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Ética e estética em educação profissional

dezembro 4, 2021

Um dos lançamentos do meu Fazer Bem Feito aconteceu, anos atrás, no Conselho Nacional de Educação. Para o evento, preparei um roteiro, destacando alguns aspectos que poderiam chamar atenção para o conteúdo do livro. Tal roteiro ficou muito tempo entre meus guardados. Resolvi compartilhá-lo agora, pois acho que ele é uma bom ponto de partida para conversas sobre valores em educação profissional e tecnológica.

Fazer Bem Feito

Em vinte minutos não é possível oferecer um painel bastante completo do estudo que realizamos para a UNESCO, nem apontar todos os aspectos que merecem atenção no livro. Optei por apresentar alguns aspectos que podem provocar maior interesse e/ou um levantar de sobrancelhas de quem estuda e reflete sobre valores em educação.

Escolhi um caminho dividido em dois tempos. No primeiro tempo apresento dois casos exemplares. No segundo, apresento três direções que me parecem interessantes.

Antes de ir para os casos, uma observação. No estudo que fizemos, procuramos não ficar apenas na ÉTICA. Procuramos também examinar ESTÉTICA e AXIOLOGIA. Cumpre reconhecer, porém, que a tentação de ficar apenas no campo da ética é muito grande.

Estrutura geral:

Dois casos:

  • A moça que amava o uniforme da escola.
  • O menino que acariciava madeira

Três direções:

  • Espaços de aprendizagem são essenciais no desenvolvimento de valores.
  • A aprendizagem, de conceitos, competências, valores é um empreendimento coletivo, por isso é de fundamental importância a comunidade de prática para que os alunos se façam trabalhadores.
  • O fazer das instituições profissionais sugerem que o desenvolvimento moral dos alunos é orientado pela ética do cuidado.

Casos

Caso 1: A moça que amava o uniforme da escola.

Curso de salgadeiro. Senai do Porto, Cuiabá. Escolhi a turma que tinha cinco deficientes visuais. Conversei longamente com uma moça de quarenta e poucos, cega desde os dezenove. Alegre, de bem com a vida. Amava dançar. Feliz no curso. Aprendendo muito e cobrando uma política complementar para o PRONATEC: fonte de financiamento para que os salgadeiro pudessem comprar equipamentos profissionais. O ambiente de trabalho/aprendizagem  no Senai do Porto é ótimo. De primeiro mundo, diriam alguns. Além disso, os alunos tinham diversos apoios para que pudessem frequentar o curso. E o Senai forneceu uniforme, um camisa bem transada, com nome da escola e do curso. A moça me disse que vestia aquela camisa com maior orgulho. [A camisa representava todos os cuidados que ela estava recebendo]. A revelação foi inesperada. Alguém talvez esperasse um discurso de caráter econômico, de expectativas quanto a ganhos que o trabalho de salgadeiro poderia trazer. Mas, a moça quis falar sobretudo sobre seu orgulho de voltar à escola, ser publicamente reconhecida como estudante em uma instituição de respeito.

Como diz Mike Rose, citando fala de um aluno adulto que teve uma segunda chance escolar:

“VOCÊ É CAPAZ DE SE DESCOBRIR ALGUÉM QUE NUNCA IMAGINOU SER.”

O caso dessa aluna me permite tirar o foco do aluno e propor reflexões sobre valores no plano institucional. Oportunidade para falar sobre arquitetura e educação. Sobre respeito que transparece naquilo que as instituições oferecem como condições materiais d trabalho/aprendizagem em EPT.

Muito o que falar sobre a moça e o orgulho de uma adulto que volta à escola e encontra condições muito dignas para aprender.

Caso 2: O aluno que acariciava madeira.

Curso de marcenaria. Oficinas artesanal e industrial exemplares. Alunos aprendem fazendo uma obra a cada semestre. Vi a turma desenvolvendo um rack. Comecei a prestar atenção num aluno muito pequeno, apesar de seus 16 anos, que às vezes não conseguia alcançar o painel de controle das máquinas. Ele havia feito um emenda de madeira no fundo do seu rack. Ficou perfeito. Leigos não conseguiriam ver a emenda. Ele passava continuamente a mão sobre a emenda, num gesto de carícia e admiração. O professor chegou. E ele também acariciou a madeira. Muitas leituras para o gesto. Mas vou resumir a ópera: no gesto o menino pequeno revelava admiração pela obra.

Estética e ética num mesmo evento. Compromisso. Engajamento. Admiração. Autoestima. Respeito pela obra. Fazer bem feito, mesmo num fundo de móvel que ninguém vai ver.

Direções

Recomendações. Políticas. Indicações didático-pedagógicas.

  1. Espaços de trabalho/aprendizagem. Em EPT necessariamente espaços de trabalho/aprendizagem. Importância fundamental da arquitetura, das ferramentas, dos insumos, das obras. Os valores estão entranhados em tais espaços e nas tramas que neles ocorrem. Sem tais espaços, temos uma EPT pobre, precária, sem dignidade. Um chamado para considerar arquitetura e educação em conversas sobre valores.
  2. Comunidades de prática. Ao entrar num curso de EPT, caso a aprendizagem aconteça em oficinas, o aluno ingressa numa comunidade de prática [prática social] que tem obras no horizonte. Não aprende o QUE. Aprende a SER. Não aprende simplesmente a faze móveis, aprende a ser marceneiro.
  3. Ética do cuidado. Cuidado com quem? Cuidado com o que? Quem: companheiros e beneficiários. Que: a obra, as ferramentas, o ambiente [meio ambiente e ambiente profissional], os insumos.

NTIC’s: uma visão crítica

dezembro 2, 2021

Novas tecnologias costumam ser apresentadas como um evangelho. São vistas como redentoras. A isso, alguns autores dão o nome de tecnofilia, uma nova religião. Os fieis não admitem qualquer crítica. Algumas vezes, as críticas não têm muito fundamento e os crentes da tecnologia as rejeitam com razão. Mas, há críticas bem fundamentadas. uma delas apareceu num livro chamado Blog Theory, de Jodi Dean. Gostei muito da obra e a resenhei. A resenha apareceu no Boletim Técnico do Senac. Mas, já faz algum tempo. Por isso resolvi reproduzi-la aqui.

DEAN, Jodi. blog theory: feedback and capture in the circuits of drive. Malden, MA: Polity Press, 2010. 153 p.

Novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs) ganham espaço cada vez maior na vida cotidiana. Essas tecnologias são vistas como avanços desejáveis, pois os ganhos que trazem em termos de ampliação do conhecimento são imensos. Tal interpretação do papel das NTICs tem uma dupla face. De um lado, ela entende que produção e acumulação de saberes é um processo contínuo e cumulativo. De outro, ressalta a necessidade de se adotarem as mudanças que as mais recentes tecnologias trazem. Comentários nos meios de comunicação e em produções acadêmicas tendem à tecnofilia. Ao mesmo tempo, a aceitação entusiasmada das NTICs tem muitos traços de ingenuidade.

O pensamento hegemônico sobre as novas tecnologias da informação e comunicação sugere que sociedade e indivíduos têm conhecimento cada vez maior, que a educação dará um salto de qualidade e que a prática política ganhou grandes espaços de exercício da liberdade. Tais conclusões não são fruto de análises aprofundadas das NTICs. São, muito mais, consequências de crenças que ignoram qualquer análise crítica dos novos meios de comunicação.

Blog Theory, obra de Jodi Dean, contesta o pensamento hegemônico. Examina o fenômeno dos blogs, tentando perceber o significado dessa prática comunicativa na sociedade e para os blogueiros individualmente. A autora, porém, não se restringe aos blogs. Na verdade, realiza uma análise mais ampla, incluindo em seu estudo outras práticas comunicativas que ganharam espaço expressivo na web.

A intenção de Dean é analisar criticamente as NTICs a partir de uma tradição que busca entender o significado e impactos sociais das tecnologias, assim como a maneira pela qual as forças hegemônicas se apropriam das ferramentas de comunicação. Ela procura superar o nível das aparências para desvelar o que está acontecendo nos planos coletivo e individual. Há mudanças. Mas, que mudanças estão acontecendo em modos de ver a vida, no plano dos valores, na vida política, no plano epistemológico? Respostas a essas perguntas balizam o caminho percorrido por Dean.

A autora reconhece que analisar criticamente as NTICs não é tarefa fácil. A atualidade das análises é efêmera, pois as novas redes de comunicação são turbulentas, sempre mutantes. Muitos de seus aspectos definidores desaparecem em pouco tempo. A obsolescência de equipamentos e ferramentas é extremamente acelerada. Por esses motivos, livros que abordem criticamente os novos meios de comunicação correm o risco de ficarem desatualizados assim que chegarem às livrarias. Por outro lado, utilizar a própria web para registrar aspectos críticos em blogs e outros ambientes de publicação digital é providência vã, pois o conteúdo não merecerá a devida atenção.

Dean mostra que os livros desempenham papel importante na elaboração e no registro de análises críticas. Sugere que as mídias digitais não conseguem substituí-los em tal função. Conclui que eles continuam a ser o veículo mais adequado para articular análises que evidenciem as consequências mais profundas das NTICs.

O funcionamento da Internet, segundo a autora, mostra a emergência do capitalismo da comunicação. Esse fenômeno vem recebendo diversos nomes, com destaque para “sociedade da informação”. No entanto, quase sempre os analistas ignoram o capital como o maior interessado na produção, na circulação e no uso de uma commodity intangível que vem mudando as relações entre as pessoas, a formação de identidade e os modos de ver o mundo. Para Jodi Dean, “o capitalismo marca a estranha convergência da democracia e do capitalismo em redes de comunicações e mídias de diversão” (p. 4).

Para mostrar os desdobramentos ideológicos do ambiente mediático de nossos dias, Dean examina como movimentos de esquerda com raízes nos anos 1960, acreditando em virtudes intrínsecas das redes de comunicação, acabaram caindo em armadilhas e passaram a defender valores que criticavam. Para ela, esse é o caso, por exemplo, dos novos comunalistas. Estes, ao abraçarem promessas libertárias da Internet, aliaram-se aos adversários de outrora – as forças armadas, o capital, a burocracia –, promovendo ideias neoliberais e justificando a flexibilização do trabalho e outras decorrências de um capitalismo no qual se entranha a comunicação.

As observações de Jodi Dean sobre aspectos ideológicos promovidos no e pelo uso das redes digitais nada têm a ver com teorias conspiratórias. A autora examina as práticas comunicativas correntes e nelas encontra características que não são evidentes para usuários e entusiastas das novas mídias. Ela busca caracterizar que cultura e sociedade estão sendo construídas naquilo que se convencionou chamar de “sociedade da informação”.

