025. Cérebros eletrônicos ou orgânicos?

CÉREBROS ELETRÔNICOS E COMPUTADORES ORGÂNICOS:

Indicações para Rever Usos Educacionais de Computadores

Jarbas Novelino Barato

O título de minha comunicação menciona duas metáforas: “ computadores são cérebros eletrônicos”, “cérebros são computadores orgânicos”. Devo dizer que o emprego dessas figuras de linguagem não é resultado de qualquer preocupação oratória ou retórica. Acho que o uso das mencionadas metáforas em diferentes fases da curta história dos computadores é significativo, pois o raciocínio metafórico revela e, contraditoriamente, esconde a “verdade”. Para situar  minhas intenções com o título escolhido não encontrei nada mais claro do que a seguinte citação (Lakoff & Johson, 1980):

Os conceitos que governam nosso pensamento não são apenas uma questão do intelecto. Eles também governam o modo como atuamos no dia-a-dia, envolvendo detalhes aparentemente banais. Nossos conceitos estruturam o que nós percebemos, como nos “viramos” no mundo, como nos relacionamos com outras pessoas. Nosso sistema conceitual, portanto, desempenha um papel central na definição das realidades cotidianas. Se estivermos certos ao sugerir que nosso sistema conceitual é em grande parte metafórico, a maneira como pensamos, o que experenciamos, e o que fazemos no dia-a-dia é sobretudo uma questão de metáfora. (p.3)

Não vou aqui aprofundar a questão do uso das metáforas como uma forma de elaborar  “modelos de realidade”. Pessoas que quiserem aprofundar o tema poderão consultar o clássico “Metaphor and Though” (Ortony, 1979). Vou apenas explorar metáforas que relacionam cérebro e computador em duas diferentes situações.

Nos meus tempos de menino era comum, em notícias sobre as maravilhas de uma nova máquina e em livros de ficção científica, a expressão cérebros eletrônicos para referir-se a computadores. O termo de comparação, no caso, era o cérebro humano. O alvo da metáfora era uma máquina capaz de realizar operações que, até então, eram privilégio exclusivo da inteligência humana. Ficava muito claro que computadores simulavam (ou tentavam simular) algumas das capacidades intelectuais dos seres humanos. Não havia qualquer dúvida sobre quem era o criador e quem era a criatura. Chances da criatura vir a comportar-se como o criador eram objetos exclusivos de ficções científicas catastróficas. Aparentementea comparação proposta procurava realçar produtos, não processos. Ninguém chegava a pensar que o modo de funcionar daquelas engenhocas caras, quentes e cheia de luzes guardava qualquer relação com o funcionamento da mente humana. Havia, acho eu, clareza de que era possível certa equivalência entre algumas produções do cérebro humano e do computador. E isso era motivo de admiração, pois, pela primeira vez na história, convivíamos com um sistema capaz de produzir coisas que, até então, dependiam exclusivamente do cérebro humano.

No âmbito da primeira  metáfora – “Computadores são cérebros eletrônicos”- tão comum nos idos de cinqüenta, ficava evidenciada a centralidade do cérebro humano. A máquina era apenas uma imitação, um simulacro.

Dos anos sessenta para cá as coisas mudaram. A expressão cérebros eletrônicos caiu em desuso. E a partir dos estudos de Inteligência Artificial (AI, no jargão da literatura em língua inglesa) começa a nascer uma outra metáfora: “os cérebros humanos são computadores orgânicos”. Cabe notar que, ao contrário da primeira, dificilmente a nova metáfora é enunciada diretamente. No máximo, ela é  sugerida em expressões tais como “paradigma computacional do conhecimento”. Aliás, como observa Schön (1979), as metáforas que exercem grande influência no nosso modo de ver o mundo não são explicitadas.

Inicialmente, “o paradigma computacional do conhecimento” era uma hipótese tentativa para facilitar processos investigativos sobre o funcionamento da mente humana. Procurava-se estabelecer um paralelismo entre o funcionamento de programas de computador e o funcionamento de nosso cérebro. Havia, porém, o cuidado de observar que a comparação não buscava estabelecer equivalências. Buscava apenas encontrar descritores que permitissem entender melhor os processos mentais. De qualquer forma, ao contrário da primeira metáfora, a ênfase agora eram os processos, não o produto. E logo foi estabelecendo-se uma relação de identidade entre computadores e cérebros humanos. Num certo sentido, a metáfora desapareceu. Há agora a convicção de que, embora feitos de material diferente, ambos os hardwares dão suporte basicamente às mesmas operações mentais. Alguns entusiastas mais radicais chegam até a anunciar que o antigo cérebro eletrônico ultrapassou seu criador, constituindo-se numa nova espécie na história da evolução. Nessa leitura do processo evolucionário, o computador já ultrapassou ou está prestes a ultrapassar o homo sapiens em termos de inteligência. Nessa direção, o que nos resta é um cruzamento com a nova espécie para não ficarmos para trás em termos de inteligência.

