Archive for julho \20\UTC 2011

Reative suas redes sociais

julho 20, 2011

Se você bloga, tuita, perfila no Face ou é membro ativo de outros espaços de redes sociais deve conhecer momentos de perda de entusiasmo, momentos de crise. Em situações assim, a vontade de desistir é grande. Confesso que já passei por isso várias vezes.

No Twitter, chega hora  em que a gente acha que aquilo é uma mesmice atroz. Num blog, às vezes parece que não há mais o que dizer. No Face, vez ou outra, surge a sensação de que estamos fazendo registros bobos, pouco interessante para qualquer amigo do pedaço.

O fenômeno é universal e normal. A vida social vai se esvaziando com o tempo. Fora da Web é assim. Dentro dela não é diferente. Na vida, poucos são os amigos com os quais nos sentimos à vontade não importando mudanças de interesses e o passar dos anos.

Há alguma esperança. Acabo de ver numa indicação de @davepeck que é possível reativar nossa atuação momentaneamente esvaziada em redes sociais. Para ver indicação do Dave, clique aqui.

Literatura Infantil

julho 19, 2011

No blog do New York Review of Books acaba de ser publicado um post de Vladimir Radunsky sobre um livrinho infantil de Mark Twain. Nome da obra: Advice to Little Girls (Conselho para Meninas).

O texto tem  muita ironia e humor. Contraria o pedagogismo que castra boa literatura. Vale pena ver a reprodução ilustrada dessa obra do grande escritor americano. Para acessar o post e reprodução da obra, clique sobre a ilustração que segue.

Obesidade Informacional

julho 18, 2011

Para conversas sobre buscas de informação na Internet,  fiz várias vezes um exercício com meus alunos em laboratórios de informática. A atividade começava com um pedido: “pesquisem na Internet Teoria da Evolução”. Para minha surpresa, em buscas no Google, tendo como ponto de partida a expressão Teoria da Evolução, meus alunos obtinham individualmente números diferentes. Eu achava que tais diferenças se deviam a uso de diferentes estratégias de busca. Mas, não. Todos ou quase todos os alunos estavam digitando exatamente o que eu colocava no quadro branco. Acabo de aprender que as diferenças observadas se deviam à personalização introduzida e aperfeiçoada pelo Google desde o final de 2009. Daquela época para cá, nossas buscas na Google são influenciadas pelos dados que aquele buscador tem sobre cada um de nós.

A personalização de buscas na Internet é um dos aspectos analisados por um livro recente, The Filter Bubble: What the Internet is hiding from you. Comecei a ler essa obra hoje e pretendo comunicar em vários posts minhas impressões de leitura. Começo já, com uma citação de Danah Boyd, registrada pelo autor, Eli Pariser, na página 14:

Nossos corpos são programados para consumir gordura e açúcares porque estes são raros na natureza… De certa maneira, somos biologicamente programados para estar atentos para coisas que nos estimulam: conteúdo vulgar, violento ou sexual, e mexericos que são humilhantes, embaraçosos ou ofensivos. Se não tomarmos cuidado, acabaremos desenvolvendo um equivalente psicológico para obesidade. Corremos o risco de consumir conteúdo que trará pouco benefício para nós e para a sociedade toda.

A fartura de informação que vem aumentando geometricamente não é necessariamente um benefício, assim como não é saudável o crescimento impressionante de cadeias de fast food mundo afora. Com a personalização das buscas, o perigo da obesidade informacional aumenta. Os intérpretes inteligentes do Google e de outras ferramentas da Internet selecionam conteúdos adequados ao nosso gosto. E da mesma forma que nosso organismo se delícia com comidas gordurosas e açucaradas, nossa psique ficara satisfeita com informações que reafirmam nossos valores pessoais, nossas crenças, nosso modo de ver o mundo.

