Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Redação Cooperativa: Novas Histórias

março 22, 2018

O Trompetista sem Ritmo

 

Tudo está preparado para a grande noite. A orquestra sinfônica da pequena cidade de Barben finalmente vai tocar no palácio de Ethanis. O maestro, antes da viagem, faz mais um ensaio geral e descobre que nem tudo vai bem. Um trompetista está sem noção de ritmo. Às vezes se adianta aos demais. Às vezes se atrasa. E com isso, a harmonia fica comprometida. O grupo viaja amanhã. Não é possível substituir o trompetista desritmado.

O maestro pensa em caminhos possíveis. Um deles é o de combinar com o trompetista que ele irá para o palco com a orquestra e simulará que está tocando. Assim, com seu trompete mudo, a harmonia da orquestra estará garantida. Outra possibilidade é a de insistir em ensaios individuais com o músico sem ritmo até o momento do concerto, na esperança de que ele entrará no tempo certo na hora do espetáculo. Há ainda mais uma possibilidade: o músico sem ritmo seguirá com o grupo para o palácio de Ethanis, mas ficará na plateia, sem comprometer o desempenho da orquestra. O maestro precisa escolher um caminho. Mas a escolha não resolve tudo. Ele ainda não sabe como reagirá o trompetista. Não sabe também como reagirão os demais músicos depois de tanto ensaio e da proximidade do sonho de subirem ao palco do palácio de Ethanis.

 

 

Depois do Rio no Meio do Caminho

 

Eles são cinco, dois rapazes e três moças. Estão bem preparados para o exame que lhes dará o direito de representar a arte de Ethanis em outra galáxia. Mas, ainda estão no começo da viagem para a capital. Acabam de chegar às margens de um grande rio, muito largo e profundo. Não há pontes. Não há barcos. Do grupo, dois sabem nadar, um rapaz e uma moça. Os nadadores são muito experientes e podem carregar os companheiros, um por vez, até a outra margem. É uma operação com certo perigo, mas as águas são calmas. A solução, porém, pode custar caro. Como a operação será demorada, o grupo talvez não chegue a tempo à capital para o exame. A moçada não conhece o rio, mas desconfia que em algum ponto ele talvez dê vau. Se estiverem com sorte, poderão encontrar tal ponto logo e atravessar o rio em segurança. Se a sorte não ajuda-los, a busca por um vau no rio poderá ser muito demorada, atrasando em demasia a ida para a capital.

Os dois nadadores lideram o grupo e precisam fazer uma escolha. A primeira delas é a de seguirem caminho, deixando para trás os companheiros que não sabem nadar. A segunda é a de planejar e executar a travessia levando, um por vez, os amigos que não sabem nadar. Finalmente, podem desistir da travessia a saírem em busca de um ponto onde haja vau. A gloriosa vida de artistas representantes de Ethanis está ainda num horizonte distante e é preciso tomar uma decisão para seguir viagem.

 

Orelhas Grandes

 

Em Ethanis, o povo tem orelhas pequenas, delicadas. Mas, Marenka, recepcionista do escritório dos entases (um grupo importante da moda em Ethanis) tem orelhas imensas (pelo menos para os padrões do planeta). Os entases em cargos gerenciais estão reunidos informalmente para trocar impressões sobre o trabalho. E, entre uma e outra taça do excelente vinho ethaniano, falam de Marenka. Ridicularizam as imensas orelhas da moça, Riem. O diretor geral acompanha a divertida conversa com um sorriso de aprovação. Savenko, gerente de produtos, fica incomodado, ele não acha certo que as orelhas de Marenka sejam objeto de riso. E fica mais incomodado ainda quando percebe que o diretor geral está dando corda a seus subordinados para que eles, cada vez mais, inventem uma nova gracinha para falar da aparência da recepcionista.

Savenko está numa situação incômoda. Ele não acha certo que características físicas das pessoas sejam tratadas daquela maneira. Mas, até o diretor geral está se divertindo com as piadas sobre Marenka. O que fazer? Savenko pode ficar quieto e apenas não participar daquela conversa que, para ele, tem traços de crueldade, para depois, privadamente, dizer a colegas mais chegados que aquele não era um comportamento que ele esperava de gerentes. Ou Savenko pode ser ousado e interromper toda aquela diversão dizendo ao diretor geral que o que estão fazendo é um massacre cruel contra pessoa que faz bom trabalho e apenas tem orelhas grandes. Isso lhe custará perda de pontos para a esperada promoção. E não é  mais possível esperar, Savenko tem que tomar uma decisão.

