris Boese. Vamos, pois, ao que importa, a dita citação?

Escola, Estado Nacional e Olavo Bilac

junho 5, 2012

De vez em quando tento organizar meus velhos arquivos. Há rascunhos que escrevi anos atrás e ainda estão guardados. Alguns desses rascunhos são comentários, sugestões, análises que fiz para programas de TV da Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo).

Uma das sugestões que escrevi tinha como alvo a produção de um vídeo sobre Estado Nacional e Educação. O assunto era contemplado num texto que compunha os subsídios impressos de programa de capacitação de professores pela Univesp. Já não me lembro o nome do autor. Talvez fosse Antonio Nóvoa, mas não tenho certeza.

Meu amigo Fernando Fonseca, também trabalhando no projeto da Univesp em 2009, escreveu um resumo do texto, tendo em vista a produção televisiva. Entrei em cena para sugerir uma alternativa de produção. O roteirista acabou escolhendo outro caminho. Meu texto ficou apenas como um registro. Mas, ainda hoje, acho que ele aponta para a exploração de um dado de história que hoje é totalmente ignorado pelas faculdades de educação: a influência de Olavo Bilac no ideário da escola primária brasileira. Em meus tempos de primário, Bilac era presença constante no discurso de meus professores.

Trago para cá minhas notas. A primeira parte do texto, a que vai até o item sugestões, é de autoria do Fernando Fonseca. O que segue depois é da minha lavra.

ESTADO MODERNO E ESCOLA TRADICIONAL

A configuração atual do mundo é um agenciamento do Estado Moderno que se pronunciou a partir do século XVI. Uma interpretação mais abrangente do Estado Moderno necessariamente deverá considerar aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais mutuamente vinculados.

O Estado Moderno superou formas arcaicas de organização social, separando o Estado da Igreja, promovendo avanços nas ciências e tecnologias, no crescimento urbano e da infra-estrutura nacional, além de induzir novos modos de produção.

Nesse novo ambiente, a segmentação social e a mobilidade social foram ampliadas, frutos de uma nova ordem política e econômica. Do ponto de vista político, o poder cada vez mais se afastou das monarquias e se aproximou da população civil; do ponto de vista econômico, houve enorme ampliação da produção mundial, intensificação do comércio e acumulação de capital.

Com o transcorrer dos séculos, para aumentar sua estabilidade, o Estado Moderno desenvolver projetos de coesão da população, reforçando o sentido de nação e de cultura nacional. Também pressionou o Estado Moderno a nova organização social, política e econômica, baseada no liberalismo, nas idéias de democracia, justiça, enfim, os ideais expressados pela Revolução Francesa.

Essas demandas do Estado Moderno tiveram evidentes impactos na educação escolar, pois a escola passou a ser um dos aparelhos de construção e manutenção da coesão nacional e da organização social voltada para seus interesses, o que para a grande maioria da população significou uma educação em larga escala e de viés conservador.

Escolas como fábricas, voltadas para grandes contingentes, conteúdos disciplinares, separação em séries por faixa etária, evolução por mérito, controle por meio da ênfase burocrática: um legado ainda vivo nos dias de hoje.

Com o transcorrer dos séculos, para aumentar sua estabilidade, o Estado Moderno desenvolveu projetos de coesão da população, reforçando o sentido de nação e de cultura nacional. Também pressionou o Estado Moderno a nova organização social, política e econômica, baseada no liberalismo, nas idéias de democracia, justiça, enfim, os ideais expressados pela Revolução Francesa.

Essas demandas do Estado Moderno tiveram evidentes impactos na educação escolar, pois a escola passou a ser um dos aparelhos de construção e manutenção da coesão nacional e da organização social voltada para seus interesses, o que para a grande maioria da população significou uma educação em larga escala e de viés conservador.

Aumentar o nível médio de conhecimentos e competências da população, lidar com as demandas da vida social nas cidades, preparar a mão de obra disciplinada, imprimir valores nacional, enfim, um grande programa foi posto em marcha. Esse foi o programa da Escola Tradicional à qual se opôs a Escola Nova no ocaso do século XIX.

