Archive for abril \13\UTC 2011

Não há livros online

abril 13, 2011

Primeiro piso da livraria Más Puro Verso, Montevideo, Uruguay. Pequeno paraíso para amantes de livros.

Computadores são grandes imitadores. Podem simular nichos ecológicos, sistemas planetários etc. Além disso, são capazes de guardar qualquer coisa que possa ser digitalizada. Entre tais coisas estão os livros. Livros digitalizados são apenas cópias da coisa em si. São simulacros. Os livros continuam a ser objetos físicos, constituídos por páginas sequenciais limitadas por capa e contracapa.

Não me estendo no assunto. Estou apenas fazendo registro de conversa que tive hoje sobre livros com meu amigo Antônio Roberto Bertelli e o editor José Carlos Venâncio. Da conversa, ficou claro para mim que fotografia de livro (livro escaneado) não é livro, é fotografia. Os computadores podem fotografar e arquivar livros. Tudo bem. Mas, não chamemos tais cópias de livros.

Na conversa com dois grandes profissionais da área editorial, citei Donald Norman. Este, num comentário sobre computadores, observa que ainda não conseguimos produzir obras originais na utilização do novo meio. Vivemos ainda a síndrome da carruagem, um fenômeno que dominou a imaginação dos primeiros construtores de carros. Eles não conseguiam mudar o modelo que tinham de veículos “modernos”. Continuavam a pensar em carruagens puxadas por cavalos. Por isso, os primeiros carros eram apenas carruagens sem tração animal. Demorou bastante para que os designers de automóveis percebessem que estavam lidando com um tipo de veículo completamente diferente de tudo que existira até então.

É vã a pretensão de produzir livros para computadores. O que precisa ainda ser inventado é um objeto de comunicação, com alguma raiz em livros, que inaugure uma nova espécie. Isso exige muita imaginação. Exige arte, como nota Norman. Exige invenção. E, é claro, depende muito pouco de “engenheiros”. Depende de autores capazes de produzir um tipo de obra completamente original.

Esquematizei linhas gerais de uma discussão que ainda precisa ser feita. Daqui algum tempo pretendo voltar ao assunto com mais vagar.

Netiqueta, normas de boas maneiras na Internet

abril 13, 2011

Novos meios de comunicação alargam horizontes. Inauguram novos comportamentos. Algumas vezes as novidades são vistas como permissão para esquecer boas maneiras. Mas, isso é um engano.  Gentileza continua a ser sinal de boa educação, não importa o meio que utilizamos.

No cotidiano, acabamos nos esquecendo de boas maneiras no uso de emails, na redação de posts, em mensagens nas redes sociais etc. Mas, no geral, isso não quer dizer que estamos ficando mais grossos no trato com as pessoas. O que rola é que ainda não incorporamos algumas normas concretas de como bem proceder num ambiente completamente novo. Saída? Netiqueta, um conjunto de normas que, se respeitadas, nos ajudam a ser mais educados na Internet.

Escrevi este post influenciado por uma mensagem da educadora portuguesa, Vicência Maio, recebida via Face Book. Na mensagem, Vicência indica um texto que relaciona 25 regras de bem proceder na Internet. Para interessados, segue aqui o link de importantes regras de netiqueta:

Saber da Garçonete, uma dramatização

abril 10, 2011

Esta semana, em conversas no Face Book, algumas de minhas alunas fizeram referência a uma dinâmica que realizei em sala de aula. Para explorar questões vinculadas ao saber que se elabora no e pelo trabalho, criei um roteiro com o objetivo de dramatizar trabalho de uma garçonete, inspirado pelo primeiro capítulo de O Saber no Trabalho, livro de Mike Rose, publicado no Brasil pela Editora senac.sp.

Mike é professor da UCLA (University of California at Los Angeles). Filho de uma garçonete e neto de trabalhadores ferroviários, teve muita dificuldade para chegar ao ensino superior. Logo depois de formado, em vez de continuar estudos no nível de pós-graduação, preferiu trabalhar com educação de adultos. Mas, seu brilho intelectual acabou levando-o para a academia, com os necessários mestrado e doutorado. Mike, porém, jamais esqueceu suas origens. Continou sempre trabalhando com questões da educação pública e educação popular.