Para situar a radicalidade da metáfora “os cérebros humanos são computadores orgânicos” cito uma observação do filósofo John R. Searle (1999) sobre a obra The Age of Spiritual Machines: When Computers Exced Human Intelligence, de Ray Kurzweil:

Suponhamos, para efeitos argumentativos, que teremos logo computadores mais inteligentes do que nós. O que acontecerá? É aqui que a obra de Kurzweil chega ao ponto central. Em primeiro lugar, de acordo com ele, viver nesse hardware confuso, lento e úmido de nossos neurônios pode ter um apelo sentimental, similar ao de viver numa choupana a beira mar. Mas, em poucas décadas, pessoas sensíveis livrar-se-ão dos neurônios e irão instalar-se em algum hardware decente.  Como isso será feito? Você terá o seu cérebro e sistema nervoso escaneados e, a seguir, assim que você e os peritos no assunto tiverem determinado os programas com exatidão, reprogramados num circuito eletrônico com seus programas e base de dados. O circuito eletrônico terá mais capacidade, velocidade e confiabilidade que os neurônios. (34)

Ao que parece, Searle não desvirtua a proposta original de Kurzweil. Este último propõe seriamente que nós somos software (programa) que pode ser transportado para qualquer meio processante (computadores eletrônicos, por exemplo). Mas não se trata apenas de transposição. O ideal será um “casamento” com o computador, estendendo consideravelmente as habilidades mentais e abrigando nossa inteligência em meios mais confiáveis e duráveis que a massa cinzenta do velho (e ultrapassado) cérebro. Seremos, finalmente, computadores eletrônicos ou, melhor ainda, fotônicos!

Não vou aqui tecer comentários sobre o provável roteiro de filme de terror que seria possível escrever a partir das idéias de Kurzweil. (E talvez, ao seguir a crítica de Searle, eu não esteja sendo completamente justo com a obra de Kurzweil, um respeitado cientista e inventor). Vou ficar apenas no nível da conclusão inevitável da metáfora “os cérebros humanos são computadores orgânicos”. Como já disse, acompanhado os argumentos de Searle, a conclusão inescapável do uso da segunda metáfora é a de que a evolução deu um novo passo: um equipamento criado pelo homo sapiens passa a ser uma nova espécie, superando o criador e inaugurando um ciclo de mutações jamais imaginado. A conclusão não é minha ou de Searle. Antes de Kurzweil, o famoso cientista da computação, Marvin Minsky (1994) já a havia estabelecido conforme é possível verificar no seguinte trecho:

Todo mundo quer ser rico e sábio. Porém nossa saúde falha antes que alcancemos riqueza e sabedoria. Para aumentar nosso tempo de vida e melhorar nossas mentes, precisamos mudar nossos corpos e cérebros. Para tanto, temos de considerar como a tradicional evolução darwiniana fez com que chegássemos até aqui. Em seguida precisamos imaginar como será possível substituir parte de nossos corpos para que nos tornemos saudáveis. Logo depois precisamos inventar estratégias para aumentar nosso cérebros e ganhar mais sabedoria. Talvez, utilizando na tecnologia, venhamos a substituir todas as partes dos nossos cérebros. Uma vez livres dos limites da biologia, poderemos decidir a duração de nossas vidas – com opção para a imortalidade – e escolher, de um vasto repertório, capacidades até agora não imaginadas (p.87).

Na nova utopia de Kurzweil ou de Minsky, carne e osso serão velhas lembranças de um tempo de fraqueza e sérios limites da inteligência. A vida mais evoluída habitará circuitos eletrônicos ou hardware mais perfeitos e confiáveis que chips e assemelhados.

Não sou pessoa qualificada para explorar de modo mais detalhado as conseqüências do “evolucionismo” sugerido pelos dois informatas atrás citados. De qualquer forma, se a matéria for de algum interesse, sugiro uma consulta a um artigo que escrevi há quatro anos (Barato, 1995). O que importa aqui é analisar as duas metáforas do ponto de vista dos impactos que elas trouxeram para a educação. No primeiro caso – “computadores são cérebros eletrônicos” –  temos uma situação que sugere o uso de computadores como ferramentas da inteligência humana, como mediadores da atividade humana, entendida como expressão do saber individual e, simultaneamente, como prática social (para uma análise mais detalhada dessa proposta, parece ser adequada uma interpretação em termos da Teoria de Atividade, cf. Nardi, 1996). No segundo caso – “o cérebro humano é um computador orgânico” – temos uma situação que sugere o uso de computadores como mestres que nos libertarão dos limites da biologia e da história.

