Archive for novembro \23\UTC 2011

Educação e Sociedade no SciELO

novembro 23, 2011

ScieELO é a sigla de Scientific Eletronic Library Online, serviço que coloca gratuitamente no ar textos de interesse científico. Talvez você o conheça. Talvez o tenha encontrado em buscas no Google.

Já atuei no SciELO como avaliador “ad hoc”  de publicação na área de educação. Ao cumprir minha tarefa, dei uma olhada na relação de revistas educacionais que integram o acervo do citado serviço. Acho que todos os educadores devem verificar quais são os periódicos da nossa área cujas matérias podem ser acessadas via internet, sem qualquer custo. Isso pode ajudar bastante quem anda procurando referências  para estudos, redação de artigos, levantamentos bibiográficos para TCC’s etc.

Para interessados indico aqui:

Aprender e ensinar: um castigo

novembro 18, 2011

Conversas sobre o que rola em sala de aula revelam que o ambiente é um local de castigo. Isso não é apenas papo de alunos. Professores também acham que o trabalho em sala de aula quase sempre é uma tortura.

Há quem diga que isso é recente. Tenho cá minhas dúvidas. Santo Agostinho, em Confissões, no século IV, apontava a sala de aula de sua escola primária como um lugar de sofrimento.

Não estou aqui para acusar os dois atores que mais entram em cena, professores a alunos, como culpados. A situação é complexa e merece uma análise detida e cuidadosa. Não tenho condições de fazer isso agora. Apenas registro minha convicção de que estudantes e mestres não devem ser condenados a priori. Observo que, infelizmente, há uma tendência em malhar os professores quando o assunto vem à baila. Uma injustiça, na minha opinião. Toda aquela gente que fica fora do palco – famílias, administradores, legisladores, políticos, jornalistas, pesquisadores etc. -pode ter culpa no cartório.

Não adianto também soluções, e vejo com muita reserva quem diz que tecnologia pode resolver o problema.

Tudo o que escrevi até aqui é apenas um alerta para que não adiantem críticas ao que é mostrado por um vídeo indicado por um de meus ex-alunos, Rafael Tavares.

O que proponho, com a divulgação do citado material, é que ele seja um ponto de partida para conversas de pessoas que queiram examinar o problema sem recorrer aos chavões do pensamento hegemônico, tipo: autoritarismo do professor ou preguiça dos alunos.

Acho que já fiz as necessárias observações para evitar a condenação sumária e inconsequente das duas vítimas da sala de aula, o professor e o aluno.

RAZÕES PARA BLOGAR

novembro 14, 2011

Faz algum tempo que uma estudante de pós, Candice, me pediu para responder a algumas questões sobre blogs. Respondi. Não sei se minhas respostas foram de alguma valia para trabalho que ela estava elaborando. De qualquer forma, para registro, divulgação e compartilhamento, reproduzo aqui parte de minhas respostas.

Em relação ao seu blog

Conte-nos as razões pelas quais você bloga, as [des]vantagens e como este espaço tem impactado em sua vida profissional?

Blogo por diversos motivos:

 1.      Como forma de participar ativamente do ciberespaço. Com a Internet e a Web, entendo que as pessoas não podem ficar apenas no papel de usuários. Elas precisam ser autoras. O blog permite isso. Quem publica um blog vê-se como cidadão ativo no ciberespaço.

2.      Para conversar com pessoas que tem interesses similares. Em blogs, por meio de posts, a gente propõe conversa. Me interessa, portanto, descobrir, no país e no Exterior, pessoas que queiram conversar sobre assuntos que julgo importantes. Por outro lado, o blog é um instrumento para que eu possa conversar com outros autores de blogs que fazem parte de minhas escolhas e/ou indicações

3.      Para me divertir. Algumas vezes a gente quer compartilhar coisas alegres ou simplesmente “jogar conversa fora”. Blogs servem para isso em conversas no ciberespaço. E acho que isto deve acontecer mesmo em blogs ”sérios”.