Na produção e circulação de informações, a autora vê um fenômeno que precisa ser considerado: o fenômeno da reflexibilidade. Este, em síntese, é caracterizado por uma circularidade, na qual informação gera mais informação, sem qualquer referência a realidades que não integrem as redes digitais. No plano individual, a reflexibilidade gera comportamentos análogos aos da obsessão pelo jogo. Usuários de redes sociais entram em um circuito que não privilegia conteúdos, mas o constante uso de veículos de informação.

Nos planos axiológicos e epistemológicos, Jodi Dean sugere que a utilização das novas mídias caminha na direção do declínio da eficiência simbólica. Ou seja, as pessoas deixam de ter uma referência sólida para julgar a informação. Vale tudo. Em blogs e outros meios de expressão digital, acredita-se que todas as opiniões sejam válidas. A tendência reforça traços de relativismo já presentes na cultura ocidental antes do advento das redes digitais. No caso dos valores, há um esvaziamento de referências aceitas coletivamente. No caso da ciência, há uma crença de que todo e qualquer saber é equivalente. O resultado dessas maneiras de ver é que banalidades sem fundamento e afirmações ancoradas em investigações sistemáticas em nada diferem. São informações que entram no circuito, reivindicando tratamento igualitário.

Predomina na rede digital impulso para o uso, não importando outros fins. A lógica do sistema é a de um consumo cada vez mais avassalador de informações, não pelo valor intrínseco destas últimas, mas pelo sentimento de participar de um processo informativo que não cessa. A comunicação constante é uma obrigação. Mais ainda: uma obsessão. É preciso comunicar-se, não importa para quê, nem o que comunicar.

Dean consagra um capítulo inteiro à questão do afeto (Affective Networks). A autora observa: “O capitalismo da comunicação manda nos divertirmos, ao mesmo tempo que nos adverte de que não estamos nos divertindo o bastante, ou tão bem como os outros. Nossa diversão permanece frágil, arriscada”(p. 92).

A ordem para nos divertirmos aparece de diversas formas. Uma delas é a de sentir-se membro de uma comunidade que, segundo a autora, “é uma comunidade sem comunidade”. Contraditoriamente, as redes facilitam a superação do isolamento, embora as pessoas continuem isoladas. Outra forma é a da repetição. Faz-se a mesma coisa o tempo todo. Não importa o significado do que é repetido, mas sempre a repetição, em um ritmo cada vez mais envolvente. Repetição e redundância é o nome do jogo. Isso já era característico nos meios de comunicação de massa que chegaram um pouco mais cedo que as redes digitais. Essa circunstância foi e é largamente utilizada em publicidade na TV.

Convém, mais uma vez, recorrer ao texto da autora:

“A dimensão aditiva da comunicação pela comunicação marca um excesso.Esse excesso não é novo significado ou perspectiva. Ele não se refere a um novo conteúdo. Em vez disso, advém da repetição, agitação ou emoção por mais. Na duplicação reflexiva da comunicação, a diversão incorporada à comunicação pela comunicação desaloja intenção, conteúdo e significado. O extra na repetição é diversão, a diversão que é capturada no impulso e na diversão expropriada pelo capitalismo da comunicação.” (p. 116)

A meta, como já se disse, é a de usar a rede. E usá-la à exaustão. O discurso ideológico justifica tal uso com promessa de mais conhecimento. Mas, conforme diz a autora, “quanto mais conhecimento incorporamos, menos sabemos”. Na verdade, o que predomina é a circulação de informação, não a sua apropriação pelos usuários. Uma das consequências disso é a falta de ação. Em vez de agir, busca-se mais informação. Os resultados encontrados não satisfazem. Por isso, mais informações são procuradas. Esse processo não tem fim, e estar nele é fonte de prazer. A produção de informação com características de reflexibilidade é uma criação dos usuários. Eles acabam produzindo o ambiente em que vivem, pois as conexões estabelecidas no interior do sistema configuram as pessoas. Gerar informação, consumi-la, reproduzi-la, dentro de um loop, substitui busca de sentido, de significado; é tudo que se quer.

Apesar do título de seu livro e de ter um capítulo dedicado aos blogs, estes não são o foco de Dean, mas, sim, as práticas mediáticas que se tornaram comuns com a chegada dos recursos digitais. A autora faz menção às características técnicas dos diários eletrônicos e examina as analogias mais comuns que são utilizadas para defini-los. Ela, porém, não se prende a visões mais tradicionais. Para além de aparências óbvias de blogs como diários eletrônicos ou formas de expressão de um novo jornalismo, Jodi Dean mostra como a prática deles está a serviço da expressão da subjetividade.

A autora vai buscar nas práticas epistolares do antigo Império Romano, assistida por estudos realizados por Michel Foucault, analogias para iluminar o sentido da escrita em diários eletrônicos. Revela que as correspondências produzidas pelos latinos tinham acima de tudo características de auto-escrita. A arte de escrever cartas era vista como um elemento de reflexão. Nesse sentido, importava pouco o que comunicar. Importava o próprio exercício de produzir as cartas, mesmo que estas não fossem enviadas aos seus destinatários. Essa é uma descoberta intrigante. O ato, a prática era mais importante que o escrito. E é isso o que acontece com os blogs: valem para eles as observações feitas para todo o sistema de comunicação digital. Eles são uma alternativa de ingresso na ciranda interminável de gerar e consumir informação, pouco importando o conteúdo. Também concretizam o sentimento de participação no qual se acentua a dimensão afetiva. Não são, assim, diferentes de qualquer outro formato que facilita a participação dos usuários na Web.

Blog Theory é um livro denso e exigente. A autora, para desenvolver seus argumentos, recorre a uma ampla literatura, influenciada principalmente por Lacan. Cada capítulo da obra mereceria uma resenha própria para que não se perdessem elementos importantes das análises feitas por Dean. Porém, os registros aqui feitos são suficientes para situar a obra e sua importância em áreas relacionadas com informação e comunicação. Importa assinalar como Blog Theory sugere novos modos de ver as NTICs em educação. O estudo de Dean mostra que aproveitamentos de qualidades aparentes da web para finalidades pedagógicas não podem acontecer de modo ingênuo. O predomínio de práticas de comunicação pela comunicação é um traço que deveria merecer análises críticas dos educadores. Usos educacionais das NTICs, caso ignorem uma visão crítica, irão apenas facilitar ingresso dos alunos em circuitos comunicativos que desconsideram conteúdos e significados.

Informação Profissional

novembro 30, 2021

Em 2019, preparei um curso, Orientación Laboral, que faria parte de um programa de especialização de profissionais de formação profissional, na Universidad Nacional de Lanús, Argentina. Veio a pandemia e o programa acabou não acontecendo em 2020, como o previsto. Acho que passou a oportunidade e a universidade não mais oferecerá o programa, ou então haverá um atraso muito grande em sua realização. Provavelmente outro professor assumirá o curso e fará um programa diferente do meu.

Para quem tiver algum interesse em informação profissional, publico aqui rascunho do meu curso.

Curso: Orientação Laboral

Professor: Jarbas Novelino Barato

Justificativa

Muitas vezes a busca por oportunidades de trabalho é desinformada. Estudantes do ensino médio, jovens em busca do primeiro emprego e trabalhadores desempregados pouco sabem sobre as tendências gerais do trabalho e sobre condições que poderiam melhorar suas possibilidades de acesso ao emprego. Tal situação resulta em dificuldades para se encontrar trabalho e para escolher caminhos adequados de capacitação profissional.

No campo da educação, desenvolveu-se uma prática conhecida como orientação profissional voltada para jovens dos últimos anos do ensino médio. Essa prática, baseada em técnicas psicológicas, buscava identificar que carreiras poderiam ser mais indicadas para os jovens estudantes. Tais carreiras eram sempre relacionadas com formação de nível universitário. Configurou-se assim uma tradição de orientação voltada para os filhos da classe média nos momentos que precediam ingresso dos estudantes no ensino superior.

Em orientação profissional utilizou-se com muita frequência de testes psicológicos para identificar ocupações mais adequadas para os jovens que estavam terminando o ensino médio. Ainda há aplicação de testes em alguns programas, mas estes não têm a mesma importância que tiveram no passado. Mas, ainda predomina a ideia de que certas qualidades inatas podem ser identificadas para direcionar a preparação profissional dos jovens. Ignoram-se quase sempre determinações sociais e históricas sobre o engajamento das pessoas no mercado de trabalho.

A capacitação profissional relacionada com atividades de orientação laboral são principalmente aquelas que exigem formação em nível universitário. Capacitações de nível básico ou médio não costumam ser consideradas. Entre outras consequências, isso leva jovens e suas famílias a não considerarem caminhos de preparação para o trabalho que não passam pelas universidades.

Estudos sobre o trabalho vêm mostrando que o desemprego é maior entre os jovens. E mais: apontam que dificuldades de acesso ao trabalho são muito maiores entre os jovens das camadas mais pobres da população (no Brasil, por exemplo, o percentual de jovens mais pobres desempregados fica na faixa dos 30%). O fenômeno é mundial e atinge tanto países desenvolvidos como países em desenvolvimento. Agências internacionais como a OIT e a UNESCO vêm estudando o fenômeno e propondo programas que possam apoiar os jovens na busca de trabalho e no acesso a oportunidades de capacitação profissional. O mesmo vem acontecendo em diversos países que adotam políticas públicas para enfrentar a questão do desemprego juvenil.

Há diversos critérios para definir a faixa de idade dos jovens trabalhadores. Adotaremos aqui o critério de que tal faixa abrange a população dos 16 aos 29 anos, pois é nessa faixa de idade que o desemprego é mais agudo. O limite inferir, 16 anos, é a idade mínima que a maior parte dos países considera para ingresso no mercado de trabalho. O limite superior de 29 anos separa o segmento de jovens do segmento de jovens adultos, faixa dos 30 as 39 anos, que têm índices de desemprego mais próximos da média geral.

Aos jovens desempregados mais pobres falta informação sobre trabalho e oportunidades de capacitação profissional. Falta também informação sobre os mecanismos de ingresso em empregos do mercado formal, sobretudo em empresas modernas. E esses jovens, geralmente, não recebem orientação laboral durante seus estudos no ensino médio e nos anos subsequentes à sua formação escolar.

