Archive for janeiro \28\UTC 2016

Ortografia, fonética e reacionários

janeiro 28, 2016

Hoje vi no Face que há gente pedindo para que o CONAR (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) faça o Itaú tirar do ar uma propaganda que brinca com a fonética e a ortografia, convertendo digital em digitau. Uma brincadeira inteligente, mas reclamantes, que se acham vestais da norma culta, entraram em cena com argumento que tem como base desprezo pela inteligência alheia e uma falta de humor de pseudointelectuais.

Notícia na internet informa que:

De acordo com o órgão [CONAR], as denúncias eram de que a propaganda, veiculada na TV e online, poderia induzir crianças e pessoas em processo de alfabetização ao erro, ao mostrar a palavra “digital” somada com Itaú em trocadilho, trocando o L pelo U.

Os denunciantes devem achar que crianças e adultos em processo de alfabetização são idiotas incapazes de entender uma brincadeira. Essa gente acha que regrinhas bobas e rigor gramatical são o melhor caminho para que as pessoas aprendam a redigir corretamente. Ignoram que quem aprende precisa manipular a linguagem para dela se assenhorar, em vez de se converterem em fieis servidores de normas rígidas da suposta correção gramatical.

Por volta de 1978 tive o privilégio de participar de uma oficina com um grande educador francês (infelizmente não me lembro mais o nome dele). Ele era um dos líderes da escola popular (movimento inspirado por Celestin Freinet). Entre os exercícios que ele nos propôs havia um que era o de manipular as letras das palavras, mudando-as de lugar para criar outras palavras. De certa forma, ele nos propôs brincar com as letras como se essas fossem argila que poderia receber várias formas. Resistimos muito. Tivemos dificuldades para imaginar novos arranjos para as letras. E o francês nos chamou de “reaças”. Ele tinha razão. Não conseguíamos brincar livremente com os instrumentos que nos permitem elaborar a escrita. Aceitamos a crítica e depois de algum esforço começamos a lidar com as letras com muita liberdade e criatividade.

Essa gente que quer que o CONAR obrigue o Itaú a tirar do ar propaganda tão inventiva é extremamente reaça. Vê educação como imposição de normas a pessoas dependentes de mentes brilhantes como as deles (os tais reclamantes…). Esses reaças são perigosos para a educação, pois não entendem que o saber se constrói em jogos pelos quais os aprendentes se tornam senhores do saber.

 

 

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O Significado do texto

janeiro 26, 2016

Tem gente que manifesta estranheza quando leitores não entendem um texto na direção que elas esperam. Mas, isso é normal. É o leitor quem dá sentido ao texto. Para evitar interpretações indesejáveis, os autores precisam ter muito cuidado. E, mesmo que cuidados sejam tomados, o sentido desejado não fica garantido. Essa é uma questão muito importante no campo didático. Muitas vezes, textos de livros didáticos podem levar os alunos a entenderem um assunto em direção completamente diferente daquela que autores e professores querem.

Para oferecer situações de discussão sobre o problema aqui indicado eu costumava, em minhas aulas e em formação de professores, utilizar certos exemplos de textos preparados para experimentos no campo de investigações orientadas por princípios construtivistas.

Recentemente encontrei uma professora que me disse utilizar até hoje um exercício que apresentei numa formação da qual ela participou. Tal exercício, baseado em estudos construtivistas do ato de ler, procura mostrar que o sentido do texto pode ficar muito difícil quando as referências são retiradas ou restringidas. Não achei o texto mencionado pela professora. Mas encontrei outro texto que eu também utilizava, em minhas aulas e em formações docentes, com a mesma finalidade. Tal texto costuma ser interpretado de muitas e muitas maneiras diferentes. E geralmente os leitores não conseguem sequer desconfiar da situação original à qual o escrito se refere (ou deveria se referir).

Para interessados em utilizar tal texto, reproduzo-o a seguir.

