027. Colaboração e Internet

Reproduzo aqui a tradução de fala de Stephen Downes. Não preciso comentar conteúdo.

Antes de passar para frente, quero apenas agradecer a colaboraçõa de minha filha, Nara, que traduziu o material a partir da gravação da fala original colocada na Internet pelo autor. Quem trabalha com tradução sabe que esta não é uma façanha simples. Felizmente tenho o privilégio de contar com filhas que podem fazer tal trabalho.

Taís, minha outra filha, fez algo semelhante, faz pouco, com uma fala de Edgar Morin, cuja tradução também foi publicada neste espaço. Obrigado, filhas. No futuro, talvez eu peça para o André, meu filho mais novo,  para fazer algo parecido com alguma fala de celebridade alemã…

The Cloud and Collaboration

Tradução da Fala de Stephen Downes

Ars Electronica Symposium on Cloud Intelligence

Linz, Austria, 6 de setembro de 2009.

Olá pessoal! Meu nome é Stephen Downes. No meu crachá está escrito que sou um artista. Não sei bem ao certo o que dizer sobre isso. Na minha vida real sou mais parecido com um cientista. Trabalho para o Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá. Mexo com ciência da computação e um pouco de filosofia. Tiro algumas fotos. Acho que sou sim uma espécie de artista. Eu gosto da idéia de ser um artista. O artista cria ficção e encontra verdade nela. Neste sentido, há um pouco de contraste com meu trabalho. Encontro a verdade, e dela crio  ficção.

O tema desta Conferência – Ars Electronica Symposium on Cloud Intelligence – é a natureza humana. Algo que acho marcante é a audácia com que se expressa um dito entendimento sobre o que é a natureza humana. Há pouco tempo, li um artigo que dizia que os humanos são inatamente desonestos. Outros dos escritos sobre natureza humana que li nos últimos anos diziam que os humanos são inatamente sociáveis, ou inatamente espirituais, inatamente bons, inatamente maus, inatamente isto e aquilo. Eu me pergunto quais são as bases para tais afirmações. Como alguém poderia ter um entendimento sobre o que a natureza humana é?

Nós temos a idéia, que foi mencionada no inicio desta Conferência, do Corpo Político. Isto é: a idéia de que nós, coletivamente, formamos uma única entidade. Isto nos remete ao Leviatã de Hobbes. Mas no Corpo Político eram dadas às pessoas papéis muito específicos. Algumas tinham a função do cérebro e outras, como eu, eram os dedos das mãos e dos pés.

Intuitivamente, temos um entendimento do que possa ser a natureza humana. Mas à medida que aprendemos mais e mais sobre o que são os humanos, nosso entendimento mostra-se falso ou, no melhor dos casos, confuso. Pessoas como Steven Stitch e Paul Churchland escrevem sobre psicologia popular: a psicologia do entendimento popular da natureza humana baseado em ficção como crenças, esperanças, sonhos e desejos. Mas ao contrário disso, eles procuram um entendimento da natureza humana baseada no verdadeiro material de que somos feitos: a idéia de humanos sendo uma rede neural, a idéia de pensamentos, crenças, etc. sendo entendidas em termos da interação entre os neurônios desta rede. E aqui estamos começando a ter uma forma de entendimento de nós mesmos, uma forma de entendimento de nós mesmos como uma “mente incorporada”, uma forma de entendimento de nós mesmos como pessoas criadas a partir de uma rede de estruturas interligadas.