O desemprego juvenil é agudo e os jovens mais pobres costumam não ter informações seguras sobre caminhos do trabalho. Por essa razão, este curso elegeu como alvo principal estudos sobre a situação dos jovens desempregados e ações de orientação laboral que possam apoia-los na busca de trabalho e de oportunidades de capacitação profissional. Dados os limites de tempo para nossas atividades, elegemos como foco principal do curso as questões de informação profissional. Entendemos que a informação profissional não é apenas produção de materiais sobre oportunidades de trabalho. Entendemos que a informação profissional deve ser um processo interativo no qual os jovens interessados tenham um papel ativo, e não apenas o de meros receptores. Esta, aliás, é uma orientação presente em vários projetos das organizações internacionais, órgãos de governo e organizações da sociedade civil.

A abordagem de orientação laboral que escolhemos buscará subsidiar a atividade prática do curso: a elaboração de um produto de informação profissional voltada para um grupo específico de jovens mais sujeitos ao desemprego. Esperamos que com isso os alunos tenham uma iniciação bem fundamentada sobre ações de orientação laboral que possam ser desenvolvidas para os jovens que mais têm dificuldades de encontrar caminhos para o trabalho decente em suas vidas.

Objetivos

  • Definir formação profissional e tecnológica em suas decorrências de atividades voltadas para obras.
  • Identificar tendências do trabalho que influenciam destinos profissionais
  • Examinar relações entre educação, formação profissional e trabalho.
  • Examinar possíveis resistências ao trabalho manual.
  • Analisar situação de desemprego juvenil, relacionando-a com educação, classe social e gênero.
  • Identificar tenências de desemprego dos jovens na América Latina, particularmente na Argentina.
  • Descrever programas de combate ao desemprego juvenil, desenvolvidos por órgãos das Nações Unidas.
  • Identificar os principais métodos de orientação vocacional e laboral.
  • Descrever as linhas gerais do método clínico de Bohoslavsky.
  • Definir as direções das abordagens sócio-históricas em orientação vocacional e laboral.
  • Distinguir orientação laboral de orientação ocupacional.
  • Mostrar a importância da informação profissional para os trabalhadores.
  • Relacionar as direções do trabalho decente propostas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) com escolhas ocupacionais que possam ser feitas pelos trabalhadores.
  • Relacionar formas de transição entre escola e trabalho.
  • Descrever como participação em programas de aprendizagem instrumenta a orientação laboral.
  • Indicar estratégias que podem colaborar com a superação de preconceitos quanto a ingresso de mulheres em ocupações em que predomina a presença  masculina.
  • Mostrar direções de orientação laboral que integrem em suas atividades tratamento equitativo com relação a gênero.
  • Descrever estratégias que integram ensino e orientação para o trabalho em cursos secundários.
  • Indicar como a orientação laboral pode se integrar a programas de capacitação profissional.
  • Produzir materiais informativos que possam auxiliar trabalhadores em processos de escolhas ocupacionais.
  • Relacionar medidas que podem ser desenvolvidas para integrar a orientação laboral em ações de educação permanente dos trabalhadores.
  • Citar arranjos que podem ser desenvolvidos na educação secundária para que os alunos tenham informação sobre trabalho e universo ocupacional.
  • Relacionar as principais tendências de orientação laboral.

Programa

  1. Saber do trabalho e educação
  2. Capacitação profissional em escolas
  3. Capacitação profissional no trabalho
  4. Saberes do fazer e educação
  • Desafios diante dos câmbios de paradigmas produtivos e tecnológicos.
  • Trabalho vivo X trabalho morto
  • Trabalho, sociedade e valores
  • Inserção laboral e desenvolvimento profissional
  • Projetos de integração escola trabalho
  • Programas de aprendizagem e orientação laboral
  • Objetivos da orientação laboral
  • Visão tradicional da orientação laboral
  • Visão informativa da orientação laboral
  • Métodos, ferramentas e técnicas
  • Abordagens tradicionais
  • Abordagem clínica
  • Abordagem sócio-histórica
  • Aspectos objetivos e subjetivos da orientação
  • Limites da orientação ocupacional
  • Orientação profissional X orientação para o trabalho
  • Orientação profissional e classes sociais
  • Orientação profissional e gênero
  • Recursos pessoais: motivação, autoestima, capacidades, destrezas, atitudes
  • Biografias educativas e laborais
  • Trabalho, educação e escola
  • Experiência profissional e capacitação profissional
  • Orientação laboral e formação contínua dos trabalhadores

Orientações para o trabalho prático

O trabalho prático será a elaboração e aplicação de um produto de informação profissional. Esse produto, preferentemente, deverá ser um material que utilize a internet como plataforma de publicação e de interação dos orientandos com informações previamente selecionadas.  Para organizar as dinâmicas de acesso e interação com as informações escolhidas sugerimos dois modelos, WebQuest ou WebGincana. Um e outro modelo, se usados adequadamente, garantem interação dos alunos com as informações e aprendizagem colaborativa. Os alunos do curso poderão escolher outros modelos que tenham também as características de interação e aprendizagem cooperativa dos dois modelos sugeridos.

A prática aqui proposta será elaborada por grupos de dois ou três alunos. E ela terá quatro momentos distintos:

  • Escolha do segmento de trabalhadores ou candidatos a emprego que será objeto da experimentação do material de informação profissional.
  • Elaboração e publicação do material na internet.
  • Aplicação do material com uma amostra representativa do segmento escolhido.
  • Relatório da aplicação.

No que segue, descrevemos em linhas gerais cada um desses momentos.

Escolha do segmento de trabalhadores ou candidatos a emprego. O curso irá priorizar estudo sobre jovens, na faixa dos 16 aos 29 anos, que enfrentam maiores problemas para conseguir emprego. Esse grupo populacional pode ser dividido em vários segmentos, tais como:

  • Estudantes de escolas de periferia que frequentam o último ano do ensino secundário e que pretendem ingressar no mercado de trabalho assim que terminarem seus estudos.
  • Jovens que já terminaram há algum tempo, um ou dois anos, seus estudos secundários, mas não conseguiram ainda emprego definitivo.
  • Jovens que já terminaram o ensino secundário e estão engajados no mercado informal de trabalho.
  • Jovens que já trabalharam no mercado formal por algum tempo, mas que se encontram desempregados há mais de três meses.
  • Trabalhadores assistidos por alguma organização governamental na busca de emprego (supõe-se que exista na Argentina algo equivalente aos Centros de Apoio ao Trabalhador-CAT’s que recebem desempregados e os orientam para oportunidades de trabalho ou de capacitação profissional).
  • Jovens com mais de 16 anos que não concluíram o ensino secundário e encontram-se no mercado buscando trabalho.
  • Mulheres jovens que podem buscar capacitação profissional em ocupações atualmente exercidas majoritariamente por homens. Entre tais ocupações merecem destaque: marcenaria, mecânica de automóveis, soldagem, programação de computadores.

A lista aqui apresentada é apenas um exemplo de possíveis segmentações da parcela jovem da população que mais enfrenta problemas de desemprego. Os alunos do curso poderão fazer outras escolhas, baseadas em seus conhecimentos ou em questões que gostariam de aprofundar.

A escolha do segmento para o qual o grupo irá produzir material de informação profissional deverá ser justificada. Além disso, características gerais do segmento escolhido deverão ser descritas. Finalmente, será preciso mostrar que necessidades de informação têm o segmento escolhido. Essa justificativa deverá ser um trabalho escrito com cerca de cinco páginas.

Elaboração e publicação do material na internet. O material, obviamente, cobrirá apenas aspectos limitados das necessidades de informação da clientela selecionada. Estima-se que a produção do material exigirá cerca de vinte horas de dedicação do grupo e deverá ser um produto cuja aplicação possa ser feita em cerca de três horas. O professor, na medida das necessidades, dará apoio á produção.

Aplicação do material com uma amostra representativa do segmento escolhido. O material deverá ser aplicado a uma amostra do segmento escolhido. A aplicação poderá ocorrer in loco – numa escola, numa organização social que presta assistência a jovens trabalhadores, num sindicato, num órgão de governo que presta assistência a trabalhadores etc. Poderá também ser aplicado via internet, desde que se consiga adesão de um grupo representativo da clientela.

Para a aplicação será preciso preparar um instrumento simples de registro para recolher opiniões da clientela escolhida e para avaliar resultados.

Relatório de aplicação. Após a aplicação do produto, o grupo deverá elaborar um memorial técnico para mostrar resultados da aplicação e adequação ou inadequação do trabalho desenvolvido. Além disso, convém apresentar uma conclusão em que se registre como o grupo viu a experiência e como esta pode indicar caminhos para novas iniciativas de informação profissional:

Avaliação

A avaliação do curso será efetivada por meio de apreciações do trabalho prático. Serão considerados especificamente: a Justificativa, o Produto e o Relatório de Aplicação. Para cada um deles, serão utilizadas rubricas com definição dos critérios a serem considerados e os níveis (quatro) de satisfação atingidos. Para efeito de aprovação, os grupos de trabalho precisam alcançar, em cada instrumento, média equivalente pelo menos ao terceiro quartil de satisfação. Se necessário, os resultados obtidos serão convertidos em notas e menções adotadas pelo programa na universidade.

Os três instrumentos de avaliação –  rubricas específicas para Justificativa, Produto, e Relatório Final – serão apresentados aos alunos no começo do curso.

Se possível, a elaboração de rubricas será desenvolvida com participação dos alunos.

Referências bibliográficas

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Referências em webpages

Há, em páginas web, um número muito grande de informações sobre assuntos relacionados com o curso, produzidas por agências internacionais, especialistas, instituições de educação profissional, emissoras de TV etc. Essas páginas podem ser apenas textuais, ou podem ser textos combinados com vídeos, ou vídeos. Elas podem ser uma fonte interessante sobre orientação laboral. Não é fácil, porém, selecionar as melhores páginas web sobre o assunto. Para tanto, é preciso fazer um paciente trabalho de garimpagem. Isso pode ser bastante demorado. E a tarefa, preferencialmente, deve ser um empreendimento de grupo.

Fiz uma seleção preliminar de webpáginas que podem ser interessantes para o curso. Elas, porém, ainda não foram devidamente avaliadas. São uma mostra do que pode ser encontrado na internet. Representam apenas um primeiro esforço no sentido de selecionar os melhores recursos da rede www que possam enriquecer um painel de informações para o curso. No que segue, indico as páginas selecionadas e comento brevemente cada uma delas.

  1. As dificuldades dos jovens no mercado de emprego de Portugal

https://pt.euronews.com/2015/03/10/as-dificuldades-dos-jovens-no-mercado-de-emprego-de-portugal

Comentário. Portugal é uma dos países que enfrenta uma das maiores taxas de desemprego dos jovens. A matéria, em vídeo e texto, apresenta uma reportagem sobre o assunto. Na parte final do vídeo, apresentam-se dados sobre a questão na Irlanda. Pode ser mais uma referência para comparar com nossos países na América latina.

