Archive for janeiro \31\UTC 2010

Censura em material didático

janeiro 31, 2010

Moralismos, crenças politicamente corretas, iluminações escolanovistas e outros movimentos menos votados provocam censura em materiais didáticos. Nem sempre é fácil notar situações de censura. Alguns livros didáticos são censurados na concepção. Como geralmente  conhecemos apenas a versão final das obras, censuras havidas durante o processo de produção acabam não nos sendo transparentes. Todo esse drama é descrito de modo magistral no livro The Police of Language, escrito por Dianne Ravictch.

Lembrei-me da obra de Ravitch ao ver uma declaração de @profphatima no Twitter. Fátima observa que é preciso utilizar textos literários como mediadores de leitura. Acontece que há um movimento que sugere mais leituras instrumentais (escritos não literários, de suposta utilidade) que leitura de textos de reconhecido valor literário.

Diane Ravitch, ao analisar casos de censura de textos selecionados para leituras na escola, aponta casos nos quais grandes obras da literatura foram censuradas para não “ofender” os alunos-leitores. Há gente que vê nisso uma forma de proteger nossas crianças. Bobagem! A suposta proteção acaba sendo apenas um ato de censura. Nada mais.

The Police of Language não está disponível em português. Para os interessados, ofereço indicação de uma resenha que fiz sobre o citado livro de Diane Ravitch. Para ver a resenha, basta clicar sobre o destaque  que vem abaixo.

Bandeira no Boteco

janeiro 27, 2010

Outro dia, ao falar de botequeiros famosos na Paris de 1949, finalizei o post citando Manuel Bandeira, meu poeta preferido. Mas acabei publicando uns poucos versos. Agora, reconsiderando a matéria, me convenci de que deveria divulgar o poema inteiro.

Muitos lugares e entidades tem hino. Por isso acho que este Boteco Escola deve ter seu próprio hino. E não é preciso inventar nada de novo. Basta adotar como nosso o poema de Bandeira. E se algum compositor amigo quiser musicar as palavras do grande poeta, chegaremos à perfeição.

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
que tudo emborca e faz caco…
Evoe’ Baco!

La se me parte a alma lavada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo…
Evoe’ Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lividos venenos …
Evoe’ Venus!

Se perguntarem: Que mais queres,
Alem de versos e mulheres?…
– Vinhos!… o vinho que e meu fraco!…
Evoe’ Baco!

O alfange rutilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu nao domo!…
Evoe’ Momo!

A Lira eterea, a grande Lira!…
Por que eu extatico desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoe’ Venus!

Manoel Bandeira (publicada em 1918)

Computador do Futuro

janeiro 27, 2010

No post passado indiquei e comentei VT da Apple apresentado opiniões e indicações de possibilidades para computadores pessoais no início do século XXI. Ao fazer isso, lembrei-me de que a empresa da maçã fez, em 1987, um belo VT sobre o computador do futuro, The Knowledge Navigator. Vi essa obra pela primeira vez em 1988, num workshop coordenado por meu amigo Bernie Dodge. E tenho uma velha cópia do VT utilizado pelo Bernie na ocasião. Acho que vale a pena rever o sonho da Apple para computadores pessoais que deveríamos ter agora neste começo de século.

Poder do computador e aprendizagem

janeiro 27, 2010

Ricardo Banffy (@rbanffy) postou no Twitter indicação de artigo de um blog que apresenta e comenta vídeo da Apple com intervenções de Steve Wozniak, Diane Ravitch, Alan Kay, Ray Bradbury e Alvin Tofler. Assunto: como o computador será usado no futuro em educação, no trabalho, na vida. Detalhe: o vídeo foi gravado em 1988.  Vale a pena examinar quais eram as apostas feitas na época e o que de fato acabou rolando nestes vinte e dois anos.

Destaco aqui, na forma de resumo interpretativo,  alguns pontos das falas dos entrevistados.