A coisa é mais preocupante ainda. Não percebemos com clareza a obesidade informacional. No geral, achamos que nosso grande consumo de informação é per se uma vantagem. Consequências disso para aprendizagem são grandes. Aprender acontece quando nos confrontamos com coisas que nos fazem mudar. Mas, se as informações que consumimos apenas reforçam nossas crenças, pouco ou nada de novo passa a integrar nossas estruturas de pensamento.

Educação não é reforçar conformidades, é apresentar situações que podem incomodar. Infelizmente a personalização das buscas é conformista. Nessa direção, Pariser observa que o resultado de buscas de um republicano serão muito diferentes dos resultados de buscas dum democrata. Para um e outro, o buscador irá selecionar informações adequadas a um perfil definido por preferências pessoais.

Adianto aqui a primeira nota de leitura de Filter Bubble. Voltarei ao livro e a temas que ele apresenta em posts futuros.

Emoção

julho 17, 2011

Reproduzo VT de uma interpretação arrepiante de Ginette Reno, em show de Céline Gion, com música de Jean-Pierre Ferland. Se ninguém escutar, pouco importa. O registro desse momento de emoção não poderia ficar fora do recreio deste Boteco Escola.

Chanson Quebecoise

julho 16, 2011

Acabo de encrustar Le Vieux Pianos, com e de Claude Léveillée, no Face Book. Fiz isso principalmente porque minha amiga Rosemary Serra, de Trieste, gosta de músicas do povo da minha geração (os tais 60’s). Além do mais, Claude Léveillée é um baita compositor e intérprete. Merece ser conhecido, ouvido, apreciado.

Em minhas navegações para garimpar vídeos com interpretações do músico canadense, acabei encontrado a belíssima Le Temps d’une Chanson. Compartilho esse achado com vocês.

Como escrever cientificamente

julho 14, 2011

Diversas vezes, já abordei neste Boteco a questão da escrita científica. Muita gente acha que textos científicos devem ser necessariamente chatos, com predomínio da voz passiva, sem a graça das figuras de linguagem, sem expressar compromisso de quem os escreve com o leitor. O resultado é uma escrita intragável, incapaz de transmitir para quem a lê a paixão que sempre está subjacente em boa ciência.

Infelizmente, nos casos de ensino de metodologia científica que já acompanhei, a exigência de texto legível, elegante e  bem escrito inexiste. Aos alunos é ensinada uma abordagem burocrática de registros do conhecimento científico. Ensina-se um processo regido por normas e padrões impostos como modos de produzir pesquisa, como se procedimentos assegurassem qualidade do conhecimento e garantia de verdade.

A Origem das Espécies, obra de inegáveis méritos científicos, é literatura de qualidade. Darwin sabia escrever, além de fazer ciência. Não há incompatibilidade entre texto bem escrito e ciência. Faço essas observações iniciais para situar minhas considerações sobre livro que acabo de ler, Geoplítica da Fome, de Josué de Castro.

Antes de tudo, preciso compartilhar algumas observações sobre o livro. A obra, escrita para atender a pedido de uma editora americana, foi traduzida para diversos idiomas. Meu exemplar é a terceira edição brasileira, publicada em 1952. O prefácio da edição americana (reproduzido na versão brasileira) foi escrito por Pearl S. Buck, Nobel de Literatura. A edição inglesa também foi apresentada por um Nobel (da Paz), o cientista Lord John Boyd Orr. Confesso que tenho o livro desde 1967 e só agora saldo um dívida intelectual antiga. Geoplítica da Fome é um dos clássicos de nossa literatura no campo das ciências sociais, leitura obrigatória para todas as pessoas com título universitário.

Sir John Boyd Orr e o Doutor Max Sorre (professor da Sorbonne que apresenta a versão francesa da obra) ressaltam a qualidade científica do livro de Josué de Castro, observando que o trabalho do brasileiro é a mais completa e importante obra sobre o fenômeno da fome no nosso planeta. Não preciso, portanto, insistir sobre os méritos científicos do livro desse brasileiro ilustre.