Eu poderia aqui contentar-me com afirmação de que a única metáfora legítima é a primeira. Aparentemente faria companhia aos educadores que dizem que o computador é apenas uma ferramenta. Mas eu não concordo com a desqualificação que o termo apenas implica para as ferramentas. Vale aqui mais uma citação:

Uma atividade sempre contém vários artefactos (instrumentos, sinais, procedimentos, máquinas, leis, formas de organização do trabalho, etc.). Uma característica central desses artefactos é a que eles desempenham um papel de mediação. Relações entre elementos numa atividade não são diretas mas mediadas; por exemplo, um instrumento tem o papel de mediar a relação entre ator e objeto do fazer; o objeto é visto e manipulado não “como tal”  mas dentro das limitações colocadas pelo instrumento (Engeström, 1991b). Os próprios artefactos foram criados  e transformados durante o desenvolvimento da atividade e levam com eles uma cultura particular – um resíduo histórico desse desenvolvimento. Por causa de sua natureza, os artefactos nunca devem ser tratados como dados. “A idéia é a de que os humanos podem controlar seu próprio comportamento, não ‘de dentro’, com base nas necessidades biológicas, mas ‘desde fora’, usando e criando artefactos. Essa perspectiva não é somente otimista no que diz respeito a auto-determinação humana. Ele é um convite a um estudo sério dos artefactos como componentes integrais e inseparáveis do “funcionar” humano (Egestron, 1991a, 12) (Kuutti, 1996, 26-27).

Fico com a primeira metáfora, mas não vejo  o computador apenas como uma ferramenta. O “cérebro eletrônico” é um artefacto ao qual podemos atribuir bons e maus usos. Ele surge historicamente como expressão de relações dos homens com outros homens, e dos homens com o mundo. O significado dessas relações é parte integrante da ferramenta à qual damos o nome de computador. A evolução de ferramenta no últimos cinqüenta anos também precisa ser vista desde uma história e de relações de múltiplas faces entre os homens.  Assim como em qualquer outra situação de uso das ferramentas, não estamos diante de simples desenvolvimento tecnológico. Na trilha dessa perspectiva, iluminada pela Teoria da Atividade, não cabe qualquer interpretação de que os computadores são uma nova espécie. São instrumentos que podem estender significativamente a ação humana. Se há “evolução” no caso, ela é humana.

Talvez com excessivo simplismo, registro aqui a observação de que o equívoco da segunda metáfora é o de suprimir o papel mediador do artefacto, concluindo que a ferramenta ganhou status de sujeito. Em outras circunstâncias, quando as “extensões do homem” multiplicaram capacidade de nossa espécie, como a visão, por exemplo,  não se pensou em substituir olhos e demais componentes da visão humana por sistemas óticos “mais duráveis e perfeitos”. Isso não impediu, por outro lado, imaginar e utilizar princípios e instrumentos óticos na correção de problemas da visão. Ou dito de outra forma: os formidáveis avanços da ótica não desqualificaram o modo humano de ver.

Convém à esta altura citar um pequeno trecho de um dos livros do cientista Donald Norman (1994):

Nós humanos inventamos uma grande variedade de coisas, umas físicas, outras mentais, para ajudar nossa cognição. Assim, instrumentos como o papel, lápis, calculadoras e computadores são artefactos físicos que ajudam a cognição. A leitura, a aritmética, a lógica e as línguas são artefactos mentais, uma vez que seu poder se funda nas regras e estruturas que elas propõem, em estruturas de informação em vez de propriedades físicas. Os artefactos mentais incluem também procedimentos e rotinas tais como mnemônicos para lembrar ou métodos para desempenhar tarefas. Porém, sejam físicos ou  mentais, ambos os tipos de artefactos são igualmente artificiais – eles não existiriam sem a invenção humana. Na verdade, qualquer coisa inventada pelos humanos com o propósito de melhorar o pensamento ou ações é um artefacto, tenha ela uma presença física e seja construída ou manufaturada, seja ela mental e ensinada.(4).