Diane Ravitch:

  • A virtude do computador na sala de aula é a de que ele exige usuários, não expectadores.
  • Penso que o uso de computadores pode ter muitas vantagens do ponto de vista do interesse que os alunos podem desenvolver pelo estudo e pelo compromisso de executar uma tarefa. Hoje os professores precisam competir com a TV e outros elementos de distração (atração). Talvez os mestres possam utilizar o computador como uma ferramenta capaz de ajudá-los a superar os problemas que enfrentam na competição com as mídias que  promovem entretenimento.
  • Computadores podem ser uma ferramenta poderosa na educação de adultos. Estes tem sérios problemas com o erro. Sentem vergonha de mostrar seus desempenhos frente a outras pessoas. Talvez programas bem planejados possam utilizar o computador como uma ferramenta que deixará os adultos à vontade, aprendendo com seus erros sem medo de serem ridicularizados.

Steve Wozniak:

  • Os supercomputadores de hoje serão os computadores pessoais de amanhã. Num futuro próximo será possível adquirir computadores poderosos por baixos preços.
  • Uma metáfora criativa é aquela que sugere computadores com uma personalidade “humana”, amoldados a interesses e tipos de trabalho desenvolvidos por seus donos. Nesta direção serão parceiros em aventuras de investigar, levantar hipóteses, aprender.

Alan Kay:

  • Fazemos ciência com base em modelos. Até há pouco os modelos eram construídos como fórmulas matemáticas. Agora podemos convertê-los em simulações no computador. Essa possibilidade é muito poderosa em termos de aprendizagem e de elaboração de novos saberes, pois os computadores podem imitar quase tudo.
  • Já faz muito tempo que a hipermídia está disponível. Formas de apresentação da informação com hipermídia permitem combinar saberes, relacionar dados, aprofundar conteúdos. Precisamos apenas utilizar com inteligência esse modo de organizar informações em camadas que se tornou possível com o computador.

Ray Bradburry:

  • A vida é maravilhosa. E você pode mostrar isso para as crianças por meio do computador.
  • Essa máquina pode oferecer grandes oportunidades para jogos. Vejo crianças jogando no âmbito de universos que lhes interessam. Elas podem aprender muito dessa forma.

Segui orientação do blogueiro que divulgou essa obra prima da Apple: deixei de comentar as opiniões de Tofler, isonsas e sem apelo tecnológico ou educacional.

O vídeo ilustra as possibilidades comentadas pelos entrevistados com elementos ficcionais de usos do computador no futuro (2006). Num desses segmentos, uma criança dá show de investigação sobre vulcões. Noutro, um casal analisa, a partir de simulações, barulhos que podem ser causados pela turbina de um avião a jato. Noutro ainda, a leitura de um texto é apoiada e avaliada por um programa amigável que o deixa à vontade o aprendiz adulto para errar, solicitar informações sobre palavras difíceis, escolher que caminho trilhar em sua aprendizagem.

O vídeo da Apple visualiza um futuro que, infelizmente, não aconteceu. A aposta feita em 1988 era a de que o potencial de simulação do computador seria muito desenvolvido para fins educacionais. As simulações mais robustas acabaram não sendo construídas. O que predomina são ferramentas muito limitadas em termos de testar hipóteses, construir mundos ficcionais que tenham sólidas bases científicas. Além disso, com o avanço da Internet, o armazenamento, divulgação e uso de informações passou a ser o foco dos interesses. Modelar universos onde possamos viver aventuras profundas de aprendizagem é um desejo cada vez mais esquecido. A comunidade educacional praticamente ignora o grande poder dos computadores como meio no qual é possível projetar quase tudo que merece ser simulado para fins de aprendizagem.

Há um detalhe interessante: os computadores ficcionais em que a Apple projetou cenas que aconteceriam na primeira década do século XXI são muito mais bonitos e avançados que as mais avançadas máquinas que temos agora. E isso não aconteceu por causa de algum erro de futurologia. Os inventores seguiram outro caminho e não se dedicaram a desenvolver máquinas mais bonitas, amigáveis, fáceis de usar, adequadas a modelagens de saberes. Ao ver o vídeo, lembrei-me de muitos sonhos que tínhamos na época e de investimentos que fizemos em termos de criação de simulações. Mas, a meu ver, os interesses da indústria de computação caminharam para outro lado e os computadores não se converteram em Ferrramentas de Conhecimento na direção descrita, por exemplo, num livro editado por Susanne P. Lajoie e Sharon J. Derry.

