019. TIC’s e educação

Alguns eventos nos pedem para mandar uma prévia do que vamos falar em palestras e mesas redondas. Dá trabalho, mas é um bom exercício para organizar idéias e dialogar com os organizadores. Tenho algumas dessas prévias nos meus velhos arquivos.  Acabo de recuperar uma delas. Publico-a sem mais comentários.

EDUCAÇÃO E NOVAS TECNOLOGIAS

JARBAS NOVELINO BARATO

13º CONGRESSO SINPEEM

São Paulo, 20 de junho de 2002

Anos trinta. O departamento de educação da cidade de Los Angeles resolve investir pesado em novas tecnologias. Para tanto, aluga e equipa um avião destinado a “estudos do meio”. Alunos das escolas públicas de LA sobrevoavam a região para estudar a geografia local. É interessante notar como o interior da aeronave foi adaptado para fins didáticos: em vez de poltronas, carteiras; em vez de painéis comuns em aviões de carreira,um quadro negro; em vez de janelas mais amplas ou panorâmicas, mapas pendurados na cabine e um globo terrestre sobre a mesa da professora. Tudo isso pode ser visto numa foto de época publicada em Teachers and Machines (1986), de Larry Cuban.

A foto do interior do avião, adaptado para estudo do meio por educadores de Los Angeles, mostra uma tendência de uso das novas tecnologias nos espaços escolares. No geral, novos instrumentos e ferramentas são domesticados, perdendo possivelmente suas características mais ricas para o aprender. Isso, por exemplo, aconteceu com a televisão nos anos cinqüenta (nos EUA) e sessenta (no Brasil). Boa parte da TV educativa nada mais é que uma aula registrada por uma câmara de televisão.

Hoje o grande desafio é usar computadores para fins de aprendizagem. O enfoque mudou ou continuamos a domesticar poderosas ferramentas de comunicação, limitando sua riqueza? Parece que a resposta a essa questão não é promissora. O uso de computadores em educação aparentemente repete os equívocos que podemos observar no interior do famoso avião citado no início de nossa conversa. No geral, as novas máquinas são guardadas numa sala especial. Um profissional de informática é escolhido para tomar conta do laboratório. Os professores apenas sugerem certas aplicações dos conteúdos com os quais trabalham para sessões no laboratório. Os usos das novas ferramentas, como regra geral, reduzem-se a complementações dos conteúdos desenvolvidos em sala de aula. Há apenas um aproveitamento superficial dos computadores. Pouco ou nenhum uso das novas tecnologias é feito na escola à semelhança do que ocorre nos espaços de trabalho.

Jornalistas não precisam ir para um laboratório para usar computadores. Usam a nova máquina em suas mesas de trabalho. O mesmo acontece com designers, bancários, médicos, mecânicos ou analistas de crediário. Parece que a escola é o único espaço em que há laboratórios de informática. Esse modelo, justificado por razões de segurança e financeiras, impede uma transformação radical em educação.

Outro detalhe. Certos usos de computadores no campo de simulações ou modelagens não cabem no tempo escolar (aulas de cinqüenta minutos) nem na distribuição de grupos de trabalho (turmas de 35 a 50 alunos). Apesar disso, a idéia predominante é a de que o uso de computadores precisa adequar-se ao funcionamento (tradicional) das escolas.

Que fazer? Se continuarmos a domesticar as novas tecnologias, seu aproveitamento para fins de aprendizagem será mínimo. Se q uisermos aplicá-las de modo mais efetivo, será preciso redesenhar de modo radical toda a organização escolar. Turmas, horários, programas, disciplinas, anos e semestres, séries, níveis de ensino, provas, notas e muitas outras invenções escolares deverão ser revistas e, talvez suprimidas. Caso contrário, a escola continuará a funcionar como uma grande máquina de moer novidades, aproveitando apenas superficialmente novos recursos das TIC’s (Tecnologias de Informação e Comunicação).

Há um outro lado da questão. Os tecnólogos e coordenadores que tomam conta dos laboratórios nas escolas geralmente acham que o modesto avanço nos usos de computadores em educação é resultado de má vontade e ignorância dos mestres. E isso pega: professores têm costas largas. Mas, não é justo. As principais causas do pequeno impacto das novas tecnologias da informação e comunicação no ensino ocorrem sobretudo por causa de fatores ambientais: burocracia para acessar computadores, existência de laboratórios, rigidez dos horários escolares etc. Quando isso acontece, treinamentos de professores pouco ajudam. O que é uma pena, pois a principal tecnologia em qualquer ramo de atividade é a capacidade humana de fazer, de realizar.

Para além de crítica, o que é preciso fazer? Não há respostas prontas, mas é bom considerar os seguintes pontos:

  1. Novas tecnologias da informação e de comunicação precisam ser usadas no limite máximo de suas potencialidades.
  1. Os computadores precisam estar presentes em todo os locais da escola onde ocorre ensino-aprendizagem. Isolá-los num laboratório é contraproducente.
  1. Novas tecnologias exigem novas praxes e ritos escolares. É preciso pensar e implantar mudanças profundas no currículo, nos horários, nas formas de organizar grupos de aprendizagem etc. Novas tecnologias exigem uma escola radicalmente nova.
  1. Conhecimento é tecnologia fundamental. E apenas seres humanos são sujeitos capazes de produzir conhecimento. Por essa razão, é necessário repensar a tecnologia mais importante nos espaços escolares: a capacidade dos mestres na preparação de situações favorecedoras de aprendizagem.

Pelo quadro que pintei, provavelmente mudanças significativas em educação, com uso intensivo e eficaz das novas tecnologias, acontecerão apenas quando os professores puderem e souberem organizar uma escola completamente nova.

2 Respostas to “019. TIC’s e educação”

  1. Professores são tecnologia « Boteco Escola Says:

    […] Professores são tecnologia By jarbas Não vou desenvolver o titulo deste post. Quero apenas colocar uma notícia aqui. Escrevi coisas sobre o tema em 2002. Recuperei tal escrito há pouco e  publiquei o dito cujo na seção Páginas deste Boteco. Interessados poderão ver o texto em 019. TIC’s e educação. […]

  2. Frederico Lopes Says:

    Professor Jarbas, parabéns pelo artigo! Usarei com meus alunos na UFMT, em Cuiabá, onde leciono a disciplina “Tecnologias de Ensino”, já há alguns anos. Não adianta eu falar a mesma coisa, e ter tido as mesmas experiências. Quando é outro que fala, a coisa ganha importância e respeito. Santo de casa não faz milagre, mesmo. Um grande abraço!

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