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Determinismo tecnológico, celulares etc.

outubro 20, 2012

De uns tempos para cá observamos que o uso de celulares acontece dentro de certo padrão. Eles se tornaram  instrumentos indispensáveis. No geral, os usuários não os desligam e atendem imediatamente qualquer chamada. Esforços para evitar celulares ativos em sala de aula, igrejas, restaurantes e teatros dão com os burros n’água. Argumentos de segurança parecem ter alguma credibilidade nos aviões. Passageiros desligam criteriosamente seus aparelhos assim que a atendente de bordo anuncia que é chegada a hora de dar um tempo para os amados aparelhinhos. Mas, assim que o avião taxeia na chegada, todo mundo está de celular em punho para não perder um segundo sequer assim que o uso do mesmo for liberado.

É claro que os celulares não são mais apenas telefones. São ambientes de jogos eletrônicos. Instrumentos de navegação na internet. Máquinas fotográficas. Armazéns de variadas informações. Etc. Assim, enquanto um telefonema não vem, os usuários costumam utilizar a maquineta para múltiplas tarefas de comunicação ou recreação. O notável nesta história toda é que as pessoas estão reduzindo consideravelemente contatos face a face para ficarem na rede o maior tempo possível. Flagrantes do cotidiano mostram isso à exaustão. Trago para cá de novo  foto que explica tudo isso imageticamente. É bom lembrar que a dita imagem, como me alertou um amigo, provavelmente foi feita a partir de um celular!

Parece que o uso de celulares é inescapável. Parece que os comportamentos de dependência da maquineta, que observamos continuamente em toda parte, também é inescapável. Essa dependência tecnológica foi muito bem analisada pelo Unabomber, Ted Kaczynski. Em What Technology Wants, Kevin Kelly não se intimida por causa de prováveis críticos. Ele utiliza diversas citações do Manifesto de Kaczynski para indicar alguns dos sintomas da crescente dependência das novas tecnologias. Eis aqui uma mostra da análise cortante que o o matemático que se tornou terrorista fez;

[…] a tecnologia é uma força social tão poderosa que, dentro do contexto de uma dada sociedade, as pessoas normalmente se tornam dependentes dela, a não ser que a mesma seja substituída por inovação ainda mais avançada. As pessoas se tornam dependentes de um novo item de tecnologia não apenas no plano indivídual, mas, acima disso, o sistema como um todo se torna dela dependente.

Quando um novo item de tecnologia é introduzido como uma opção, um indivíduo pode ou não aceitá-lo, mas, assim que o escolhe, ele não mais PERMANECE opcional. Em muitos casos, a nova tecnologia muda a sociedade de tal maneira que as pessoas eventualmente se veem FORÇADAS a usá-la. (p. 203-204)

Kaczynski cometeu vários crimes na tentativa de eliminar a tecnologia do horizonte. Isso, porém, segundo Kevin Kelly, não desqualifica suas análises. Vale ler e pensar sobre o assunto, até mesmo olhando para uma tela de celular…

Microlitertura … complemento

outubro 19, 2012

Complemento o post anterior com uma sugestão de vídeo para a Introdução da WebQuest que lá propus. Trata-se de um belo trailer da série Carga Pesada, em versão que a Globo fez para platéias internacionais. As imagens e músicas apresentam um perfil cultural dos caminhoneiros. É boa matéria para uma conversa incial sobre nossos irmãos da estrada e textos que eles gostavam de colocar no parachoque traseiro de seus caminhões.

Microliteratura no parachoque do caminhão.

outubro 19, 2012

Durante muitos anos, os caminhoneiros faziam literatatura nos parachoques de seus veículos. Valia de tudo: crítica social, bravatas sexistas, mensagens religiosas, manifestações de solidariedade, etc. Tal literatura precisava ser micro, pois o espaço disponível para a escrita era pouco. No geral, os textos em parachoques não ultrapassavam cem caracteres, precedendo em muitos anos as produções literárias confinadas ao espaço disponível numa tela de celular. Quase sempre, os ditos em parachoques eram bem humorados, mesmo quando tinham destacado tom crítico. Exemplo disso é o texto que aparece na imagem que abre este post.

Há alguns anos, um legislador mal humorado resolveu proibir a literatura de parachoques de caminhões, alegando distração que poderia provocar acidentes. Não me lembro de algum acidente com tal causa. Por isso, acho que a proibição da microliteratura dos irmãos da estrada foi um ato de preconceito. Uma pena que isso tenha acontecido! É possível também que a interdição à escrita em parachoques de caminhões tenha como raiz um moralismo tacanho. Certamente o autor de tal lei não apreciava mensagens como esta que reproduzo a seguir.

A produção dos irmãos da estrada era uma expressão legítima de cultura popular. Ás vezes vencia o mau gosto. Mas, quase sempre, predominavam reações bem humoradas diante de uma vida dura e exigente de quem engole milhares de quilometro de estrada por todo o país. Ler a microliteratura de parachoques era divertido. Era educativo. Escrever nos parachoques era um exercício de liberdade, de autoexpressão. Era uma oportunidade para que os caminhoneiros pudessem dizer a própria palavra.

Meu interesse pelos escritos em parachoques de caminhões é literário. Os motoristas de nossa terra foram pioneiros num formato de literatura que muitos acham que é invenção dos tempos digitais. A literatura que produziram é uma forma de escrita muito criativa. Trago mais um exemplo para ilustrar esta fala.

