021. EaD: evasão é um problema

Faz tempo que traduzi uma artigo de Allisson Rossett sobre a questão da evasão em e-learning. O problema é grande, mas os especialistas em EaD costumam jogá-lo pra baixo do tapete. Isso em nada ajuda planejamento e execução de cursos a distância. A natureza de tais cursos favorece  uma evasão estrutural. Esconder o fenômeno não é solução. Reconhecê-lo é uma necessidade se sonhamos fazer educação a distância que possa ser alternativa de qualidade para quem não quer ou não pode ir à escola.

O artigo da Professora Rossett apresenta a questão de modo muito claro, bem humorado e com pistas importantes para educadores interessados em fazer e-learning com o maior rendimento possível. Assim, para quem interessar possa, aqui vai a citada obra de minha amiga Allison.

CONFISSÕES DE UMA E-EVADIDA

Alisson Rossett

SDSU

Em qualquer lugar, a qualquer momento vira “agora não, talvez mais tarde”.

Nove meses atrás resolvi ir além das palavras quanto ao treinamento via Web. Resolvi experimentar a coisa concretamente. Inscrevi-me num curso online sobre investimentos. Aprendi alguma coisa sobre a matéria. Aprendi também até que ponto o E-learning combina com minha vida.

3 de dezembro: Duas cartas de boas vindas chegaram logo depois que paguei os quarenta e nove dólares de matrícula. As aulas começam daqui uma semana.

10 de dezembro: São seis da manhã aqui na Costa Oeste. Daqui a três horas minha senha vai ser ativada e poderei começar o curso. Por que será que memorizei tão bem essa senha e nome de código, se habitualmente esqueço nomes e números importantes? Isso parece indicar que estou motivada.

11 de dezembro: Não posso acreditar: esqueci-me da aula! No segundo dia do meu curso sobre investimentos já estou ficando para trás.

12 de dezembro: Gastei cerca de noventa minutos fazendo a lição 1. Estou sorrindo porque alcancei noventa por cento de acertos no meu primeiro teste. As questões não eram tão substanciais como o conteúdo dos materiais de ensino. Estamos interessados em qualquer coisa que nos torne capazes de tomar boas decisões sobre investimentos. O teste deveria refletir isso, com mais casos e cenários que exigissem a aplicação dos novos conceitos.

Tem muita coisa boa aqui. O texto é atraente, elegante. Isso é muito importante porque a “rolagem de texto” (scrolling) só é interrompida por exercícios ocasionais. A interface é amigável, com gráficos simples e efetivos. As boas vindas do meu professor, via web-vídeo, foi algo bem envolvente. Há muitas opções de aprendizagem e estudo, incluindo chats, acesso a artigos publicados, links para outros sites e uma livraria online.

O exercício no final da primeira unidade me faz pensar sobre o que preciso saber de memória e o que preciso registrar em notas para futuras referências. Este curso não está me ensinando a produzir anotações úteis (job aids) ou outros materiais para uso posterior.

14 de dezembro: Estou pronta para o segundo módulo. É sobre ações. Será que devo memorizar o fato de que as ações são garantidas por ativos tangíveis, e as debêntures não? Se o vocabulário é crítico, devo ser exercitada de modo mais intensivo. Se ele for apenas algo do tipo PSI (Para Sua Informação), precisamos saber disso. Estou no módulo 2 há vinte minutos quando o telefone toca. A segunda unidade vai ter de ficar para mais tarde.

18 de dezembro: Lá se foram quatro dias, e eu acho que vou ter de voltar para trás, para o começo da unidade. Mas não posso fazer isso agora. Tenho visitas.

24 de dezembro: Lá se foram mais seis dias, mas estou de volta. Revi as primeiras lições e estou plugada no curso de novo. Achei facilmente meu caminho até o ponto em que eu havia parado. Gosto do texto, de prosa limpa e clara. Mas eu quero mais exemplos e exercícios práticos que desafiem o meu pensar. Há uma tendência (neste curso) de enfatizar mais cálculos que de nos pressionar para trabalharmos com as implicações de tópicos mais ardilhosos como ações preferenciais, preço das ações e taxas de juros.

28 de dezembro: Meu desempenho despencou para sessenta por cento. Naturalmente tenho lá minhas restrições quanto à qualidade dos testes. No meio do módulo, me fizeram uma boa pergunta: Devo ter um conselheiro de investimentos ou devo participar do jogo por conta própria? Não sei se eles fizeram um levantamento sistemático de necessidades, mas posso ver que os planejadores do curso tentaram antecipar nossas necessidades e prioridades.