Já escrevi muito, e mal arranhei as sugestões de como deveria ser um uso de computadores em educação que aproveite o tremendo poder de simulação que tais máquinas tem. Mas preciso parar por aqui, a paciência de prováveis leitores já deve estar esgotada. Para os interessados insiro aqui o VT poduzido pela Apple em 1988.

Em defesa da escola pública

janeiro 26, 2010

Países desenvolvidos tem uma rede pública de escolas de boa qualidade. Mas, mesmo neles, ideólogos do neoliberalismo (sic!) costumam puxar sardinha para empreendimentos privatistas. No caso americano, apesar da alma do país ter sido construída a partir de escolas públicas planejadas e administradas localmente, sempre há muita crítica ao sistema educacional mantido pelo estado. Por isso, muitas vozes que defendem uma educação pública e de qualidade para todos buscam mostrar caminhos capazes de manter a responsabilidade social do estado no campo educacional.

O tema da responsabilidade social do estado em matéria educacional é uma das mensagens do mais recente livro de Mike Rose, Why School? reclaiming education for all of us. Há tempos anunciei que estava escrevendo uma resenha sobre essa obra. Escrevi.  O texto está disponível online. Se você quiser vê-lo, basta clicar no destaque que segue:

Computadores e Relógios

janeiro 26, 2010

Hoje na minha casa somos apenas dois, eu e minha mulher. Adivinhem quantos relógios podem ser encontrados em nossa residência? Fiz uma conta rápida e cheguei a 25. Devo ter errado. Há muitos mais relógios aqui em casa. Há relógios nos três computadores. Há relógios nas duas tevês. Há relógios nos aparelhinhos da TV a cabo. Há relógio no microondas. Além disso, temos três despertadores e um velho rádio-relógio. Ah! há relógio no celular. Acho que temos um dezena de relógios de pulso. Quase que me esquecia do relógio de parede. Outros quase esquecidos: o relógio do aparelho de DVD, o relógio do aparelho de som. Deve ter mais, mas paro por aqui.

Antes de seguir em frente, faço um convite: verifique quantos relógios você tem em sua casa.

O relógio é a máquina mais revolucionária até hoje inventada. Os fundadores da ciência contemporânea achavam que o universo é um relógio. O defensor mais conhecido desta metáfora é René Descartes. O relógio mudou modos de pensar sobre a vida. Invadiu o cotidiano das pessoas. Tornou-se tão ubiquo que às vezes não nos damos conta de sua presença. Tornou-se tão “natural” que deixamos de perceber as mudanças fundamentais causadas  por uma medição padronizada e abstrata do tempo. Lewis Mumford, em Technics and Civilization analisa de modo magnifico como o relógio ingressou na história humana, transformando completamente os ritmos vitais.

Ao examinar a história do relógio, Mumford observa que o interesse inicial de medir o tempo com precisão nasceu nos mosteriros medievais. Os monges, diversas vezes ao dia, dirigiam-se ao coro para rezar as horas canônicas. Sem uma máquina que mostrasse com exatidão os momentos do dia em que os religiosos deviam louvar a Deus, o cumprimento da obrigação dependia de observação da natureza. Mas variações das estações e do clima fazem com que a determinação do tempo a partir de observações da natureza seja muito imprecisa. Por isso, os primeiros relógios parecidos com os nossos foram desenvolvidos em mosteiros beneditinos. E dos mosteriros, os relógios foram para as torres de igrejas e prédios públicos da cidade. Dali começaram a reger os ritmos da vida nos centros urbanos.

Ao ler Technics and Civilization marquei alguns trechos que dão uma idéia do impacto causado pelo relógio na vida dos cidadãos. Compartilho com o leitor algumas dessas minhas anotações de leitura:

  • Os sinos do relógio da torre quase definiu a existência urbana. A preocupação em marcar o tempo foi substituída por servir, contar e racionar o tempo. Quando isso aconteceu, a Eternidade deixou gradualmente de servir de medida e foco das ações humanas.
  • Tornar-se “tão confiável como um relógio” era o ideal burguês, e possuir um relógio era um símbolo definitivo de sucesso.
  • O relógio, não a máquina a vapor, é a máquina-chave da moderna era industrial.
  • O relógio, além disso, é uma peça do poder da máquina cujos produtos são segundos e minutos. Por sua natureza essencial, ele dissociou o tempo dos eventos humanos e ajudou a criar a crença num mundo independente  de sequências matematicamente mensuráveis, o mundo especial das ciências.

