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Por quê escola?

setembro 23, 2018

rose school

ROSE, Mike. Why School? reclaiming education for all of us.
New York: The New Press, 2009. 175 p.
Mike Rose, professor da University of California at Los Angeles (UCLA), tem pesquisas fundamentais em três diferentes campos: leitura e escrita, educação e trabalho, e educação pública. Esses interesses são explicados por sua biografia. Filho
de trabalhadores, Rose passou por escolas públicas de bairros pobres e teve muitas dificuldades para chegar à universidade. Professores atentos perceberam seu talento para a escrita quando ele cursava o ensino médio, e incentivaram-no a continuar seus estudos. Sua mãe, garçonete, colocou o pão na mesa da família graças aos rendimentos de um trabalho duro e socialmente desvalorizado.
Em Why School? Reclaiming Education for All of Us, o professor da UCLA traça um panorama de seus estudos nos três campos aqui mencionados, complementando-o com comentários sobre outros assuntos relacionados com educação,
cidadania e cultura.
Em toda a obra o autor tem sempre presentes os ideais de uma sociedade democrática e das demandas de interesse público. Ele observa que os anos recentes foram marcados por um desencanto com instituições e programas públicos. A responsabilidade social foi esquecida, e os políticos promoveram uma visão de que ela poderia ser substituída por iniciativas do setor privado. Essa situação afetou profundamente modos de pensar
sobre metas da educação, inteligência e responsabilidade social. Why School? procura superar tal visão pessimista e recolocar a educação pública no centro do palco de discussões sobre responsabilidade social.
Predomina hoje uma abordagem que enfatiza as finalidades econômicas das escolas. O autor sugere a recuperação dos valores das tradicionais finalidades da educação. Reafirma que esta tem como alvo o desenvolvimento intelectual, cívico e moral. E,
ao considerar resultados da educação, entende que os padrões definidores de desempenho devem ser meta para todos. Rose se coloca contra uma educação menos exigente para as camadas da população que têm mais dificuldades nas escolas. Ao mesmo tempo, nota que é preciso ter sempre em mente as situações de vida que podem criar problemas para os estudantes mais pobres.
Convém citar o autor neste ponto:

A pobreza não diminui necessariamente o poder da mente das pessoas,
mas ela certamente chama a atenção para as competitivas demandas de
segurança e sobrevivência. (p.28)

As situações difíceis de vida, o desemprego, as doenças crônicas podem ser responsáveis pelo fracasso escolar. Todas essas situações precisam ser consideradas em planos de melhoria da educação nas escolas públicas. E Rose, embora perfilhe ao lado de educadores que julgam ser necessário sonhar sonhos democráticos na educação, não alimenta qualquer tipo de messianismo pedagógico. Não defende uma escola salvadora, mas sugere que esta é (ou deve ser) “a instituição central nos planos democráticos do bem comum”.
No Capítulo 4 – Business Goes to School – o professor da UCLA apresenta
a questão da dimensão pública da educação com exemplos e críticas a alguns gestos
muito frequentes de políticos e executivos das grandes corporações. Mostra como é
comum a crítica das empresas e empresários à educação, em especial a pública.
Faz referência à foto em que um empresário, gênio das finanças, aparece dando aulas numa escola de periferia. E pergunta: em que outra área profissional figuras públicas aparecem substituindo profissionais do ramo? Em nenhuma outra, responde. Apenas
em educação os políticos, empresários e artistas surgem como gente capaz de mostrar como fazer as coisas. A implicação desse tipo de participação de celebridades em atividades simbólicas de educação é dupla. Ela mostra que pessoas alheias ao fazer educacional têm soluções mais adequadas que os trabalhadores da educação. Ela reforça uma convicção bastante difundida de quequalquer um pode ensinar. Todas essas mensagens desvalorizam o saber educacional vindo do chão-de-escola e acumulados por
mestres cuja experiência quase sempre é ignorada por acadêmicos e políticos. Rose dá outro exemplo revelador. Num curso para gestores de escolas e sistemas de ensino, um guru da administração aconselha os profissionais a não se envolverem com detalhes do processo educacional, isso poderia desviá-los de julgamentos mais informados do ponto de vista administrativo; diz que a gestão de escolas em nada difere da gestão de fábricas ou hospitais. Esse modo de pensar, diz o professor da UCLA, é uma visão reducionista do que é aprender e ensinar. No jogo das críticas às instituiçõessociais, a escola é alvo de muitas sugestões de como a educação pode ser melhorada. Nos meios de comunicação, sugestões de empresários e celebridades sobre educação ganham manchetes. Mas, não há reciprocidade no caso. Em relações entre empresas e escola nunca se coloca o que a educação tem a dizer sobre práticas de gestão que resultam em danos para a cultura e a ética na sociedade. Rose encerra suas observações sobre educação pública, críticas à escola e o papel das empresas revelando que o gênio de finanças, retratado como “professor” numa escola de periferia e que vai às escolas públicas num trabalho benemérito, é executivo de empresas que praticam rapinagem financeira de curto prazo cujas consequências são desemprego, precarização das relações de trabalho, crise econômica.
As ideias mais instigantes de Rose podem ser encontradas no Capítulo 6, Reflections on Intelligence in Workplace and the Schoolhouse. Ele repara que nosso tempo tem o privilégio de conhecer as obras de Robert Steinberg e Howard Gardner, pesquisadores que mostraram que a inteligência é múltipla e como ações do dia a dia são grávidas de saber. Mas esses avanços no campo de estudos sobre inteligência muitas vezes não são incorporados aos nossos modos de ver o saber em ação na escola e no trabalho. Rose menciona seus estudos recentes sobre o saber em profissões como as de soldador e cabeleireiro. Repara que tais trabalhos têm conteúdos intelectuais respeitáveis e sugerem caminhos pouco trilhados em termos de nossos julgamentos sobre inteligência. As descobertas do autor sobre um saber quase sempre invisível levam-no a reflexões como esta:

Considerem como muitas distinções que fazemos sem cuidado sobre o trabalho e que
acarretam pesadas implicações sobre o trabalho e o trabalhador. Essas distinções
são apresentadas geralmente como pares de oposição: cérebro versus mão, intelectual
versus prático, puro versus aplicado, do pescoço para cima versus do pescoço para
baixo. Tudo isso vem sendo intensificado em nossa era de alta tecnologia. (p. 74)

O autor mostra que preconceitos contra o trabalho manual acabam nos impedindo de ver a riqueza intelectual presente em ofícios como o de carpinteiro, encanador e muitos outros. Além disso, Rose argumenta que certas profissões tradicionais têm todas
as virtudes que os arautos da modernidade estão atribuindo exclusivamente ao trabalho organizado de acordo com as ideias de um modelo de gestão que se diz pós-industrial.
Ouvimos com muita frequência que vivemos num mundo completamente novo. O mundo da alta tecnologia e da sociedade da informação. Esse mundo requer trabalhadores criativos, capazes de resolver problemas, hábeis em colaboração e
comunicação. E os educadores se apressam em dizer que nesse mundo a escola precisa preparar as pessoas para exercício de habilidades básicas requeridas pela nova economia. Ao mesmo tempo, os analistas da nova economia apresentam as velhas
profissões como atividades pouco inteligentes e sem nenhuma das virtudes requeridas para as profissões da sociedade do conhecimento. Esse modo de pensar, segundo Rose, é inadequado para descrever o trabalho. Mais que isso, ele revela preconceitos
contra o trabalho manual, deixando de reconhecer as dimensões de inteligência presentes em atividades humanas que estão na raiz de nossa civilização. É bom citar uma das observações que Rose faz sobre o assunto: A s listas [de habilidades] da “nova economia” sugerem que os trabalhadores de fábricas e dos serviços tradicionais não se baseiam num corpo de conhecimento para fazer seu trabalho, nem aprendem
a resolver problemas, nem têm de coordenar e negociar com outros trabalhadores. (p. 77)
O julgamento feito pelos analistas entusiasmados com a sociedade da informação não tem base histórica sólida. Deixa de perceber muitos dos conteúdos de saber que foram construídos em ambientes de trabalho de modo espontâneo pelos próprios trabalhadores. Um dos resultados dos desvios de tal análise é o de introduzir conteúdos teóricos em planos de formação profissional para enriquecer a educação dos trabalhadores. Rose não desconsidera a importância da educação acadêmica, mas faz
uma advertência: muitas vezes a introdução de supostas teorias na formação do trabalhador é feita à custa do esvaziamento dos saberes do fazer. O resultado final é o empobrecimento de programas educacionais voltados para o trabalho. Rose mostra que as relações entre saberes do trabalho e saberes acadêmicos refletem visões que a sociedade tem sobre inteligência. E essas visões são culturalmente determinadas. Preconceitos contra a inteligência de trabalhadores, operários e profissionais
de áreas de serviço afetam a educação. E as consequências não se reduzem a programas de capacitação profissional, elas talvez sejam até maiores na educação comum oferecida para todas as pessoas. Essas observações do autor sugerem superação dos
modos convencionais de ver o conhecimento que se constrói no e pelo trabalho.
Vale enfatizar ideias de outro capítulo de Why School?Rose, no Capítulo 7 – On Values, Work, and Opportunity – constata que há uma crise de valores que caracteriza nosso
tempo. Nos estudos que fez sobre aprendizagem entre alunos de cursos como os de carpintaria, mecânica ou sistemas hidráulicos, o autor constatou que o saber fazer sempre promove uma dimensão axiológica importante. O orgulho de fazer uma obra
bem feita aflora nas narrativas dos contatos de Rose com alunos e professores de educação profissional:

O desenvolvimento de valores ocorre melhor em situações nas quais os jovens estão engajados em atividade em andamento e significativa. Os valores que emergem nesses exemplos [casos estudados pelo autor] não são ensinados de forma didática, nem são tópicos de uma lição […]. Eles emergem do engajamento em trabalho substancial. Eles não vêm de cima. (p.95)

Rose escreve a partir de observações sobre a educação que se faz nos Estados Unidos. Mas suas observações são muito pertinentes para sistemas educacionais de outros países. Além do que já foi registrado até aqui, o autor aborda questões como
a educação compensatória nas universidades, testes nacionais de verificação de aprendizagem, educação de adultos. O autor considera que a aplicação de testes nacionais de verificação de aprendizagem é uma medida que pode instrumentar
políticas democráticas de educação. Resultados obtidos podem, segundo ele, orientar as escolas para que estas busquem atingir para todos os alunos os padrões desejáveis. Mas ele observa que os testes não esgotam a definição de padrões. Sugere, por isso,
que os fins da educação sejam objetos constantes de discussão pública.
Why School? é um guia para estudos sobre educação e democracia. A obra é iluminada por uma visão que coloca a escola pública no centro de políticas sociais. Isso é um sopro
de esperança num mundo que havia desistido de construir uma sociedade voltada para interesses comuns de todos os seus cidadãos.