Toda essa caracterização resulta num arranjo político-ideológico ao qual se deu o nome de Estado Nacional. E com este tipo de estado nasce a necessidade de formar um novo tipo de cidadão. Para isso era necessário promover certo tipo de escola. Por isso, na criação do programa será necessário pensar na escola como instrumento de criação de certa identidade nacional.

Sugestão de abordagem

O programa pode começar com um exemplo bastante conhecido de expressão “nacionalista” (no sentido da identidade nacional esperada). Alguém, num ambiente com diversos símbolos da nacionalidade (verde e amarelo, paisagens exuberantes, mostras da riqueza nacional, cenas de um povo que trabalha e produz etc.) diz o poema  “Pátria”, de Olavo Bilac:

       Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

      Criança! Não verás nenhum país como este!

                  Olha que céu! Que mar! Que rios! Que floresta!

                  A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,

                  É um seio de mãe a transbordar carinhos.

                  Vê que vida há no chão! Vê que vida há nos ninhos,

                  Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!

                  Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!

                  Vê que grande extensão de matas, onde impera,

                  Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

                  Boa terra! Jamais negou a quem trabalha

                  O pão que mata a fome, o teto que agasalha…

                  Quem com seu amor a fecunda e umedece

                  Vê pago o seu esforço, e é feliz e enriquece!

                  Criança! Não verás país nenhum como este:

                  Imita na grandeza a terra em que nasceste!

Após a declamação entra um comentário. Olavo Bilac e outros intelectuais no final do século XIX e começo do XX criam um movimento cívico de caráter nacionalista. Elevam tal movimento para a escola. O alvo é a criança. O que se quer? A formação de um cidadão identificado como os objetivos da pátria (o estado nacional brasileiro).

[Talvez se possa destacar, a seguir, alguns versos do poema Pátria, fazendo ligação de cada um deles com os ideais do estado moderno delineado no século XIX].

  • A natureza, aqui, perpetuamente em festa, é seio de mãe a transbordar carinhos.

A natureza é uma riqueza da pátria. Pátria mãe que substitui a Igreja como orientadora da formação das pessoas. O novo cidadão recebe os benefícios do estado por meio de uma natureza que muito pode conceder.

 

  • Boa terra! Jamais negou a quem trabalha o pão que mata a fome, o teto que agasalha…

 

O estado espera um trabalhador dedicado. Este terá recompensa. E esse trabalhador será um trabalhador “educado”, identificado com os ideais da nacionalidade. Há aqui uma missão clara para a escola. Uma missão de disciplinar os trabalhadores, formá-los, oferecer-lhes a base cultural que cimentará a unidade do país.

  • Quem com seu amor a fecunda e umedece vê pago o seu esforço, é feliz e enriquece.

O sucesso financeiro é fruto de dedicação. O reflexo disso na escola chama-se

disciplina. Na escola o aluno aprende a lição do esforço, da dedicação.

  • Criança! Não verás país nenhum como este: imita na grandeza a terra em que nascestes!

 

O alvo é a criança. É preciso educar. Educar na direção da formação de uma nacionalidade bem determinada. A nacionalidade de um estado com objetivos de produção (capitalista), de laicidade (espera-se adesão do cidadão a uma pátria que se define por um território, uma história comum, um idioma, um projeto único).

Os ideais tão bem representados pela obra de Bilac resultam numa escola organizada, disciplinadora, seriada, com uma base comum nacional etc. Assim com outros estados nacionais, o Brasil quis construir uma escola capaz de formar o cidadão de certo estado, o estado nacional brasileiro. Etc.

[Não destaquei de modo mais claro conteúdos que estão mais desenvolvidos no começo (no texto do Fernando). Quis apenas indicar uma direção. Num plano mais definitivo será preciso aproveitar melhor aqueles conteúdos].

[Não tenho uma idéia muito clara de como realizar o programa. Mas acho que o apelo ao poema de Bilac pode dar um ritmo especial à apresentação das idéias do estado nacional que resultaram na escola que de certa maneira ainda é a escola que temos, pois mesmo a Escola Nova não muda substancialmente os compromissos do estado moderno (nacional). As coisas começam a mudar agora por causa da crise do estado nacional. A escola é chamada agora a atender certos interesses privatistas de um mundo globalizado. Mas isto é outra história]