Procurei não fazer longas citações. Recolhi apenas algumas frases que podem dar uma idéia do impacto causado pela adoção de um tempo mecânico e abstrato no nosso mundo. Nos sete séculos que se seguiram à instalação de aparatos mecânicos de controle de tempo para  reger a vida do seres humanos, o relógio foi se incorporando a todas as atividades, começando pelo trabalho [o relógio do ponto é a perfeita epítome disso!] até as dimensões mais íntimas da vida. Está pois explicado por que há tantos relógios na minha e na sua residência.

No momento vivemos a invasão de uma nova máquina: o computador. Ainda pensamos nele como uma máquina independente, com CPU, tela e outros periféricos, equivalente ao relógio de pulso ou de parede. Mas o que rola e vai rolar de modo mais significativo é a inclusão de computadores em diversos equipamentos que usamos no cotidiano: carros, geladeiras, tevês, fogões, máquinas de lavar e secar, etc. Essa computadorização da vida causará mudanças que não sabemos avaliar muito bem nos dias de hoje. Em análises superficiais sobre avanços tecnológicos aprendemos que isso é uma grande vantagem. As maravilhas sobre o computador capaz de controlar e ordenar uso de máquinas e equipamentos não cessam de ser cantadas. Isso aconteceu com o relógio. As perdas foram ignoradas. O controle aumentou. O tempo natural (vital, em termos bergsonianos) deixou de determinar aspectos importantes do viver. Não sabemos ainda que perdas acontecerão com a progressiva computadorização de todos os instrumentos que utilizamos.

Alguém deve estar perguntando o que faz este post aqui. O Boteco Escola é um espaço para conversas sobre blogs e, mais extensivamente, sobre tecnologia da informação e comunicação. Ubiquidade de relógios e computadores aparentemente não é tema de conversa que possa ser de interesse de educadores comprometidos com tecnologia educacional. É claro que discordo de quem assim pensa. A presença cada vez maior dos computadores em nosso mundo é um tema de muito interesse para a educação. Para começar, ter consciência da ubiquidade dos computadores é assunto que precisa merecer destaque nas conversas dos educadores. Há mais. Porém, acho que o leitor poderá elencar outras razões. Se você tem alguma que julga importante, entre no papo registre suas idéias em comentário a este post.

Ao escrever este post, fiz pequena incursão por sites sobre monges e mosteiros. Numa certa altura, lembrei-me que em dias festivos as horas canônicas eram cantadas em gregoriano. Fui até o Youtube e escolhi uma versão muito bonita de Dies Irae. Escutei-a algumas vezes enquanto digitava toda essa arenga. Para sua admiração, incrustrei aqui o VT com Dies Irae. Boa audição.

Computadores são argila

janeiro 25, 2010

No mesmo artigo que citei no post passado, Alan Kay propõe outra metáfora criadora:

  • COMPUTADORES SÃO ARGILA.

Mostro a seguir os trechos que desenvolvem tal metáfora naquele mesmo artigo publicado na Scientific American em 1995.

Quando a conveniência supera a qualidade em educação, mergulhamos diretamente na aprendizagem  “sucateada”. Essa situação é análoga a outros fenômenos de sucateamento, onde imitações baratas substituem as coisas de valor. Aprendizagem sucateada leva a uma vida também sucateada. Como diz Neil M. Postman, da Universidade de Nova Iorque, não é importante se um meio propaga sucatas, uma vez que todos os meios tem um potencial sucateador. Precisamos, porém, ter segurança de que meios incapazes de propagar importantes tipos de discurso – a televisão, por exemplo – sejam impedidos de desalojar os que podem.

Os meios também podem nos fazer pensar que estamos criando de modo planejado, quando na verdade estamos apenas improvisando. Considere a dificuldade de transformar a argila – uma substância perfeitamente maleável e responsiva – em qualquer coisa esteticamente satisfatória. A perfeita plasticidade e maleabilidade não substitui a ausência de imagens internas e de habilidades de dar forma à argila. Infelizmente os computadores possuem as virtudes da argila; eles tentam os usuários a construir, por meio de tentativa e erros, valendo-se apenas da plasticidade e maleabilidade da máquina.