Josué de Castro faz ciência e, além disso, escreve bem, faz literatura. Geopolítica da Fome, apesar dos registros de grande sofrimentos humanos, é obra de muito prazeirosa. O autor escreve bem. Passa para o leitor uma verdade científica que convence e apaixona. Seu texto nada tem daqueles escritos supostamente científicos que espantam o leitor já nas primeiras linhas.

Para benefício de quem queira conhecer um de nossos mais brilhantes cientistas, selecionei alguns trechos de Geopolítica da Fome e os reproduzo a seguir.

Vejam este comentário sobre as consequências da Grande Depressão de 29 sobre os pobres do Sul americano:

A desorganização econômica provocada pela exploração capitalista da terra, com a mecanização da lavoura, determinou a expulsão de grande número de camponeses que se dirigiram para o Oeste, formando a mais estranha e paradoxal caravana de imigrantes de todos os tempos, porque os pobres, famintos e esfarrapados se deslocavam, na maioria, em automóveis, símbolos da abastança em nossa civilização mecanicista. É bem verdade que viajavam os retirantes aos magotes, em velhos carros usados, calhambeques que iam largando as peças pelo caminho, arrebentando os motores esfalfados e fazendo crescer, à margem das estradas, os cemitérios de automóveis, em competição com seus proprietários, que também iam povoando os cemitérios do Oeste, com suas velhas carcaças aniquiladas. Mas este fato paradoxal, para os filhos esfomeados, como relata John Steinbeck no romance Vinhas da Ira, reflete a miséria no meio da abundância – apanágio constante do Velho Sul. (p. 167)

Aqui vai outro trecho escrito com paixão, descrevendo um aspecto da agricultura chinesa:

Para que a terra escassa permita ao povo chinês continuar existindo, põe ele o maior número de braços para amanhar essa terra e o maior número de mãos para ajudar as plantas a crescerem. A planta de cultivo típico do Oriente – o arroz – é tão manipulada, tão acariciada o ano inteiro pelas mãos orientais, plantando-a, repicando-a, irrigando-a, limpando-a de plantas daninhas, que não há exagero em afirmar que o arroz na China é cultivado metade do tempo no solo e outra metade na palma da mão do agricultor. E foi esse excesso de cuidado e de carinho do chinês pelo arroz que fez dessa planta um vegetal tão exigente de mão-de-obra, estragado como uma criança excessivamente mimada pela família. (p.176)

Ao comentar os desdobramentos da fome na Polônia após a II Grande Guerra, Josué de Castro diz:

Uma das mais graves consequências da intensa deficiência alimentar fora a perda de resistência às infecções de toda ordem. A tuberculose tomou os freios nos dentes e, como um dos cavalos do Apocalipse, entrou a devastar o país inteiro. Com o término da luta armada, verificou-se que 80% das crianças polonesas apresentavam reação positiva ao teste de tuberculose e que cerca de 15 mil crianças eram portadoras de lesões tuberculosas abertas, disseminando bacilos por toda parte. (p. 290)

Escolhi muitos outros trechos de Geopolítica da Fome para ilustrar a afirmação de que o cientista Josué de Castro escrevia bonito. Infelizmente não há aqui espaço para tudo que selecionei. Contento-me com uma última citação:

A luta contra a fome e a sua possível eliminação da superfície da Terra não constitui, portanto, utopia, nem o fantasmagórico sonho de um mundo de fadas, mas um objetivo perfeitamente realizável nos limites da capacidade dos homens e das possibilidades da Terra. O que se faz necessário é proceder-se a um melhor ajustamento dos homens às terras por eles ocupadas e a uma melhor distribuição dos benefícios com que a terra costuma brindar o homem. No momento atual, essa batalha contra a fome não constitui mais uma tarefa de idealismo quixotesco, porém uma necessidade que transparece à análise fria e realista da atual situação política e econômica do mundo. (p. 318)

Geopolítica da Fome, além de méritos científicos, tem méritos literários. Mas, às vezes chego a pensar que o texto de Josué de Castro não seria aprovado por professores de metodologia científica de nossas universidades.