  • Canadian Journal of Career Development

http://cjcdonline.ca/archives/

Comentário. A revista Canadian Journal of Career Development é uma publicação de acesso gratuito. Eu a selecionei porque prováveis interessados poderão percorrer os números da publicação e buscar matérias no campo do desenvolvimento profissional.

3.      Chômage des jeunes et stabilité sociopolitique au Cameroun de 1990 à nos jours

https://www.researchgate.net/publication/301502202_Chomage_des_jeunes_et_stabilite_sociopolitique_au_Cameroun_de_1990_a_nos_jours

Comentário. Texto de comunicação feita no Congresso Internacional Sobre Desemprego Juvenil na África. Dados e comentários se referem a um país, Camarões. Mas, a análise vale para outras partes do mundo, pois o problema é global.

  • Entrevista com Silvio Bock

http://www.nace.com.br/doc/entrevrj.pdf

Comentário. Silvio Bock é uma das referências em orientação vocacional no Brasil. Nessa entrevista ele esclarece diversos tópicos sobre a matéria, mostrando avanços na linha de uma orientação que leva em conta a abordagem sócio-histórica.

5.      Estratégia Clínica Rodolfo Bohoslavsky artigos e trabalhos de pesquisa

https://www.trabalhosfeitos.com/topicos/estrat%C3%A9gia-cl%C3%ADnica-rodolfo-bohoslavsky/0

Comentário. Coleção de resenhas, artigos e trabalhos escolares sobre a obra de Rodolfo Bohoslavsy.

6.      Giovani e lavoro: il futuro negato. Cosa possiamo fare

Autor: Angelo Romano

Comentário. A página traz um artigo que eu poderia relacionar nas referências convencionais. Mas, como a matéria está publicada em página web, preferi relaciona-la aqui. O autor comenta a situação dos jovens italianos no mercado de trabalho. São bastante interessantes os gráficos sobre taxas de ocupação por faixas de idade. Vale imaginar ou elaborar gráficos semelhantes para nossos países na América Latina.

  • Giovani e lavoro, prospettive per il 2019

Comentário. Artigo mostrando como está atualmente a situação de trabalho dos jovens italianos. Para o articulista é uma das piores da Europa. Vale comparar com a Espanha e a Grécia. Recorro ao exemplo italiano para mostrar que a questão do desemprego juvenil é universal, embora seja mais dramática nos países mais pobres.

8.      Guidance: supporting youth to manage their careers.

https://www.cedefop.europa.eu/et/toolkits/vet-toolkit-tackling-early-leaving/intervention-approaches/guidance-supporting-youth-manage-their-careers .  

Comentário. Recurso produzido pelo CEDEFOP (Centre Européen pour le Développement de la Formation Professionnelle). O material se destina a jovens, educadores e pais. Busca mostrar que a formação profissional pode ser um caminho interessante para os jovens. Da página web é possível acessar material informativo produzido em word, abordando diversos temas sobre orientação profissional para jovens.

  • Jeune chômeur-euse? Mês droits. (publicação de um sindicato suiço)

Comentário. O UNIA, sindicato suiço, tem uma publicação interessante para orientar os jovens sobre os problemas do desemprego. Este material está também listado nas referências bibliográficas. Vale ver o material para se ter uma visão a partir de interesses dos trabalhadores. Copio trecho em que a publicação define desemprego juvenil:

Le chômage des jeunes peut prendre différentes formes: pas d’emploi, pas de place d’apprentissage, pas de place de formation, pas d’emploi stable, pas d’emploi à plein temps, etc. Cette brochure permet de comprendre les grandes lignes de l’assurancechômage et de l’aide sociale. Elle décrit les démarches à entreprendre, elle explique ce qu’il faut faire et ce qu’il faut éviter, les droits et les devoirs des jeunes chômeurs et chômeuses.

  1. O jovem e o desemprego

 Comentário. Matéria especial do Jornal da TV Cultura, Fundação Padre Anchieta. Além de dados de reportagem, o vídeo apresenta as opiniões do economista Ladislaw Dowbor (professor da PUC) e do pesquisador Rafael Urbano. As informações dos dois convidados dão uma ideia de como anda o desemprego juvenil no Brasil. Há muita semelhança entre o que acontece no país e em outras partes da América Latina.

11.  Orientação vocacional – entrevista com o orientador Silvio Bock

Comentário. Entrevista com Silvio Bock. A conversa é encaminhada a partir de perguntas de alunos que estão tentando iniciar estudos na universidade. No geral, as respostas de Silvio Bock mostram necessidade de informação profissional em processos de escolha. Infelizmente a qualidade do vídeo não é muito boa.

  1. Plataforma de recursos da OIT, versão em espanhol.

https://www.ilo.org/global/topics/dw4sd/themes/lang–es/index.htm

Comentário. A Organização Internacional do Trabalho tem uma plataforma informativa sobre o trabalho, incluindo desemprego, questões de gênero, emprego juvenil. Da plataforma é possível navegar para os temas de interesse de quem busca informação sobre trabalho e educação.  Percorri inicialmente a plataforma em francês e inglês. Depois percebi que a mesma tem uma versão para o espanhol. Isso pode facilitar utilização do recurso em nossos estudos.

  1. Plataform de Resources: Emploi des Jeunes. https://www.ilo.org/global/topics/dw4sd/themes/youth-employment/lang–fr/index.htm

Comentário. A página é uma seção da Plataforma de Recursos da OIT (Organização Internacional do Trabalho). O conteúdo examina a questão do grande desemprego dos jovens e remete a vários recursos produzidos no âmbito da OIT sobre políticas públicas, sugestões e estudos que podem ser interessantes para compor painéis de como encaminhar a orientação laboral, sobretudo para as camadas menos privilegiadas da população.

  1. Proportion des jeunes qui ne sont ni en emploi, ni étudiants ni en formation (taux de jeunes NEET)

Comentário. Essa página da OIT comenta a questão dos jovens que nem trabalham, nem estudam (jovens nem-nem, em português; jóvenes ni-ni, em espanhol). A matéria discute como as estatísticas são elaboradas e qual é a dimensão do fenômeno nem-nem no universo do trabalho. O tema certamente é importante em orientação laboral, pois o número de jovens que nem trabalham nem estudam é muito grande no mundo todo. E esses jovens são uma clientela bastante específica para ações de orientação laboral.

  1. Revista Brasileira de Orientação Profissional

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=1679-339020180001&lng=pt&nrm=iso

Comentário. Selecionei o site da Revista Brasileira de Orientação Profissional porque a publicação é de acesso livre e pode ser uma fonte interessante para pesquisar textos sobre a matéria. Me parece que a linha da publicação está mais voltada para uma orientação profissional que tem por objetivo assistir jovens que estão às vésperas de ingresso nas universidades.  Mesmo assim, vale percorrer números da revista para verificar se há matérias mais próximas de orientação laboral,

16.  Solving global youth unemployment

Comentário. O vídeo é uma das produções do hoje bastante popular TED (Technology, Entertainment, and Design). Copio o texto que aparece no Youtube sobre a fala da confenrencista:

Mona Mourshed has led engagements across the world in Asia, Europe, South America, the Middle East, and the United States, supporting school systems and vocational higher-education institutions to improve students’ skills, their chances of finding jobs, and their day-to-day lives. Her most recent work, focused on youth unemployment, is unlocking the global conundrum of high levels of joblessness among young people and a shortage of job seekers with critical skills. In order to tackle this looming global issue, Mona has assisted in the design, implementation, and reforming of strategies to improve student outcomes in schools; one program nearly doubling literacy rates to 86 percent at the primary-school level in four years.

Minha impressão é de que Mona Mourshed sugere que o desemprego pode ser superado por meio de educação. Esse é um ponto de vista que precisa ser mais discutido. De qualquer forma, a fala de Mona é uma referência interessante de opinião sobre a relação entre educação, juventude e desemprego.

  1. Tackling Youth Unemployment: Bridging the Skills Acquisition Gap

Comentário. Esse é um material promocional da ARC, organização que promove formação profissional técnica em articulação com o setor privado, governos e ONGs. Aparentemente coloca a culpa do desemprego na ausência de educação dos desempregados. Essa é uma interpretação que merece críticas. Mas, vale ver o material para verificar como um dos entendimentos sobre educação profissional é proposto e desenvolvido.

  1. Un jeune sur quatre au chômage? 

https://www.lumni.fr/video/un-jeune-sur-quatre-au-chomage

Comentário. Vídeo bastante didático sobre o desemprego juvenil. Serve de ilustração para conversas sobre formação profissional, mercado de trabalho e dificuldades dos jovens para conseguirem emprego.

  1. Vocational Training in Kyrgyzstan

Comentário. Reportagem sobre formação profissional no Quirziquistão. Selecionei esse vídeo como uma curiosidade. Mas, a matéria contém informações interessantes sobre formação profissional.

  • Youth Unemployent: Skills Development and Training

https://www.ilo.org/youthmakingithappen/Topics/01.html

Comentário. Página que apresenta exemplos de diversos países no encaminhamento sobre emprego e formação de jovens. Essas informações são apresentadas sinteticamente num quadro que resume direções dos projetos.

  • Resumos de obras sobre orientação profissional

https://www.studocu.com/en/document/pontificia-universidad-catolica-argentina/orientacion-vocacional/summaries/resumen-final-orientacion-vocacional/2813956/view

Comentário. Material elaborado por aluno de curso sobre Orientação Profissional na PUC Argentina. Os textos trazem resumos de alguns trechos de bibliografia sobre a matéria.

  • Aula de Rodolfo Bohoslavsky no Brasil

Comentário. O psicólogo e educador argentino. Rodolfo Bohoslavsky, autor de Orientación Profesional – La Estatégia Clínica, trabalhou no Brasil. Esse material registra uma das aulas de Bohoslasvsky na Universidade de São Paulo.

Oficinas e Conhecimento: resumo em inglês

novembro 25, 2021

Em meu livro Oficias e Conhecimento há um resumo da obra, em português. Pedi para minha filha Nara Cardoso Barato verter o resumo para o inglês. A versão em idioma gringo não foi aproveitada na edição do livro. Mas, se alguém quiser apresentar minha obra para gente que não fala português, pode vir até aqui e ver o abstract.

Oficinas e Conhecimento: Um desafio para atuação e capacitação de docentes em educação profissional e tecnológica.