 

A Fada que Procurava Emprego

 

Chamava-se Anne Krissimina e era uma fadinha nova. Tinha só mil e duzentos anos. Apesar de nova, era muito experiente. Fez um sapo virar príncipe. Encantou um rei com sua voz maravilhosa. Cachorros bravos ficavam mansinhos quando a viam. Ajudou muitas outras fadas em histórias que toda criança conhece. Mas os tempos mudaram. Ninguém mais acredita em fadas. E já faz mais de dez anos que Anne Krissimina está desempregada. Procurou emprego em toda parte, mas não há serviço para fadas em Ethanis.

Um dia, a fadinha andava pela rua distraída. Olhava as naves espaciais estacionadas lendo as placas para saber se existiam mais números ímpares ou números pares. Os ímpares estavam vencendo. Numa nave antiga, cor de rosa e placa de número ímpar, ela viu um adesivo que a deixou animada. Nele estava escrito; “eu acredito em fadas”. Anne Krissimina voltou a ter esperanças. Quem sabe o dono ou dona daquela nave não poderia lhe arrumar trabalho de fada. A fadinha ficou aguardando, tinha certeza que sua vida ia mudar.

Tiscar, a dona da nave, estava mesmo procurando uma fada e empregou Ana Krisimina imediatamente. A fadinha, porém, não teria vida fácil. Tiscar a desafiou com problemas muito sérios. O que queria a patroa? Queria que Ana indicasse meios para que as pessoas deixassem de sujar o planeta com tanto lixo. Algumas possíveis soluções estavam fora do jogo. Nada de leis. Nada de punições. Nada de campanhas nos meios de comunicação. Nada de sermões sobre a poluição. Tiscar queria que Ana Krissimina inventasse soluções novas que garantissem que a poluição iria sumir de Ethanis. Começava assim o maior desafio na vida da fadinha.

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Regra de ouro

março 22, 2018

Encontrei um site interessante que, em linguagem bem acessível, faz um registro interessante sobre a famosa regra de ouro em ética. Para interessados, segue indicação de link.

Televisão e crianças

fevereiro 22, 2018

Há muitos programas em televisão para crianças. Hä série célebres como Sesame Street. Quase todos os programas infantis, com ou sem pretensões educacionais, costumam ser barulhentos, apelativos, imbecilizantesss. Mas, como tudo no mundo, sempre aparece uma excessão. E uma delas certamente é Mister Roger’s Neighborhood, um programa delicado, tranquilo, sempre apresentando coisas da vida de uma maneira suave e gostosa. Infelizmente, faz muito tempo que Mister Roger’s saiu do ar. Eu  o via com frequência nos tempos em que vivi nos EUA, sempre admirando a figura de um comunicador que jamais apela para ser ouvido.

Mister Roger’s Neighborhood era  transmitido pelo PBS (Public Broadcasting Service), a reed de TV pública americana, uma referência de televisão bem feita.

Trago para cá este vídeo que mostra a primeira aparição de Mister Roger na TV. Um registro histórico que precisa ser visto por educadores que queiram conversar sobre novas mídias e educação.

 

 

Discurso de paraninfo

janeiro 6, 2018

Metodologia de investigação em educação

setembro 26, 2017

As metodologias de investigação em educação geralmente utilizam análises do discurso para chegarem a conclusões. Isso acontece por causa da instrumentação, quase sempre concretizada por meio de questionários ou pelo registro de entrevistas. Essa abordagem metodológica é bastante problemática. O discurso das pessoas não retrata necessariamente o que pensam, nem como agem.

Em dois estudos que fiz recentemente para a UNESCO, um sobre valores, outro sobre atuação e capacitação de docentes, optei por fazer observações de eventos, em vez de entrevistar professores, alunos e gestores das escolas. Como meus estudos aconteceram na área de educação profissional e tecnológica, optei por observações das atividades em oficinas e laboratórios. Eventualmente observei atividades em salas de aula.

Meus estudos não tiveram pretensão de atender aos rigores de investigações acadêmicas. O que eu buscava eram casos que pudessem iluminar aspectos da educação profissional e tecnológica nos quais eu estava interessado. Meus estudos eram bastante modestos. Além disso, não recorri a nenhuma referência de gurus de metodologia para desenhar meus roteiros de observação. O que fiz foi comparecer a eventos indicados pelas escolas que aceitaram participar dos estudos. Estive em cozinhas, salões de beleza, ateliês de costura, oficinas de soldagem, plantas de tecnologia de alimentos, pocilgas, tanques de criação de peixes e outros ambientes em que os alunos aprendem fazendo e, quase sempre, produzindo obras.

