022. Computadores e educação

Segue aqui velho artigo recuperado de meus antigos arquivos.

COMPUTADORES E EDUCAÇÃO:

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO ou 1984?

JARBAS N. BARATO

Antes de mais nada, é preciso dizer algo sobre o título deste artigo. Há duas referências ficcionais para o tema que escolhi. Uma, “Admirável Mundo Novo”, de Huxley, é explícita. Outra, “1984”, de Orwell, não é tão óbvia, mas quase sempre está associada à primeira. As duas obras situam visões críticas quanto ao futuro uso das mais recentes descobertas tecnológicas. Elas, porém, são bastante diferentes. Em “Admirável Mundo Novo”, Huxley pinta um mundo organizado, limpo e divertido, onde seres humanos, geneticamente programados e cercados por maravilhas da tecnologia, vivem uma vida sem sobressaltos, paixão ou medo. Recursos sanitários e cosméticos garantem uma juventude permanente. Em “1984”, Orwell pinta um mundo cinzento, com uma organização política  que impõe, por meio da violência, um modo único de ver a vida.

Importa aqui destacar algumas características de ambas as obras. No romance de Huxley, a tecnologia é usada para garantir estabilidade, diversão e prazer. No romance de Orwell, a tecnologia é usada para o controle, a imposição (às vezes violenta) de valores. Em “Admirável Mundo Novo”, as conquistas científico-tecnológicas são utilizadas para garantir uma vida despreocupada. Todos os seres humanos, geneticamente programados, ocupam sem conflitos seu lugar na sociedade. Alguma mudança só pode ocorrer se houver um acidente genético durante o desenvolvimento dos embriões humanos nos laboratórios. Em “1984”, as conquistas científico-tecnológicas são utilizadas para vigiar os cidadãos, impor novos modos de pensar e castigar gente fora da linha. Ao contrário do mundo pintado por Huxley, o mundo de Orwell é triste e pesado. Em “1984”, a tecnologia é um meio severo de controle. O prazer inexiste no universo criado por Orwell.

Em “Admirável Mundo Novo”, o cidadão bem resolvido (corretamente programado durante sua gestação em laboratório) não faz indagações, não tem dúvidas, busca prazer contínuo. Vive uma  vida aparentemente feliz. Nada quer saber para além daquilo que deve saber. Em “1984”, o cidadão bem resolvido é aquele que se conforma e pensa de acordo com a verdade oficial. Pode ter dúvidas ou fazer indagações. Mas a falta de conformidade é tratada como crime. Predomina um clima de terror; não há, portanto, lugar para qualquer tipo de felicidade. O máximo de prazer no mundo orwelliano é fumar um cigarro intragável ou beber um gim raro e fedorento.

Se a vida imita a arte, nosso tempo está muito mais para “Admirável Mundo Novo” que para “1984”. As novas tecnologias, sobretudo as de comunicações, vêm sendo empregadas para divertir. Os usos predominantes de computadores e televisão são os de entretenimento. E assim como no universo ficcional de Huxley, a diversão é um fim em si mesma. O que importa é estar num contínuo estado de prazer, sem sobressalto, paixão ou dúvida.

Não vou explorar decorrências sociais de uma ou outra obra. Vou apenas destacar a característica marcante do universo ficcional criado por Huxley. O cidadão de “Admirável Mundo Novo” tem como meta uma vida prazerosa. O prazer, no caso, é aquele que o velho Aristóteles chamaria de prazer sensível. Nesse universo não há lugar para emoções como amor ou compaixão. Não há lugar para a indagação, a curiosidade, a pergunta, a dúvida. Tudo está programado. Pouca coisa deve ser aprendida. Os recursos tecnológicos resolvem a priori todas as dúvidas e garantem doses diárias de prazer.

Penso já ter caracterizado as questões sugeridas pelo título deste artigo. Vale, porém, acrescentar as seguintes observações:

1.   Há, sem dúvida, um uso acelerado das novas tecnologias. Há mais e mais tecnologia. Para mais gente. Para quase todos os setores da vida. Nos últimos quarenta anos saltamos do velho telefone com manivelas para os levíssimos celulares digitais. A incorporação acelerada de tecnologia é um fato indiscutível.