Abstract

This book presents a summary of the findings of a research on the work of vocational training isntructors who teach techniques on working skills, and on student performance in workshops, laboratories, and in the classroom. This study aims to assess how instructors teach in workshops and how students learn in such environments, as well as in laboratories and in the classroom. Based on the survey results, this work suggests multiple aspects that could be part of a didactic method focused on work-based learning, and it provides tools that might contribute to the training of vocational training teachers.

Traditional didactic methods do not consider workshops as a knowledge-based experience, as opposed to the knowledge shared in school environments, or classrooms. The idea that there is a split between theory and practice is predominant. The first, which derives from classroom-teaching, is considered the foundation of practice. The latter, developed in workshops, is considered a means to apply theory, and being deprived of any epistemological status. The data of this study suggest a different direction. They show that actions, activities, and the act of making are a kind of knowledge that does not come from theory, but presents its own epistemological status. To understand how this kind of knowledge emerges one must consider how teachers and students operate in workshops.

In workshops, knowledge is developed through the production of works. Environments, tools, labor standards, and the community values of practice (social practice) are all elements that mediate knowledge, aiming at the production of works. The goal of workshops is to produce works, not explanations. This feature of knowledge in workshops suggests a completely different dynamics than that of didactic methods in the classroom. The survey results show a work-based learning dynamics – the predominant dynamics in workshops –  which indicates the need of creating a new didactic method concerned with the production of works.

This study suggests that in order to train workshop instructors one must consider the act of making as knowledge, and not as a means to apply technology and science. It also suggests the need of a deeper understanding of an epistemology that goes beyond antithetic pairs such as theory/practice, knowledge/ability, mind/body. However, this book does not focus only on exploring epistemology. Based on the assumption that learning is a function of different types of knowledge, it suggests that learning and working come from knowing how to make things, and not form generalizations that can be applied to various situations. As a result, the context is an important element to consider when dealing with work-based knowledge. By studying what happens in workshops, precious indications of meaningful contexts in work-related learning have arisen.

During the survey, and by observing activities in workshops of different professional areas, the research has shown many interesting aspects of the construction of work-based knowledge by teachers and students. It has shown that technique is a type of knowledge linked to results and its practitioners see it as art.  It has shown that students see the work they do, even though they might be beginners, as a way to belong to a community of practice. It has shown that teachers, even those who do not hold a degree in pedagogy, do find ways to assess students performances, based on work-related knowledge. It has shown many didactic solutions that derive from learning how to work.

The survey in which this book is based on points to a pedagogy, created by workers, that is proper to workers´ education. Such pedagogy needs to be highlighted so that teachers who teach or will teach working techniques do not turn workshops into school environments, influenced by pedagogies that were born in classroom-teaching experience.

Formação profissional de jovens na América Latina

novembro 16, 2021

Hoje participei de conversa sobre o tal de novo ensino médio. A conversa buscou situar qual é a do quinto itinerário, flexão voltada para a educação profissional. Na minha opinião a reforma proposta será um tremendo fracasso. As escolas se organizarão para fazerem o que já fazem, atendendo formalmente a reforma. Farão o velho com versão do novo. No caso da formação profissional, as propostas serão bobagens para enganar a freguesia.O ensino médio é parte do ensino básico. Fatia-lo, com essa história de vários itinerários formativos, retoma diferenças que irão penalizar ainda mais os pobres que conseguem chegar ao secundário. A proposta de profissionalização ignora completamente o que vem ocorrendo em nosso país, o aumento cada vez maior da formação técnica pós secundária. Sobre isso, sugiro olhada em estudo que fiz para a UNESCO, numa publicação que inclui também análises da questão no México e na Colômbia: Incluir a los jóvenes. Retos para la educación terciaria técnica en América Latina:

http://www.iiep.unesco.org/fr/incluir-los-jovenes-retos-para-la-educacion-terciaria-tecnica-en-america-latina-12865

Seção B, o lugar dos medíocres

novembro 14, 2021

No meu tempo de menino, os quatro anos do ensino fundamental eram chamados de ensino primário. Minha escola de ensino primário foi o Grupo Escolar Coronel Francisco Martins, o Coronel, na Franca, SP. Eu morava a dois quilômetros e meio do Coronel e nunca tinha entrado numa escola. Minha mãe, no primeiro dia de aula, quis me levar. Bati o pé e disse não. Fui sozinho para a escola e não sei mais como encontrei minha sala de aula. Mas, lá estava eu, aluno de Dona Elza, excelente alfabetizadora. Meus pais, sempre com dificuldade para pagar o aluguel, mudaram de casa. Essa segunda casa de meus tempos escolares ficava um pouquinho mais perto do Coronel. Mas, o preço do aluguel ainda era alto para as posses do meu pai. Mudamos de novo, para uma casa que ficava num bairro muito afastado na Franca da minha infância, a Santa Cruz. Ir ao Coronel passou a me exigir uns quatro quilômetros de caminhada.

Logo aprendi a ler e tinha boas notas. No primeiro ano sempre fui aluno da seção A e melhor leitor da turma. Eu e o Wilson sempre éramos escolhidos para ler em voz alta diante do inspetor escolar quando este visitava nossa sala de aula. No final de ano ganhei o prêmio de leitura da classe, uma biografia de Zumbi de Palmares. Foi o primeiro livro que li an vida.

Contei ali atrás a breve história de minha educação no primeiro ano de escola e disse que sempre estive na seção A. Isso precisa de explicação. No grupos escolares, as salas de aula eram mobiliadas por carteiras duplas, em três fileiras. Cada fileira recebia um rótulo de seção, A, B ou C. Na seção A ficavam os alunos com alto desempenho escolar, com notas iguais ou superiores a 8,O. A seção B era ocupada por alunos medianos, com notas de 6,0 a 7,5. Finalmente, alunos com notas inferiores a 6,5 tinham como destino a seção C. Podia existir movimentação de alunos de uma para outra seção. Isto, porém, era uma raridade. Desde a primeira hora a gente era classificado e ganhava como destino uma seção que seria nosso lugar o ano inteiro. Hoje diriam que a força do rótulo era maior que possível capacidade do aluno.

Minha vida escolar mudou no segundo ano primário. Logo no começo, Dona Mariana, nossa professora fez um teste para classificar os alunos que chegavam à sua classe. Meus resultados foram péssimos. Minha mãe foi chamado á escola, pois, segundo indicava o teste, eu teria sérias dificuldades para cursar o segundo ano. Até hoje não sei para onde foi meu bom desempenho escolar do primeiro ano. É provável que nos dois meses e meio de férias seu tenha regredido. Passei o tempo todo sem ler e escrever. Meu universo familiar não era letrado. Além de Zumbi dos Palmares, existia apenas outro livro em casa, um velho volume de geografia que fora usado no terceiro ano da escola rural cursada por meu pai. Ou talvez, Dona Mariana fosse muito rigorosa e não soubesse como lidar com meninos pobres que chegavam à sua sala de aula. Não sei como venci a incompetência indicada pelo teste da Dona Mariana. Mas, algumas semanas depois de começadas as aulas fui para a seção B e lá fique até o final do ano. Não houve sobressaltos nos anos seguintes, na terceira e quarta série do primário fui um cidadão da seção B. Tinha um desempenho que me afastava do grupo dos fracassados, a seção C, mas nada fazia para ingressar no mundo dos bons alunos, a seção A. Moral da história: fui um aluno medíocre durante três quartos de minha vida escolar no Coronel.

Educação e saberes do trabalho

novembro 14, 2021

ROSE, Mike. O Saber no trabalho: valorização da inteligência do trabalhador. Trad.  de Renata Lúcia Bottini. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2007, 253 p.

Descritores do conteúdo do trabalho, sejam eles análises ocupacionais ou definições de competências, ignoram dimensões importantes dos saberes dos trabalhadores. No geral tais descritores padecem de sérios limites por causa de modos de ver as profissões e de metodologias que não levam em consideração as tramas cognitivas e sociais demandadas pela execução de qualquer trabalho. O resultado são modos de ver a atividade produtiva, sobretudo aquela que requer uso das mãos, como uma prática desprovida de inteligência. As conseqüências disso no campo educacional consagram o famoso erro de Descartes, a divisão insuperável entre mão e cérebro, corpo e mente. Mike Rose, professor da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), procura superar esse modo tradicional de ver o saber dos trabalhadores em livro cuja tradução brasileira recebeu o título de O Saber no Trabalho..

Mike Rose  cresceu entre ferroviários e foi criado por uma mãe que sustentou a família com seus ganhos como garçonete. Ele chegou à universidade por meio de mecanismos de inclusão que favoreciam estudantes das camadas populares. Esses acidentes biográficos ajudaram-no a construir uma abordagem do trabalho que faz  emergir toda a riqueza da inteligência presente em profissões como as de garçonete, cabeleireira, carpinteiro. E tal abordagem é bem diferente daquelas que alicerçam análises ocupacionais ou definições de competências.

No primeiro capítulo, o autor penetra no mundo dos serviços de restaurante a partir de uma análise cuidadosa de entrevistas realizadas com sua mãe e com outras garçonetes de restaurantes populares americanos, complementadas com a bibliografia disponível sobre a profissão. E Rose vê muito mais que competências e habilidades no trabalho das garçonetes. Vê um rico exercício da inteligência que decorre da dinâmica dos fazeres necessários aos serviços de restaurantes. Boa parte dessa dinâmica é invisível para analistas centrados em aspectos observáveis do trabalho. Não fica evidente para esses observadores, por exemplo, estratégias utilizadas para otimizar movimentos num fluxo de atendimento que contempla oito mesas de clientes que chegaram em tempos distintos e têm demandas muito diferentes de serviços, ou estratégias de memória para relacionar pedidos e gostos de clientes num horário de rush no qual cada garçonete atente simultaneamente a cerca de trinta pessoas. 

No segundo capítulo, o autor analisa a profissão de cabeleireira com base em encontros com profissionais de diversos tipos de salões de beleza. O resultado é bastante parecido com o obtido a partir da conversa com as garçonetes. Nos três capítulos seguintes, Rose estuda profissões da área de construção civil. Mas desta vez suas observações não foram feitas a partir de diálogos com profissionais experientes. Ele examina o saber de profissões como as de encanador, eletricista e carpinteiro acompanhando o cotidiano escolar de estudantes e professores. E as análises, no caso, mostram o fluxo de um saber que não cabe na forma dicotômica do par teoria e prática. Ao descrever discurso e práticas dos estudantes, Rose mostra desdobramentos estéticos e éticos que análises convencionais do trabalho ignoram completamente.