 

Jarbas Novelino Barato. Professor. Mestre em Tecnologia
Educacional pela San Diego State University (SDSU). Doutor
em educação pela UNICAMP

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Aquecimento

agosto 29, 2018

Gente que informa

 Essa é uma atividade de busca de informação. As fontes e informação são as pessoas presentes. Tudo funciona como se fosse um jogo no qual cada um de vocês que fazer mais pontos, buscando respostas corretas para a maior parte das perguntas. As regras do jogo são as seguintes:

  • Entreviste pessoas que possam dar respostas para cada uma das perguntas que seguem.
  • Para cada resposta, você deve anotar informação obtida e o nome da fonte.
  • Ganha o jogo quem obtiver o maior número de respostas corretas.
  • Para cada resposta incorreta, o pesquisador perde um ponto.
  • Cada um dos presentes pode ser fonte para apenas duas questões. Se alguém utilizar a mesma fonte para mais de duas questões perderá dois pontos para cada resposta extra.
  • O jogo terminará quando o coordenador decidir, não havendo tempo previamente estipulado para a atividade.
  • Prepare-se para apresentar suas informações publicamente, no final do jogo, se o coordenador lhe solicitar isso.

Questões

 

  1. Já leu um livro do Paulo Freire.
  2. Sabe quem é John Dewey.
  3. Calça 34 ou menos.
  4. Já deu aula para pessoas com mais de 50 anos.
  5. Conhece a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
  6. Chora quando vê um filme muito triste.
  7. Leu um ou mais romances nos dois últimos três meses.
  8.  É capaz de dizer versos de Pablo Neruda.
  9. Não gosta de alfajores.
  10. Teve aula de ética na faculdade.
  11. Tem certeza de que o melhor time da Argentina é o Boca.
  12. Sabe quem é o autor do livro Poema Pedagógico.
  13. Já reprovou um ou mais alunos.
  14. Foi orador ou oradora da turma.
  15. Já ouviu o tango Cambalache.
  16. Tem no bolso ou na bolsa menos dinheiro que eu.
  17. Sabe o nome da capital da Nova Zelândia.
  18. É rigoroso na avaliação dos alunos.
  19. Já leu algum artigo na revista Cuadernos de Pedagogía.
  20. Viu um ou mais episódios da série Merlí no Netflix.
  21. Aprovaria uma praia de nudismo.
  22. Já esteve na Bolivia.
  23. Frequenta a igreja semanalmente.
  24. Acha que o trabalho é uma forma de disciplinar as pessoas.
  25. Faz uma atividade de integração dos alunos no começo das aulas

 

O Samba É Bom…

junho 28, 2018

A escola de amanhã

junho 17, 2018

O primeiro projeto decente de uso da Web para apresentar conteúdo aproveitando bem virtudes desse novo meio de comunicação foi The School of Tomorrow, criação da Academia Americana de Ciências.

O site ficou vários anos no ar. Depois foi retirado. Conservei nos meu guardados uma versão do mesmo em pdf. Outro dia, comecei a converter as páginas de pdf em imagens, com a intenção de publica-las aqui. Neste post, as duas primeiras páginas podem ser vistas com um clic no link que segue.

Infelizmente, a versão imagética do site perdeu as virtudes interativas do original. Não é possível viajar pelos links que aparecem no original, com sons e imagens interessantes.

chap1-1

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Saber interativo

junho 17, 2018

Em 2000/2001 fui um dos professores de curso via web produzido pela Fundação Vanzolini para professores da rede estadual de educação no Estado de São Paulo.  Experiência interessante, pois escrever para a tela é bem diferente do escrever para o papel. Tenho, entre meus guardados, os rascunhos do texto que produzi. Eles estão em velha versão do word, com quadros e imagens que não consegui reproduzir aqui. Mexi um pouco na formatação para que o texto ficasse mais legível. Espero que prováveis leitores apreciem este meu esforço de produzir um texto para a web e para professores.

Se houver alguém interessado pelo original com imagens e exercícios, posso enviar a versão original em word. Para tanto, é só entrar em contato comigo via email: jarbas.barato@gmail.com .

 

VISÃO INTERATIVA DO SABER

Muita gente gosta de arranjar rótulos para períodos históricos. Em livros de história são comuns termos como “idade da pedra lascada”, “idade do bronze”, “idade do ferro”, etc. Nos dias de hoje, são frequentes as comparações entre Sociedade Industrial – uma era histórica cujos começos aconteceram três séculos atrás – e a Sociedade do Conhecimento – a novíssima era cujos começos aconteceram nos anos oitenta do século XX. Gente de empresa, por exemplo, declara que agora os produtos têm um “valor agregado”. E valor agregado, na nova era, é sobretudo conhecimento.

O uso da expressão Sociedade do Conhecimento está ligado a duas dimensões que nos interessam: informática e educação. Em muitos sentidos diz-se que a Sociedade do Conhecimento é um produto da informática. Computadores cada vez mais poderosos, acessíveis por meio de redes planetárias de comunicação eletrônica, colocam qualquer conhecimento humano ao alcance de todos. Quase tudo que um cidadão quer ou precisa saber, dizem os entusiastas pela Sociedade do Conhecimento, pode ser obtido de modo imediato. Basta entrar na rede!

Uma das características da nova era é a velocidade de produção. Diz-se que nos últimos trinta ou quarenta anos a humanidade produziu mais conhecimento que todo o período anterior de cem mil anos. Os entusiastas afirmam que o acervo de saber dos humanos irá dobrar em períodos cada vez mais curtos.