Se você quiser se deliciar com um bom número de frases encontradas na traseira de caminhões clique aqui.

Ao pesquisar microliteratura de parachoques, resolvi imitar algumas invenções dos caminhoneiros. É divertido. É um desafio que pode nos ajudar a escrever criativamente. Com base nessa experiência pessoal, achei que cabe sugerir exercícios de escrita baseados nas criações de nossos irmãos das estradas. Essa possibilidade pode ser desenvolvida em diversos cenários. Imaginei dois deles. Primeiro: proposta de criação de um livrinho digital sobre Literatura de Parachoque, no qual metade das criações seria de frases que apareceram em caminhões e metade seria composta por criações dos alunos. Deixo a tarefa de desenhar tal projeto à iniciativa de quem queira desenvolvê-lo numa escola. Segundo: elaboração de uma WebQuest sobre Microliteratura de Parachoques. Delineio a estrutura da WebQuest.

  • Introdução: mostra de duas ou três figuras com parachoques literários; duas linhas sobre cultura popular; observação sobre prazer de ler e esc rever coisa que nos toca.
  • Tarefa: não vou escrever um texto definitivo para a tarefa, mas sugerir um rumo. A tarefa poderia ser proposta na seguinte direção: “Vocês são caminhoneiros e foram convidados a participar de um concurso de microlitaratura de parachoques. Para participar, vocês deverão produzir dez textos – de no máximo 150 caracteres – para parachoques, seguindo uma velha tradição dos profissionais do volante. Os promotores do concurso estabeleceram que as criações precisam abordar, pelo menos, cinco temas: política, religião, família, vida na estrada e educação. No trabalho preliminar vocês podem produzir quantas frases quiserem, mas, no final, deverão encaminhar apenas as dez que considerarem as mais criativas.”
  • Processo e Recursos: grupo de quatro participantes; divisão de papéis para estudar microliteratura, sociologia dos irmãos da estrada, repertórios de frases em parachoques de caminhões; fornecimento de fontes na internet para estudo dos alunos; sugestão de caminhos a serem seguidos; esclarecimento de que todos os integrantes deverão redigir frases de microliteratura de parachoques.
  • Avaliação: quem quiser criar a WebQuest proposta deverá elaborar uma rubrica que considere os quatro aspectos mais importantes a serem avaliados na produção dos caminhoneiros-escritores.

A título de subsídio, forneço a seguir dez exemplos de frases típicas da literatura de parachoques de caminhões. Cinco delas são autênticas e foram recolhidas em pesquisas feitas por meu amigo Frei Luiz Gonzaga, OAR. Cinco delas são criações minhas. Não vou revelar origem de cada uma delas. Deixo para você, leitor, um desafio: advinhe quais textos são autênticos e quais textos são criações minhas.

  • Existo porque insisto.
  • Deus não pede dízimo pra me abençoar.
  • Deus dá o juízo e a pinga tira.
  • Não beba dirigindo, você pode derrubar a cerveja.
  • Emprestei uns trocados pra Deus. Ele ainda não me pagou o que deve.
  • Na minha ausência, não tente conquistar a gata lá de casa. Ela odeia cachorro.
  • Errar é humano. Colocar a culpa em alguém é estratégia.
  • Partir e chegar é bom. Mas, eu gosto mesmo é de viajar.
  • Para quem está perdido qualquer atalho serve.
  • Troco este caminhão por três anos de anistia do IPVA.

Periféricos de celulares

outubro 19, 2012

Há muito tempo, falava-se em periféricos de computadores: teclados, mouses, joy-sticks etc. Periféricos eram instrumentos cuja existência só se justificava por suas ligaçõs com a CPU, o coração do computador. Periféricos sem CPU não tinham vida. Ainda há periféricos, mas falar neles perdeu importância.

Mais recentemente a idéia de periféricos migrou para outros entes. Com o advento dos celulares, os periféricos ganharam estrutura de carne e osso, eles são o que antes chamávamos de gente. Por enquanto a comunicação em rede entre bilhões de celulares só acontece se houver periféricos capazes de operá-los. Importa que a rede funcione, esteja ativa o tempo todo. Não importa o teor da comunicação. Não importa sequer a comunicação. É preciso que as redes pulsem o tempo todo. O resto é detalhe sem interesse. Acho que num futuro próximo, robôs especializados farão trabalho melhor que os periféricos de agora. Mas, aí será tarde para recuperar os modos de comunicação próprio de primatas pelados.

O problema com gente convertida em periféricos de celulares é o de que sobra pouco tempo para aquelas velharias de contato face a face: dançar de rosto colado, papear com amigos, jogar conversa fora no balcão de um boteco, rir de uma piada bem contada, fazer careta de contentamento/descontentamento diante de uma cara que agrada/desagrada, e muito mais.

Meus amigos conhecem minhas ojerizas de celulares. Acham que sou ranzinza, mal humorado, desatualizado. Mas, acho que tenho algum razão para as minhas observações sobre esse treco que virou obrigação pra todo mundo.

Há pouco recebi uma série de fotos do meu amigo Carlos Seabra. Tais fotos são evidência empírica para minha tese de que os humanos se converteram em periféricos dos celulares. Por isso, em vez de continuar a me explicar, vou reproduzir as fotos que o Seabra me mandou.

Café com amigos

Almoço de confraternização

Apreciando obras primas numa galeria de artes

Curtindo uma praia

 

Torcida fiel

Namoro de muito amor e carinho