Ao observar o que acontecia em oficinas, tentei em nada interferir. Por isso, muitas vezes não conversava com alunos e professores. Mas, sempre que sentia que a conversa poderia acontecer sem prejuízo para as atividades observadas, entrevistava informalmente docentes e estudantes, principalmente para melhor entender o que estava sendo feito. Para cada ambiente visitado, eu desenhava um layout do local. A medida me ajudava a marcar movimentos de alunos e professores, assim como da circulação de matérias primas e do uso de equipamentos e ferramentas no espaço.

Em cada ambiente observado, eu esperava que as coisas acontecessem de acordo com determinado padrão. Assim, por exemplo, numa oficina de soldagem, era previsível que haveria diversas demonstrações da técnica que seria objeto de aprendizagem, praticarem dos alunos nos boxes individuais, supervisão do docente na realização das tarefas dos alunos etc. Além disso, havia expectava de alguns eventos acontecessem indicando colaboração entre os alunos, dificuldades de compreensão na execução do trabalho, etc. Observações em tais ambientes resultavam num relatório escrito do que acontecera. Em tais relatórios mereciam destaque dois aspectos: situações não esperadas (fora do padrão comum) e incidentes críticos.

Convém exemplificar os destaques. Não se espera, por exemplo, que um docente faça vídeos das tarefas que alunos estão realizando numa oficina de soldagem. E isso aconteceu numa das observações que fiz. Essa situação não esperada precisava ser explicada. Por isso perguntei ao professor o porquê do que estava fazendo. Ele me disse que aqueles vídeos, com pequenas edições, seriam publicados na internet; isso, segundo ele, era motivo de orgulho para os alunos. Na literatura pedagógica, o que eu acabara de observar tem o elegante nome de celebração da aprendizagem e eu não esperava atos de celebração da aprendizagem em atividades comuns numa oficina de soldagem, embora, no cômputo geral, esperasse aparecimento de situações que indicassem celebração do trabalho. Cabe reparar que situação com celebração da aprendizagem não costuma aparecer em relatos resultantes de questionários entrevistas. Ela emerge em observações  de atividades nas oficinas.

É difícil definir o que é um incidente crítico. Ele é também uma situação inesperada. Mas, tem uma qualidade especial. Ele costuma iluminar conteúdo que é objeto de investigação. Ilustro isso com um caso também acontecido numa oficina de soldagem. Os alunos estavam no último dia da aula. Cada qual, em seu box, realizava uma soldagem. A tarefa que estavam realizando era similar ao teste ao qual seriam submetidos no dia seguinte para obtenção da certificação necessária para trabalharem como soldadores. Além disso, uma empresa havia prometido emprego imediato para os alunos que se destacassem no teste. Aconteceu então algo inesperado. Um alunos saiu de seu box e conversou com seu vizinho, Otávio, por alguns momentos. A seguir continuou sua tarefa no box que antes era ocupado por Otávio. Este veio para o hall da oficina e deixou sua tarefa pela metade. Comecei a conversar com ele. Fui informado que o compressor da máquina do colega pifara e que a manutenção não poderia reparar o equipamento de imediato. Otávio então cedeu seu box para o outro aluno. Continuei a conversa sem fazer perguntas diretas sobre o ocorrido (uma condição que faz parte do método que escolhi), mas Otávio percebeu minha curiosidade e saiu-se com essa: “professor, o que o senhor acaba de ver a gente chama de companheirismo”.

Em observações anteriores, eu já havia constatado que nas oficinas há um ambiente de camaradagem entre os alunos-trabalhadores. Ajudar um companheiro que tem algum problema com equipamento é comportamento frequente. Vi isso acontecer algumas vezes em ateliês de costura, em confeitarias, em marcenarias. Outro tipo de ajuda freqüente é o auxílio a colegas que enfrentam dificuldade na leitura e interpretação de desenhos técnicos. Vi isso em ateliês de costura, em oficinas de soldagem, em marcenarias.  Essas descobertas não ocorreram em função de informações verbais de alunos ou de professores. Eu acabei vendo situações de companheirismo em atividades que os alunos estavam desenvolvendo. Não importava o discurso, importavam as ações.

A metodologia que adotei gera um quadro de muitas anotações sobre eventos. Nelas há registros de padrões de comportamentos comuns nos ambientes produtivos, registros de situações não esperadas, registros de incidentes críticos. Mas, o trabalho com os dados não cessa nos registros. Estes são organizados em narrativas que buscam explicar o que foi observado. As narrativas são, portanto, o produto final da investigação. É a partir delas que se constrói um quadro interpretativo e teórico.