A formidável produção de conhecimentos, nos termos relatados até aqui, parece exigir mais educação. Assim, muitos futurólogos deste final de século insistem em dizer que o setor educacional será um grande campo de trabalho nas próximas décadas. O crescimento acelerado da oferta de conhecimento exigirá, de acordo com as visões futuristas, gente mais educada, capaz de fazer bom uso da formidável massa de conhecimentos que estará disponível para quem saiba aproveitá-la. Além disso, dizem as mesmas fontes, a educação deverá sofrer mudanças significativas para acompanhar as demandas da sociedade do futuro. Para exemplificar, cito a seguir trecho de um documento publicado pela Academia Americana de Ciência na WEB. O documento, um belo exemplo de publicação que usa os recursos computacionais disponíveis, chama-se Reiventing Schools: The Technology Is Now [www.nap-edu/readingroom/books/techgap]:

 

Professores, pais, administradores escolares, e políticos começaram a perceber

que é necessário um modelo de educação inteiramente novo. Nesse novo

tipo de escola, todos os estudantes irão chegar a altos padrões de

aprendizagem porque todas as pessoas deverão estar preparadas para

pensar pela vida inteira; todas as pessoas terão de ser capazes

de aprender muitas novas habilidades durante o curso de

suas vidas. Esse modelo de educação irá aumentar as

ligações entre os estudantes e suas comunidades, fazendo

com que a escola se envolva  com complexas decisões

éticas, técnicas e cívicas que todos os cidadãos terão

de fazer. O período e localização da educação será mais flexível

para refletir e aproveitar vantagens de mudanças

no mercado de trabalho. A distinção entre aprender

dentro e fora da escola perderá sentido.

 

No trecho citado, fala-se de uma nova escola, de uma educação permanente e, sobretudo, de exigências de padrões educacionais muito altos para todos. Além de mudanças nos objetivos, a escola do futuro deverá usar recursos tecnológicos avançados. Deverá aproveitar a fartura de conhecimentos proporcionada pelos novos meios de comunicação. Isso tudo significa mais educação.

CONHECIMENTO OBJETIVADO

Antes de seguir em frente, quero listar algumas características de boa parte dos discursos sobre a nova era. Como veremos, mais à frente, tais características são muito importantes em qualquer discussão sobre como fazer educação. É bom notar que o discurso sobre uma Sociedade do Conhecimento, geralmente:

  1. não distingue informação de conhecimento
  2. não estabelece qualquer critério para avaliar qualidade de conhecimento/informação
  3. vê no conhecimento um produto que pode ser:

> armazenado

> vendido

> comprado

> transmitido

> doado

> controlado por donos ou proprietários

Tais características tem implicações sérias para a educação. A mais séria, no caso, é a implicação de que educar é um ato de transmissão. Não há muita novidade nisso; quase todos os livros de didática descrevem atividade sistemática de ensino como transmissão de conhecimento. Esse modo de ver o trabalho educacional supõe que os conhecimentos tem as características de produto que acabamos de ver.

Pensar o conhecimento com um objeto que independe de agentes do saber e de contextos de significação é uma abordagem que simplifica o entendimento do que é aprendizagem. Essa tendência acaba reforçando a ideia de que aprender é adquirir conhecimento. Na verdade, podemos adquirir informação. Mas o conhecimento só pode ser elaborado por agentes de saber. Essa temática vai merecer um estudo mais extenso na próxima unidade. Por enquanto, eu quero apenas deixar registrado que tratar o conhecimento como um objeto é uma tendência que empobrece nosso modo de ver o processo educacional.

VISÃO INTERACIONISTA

Neste curso, vamos estudar uma proposta à qual tenho dado o nome de abordagem interativa do saber.  Essa abordagem navega contra a corrente. Ao contrário das ideias predominantes, ela está baseada em pontos de vista que:

 

  1. não acham que o conhecimento humano está entrando numa fase de crescimento geométrico
  2. procuram estabelecer uma distinção nítida entre informação e conhecimento
  3. entendem que o conhecimento é uma  elaboração de sujeitos em atos de aprendizagem
  4. sabem  que há uma oferta imensa de informações, mas constatam que um número enorme de pessoas é incapaz de converter informação em conhecimento

Não vou expor a abordagem interacionista agora. Vou apenas apresentar um texto para reflexão, tentando mostrar que muita informação não produz, necessariamente, muito conhecimento.

 

 

FARTURA DE INFORMAÇÃO

Nosso tempo é uma época de muita fartura de informação. A famosa banca de jornais da Praça Villaboim oferece cerca de quinhentos títulos diferentes de livros, livretos, jornais, revistas etc. E essa oferta já não é tão nova, Caetano Veloso, em música muito conhecida, perguntava no fim dos anos sessenta: “quem lê tanta notícia?” A oferta de fontes de informação na Internet já se conta na casa dos milhões. Acadêmicos, como o professor Donald Norman, recebem em torno de dois mil e-mails por mês.

Tanta fartura é coisa recente na história. No século XIV, por exemplo, como conta S. Tuchman em A Distant Mirror, um rei francês deixou como principal item de herança um bem de preço incalculável: uma biblioteca com três centenas de livros! Hoje, qualquer professor universitário, tem bibliotecas pessoais que ultrapassam em muito a famosa coleção de livros do monarca francês de seiscentos anos atrás.

Há muita informação disponível. E o preço dessa mercadoria vem caindo sistematicamente. Isso não garante que estejamos ficando mais sábios e inteligentes. Sempre que vejo comentários sobre fartura de informação, lembro-me de dois nomes: Aristóteles e Santo Agostinho. Ambos foram gênios e produziram uma obra imensa. Aristóteles viveu a dois mil e quatrocentos anos. Agostinho, a mil e seiscentos. Possivelmente, nem um nem outro tinha biblioteca pessoal equiparável à de um intelectual do século XX. Não dispunham de muita informação. Apesar disso produziram uma obra que continua a ter grande importância para o pensamento de homens que vivem nesta virada de milênio.

