Archive for fevereiro \26\UTC 2013

Leitura como investigação

fevereiro 26, 2013

sherlockParticipei de uma aventura muito bonita, a produção do software Investigando Textos com Sherlock!, de David Carraher. Escrevi uma memória de tal aventura há bastante tempo. Agora julguei conveniente publicá-la aqui.

Meu memorial do Sherlock tem sugestões de conversas sobre leitura e escrita, metacognição, autoria dos professores, estratégias de desvendamento de textos. Interessados podem ver o escrito depositado neste Boteco em Páginas:

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TIC e Educação: Onde as coisas mudam? (3)

fevereiro 25, 2013

Na conversa que rola sobre o tema no blog da Tatiane Martins, publiquei trecho de um paper que escrevi para a Fundação Telefonica em 2005. Achei que valia a pena publicar o tal trecho aqui também.

Há uma questão muito difícil de ser trabalhada. Trata-se dos efeitos educacionais que os usos não escolares de uma tecnologia podem causar sobre a educação. Muitas soluções tecnológicas são frutos do acaso e não há como prever suas conseqüências (Norman, 1993).  Tecnologias da comunicação e da informação tiveram e têm, portanto, conseqüências inteiramente inesperadas. Gutenberg, segundo Postman (1993), acreditava que o livro impresso seria um grande promotor da fé católica. O que o inventor da imprensa jamais foi capaz de imaginar é que os livros, sobretudo a bíblia, seriam um elemento importante no surgimento do protestantismo. Sei que não há muito a fazer, mas os usos não escolares da Internet certamente terão efeitos imensos sobre a educação. Um desses efeitos já está em andamento: a fé crescente numa educação divertida. Como disse atrás, muitos educadores converteram-se a essa fé. Onde estão as origens? Muito provavelmente nos  meios de comunicação cuja marca maior é o entretenimento. Acho que a Internet poderá reforçar esse traço. E a solução não está, a meu ver, num empenho para mostrar que a Internet pode ser usada educacionalmente. Se fizermos isso, perderemos a guerra antes da primeira batalha. Domesticar pedagogicamente a mídia é um erro que já deveríamos ter aprendido desde os tempos da “televisão educativa”. O tema precisa ser melhor discutido e entendido por nós educadores.

 

Encerro este trabalho com uma consideração que deveria ser a primeira. Tom Snyder, genial inventor de modelos para softwares educacionais tem uma expressão que jamais pode ser esquecida: “não existem materiais didáticos a prova de professores”. (Snyder, 1988). Esse alerta surgiu de uma experiência do citado autor. A editora para qual ele trabalhava promovia seus softwares por meio de concorridas conferências para professores. Numa delas, palestrando para mais de quinhentos educadores, Snyder deu-se conta de que estava sugerindo que os materiais poderiam funcionar como elementos centrais do processo ensino-aprendizagem. Nesse momento achou que estava enganando a si próprio. Os agentes de mudança não são as ferramentas, mas as pessoas que as usam. Por isso, por mais fascinante que sejam os possíveis usos da Internet em educação, é preciso não esquecer que mais fascinantes são os atores das tramas do aprender. Alunos e professores, essas são as peças essenciais no processo de mudança e em usos mais efetivos e conseqüentes  das novas tecnologias da informação e comunicação.

Microcontos na sala de aula

fevereiro 25, 2013

Em 2008, elaborei um curto subsídio para conversa com meus alunos sobre usos de microcontos em educação. É algo bem sintético, um microssubsídio… Reproduzo-0 para prováveis interessados.

 

Microcontos

 

Microconto é uma forma bem moderna de fazer literatura. Tudo nele é muito contido. Tudo é feito para caber em pequenos espaços – uma tela de celular, uma camiseta, um adesivo. Tudo é feito para leitura rápida. Por isso precisa ser micro. Mas precisa ter virtudes: humor, beleza.

Em qualquer microconto, o autor precisa contar ou sugerir uma história. Nessa forma de microliteratura, portanto, é preciso ter personagem ou personagens, movimento. É preciso ter alguma história.

Há diversas formas de definir limites para um microconto. Vamos utilizar a definição que diz que um microconto é uma história (ou sugestão de história) contada em até cento e quarenta caracteres (espaços e pontuações inclusos).