Quando pensamos na idéia do cérebro global, mencionada na introdução desta sessão, pensamos na idéia do cérebro global não como uma única consciência ou um único Leviatã, mas como bilhões de neurônios formando conexões uns com os outros e desta forma, alcançando a consciência.  Mas o que isso parece? Pensamos juntos, mas permanecemos independentes em nossa identidade. Nessa independência, de alguma forma, produzimos uma espécie de consciência única, uma colaboração, uma unidade de pensamento, uma unidade de espírito, uma unidade de idéias. Diz-se que há uma rede social mundial de pessoas auto-selecionadas, a qual se assemelha ao cérebro humano, e que juntas irão colaborar na tentativa de solucionar os problemas do mundo. Mas como é essa colaboração? Como é esse modelo? Bom, acreditamos que a colaboração depende, em grande parte, do compartilhamento. Shrage fala sobre uma ação de criação compartilhada ou descobrimento compartilhado. Peter Senge menciona a criação de uma visão compartilhada no ambiente corporativo ou contexto corporativo. Temos uma idéia de colaboração como um sentido de similaridade de propósito e objetivo. Muitas vezes ouvimos a expressão similaridade de resultados quando as pessoas falam sobre a consciência global, ou seja, todos têm o mesmo resultado em mente. Temos a idéia de colaboração como um entendimento comum do mundo. No contexto da colaboração, temos ainda a idéia do trabalho em conjunto, cada um de nós individualmente como parte de um todo único, onde as mudanças se propagam de um indivíduo para outro muito rápida e facilmente. Veja o quão rapidamente podemos afetar bilhões de vidas na internet, onde há uma interligada coordenação e o todo se movimenta como um.

Mas o que eu perguntaria é: os neurônios funcionam dessa forma? Ora, se vamos usar o cérebro, da forma como o entendemos atualmente, como um modelo de ação colaborativa ou ação coletiva, então, deveríamos examiná-lo exatamente do jeito que ele é, ao invés de dependermos de uma psicologia popular para explicar como funcionam o cérebro e as comunidades. Bom, vamos examinar o sistema neural. Começo perguntando. Existe um neurônio-chefe? O neurônio que diz a todos os outros o que fazer? Existe o neurônio-celebridade? O neurônio que é admirado por todos os outros? E é lógico que não existem tais neurônios. Existe algum neurônio no nosso cérebro que tem foco no cliente? Será que o conceito de foco no cliente ou senso de propósito faz algum sentido para o neurônio? A imagem de colaboração que nos foi dada até este ponto implica em algum tipo de similaridade. O significado é criado das similaridades de cada e toda entidade da rede, ou seja, cada entidade tem o mesmo propósito, a mesma visão, o mesmo objetivo. É uma unidade que se parece com uma rocha ou um bloco de metal, em que o significado é criado a partir de similaridades e não das diferenças de cada componente.

Esse significado baseia-se no que podemos chamar de consistência semântica, a idéia de que existe alguma sentença ou crença que cada um de nós possui e acredita ser verdade. De acordo com esses termos tradicionais, a identidade semântica é o que cria a colaboração e é necessária para que a colaboração exista. A idéia aqui é que a verdade, o significado e a comunicação estão na própria entidade: a verdade está na palavra, o significado está na sentença e a comunicação ocorre na transmissão de informação. Mas isso é exatamente o oposto do que acontece. Quando pensamos em neurônios, a verdade, o significado e a comunicação não estão de forma alguma contidas no neurônio. Ao invés disso, do ponto de vista semântico, o que imediatamente observamos é a diversidade na rede neural. Cada neurônio decide o que fazer por si próprio. Cada neurônio tem seu próprio conjunto de informações de entrada de e saída. O estado semântico, se é que podemos chamá-lo assim, de qualquer dado neurônio, será completamente único daquele neurônio. A percepção de mundo de cada neurônio, ou seja, suas conexões com outros neurônios, é única. De fato, não importa se um neurônio nos fornece um significado e outro neurônio, um significado diferente. Simplesmente não importa.

Isso também é característico da comunicação em língua inglesa ou qualquer outra língua. Este fato novamente contraria nosso entendimento da comunicação e do significado baseado em psicologia popular. Temos a impressão de quando se diz “Paris é a capital da França”, todos querem dizer exatamente a mesma coisa. Mas, experiências e ligações que cada pessoa tem em relação a Paris são diferentes. O importante em comunicação não é a similaridade de significado, não é similaridade de verdades ou visões de mundo, e sim a consistência de sintaxe. Em outras palavras, a estrutura física (e não a estrutura semântica) das entidades que se comunicam precisa ser consistente. As entidades que se comunicam precisam ser capazes de interagir umas com as outras. Dessa forma esbarramos no que Wittgenstein chamou de “jogos de linguagem”, em que o significado para uma e outra pessoa pode ser muito diferente, mas a comunicação ocorre como um processo de negociação de via dupla entre as pessoas que tentam se comunicar. Cada indivíduo tem suas idéias próprias e seus próprios entendimentos do mundo, mas a comunicação se faz possível através da interação entre pessoas por meio dessas estruturas sintáticas.

