042. Pedagogia da Esperança

Segue aqui um belo artigo do meu amigo Steen larsen sobre Paulo Freire.

 

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Foto de nossa conversa com Paulo Freire. Steen, logo que voltou para a Dinamarca, registrou o encontro nesse artigo precisos que eu trouxe para o Boteco.

A PEDAGOGIA DA ESPERANÇA

 

Uma conversa com Paulo Freire

 

 

Steen Larsen*

 

 

 

São Paulo é uma Babilônia moderna.  Isto se vê claramente ao passar pela Avenida Paulista, que é o orgulho da cidade em vidro e concreto. Um palácio de vidro depois do outro parece buscar as nuvens, e qualquer jovem arquiteto brasileiro sonha em construir na Paulista seu próprio colosso apontando para o céu.  De vez em quando torna-se evidente que a irritação do Senhor foi evocada.  Se vê que Ele acha que todo esse esforço está passando dos limites quando  abre as comportas do céu para, mais uma vez, esfriar as ambições indomáveis dos homens.  Mas hoje Nosso Senhor está dormindo.  Num sol gostoso prosseguimos de carro pela Paulista até um bairro antigo e bonito, com ruas sinuosas subindo o morro.  Aqui mora Paulo Freire.  No caminho, paramos no mercado de flores da Dr. Arnaldo, onde se tem a impressão de que todos os floristas da cidade estão reunidos neste local impressionante.  Precisamos levar um buquê para Sra. Freire.

 

Ela fica contente com as flores quando nos recebe na porta, e descendo a escadaria da casa nos conduz até o escritório de Freire.  Eu sou colocado na frente, pois quem pediu para ter um encontro com ele fui eu.  Ainda no limiar da porta eu vejo uma sala repleta de livros até o teto, e no meio disso tudo vejo um senhor baixinho, idoso, de cabelo branco e comprido chegando quase até os ombros, sentado em frente a uma escrivaninha, que parece enorme.  Quando chego à entrada, ele levanta o rosto e olha para mim.  De repente me sinto terrivelmente gringo.

 

Mas não por muito tempo.  Ele se levanta, sem que com isso sua altura pareça aumentar muito, e nos dá as boas-vindas, puxa uma cadeira de vime, colocando-a perto de algumas outras ao lado da escrivaninha, se senta, e com um gesto de mão nos convida a sentar.  A conversa já começou.  Ele quer o contato.  Ele quer a conversa.  Todas as considerações preparatórias, aquelas trivialidades introdutórias, são postas de lado.

 

“Professor Freire, quem são hoje os oprimidos?”.  Eu conto-lhe sobre meu país, onde não há camponeses e colonos analfabetos. Um país onde todos são alfabetizados, mas cada vez mais as pessoas estão deixando de ler. “Calculamos que talvez  40% dos adultos são analfabetos ‘funcionais’,  e que agora de modo hipócrita reclamam que as escolas não ensinam mais seus filhos a ler.”   Saber ler, ele responde, geralmente é compreendido como saber ler frases e palavras.  O fato de ler palavras, entretanto, acontece por meio de ler o mundo, e ele usa a expressão “to read the word and read the world”,  um trocadilho que é difícil de traduzir para o dinamarquês.  Saber ler o mundo precede a leitura de palavras.  Ensinar uma pessoa a ler e escrever as palavras, mas deixar de dar a instrução criteriosa que consiste em aprender a ler e interpretar o mundo, constitui uma falta de desenvolvimento científico, político e pedagógico.  Será que é sério tentar ensinar uma pessoa  a ler as palavras sem ao mesmo tempo ensiná-la a ler o mundo?

 

Ele sempre foi contra um ensino neutro de ler e escrever, continua. Um ensino ‘asséptico’ de ortografia, palavras e sentenças sempre será baseado na linguagem do professor e não na leitura do mundo própria do aluno.

 

O mundo de experiência próprio do aluno.