O sexto capítulo foi construído a partir de duas biografias de trabalhadores: um supervisor de linhas de montagem, uma soldadora que ensina seu ofício num curso de nível tecnológico. O supervisor formou-se em atividades do chão de fábrica. A soldadora aprendeu seu ofício em cursos técnicos e tecnológicos. Ambos, porém, vêem o saber do trabalho a partir de uma cultura operária. Nos capítulos finais, Rose procura articular toda a riqueza de suas análises de profissões manuais, algumas delas de status social muito baixo, com a elaboração do saber. Para isso recorre a estudos contemporâneos no âmbito das ciências cognitivas. E repara que tais estudos, cada vez mais, tornam inadequado o tratamento dicotômico do saber em teoria e prática, conhecimento e habilidade ou fundamentação e execução. Para mostrar que boa parte das considerações que estigmatizam o trabalho manual, o professor da UCLA acompanhou, no regime de residência de um hospital, a formação de cirurgiões. Uma das conclusões de Rose é a de que o fazer-saber de médicos cirurgiões tem uma natureza que pouco difere do fazer-saber de carpinteiros. Ocorre, porém, que o trabalho médico tem um status muito elevado na sociedade americana,circunstância que valoriza as técnicas de cirurgia sem considerar sua natureza de saber em ação.

A escolha da profissão de garçonete como ponto de partida para os estudos que resultaram no livro não foi determinada apenas pela biografia do autor;  Rose escolheu a garçonete como um ícone de seus estudos porque essa profissão é vista nos Estados Unidos como atividade que requer pouca inteligência e quase nenhuma capacitação. Referências á garçonete são muito parecidas com as afirmações que se fazem no Brasil com relação ao pedreiro. Num e noutro caso, ambas a profissões são vistas com destino para pessoas de limitadas capacidades intelectuais. Toda a riqueza dos saberes exigidos pelas duas profissões acaba ficando invisível. Num certo sentido, os próprios trabalhadores que exercem tais ofícios são invisíveis. Essa invisibilidade acaba ocorrendo por causa dos pressupostos a partir dos quais pesquisadores e analistas abordam o trabalho manual. A invisibilidade do saber profissional no caso é conseqüência de uma escolha metodológica. Saberes, tradições, visões de mundo e valores elaborados pelos trabalhadores em seus fazeres profissionais acabam não entrando na pauta de investigação dos pesquisadores. Sobram apenas habilidades mensuráveis e objetivamente descritíveis.

O aspecto central do livro de Mike Rose é a interação entre o trabalhador e sua obra. O autor desvela a relação entre o profissional e a vontade de realizar um trabalho bem feito. Este modo de ver não reduz o saber trabalhar a habilidades ou competências, a parcelas de conhecimento desvinculadas de compromissos sociais e da satisfação de produzir. Certamente esta orientação para a obra pode ser muito promissora para investigações  sobre conteúdos do trabalho e para orientações metodológicas na área de educação profissional.

Jarbas Novelino Barato

História de um plano de educação profissional

outubro 30, 2021

Era uma vez um educador formado por ótima faculdade de educação. Assim que recebeu o diploma, ele caiu na vida. Saiu a buscar emprego. Moço de sorte, não teve de procurar muito. Coseguiu colocação numa instituição de educação profissional. Salário bom, bem acima da média para recém-formados. Benefícios excelentes. Boas perspectivas de carreira. E, quase certamente, a instituição lhe daria apoio para ingresso no desejado mestrado da USP ou da UNICAMP.

O chefe do jovem educador chamou-o pra uma conversa. Cara meio seco, falou pouco. Em síntese, o chefe queria que ele preparasse um plano de educação profissional para formar protéticos, soldadores e carpinteiros.

O moço saiu da sala do chefe ansioso para mostrar serviço. Sentou-se em sua mesa e começou a produzir o plano pedido.

O  jovem educador, antes de qualquer coisa, procurou deixar claros os princípios necessários para fundamentar o plano de educação profissional encomendado. Seu ponto de partida foi a ideia de que os educandos têm, cada qual, seu próprio estilo de aprendizagem. Em seguida, esclareceu que seria preciso levar em conta os tipos de inteligência de cada um dos alunos. Esses dois princípios, explicados pelo brilhante jovem em começo de carreira, sugeriam uma educação capaz de respeitar a individualidade dos alunos.

E logo veio a segunda parte do plano. O jovem educador mergulhou fundo nas competências. Para tanto, em entrevistas com pessoal de RH, levantou a relação de competências esperadas pelo mercado para protéticos, soldadores e carpinteiros.

Essa parte do plano ressaltava de novo a necessidade de personalizar o ensino, usando para tanto as novas tecnologias da informação e comunicação, pois cada aluno deveria aprender no seu próprio ritmo e de acordo com seus tipos de inteligência.

O  plano, olhando para as atuais tendências de mercado, dava destaque a competências nos campos da sociabilidade, da comunicação, do trabalho em equipe, da capacidade empreendedora, da criatividade, da prontidão para adaptar-se a uma mundo em contínua mudança. Como dizem os teóricos de RH de hoje em dia, o plano privilegiava as soft skills, mercadoria cada vez mais valorizada, globalmente, na bolsa do mercado de trabalho

O jovem educador não se esqueceu de competências nos campos da sustentabilidade, da parceria, do comportamento ético, da cidadania, do respeito às diferenças, da prontidão para utilizar as novas tecnologias digitais. Além disso, deixou a porta aberta para a incorporação de mais competências gerais cuja necessidade aflorasse no mercado.

Na terceira parte, o plano contemplava competências associadas às técnicas próprias de cada ocupação. Mas, o jovem educador não deixou de expressar um alerta para os leitores do plano. Tudo muda, disse ele. O que o profissional aprende a executar hoje tem vida curta. Em pouco tempo, a ciência e a tecnologia criarão novos modos de produzir e os trabalhadores precisarão deixar de lado velhas manhas do ofício para aprender novas. Por esse motivo, dizia ele, não se deve enfatizar as competências técnicas. Frasista, concluía: as competências técnicas já nascem velhas.

Na quarta parte do plano, nosso herói estabeleceu as linhas gerais sobre docência. Sugeriu contratação de professores com sólida fundamentação pedagógica e ótimos conhecimentos técnico-científicos.

O jovem educador insistiu na ideia de que professores são mediadores, são pontes capazes de facilitar travessias de aprendizagens dos alunos. Sugeriu que, em programas de educação continuada, os docentes fossem incentivados a assumir, cada vez mais, seu papel como mediadores no processo de aprendizagem.

No capítulo docência, o plano ressaltava que os atores principais são os alunos. Chamava atenção dos professores para olharem para os interesses dos estudantes. E lembrava que já não cabe mais em nossas escolas docentes cuja virtude principal é o domínio de conteúdos. Em tom de brincadeira, mas com a necessária firmeza, gostava de dizer que conteúdo em nossos dias é território do Tio Google. Em vez de perguntar a professores, os alunos vão atrás do Tio que sabe cada vez mais e pode dar respostas imediatas para suas pesquisas.

O plano tinha muito mais. Mas o leitor talvez não queira saber de tudo tim-tim por tim-tim. De qualquer forma, é bom dizer algumas palavras sobre o capítulo final: avaliação.

O ponto central da proposta de avaliativa do jovem educador era o de que os docentes e outros agentes educacionais da instituição deveriam dar peso maior para avanços que os alunos individualmente vinham obtendo em sua aprendizagem, no sentido de desenvolver a autoestima da moçada. Não deixava de lembrar que cada um é cada um, e cada um deve ser comparado apenas consigo mesmo.

O plano do jovem educador foi aprovado, com elogios da alta direção. Virou referência na instituição. Outros educadores da casa foram incentivados a fazer planos parecidos. E o moço brilhante que escreveu o plano ganhou merecida promoção.

Leitores acostumados com histórias felizes como esta, devem estar achando que já é hora de encerrar a conversa com a moral da história. Mas, por causa de um acidente, é preciso continuar com a narrativa. Vamos, pois, ao acidente.

O elogiado plano foi parar nas mãos de um velho educador que começou sua carreira numa IREP (Inspetoria Regional do Ensino Profissional) no final dos anos de 1950.

Com a nova LDB de 1961, o velho educador, na época ainda muito novinho, foi removido para a diretoria de ensino livre da Secretaria da Educação, um setor sem importância e glamour que cuidava de cursos tais como os de datilografia, corte e costura, auxiliar de cozinha.

O velho se aposentou na função em 1995. Mas continua na ativa, atuando voluntariamente como coordenador de projetos de formação de trabalhadores no sindicato das costureiras.

Por um dos azares ou sortes da vida, o velho educador é tio avô do nosso herói. Por isso, depois de ler o plano, ele chamou o sobrinho para uma conversa turbinada por generosas doses de chope no Bar Léo.

O velho falou muito, tentando encantar o sobrinho outra visão de educação profissional. Segue aqui um resumo muito resumido da fala do antigo inspetor de IREP.

Na primeira e segunda parte, ele disse ao sobrinho, você enfatiza em demasia a noção de individualização na aprendizagem. Não aprendemos isoladamente. Aprendemos com os outros. Aprendemos em companhia. Aprendemos com os companheiros.

O sobrinho disse ao velho que a crítica dele era coisa antiga. O mundo mudou. Mas o tio era um idoso muito atualizado. Sacou de sua sacola de algodão um livrinho que foi eleito uma das dez melhores obras de educação da segunda metade do século XX: Common Knowledge: The developmentof understanding in the classroom, de Derek Edwards e Neil Mercer, idos de 1989.

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http://www.amazon.com/Common-Knowledge-Development-Understanding-Classroom/dp/0415043085

O estudo que o antigo inspetor mostrou para o jovem educador fornece evidências de que aprendemos em processo de compartilhamento de saberes, negociando significados. O sobrinho nunca tinha visto aquele livrinho. O tio lhe disse que os autores eram, e ainda são, pesquisadores importantes no campo do construtivismo.

O velho entrou com certa ironia na parte das competências. Disse ao sobrinho que o primeiro passo para conversar sobre conteúdos do trabalho é o diálogo com os trabalhadores, não com burocratas do RH.

Trabalho tem história. Trabalho tem arte. Trabalho tem compromisso. Trabalho tem sentido. Trabalho tem valor. O velho estava entusiasmado em sua oratória. Mostrou ao sobrinho que era preciso olhar para os trabalhadores com empatia, como gente que sabe, mas tem um saber que é invisível para intelectuais e senhores da academia. Recomendou a leitura de um belo livro de Mike Rose sobre o assunto:

http://www.editorasenacsp.com.br/portal/produto.do?appAction=vwProdutoDetalhe&idProduto=20642

Mike (2007) vai até os trabalhadores. Os vê trabalhando. Conversa com eles simpaticamente. E vai descobrindo saberes muito ricos que podem ser vistos apenas por quem se aproxima dos profissionais, de sua história, de seus sonhos, de seus valores, de seu orgulho por trabalhos bem feitos, por sua arte. [Infelizmente, Mike faleceu em agosto de 2021].