Exemplos:

Ela beijou o sapo. Hoje é mãe de dez girinos. (j. novelino)

 

Trabalhavam na mesma empresa. Ele gerente, ela secretária. Casaram-se para evitar rumores de assédio sexual. (Senir Fernandez)

 
Pela última vez, escreveu seu nome na orla da praia e ficou vendo as ondas o apagarem para sempre. (C. Seabra)

As chamas queimaram tudo. Nos escombros do prédio, aquela privada, branca e reluzente, não fazia o menor sentido. (C.. Seabra)

 

Bígamo e muito devoto, ele frequenta duas igrejas. (j. novelino)

 

No desastre, o motorista perdeu o caminhão e a fé em São Cristóvão. (j. novelino)

 

O músico era tão perfeccionista que naquela tarde, quando seu gato miou uma oitava acima, não hesitou em atirá-lo pela janela. (Zezé Pina)

 

Quando soube da verdade, gelou. Era verdade! (Zeca Ildefonso)

 

Era loira, sensível, culta, inteligente e muito bonita. Fingia-se de burra para não desagradar a seu marido empresário. (Erre Erre)

 

Abraçou fortemente a sua solidão com a certeza de que nunca mais seria por ninguém abandonado. (Erre Erre)

Exorcista famoso, mundialmente reconhecido, dorme abraçado aos demônios que durante o dia expulsa e se embriaga com a água benta que sobra. (Erre Erre)

 

 

Finalidades:

 

  • ·        Destravar quem tem medo de escrever
  • ·        Oferecer resultado rápido e completo de redação
  • ·        Exercitar imaginação dentro de um quadro de restrições bem claro
  • ·        Oferecer um desafio que tenta as pessoas

 

Usos:

 

  • ·        Redação
  • ·        Levantamento de idéias dentro de determinado assunto
  • ·        Diversão
  • ·        Motivação
  • ·        Cooperação (em produções conjuntas)
  • ·        Desafio de imaginação
  • ·        Uso criativo do Word
  • ·        Etc.

 

 

Jarbas Novelino Barato

Tecnologia Educacional

28/03/2008

Novas tecnologia e a volta do embornal

fevereiro 25, 2013

embornal

Há dois anos, participei do VI Simpósio Trabalho e Educação, promovido pela Faculdade de Educação da UFMG. O evento, como qualquer outro do gênero, entregou, para os participantes, programa, informações escritas, um exemplar da revista T&E, crachá e caneta. Para que os simposistas pudessem carregar o material de modo confortável, o evento presenteou cada qual com um embornal de tecido.

A substituição de malinhas de plástico – algumas muito charmosas – por embornais de tecido é uma prática que está ficando comum em seminários, simpósios e congressos. Nos três últimos eventos de que participei, os embornais estavam lá. Alguns, mais simples, outros, sofisticados. Todos de tecido, ás vezes com alças de plástico.

Após os eventos, os embornais podem ser aproveitados para carregar mercadorias compradas em feiras e supermercados. Com as crescentes restrições às sacolas de plástico, eles irão se integrar a hábitos mais saudáveis de proteção ao meio ambiente. Uma salva de palmas para o retorno dos embornais.

Falo em retorno dos embornais, não em surgimento dos mesmos. Dona Queta, minha avó adotiva, costurava embornais. Deve ter aprendido isso com a mãe dela no final do século XIX. Na minha infância – anos cinqüenta do século passado – a gente usava embornais para carregar compras feitas na venda. Usava-os também para carregar o caldeirão de comida que seguia para a obra onde trabalhasse meu pai.

Os embornais eram coisa de pobre, geralmente feitos de tecido de “sacos de farinha”. Acho que preciso explicar isso. A farinha de trigo era – acho que ainda é – acondicionada em sacos de algodão rústico. Tais sacos, uma vez vazios, eram aproveitados como matéria prima pelos pobres. O tecido, muitas vezes tingido com umas pedrinhas azuis de anil, era utilizado para confeccionar roupa para as crianças. Tive alguns calções e camisas de tecido de saco de farinha. Como vêem, muito antes de toda a conversa sobre reciclagem, as classes populares já praticavam hábitos de aproveitamento de materiais disponíveis.