 

 

 

Em vez de continuar com nossa conversa sobre conhecimento e informação, faço uma pequena pausa e proponho alguns exercícios, algumas vivências, como dizem os especialistas em treinamento.

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

Exercício/Vivência

Ver informação e conhecimento como sinônimos é uma crença bastante generalizada. Em educação, costumamos pensar que o conhecimento está no texto dos livros. É comum, por exemplo, a expressão “apropriar-se de conhecimentos”. Essa apropriação se faz como um ato de tomada de posse do texto. E, ao fazer isso, o aluno se torna proprietário do conhecimento pois este está contido nas palavras escritas. A crença em foco não é produto de ingenuidade ou ignorância das pessoas. Ela é uma ideia dominante uma vez que as estruturas escolares que conhecemos reforçam a convicção de que o saber pode ser capturado pela linguagem, sobretudo a linguagem escrita.

Para encaminhar uma reflexão sobre as relações entre texto e saber, proponho aqui um exercício. Vou sugerir a leitura de um pequeno escrito dos pesquisadores Bransford e Johnson (1972), citado no livro The Constructive Metaphor (Spivey, 1997). É um trecho curto, sem nenhuma grande dificuldade de estrutura e de vocabulário.

 

O exercício é simples. Você deve:

 

> ler o texto, tentando entendê-lo

> descrever, em quatro ou cinco palavras, a atividade à qual o texto se refere

> comparar sua resposta com a resposta fornecida pelos autores

Vamos ao trabalho!

 

COISAS DA VIDA

 

O procedimento é muito simples. Em primeiro lugar você separa as coisas em diferentes grupos. É claro que um único monte será suficiente, dependendo da quantidade a ser processada. Ir a outro lugar devido à ausência de equipamento poderá ser o segundo passo; se essa providência for necessária, você estará pronto para continuar. É importante não exagerar na dose. Ou seja, é melhor fazer poucas do que muitas coisas de uma vez. A curto prazo isto pode não parecer importante, mas complicações podem surgir facilmente. Da mesma forma, um erro pode custar caro. No começo, o processo inteiro parecerá complicado. Logo, porém, ele vai se tornar uma outra faceta da vida. É difícil prever qualquer fim para a necessidade dessa tarefa num futuro próximo; mas, quem pode afirmar isso com certeza? Depois que o processo estiver completo, você deve organizar as coisas em diferentes grupos outra vez. A seguir, elas podem ser colocadas em seus lugares. E, quase certamente, serão usadas de novo e um ciclo completo terá de ser repetido. Mas isso faz parte da vida.

Agora que você já leu Coisas da Vida, tente adivinhar a atividade descrita pelo texto. Procure escrever sua adivinhação em poucas palavras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIMPAR
resposta
CONFIRMAR

Compare sua solução com o título dado pelos autores do texto, em

 

(V) resposta deve estar em localização que não permita ao usuário ter acesso à solução do problema antes de registrar sua (dele) tentativa. (V)

 

RESPOSTA PARA COISAS DA VIDA

 

§  Como lavar roupas (usando máquina de lavar)

 

 

REFLEXÕES SOBRE COISAS DA VIDA

 

Em experiências realizadas por Bransford e Johnson, os leitores de Coisas da Vida não conseguiam descobrir que o texto referia-se a atividade de lavar roupas. E isso acontecia porque os autores procuraram eliminar palavras que pudessem indicar contexto ao qual o texto se referia. Por essa razão, os leitores não conseguiam dar sentido ao texto.

Entender um texto (uma informação) requer iluminá-lo com conhecimento, dando-lhe sentido. Mas se encontrarmos um texto – fácil ou difícil – ao qual não possamos aplicar nosso conhecimento, é quase impossível o entendimento. Nessa altura acho que é bom citar uma explicação da professora Spivey (1997):

Entender um texto é um processo ativo de construir significado desde os sinais que o escritor fornece. E compor um texto é um processo ativo de construir significado para um texto e usar pistas  textuais para sinalizar significado para os leitores (p. 146)

 

Não vou falar muito sobre a experiência. Quero apenas insistir nas idéias de que:

 

  1. textos passam informação
  2. informação precisam ser interpretadas
  3. interpretações são atos de conhecimento

Se você quiser utilizar Coisas da Vida com um grupo de leitores e ver o que acontece, imprima o texto e boa sorte. Antes de seguir em frente, medite um pouco mais sobre Coisas da Vida.

 

Perigo vermelho!

junho 15, 2018

perigo vermelho

O que é ética?

junho 15, 2018

mafalda

junho 15, 2018

10 >>> A memória é sua principal inimiga. Lembra tudo o que ele quer esquecer. Esquece tudo que ele quer lembrar.

Blogs e Webescrita

junho 15, 2018

blog theory

DEAN, Jodi. blog theory: feedback and capture in the circuits of drive. Malden, MA: Polity Press, 2010. 153 p.

Novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs) ganham espaço cada vez maior na vida cotidiana. Essas tecnologias são vistas como avanços desejáveis, pois os ganhos que trazem em termos de ampliação do conhecimento são imensos. Tal interpretação do papel das NTICs tem uma dupla face. De um lado, ela entende que produção e acumulação de saberes é um processo contínuo e cumulativo. De outro, ressalta a necessidade de se adotarem as mudanças que as mais recentes tecnologias trazem. Comentários nos meios de comunicação e em produções acadêmicas tendem à tecnofilia. Ao mesmo tempo, a aceitação entusiasmada das NTICs tem muitos traços de ingenuidade.

