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Nós na Rede

abril 15, 2016

Acaba de sair Nós na Rede, livro de contos da minha amiga Ivete Palange. Todas as histórias tem enredo que inclui decorrências de uso de alguma tecnologia da informação. A autora me honrou com convite para que eu apresentasse a obra. Para que os amigos tenham uma ideia sobre o livro da Ivete, trago para cá minha apresentação de Nós na Rede.

 

Apresentação

 

Tecnologias alteram cenários e acrescentam novos atores aos dramas humanos. Mudanças acontecidas desde a segunda metade do século XIX, com o telégrafo, a fotografia, o cinema, o rádio, a televisão e o computador, ainda não são completamente entendidas em nosso cotidiano. Surpreendemo-nos com alterações que dão novas direções ao viver. E essas alterações podem trazer alegria ou tristeza, paz ou violência, vitórias ou derrotas. As consequências, numa ou noutra direção, tecem dramas sociais e individuais até então impensados.

Ivete conhece bem as tecnologias da informação e comunicação, assim como os cenários e atores que elas acrescentam aos dramas do viver. Ela usou largamente tais tecnologias em seu ofício de educadora.  

As ligações dos seres humanos com as ferramentas de sua invenção é um fenômeno bem conhecido. Agora essas ligações ganham contornos originais. Não temos mais apenas instrumentos que estendem as capacidades humanas. Temos também novos atores que são objetos de amor e ódio em suas interações com os seres humanos. Sherry Turkle, cientista do MIT, vem estudando há bastante tempo relações de afeto entre humanos e robôs.  Os encontros entre pessoas e esses novos atores sugerem dramas jamais sonhados.

O que Sherry aborda em seus estudos acadêmicos, Ivete nos mostra em histórias deliciosas nas quais as tecnologias fazem com que os personagens apareçam em novos enredos da velha paixão humana. Em cada história, a autora sugere reflexões sobre rumos da Sociedade da Informação e, ao mesmo tempo, nos surpreende com o pathos de personagens que vivem experiências inusitadas.

Neil Postman cunhou bordão que vale repetir: “a tecnologia dá, a tecnologia tira”. Há muito entusiasmo com a eliminação de distância nas relações entre os seres humanos, proporcionada pelas tecnologias digitais. Por outro lado, as supostas facilidades de contato podem gerar sentimentos de solidão. É isso que a protagonista de Avatar, uma das histórias de Ivete, experimenta: “Vivia a contradição do uso de tecnologia que aproxima aqueles que estão distantes e distancia as pessoas presentes na vida real”.

O tema da distância, alargada e encurtada, perpassa várias histórias. Na primeira história, Casamento a Distância, num mundo que ainda não conhecia computadores nem internet, o tema já aparece. E ele voltará várias vezes em dramas cujos personagens são entusiastas usuários das maravilhas eletrônicas que entraram definitivamente em nossas vidas. A gente não percebe todos os dramas que  acontecem quando as pessoas aparentemente esquecem o entorno e se concentram em suas telinhas. Ivete nos faz entender que esse enredamento, tão visível por toda parte, pode ser uma janela para paixões, medos amores, sofrimentos, alegrias, invisíveis para quem vê apenas pessoas entretidas com seus celulares.

Na minha leitura vieram diversas lembranças de obras ficcionais. Uma delas é Tia Júlia e o Escrevinhador, de Vargas Llosa. No romance do escritor peruano, Pedro Camacho, autor de radionovelas, transforma sentimentos dos ouvintes e de sua própria vida. Camacho e noveleiros viajam por mundos que jamais conheceriam sem as ondas do rádio. Num de seus contos, a autora nos leva aos tempos áureos do rádio. Mas, além do rádio, ela nos remete a outros mundos que computadores e internet estão criando continuamente. Em cada um desses mundos a aventura do viver vai ganhando contornos que Ivete nos mostra com muita beleza.

Na minha leitura, outro escritor apareceu várias vezes a dialogar com o texto, Alan Lightman, autor de Diagnosis. Lightman explora em seu romance decorrências dramáticas da fartura de informação  consumida sem qualquer freio. Essa fartura é examinada de modo agudo por Ivete, com decorrências que podem resultar em muita informação, mas pouco conhecimento. Esse é um aspecto que a educadora sugere continuamente à contista. Esse é um aspecto que, na leitura da obra, pode nos levar a pensar de modo mais equilibrado o uso de tecnologias e, ao mesmo tempo, perceber em cada história como os dramas humanos têm agora um mundo que se expande cada vez mais, embora as velhas paixões continuem as mesmas.