TIC’s e literatura em The Diagnosis (2)

julho 10, 2011

Em meu primeiro post sobre The Diagnosis, procurei destacar o ponto central da trama do romance de Alan Light, mostrando que, na situação dramática da doença que vai consumindo a vida do protagonista, médicos não decidem o que fazer, mas reúnem mais e mais informação.

Como já disse, vários aspectos da Sociedade da Informação entram na história contada por Lightman. O autor converte em elementos dramáticos alguns traços de tal sociedade, sugerindo reflexões que contradizem o exagerado entusiasmo dos tecnófilos.

Bill Chalmers, o herói da história, é um analista de informação. Ele próprio define sua profissão nestes termos:

_ Eu processo informação. (…)  Todo tipo de informação. Principalmente informações na área de negócios. Nem todas elas.

A definição do ofício de Bill acontece em sessão com seu psiquiatra (um dos profissionais de saúde que estuda a doença do protagonista). O médico, na  continuidade da consulta, pergunta:

_ Você me estava falando sobre seu trabalho. Você analisa informação. Você também levanta informações?

A resposta Bill sugere especialização extrema no trato com informações:

_ Não, há outras pessoas e companhias que levantam informações. Não temos pesquisadores para isso.

Vale registrar o comentário do psiquiatra:

_ Se vocês estão apenas transferindo informação de A para B, qual é o valor agregado? (…) Me dá impressão que vocês são atravessadores. Acho que não entendo o serviço que vocês prestam.

O escritório para qual Bill trabalha ocupa um nicho de mercado que apareceu a partir da visão de que informação é um bem precioso. Mas, na medida em que a produção de informação vai se multiplicando geometricamente, quem precisa dessa mercadoria não sabe muito bem separar joio do trigo. Excesso de informação gera inação, incapacidade de decidir. Esse cenário é bem diferente de certa propaganda que promove desejo de consumo de informação sem qualquer critério. Essas considerações são importantes em educação. Ao ouvir entusiastas com e pela Internet, fico com a nítida impressão de que essa gente acha que consumo de informação, não importando significado, é a meta. E, na estrada desse consumismo, importa assimilar toda informação possível. Esse perigo já foi assinalado por Alan Kay, muitos anos atrás (1992), num artigo para a Scientific American. Em tal artigo, Kay afirma que cresce o consumo de informação cujo sentido é inteiramente desconhecido pelos consumidores.

A necessidade de lidar com muita informação em tempos cada vez mais curtos é outro elemento dramático na história de Bill Chalmers. A dormência progressiva de seu corpo vai limitando seus movimentos. Com o passar dos dias ele não consegue digitar todas as informações necessárias para atender pedidos dos clientes. Suas contas acabam sendo transferidas para analistas mais jovens. Bill perde esperança de uma promoção desejada e começa a ver seu assistente como alguém que vai lhe roubar todos os projetos. Tenta trabalhar em casa. Estica suas horas de trabalho no escritório. Tudo em vão. Não consegue mais produzir todas as análises necessárias.

O drama profissional de Bill Chalmers funciona como uma parábola para a idéia de que é preciso consumir, cada vez mais, doses cavalares de informação. Essa idéia justifica, por exemplo, observações indignadas contra uso do celular em algumas situações (aulas, celebrações religiosas, audições musicais, teatros). Criou-se um hábito de manter o celular constantemente conectado. Quando interrogo pessoas que acham isso necessário, as justificativas têm a ver com fluxo contínuo de informação. Nada pode ser “perdido”. Tudo tem de ser o mais imediato possível. A vida só é vida se for on line.

Bill entende que suas limitações produtivas decorrem da doença. Admira a tranqüilidade de seus pares e superiores no escritório. Todos eles, aparentemente, conseguem assimilar toda a informação necessária em tempos extremamente curtos. Essa impressão irá desaparecer quando Bill presenciar uma cena impensável.