 

O professor precisa saber que seu ‘aqui e agora’ para o aluno quase sempre é ‘lá e naquele tempo’.  O professor deve sempre começar com o ‘aqui’ do aluno e não com suas próprias experiências..  Nunca se chega ‘lá’ a partir de ‘lá’, mas somente a partir ‘daqui’.  Isto significa que o professor nunca deve ignorar, subestimar ou desprezar a experiência, “knowledge of living experience”, que o aluno traz consigo à escola.  Tomar como ponto de partida os conhecimentos atuais do aluno não significa, porém, que o professor deve ficar sempre lidando com esses conhecimentos.  Tomar como ponto de partida significa começar com, por em andamento,  mover-se de um ponto para outro, não ficar preso às circunstâncias.  Freire nunca foi da opinião, ao contrário do que dizem alguns de seus interprétes, que devemos ficar apenas no círculo dos conhecimentos próprios do aluno como traças em volta de uma lâmpada elétrica. Começar com as experiências do aluno não significa ficar preso a elas.

 

Toda prática de ensino, seja ela autoritária ou democrática, dirige e conduz.  O que importa é que, se esta condução interferir e limitar a capacidade própria do aluno com respeito a criatividade, formulação ou pesquisa, ela se torna uma manipulação autoritária.  Uma tal manipulação autoritária é efetuada por muitos professores que se consideram e são considerados progressistas.  Líderes autoritários existem em toda parte da sociedade, tanto na ala dogmática esquerdista como na ala de elitismo direitista.  Eles acham que eles próprios são livres e independentes de qualquer tipo de opressão e portanto têm o direito de liberar e instruir os outros.  Eles demonstram um cuidado quase devoto sobre o que os outros devem aprender. Estão convencidos de que é fundamental ensinar os outros, transmitir o que os outros devem aprender, e não “gastar tempo” com “conversa mole”.  Qualquer interesse pelas experiências dos alunos é rejeitado como sendo ‘democratismo’, da mesma maneira que qualquer respeito pelo conhecimento popular é rejeitado como sendo populismo.

 

Três cenários pedagógicos.

 

O que Freire tem criticado, usando entre outras, a expressão “pedagogia bancária”, não é o fato de o professor empregar o ensino expositivo.  O que ele critica são as relações professor-aluno quando o professor se considera a única fonte de conhecimento e discernimento do aluno, e assim impede ou se recusa a aceitar as relações dialéticas, que são a base de toda formação de conhecimento. Um ensino expositivo é vertical quando o professor, de modo autoritário, tenta fazer o impossível: transmitir sabedoria.

 

Há também um outro tipo de ensino, que aparentemente não é baseado nesta transmissão autoritária, mas que também impede o pensamento crítico do aluno.  Neste caso,  ressoam nas salas de aula mais as canções das crianças do que os reais desafios da vida.  Com um tal ensino os alunos são “amansados” e “ninados”, em parte pela fala alta e bombástica e em parte pela auto-infantilização do professor.

 

Mas há também uma terceira possibilidade que Freire considera valiosa.  É aquela em que o professor faz uma breve apresentação para depois, junto com seus alunos, fazer uma análise mais extensiva do problema.

 

A obrigação ética do professor

 

A tarefa do professor seria fácil demais se fosse reduzida a uma transmissão “asséptica” de conhecimento neutro.  Nesse caso o professor não precisaria se preocupar com dignidade e questões éticas, mas somente com a preparação do conteúdo e com a instrução.

 

Respeitar os alunos não significa mentir para eles, contar a eles, com palavras e gestos, que uma escola é um lugar “sagrado”, onde só se estuda, e que estudar não tem nenhuma relação com o que acontece no mundo lá fora, ou ocultar deles suas próprias opiniões, como se fosse um “pecado” ter sonhos, opiniões e esperanças.  Respeitá-los significa, por um lado, mostrar e defender suas próprias opiniões, e por outro lado apresentar outras opiniões a eles.

 

A obrigação ética perante os alunos consiste em mostrar respeito por diferentes idéias e atitudes.  Eu devo respeitar mesmo os pontos de vista que são contrários aos meus, talvez pontos de vista contra os quais eu esteja lutando francamente.  Eu devo ajudá-los também a ter seus próprios sonhos.