O pensamento hegemônico sobre as novas tecnologias da informação e comunicação sugere que sociedade e indivíduos têm conhecimento cada vez maior, que a educação dará um salto de qualidade e que a prática política ganhou grandes espaços de exercício da liberdade. Tais conclusões não são fruto de análises aprofundadas das NTICs. São, muito mais, consequências de crenças que ignoram qualquer análise crítica dos novos meios de comunicação.

Blog Theory, obra de Jodi Dean, contesta o pensamento hegemônico. Examina o fenômeno dos blogs, tentando perceber o significado dessa prática comunicativa na sociedade e para os blogueiros individualmente. A autora, porém, não se restringe aos blogs. Na verdade, realiza uma análise mais ampla, incluindo em seu estudo outras práticas comunicativas que ganharam espaço expressivo na web.

A intenção de Dean é analisar criticamente as NTICs a partir de uma tradição que busca entender o significado e impactos sociais das tecnologias, assim como a maneira pela qual as forças hegemônicas se apropriam das ferramentas de comunicação. Ela procura superar o nível das aparências para desvelar o que está acontecendo nos planos coletivo e individual. Há mudanças. Mas, que mudanças estão acontecendo em modos de ver a vida, no plano dos valores, na vida política, no plano epistemológico? Respostas a essas perguntas balizam o caminho percorrido por Dean.

A autora reconhece que analisar criticamente as NTICs não é tarefa fácil. A atualidade das análises é efêmera, pois as novas redes de comunicação são turbulentas, sempre mutantes. Muitos de seus aspectos definidores desaparecem em pouco tempo. A obsolescência de equipamentos e ferramentas é extremamente acelerada. Por esses motivos, livros que abordem criticamente os novos meios de comunicação correm o risco de ficarem desatualizados assim que chegarem às livrarias. Por outro lado, utilizar a própria web para registrar aspectos críticos em blogs e outros ambientes de publicação digital é providência vã, pois o conteúdo não merecerá a devida atenção.

Dean mostra que os livros desempenham papel importante na elaboração e no registro de análises críticas. Sugere que as mídias digitais não conseguem substituí-los em tal função. Conclui que eles continuam a ser o veículo mais adequado para articular análises que evidenciem as consequências mais profundas das NTICs.

O funcionamento da Internet, segundo a autora, mostra a emergência do capitalismo da comunicação. Esse fenômeno vem recebendo diversos nomes, com destaque para “sociedade da informação”. No entanto, quase sempre os analistas ignoram o capital como o maior interessado na produção, na circulação e no uso de uma commodity intangível que vem mudando as relações entre as pessoas, a formação de identidade e os modos de ver o mundo. Para Jodi Dean, “o capitalismo marca a estranha convergência da democracia e do capitalismo em redes de comunicações e mídias de diversão” (p. 4).

Para mostrar os desdobramentos ideológicos do ambiente mediático de nossos dias, Dean examina como movimentos de esquerda com raízes nos anos 1960,acreditando em virtudes intrínsecas das redes de comunicação, acabaram caindo em armadilhas e passaram a defender valores que criticavam. Para ela, esse é o caso, por exemplo, dos novos comunalistas. Estes, ao abraçarem promessas libertárias da Internet, aliaram-se aos adversários de outrora – as forças armadas, o capital, a burocracia –, promovendo ideias neoliberais e justificando a flexibilização do trabalho e outras decorrências de um capitalismo no qual se entranha a comunicação.

As observações de Jodi Dean sobre aspectos ideológicos promovidos no e pelo uso das redes digitais nada têm a ver com teorias conspiratórias. A autora examina as práticas comunicativas correntes e nelas encontra características que não são evidentes para usuários e entusiastas das novas mídias. Ela busca caracterizar que cultura e sociedade estão sendo construídas naquilo que se convencionou chamar de “sociedade da informação”.

Na produção e circulação de informações, a autora vê um fenômeno que precisa ser considerado: o fenômeno da reflexibilidade. Este, em síntese, é caracterizado por uma circularidade, na qual informação gera mais informação, sem qualquer referência a realidades que não integrem as redes digitais. No plano individual, a reflexibilidade gera comportamentos análogos aos da obsessão pelo jogo. Usuários de redes sociais entram em um circuito que não privilegia conteúdos, mas o constante uso de veículos de informação.

Nos planos axiológicos e epistemológicos, Jodi Dean sugere que a utilização das novas mídias caminha na direção do declínio da eficiência simbólica. Ou seja, as pessoas deixam de ter uma referência sólida para julgar a informação. Vale tudo. Em Blogs e outros meios de expressão digital, acredita-se que todas as opiniões sejam válidas. A tendência reforça traços de relativismo já presentes na cultura ocidental antes do advento das redes digitais. No caso dos valores, há um esvaziamento de referências aceitas coletivamente. No caso da ciência, há uma crença de que todo e qualquer saber é equivalente. O resultado dessas maneiras de ver é que banalidades sem fundamento e afirmações ancoradas em investigações sistemáticas em nada diferem. São informações que entram no circuito, reivindicando tratamento igualitário.

Predomina na rede digital impulso para o uso, não importando outros fins. A lógica do sistema é a de um consumo cada vez mais avassalador de informações, não pelo valor intrínseco destas últimas, mas pelo sentimento de participar de um processo informativo que não cessa. A comunicação constante é uma obrigação. Mais ainda: uma obsessão. É preciso comunicar-se, não importa para quê, nem o que comunicar.