2.   Como bem observa o historiador Daniel Boorstin, vivemos numa sociedade cada vez mais informada, mas não necessariamente mais sábia. Em outras palavras, embora existam muito mais informações disponíveis, as pessoas, de acordo com Alan Kay, estão com dificuldade crescentes para determinar o significado das coisas. Parece que a ignorância vem sendo convertida em virtude. Não a ignorância original de quem se vê privado do saber. A nova ignorância é ensinada e aprendida. Vemô-la, sobretudo, como uma crescente tendência anti-intelectualista. Como um orgulho agressivo que despreza a razão e elege os “sentimentos” como forma suprema de ver o mundo. Assim, apesar dos investimentos crescente em mais tecnologia, vivemos uma era de menos aprendizagem.

3.   Na linha de um “admirável mundo novo”, a atitude predominante é a de um culto irracional das maravilhas tecnológicas. Fica parecendo que máquinas e equipamentos foram criados fora do mundo humano. Fica parecendo que máquinas e equipamentos não são resultado da história. Para bem situar essa tendência não posso fazer melhor que uma entusiasta pelos novos meios de comunicação. Cito-a, a seguir, oferecendo uma evidência muito clara da tendência aqui denunciada (cf. Burgos, V. em Bairon, S., (1995), p. 11)

Será que fomos realmente invadidos por seres de outros planetas? Talvez sim, e nesta galáxia da inteligência já se pode pensar, criar, sonhar e aprender sem tanta dor. O fabuloso mundo da multimídia é tão infinito quanto a imaginação. Tudo pode! Não sei se o verbo mais apropriado é navegar ou voar. Entrar em órbita, ainda seria melhor.

Tentei explicitar alguns dos pressupostos que estão por trás do título que escolhi. Possivelmente as coisas ainda não estão muito claras, mas devo parar por aqui e aprofundar alguns dos temas que já anunciei. Antes disso, porém, preciso fazer um esclarecimento.

Esclarecimento

Este artigo pode ser entendido como uma crítica (aguda, radical, apaixonada etc.) a certos usos de computadores em educação. Por essa razão, muita gente pode pensar que sou um obscurantista (ou, quem sabe, um anacrônico luddista) inimigo do progresso técnico e da utilização de ferramentas eletrônicas no espaço escolar. Não vou apresentar argumentos contra quem chegou a essa conclusão. Mas vou deixar registrados alguns apontamentos biográficos para mostrar que não sou tão obscurantista quanto pareço.

Sou um dos primeiros educadores brasileiros a propor e iniciar um processo sistemático de produção de software educacional com a participação efetiva e professores e outros profissionais comprometidos com o cotidiano da escola. Fui o idealizador e assessor de tecnologia educacional do PIE – Programa de Informática em Educação do SENAC de São Paulo, um projeto que, de 1986 a 1993, realizou, entre outras, as seguintes façanhas:

  • produção de dezesseis softwares educacionais para o Apple IIe;
  • produção de cinco softwares educacionais para   o IBM-PC;
  • qualificação de mais de cento e cinqüenta educadores para o ofício de planejar e usar softwares educacionais;
  • criação de tecnologias de produção de softwares educacionais que, até hoje, impressionam os especialistas.

As façanhas atrás listadas resultaram em alguns destaques que convém mencionar. Em 1987 o PIE ganhou, com o programa “Cálculo de Insulina”, o prêmio MEC de melhor software educacional do Brasil. No começo dos anos 90, a equipe do PIE deu forma profissional ao Sherlock, o premiado software de David Carraher.

Nosso trabalho com o Professor Carraher resultou também na versão MacIntosh de Divide & Conquer, software publicado pela Sunburst nos Estados Unidos. Finalmente, o PIE produziu um dos mais avançados softwares educacionais em termos de interação de agentes (o agente programa/computador e o agente humano), o “Introdução ao Micro”. A meu ver, apesar do enorme sucesso de vendas, o Introdução não recebeu ainda a atenção que merece do ponto de vista de design instrucional.

