046. Computadores na Educação: Uma Visão Não-Orwelliana

Reproduzo aqui uma antigo texto de George Miller sobre computadores e educação. O texto tem mais de três décadas, mas é atualíssimo. Merece leitura.

COMPUTADORES NA EDUCAÇÃO:

 

UMA VISÃO NÃO – ORWELLIANA*

 

 

GEORGE A. MILLER

 

 

Num de seus comerciais de TV, a IBM – o gigante da indústria eletrônica – mostra um consumidor muito satisfeito com a contínua queda dos preços dos computadores a cada ano que passa. Ao contrário das muitas maravilhas que freqüentam o vídeo, vale a pena levar em consideração a mensagem do ator da IBM. Aliás, nos dias de hoje, merece admiração qualquer coisa que esteja ficando melhor e mais barata.

É admirável também a capacidade da indústria do ramo de informática em prever uma constante redução de preços para os próximos dez anos. Atualmente, novas tecnologias de memória estão transitando da pesquisa para a produção numa velocidade que, em dólares constantes, promete reduzir pela metade o preço das memórias de computadores a cada dezoito meses. O custo da memória, que sempre influiu no preço dos sistemas de computação, está se tornando rapidamente um fator desprezível. Esta tendência é comparável a uma situação hipotética em que o preço dos livros se tornasse independente do número de páginas.

No início dos anos setenta, o avanço tecnológico permitiu que pequenos, mas sofisticados, sistemas de computação – os microcomputadores – pudessem ser oferecidos a preços de venda em torno de mil dólares. A esse preço, os mencionados sistemas passaram a ser acessíveis às pequenas empresas, laboratórios, consultórios e escolas – ou até mesmos aos lares de aficcionados. Os entusiastas dizem que os preços vão cair mais ainda; prevêem uma nova era na qual será possível concretizar belos sonhos. Fazem parte desses sonhos os seguintes cenários: os computadores pessoais serão tão comuns como os aparelhos de TV, embora muito mais úteis que estes últimos; ao serem introduzidos nas salas de aulas irão salvar nossas escolas; quando usados no lar, irão reaproximar as famílias; aprender a programá-los fará com que nossa sociedade se torne mais inteligente. Existirão computadores para educar os jovens, auxiliar os trabalhadores e divertir os velhos. Ao folhear as obras produzidas em torno desta moda (aparentemente) passageira ficamos convencidos de que a realidade já ultrapassou os sonhos da ficção.

De acordo com os arautos dessa revolução, estamos nos aproximando rapidamente de uma era em que as pessoas, caso possam escrever todos os programas, não precisarão  preocupar-se com quem deve escrever as leis da nação.

Os mencionados arautos afirmam que computação é um jogo para jovens. E mesmo que restem ainda alguns anos da vida útil para a sociedade pré-transistor, o advento da cultura computadorizada será inevitável. Precisamos enfrentar essa realidade e começar a educar as crianças para nela viverem. Enquanto as crianças selvagens formavam seus primeiros conceitos brincando com barro e as crianças da era industrial faziam o mesmo empilhando blocos, as crianças do futuro irão afiar suas capacidades conceituais num teclado. O fluxo de informação e o controle de processos lhe serão tão acessíveis como o foram tempo e espaço para seus avós. Seus hábitos de pensamento serão orientados para metas e soluções de problemas com toda a precisão imposta pelos algoritmos.

Tudo isso é tido como boa nova. Nunca, até então, a idealização do homem racional despontou como algo tão plausível.

Sou menos otimista. Aceito, obviamente, que os computadores vieram para ficar, requerem um tipo de pensamento caracterizado por um sistema fechado cujo domínio requer muita prática, estão destinados a causar um contínuo impacto pessoal e social sobre nossas vidas. Estou menos convencido porém de que milhões de seres racionais, capazes de resolver problemas algoritmicamente, serão incorporados a uma sociedade também racional. Não estou sequer convencido de que os computadores tornam as pessoas racionais ou de que pensar como um computador durante uns poucos anos possa mudar os padrões de pensamento irracional que persistem através da história conhecida. Nenhuma avalanche do pensamento racional, empregando meios computacionais, irá impedir que nossos descendentes deixem de entender comportamentos irracionais como o ciúme de um Otelo.

Por outro lado, não faço parte do time que vê nos computadores uma grande ameaça a todos os valores humanos. Contraditoriamente, sorridentes engenheiros e sisudos humanistas superestimam o que os computadores podem fazer por nós.