Para um estudo de metáforas criativas, um livrro indispensável é Metaphors We Live By, de Lakoff e Johnson.

O computador é um piano

janeiro 25, 2010

Na minha tribo tuiteira, Sônia Bertocchi deu um RT para o seguinte pio de @ptdrumm:

  • A música não está no piano

Por causa de limites de espaço no Twitter ou de falta de informação,  ficou a impressão de que a métafora o “computador é um piano” é uma invenção do tuiteiro que a divulgou. Entrei na conversa para lembrar que essa metáfora muito criativa foi proposta [até onde sei] por Alan Kay , importante cientista no campo das ciências da computação. Kay, além ser uma bamba em informática, é biólogo e músico amador.

Um belo artigo de Alan Kay, abordando questões de educação e tecnologia foi publicado nos anos noventa em número especial da Scientific American. Aponto a referência completa para prováveis interessados:

  • Alan Kay (1995). Computers, Networks and Education, Scientific American, 1995, special issue: The Computer in the 21st Century. P. 148-155.

No citado artigo, o autor apresenta a metáfora do computador como piano da seguinta forma:

Sempre houve confusão entre embalagens e conteúdos. Os pianistas sabem que a música não está no piano. Ela começa dentro dos seres humanos como impulsos especiais para comunicar sentimentos. Mas muitas crianças são forçadas a “aprender piano” antes de desenvolverem impulsos musicais; por essa razão, abandonam a música pelo resto da vida. O piano, quando muito, pode apenas amplificar sentimentos, articulando múltiplas notas em harmonias e polifonias que a voz humana é incapaz de produzir.

O computador é o maior “piano” já inventado, pois ele pode embalar qualquer tipo de representação. Hoje há uma pressa para que as pessoas, particularmente as crianças em idade escolar, “aprendam computação”. Os computadores podem amplificar desejos de um modo mais profundo que os instrumentos musicais. Mas se os professores não alimentarem o romance da aprendizagem e da auto-expressão, qualquer proposta de uma nova “alfabetização” (alfabetização em informática) será um peso mais esmagador do que ser forçado a tocar uma sonata de Beethoven sem sentir a sua beleza. O acesso instantâneo às informações numa escala universal provavelmente terá um efeito oposto ao esperado: os estudantes ficarão paralisados em vez de iluminados.

Além da noção de que a mera presença dos computadores irá melhorar o aprender,  muitos outros enganos sobre a aprendizagem  ainda retardam a educação moderna. Idéias mais adequadas precisam substituir esse enganos para que qualquer recurso, seja ele um computador ou papel-e-lápis, torne-se efetivo. Um desses enganos pode ser chamado de teoria “fluídica” da educação: os estudantes são vistos como depósitos aos quais o conhecimento deve ser doado, gota a gota, desde o depósito cheio chamado professor. Uma idéia parecida é a de que a educação é como uma pílula amarga que, para ser palatável, precisa ser envolvida por uma camada de açúcar – uma visão, aliás, que ignora o profundo prazer proporcionado pelo próprio aprender.

Com este post espero ter contribuído para que gentes da minha tribo tuiteira, assim como visitantes deste Boteco Escola,  tenham uma informação mais completa sobre a origem da bela metáfora “o computador é um piano”.

Aproveito a ocasião para apontar algumas informações sobre KAY:

Botecos chiques

janeiro 23, 2010

O jornal de livros The New York Review of Books acaba de publicar uma resenha sobre Koestler: The Literary and Political Odyssey of a Twentieth-Century Skeptic, uma biografia de Arthur Koestler. O herói da história é um dos intelectuais do século XX com uma das vidas mais agitadas. Ele bebeu com quase todos os grandes escritores de sua época. Teve vida amorosa com mais aventuras que a de Picasso. Participou de movimentos sociais e políticos  expressivos do século, muitas vezes mudando radicalmente de lado. Em resumo, foi um figura tão interessante quanto personagem de ficção aventurosa.