09 de janeiro: Chegamos a um novo século. E meus compromissos com o curso passaram batidos. Foram agendados alguns poucos chats síncromos, mas sempre para  ocasiões em que estou ocupada com outras coisas. Estou perdendo o tesão, e essa circunstância me faz sentir culpada. Daqui a pouco estarei voando para a Costa Leste. Vou ver se me plugo no curso desde  meu apartamento no hotel.

28 de janeiro: Não deu tempo de embarcar em qualquer aprendizagem online durante minha viagem. A oportunidade está escapando entre os dedos, e eu não estou achando um tempo para voltar às aulas. O coordenador do curso ou o professor não diz nada sobre o meu sumiço. É agora ou nunca. Minha senha vai passar desta para melhor dia 3 próximo.

5 de fevereiro: Estive tentando curar-me de um resfriado bravo e às voltas com um prazo fatal. Terminei três dos seis módulos. Sou uma E-evadida.

Como é que isso aconteceu comigo? Eu gostaria de criticar o curso e culpá-lo pela minha desistência. Mas não posso. As coisas que me tornaram uma evadida são as mesmas que fazem o espaço Web ser tão atraente. A beleza do “em qualquer lugar, em qualquer momento, quando você quiser” vira, muito depressa, “agora não, talvez mais tarde”, e muitas vezes, “de jeito nenhum”.  Como não conta com um instrutor dinâmico, incentivos poderosos, ligações com o trabalho e agendas fixas, a aprendizagem no espaço Web perde pontos na conquista e manutenção da atenção. No conforto da minha casa, perto do computador, do telefone, dos meus gatos e dos meus amigos, foi muito fácil fazer tudo, exceto meu curso na Web.

Sim, todo mundo pode aprender na Web. Minha experiência, porém, me faz perguntar quantos chegarão ao fim.

Tradução: Jarbas Novelino Barato, setembro/2001.

Publicado sob o título de Confessions of an E-Dropout em Training Magazine, agosto, 2000

Informação do tradutor.

Allison Rossett é professora de tecnologia educacional na San Diego State University. Além de  seu trabalho acadêmico, atua como consultora em projetos de grandes empresas internacionais. É uma das maiores especialistas em levantamento de necessidades e produção de “job aids” (materiais instrucionais que funcionam  como “memória auxiliar” em ambientes de trabalho).

No artigo – crônica aqui traduzido, Allison faz diversas referências incidentais a aspectos técnicos de sua área de especialização (o artigo foi escrito para uma revista cujos leitores são especialistas de treinamento ou instructional designers). Em tais referências  há, vez ou outra, certo tom de ironia. No geral, porém, o texto é apenas aquilo que o título sugere, uma confissão de evadida. E como diz a autora, a evasão provavelmente não é causada por defeitos de planejamento (instructional design). A maior causa de evasão confunde-se com as charmosas vantagens do E-learning.

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3 Respostas to “021. EaD: evasão é um problema”

  1. EaD e evasão « Boteco Escola Says:

    […] Alllison Rossett, professora de tecnologia educacional da San Diego State University e uma das mais importantes especialistas internacionais sobre análise de necessidades, estudou o fenômeno da evasão em EaD a partir de uma “investigação participante”. Fez isso para embasar artigo que lhe fora solicitado por uma revista para a tribo dos instructional designers. Traduzi o referido artigo logo depois que foi publicado no final de 2000. Distribui algumas cópias para educadores amigos. Agora, ao rever meus velhos arquivos reencontrei a obra da Doutora Rossett. Resolvi compartilhar o material. Para tanto, coloquei-o aqui nas páginas do Boteco em 021. EaD: evasão é um problema. […]

  2. E-learning e a e-vasão « Educajam’s Weblog Says:

    […] para reforçar minhas idéias aqui compartilhadas, encontrei um post no Boteco Escola, que com um pouco de ironia retrata o cotidiano de uma aluna de EAD. Vale a pena […]

  3. Avaliação em EaD « Boteco Escola Says:

    […] Na minha fala, utilizei caso contado por Allison Rosset, professora de Tecnologia Educacional na San Diego State University, minha alam mater. A professora Allison apresentou o caso num artigo que traduzi e integra o acervo de textos que tenho aqui no Boteco em ‘páginas’. Interessados poderão ver ou rever o texto da Allison com um clique aqui. […]

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