Seu livro O Saber no Trabalho (The Mind at Work, no original em inglês) é uma obra belíssima. Em cada capítulo Mike narra encontros com trabalhadores de diversos setores. Tais encontros revelam saberes quase sempre ignorados pelos intelectuais. Mike desvela saberes invisíveis. Há muito o que aprender com seu livro.

Quem quiser conhecer melhor a proposta que elaborei a partir das idéias de Rose sobre o saber dos trabalhadores, clique aqui.

Mais censura em educação

abril 8, 2011

Meu amigo Bertelli, via email, encaminhou texto que registra nova frente de censura contra nosssos clássicos. Desta vez o alvo é Villa Lobos. Pedagogos que tudo sabem resolveram corrigir letras de cantares reunidos e transformados em arte por nosso maestro maior. Nada preciso comentar. Basta reproduzir aqui o texto recebido.

IMAGINE SÓ, ELES ESTÃO COM TANTA FRESCURA, QUE ATÉ ESTÃO MUDANDO O CANCIONEIRO POPULAR!!!!

Assunto: O Cravo não brigou com a Rosa

 

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais “O cravo brigou com a rosa”. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais. Na nova letra “o cravo encontrou a rosa/debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”.

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que “O cravo brigou com a rosa” faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/Tá com a cabeça quebrada/Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê.

A tia do maternal agora ensina assim: “Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar”. Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, melodia de Heitor Villa Lobos e letra da Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichanos. A Sociedade Protetora dos Animais cairia em cima com processos.

Quem entra na roda dança, nos dias atuais. Não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil, estimula o sexo sem amor, a vulgaridade.

Ninguém mais canta: “Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão, vem de lá Seu Delegado, e pai Francisco foi pra prisão”. O pobre do Pai Francisco foi preso apenas por vadiagem, mas atualmente ficaria sob a suspeita de ser traficante.

Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não lembrar à garotada a desigualdade de renda entre os homens. Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado.

Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse que algum filho estava militando na causa da preservação do mico-leão-dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do humor, da criatividade, da divertida sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de roda-pé ou leão-de-chácara de baile infantil – de deficiente vertical. O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) – só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação. A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, “Orca, a baleia assassina” e bujão – é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto-de-fome, pau-de-virar-tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra puta-que-o-pariu e o centroavante pereba tomar no olho-do-cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de “Jesus, Alegria dos Homens”, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé-na-cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro-funeral, o popular tá-mais-pra-lá-do-que-pra-cá,  já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a “melhor idade”.

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do Pé-Junto.

Luiz Antônio Simas
(Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio)

João quer mil amigos

abril 8, 2011

Amigos frequentadores da casa, este post é exclusivamente para a hora do recreio. Uma vizinha acaba de sugerir que eu me torne amigo do João Bergamo, outro vizinho, no Face Book. Aceitei o convite na hora.

Gostei de ver o João no Face. Ele é simpático e sempre quer conhecer mais gente, quer mais amigos. Por isso, resolvi ajudá-lo. Inaugurei uma campanha para que João chegue a 1.000 amigos no Face Book. Vocês podem ajudar, incluindo meu simpático vizinho entre seus amigos. Para tanto, aqui vai o perfil do João no FB:

Educação popular: um belo exemplo

abril 7, 2011

Já  publiquei aqui informação sobre a campanha “De Pé No Chão Também se Aprende a Ler e Escrever“. Soube agora que alguém acaba de acessar o vídeo que anexei a este blog sobre a citada campanha. Por isso, fui ao Youtube para verificar se haveria outros vídeos sobre um dos trabalhos educacionais mais importantes e envolventes que aconteceu em nosso país. Encontrei novidades. E, no final desta conversa, vou anexar uma delas ao post.

Volto ao assunto com bastante emoção. A alma da campanha “De Pé No Chão…” foi Moacyr de Góes, secretario de educação da cidade de Natal, RN, no começo dos anos de 1960. Moacyr, falecido há cerca de dois anos, era meu amigo. Conversei bastante com ele sobre a campanha. O livro dele sobre a experiência de educação popular acontecida na capital do Rio Grande do Norte é leitura obrigatória para gentes que se dizem educadores.