Além de romances e reportagens, Koestler escreveu obras sobre psicologia, sociologia, cultura, filosofia da ciência. Li, faz tempo, seu The Act of Creation, um livro indispensável para discussões sobre criatividade nas ciências, nas artes, na vida. Lembro-me bem do primeiro capítulo da obra, The Jerster, no qual Koestler procura explicar como se dá e “explosão” de um ato criativo. Ele mostra que a estrutura do humor pode iluminar nossa compreensão. Pense numa piada, por exemplo. A história, no seu desenrolar parece algo banal, o desfecho, porém, surpreende, muda radicalmente para outro campo de significado, provoca um entendimento que dá sentido à graça da piada. Tal estrutura é muito parecida com as metáforas que estiveram presentes em grandes descobertas científicas. Metáforas, ao transitarem de um para outro campo semântico, criam o novo assim que as entendemos [assim que a explosão de entendimento que elas provocam dão sentido a uma nova descoberta ou a uma nova maneira de ver o mundo]

Ao escrever este post, dei uma olhada nas avaliações do The Act of Creation na Amazon Books. Descobri que um dos avaliadores manifesta opinião parecida com a minha. Afirma que a obra é um clássico sobre criatividade e estranha que livros atuais sobre o assunto ignoram Koestler:

Recently, I have read a lot of books on Creativity and Innovation. My big surprise is that virtually none of them mention Koestler’s The Act of Creation. This is unfortunate because this book is probably the most authoritative examination of creativity. Attention to this classic is worth reviving.

Mas, não devo continuar com consideraçoes sobre a obra do autor. Preciso falar do que o título deste post promete: botecos chiques.

Koestler era um grande bebedor (pelos nossos padrões seria visto hoje até como um alcoólatra). Bebeu com muita gente famosa em botecos badalados da velha Europa. Na biografia citada, há uma história que resumo a seguir.

Numa noite de 1946, em Paris, Koestler e sua namortada Mamaine Paget sairam para uma noitada com Jean Paul Sartre , Simone de Beauvoir, Albert Camus e Carmine (esposa de Camus). Jantaram num bistrô argelino. Do restaurante sairam para uma casa de danças, com lluminação de luzes de neon rosa e azul. Dali, por sugestão de Koestler, o grupo foi para um boteco russo. A última escala da noitada, por volta das quatro da matina,  foi o Chez Victor no Les Halles,onde Koestler e amigos ilustres tomaram sopa de cebola e vinho branco.

A bebida correu o tempo todo. A turma inteira estava bêbada e  conversava sobre política, cultura e assuntos corriqueiros. No final, já ao amanhecer, percorriam as margens do Sena. Sartre era o único com compromisso imediato: iria dar uma palestra de manhã sobre a Responsabilidade do Escritor, na Sorbonne. Ao saber do compromisso, Camus disse: faça isso “sem mim” – sans moi. Sartre comentou: “eu também gostaria que a minha palestra fosse sans moi“. O autor de Le Mur tomou umas “bombas” para se manter acordado e amenizar a bebedeira. Foi para a Sorbonne e palestrou. Ao finalizar a narrativa do episópodio, o biógrafo de Koestler comenta: “não é possível, mesmo para um existencialista, palestrar para os estudantes sans moi“.

Os intelectuais citados eram botequeiros. Bebiam pra valer. Bêbados trocavam figurinhas muito diferentes das sérias obras que escreveram. Ao ler a resenha, fiquei imaginando que botecos frequentavam. Não eram pelo jeito casas sofisticadas. Mas deviam ser lugares que ficavam chiques por causa da gente que por eles passavam. Naquela época a produção intelectual não ficava só nas academias, os botecos desempenhavam papel importante na vida de Sartre, Beauvoir, Camus, Koestler e muitos outros gênios da cultura em meados do século XX. Evoé, Baco!

A expressão final deste post foi uma lembrança de versos de Bandeira. Reproduzo-os para o prazer do leitor:

Quero beber! cantar asneiras
    No esto brutal das bebedeiras
    que tudo emborca e faz caco...
          Evoe' Baco!

Celular na sala de aula (2)

janeiro 23, 2010

No primeiro post desta série procurei mostrar que a pseudo-necessidade de manter-se continuamente enredado via celular é hábito que provoca muito desconforto em eventos públicos (aulas, teatros, missas etc.). Fiz uma introdução para chamar a atenção para situações bem conhecidas. Neste post quero abordar algo mais “acadêmico”, a questão do imperialismo da engenharia sobre a cultura.