Dean consagra um capítulo inteiro à questão do afeto (Affective Networks). A autora observa: “O capitalismo da comunicação manda nos divertirmos, ao mesmo tempo que nos adverte de que não estamos nos divertindo o bastante, ou tão bem como os outros. Nossa diversão permanece frágil, arriscada”(p. 92).

A ordem para nos divertirmos aparece de diversas formas. Uma delas é a de sentir-se membro de uma comunidade que, segundo a autora, “é uma comunidade sem comunidade”. Contraditoriamente, as redes facilitam a superação do isolamento, embora as pessoas continuem isoladas. Outra forma é a da repetição. Faz-se a mesma coisa o tempo todo. Não importa o significado do que é repetido, mas sempre a repetição, em um ritmo cada vez mais envolvente. Repetição e redundância é o nome do jogo. Isso já era característico nos meios de comunicação de massa que chegaram um pouco mais cedo que as redes digitais. Essa circunstância foi e é largamente utilizada em publicidade na TV.

Convém, mais uma vez, recorrer ao texto da autora:

A  dimensão aditiva da comunicação pela comunicação marca um excesso. Esse excesso não é novo significado ou perspectiva. Ele não se refere a um novo conteúdo. Em vez disso, advém da repetição, agitação ou emoção por mais. Na duplicação reflexiva da comunicação, a diversão incorporada à comunicação pela comunicação desaloja intenção, conteúdo e significado. O extra na repetição é diversão, a diversão que é capturada no impulso e na diversão expropriada pelo capitalismo da comunicação. (p. 116)

A meta, como já se disse, é a de usar a rede. E usá-la à exaustão. O discurso ideológico justifica tal uso com promessa de mais conhecimento. Mas, conforme diz a autora, “quanto mais conhecimento incorporamos, menos sabemos”. Na verdade, oque predomina é a circulação de informação, não a sua apropriação pelos usuários. Uma das consequências disso é a falta de ação. Em vez de agir, busca-se mais informação. Os resultados encontrados não satisfazem. Por isso, mais informações são procuradas. Esse processo não tem fim, e estar nele é fonte de prazer. A produção de informação com características de reflexibilidade é uma criação dos usuários. Eles acabam produzindo o ambiente em que vivem, pois as conexões estabelecidas no interior do sistema configuram as pessoas. Gerar informação, consumi-la, reproduzi-la, dentro de um loop, substitui busca de sentido, de significado; é tudo que se quer.

Apesar do título de seu livro e de ter um capítulo dedicado aos blogs, estes não são o foco de Dean, mas, sim, as práticas mediáticas que se tornaram comuns com a chegada dos recursos digitais. A autora faz menção às características técnicas dos diários eletrônicos e examina as analogias mais comuns que são utilizadas para defini-los. Ela, porém, não se prende a visões mais tradicionais. Para além de aparências óbvias de blogs como diários eletrônicos ou formas de expressão de um novo jornalismo, Jodi Dean mostra como a prática deles está a serviço da expressão da subjetividade.

A autora vai buscar nas práticas epistolares do antigo Império Romano, assistida por estudos realizados por Michel Foucault, analogias para iluminar o sentido da escrita em diários eletrônicos. Revela que as correspondências produzidas pelos latinos tinham acima de tudo características de auto-escrita. A arte de escrever cartas era vista como um elemento de reflexão. Nesse sentido, importava pouco o que comunicar. Importava o próprio exercício de produzir as cartas, mesmo que estas não fossem enviadas aos seus destinatários. Essa é uma descoberta intrigante. O ato, a prática era mais importante que o escrito. E é isso o que acontece com os blogs: valem para eles as observações feitas para todo o sistema de comunicação digital. Eles são uma alternativa de ingresso na ciranda interminável de gerar e consumir informação, pouco importando o conteúdo. Também concretizam o sentimento de participação no qual se acentua a dimensão afetiva. Não são, assim, diferentes de qualquer outro formato que facilita a participação dos usuários na Web.

Blog Theory é um livro denso e exigente. A autora, para desenvolver seus argumentos, recorre a uma ampla literatura, influenciada principalmente por Lacan. Cada capítulo da obra mereceria uma resenha própria para que não se perdessem elementos importantes das análises feitas por Dean. Porém, os registros aqui feitos são suficientes para situar a obra e sua importância em áreas relacionadas com informação e comunicação. Importa assinalar como Blog Theory sugere novos modos de ver as NTICs em educação. O estudo de Dean mostra que aproveitamentos de qualidades aparentes da web para finalidades pedagógicas não podem acontecer de modo ingênuo. O predomínio de práticas de comunicação pela comunicação é um traço que deveria merecer análises críticas dos educadores. Usos educacionais das NTICs, caso ignorem uma visão crítica, irão apenas facilitar ingresso dos alunos em circuitos comunicativos que desconsideram conteúdos e significados.

 

 

 

Redação Cooperativa: Novas Histórias

março 22, 2018

O Trompetista sem Ritmo

 

Tudo está preparado para a grande noite. A orquestra sinfônica da pequena cidade de Barben finalmente vai tocar no palácio de Ethanis. O maestro, antes da viagem, faz mais um ensaio geral e descobre que nem tudo vai bem. Um trompetista está sem noção de ritmo. Às vezes se adianta aos demais. Às vezes se atrasa. E com isso, a harmonia fica comprometida. O grupo viaja amanhã. Não é possível substituir o trompetista desritmado.