Comecei a trabalhar com softwares educacionais em 1983. Cheguei a dominar razoavelmente uma linguagem de programação e fui usuário entusiasmado de recursos de computação no campo da pesquisa. Quando descubro um bom jogo, passo horas na frente da telinha tentando melhorar minha performance. Por essa razão, já passei por uma crise de tendinite. Navego com alguma freqüência pela Internet. Sou freguês da livraria virtual Amazon.com. Assino a bíblia das pessoas aculturadas em informática, a revista Wired. Tenho dois computadores em casa e acho que a maquineta é uma ferramenta indispensável para qualquer educador, professor ou pesquisador nos dias de hoje.

Todos esses registros biográficos parecem cabotinismo. Mas eu não poderia deixar de mencioná-los para não ser acusado de obscurantista ou ignorante.

Há algo errado

Leigos, especialistas, vendedores, professores, alunos, administradores, jornalistas, políticos e outros atores menos votados parecem acreditar que  o computador está criando ou vai criar uma revolução educacional sem paralelo na história. Esta é uma tendência que reúne otimistas e pessimistas, entusiastas e desconfiados, conformistas e partisans, informatas e usuários. Nesse confronto, fiz parte do time dos crentes. De uns tempos para cá, porém, comecei a achar que a tão esperada revolução não vai acontecer. Poucas são as chances de uma mudança radical na educação por causa do uso educacional dos computadores. Reparem que não estou falando de outros usos de computadores. A existência de computadores em variadas áreas da vida humana acompanha e acelera mudanças que terão sérias conseqüências educacionais. Mas não é isto que está em discussão aqui. Nossa discussão está voltada para as possibilidades de uso ferramental do computador como instrumento de ensino e aprendizagem sistemáticos. É esta utilização didática da máquina que, a meu ver, está em jogo. E isso acontece por causa de restrições financeiras, técnicas e culturais. Não vou examinar os aspectos financeiros. Basta registrar aqui umas poucas observações. Software educacional de boa qualidade e inovador custa muito caro. No geral não é lucrativo. Por essa razão, produtores começaram a trabalhar com padrões pouco exigentes. E nesse, como em outros casos, o barateamento de produção resulta em artigos de péssima qualidade.

A ânsia por software barato abriu espaço para “decisores” no nível do burocratismo administrativo (aquela gente que nunca entrou numa sala de aula para trabalhar) que se aliaram a informatas (no geral, gente que nada entende de educação). Os buroinformatas acham que mudar os meios de informação é providência que muda automaticamente a aprendizagem. Mas nesse lance alguém fica esquecido: o agente (aprendiz) que precisa de meios e recursos para construir seu conhecimento.

No âmbito mais amplo, as estratégias de marketing dos fabricantes inviabilizam o uso educacional mais conseqüente de computadores em educação. Hardware e software começam a virar sucata assim que saem da fábrica (a estratégia do desperdício, uma das colunas da economia de mercado, chegou à perfeição na indústria eletrônica). Os softwares, educacionais ou não, sofrem acelerado processo de mortalização. É praticamente impossível ter uma acervo significativo de softwares educacionais. Além disso, o “padrão econômico” de produção de softwares para ensino e aprendizagem resulta num lixão (literal e figurado) que acelera nossos problemas ecológicos.

valores e avanço tecnológico

Promover educação significa, entre outras coisas, promover valores, modos de ver o mundo. Isto não é uma decorrência direta da ferramenta, embora esta não seja neutra. Mas historicamente as visões do mundo sempre foram associadas ao desenvolvimento técnico. Ou, para dizer de outra forma, a cultura espiritual sempre esteve (e está) associada à cultura material. Em alguns casos, a cultura espiritual se apropria da cultura material num jogo ideológico que associa progresso tecnológico com determinados valores que não decorrem necessariamente da base material. Este é, a meu ver, o jogo que se delineia no momento.

Hoje, o conjunto de valores supostamente neoliberais é visto como moderno, associado à mudança inevitável e apoiado por tecnologias cada vez mais avançadas. Acontece, porém, que a ideologia neoliberal nem sempre é explicitada. Por outro lado, aqueles que se autodeclararam modernos criticam uma minoria que ainda insiste em UTOPIAS, classificando os últimos sonhadores como trogloditas ou, para usar um rótulo ao gosto de um sociólogo muito conhecido, como atrasados. Para arrumar o palco, tendo em vista uma discussão sobre o tema, vou estabelecer uma comparação entre utópicos atrasados e neoliberais modernos, contrastando os valores dos radicais dos anos sessenta com os valores dos esclarecidos administradores da sociedade deste começo do século.