Não sei em que ano os embornais começaram a ser distribuídos em seminários e congressos. Meu embornal mais antigo, presente do meu amigo Bernie Dodge, é de 1998. Trata-se uma sacola reforçada, feita com algodão de qualidade, que foi entregue aos participantes da National  Education Computing Conference de 1998 – NECC’98 San Diego. Cabe notar que esse embornal foi patrocinado pela Apple, uma empresa que ama designs bonitos.

Minha aposta é a de que os embornais ficarão cada vez mais comuns em eventos. Além disso, serão cada vez mais utilizados para carregar compras de feiras e desupermercados.  Acho que os mesmos serão feitos inteiramente de tecidos orgânicos, principalmente de algodão e juta. Na minha casa, já temos uns cinco embornais que são utilizados para acondicionar as compras do dia-a-dia.

Estamos reintroduzindo uma velha tecnologia para substituir a avançada tecnologia dos sacos plásticos. Há quem ache que a mudança trará algum desconforto, pois o material descartável, ainda predominante para acomodar nossas compras, é mais prático que os embornais. Mas, ao que tudo indica, sacos plásticos estão em rota de desaparecimento. E já vão tarde.

Devo justificar comentário sobre volta dos embornais num blog cujo assunto principal é educação e tecnologia? Acho que não. Há leitores que dirão que sim. Não concordo com eles. Por isso tentarei mostrar porque os embornais ganharam lugar de destaque neste boteco.

Usos de tecnologia são determinados por muitos interesses. No geral, os interesses dos poderosos predominam. As coisas, porém, não são muito simples. Interesses de quem tem poder não são simpáticos. Por isso costumam ser disfarçados sob o manto da ciência ou da necessidade. No caso de usos dos computadores, justificativas de ordem científico-tecnológica para determinadas opções são muito comuns.  Nós, leigos, costumamos aceitar os argumentos. Uma das coisas que sempre me perturbaram é a obsolescência de softwares. Já comprei Oregon Trail duas vezes. Minha última versão, adquirida há uns cinco anos, já não roda nas máquinas novas. Se eu quiser rever o software educacional de maior sucesso no planeta terei que comprar mais uma versão, atualizada. Os informatas se apressarão em me explicar que antigas configurações são incompatíveis com os novos sistemas. E mais: dirão que não havia alternativa para os sistemas hoje em uso.

A fatalidade tecnológica atrás apontada é uma balela. Novos sistemas são incompatíveis com antigos softwares porque os donos dos modelos em uso não quiseram investir em alternativas. Preferiram o caminho que privilegia o envelhecimento precoce de programas de computador. Não entro em detalhes técnicos, pois teria de mergulhar num tecniquês  que me desagrada. Mas, se alguém duvida do que estou dizendo, convém recorrer a um especialista. O que acabo de dizer de modo muito simplificado é uma das teses centrais do livro You Are Not A Gadget, de Jaron Lanier, o pai da realidade virtual.

Deixo de lado o mundo dos computadores e me volto para sistemas tecnológicos de produção. Grandes projetos de industriais são planejados por especialistas – engenheiros, administradores, donos do capital – que afirmam que suas soluções são as mais eficientes. Trabalhadores que se engajam na produção, dizem os especialistas, carecem de saber necessário para planejar a produção. Nos anos setenta do século passado, essa suposta verdade foi contestada várias vezes. Numa das crises de desemprego, trabalhadores propuseram alternativas de produção que evitaria demissões e para colocar no mercado produtos socialmente relevantes. Entre as sugestões de mudanças profundas no uso de tecnologias, merece destaque o contra-plano dos trabalhadores da Lucas Aerospace.

Numa das crises do capitalismo (primeiros anos de 1970), férias coletivas, eliminação de horas extras e demissões eram os caminhos mais utilizados pelas empresas. A Lucas Aerospace, empresa de alta tecnologia, fabricante de equipamentos sofisticados para a aviação, começou a aplicar a receita tradicional. Os empregados resolveram mostrar que havia alternativas para evitar o desemprego: mudança na produção e processos tecnológicos para produzir equipamentos socialmente relevantes.