A não ser que algo totalmente inesperado aconteça, a situação irá tomar um caminho de meio termo. Os computadores se multiplicarão; mais e mais pessoas saberão como operá-los; descobertas científicas e tecnológicas, impensáveis sem tais máquinas, continuarão a ocorrer. Mas, depois do  trabalho, as pessoas voltarão para casa e para o prosaísmo de sonhos de amor, como sempre. Provavelmente, o xadrez deixará de ser um jogo interessante para os humanos, mas o jogos realmente importantes para as pessoas continuarão a causar tanta angústia como agora. Um ser humano auxiliado por um computador continua a ser humano.

Os computadores são grandes imitadores. Se providos de suficiente informação sobre como um dado sistema funciona, podem atuar da mesma forma que o dito sistema. Podem imitar a trajetória de planetas, a circulação do sangue, o calor de um reator nuclear. As imitações serão tão acuradas quanto as teorias nas quais se baseiam. Porém, nem sempre vale a pena imitar tudo que acontece no mundo real. Seria possível, por exemplo, imitar o farfalhar de cada folha de uma floresta inteira, embora dificilmente alguém ache que valha a pena tentar tal proeza. Mesmo para uma máquina, a computação exigida seria muito tediosa. Algumas coisas são mais simples que a imitação de si mesmas. Colocar a brisa de uma floresta num computador apenas substituiria a beleza natural por uma obscenidade matemática cuja correção ninguém seria capaz de avaliar. Mesmo o mais fanático amante do computador é capaz de distinguir entre o que é próprio para computadores e o que é próprio para florestas.

Quando você trabalha com um computador, ele tem meios para ocupar sua mente, para preenchê-la, até que as funções abstratas do programa e respectivas interrelações não deixem lugar para outros pensamentos. Nesses momentos de concentração, é fácil esquecer a existência de outras coisas no céu e na terra para além dos limites do programa. Bons cientistas devem constantemente tomar cuidado para não misturarem teorias com as realidades que as informam. Durante longos períodos, um cientista pode estar mais envolvido com uma imitação do que com o mundo real; mas, a longo prazo, o mundo real prevalece. Ele deve prevalecer. Por mais maravilhosos que sejam, os computadores não podem substituir o mundo por trás da teoria, o mundo dentro do qual nossos ancestrais evoluíram, o mundo no qual esperamos sobreviver.

Pelos motivos atrás elencados, recebo com alguma dúvida as boas novas sobre a revolução do computador. Ao contrário de alguns cenários de ficção científica, não estamos prestes a colocar a Natureza de joelhos. As robustas banalidades da vida e da morte continuarão a subsistir como sempre, embora as aparências possam mudar. Pessoas continuarão a levar vantagens sobre outras, sempre que puderem, murmurando preces de amor fraterno um dia por semana. E algumas delas terão a ajuda de computadores.

Acolho com simpatia a disseminação dos microcomputadores, justamente porque não espero grandes mudanças na natureza humana. Quanto mais computadores existirem e quanto mais pessoas souberem operá-los, menos chance haverá de uma elite tecnocrática usá-los para explorar as massas ignorantes.

Meu receio é que os computadores não se tornem suficientemente baratos em pouco tempo. Mil dólares é pouco apenas quando comparados com os milhões necessários para adquirir a mesma quantia de “inteligência mecânica” alguns anos atrás. Essa quantia porém ainda é uma larga soma para os pobres, a camada social mais facilmente explorada.

Se tais considerações puderem levar os americanos a expandir os direitos dos cidadãos (Bill of Rights) para incluir a liberdade de computação, dever-se-á conferir poder ao governo para tornar os computadores acessíveis a todos os cidadãos. O governo poderá, por exemplo, criar mais uma burocracia federal, encarregada de possibilitar o uso dos computadores aos pobres. Cada bairro teria um edifício onde qualquer interessado aprenderia os conceitos básicos e as habilidades específicas referidas às suas próprias necessidades de uso dos computadores. Cada um desses centros locais de computação empregaria especialistas para manter o sistema, e para assessorar e treinar novos usuários.

Alternativamente, caso possamos deter a tendência de criação de novas burocracias, o serviço poderia ser mantido por alguma instituição já existente. A rede escolar é uma boa candidata para essa finalidade. Além das escolas já serem um lugar natural para o ensino, os estudantes estão na idade certa para aprender computação e para bem apreciar as ameaças e maravilhas do computador. Se computação for conteúdo que deva ingressar na escola, eu a trataria prioritariamente como uma atividade extracurricular, como algo mais vinculado às dimensões divertidas dos conteúdos acadêmicos. Qualquer diretriz para tornar o poder do computador acessível a todos não deve necessariamente ser caminho que faça do computador uma obrigação.