Para animar a festa, um pouco de música. Sugiro “Medley of Freedom”, cantado por Peter, Paul & Mary e artistas participantes do show “Lifelines”. Não encontrei música que possa servir de fundo para valores neoliberais. Talvez haja algumas. Mas, meus viéses pró-sessenta me impedem de fazer uma escolha apropriada para, musicalmente, criar um clima pós-moderno.

Apresento a seguir um quadro comparativo entre alguns valores emblemáticos de utópicos e de modernos-liberais.

VALORES UTÓPICOS

VALORES NEOLIBERAIS

  • paz & amor
  • sucesso
  • fraternidade
  • competitividade
  • igualdade
  • individualidade
  • justiça
  • produtividade & lucro
  • liberdade
  • competência
  • comunidade
  • globalização
  • justiça
  • mérito e esperteza
  • ritmo natural
  • velocidade
  • afirmação do ser
  • afirmação do ter
  • historicidade
  • presentismo
  • valor de uso
  • valor de troca
  • homem produtor, agente
  • homem consumidor, usuário, cliente
  • qualidade de vida
  • qualidade do produto
  • naturalidade
  • eficiência

[Nota: não consegui resolver aqui um problema de transferência do original deste quadro para cá. A segunda coluna ficou vazia. As palavras nela presentes aparecem na primeira coluna, logo após a palavra com a qual deve ser contrastada.]

Talvez eu tenha carregado nas tintas ao listar os valores dos gerentes da modernidade neoliberal. Mas, certamente, não errei no atacado. Faltam aos mudancistas modernos sentimentos tais como fraternidade e compaixão. As palavras de ordem são coisas tais como eficiência, sucesso, produtividade etc. Além disso, o modelo da nova burocracia mandante é o da fatalidade dos novos valores. Eles são inescapáveis…

Voltemos ao quadro comparativo de valores. Há uma convicção mais ou menos generalizada de que tecnologia e progresso estão associados com os valores que, maldosamente, estou apelidando de neoliberais. Mas nada impede que tecnologias de ponta estejam associadas com os valores que chamei de utópicos. No final dos anos sessenta e começo dos setenta houve, inclusive, movimentos que mostravam a possibilidade de articular visões de maior justiça e liberdade com o progresso tecnológico. Um exemplo clássico disso foi o contraplano da Aero Lucas, uma empresa bélica inglesa. Por causa da diminuição da encomenda de aviões de guerra (e de suposta modernização) a Aero Lucas começou a demitir operários. Sindicalistas e pesquisadores apresentaram o contraplano, uma possibilidade de mudança na direção da fabricação de ferramentas para tempos de paz. O plano era econômica e financeiramente exeqüível. Era uma possibilidade concreta de direcionar as moderníssimas instalações da Aero Lucas para finalidades pacíficas. Como vocês devem estar adivinhando, o contraplano não foi colocado em prática. Ele contrariava o poder estabelecido e os valores gerenciais “modernos”. Mas, pelo menos, provou que o avanço tecnológico não está necessariamente atrelado aos valores da nova burocracia que administra as grandes corporações.

Vamos voltar ao nosso tema, computadores e educação. Nem sempre ficam claras as tendências pós-modernas que estão por trás de propostas de usos educacionais de computadores. Mas eu acho que elas  são hegemônicas. Elas são, inclusive, responsáveis pela crença de que as virtudes intrínsecas dos computadores provocarão uma mudança fundamental na educação. Mas isso é sobretudo discurso ideológico, pouco tendo a ver com as características das novas tecnologias da informação e comunicação.

Conclusão

Não pretendo oferecer uma conclusão. Quero apenas deixar registrado que certo olhar pós-moderno não é  forma mais adequada de ver usos de novas tecnologias em educação. No geral, tal olhar vê as coisas desde a lógica de máquinas e sistemas, não deixando lugar para modos humanos de indagar, admirar e aprender. Ou, para dizer de outra forma, é preciso embarcar no uso de novas tecnologias sem esquecer-se de que gente é muito mais admirável que todas as invenções humanas.

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