 Os personagens dos contos têm muito a ver com gente de carne e osso que conhecemos em nosso dia a dia. O livro de Ivete nos ajuda a entender melhor  novos cenários e personagens produzidos pelas tecnologias da informação e comunicação. E a autora nos oferece essa oportunidade de uma maneira muito prazerosa e gentil, por meio de histórias que dão aos novos espaços do viver rumos até agora desconhecidos.

 

 

Papel do ensino superior

abril 7, 2016

Entre os meus guardados, há texto de entrevista que dei para uma revista de educação. Já não me lembro o nome da publicação. Sei que a jornalista que entrou em contato comigo estava interessada em saber como eu utilizava tecnologia em minhas aulas. Mas, as perguntas que me foram enviadas não tocavam tal assunto diretamente. O foco das questões era o papel do ensin9o superior. Acabo de rever meu texto. Eliminei as questões sobre minha identificação e carreira docente, feitas apenas para me apresentar aos leitores. Conservei as questões de fundo mais interessantes, assim como minhas respostas.

Não me informaram se a entrevista foi publicada. Isso é normal. Muita gente que pede entrevistas não se dá ao trabalho de continuar contato com o entrevistado depois que este manda-lhes respostas por escrito.

Sem mais delongas segue o que elaborei para a tal entrevista:

 Durante os anos lecionando dentro do âmbito universitário, como você sentia o impacto da faculdade nos alunos recém-chegados? Como era essa adaptação? Eles acompanhavam bem os conteúdos aplicados?

Essa questão merece muitas explicações. Vou abordar nela alguns aspectos que não costumam ser muito comentados.

Começo com uma observação sobre um dos papeis que o ensino universitário vem desempenhado na atualidade, o de contenção da mão de obra juvenil. Estudar é uma forma de se preparação profissional. Mas, é também uma forma de retardar o ingresso no mercado de trabalho. Quanto mais anos os jovens passarem em bancos escolares, mais tempo ficarão afastados de um trabalho profissional relacionado com uma carreira e com uma biografia laboral significativa.

Não há nada de errado com o retardamento do ingresso dos jovens no mercado de trabalho. Isto está acontecendo por duas razões: demográfica e econômica. No campo demográfico, temos uma população que, em média, vive cada vez mais. E os adultos tendem a permanecer no trabalho até os setenta anos ou mais. Para equilibrar as coisas, não convém que os jovens comecem a trabalhar muito cedo. No campo econômico, não é fácil criar oportunidades de emprego para todos. Por essa razão a escola funciona como uma instância de ocupação para boa parte dos jovens. E, no mundo todo, o tempo de permanência em escolas aumenta cada vez mais. O número de universitários tende a crescer. Nos EUA, por exemplo, mais de 40% da população de 18 a 22 anos está nas universidades. No Brasil esse percentual é de mais ou menos 13%. Mas, os planos de governo, desde os tempos em que o Professor Paulo Renato era ministro da educação, são de chegar a 30%.

Mesmo com apenas 13% de jovens em idade própria na universidade, é comum no Brasil ouvir-se que é necessário fazer uma pós ou especialização. Em outras palavras, já se desenha uma situação de exigência de mais tempo nas escolas. Essa tendência indica que o diploma de graduação já não basta. Indica que os jovens permanecerão mais tempo ainda nos bancos escolares.

Não vou aprofundar o fenômeno do retardamento do ingresso de gente mais nova no mercado de trabalho, assim como da exigência de tempos cada vez mais longos de estudo. Creio que o que observei até aqui já fornece um contexto para que eu possa encaminhar uma resposta para sua pergunta.

Os jovens que chegam à universidade não tem informação clara sobre os mecanismos de retardamento de ingresso da mão de obra jovem no mercado de trabalho. Nem sabem que o curso superior, em muitos casos, é apenas um período de espera. Mas, eles vivenciam esses mecanismos demográficos e econômicos de nosso tempo. Embora não o digam, eles intuitivamente percebem que estão aguardando sua vez. Percebem que vai demorar certo tempo para que possam, de fato, começar algum trabalho promissor em termos de carreira. E sabem, intuitivamente, que os estudos universitários podem ter pouca relação com seu futuro no trabalho,

Há muitos anos, o máximo de escolarização que a maioria das pessoas podia esperar era “tirar o ginásio”. Ou seja, cursar oito anos de escola. E, aos 14 anos, o destino da maioria era o mercado de trabalho. Hoje, muitos jovens só vão ter o primeiro emprego por volta dos 22 anos. É certo que muitos estudantes universitários de cursos noturnos trabalham. Mas, quase sempre, veem seu trabalho como uma condição provisória. Sonham com um futuro muito melhor cuja porta é uma formação de nível superior. Estão, de certa forma, retardando o ingresso em profissões que de fato desejam exercer.