No Youtube, encontrei uma fala do Osmar Fávero sobre a campanha “De Pé no Chão…“. Outra razão para me emocionar. Trabalhei muitas vezes com o Osmar quando era membro da diretoria da Ande (Associação Nacional de Educação) em ocasiões de planejamento anual da CBE (Conferência Nacional de Educação). Isso foi nos começos dos anos de 1980. No vídeo vejo um Osmar bastante mais maduro, quase idoso, fazendo um rápido apanhado da importância da campanha.

Não preciso acrescentar mais comentários sobre o movimento coordenado por meu amigo Moacyr de Góes. É melhor ouvir o que o Osmar tem a dizer. Confiram isso no vídeo que estou anexando a este post.

Comunicação: quais são os limites?

abril 2, 2011

Para fazer comunicação usamos sinais: sons, letras, expressão facial, desenhos, figuras etc. Ao utilizar qualquer sistema de comunicação, quase sempre empregamos mais sinais que os necessários para passar dada informação. Ou seja, no geral somos redundantes. Essa explicação está meio abstrata. É melhor ilustrá-la com um exemplo.

Um dos meus amigos, o escritor Márcio Jabur Yunes, utiliza um caso que ilumina a questão.  Antes de apresentar o exemplo sugerido pelo Jabur, acho que é bom comentar um pouco explicações que ele dá para bobagens redundantes de nossa gramática. Em português, indicação de plural numa frase costuma ser hiper-redundante. Para seguir as normas da boa sintaxe, indicamos plural com mudança de flexões no artigo, no substantivo, no adjetivo, no verbo. Uma abundância de inflexões desnecessárias [isso resulta numa dificuldade que derruba muita gente bem educada: a maldita concordância]. Bastaria, segundo ele, indicar plural no artigo.

Vamos ao exemplo do Jabur. Ele costuma dizer que nossos caipiras do Interior são muito mais elegantes e econômicos no uso da linguagem. Ou seja, não utilizam informações desnecessárias. Dizem:

  • Os home bão.

Flexionam o artigo.  Substantivo e adjetivo não mudam. Quem os escuta entende que estão falando de um coletivo de gente boa. A sintaxe oficial nos obriga a carregar muito mais informações que as necessárias para que haja entendimento. A expressão correta, segundo Napoleão Mendes de Almeida, gramático que assombrou minha vida de estudante nos quatro anos de ginásio, é:

  • Os homens bons.

Vejam vocês, o gramaticalmente correto implica uso de dois esses a mais. Necessários para o entendimento? Não!

As divagações aqui registradas nasceram de uma leitura do livro The Information, de James Gleick. No capítulo sobre a fala dos tambores africanos, o autor aborda a questão da redundância. Essa, às vezes é necessária. Mas, outras vezes pode ser dispensada sem prejuízo para o entendimento. Do ponto de vista técnico, os estudos sobre informação, que têm como objeto determinar melhor formas realizar comunicação nos meios eletrônicos, buscam encontrar modos de evitar redundância. Menos redundância significa economia e diminuição de ruídos na comunicação. Mas, essa é uma  história sobre a qual a gente pode conversar em outra ocasião.

Em seu livro, para mostrar que a retirada de muitos elementos redundantes não traz prejuízo para a comunicação, Gleick oferece um exemplo bem legal. Para falantes da língua inglesa, diz ele que não há qualquer dificuldade para entender a seguinte mensagem que aparecia em cartazes do metrô novaiorquino nos anos 70:

if u cn rd ths

u cn gt a gd jb w hi pa!

WebQuest e Web 2.0

abril 2, 2011

Em 1995, quando criou o modelo WebQuest, Bernie tinha como colaborador Tom March. Este último estava vinculado ao Departmento de Tecnologia Educacional da Faculdade de Educação da San Diego State University como pesquisador associado. É dele a primeira WebQuest que mereceu ampla divulgação na Web: Searching for China. Tom, casado com uma australiana, mudou-se para a Austrália onde  vive  até hoje apesar da morte prematura de sua esposa.

March tabalha com formas modificadas do modelo WebQuet. Ainda mantém algum contato com Dodge, mas não tem mais com este uma colaboração estreita. Ao contrário do criador do modelo, Tom March produz bastante referências teóricas sobre WebQuests. A mais recente delas é o artigo cujo link aparece a seguir:

Na foto, Tom, sem paletó, e Bernie, o barbudo, num encontro em 2005.