Mesmo que a consciência social não passe a exercer pressão no sentido aqui proposto, parece inevitável que os computadores venham a invadir, de uma ou de outra maneira, as escolas. Uma vez que essa perspectiva parece fatal, o tema central a ser debatido são os termos de rendição. Mas, antes disto, faz-se necessária uma discussão de fundo.

Algumas vezes, uma idéia se torna predominante devido à ausência de consciência social com relação ao problema ao qual ela se refere. Tal idéia, geralmente, é a primeira a ocorrer e ninguém a desafia, propondo possíveis alternativas. Esse fenômeno, parece-me, está acontecendo com a questão do uso de computadores nas escolas.

Se solicitarmos à maioria dos educadores para associarem livremente computador com ensino, estou razoavelmente seguro de que os melhor informados começarão a falar sobre EAC -Ensino Assistido por Computador. No campo do EAC, a idéia implicitamente aceita é a de que os computadores devem ser programados para imitar professores. Essa não é uma má idéia. As vantagens dela já são bem conhecidas: questões podem ser preparadas por especialistas na matéria alvo; informações sobre o bom ou mau desempenho podem ser comunicadas imediatamente ao estudante; a instrução pode ser individualizada, permitindo aprendizagem em tempo apropriado às características de cada estudante; o tempo dos docentes pode ser melhor empregado em atividades que os professores mais gostam de desenvolver.

Infelizmente, há também desvantagens. As imitações computadorizadas de professores não são muito adequadas, pois a teoria da instrução na qual se baseiam é, no mínimo, falha; boa parte dos produtos de EAC parece estar fundada na teoria de que os professores são “sargentos de exercícios”. Além disto, os artefatos mecânicos costumam apresentar altas taxas de mortalidade nas escolas.

Os educadores provavelmente procurariam ser mais precisos, observando que produtos de EAC são melhores para ensinar certas coisas que outras. Uma vez que o formato usual de EAC é uma espécie de entrada/saída de símbolos, surpreende pouco a “descoberta” de que os melhores resultados são obtidos quando os estudantes são testados em situações de entrada/saída de símbolos. Mais especificamente, quando testados em responder questões ou falar sobre tópicos específicos. Os educadores, em suas observações mais precisas, diriam portanto que ensinar os alunos a falar sobre tópicos específicos não exaure as metas da educação. Quando se espera que o aluno faça algo mais do que emitir respostas verbais a questões pré-formuladas – pensar, por exemplo – os tradicionais exercícios não bastam.

Ao levantar essas questões bastante conhecidas, não pretendo tomar partido a favor ou contra, quero apenas mostrar a direção geral assumida por muitos educadores a respeito do uso de computadores nas escolas. Assim como eu, educadores que seguem essa linha irão dar boas vindas a uma tecnologia nova e barata. Computadores pequenos e baratos poderão, à semelhança dos livros, passar a integrar o dia a dia das escolas. Já existem brinquedos para exercitar crianças em aritmética e vocabulário. Brinquedos mais sofisticados poderão ser produzidos se os custos de memória ficarem mais acessíveis. Imagine uma criança carregando o professor para casa todas as tardes… Se isso fosse possível será que as crianças de disporiam a voltar às escolas no dia seguinte?

Os professores, porém, fazem mais do que exercitar seus alunos. Entre outras coisas, atuam como fonte de informação. Este aspecto do ato de ensinar também pode ser imitado mecanicamente. Em outras palavras, produtos de EAC podem basear-se na teoria de que os professores são respondedores de questões. Obviamente, essa teoria é quase tão injusta quanto a teoria do sargento de exercícios. Ela, porém, introduz a possibilidade de alguma variação nos modelos de EAC.

Eu, por exemplo, estou interessado no possível valor educacional de dicionários automatizados. Imagino um contexto em que um pequeno dicionário seja colocado na memória do computador, permitindo que o usuário possa simplesmente digitar uma palavra no teclado e perguntar ou pela definição do termo ou por uma lista de vocábulos correlatos. Já existem na praça sistemas comerciais de processamento de textos contendo listas de palavras cuja grafia acarreta dúvidas. Eu gostaria apenas de expandir essas listas, enriquecendo-as com informações sintáticas e semânticas, para colocá-las nas escolas. A seguir, criaria jogos de palavras suficientemente interessantes para que as crianças usassem o sistema. É provável que o uso de dicionários automatizados aceleraria a expansão do vocabulário. Geralmente, a extensão do vocabulário é considerada como algo muito importante. Ela é, por exemplo, um dos mais fidedignos indicadores daquilo que os testes de inteligência testam.