>> “Se os balões estourassem o som não poderia ser levado, uma vez que tudo ficaria muito distante do andar certo. Uma janela fechada também poderia impedir o som de chegar ao destino, pois muitos edifícios hoje dispõem de isolamento acústico. Uma vez que a operação inteira dependia de um fluxo constante de eletricidade, um fio partido também causaria problemas. É claro que o cidadão poderia gritar, mas a voz humana não é suficientemente potente para ir tão longe. Um problema adicional era a possibilidade de que uma corda do instrumento se partisse. Assim não haveria acompanhamento para a mensagem. É claro que a melhor situação envolveria menor distância. Haveria então poucos problemas potenciais. Num contato face a face, um número menor de cosias poderia dar errado.”

Vocês podem distribuir o texto e pedir à pessoas, alunos ou professores, para indicar a cena ou situação à qual o texto se refere. A lista de opiniões irá variar muito. E, dificilmente, alguém indicará a situação na qual o autor pensou ao produzir esse escrito.

É preciso observar que o texto que estou reproduzindo aqui foi preparado com muito cuidado para que os leitores não soubessem ao que ele se referia. Todas as pistas referenciais foram cuidadosamente retiradas. Por essa razão, as pessoas costumam “viajar” quando procuram dizer como entendem essa história de balões, fios, janelas, sons, eletricidade, dificuldades para que o som chegue ao destino etc.

Depois que os participantes fizerem sua adivinhações, vocês devem mostrar a eles um desenho sobre a história e pedir que leiam mais uma vez o texto. Tudo ficará mais claro, pois os referentes são dados pela imagem.

Aqui está a imagem:

desafio de uma paixão

 

 

 

Net Emotions

janeiro 19, 2016

A cultura da internet tem suas particularidades. Uma delas é a dos símbolos que vão se integrando aos sistemas de comunicação na rede. A tais símbolos se tornam tão comuns que passam desapercebidos. Talvez esse seja o caso da carinhas dos emotions que aparecem em muitas mensagens de internautas.

Também é parte da cultura da internet a produção de coisas que procuram negar a ordem estabelecida. Às vezes isso acontece como brincadeira. Às vezes, como assunto muito sério.

Hoje, numa visita ao Stax, site pelo qual passo com muita frequência, encontrei uma produção de imagens que parece brincadeira, humor inocente. Mas, nenhum humor é inocente, pois, como diziam os velhos latinos, ridendo castigat mores (tradução muito livre: ” coisas que fazem rir criticam a ordem estabelecida”).

Acho que as imagens publicadas pelo Stax são um material útil para quem queira trabalhar com abordagens críticas da cultura da rede. Por essa razão, vou reproduzi-la aqui para quem possa se interessar.

  nenê 1

nenê 2

nenê 3

nenê 4

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nenê 10

 

Imagens e significados

janeiro 19, 2016

Vejam nesse vídeo uma série de fotos de Lima, Peru. As imagens foram feitas na perspectiva do antipostal. Estamos acostumados a ver postais das cidades que visitamos. Sempre lindos. O antipostal vai em outra direção. Mostra o inusitado. Mostra até o feio. Em projetos educacionais que tenham imagens como eixo central, vale experimentar essa ótima ideia do antipostal. Alunos poderiam, por exemplo, produzir antipostais de São Paulo. Seria uma bela exploração de imagens que podem revelar sentidos nem sempre claros sobre o que é a cidade.

Natalie Merchant na NPR

janeiro 12, 2016

O National Public Radio, em All Songs Considered, tem um segmento chamado Tiny Desk Concert. O endereço que indico aqui tem um pequeno concerto da Natalie Merchant. Lindo!

http://www.npr.org/event/music/462277254/natalie-merchant-tiny-desk-concert?utm_source=facebook.com&utm_medium=socia

Instructional Design Is Conservative

janeiro 7, 2016

Sou mestre em tecnologia educacional. Sou, portanto, um instructional designer. Aprendi e pratiquei de maneira disciplinada os princípios do ADDIE Model (Analysis, Design, Development, Implementation, Evaluation). Tive como professor de Instrutional Designer um dos nomes importantes da área, Brock Allen. Durante meu mestrado (1982/4) não critiquei o modelo ADDIE. E depois do mestrado conduzi projetos e escrevi materiais didáticos que eram aplicações  da abordagem tradicional de instructional design. Com o tempo, fui abandonando essa minha formação e adotando orientações mais abertas no campo da tecnologia educacional.