O compartilhamento entre as entidades de um sistema de comunicação ou sistema de infra-estrutura é o que podemos chamar tese de interação da comunicação ou tese de interação da comunidade.  A comunidade é criada a partir deste modelo, e não por similaridades de visões, não por similaridades de propósitos, não por similaridades de significado, e sim por interações e conexões entre as entidades. O que acontece é que ao invés de todos se tornarem os mesmos para formar uma comunidade, cada um de nós preserva sua individualidade. Portanto, não tentamos acreditar nas mesmas coisas e nem ter os mesmos propósitos ou mesmos objetivos. Ao contrário, mantemos os nossos próprios objetivos e cooperamos por meio das interações desta rede ou infra-estrutura, da mesma forma que os neurônios agem independentemente e cooperam uns com os outros por meio de sinais elétricos.

Desse modo, o que temos aqui é o conceito de cooperação neural. Os neurônios se comunicam uns com os outros sintaticamente, enviam sinais elétricos que resultam em processos bioquímicos. Inerentemente, esses processos não têm nenhum significado. Não faria sentido dizer que esses processos têm significado. O significado é criado a partir dessas interações e não como parte delas. A comunidade é criada dessa forma. A comunidade não é colaboração e sim cooperação. Ao pensarmos em uma cidade e em sua formação, não observamos um monte de pessoas direcionadas a um único objetivo, e sim cada pessoa tentando fazer seu próprio caminho. Como diria John Stuart Mill: “procurar a sua própria felicidade do seu próprio jeito”

O estudo da colaboração ou inteligência coletiva é, portanto, o estudo dos mecanismos de cooperação e dos princípios pelos quais esses mecanismos podem ser usados objetivando alcançar resultados desejados. Tais princípios são chamados de princípios (ou mecanismos) de associação e existe uma variedade deles.

O primeiro deles é a associação por similaridade, na qual as coisas tendem a conectar-se caso sejam similares umas com as outras. Este é o mecanismo caracterizado por Donald O. Hebb, que descreveu o modo como os neurônios se conectam. Mas similaridade também é um mecanismo pelo qual os humanos se conectam uns com os outros. Na internet, vemos pessoas com interesses similares se aglomerando em determinados sites, pessoas com visões similares enviando mensagens umas para as outras. Bom, este é apenas um mecanismo de associação.

Outro mecanismo é a proximidade, ou seja, estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. As células neurais estão relacionadas por proximidade. David Hume, ao falar sobre princípios de associação, mencionou o evento da continuidade: um evento é seguido de outro se este ocorre em suas proximidades de tempo e espaço. Daí temos o princípio associativo que chamamos hoje de causa e feito.

O próximo mecanismo é o feedback, ou então, como diriam Rumelhart e McClelland em processamentos paralelos distributivos, retro-propagação. Esta é a idéia de aprendermos com nossas experiências. Esta é a idéia da rede de conexões entre entidades individuais, que tanto podem ser pessoas como neurônios, sendo afetadas por eventos externos ao sistema.

Finalmente, temos o mecanismo que pode ser caracterizado como harmonia ou mecanismo de Boltzmann. Neste mecanismo, há a idéia de uma rede que tende a alcançar o estado mais estável possível. A melhor forma de visualizá-lo em nossas mentes é pensando na forma como uma superfície de água, depois de ser perturbada por uma pedra, se estabiliza em um estado de equilíbrio estável. Um estado estável pode ser simplesmente uma superfície horizontal. Gaudi usou conceitos de estados estáveis em sua arquitetura.