Adotei uma metodologia com base em intuições do que seria mais  adequado para recolher dados a partir de atividades de professores e alunos em ambientes oficinais. Além de traços de intuição, utilizei algumas práticas de meu treinamento como tecnólogo educacional. Esse é o caso, por exemplo, do registro de incidentes críticos, um técnica que aprendi em meus tempos de mestrado na San Diego State University em disciplinas relacionadas com instrucional design.

Para ajustar o estudo que estávamos realizando (tive com parceiros na empreitada os educadores Marilza Regatieri e Francisco Cordão), promovemos algumas reuniões com especialistas em educação profissional e tecnológica e educadores/pesquisadores. Numa dessas reuniões, uma professora da academia reparou que o estudo que estávamos fazendo carecia de rigor metodológico. O reparo me preocupou, embora nosso estudo não tivesse pretensões acadêmicas, e isso foi explicado à professora. Mas, continuei a pensar na questão metodológica. E no caminho descobri que nosso estudo tem sim rigor investigativo, embora não tenhamos escolhido um modelo metodológico reconhecido pela comunidade dos pesquisadores no campo da educação. Construimos um modelo próprio, mas não explicamos isso suficientemente nos textos que produzimos. Nesta nota retomo o assunto e registro reflexões que poderiam direcionar um capítulo especial sobre metodologia em nossos estudos.

[Esta é uma publicação provisória. Ainda há muito que comentar. Continuarei oportunamente. Deixo o registro aqui porque estou com dificuldade para guardar rascunhos…]

Universo acidental

setembro 25, 2017

Vale ver esse vídeo no qual Alan Lightman apresenta a ideia de que nosso universo é acidental. Além disso ele aborda a tese de que existem muitos universos. O Nosso á apenas um deles.

http://bigthink.com/videos/alan-lightman-the-universe-is-an-accident

 

 

Sherlock!

dezembro 16, 2016

Reproduzo aqui imagem que aparece no livro comemorativo dos sessenta anos do SENAC de São Paulo. O Sherlock! foi um dos softwares educacionais mais criativos produzidos no Brasil. O autor é David Carraher, cientista do conhecimento que por muitos anos esteve vinculado à Universidade Federal de Pernambuco.

O Sherlock! em sua versão original não era muito amigável. Carlos Seabra que trabalhava comigo no PIE (Programa de Informática e Educação) propôs ao David associação para que o Sherlock ganhasse um formato que tornasse seu uso mais fácil para os professores. Inicialmente fizemos uma versão do Sherlock para o velho Apple IIe. Ficou bem interessante e começou a ser usada pelo SENAC, pela rede estadual de ensino e por algumas escolas particulares. Mas, era preciso fazer uma versão mais universal. Partimos então para um Sherlock! para o ambiente IBM/PC. O resultado final foi o de um produto que até hoje não tem similar da mesma qualidade no campo de usos de computadores em educação.

Para quem quiser saber mais sobre o Sherlock, segue link para um texto que escrevi tempos atrás e posteriormente coloquei aqui no Boteco:

 

 

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Aprendizes

dezembro 2, 2016

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Achei muito bonita esta ilustração. Ela nos fala sobre aprendizes e aprendizagens. Traduzoa frase:

 

Somos todos aprendizes nesta vida e nunca mais deixaremos de aprender.

Escola Nova X Educação Tradicional

novembro 1, 2016

Em 2006, uma das minhas alunas da pedagogia publicou post no qual fazia um resumo da história da educação no Brasil. O texto tinha muitos equívocos. Resolvi fazer um comentário,tentando apontar aspectos problemáticos do texto que ela escrevera e publicara. Os comentários que fiz ainda são válidos. Por isso decidi trazê-los aqui para o Boteco.

Cara Aluna,

Ótimo o seu blog.  Siga em frente. Se você conseguir mantê-lo durante todo o curso, poderá construir um magnífico registro de aprendizagem. Acho que, de alguma forma, sou um pouquinho responsável por essa aventura. Não deixe, portanto, de me cobrar participação, palpites colaboração.