4.      Para conhecer pessoas. Trocas de informação com outros blogueiros, links do meu blog na Web e comentários no meu blog muitas vezes acabam estabelecendo laços de amizades “virtuais”. Por meio do blog estabeleci laços de amizade com pessoas que, provavelmente, nunca encontrarei  face a face. Muitas dessas amizades virtuais incluem pessoas de outros países, particularmente Espanha e Portugal.

5.      Como forma de manter contatos com pessoas que já conheço há muito tempo. Amigos de longa data muitas vezes estão longe. O blog é um meio de comunicação com eles. O que posto dá-lhes idéia do que ando pensando e fazendo. Sei disso porque acompanho a vida de alguns velhos amigos distantes por meio de seus blogs.

6.      Para registrar algumas coisas que estou estudando ou pensando. Nesse sentido, o blog funciona como um diálogo comigo mesmo.

7.      Com a finalidade de aperfeiçoar minha capacidade de escrever. Como o blog é um convite à conversa, tenho que caprichar nos posts, tentando produzir comunicações inteligíveis, elegantes, claras, interessantes. Tudo isso pode acontecer se o texto tiver qualidade.

Escrevi, no Boteco Escola, uma relação de motivos para blogar inspirado por  blogueira que acompanho há bastante tempo, Lilia Efimova. Com base em estudos que Lilia fez para sua tese de doutorado, escrevi matéria intitulada “Blogar para que?”. Você pode ver o texto em:

 

https://jarbas.wordpress.com/2009/11/20/blogar-pra-que-2/

 

Você pergunta por vantagens. Vamos lá.

 1.      Uma primeira vantagem: ficar conhecido no ciberespaço. Blogueiros ativos costumam deixar alguma marca nos espaços virtuais. Por isso se tornam mais conhecidos. Isso pode nos favorecer profissionalmente, pois a produção apresentada no blog é uma referência para convites de todo tipo: palestras, produção de artigos, seminários etc.

2.      Conhecer pessoas. Isso acontece principalmente por meio de conversas que se estabelecem a partir de comentários aos posts.

3.      Acompanhar pessoas que produzem conhecimento que é de nosso interesse. Acompanho, por exemplo, Diane Ravitch e Mike Rose, autores que admiro e promovo em meu trabalho.

4.      Divulgar trabalhos que realizo. A divulgação pode resultar em interessantes trocas de informação e experiência. Um exemplo. Criei um material sobre redação cooperativa. Esse material acabou sendo utilizado ou servido de referência para duas experiências de ensino de redação em Portugal. Foi muito compensador trocar informações sobre o tema e ver meu trabalho utilizado por profissionais de um país distante.

5.      Observar como minhas idéias sobre assuntos que abordo sofrem mudança no tempo. 

 

Não aponto qualquer desvantagem no blogar.

Você acredita que os temas que aborda no blog são baseados na sua formação e/ou no seu cotidiano? você lê o seu blog e os outros blogs? Com que frequência?

O que abordo no meu blog reflete, claro minha formação, meus estudos, minhas convicções etc. Por outro lado, blogs são instrumentos muito vinculados ao cotidiano. Leitura de jornal, noticiário da TV, conversas com amigos e muitas outras coisas que rolam no dia-a-dia podem resultar em posts opinativos ou provocativos.

Sim, leio outros blogs. Leio os blogs que relaciono na minha coluna de blogrolls. E leio blogs que pesquiso para saber mais sobre a arte de blogar. Talvez eu não leia blogs tanto quanto devia. No geral, leio matérias de três ou quatro blogs semanalmente.

Em relação a sua audiência

Quem você acredita que sejam seus leitores? Com quem você gostaria de dialogar através deste canal? O que muda para você o fato de saber que está sendo lido?

Boa parte de meus leitores é constituída por pessoas que trabalham em educação. Mas, tenho leitores de outras áreas. Como utilizo a metáfora do boteco para definir blogs, muitos “botequeiros do ciberespaço” freqüentam meu espaço. E eu, o deles. No geral quero dialogar com educadores ou com pessoas da área de comunicação social.

 

Ser lido cria responsabilidade. Ao mesmo tempo, nos anima a continuar com o blog, a escrever, a encontrar matérias interessantes. Ser lido significa que a proposta de conversa está chegando lá.

Você acredita que os temas que aborda são relevantes para a sua audiência promovendo um espaço que compartilha conhecimentos?