Apesar de mudanças que fiz em minha prática educacional, nunca elaborei uma crítica bem fundamentada ao modelo que era ensinado nos mestrados de tecnologia educacional dos anos sessenta aos anos noventa do século passado. E desconfio que o velho ADDIE continua sendo ensinado mundo afora como caminho mais adequado em termos de instrucional design.

É comum, no começo de um novo ano, revelar desejos futuros. Neste começo de 2016 coloquei na minha lista a intenção de fazer um estudo crítico do modelo tradicional de tecnologia educacional. Não sei se conseguirei chegar lá. Mas, torno público tal desejo, pois assim talvez me anime mais a realizar o estudo pretendido.

Cheguei ao desejo aqui revelado depois de reler a introdução de um livro que resenhei anos atrás, Designing Information Technology in the Postmodern Age, de Richard Coyne. A tendência conservadora no campo das tecnologias da informação guarda um grande paralelismo com a tendência conservadora em educação. O termo conservador, no caso, tem várias acepções. A principal delas é de caráter epistemológico. Os conservadores entendem que o conhecimento pode ser guardado, empacotado, distribuído como um mercadoria. Em educação, essa tendência recebeu o nome de bancária por Paulo Freire. Não vou por agora aprofundar o assunto, pois este post é apenas um registro inicial sobre um projeto de estudos.

Para quem se interessar, reproduzo aqui o comentário feito por Coyne que, em minha opinião, pode ser utilizado com uma crítica ao ADDIE Model. Acho que as considerações dele são um ponto de partida interessante para repensarmos a Tecnologia Educacional sobre bases que não sejam conservadoras.

Under the conservative theme, design is an intervention, a manipulation. It is to convert an undesired situation into a desirable one. It pressupposes our ability to declare needs, wants, and intentions. Artifacts are the products of creative individuals or teams of individuals. As witht the conservative view of interpretation, technological artifacts conserve the intentions and meanings of their originators. The conservative view presumes that designers can control, and are in control of, what they produce. This control is realized in the activity of designing through method. A sequence of steps takes us from the undesired situation to the desired. The conservative view of design also presumes that are there principles underlying design. Design under conservative regime follows one of two paths. There is the romantic conception of the designer as the creative individual, battling against opposition, preserving his or her creativity. On the other hand, there is the systems-theoretic view of design that seeks to enlist science and its methods to arrive at objectively valid solutions of problems. (p. 10/11)

Celulares e almas perdidas

janeiro 7, 2016

O uso de celulares no espaço público mudou completamente comportamento de muitas pessoas. Um desses usos resulta na mania do sefie. Tem gente que fotografa tudo. Fotografam até o ato de fotografar. O que vemos hoje é a epítome da Sociedade da Imagem. Daniel Boorstin, em seu clássico The Image, nunca imaginou que sua descrição de uma sociedade que elegeu a imagem como forma predominante de comunicação e significação chegaria a tal ponto.

Trago para cá um vídeo que aborda isso com muito humor. Tal vídeo vale mais que um tratado sobre o assunto, pois, como diziam os latinos, ridendo castigat mores.

Som da saudade

janeiro 1, 2016

De vez em quando me vem grande saudade de Mary Travers. Vou ao Youtube e busco gravações dela com PPM. É recreio. Mas, é também um mergulho em sentimentos que nos fazem humanos. Esse é importante papel da música, desde que sejam belezas como Mary cantava.

Coração de professora

janeiro 1, 2016

Trago para cá uma caricatura que diz muito em poucos traços e num comentário curto e certeiro. Com o registro homenageio minhas professoras primárias: Elza, Marina, Mariana e Maria Aparecida. A personagem é uma mulher, professora. Mas, minha homenagem precisa incluir também um homem, Professor João Madureira, meu mestre no quarto ano de grupo.

Coração de professora