Há diversas fontes de informação sobre o contra-plano. Tenho em mãos uma delas: Une alternative au chômage: Le contre-plan de production des travaillers de Lucas Aerospace, artigo de Cecilia Casassus e Jon Clark, Revue Sociologie Du Travail, outubro/dezembro de 1978. Colho, ao acaso, alguns trecho que destaquei em leitura anos atrás:

  • Apoiamos nossa ação na defesa do emprego, propondo intervenção [dos trabalhadores] na escolha dos produtos, das tecnologias e dos modos de organizar o trabalho.
  • A pesquisa de produtos alternativos pelos trabalhadores da Lucas Aerospace representa uma virada original que evoca, por outro lado, uma crítica ao progresso tecnológico capitalista.
  • Ele [o contra-plano] reivindica o direito ao emprego, mas também o direito de utilizar as ferramentas de produção e as qualificações da força de trabalho para produzir bens que beneficiarão a comunidade inteira.
  • Nós decidimos ir além dessa absurda divisão que a sociedade impôs entre produtores e consumidores, que parece sugerir que existem duas nações, uma que trabalha em fábricas e escritórios, outra que vive em suas casas e na comunidade.

Chamo atenção para o último item. Dividimos a sociedade de hoje entre produtores e consumidores. Estes últimos parecem ser uns folgados, parece que não trabalham, parece que não produzem, só consomem. Sempre fico a me perguntar quem são os produtores nessa divisão tão marcada.

Volto ao tema central. Redigi este texto para provocar, pois há muita gente que não examina alternativas tecnológicas a partir de interesses sociais, sempre achando que o progresso é um avanço contínuo determinado pelo tecno-ciência. A volta do embornal parece indicar que a coisa não é bem assim.

TIC e Educação: Onde as coisas mudam? (2)

fevereiro 25, 2013

Meu post anterior foi proposto como tema de conversa no blog da Tatiane Martins. A conversa lá e em outros espaços do ciberespaço está muito boa. Compareci no blog da Tati para deixar um comentário. Mas, como dizia Pascal, não tive tempo para ser breve. Acabei escrevendo demais e rompi a barreira de espaços próprios para comentários. Solução: trouxe meu texto para cá no formato de post.

No meu escrito, menciono o Sérgio Lima, pois ele fez uma ponte que não aceitei, sugerindo que minha crítica à domesticação de invenções da internet tem a ver com preconceito meu ao associar chatura com didática. Talvez eu tenha escrito de forma a ser entendido neste sentido (aliás, como aprendi a partir de uma declaração de Susan Sotang, quem dá sentido ao texto é o leitor).

No meu comentário que virou post, tento mostrar que minhas considerações tem a ver com ontologia. Ou seja, em muitos usos educacionais as midias são alteradas em sua natureza, e por isso perdem alma, perdem essência. Isso nada tem a ver com provável preconceito meu contra a didática. Isso é uma questão ontológica.

Já expliquei demais o meu texto. Acho bom parar por aqui e copiá-lo para este espaço. Aqui vai o tal:

Acho um erro didatizar ou pedagogizar as mídias. A pedagogização das mídias funciona como um tipo de domesticação de animais selvagens. Todo processo de domesticação limita muito o potencial dos animais. Por essa razão, sempre achei que os shows da Baleia Shamoo (em todos os casos, um exemplar de orca) nos parques do Sea World são atos de crueldade. As orcas são muito mais inteligentes e espetaculares que o bichos tristes, presos a um cativeiro que lhe reduz anos de vida, capazes de executar uma rotina de proezas criadas pelo treinador.

 

Não vou elencar aqui o que pode ser dito a partir da metáfora da Baleia Shamoo. Apenas peço aos leitores que a considerem em suas análise de usos de ferramentas de informática no espaço escolar.

 

No meu texto inicial sobre o tema, concluo dizendo que os educadores devem continuar suas tentativas de usar TIC em educação, pois acredito que encontraremos bons caminhos. Ou seja, não sou uma nova espécie de luddita que quer quebrar tudo e ver o circo pegar fogo. Profissionalmente já fiz muitas coisas no ramo. Quebrei a cara. Tive alguns acertos. Aprendi muito.

 

Caro Sérgio, no texto, não associei chatura a didatismo. Até poderia fazê-lo, pelo menos no contexto acadêmico. As aulas mais chatas que tive na vida foram as de didática.

 

O que tentei ressaltar foi que os educadores não percebem as virtudes da mídia e, ao usar novos meios de comunicação, impõem a eles um modelo que os castra. Ás vezes os produtos educacionais que utilizam novas mídias são até divertidos. Recentemente vi alguns deles, feitos por gente que entende muito de tecnologia, construídos como jogos em 3D. Infelizmente, os jogos, abordando problemas de português e de matemática, são pouco autênticos, sem alma.