Em seu post anterior há alguns registros sobre movimentos educacionais que merecem alguns reparos. Você fez um resumo de um resumo e, talvez por isso, perdeu alguma substância. Como o espaço aqui é pequeno, farei observações telegráficas:

  1. Educação Tradicional. Não foi ‘fundada pelos jesuítas’ em 1549. A data marca o início de oferta de educação sistemática em colégios jesuítas no Brasil. Cabe ressaltar que, em sua época, os jesuítas propõem uma educação que tem muitos aspectos inovadores. No caso brasileiro, há inovações interessantes no uso de música e teatro na educação dos indígenas. É claro que há aspectos ideológicos que devem ser considerados, mas precisamos entendê-los no tempo. Outra coisa, o rótulo ‘Educação tradicional’ é aplicado a uma gama muito grande de movimentos educacionais. Mas é preciso reparar que há diferenças notáveis entre as diversas educações abrangidas por tal rótulo.
  2. A Escola Nova não começa em 1932. A data marca a publicação de um documento importante, o Manifesto dos Pioneiros. A Escola Nova é um movimento cujas raízes remontam às últimas décadas do século XIX. Chegou mais tarde ao Brasil, mas de qualquer forma apareceu por aqui bem antes do Manifesto de 32. O ideais da Escola Nova são hoje predominantes. O que não quer dizer que sejam corretos. Nem que sejam necessariamente melhores do que alguns aspectos da Educação Tradicional. A história não é uma narrativa que separa mocinhos (Escola Nova) e bandidos (Educação Tradicional). É algo com mais nuances, detalhes, caminhos alternativos, matizes (muitas e muitas cores, em vez de apenas preto e branco…). Algumas das convicções escolanovistas são bastante contestáveis..
  3. Sua explicação sobre Escola Tecnicista também é problemática. Certamente o tecnicismo não tem com ponto de partida o ano de 1964. Esse é ano em que começa a ditadura no Brasil… O tecnicismo tem seus começos em data mais distante e não é um movimento de contornos tão nítidos como alguns livros didáticos sugerem. Nem é também um movimento do qual resultam ensino individualizado, recursos audiovisuais etc. Cada uma dessas coisas tem uma história um pouquinho mais complicada (os audiovisuais, por exemplo, têm a ver com coisas como a invenção da fotografia, do cinema, do rádio, do disco, da possibilidade de reprodução massiva das imagens etc.). Os laboratórios de audiovisuais existiram bem antes da ideologia tecnicista (cabe lembrar que certa ‘ciência da educação’ – marcada por estudos da psicologia da aprendizagem por volta dos anos 10 e 20 do século passado – foi muito utilizada tanto por escolanovistas como por tecnologistas).
  4. Finalmente, cabe observar que as tendências críticas na educação brasileira não têm como data fundante o ano de 1983 ou o fim da ditadura. Movimentos de educação crítica são marcantes nos inícios dos anos 60, às vésperas do golpe militar. A pedagogia de Paulo Freire começa em tal época. Ao lado dela, outros movimentos notáveis apareceram em nossa terra. Um deles é a história belíssima de educação popular construída no município de Natal, RN, com o prefeito Djalma Maranhão, cujo secretário de educação., Moacir de Góes, escreveu uma memória imperdível sobre a experiência: o livro “De Pé No Chão também se aprende a ler e escrever”.

Como você pode ver, não convém usar rótulos muito definitivos para designar fases ou movimentos históricos. Tais movimentos existem, são marcas ideológicas importantes, mas é preciso entendê-los em seu desenrolar no tempo. No geral eles não têm uma data fundante. Começam devagar, em várias partes, e vão ganhando contornos definitivos no tempo. Outras vezes sequer são movimentos. São mais rótulos dados por alguém que tenta simplificar a história. A meu ver é isso que acontece com o título “Educação Tradicional”. Historicamente não há tal movimento. A “Educação Tradicional” é muito mais uma invenção de escolanovistas que queriam desacreditar a educação clássica, sobretudo nos Estados Unidos. E Educação Clássica não é necessariamente ‘tradicional’.

Fiz as observações aqui registradas com uma intenção: chamar a sua atenção para um trato mais equilibrado da história. Louvo sua disposição em traçar amplos panoramas sobre a educação em nossa terra. Continue com tal interesse. Acho que muitos educadores não têm esse gosto (o que é uma pena). Em parte isso é culpa da Escola Nova, um movimento que colocou os estudos históricos num plano secundário. Mais sobre o assunto, se lhe interessar, pode ser objeto de conversa nossa em outra ocasião.

Continue o ótimo trabalho. Grande abraço,

 

Jarbas Novelino Barato

Livro sobre MOOC

setembro 2, 2016

Acabo de ver no Face indicação de um livro crítico sobre MOOC. Dei rápida olhada e vi que a obra é bem interessante. Vou ler oportunamente. Recomendo, em especial, o capítulo 2, escrito pela Professora Maria Elena Chan, da Universidade de Guadalajara.

Para interessados, segue link:

MOOC: debate abierto.