Não disponho de mais tempo e espaço para comentar as impropriedades da segunda metáfora. Vou encerrar meus comentários reiterando algumas idéias que considero importantes. O computador, entendido como hardware e software, é um artefacto. É uma criação humana. Sua inteligência é uma extensão da inteligência do homo sapiens. Pode produzir maravilhas cada vez mais admiráveis. Mas, é preciso não esquecer que tais maravilhas, assim como o próprio computador, são produtos da inteligência humana que a metáfora “os cérebros humanos são computadores orgânicos” quer secundarizar.

A CRENÇA NUMA NOVA ESPÉCIE E SEUS DESVIOS EDUCACIONAIS

A primeira metáfora computacional é hoje apenas um registro histórico. Soaria estranha nos jornais de agora uma manchete sobre “cérebros eletrônicos”. A segunda, embora quase sempre não explicitada, vem exercendo uma influência determinante nos meios educacionais. E, como toda metáfora, sugere diversos leituras. Vale a pena, portanto, tentar descrever algumas das leituras que os meios educacionais fazem da expressão “o cérebro humano é um computador orgânico”.

Os caminhos de uma primeira leitura já foram delineados na seção anterior. Ela sugere que os computadores orgânicos já são inferiores aos eletrônicos do ponto de vista “fisiológico”, pois os circuitos eletrônicos são mais confiáveis e duráveis que os circuitos neuronais. A massa cinzenta é muito frágil e está sujeita a todo o tipo de ameaça externa. Há controvérsias quanto à inferioridade de um ou outro computador do ponto de vista da qualidade das operações  que  eles são capazes de desempenhar. O discurso hegemônico, porém, já assegura que os computadores eletrônicos são muito mais confiáveis porque:

As pessoas se distraem muito facilmente. Sua atenção vaga. E é verdade: as pessoas reclamam constantemente de sua falta de concentração. (…)  A distração constante é um problema para aqueles que devem concentrar-se numa tarefa. É preciso grande esforço mental para evitar as distrações. Esse, certamente, é um dos déficits da mente humana (Norman, 1994, 9).

Por outro lado, com o acento irônico que utiliza em seu Things That Make Us Smart, Norman diz que:

A máquina não se distrai. Meu computador continua a trabalhar mesmo quando a cada está pegando fogo. Criticamos as pessoas por sua falta de atenção, mas queremos realmente que elas não se distraiam? Em vez de reclamar que as pessoas são incapazes de concentrar-se, deveríamos nos rejubilar com o fato de que elas são conscientes do meio que as cerca e “ligadas” em novos eventos. Em outras palavras, a mesma característica que é uma limitação do ponto de vista centrado na máquina é uma virtude do ponto de vista centrado nos seres humanos (p. 10).

O ponto central das críticas de Norman é a suposição de uma superioridade das máquinas porque estas realizam tarefas que exigem mais precisão e um certo tipo de “racionalidade”. A admirável capacidade dos computadores em conduzir naves espaciais pelo espaço sideral, sem erros ou equívocos, é comparado com a falta de concentração dos humanos na  condução de automóveis por estradas conhecidas e pouco movimentadas. Nesse tipo de comparação, entra em jogo uma admiração nada racional pelos logros das modernas máquinas controladas por computadores eletrônicos. As capacidades de controle merecedoras de tanto respeito são inacessíveis para os humanos. Dentro desse quadro, melhorar a inteligência depende de máquinas cada vez mais poderosas. Em outras palavras, o ser humano é uma máquina muito imperfeita, sobretudo quando examinamos a capacidade de sua “unidade central de processamento” para guardar e recuperar informação.

Como as capacidades mais evidentes dos computadores eletrônicos são velocidade (os pobres neurônios, de acordo com Kurzweil (1999), são um milhão de vezes mais lentos que circuitos eletrônicos), exatidão e amplitude de memória, fica reforçada a idéia de que mais é necessariamente melhor. As implicações disso para a educação são evidentes.

Imensas quantidades de informação podem ser implantadas imediatamente nos computadores eletrônicos. Nos orgânicos, mesmo quantidades modestas de informação exigem um esforço demorado de aprendizagem. Surge aqui uma segunda leitura. A “demora” em aprender passa a ser vista como um defeito. Essa idéia, associada com os valores do imediatismo que decorre da cultura de massas, acaba marcando o aprender como uma atividade muito trabalhosa e desagradável. Dessa forma, muita gente começa a pensar que o conhecimento mais exigente deve ser deixado para uns poucos eruditos e a guarda de informação deve ser entregue inteiramente aos computadores.  A meu ver, essas conclusões equivocadas acabam justificando a mediocridade crescente dos resultados educacionais.

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