 

Sem alma. Este é ponto central da nota que fiz a partir de um artigo da Marion Strecker. Blogs didatizados, solenes, acadêmicos, não tem alma. O mesmo pode acontecer com Twitter, Face Book, aplicativos para construir histórias animadas etc.

 

Há alguns anos, num laboratório de informática, vi uma educadora dando uma olhada no meu blog, o Boteco Escola. Ela não sabia que o blog era meu e, talvez por isso, me disse: “que coisa horrorosa professor, como é que alguém pode associar boteco e escola?” Acho que ela gostaria do título do meu primeiro blog (dos idos de 2003): Nova Educação. Fiquei imaginando como aquela moça introduziria alguma proposta de uso de blogs entre seus alunos. Acho que a primeira providência seria a de eliminar a alma blogal.

Acho que tenho alguma dificuldade para comunicar minha opinião sobre o erro de ditatizar mídias. Tento clarear a coisa, pra mim e pra prováveis leitores. E vou fazer isso, considerando dois pontos.

Ponto 1: impacto cultural de novos meios de comunicação. Novas tecnologias geram impactos ambientais. Quando a televisão entra em cena e passa a ser um meio importante em nosso mundo, a conta não era velho mundo + televisão. Novos meios não são aditivos. São transformativos, pois novas espécies quando ingressam num velho ambiente tudo mudam. O mesmo pode ser dito do cinema. Etc.

 

Quando penso nos impactos de novas mídias em educação, penso que há transformações radicais que precisam ser compreendidas pela escola. Essas transformações têm certamente efeitos importantes em jogos de aprendizagem.  Meus antigos professores, que desconheciam a transformação que a “literatura ilustrada” produzia, continuavam a ensinar como se muitos de seus alunos não tivessem incorporado uma cultura dos quadrinhos que mexia muito com a imaginação. Gibizeiro, eu sentia grande desconforto naqueles exercícios de redação classificados como descrição.

 

Quando falo em impactos, não sugiro que o uso de novas mídias seja a prioridade para amenizá-los. Tais impactos têm efeitos difíceis de serem avaliados. Mas, de qualquer forma, eles trazem mudanças que não podem ser ignoradas pela escola. No caso da televisão, por exemplo, os alunos desenvolveram um ritmo que exclui estudo atencioso, concentrado, demorado. Isso torna mais difícil o desafio de criar situações de aprendizagem onde estudo demorado, concentrado e atencioso é necessário. Não é possível, por exemplo, aprender filosofia sem tal tipo de estudo. As questões filosóficas são exigentes, precisam de tempos de maturação que nada tem a ver com a cultura da TV.

 

A internet está causando grandes impactos ambientais na cultura. É preciso conhecer tais impactos e ver que efeitos podem ter em educação.

 

Ponto 2: uso das mídias nos espaços escolares. Boa parte dos argumentos que vejo sobre usos educacionais da internet tem como fonte a convicção de que é preciso fazer isto porque os jovens gostam. Essa é uma bobagem escolanovista que há uns cem anos desalojou das escolas estudos consistentes de história, substituída por estudos sociais preocupados com o gosto dos alunos [para saber mais sobre isso é bom ler Daiane Ravitch]. 

 

Os jovens gostam (ou gostavam) do Orkut, do Face Book, de jogos etc. por causa da alma dessas formas de curtir novas mídias. Disso não decorre necessariamente que a escola deva usar Orkut, Face Book, jogos etc. [não abordei isso no meu texto original, nem vou seguir em frente com esta linha de análise, pelo menos aqui].

O que mais comentei no texto original foi o uso das novas mídias nos espaços escolares. E em tais usos vejo grandes problemas. As propostas de uso, muitas vezes nascem de encantamentos ingênuos pelos novos meios. Não sei se sabem, mas bobagens risíveis aconteceram porque alguns educadores há uns sessenta anos se encantaram com o telefone e incluíram sessões de telefonia como um grande avanço em suas escolas [sei disso graças a meu amigo Steen Larsen, grande educador dinamarquês, que teve atividades de telefonia na sua escola pré-primária].