Nosso herói, finalmente demitido porque não consegue produzir em tempo as análises informativas contratadas pelos clientes da empresa, para evitar constrangimentos, vai buscar suas coisas no escritório num sábado á noite. Para sua surpresa, vê a sala da vice-presidência acesa. Bill vai até lá e encontra o vice-presidente lidando com uma avalanche de informações, auxiliado por sua mulher. Esta acusa o marido de incapacidade profissional, discute com ele e, ao mesmo tempo, acessa informações. O casal tenta, aparentemente em vão, colocar o trabalho em dia, mas é incapaz de organizar e dar sentido a todas as informações sob responsabilidade do segundo homem da firma.

Bill, doente, já não consegue lidar com o imenso volume de informações supostamente necessárias em seu ofício. Mas, o vice-presidente, homem são e poderoso, também é incapaz de processar tudo o que lhe compete na empresa.

Há muita informação. Os sistemas digitais vão multiplicando continuamente a capacidade de produzir e disseminar informações. O capitalismo informacional (o capitalismo que se alimenta da informação-mercadoria) promove consumo cada vez maior de seu produto básico. Uma ideologia que se diz progressista impõe “verdade” de que o consumo cavalar de bens digitais é uma necessidade. Muitos acreditam que a fartura de informação irá nos garantir um paraíso de sabedoria.

Infelizmente o consumismo da mercadoria-informação imposto pelo novo capitalismo não é discutido suficientemente pelos educadores.  Aliás, muitos de nós acabamos nos convertendo em entusiasmados vendedores voluntários da mercadoria que mais circula nos dias de hoje. Não vejo qualquer vantagem nisso. Promover a venda de mercadorias não é (e não deve ser) papel dos sistemas educacionais.

TIC’s e literatura em The Diagnosis (1)

julho 2, 2011

Prometi que abordaria relações entre tecnologias da informação e comunicação e literatura na obra de Alan Lightman, The Diagnosis. Começo a cumprir minha promessa neste post.

The Diagnosis tem diversos elementos narrativos que se vinculam às novas tecnologias e à tecnociência. Não é adequado abordar todos eles num único post. Por isso, vou falar das relações do romance de Lightman com a Sociedade da Informação em três ou quatro textos. Começo com os elementos que dão sabor dramático ao romance.

A história começa num dia normal de trabalho. Bill Chalmers, o protagonista está indo para o escritório. Acaba de deixar seu carro no estacionamento e embarca no metrô que o levará ao centro de Boston. No trem, ao lado de outros executivos, Bill utiliza seu laptop e celular para verificar agenda, ver o noticiário do dia, rever documentação que usará em reuniões com clientes. Dadas as facilidades tecnológicas, inicia seu dia de trabalho no trem, bem antes do começo do expediente. Detalhe: Bill trabalha numa empresa cujo serviço é o de processar e interpretar, a pedido, informações para corporações.

A normalidade do dia é quebrada por uma coisa estranha: nosso herói não consegue se lembrar da estação em que deve saltar. Seu cérebro começa a sugerir idéias confusas. Um processo de amnésia vai se aprofundando. Bill perde laptop e celular. Vai até o final da linha. Volta, com esperança de que se lembrará da estação certa. Arranca o paletó. Desce numa estação para ele desconhecida. Arranca as últimas peças de roupa. Perde inteiramente todas as suas referências. É atendido por policiais que lhe cobrem com um cobertor fétido. É levado para um hospital onde é atendido como indigente. Sofre uma operação cerebral porque um médico de plantão resolve experimentar equipamento ultramoderno que ainda não fora testado. Foge do hospital, vestido apenas com o camisolão típico de pacientes internados.

Na rua, ele vive diversas aventuras até recuperar a memória e ter condições de retornar ao estacionamento, encontrar seu carro e dirigir até sua residência no subúrbio. Bill não tem mais problemas de memória, mas começa a sentir leve dormência em seu corpo. Procura assistência médica para saber o que causa sua súbita amnésia e aquela dormência que começara a sentir.