O maestro pensa em caminhos possíveis. Um deles é o de combinar com o trompetista que ele irá para o palco com a orquestra e simulará que está tocando. Assim, com seu trompete mudo, a harmonia da orquestra estará garantida. Outra possibilidade é a de insistir em ensaios individuais com o músico sem ritmo até o momento do concerto, na esperança de que ele entrará no tempo certo na hora do espetáculo. Há ainda mais uma possibilidade: o músico sem ritmo seguirá com o grupo para o palácio de Ethanis, mas ficará na plateia, sem comprometer o desempenho da orquestra. O maestro precisa escolher um caminho. Mas a escolha não resolve tudo. Ele ainda não sabe como reagirá o trompetista. Não sabe também como reagirão os demais músicos depois de tanto ensaio e da proximidade do sonho de subirem ao palco do palácio de Ethanis.

 

 

Depois do Rio no Meio do Caminho

 

Eles são cinco, dois rapazes e três moças. Estão bem preparados para o exame que lhes dará o direito de representar a arte de Ethanis em outra galáxia. Mas, ainda estão no começo da viagem para a capital. Acabam de chegar às margens de um grande rio, muito largo e profundo. Não há pontes. Não há barcos. Do grupo, dois sabem nadar, um rapaz e uma moça. Os nadadores são muito experientes e podem carregar os companheiros, um por vez, até a outra margem. É uma operação com certo perigo, mas as águas são calmas. A solução, porém, pode custar caro. Como a operação será demorada, o grupo talvez não chegue a tempo à capital para o exame. A moçada não conhece o rio, mas desconfia que em algum ponto ele talvez dê vau. Se estiverem com sorte, poderão encontrar tal ponto logo e atravessar o rio em segurança. Se a sorte não ajuda-los, a busca por um vau no rio poderá ser muito demorada, atrasando em demasia a ida para a capital.

Os dois nadadores lideram o grupo e precisam fazer uma escolha. A primeira delas é a de seguirem caminho, deixando para trás os companheiros que não sabem nadar. A segunda é a de planejar e executar a travessia levando, um por vez, os amigos que não sabem nadar. Finalmente, podem desistir da travessia a saírem em busca de um ponto onde haja vau. A gloriosa vida de artistas representantes de Ethanis está ainda num horizonte distante e é preciso tomar uma decisão para seguir viagem.

 

Orelhas Grandes

 

Em Ethanis, o povo tem orelhas pequenas, delicadas. Mas, Marenka, recepcionista do escritório dos entases (um grupo importante da moda em Ethanis) tem orelhas imensas (pelo menos para os padrões do planeta). Os entases em cargos gerenciais estão reunidos informalmente para trocar impressões sobre o trabalho. E, entre uma e outra taça do excelente vinho ethaniano, falam de Marenka. Ridicularizam as imensas orelhas da moça, Riem. O diretor geral acompanha a divertida conversa com um sorriso de aprovação. Savenko, gerente de produtos, fica incomodado, ele não acha certo que as orelhas de Marenka sejam objeto de riso. E fica mais incomodado ainda quando percebe que o diretor geral está dando corda a seus subordinados para que eles, cada vez mais, inventem uma nova gracinha para falar da aparência da recepcionista.

Savenko está numa situação incômoda. Ele não acha certo que características físicas das pessoas sejam tratadas daquela maneira. Mas, até o diretor geral está se divertindo com as piadas sobre Marenka. O que fazer? Savenko pode ficar quieto e apenas não participar daquela conversa que, para ele, tem traços de crueldade, para depois, privadamente, dizer a colegas mais chegados que aquele não era um comportamento que ele esperava de gerentes. Ou Savenko pode ser ousado e interromper toda aquela diversão dizendo ao diretor geral que o que estão fazendo é um massacre cruel contra pessoa que faz bom trabalho e apenas tem orelhas grandes. Isso lhe custará perda de pontos para a esperada promoção. E não é  mais possível esperar, Savenko tem que tomar uma decisão.

 

A Fada que Procurava Emprego

 

Chamava-se Anne Krissimina e era uma fadinha nova. Tinha só mil e duzentos anos. Apesar de nova, era muito experiente. Fez um sapo virar príncipe. Encantou um rei com sua voz maravilhosa. Cachorros bravos ficavam mansinhos quando a viam. Ajudou muitas outras fadas em histórias que toda criança conhece. Mas os tempos mudaram. Ninguém mais acredita em fadas. E já faz mais de dez anos que Anne Krissimina está desempregada. Procurou emprego em toda parte, mas não há serviço para fadas em Ethanis.

Um dia, a fadinha andava pela rua distraída. Olhava as naves espaciais estacionadas lendo as placas para saber se existiam mais números ímpares ou números pares. Os ímpares estavam vencendo. Numa nave antiga, cor de rosa e placa de número ímpar, ela viu um adesivo que a deixou animada. Nele estava escrito; “eu acredito em fadas”. Anne Krissimina voltou a ter esperanças. Quem sabe o dono ou dona daquela nave não poderia lhe arrumar trabalho de fada. A fadinha ficou aguardando, tinha certeza que sua vida ia mudar.

Tiscar, a dona da nave, estava mesmo procurando uma fada e empregou Ana Krisimina imediatamente. A fadinha, porém, não teria vida fácil. Tiscar a desafiou com problemas muito sérios. O que queria a patroa? Queria que Ana indicasse meios para que as pessoas deixassem de sujar o planeta com tanto lixo. Algumas possíveis soluções estavam fora do jogo. Nada de leis. Nada de punições. Nada de campanhas nos meios de comunicação. Nada de sermões sobre a poluição. Tiscar queria que Ana Krissimina inventasse soluções novas que garantissem que a poluição iria sumir de Ethanis. Começava assim o maior desafio na vida da fadinha.