Como Mike é um cara de esquerda, gente que o jovem educador olha com alguma desconfiança, o velho resolveu apresentar-lhe gente “neutra” que também faz alertas no sentido da necessidade de mergulhar profundamente nos saberes do trabalho.E para tanto, tirou da sacola um best-seller do New York Times, Shop Class as Soulcraft: An inquiry on the value of work, 2007:

http://www.amazon.com/Shop-Class-Soulcraft-Inquiry-Value/dp/0143117467

Crawford mostra que o trabalho de um mecânico que conserta motos antigas oferece desafios cognitivos muito mais aventurosos que o trabalho pseudo-intelectual de trabalhadores de escritório.

Ato contínuo, o idoso sacou de seu embornal mais um livro, de 2004, cujo autor insiste na ideia de que em educação profissional o ponto de partida essencial é o conteúdo do trabalho, a técnica, o fazer-saber.

http://www.editorasenacsp.com.br/portal/produto.do?appAction=vwProdutoDetalhe&idProduto=20065

O velho mudou de tom, deixou os livros de lado e disse ao sobrinho que o saber técnico é essencial. O esvaziamento,  do conteúdo trabalho, disse o educador das antigas, é uma estratégia para simplificar o trabalho e rebaixar salários. E isso não é novo. Taylor começou tal história há quase um século. Assim, atribuir pouco peso a competências técnicas não é uma sacada de modernidade, a não ser que o sacador ache que Taylor ainda deve ditar como o trabalho deve ser realizado.

Na terceira tulipa de chope, o velho inspetor ligou seus motores teóricos, ignorados pelo sobrinho até aquela conversa no Bar do Leo. E o tiozinho foi fundo. Começou a falar de uma teoria arcana. Citou Jean Lave  Etienne Wenger

http://www.amazon.com/Situated-Learning-Participation-Computational-Perspectives/dp/0521423740

Jean lave é responsável pela introdução do conceito de comunidade de prática no campo das ciências sociais. O conceito refinado por Lave teve como base o exame das aprendizagens que ocorrem no e pelo trabalho em ambientes onde os aprendizes aprendem fazendo.

O velho tinha um repertório imenso – para surpresa de seu sobrinho. Disse ao moço que estava meio cansado e que poderia continuar a conversa outro dia, talvez no Brahma ou num belo boteco chamado Juriti.

O jovem educador ficou abalado. Sentiu que suas convicções eram ingênuas, meio ceguetas. Prometeu que iria prestar atenção no saber dos trabalhadores dali para frente e começou a admirar a sabedoria do tiozinho que ficou tanto tempo cuidando da inspeção de cursos livres, atividade aparentemente pobre e pouco sintonizada com os avanços das ciências da educação. Mas, aprendeu a lição. Começou a olhar para seu plano como uma bobagem de educador que não se comprometeu com o trabalho e com os trabalhadores.

Moral provisória da história: o trabalho tem muitos saberes que não se manifestam para educadores que acham que a formação profissional é uma prima pobre da educação.

Formação de docentes em EPT

outubro 20, 2021

Como já anunciei aqui, a UNESCO acaba de publicar novo livro meu. A obra pode ser encontrada com um clique aqui.

Preparei um resumo do livro com os seguintes dizeres:

Esta obra apresenta a síntese dos resultados de investigação sobre a atuação de docentes da educação profissional e tecnológica que ensinam técnicas de trabalho, assim como de desempenho de estudantes em oficinas, laboratórios e salas de aula. O objetivo principal do estudo foi verificar como os professores ensinam em oficinas e como os estudantes aprendem em tais ambientes. Verificações do mesmo tipo foram realizadas de forma complementar em laboratórios e salas de aulas.

A partir das observações efetivadas, a obra indica vários aspectos que podem integrar uma didática voltada para aprendizagens do e no trabalho, fornecendo elementos importantes para a formação de professores que conduzem tais aprendizagens em ambientes oficinais.A didática tradicional não vê as oficinas como espaços em que transita um conhecimento diferente daquele desenvolvido em ambientes tipicamente escolares, as salas de aula. Predomina a ideia de que há uma divisão entre teoria e prática. A primeira, desenvolvida nas salas de aula, é vista como fundamento da prática. A segunda, desenvolvida em oficinas, é vista como aplicação da primeira e destituída de qualquer status epistemológico.

Os dados da investigação realizada para este estudo mostram um caminho diferente. Mostram que a ação, a atividade, o fazer são conhecimentos que não decorrem da teoria, mas têm status epistemológico próprio. E para ver como esses conhecimentos emergem é preciso considerar atuação de professores e estudantes nas oficinas. Nestas, o conhecimento se desenvolve tendo em vista a produção de obras. Ambientes, equipamentos, normas de trabalho, valores das comunidades de prática (prática social) são elementos mediadores do conhecimento, sempre tendo no horizonte a produção de obras. Em oficinas, a meta não é produzir explicações, mas produzir obras. Essa característica do conhecimento oficinal sugere dinâmicas completamente diferentes daquelas que a didática construiu a partir do ensino escolar, concretizado em salas de aula. A investigação conduzida para este estudo mostra que aprender trabalhando – a dinâmica que predomina nas oficinas – indica a necessidade da construção de uma didática voltada para a produção de obras.

Este estudo sugere que, para formar professores que atuarão em oficinas, é preciso considerar o fazer como conhecimento, não como aplicação da tecnologia e da ciência. Sugere também a necessidade de aprofundamento de uma epistemologia que supere os pares antitéticos teoria/prática, conhecimento/habilidade, mente/corpo. Contudo, ele não se detém em explorações de caráter epistemológico. A partir do pressuposto de que a aprendizagem é uma função de tipos de conhecimento, sugere que aprender a trabalhar decorre do saber fazer, não de generalidades que podem ser aplicadas a um grande número de situações. Em decorrência disso, o contextoé um elemento primordial na elaboração do saber do trabalho. E a análise do que acontece em oficinas fornece indicações preciosas sobre contextos significativos em aprendizagens vinculadas ao trabalho.

Durante a investigação, observações de atividades em oficinas de diversas áreas profissionais evidenciaram aspectos interessantes da construção do conhecimento do trabalho por parte de estudantes e docentes. Evidenciaram que a técnica é um conhecimento vinculado a resultados que seus praticantes veem como uma arte. Evidenciaram que os aprendizes veem seus fazeres, mesmo que incipientes, como forma de pertencer a uma comunidade de prática. Evidenciaram que professores, mesmo sem formação pedagógica, encontram modos de avaliação apropriados ao saber do trabalho. Por fim, evidenciaram muitas soluções didáticas que decorrem do aprender a trabalhar.A investigação que deu origem a esta obra procura apontar para uma pedagogia construída por trabalhadores, para formar trabalhadores. Tal pedagogia deve ser evidenciada, para que os professores que ensinam ou irão ensinar técnicas de trabalho não escolarizem as oficinas, influenciados por pedagogias que nasceram de experiências nas salas de aula.

Conhecimento, trabalho e ócio

outubro 13, 2021

Escrevi um livro que procura mostrar que a técnica é um tipo particular de saber. De um saber que nasce da ação. Mais que isso: de um saber que é ação. Essas ideias que não estão naquilo que os gringos chamam de main stream. Não dão Ipobe. Não ganham espaço nos meios de comunicação. Isto ficou evidenciado nas perguntas que me foram feitas numa entrevista preparada pela assessoria de imprensa da Editora Senac. O jornalista ou a jornalista encarregada de me entrevistar certamente não leu o livro. Fez perguntas que são lugar comum daquilo que se convencionou ser matéria no campo do tema educação & trabalho. Respondi a todas as perguntas, mas certamente não era o que se esperava. Em alguns casos tentei mostrar que a pergunta não era adequada. Para que vocês avaliem essas minhas considerações. segue a tal entrevista.

Texto de entrevista sobre meu livro “Educação Profissional: Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho?” – Editora Senac.sp -  escrita em 2006 e não publicada integralmente




·        O que o senhor define como saberes do ócio? E saberes do trabalho?
 
Há 2500 anos, o grande filósofo Aristóteles, fez um comentário que influencia até hoje nossa maneira de ver o conhecimento. Ao referir-se às obras dos primeiros filósofos do mundo Ocidental (Tales, Anaximandro e Anaxímenes), Aristóteles observou que o conhecimento por eles elaborado só se tornara possível porque a riqueza produzida em Mileto, a cidade onde viveram os citados sábios, gerava tempo livre para alguns cidadãos que podiam então se dedicar a questões importantes como a origem da vida e do universo. Assim, o conhecimento científico foi, desde a sua origem, associado a investigações intelectuais  livres do aqui e agora imposto pelos fazer.
O que gerava tempo livre para os nobres de Mileto era um comércio internacional cuja origem estava baseada em técnicas de navegação muito avançadas para a época (século VIII AC). Mas a técnica não foi vista por Aristóteles como conhecimento. Essa contradição persiste até hoje. Nos meios educacionais, e fora deles, estamos acostumados a ver os conteúdos como teoria (conhecimento) e prática (“mera” habilidade ou aplicação do conhecimento). Na verdade, a maior parte das pessoas acha que o único saber é aquele resultante de elaborações intelectuais distantes dos fazeres imediatos dos homens.
No meu livro, procuro mostrar que a fórmula teoria/prática é um modo de ver o mundo que causa sérios prejuízos à formação profissional, pois valoriza exclusivamente os saberes do ócio e, por outro lado, desvaloriza os saberes do trabalho.
*         Na sua opinião ainda existe uma lacuna entre a qualificação profissional e as exigências do mercado de trabalho? Por quê?
 