Em A FLOW OF MONSTERS: Luddism and Virtual Technologies, capítulo de Resisting the VIRTUAL LIFE: The Culture and Politics of Information, Iain Boal conta uma história intrigante. Um grupo de manifestantes organizou um ato público na Sproul Plaza no campus da Universidade de Berkeley. Os ativistas alinharam no local diversas tevês já sem uso. Providenciaram martelos e pequenas marretas para que os passantes pudessem arrebentar as velhas televisões. O ato tinha um apelo simbólico. Era um happening que lembrava ações de luddistas arrebentando teares mecânicos que iriam acabar com seus ofícios de tecelões. A manifestação não durou muito. A polícia chegou e prendeu todos os organizadores do ato público.

Cabe observar que as TV’s levadas para a praça pública eram propriedade dos manifestantes. Eles não estavam destruindo bens alheios. Qual então o motivo da prisão? Para os homens da lei eles estavam praticando um ato anti-social. Boal explica que a atuação da polícia foi orientada por uma crença de que as novas tecnologias não podem ser atacadas. Além disso, pessoas que atacam de modo radical as novas tecnologias são consideradas gente perigosa.

O evento acontecido em Berkeley é esclarecedor. Tenho certeza de que um grupo de manifestantes oferecendo a passantes livros velhos para alimentar um fogueira não teriam sido incomodados. O que rola no caso é uma sacralização do novo que deve ser cultuado, que deve ocupar local de honra. No auge da história televisão, em lares pobres, os caixotões de madeira que acomodavam o aparelhos, feios e pesados, ocupavam o melhor lugar da salinha simples de lares acanhados. Geralmente os aparelhos descassavam sobre a melhor toalha de mesa da família.

Simples existência de artefatos tecnológicos cria obrigaçoes de uso, mudando ou até mesmo extinguindo velhos hábitos. Continuo a exemplificar isso com o caso da TV. Uma vez que os aparelhos de televisão ingressaram nas casas pobres ou ricas, ver TV tornou-se mais importante que conversar. Mesmo quando chegava uma visita o aparelho não era desligado. O visitante passava a ser mais um telespectador. Quando muito havia fiapos de conversa em intervalos comerciais. Levantamentos recentes sobre hábitos de ver tevê constataram que é muito frequente encontrar aparelhos ligados em locais onde não há ninguém.

Os comentários que fiz para a TV valem para outros aparatos tecnológicos. Valem para o celular. Estar sempre disponível para uma chamada, a qualquer hora e em qualquer lugar, converteu-se numa obrigação. A possibilidade converteu-se em dever. Em levantamentos informais, usuários de celular revelam que não suportam a idéia de ter o aparelhinho desativado por uma hora. A possibilidade do contato permanente virou obsessiva obrigação.

A possibilidade de contato contínuo numa rede de celulares tem aspectos positivos. Mas, ao mesmo tempo cria obrigações que podem pertubar determinadas atividades. Uma dessas atividades é o do estudo, tanto no nível individual como grupal, que exige grandes doses de concentração. Leitura de um texto filosófico, por exemplo, não pode ser feita em pequenas unidades com contínuas interrupções. Filosofia exige mergulhos reflexivos totalizantes. Não se aprende filosofia com ingestão de pequenas quantidades de sabedoria em curtos intervalos de tempo. O mesmo vale para outras ciências nas quais o texto é o instrumento central. Vale também para estudos de cálculos avançados. Vale para aprendizagem procedimentos como os de solda ou de cirurgia. Restrições a uso de celular nesses casos é uma necessidade.

Em discussões sobre uso de celulares nas salas de aula muita gente fala em bom senso e auto-controle. Sugere que, em vez de proibir ou restringir o uso, deve-se educar os usuários. Esta é uma sugestão bem intencionada, mas ela ignora a natureza da mídia. Vontade e iniciativa pessoal não é solução no caso. Em algumas atividades é preciso ter norma determinando que o aparelhinho seja desligado. Se confiarmos no bom senso do usuário é certo que a medida não irá funcionar. Vou examinar este ponto na terceira parte desta série de posts sobre celular na sala de aula.