Na maior parte dos casos as novas mídias são didatizadas. Ou seja, os educadores ignoram sua ontologia e a elas impõem uma nova essência. [permitam-me brincar aqui utilizando algum verniz filosófico].  Cada mídia é um ser que se revela em sua natureza própria. Mas o desvelar de ser nem sempre é percebido. Por isso, muita gente fala que as ferramentas são neutras e podem receber o significado que lhes for atribuído. Desçamos pro chão: a natureza dos blogs, por exemplo, é ignorada. Eles passam a ser vistos como uma ferramenta cujo uso dependerá de propostas educacionais. Isso é um crime ontológico…

 

Escrevi muito e não fiquei satisfeito. Ainda devo explicações. Mas, não sei se serei capaz de dá-las. Agradeço a paciência dos amigos acompanharei com muita atenção o papo proposto pela Tatiane.

TIC e Educação: onde as coisas mudam?

fevereiro 23, 2013

Tiro na mosca. Marion Strecker  [A Glória da Dirupção]explora um caminho que o povo da educação parece ignorar: as mudanças educacionais da TIC acontecem fora da escola. Por outro lado, o uso de TIC nas escolas é, quase sempre, irrelevante.

 

Todas as tecnologias recentes – da invenção do telefone até nossos dias – provocaram profundas mudanças culturais, inauguraram novos valores, estabeleceram novos costumes. Tudo isso aconteceu “fora” da escola. Acho que os impactos do computador e da internet são mais profundos que os de outras tecnologias aparecidas do final do século XIX para cá.

 

A análise da Marion Strecker merece várias leituras no campo da educação. Fico com apenas uma, a da ignorância do saber selvagem dos novos meios. Me explico: estudos recentes no campo de antropologia/ciência do conhecimento mostram que fora da escola funciona um saber (não domesticado por conveniências de controle ou por babaquices didáticas) que surge das necessidades de troca de informação para que as coisas aconteçam. [O cara pra se ler aqui é Hutchins, em Cognition in the Wild].

 

O que rola é que os educadores, erradamente, querem domesticar a internet. Exemplifico no varejo. A maior parte dos educadores quis domesticar os blogs. Ainda na semana passada, repórter de uma revista educacional me fez pergunta sobre uso “didático” dos blogs. Respondi-lhe que o ponto de partida para examinar os blogs em educação não é a didática, é a comunicação. Blogs didáticos não são blogs de verdade, e os alunos, já educados na internet, sabem disso. Quando educadores ignoram as virtudes comunicativas dos blogs “in the wild” reduzem uma ótima ferramenta a um caderninho eletrônico sem graça, sem vida, sem alma.

 

Volto à minha infância. Fui gibizeiro fanático. Lia tudo (Águia Negra, Dick Tracy, Mandrake, Flash Gordon, Pinduca, Reizinho, Zorro, Tarzan, etc. etc. Quase tudo. Não lia Epopéia, um gibizão didático que apresentava, no formato de histórias em quadrinhos, fatos históricos. Um saco! Deve ter sido invenção de alguém que quis didatizar os gibis, ignorando linguagem, traço, ritmo das histórias em quadrinhos. Acho que os gibis foram elementos importantes no desenvolvimento da minha imaginação. Não havia nada na escola que exercesse papel tão importante nesse sentido. Acho também que os gibis, mais que a escola, despertaram em mim gosto pela leitura. Não acredito que os educadores de meus tempos de criança percebessem as profundas mudanças culturais desencadeadas pelas histórias em quadrinhos.

flash gordon

A influência da internet é muito mais avassaladora que a dos gibis. Os alunos já chegam às escolas aculturados em internet. Isso cria grande dificuldade para educadores que queiram utilizar o ambiente WWW e o computador para educação. Lembro-me de meu filho de nove anos falando com grande ironia do Logo, que suas professoras usavam com entusiasmo. Ele me dizia que elas nada sabiam dos ótimos jogos que ele e seus amigos jogavam no computador. Para os meninos como meu filho o Logo era uma coisa bobinha. E, os educadores loguistas ignoravam o saber selvagem e sofisticado dos meninos que dedicavam horas do dia em jogos muito desafiadores (em termos de imaginação, em termos de lógica, em termos de estratégias cognitivas…). Algo análogo acontece hoje com a domesticação de muitas ferramentas comunicativas da internet.