 

Sonhos e esperanças

 

Sonhar não é apenas uma ação política necessária, é uma parte integral daquilo que é ser uma pessoa histórico-social.  Faz parte da natureza humana; e na história constitui um contínuo processo de criação.  Ao nos criarmos no processo histórico, devemos manter a capacidade de sonhar, porque o sonho é a condição para poder mover a história. Não há mudanças sem sonhos, como também não há sonhos sem esperança. Entender a história como uma possibilidade e não como uma coisa predeterminada seria impossível sem o sonho.  Mas nossos sonhos e nossas utopias não se realizam sozinhos.  Nós precisamos criá-los, produzi-los, lutar para que se tornem realidades.

 

Então qual é o sonho dele sobre o mundo?  Freire não é socialista, pelo menos não se isto implicar que seja preciso se submeter a alguma forma de pensamento de sistema.  Percebe-se esta aversão a sistemas e dogmas em todas suas declarações.  Sua resposta é típica:  “Tornar o mundo menos desgostoso”.  Uma resposta bonita e autêntica de um verdadeiro intelectual, cujo empenho durante toda sua vida tem sido o de evitar ficar preso em uma determinada ideologia.  Manter as águas fluindo, sem que sua participação se misture à crescente globalização, contra a qual ele tem se expressado várias vezes durante a conversa.  Essa globalização que dissolve efetivamente qualquer ligação com uma determinada vida, aqui e agora, no tempo e no espaço.

 

Mas a história permanece sempre aberta, acrescenta.  Por isso ele é uma pessoa otimista, que escreve sobre a pedagogia da esperança, que pode nos ensinar a converter nossas esperanças e nossos sonhos numa realidade histórica.  Fico pensando na pedagogia da esperança, enquanto ele nos acompanha de volta pela escadaria acima, através da casa até o taxi lá fora.  Então talvez ainda haja esperança para um pequeno país, onde as crianças estão começando a sofrer de incontinência verbal.  Um pequeno país, onde as crianças são capazes de discutir problemas ecológicos globais, antes de saberem cuidar de si na toalete.

 

 

O livro de Paulo Freire, cujo conteúdo utilizei de vez em quando, neste artigo tem o título de “PEDAGOGY OF HOPE:  Reliving Pedagogy of the Oppressed”, New York: Continuum, 1996.

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O artigo aqui traduzido foi publicado com o título de “Ler o Mundo” na revista FOLKESKOLEN (Escola Popular), nº 45, 1996, pg 10 a 12.

 

Tradução: Else Haynes. Revisão Técnica: Jarbas Novelino Barato. São Paulo, maio de 1998.

4 Respostas to “042. Pedagogia da Esperança”

  1. Vida, muita vida « Boteco Escola Says:

    […] Para quem não sabe, Steen Larsen é um dos maiores educadores da Dinamarca e tem textos indispensáveis sobre tecnologia educacional. Tem também um belíssimo texto sobre Paulo Freire. Esse texto de Larsen está aqui, em páginas. Veja-o em  Pedagogia da Esperança: Uma conversa com Paulo Freire. […]

  2. Pedro Moreira De Godoy Says:

    Educar a partir das vivências dos alunos… professor que sabe ouvir… e que contrói o novo conhecimento a partir do diálogo, coletivo, compartilhando seus saberes e não os impondo… um sonho possível.

    “Eu espero na medida em que começo a busca, pois não seria possível buscar sem esperança. Uma educação sem esperança não é educação.” (Paulo Freire).

    “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a sí mesmo, os homens se educam entre sí, mediatizados pelo mundo.” (Paulo Freire).

  3. Pedro Moreira De Godoy Says:

    Acredito muito nessas frases de Paulo Freire, elas norteram e norteiam (segundo Edgar Morin, sulearam e suleiam) ou balizaram o meu agir e ser pedagógico nestes anos todos, logo após ter cursado a minha pós-graduação em Didática do Ensino Superior. Acredito muito que a real função dos professores é a de nos inspirar para que busquemos o conhecimento a partir de nossos próprios caminhos. Acabar com a educação de massificação seria o caminho… a desescolarização da escola é o meu maior sonho!

  4. Do auditório para o laboratório « Boteco Escola Says:

    […] Nesta foto (já publicada aqui no Boteco em outra ocasião), Steen Larsen é a grande figura ao meu lado, numa conversa que tivemos com Paulo Freire, muitos anos atrás, na biblioteca da casa do grande educador brasileiro. A conversa rendeu um belíssimop artigo do Steen que pode ser visto aqui. […]

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