Essa preocupação de relacionar qualificação profissional com demandas do mercado é um falso problema. Quem pensa desse modo acredita que é possível uma relação mecânica entre mercado e educação. Educação conseqüente não é uma preparação para um aqui e agora, é uma tentativa de preparar pessoas para um futuro incerto, dadas as muitas possibilidades que os homens têm de construir a história. Mercado é apenas uma indicação, não um destino ou fatalidade. O importante em educação é pensar o potencial humano de produzir conhecimento e mudar o mundo (incluindo o mercado de trabalho). Sua pergunta parte do princípio que educação, sobretudo a profissional, deve estar a serviço do mercado. Não posso respondê-la, pois se o fizesse estaria me colocando ao lado de pessoas que têm a visão mecanicista que procurei situar no início de minha resposta.
É bom reparar que o argumento da lacuna entre mercado e qualificação profissional aparece sobretudo em épocas de desemprego. Essa é uma forma sutil de culpar as vítimas pelo seu destino (o número de gente muito bem qualificada e desempregada em nossos dias, incluindo jornalistas, não é pequeno). As altas qualificações de que tanto se fala atualmente são requisitos para um segmento muito pequeno do mercado de trabalho. Os modos de produzir ficaram muito mais simples que as velhas formas de trabalhar para a maioria dos casos. Ou será que alguém acredita honestamente que montar sanduíches numa cadeia de fast food (assim como muitas outras funções criadas nos últimos tempos  na indústria e em serviços) é trabalho   que demanda qualificação profissional expressiva? Na verdade, o trabalho vem perdendo conteúdo na maioria dos casos. O discurso da mudança contínua, de demandas tecnológicas aceleradas, de competências amplas e mutantes vale apenas, como disse, para uma elite de trabalhadores. E isso não é novo. Já nos anos setenta do século passado, o sociólogo espanhol Alberto Moncada nos informava que ocupações cognitiva e psicologicamente compensadoras representavam apenas dez por cento do mercado de trabalho. O resto eram oportunidades de um trabalho rotineiro e muito pouco exigente do ponto de vista de exercício da inteligência. Não há qualquer evidência de que as tendências apontadas por Moncada tenham mudado. Assim , ao contrário do que se diz, quando olhamos os grandes números o que acontece hoje é uma contradição que tende a aumentar cada vez mais: a escolaridade das pessoas avança significativamente e o conteúdo do trabalho regride  de modo significativo. Infelizmente, a tendência analítica que aponta o problema que estou tentando colocar aqui mal é ouvida (este é o caso, por exemplo, da obra primorosa de Cláudio Salm, Escola e Trabalho, publicada no final dos anos setenta).
 
·        O senhor acha que habilidade substitui conhecimento? 
 
Em meu livro procuro mostrar que habilidade é uma forma de conhecimento, não algo diferente ou resultante do mesmo. Em outras palavras, defendo a idéia de que aquilo que chamam de prática não decorre daquilo que chamam de teoria. Essa é uma idéia de difícil aceitação. Estamos tão acostumados a pares como teoria/prática e conhecimento/habilidade que propostas de uma mudança radical de modos de ver o saber são ignoradas. Durante todos os anos em que andei investigando a questão, a maioria das pessoas me dizia que a solução seria uma integração de teoria e prática ou de conhecimento e habilidade. O que não conseguiam entender é que meus estudos mostravam que as velhas fórmulas eram inadequadas para descrever o saber humano.
Coloque sua questão no contexto da mecânica. Como parece que você aceita que habilidade não é conhecimento,  provavelmente diria que conhecimentos de mecânica são um discurso tecnológico e científico dominado por engenheiros de escolas politécnicas. Habilidade, dentro do mesmo contexto, seria aquele domínio de fazeres por parte de um bom mecânico de automóveis. Para quem entregar um carro com problemas? Quase todo mundo não tem qualquer dúvida: leva o automóvel ao mecânico, não ao engenheiro formado pela Poli. Quando a gente pensa um caso como esse fica muito difícil continuar insistindo na idéia de que o mecânico é apenas um profissional com grande perícia ou habilidade. O que ele faz certamente é conhecimento. Não ignoro que o engenheiro de nosso exemplo também tem conhecimento de mecânica, mas é um saber diferente do saber utilizado por profissionais que trabalham em oficinas de automóveis.
Em estudos contemporâneos sobre o saber humano costuma-se fazer algumas distinções que podem ser úteis aqui. Uma delas é a que estabelece diferenças entre o conhecimento declarativo e o conhecimento processual. O primeiro é constituído por proposições verbais que se encadeiam em estruturas lógicas capazes de explicar fenômenos e situações que nos cercam. Esse é um tipo de conhecimento que caracteriza o que chamamos de ciência. O segundo é aquele conhecimento que é constituído por uma série operações seqüenciais utilizadas para se obter um produto ou resultado. Esse é um tipo de conhecimento ao qual damos o nome de prática, técnica ou habilidade. O primeiro explica o mundo. O segundo muda  o mundo. O primeiro caracteriza o saber do engenheiro. O segundo, o do mecânico.
Mais uma vez minha resposta precisa vir precedida de uma longa explicação. Você me faz uma pergunta com base num modo de pensar que rejeito em meu livro (o modo de pensar que acha, por exemplo, que o conhecimento precede temporal e psicologicamente a habilidade). O que procuro mostrar é que habilidade também é conhecimento. Ou, colocando as coisas com mais clareza, habilidade é conhecimento processual, uma forma de saber que independe do saber “científico”.
 
 * O que um profissional precisa buscar na sua formação que realmente fará a diferença no seu trabalho?
Não abordo esse tipo de questão em meu livro. Mas, mesmo assim, adianto aqui uma resposta. Em termos de preparação para o futuro, creio que as pessoas devem escolher estudar coisas de que gostam, e devem fazer menos apostas quanto a ocupações que lhes garantam sucesso financeiro.  Essa questão me traz à lembrança  um técnico em prótese dental que entrevistei muitos anos atrás. Ele deixou um alto cargo de executivo num banco internacional para fazer um curso técnico. Vivia feliz esculpindo dentes. Ganhava menos, mas tinha deixado um trabalho que lhe tirava o prazer de viver. 
Acho que mais educação é sempre importante, inclusive para que construamos uma consciência crítica capaz de nos ajudar a julgar possíveis escolhas com conhecimento de causa.
 
* No seu livro, o senhor fala de competência, desempenho e conhecimento. Qual seria a relação entre esses elementos?
 
Em meus estudos, cheguei a uma formulação que, acho eu, nos ajuda a entender melhor o saber técnico. Nessa formulação, proponho que o saber fazer é constituído por três dimensões em contínua interação: informação, conhecimento e desempenho. Não analiso em detalhe a palavra da moda nos meios educacionais, competência.
Qualquer competência é constituída por esses elementos. Um exemplo: dirigir automóveis. Essa habilidade (se quiser, podemos chamá-la de competência) tem três dimensões. É constituída por informações de como mudar marchas, como usar a embreagem, como usar os freios etc. As informações, constituídas sobretudo por instruções verbais do como fazer, são muito evidentes em pessoas que estão aprendendo (mesmo que não tenham um instrutor de auto-escola, usam um discurso interno que as ajuda a entender o que estão fazendo). Os conhecimentos são constituídos por representações internas do fazer (bons motoristas não deixam de saber dirigir quando estão longe de automóveis, há um saber intrínseco que eles carregam mesmo quando não estão dirigindo). Os desempenhos são constituídos pela execução (pelo ato de dirigir, no caso dos motoristas). Esse modo de ver explica habilidades como uma forma particular de saber, envolvendo formas de compartilhar saberes na sociedade (informações), formas de representar subjetivamente informações e experiências vividas (conhecimento pessoal) e a ação humana (desempenho).
Considerações sobre informação, conhecimento e desempenho, como componentes do saber humano constituem uma parte um tanto quanto técnica de meu livro. Elas substituem as explicações que considero simplistas porque baseadas nos pares teoria/prática ou conhecimento/habilidade. O que proponho, em síntese, é que  técnicas como cortar cabelo, aplicar uma injeção endovenosa, desfilar na passarela, esculpir um dente, escrever um segmento de programa em Pascal etc. são saberes que não dependem de teorias prévias. Ou, para utilizar uma linguagem mais comum, são conhecimentos com status próprio e que não dependem de uma teoria que lhes daria consistência.
O que proponho contraria as visões comuns de conhecimento. Defendo o abandono do par teoria/prática. Advogo o status de conhecimento ou saber para as habilidades. Sugiro que a  explicação sobre nossos fazeres (ciência) é insuficiente como conhecimento capaz de nos ajudar a agir. Defendo a idéia de que a ação é uma forma especial de saber. 
 
* No atual cenário profissional, o que se valoriza mais o saber-saber ou o
saber-fazer?
 
No atual cenário, valoriza-se equivocadamente um certo saber-saber. Mas todo o saber-saber do mundo não produz nenhum saber-fazer. A ação tem suas próprias demandas cognitivas. A ação é uma forma de saber, com propriedades independentes de outras formas de saber.
 
* Dentro do seu estudo, existe alguma área que esteja bem servida em termos de educação profissional? 
 
Meus estudos concentram-se em questões de caráter epistemológicos e metodológicos. Ou seja, preocupei-me em analisar a técnica como uma forma especial de conhecimento (epistemologia) para estudar posteriormente caminhos de como ensinar e aprender esse saber dos homens (metodologia de ensino). Não abordo no livro dimensões sociológicas e econômicas capazes de fundamentar uma resposta para essa sua pergunta.
 
·        O que falta aos professores da área de educação técnica?
 
Assumir seu saber técnico como uma forma de conhecimento. Isso tem implicações importantes em termos de metodologia de ensino e em valorização do aprender a fazer que caracteriza a formação de professores da área de educação profissional. Muita gente diz que os professores da área de educação profissional têm apenas uma visão técnica e precisam de formação pedagógica. Vejo essa afirmação com muita reserva. Programas de capacitação pedagógica desses docentes geralmente valorizam o que chama de teoria (o saber do ócio construído por pedagogos nas academias). Tal enfoque pode significar um esvaziamento do saber do trabalho e das formas mais efetivas de aprender a trabalhar. 
Aos professores da área de educação técnica falta, ás vezes, o reconhecimento de que seu saber não depende de teorias e deveria ser a base das pedagogias de uma educação para o trabalho.
 
*             No seu ponto de vista, qual será o tipo de ensino eficaz na preparação de um profissional?
 
Nas conclusões do meu livro, sugiro que um caminho interessante para a educação profissional é a Teoria da Atividade. Esse enfoque do ensino, baseado num movimento inaugurado pelo pesquisador russo Lev Vygotsky, entende que o saber é uma forma de ação, não um repertório de idéias já sistematizadas e prontas que podem ser depositadas na mente das pessoas (nem apropriadas pelos educandos). Formar um profissional dentro dessa orientação implicará em medidas que articulem modos de fazer, cultura e ferramentas em objetivos escolhidos pelos homens. Nessa direção são importantes coisas como significado da ação e dimensão histórica do fazer. Não se trata mais de articular teoria e prática, mas de agir em direções conscientemente assumidas para dar sentido ao trabalho. Entendo que esse tipo de ensino ainda precisa ser construído.