Ao lado disso, cresce cada vez mais os nem/nem entre jovens com idade entre 17 e 24 anos. Os nem/nens nem estudam, nem trabalham. Vivem com dependentes de seus pais ou avós. Esperam dias melhores. Ou talvez nada esperem. Alguns deles iniciaram estudos universitários e pararam, pois não conseguem ver com clareza seu futuro. Mais uma vez, é preciso dizer que este também é um fenômeno planetário. Há milhões de nem/nens nos Estados Unidos e Máxico, por exemplo.

Não desenhei o quadro completo sobre as mudanças que vêm acontecendo com relação ao papel que as universidades estão desempenhando como diques de uma mão de obra que não tem grandes chances de incorporação imediata a um mercado de trabalho promissor.

Esse meu comentário sobre demografia e papel de contenção de mão de obra desempenhado pelos estudos foi necessário para mostrar que a juventude de nosso tempo é uma juventude estendida. Ou seja, a duração dos anos juvenis agora vai muito longe, chegando perto dos trinta. Ou mesmo ultrapassando tal barreira

O que tem tudo que eu disse até agora com o impacto da faculdade nos alunos recém-chegados? Acho que a juventude mais estendida já não olha para a universidade com a mesma esperança dos tempos antigos. Embora não o diga explicitamente, o jovem sabe que “tirar” um curso superior não será mais garantia de bom emprego como antigamente. No geral, os jovens entram na universidade com bastante insegurança. Não sabem se fizeram a escolha certa. Por isso, é muito comum encontrar estudantes universitários que já mudaram de curso pelo menos uma vez.

Outra coisa que acontece com os estudantes universitários de hoje é uma expectativa de que o curso universitário seja apenas uma continuação do curso secundário. Vi muito isso nos tempos em que dei aula para primeiros anos. Convém explicar melhor essa observação.

A passagem do ensino médio para a universidade deveria ser uma ruptura. Estudos superiores deveriam ser muito diferentes dos estudos secundários. Exemplifico isso no tratamento das matérias. No segundo grau, geralmente o professor “mastiga” a matéria para os alunos. Isso não deveria ocorrer no ensino universitário. O jogo é outro. A matéria não deveria ser mastigada. O aluno deveria ter autonomia para fazer sínteses pessoais dos conteúdos que precisa aprender. E isso é uma mudança muito grande. Há poucos dias conversei com uma menina de dezessete anos que começou um curso superior na área de biologia na USP. Ela estava assustada porque os professores não “explicam” a matéria e dão muito material para os alunos estudarem. E essa menina não sabe estudar dessa forma tão independente. Ela gostaria que a matéria fosse mastigada pelo docente.

Meus alunos tinham dificuldade parecida com a dessa aluna do curso de biologia. Eles queriam que eu apresentasse uma matéria bem organizada e definisse com muita clareza o que iria cair na prova. Queriam, como eu disse, que a graduação fosse uma continuação suave do curso secundário.

Meus alunos viviam certa ilusão de que o curso superior lhes abriria automaticamente portas para o sucesso profissional. Mas, logo se desencantavam. Descobriam que o futuro não seria tão promissor. E muitos alunos começavam a pensar em mudar de curso.

Poucos alunos aceitavam a ruptura. Poucos alunos percebiam que no ensino superior esperava-se deles certa independência no estudo. Muitos queriam matéria mastigada.

Você acredita que o modelo universitário atual está adaptado para as novas gerações?

O modelo universitário ainda continua a cobrar estudo independente dos alunos. Mas, em faculdades particulares isso já mudou bastante. Conheço casos de faculdades de engenharia nas quais os alunos, com grandes carências em matemática e física, recebem educação compensatória, numa retomada de conteúdos do ensino secundário e com matéria “mastigada”. Isso ocorre de forma improvisada. A mudança deveria ser muito maior.

O velho modelo está em crise. A antiga universidade não foi planejada para acomodar mão de obra, para aumentar o tempo de espera. Mas, está se adaptando aos novos tempos, embora estudantes e professores não gostem muito de pensar sobre isso. Ainda persiste a ilusão de que a faculdade abrirá um caminho de sucesso profissional automaticamente, bastando a posse do diploma.

Continuo a achar que a universidade é um espaço de estudo no qual os estudantes precisam tornar-se produtores de conhecimento, não repetidores de saberes que outros produziram. Nesse sentido, penso que é preciso preservar a ideia de que os alunos das universidades precisam ter certa independência em seus estudos. Assim, talvez a questão maior não seja a que está embutida nesta questão. Em vez de adaptar a universidade aos jovens, os jovens precisam adaptar-se à universidade…

Como seria o modelo universitário ideal?