O início da história, que resumi acima, cria o pano de fundo para o drama de Bill. Desde o começo, a cada consulta, os médicos prescrevem dezenas de exames. Os resultados são negativos. Não há diagnóstico. Mais e mais consultas se sucedem. Mais e mais exames acontecem. Os resultados nada apontam. Mas, a doença continua progredindo. Não vou aos detalhes, nem forneço aqui indicação de desfecho (mantenho o suspense para quem for ler o romance). Passo agora a analisar o que os dissabores de Bill, em sua peregrinação por médicos e laboratórios, tem a ver com tecnologias da informação e comunicação.

Os médicos que examinam Bill não se fiam em exames clínicos. Querem informações seguras, fornecidas por exames realizados através de equipamentos que incorporam muita tecnologia. Recebem dos laboratórios número expressivo de informações. Não conseguem fechar um diagnóstico e continuam a pedir mais exames, continuam a reunir mais informações.

Com mais e mais tecnologia, houve uma mudança significativa nas práticas médicas. A maior parte dos médicos deixou de confiar em intuições profissionais. Os doutores querem o máximo de informações possíveis. E exageram na dose, pedem muitos exames que tem pouca ou nenhuma relação com as queixas dos pacientes. Os diagnósticos costumam demorar. No afã de conseguir informações seguras, os pacientes são muitas vezes encaminhados a outros especialistas. Estes, é claro, pedem mais exames. A medicina passa a ser uma prática profissional que se torna cada vez mais dependente de sistemas de informação. Cresce a impressão de que os médicos apenas mediam acesso a exames. Cresce a impressão de que o diagnóstico será formulado por sistemas de informação.

Lightman, em sua ficção, cria um drama no qual nunca se chega ao diagnóstico. Mas, apesar dos traços ficcionais, a situação que ele sugere guarda muitas semelhanças com o nosso cotidiano. Ao terminar minha primeira leitura de The Diagnosis, comentei a obra com um amigo, bom leitor. Prometi emprestar-lhe o livro. Ele, porém, recusou a minha oferta. Na época estava realizando vários exames prescritos por um médico que não conseguia fechar diagnóstico apesar do número significativo de informações que já reunira. E meu amigo vivia uma espera angustiada para saber que doença era aquela.

Precisamos de informação. Mas, ela não é tudo. Em quase todos os contextos, precisamos de informação para tomar decisões. O que anda acontecendo é que tardamos em decidir, sempre achando que podemos reunir mais informações que nos darão segurança. Isso pode ser uma ilusão. Boa parte de nossas decisões vitais não pode esperar por levantamento de dados cuja finalização é demorada.

A imensa capacidade de produzir informações gerou uma expectativa de que estas são mercadorias que devemos consumir com entusiasmo e em doses cada vez maiores. Esse fenômeno já foi descrito por Daniel Boorstin em seu essencial The Image, numa época em que a produção e distribuição de informações ainda não eram feitas por meio de equipamentos digitais. Mas, como observa Boorstin, desde a invenção de impressoras rotativas (recurso que expandiu consideravelmente capacidades gráficas de impressão) e de meios de transporte que garantiam ampla distribuição de jornais e revistas, a informação se converteu em mercadoria. Converteu-se num bem cuja posse é justificada por si mesma, não por qualquer outra finalidade.

O argumento principal da trama de The Diagnosis aproveita-se da tendência em eleger a informação como objeto de consumo cada vez mais expressivo. E, numa história dramática, evidencia o vazio de uma massa enorme de dados informativos que não resolvem um problema de vida ou morte. O autor apresenta uma metáfora que nos faz pensar sobre uma fartura de informações incapazes  nos garantir entendimento, significado.

Acho que não preciso insistir na importância que a conversão da informação em mercadoria tem a ver com educação. Deixo para o leitor as conclusões.