Acho que muitos dos assuntos que abordo geram interesse de pessoas com quem quero conversar. Não sou uma boa fonte para julgar se o que escrevo é “relevante”. Acho que muito do escrevo, repito, pode ser interessante para muitos leitores. Interesse e conversas em torno de temas que proponho concretizam um compartilhamento de conhecimentos.

Lugar de Criança é na Rua

novembro 7, 2011

Mês passado escrevi artigo para revista experimental produzida por estudantes da área de comunicação, atendendo a solicitação da Roberta Perônico, minha ex-aluna. A matéria, claro, deveria ser inédita.

Meu texto utiliza referências do grande educador italiano Francesco Tonucci. Mostro as limitações do famoso bordão “lugar de criança é na escola”. Indico necessidade de conversas sobre o resgate da rua como um lugar de convivência humana. Crianças adoram a rua e nela podem viver experiências que funcionarão como matéria prima para re-elaboração de saberes, função primordial da escola.

Agora que a revista experimental foi publicada, posso divulgar o que escrevi para atender a pedido da Roberta. Vejam o dito artigo no destaque que segue:

Lugar de Criança é na Rua

Jarbas Novelino Barato

Sete da manhã. Num bairro nobre de São Paulo, três seguranças de terno preto cuidam da entrada de uma escola tradicional. No interior do prédio, dois outros homens de terno preto fazem parte da paisagem. Todo o perímetro escolar é cercado por muros altos. Esse aparato de segurança é comum em nas escolas privadas para filhos da elite paulistana. Mas, medidas para proteger alunos não estão ausentes em escolas públicas. Quase todas elas possuem muros altos, portões de ferro e outros elementos que indicam preocupação com os perigos de uma cidade violenta.

Crescem, ano a ano, medidas de segurança nas escolas. Cada vez mais, estamos presenciando a concretização da escola fortaleza. Educadores, formadores de opinião, pais e políticos apóiam movimentos para “tirar as crianças da rua”. E concordam com o que diz o bordão de uma campanha que circulou muito tempo pelos meios de comunicação: “lugar de criança é na escola”.

Quase ninguém se pergunta qual é a mensagem que a escola fortaleza passa para as crianças. A maioria das pessoas vê os cuidados de segurança nas instituições educacionais como necessidade.  

Há muito tempo Francesco Tonucci chama a atenção para os males da escola fortaleza. Ele mostra que a escola é um local de re-elaboração da experiência. E de onde vem a experiência? Vem da vida em ambientes onde as crianças podem inventar, brincar, explorar o espaço, circular livremente sem a vigilância de adultos. Em nosso mundo urbano, a experiência deve acontecer na cidade, nos espaços públicos.

A proposta do educador italiano exclui a escola fortaleza. Ela sugere caminhos completamente diferentes dos que vemos hoje no campo da educação. Para que as crianças se eduquem bem é preciso que utilizem o tecido urbano como local de convivência.

As idéias de Tonucci deram origem a um projeto chamado “cidade da criança”. Em municípios que aceitam tal projeto, crianças formam conselhos para mostrar a cidade que desejam. Nessas cidades, as crianças querem, por exemplo, que a circulação de pessoas pelas ruas tenha prioridade sobre a circulação de automóveis. Querem jogar bola na rua. Querem brincar em qualquer espaço urbano que desafie sua imaginação. Querem ter liberdade de ir e vir sem proteção e vigilância de adultos. Não querem playgrounds, querem a cidade.

A escola fortaleza e a cidade das crianças são duas propostas antagônicas. A primeira aceita a cidade hostil. A segunda propõe uma ação política e educacional que exige humanização dos espaços urbanos. A primeira entende que a escola é o local preferencial de aprendizagem. A segunda entende a aprendizagem no espaço urbano como matéria prima para que a escola faça sentido.

Infelizmente estamos aperfeiçoando a escola fortaleza e deixando que o tecido urbano apodreça cada vez mais. Achamos que lugar de criança é na escola. Mas, caso pensemos numa educação mais viva, é preciso garantir às crianças oportunidade de se aventurar pela cidade. É preciso ter consciência de que lugar de criança é na rua.