 

Não sei se haverá uma solução para que computadores e internet mudem radicalmente a escola.  E, embora critique a pedagogização de blogs, twitter , jogos etc. por educadores bem intencionados, mas ignorantes no campo das comunicações, acho que precisamos continuar a busca por usos mais eficazes das novas mídias para ajudar as pessoas em projetos de aprendizagem sistemática.

 

Escrevi algumas observações sem muito cuidado e ordem. O assunto merece algo mais elaborado e pensado. Acho que fiz algo parecido num material que escrevi para a revista Quaderns Digitals faz algum tempo. O que escrevi não aborda diretamente o tema proposto pelo artigo da Marion Trecker. Mas, acho que vai em direção parecida. Se alguém estiver interessado em ver esse meu texto, deixo link aqui, observando que o editor da revista acabou publicando uma versão que eu não tinha revisado:

Tecnologia e educação: professores e alunos

fevereiro 8, 2013

Faz tempo que há um sentimento comum, sempre promovido pelos meios de comunicação, de que as crianças e jovens são muito mais espertos que os adultos – professores inclusos – no uso dos novos meios digitais. A primeira vez que vi tal sentimento ser projetado publicamente foi numa reportagem de TV de 1982, mostrando a introdução de computadores em escolas de San Francisco, EUA. Numa cena comovente, um repórter mostrava um menino de oito anos guiando a mão da avó nas tentativas que esta fazia para usar um Apple IIe.

al rogersA lenda da esperteza de crianças e jovens continua nos dias de hoje. E sempre há gente dizendo que a nova geração sabe muito mais de tecnologia digital que seus professores. A criança mostrada na reportagem de 1982 deve ser hoje um adulto de 39/40 anos. Se não foi afastada dos computadores depois da experiência na escola que frequentava em San Francisco, não deve ter qualquer dificuldade para usar tecnologias digitais em sua vida. É muito provável que seja tão boa nisso como seus filhos, se os tiver nos dias de hoje. Ou seja, muitos dos jovens adultos de hoje cresceram utilizando as novas tecnologias. Nada devem, nesse sentido, às crianças e adolescentes neste ano de 2013. Racíocinio parecido cabe para jovens professores na faixa dos 30 e poucos anos. E mesmo para professores de mais idade. Afinal de contas alguns dos mais destacados nomes de gente que inaugurou a revolução da microinformática andam pela casa dos sessenta anos. Al Rogers, meu professor de computer education em 1983, já ultrapassou a casa dos setenta [o moço da foto é o Al ].

Recentemente ex-aluno do mestrado em Tecnologia Educacional da San Diego State University (SDSU), Caleb Clark, publicou um curto artigo sobre o assunto. Minha amiga Allison Rossett, que foi professora do Caleb na SDSU, recomendou a matéria no Face Book. Achei que deveria registrar o fato aqui e criar um link para que os frequentadores deste Boteco, se o quiserem, possam ver o artigo em foco. Aqui está o link para o dito cujo:

Blogs: indicações de literatura

fevereiro 3, 2013

Fui ao Google para saber se um artigo, Blogs, de Sarah Boxer, publicado pelo NYRB em 2008 está no ar. Infelizmente não está. No caminho, encontrei uma indicação de literatura sobre blogs organizada pelo jornal de livros de NY. Reproduzo-a aqui para conhecimento de quem queira mergulhar no assunto:

We’ve Got Blog: How Weblogs Are Changing Our Culture compiled and edited by John Rodzvilla, with an introduction by Rebecca Blood

Against the Machine: Being Human in the Age of the Electronic Mob by Lee Siegel

Republic.com 2.0 by Cass R. Sunstein

Blogwars by David D. Perlmutter

The Future of Reputation: Gossip, Rumor, and Privacy on the Internet by Daniel J. Solove

We’re All Journalists Now: The Transformation of the Press and Reshaping of the Lawin the Internet Age by Scott Gant

Blog: Understanding the Information Reformation That’s Changing Your World by Hugh Hewitt

The Cult of the Amateur: How Today’s Internet Is Killing Our Culture by Andrew Keen

Naked Conversations: How Blogs Are Changing the Way Businesses Talk with Customers by Robert Scoble and Shel Israel, foreword by Tom Peters

Blog! How the Newest Media Revolution Is Changing Politics, Business, and Culture by David Kline and Dan Burstein