Tudo isso junto cria a sociedade. Não a sociedade da forma como ela existe hoje, formada por gerentes, primeiros-ministros, estrelas e celebridades, mas sim uma sociedade constituída de um grande número de entidades interagindo sintaticamente, cada uma com seus próprios objetivos, cada indivíduo agindo de forma própria. A propriedade de cada indivíduo não é a propriedade do todo. O que quero dizer é o seguinte: Temos a idéia do “novo socialismo”, assim denominada por Kevin Klein, mas também poderíamos chamá-la de “nova mente”, “novo estado colaborativo” ou “nova consciência global”. Essa idéia tende a ser definida pelo conteúdo de nossas idéias, pelo conteúdo de algumas coleções como a Wikipedia, onde todos se juntam para criar a mesma enciclopédia. Mas se o conteúdo de nossa consciência global está baseado em uma mente individual então o todo não pode ser mais do que a parte, pois para que o conteúdo seja maior que a parte, ele deverá estar acima da constituição de qualquer mente individual. Imagine se o cérebro dependesse de neurônios individuais para gerar algum significado. Neste caso, o cérebro não poderia ser mais inteligente do que um único neurônio. Em oposição a isso, o que temos é um modelo de socialismo descrito como uma forma de fortalecimento pessoal, não através da propagação de idéias, mas pela maximização do potencial de cada entidade individual da rede. Fortalecimento pessoal, igualdade de oportunidades, socialidade e interdependência são os quatro fatores que juntos constituem condições semânticas para descrever uma rede cujo funcionamento se dá com sucesso. Esta rede irá alcançar um estado estável e não um estado estagnado.

O primeiro desses quatro princípios é a autonomia, ou seja, a idéia de que cada neurônio ou cada pessoa em uma sociedade age e funciona de acordo com suas próprias necessidades internas, seus próprios impulsos, objetivos, valores, entendimentos do mundo e verdades.

O segundo principio é a igualdade de oportunidades ou abertura, ou seja, a capacidade de cada neurônio ou cada entidade em conectar-se com a rede como um todo e contribuir com a rede como um todo. Não somos abertos desta forma, você precisaria ser um produtor de programas de TV ou uma estrela de cinema para ter uma voz. A internet é muito mais aberta. Mas obviamente, não é completamente aberta. Porém, ao menos cada indivíduo conectado à internet tem a capacidade de ter uma voz e conectar-se à rede.

O terceiro princípio é a diversidade. A idéia aqui é que a diversidade não é somente tolerada, mas também esperada e de fato, celebrada. Não tentamos possuir as mesmas idéias. Entendemos que a consciência global ocorre somente quando cada um de nós tem diferentes idéias e perspectivas. É o velho paralelo do elefante. Somente podemos entender o conceito de elefante se cada um de nós tiver perspectivas próprias individuais sobre o que é o elefante.

Finalmente, o quarto princípio semântico é a interdependência. Este princípio nos dá a idéia de que estamos conectados e interagimos e que significado, verdade e conhecimento constituem propriedades que emergem da rede. Não são propriedades contidas na comunicação e nem são propriedades do individuo. Só podem ser reconhecidas de fora da rede.

Tudo isso junto nos leva ao que é chamado de tese de convivencialidade, a alternativa apropriada e congênita para uma organização social oposta às ferramentas de dominação, de massificação da mídia e de controle gerencial.

Para que esse sistema possa dar certo, devemos nos comunicar uns com os outros não apenas com palavras, mas com cada ação, com cada artefato que criamos. Minhas palavras são uma palavra, uma foto é uma palavra, uma apresentação em multimídia é uma palavra, esta apresentação é uma palavra. Todos esses artefatos tornam-se palavras nessa complexa conversa que vai muito além de qualquer significado que se possa encontrar em cada ato individual ou cada artefato individual.

Esta é a minha apresentação. E este sou eu, o artista.

Tradução: Nara Cardoso Barato

Revisão: Jarbas Novelino Barato

Campinas, 20 de setembro de 2009

3 Respostas to “027. Colaboração e Internet”

  1. Internet, colaboração e significado « Boteco Escola Says:

    […] Como muita gente não é fluente em inglês, pedi para minha filha, Nara, traduzir a comunicação de Stephen Downes. Ela fez um bom trabalho, publicado aqui em páginas: 027. Internet e Colaboraqção. Se quiser ler as considerações do citado autor, cientista de computação e pioneiro no campo de blogs, clique aqui. […]

  2. TIC’s e elaboração de significados « Boteco Escola Says:

    […] O texto integral pode swer encontrado em 027. Colaboração e Internet. […]

  3. LuAna Says:

    Estou em estado de graça pelo conteúdo desta apresentação de S. Downes, que conseguiu tão bem demonstrar a comunicação humana virtual em analogia à redes de neurônios. Grata por compartilhar.
    Luana

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