Não acho que tenho a fórmula de um modelo ideal. Mas posso propor uma providência que poderia ajudar os alunos a fazerem a passagem do ensino médio para a universidade de maneira mais tranquila.

O que proponho já foi tentado várias vezes. A PUC de São Paulo e a Unicamp., por exemplo, já tentaram essa mudança. Voltaram atrás depois de alguns anos de experimentação de um novo modelo. Acho que os alunos, no primeiro ano não deveriam entrar num curso específico. Deveriam fazer um ano básico, com matérias gerais que pudessem ser aproveitadas em qualquer curso específico posteriormente. E as matérias não deveriam ser muitas. Eu daria grande destaque ao português, com um conteúdo bem aprofundado em técnicas de redação. Além de português, os alunos deveriam ter aulas de matemática e ciências. Acho que este currículo mínimo poderia ser complementado por estudo de história, filosofia e ciências sociais. O número de matérias deveria ser bem pequeno, não mais que seis.

Talvez, como ocorre no ensino superior americano, o currículo desse primeiro ano básico devesse ser bastante flexível, permitindo que os alunos fizessem matrícula por disciplina. Nesse sentido, os estudantes poderiam aprofundar mais matérias mais próximas de seu gosto. Isso resultaria em mais facilidade nos estudos.

Mas, infelizmente, alunos e escolas não gostam muito da ideia de um primeiro ano dedicado inteiramente ao ensino básico. Será preciso algum tempo para que todos percebam que o primeiro ano de universidade deveria ser uma situação de passagem, de adaptação, não de escolha definitiva de um curso e da profissão com ele relacionada.

Proponho essa mudança, mas não tenho esperança de que ela seja concretizada. As universidades particulares querem conservar a ilusão de que o ensino superior garantirá per se um futuro promissor. Nas universidades públicas, os estudantes, ansiosos, para terminar seus cursos, não aceitarão, com facilidade, um ano básico.

Insisto nessa proposta. Acho que os anos de estudo nas universidades deveriam aumentar. Penso que os estudantes deveriam permanecer nas universidades pelo menos cinco anos. Hoje, a pressa em tirar um diploma superior quase sempre resultará em decepção com as possibilidades concretas de começar uma nova vida na qual o diploma superior abra portas para uma vida melhor.

 

Você já desejou ter liberdade para discussão de algum determinado assunto e foi barrado pela instituição?

Eu utilizava bastante a internet em minhas aulas. Duas universidades onde trabalhei tinham serviços de bloqueio de conteúdo. Uma palavra proibida, por exemplo, era jogo. Um tipo de site proibido era blog. Para que meus alunos de educação física pudessem fazer certos trabalhos sobre jogos olímpicos, eu tinha de pedir autorização para que liberassem alguns computadores nos laboratórios. Isso me irritava profundamente. Sempre utilizei blogs com finalidades acadêmicas. Mas, muitas vezes, meus alunos não podiam acessar, nas universidades, meu blog e outros blogs de interesse. Esses casos de censura no acesso à informação me colocaram em conflito com certos setores das universidades.

Acho uma bobagem bloquear acesso a certos assuntos ou sites na internet. Essa medida não educa para a responsabilidade. É apenas um autoritarismo bobo de quem tem poder para controlar redes digitais.

 

Qual foi a experiência onde você obteve mais aprendizado? (Na escola, faculdade, cursos, trabalho…)

Não consigo encontrar uma resposta única para essa pergunta. Algumas vezes aprendi muito na escola. Mas, em alguns casos, a aprendizagem no ambiente escolar foi um fracasso. Acho que aprendi bastante quando me encantei com o assunto. Em parte, encantamento com o assunto depende muito dos professores. E não são todos os professores que tem tal capacidade. Felizmente tive alguns professores muito bons.

Sempre acho que o trabalho é a melhor sala de aula. Ele coloca problemas que temos que resolver. O trabalho nos exige criatividade, invenção. Nesse sentido, trabalhar é a melhor forma de aprender. Acho que as escolas deveriam prestar atenção no trabalho e oferecer dentro de seus muros algo parecido com o que somos obrigados a criar em nossas atividades laborais.

Em resumo: aprendi muito no trabalho, e no trabalho aprendi mais quando as aprendizagens escolares que eu tinha me ajudaram a elaborar conhecimentos necessários na minha profissão.

O trabalho é uma grande escola. Mas isso não deve nos levar a desvalorizar o que as boas escolas podem fazer. Além disso, o tempo de escola é um tempo de liberdade, de prazer. Infelizmente a gente só descobre isso muito tempo depois…