Quer seja na sua versão clássica, contexto em que a máquina propõe questões a serem respondidas pelo aluno, quer seja na versão alternativa, contexto em que o estudante propõe questões a serem respondidas pelo computador, os produtos de EAC reforçam a idéia de uma educação voltada para perguntas e respostas. Para mim, é desconcertante tomar consciência de que boa parte da educação – particularmente da educação superior – se pareça com o condicionamento de hábitos verbais requeridos para se falar sobre várias matérias. Mas a fala – mesmo a fala culta – é apenas um sintoma de verdadeira educação, não um substituto dela.

O pressuposto de que os computadores devem imitar os professores ainda possui considerável vitalidade. Na verdade, poucas pessoas trabalham com outras alternativas quando pensam em como ensinar computação para crianças. A partir dos modelos tradicionais de EAC, um especialista em computadores poderia escrever uma série de questões e respostas a serem propostas aos alunos pelo computador; as questões conduziriam os alunos, passo a passo, pelos complicados caminhos de como falar sobre computadores e suas aplicações. Ao trabalhar com esse tipo de EAC, muitas pessoas descobrem que o produto final não é muito animador. Falar a respeito de computadores, quando se tem um computador à disposição, é algo meio bobo. Uma vez que o computador está à mão, por que não usá-lo para computar?

Nesse contexto de aplicação (ensino de computação), a abordagem via EAC assemelha-se ao ensino de natação por meio de manuais, sem molhar os estudantes. Pior que isso, pois o computador é ao mesmo tempo manual e água, embora o estudante também nesse caso não se molhe. Os computadores não são bons professores; podem, porém, ser excelentes computadores.

Geralmente, a sugestão de que as crianças pequenas devem aprender computação computando levanta a questão do “touro bravo na loja de porcelana”. Será que as crianças podem realmente manipular equipamentos tão caros e tão avançados tecnicamente? A resposta é sim. Em primeiro lugar, os equipamentos já não são tão caros. Em segundo lugar, se o conteúdo for muito técnico para crianças, é possível simplificá-lo. Seymour Papert, um matemático do Massachussets Institute of Technology, vem tentando justamente isso, procurando mostrar que as linguagens da programação não precisam ser proibitivamente complexas. Se Papert e outros obtiverem sucesso, as crianças pequenas serão capazes de aprender computação computando.

Aqui, a idéia educacional importante não se restringe a como ensinar crianças a operar computadores; aliás, esse não é um aspecto que deva merecer atenção especial. Quando computamos, deve existir algo a ser computado. O ato de computar não ocorre no vazio. Se tentarmos programar o computador para imitar alguma coisa, devemos aprender a teoria por trás dessa alguma coisa (ou construir nossa própria teoria sobre a matéria). Se elegermos fazer com que os computadores analisem sentenças usando “parsings”, precisamos conhecer (ou inventar) a teoria ou sintaxe sobre a qual “parsings” automatizados possam ser construídos. Se desejarmos computar ou imitar um sistema ecológico, precisamos conhecer (ou inventar) uma teoria biológica dos nichos ecológicos. E assim por diante.

Fica claro, portanto, que muitas matérias podem ser ensinadas como parte da instrução em computação para as crianças. Tal possibilidade rivaliza-se com o ponto de vista de que os computadores devem imitar professores. Não sabemos, no momento, se essa possibilidade é forte o bastante para superar os produtos clássicos de EAC. Muito trabalho ainda será necessário para que possamos ter uma clara idéia de suas potencialidades e limitações.

A tendência de encarar novas idéias com um “sim, mas…” pode não ser animadora. Não é preciso, porém, superar essa restrição. No presente caso, o “sim, mas…” é perfeitamente compreensível.

Assim como os produtos de EAC enfatizam como falar a respeito de uma matéria, aprender por meio de atividades de computação enfatiza como especular a respeito de uma área de conhecimento. Mas, se desejarmos educar pessoas que podem determinar que especulações são verdadeiras no mundo real (qualquer que seja ele), não devemos aprisioná-los a um teclado de computador. Elas, de alguma maneira, terão de aprender como ver o mundo real – no nível das linguagens reais, ecossistemas reais, etc.

Uma pergunta final. Para onde estas considerações levam a educação com computadores? Penso que a resposta é clara. Os computadores estão chegando mas não devemos deixá-los roubar a cena. A longo prazo, o mundo real sempre prevalece.

Tradução: Jarbas Novelino Barato

São Paulo/1988

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Uma resposta to “046. Computadores na Educação: Uma Visão Não-Orwelliana”

  1. Adoniran, Gênio « Boteco Escola Says:

    […] iniciar a escrita deste post, lembrei-me de artigo clássico sobre computadores e educação de George Miller. No texto, o grande pioneiro da psicologia cognivista observa: Sou menos otimista. Aceito, […]

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