044. Empreendedorismo Social

Reproduzo aqui parte do relatório que elaborei a partir de um encontro com a direção da School for Social Entrepreneurs no ano 2000, em Londres. Espero que minhas observações ainda possam ser úteis para quem anda conversando sobre empreendedorismo.

THE SCHOOL FOR SOCIAL ENTREPRENEURS

RELATÓRIO DE VISITA

Em levantamentos realizados por dois de nossos superintendentes, Décio Zanirato Junior e Darcio Sayad Maia, ficou evidenciado que uma das iniciativas do educador britânico Michael Young, a School for Social Entrepreneurs, era uma organização com a qual o SENAC/SP poderia manter laços de colaboração e troca de experiência. Informações escritas – sobretudo os comentários de Charles Handy a respeito da atuação de Michael Young – e referências encontradas na Internet mostravam que a School for Social Entrepreneurs – SSE era um projeto cuja natureza tinha diversos semelhanças com o que o SENAC/SP faz e pretende fazer no âmbito das ações coordenadas pelo Centro Comunitário de Educação para Trabalho – CCT. Por essa razão, solicitamos ao escritório do British Council em São Paulo intermediação para um encontro com a direção da SSE em Londres.

Este relatório procura sistematizar as informações obtidas no encontro com o diretor da SSE, Sr.  James Smith, dia 10/07/00.

1) Empreendedores Sociais

O termo Social Entrepreneur (Empreendedor Social) vem sendo usado com freqüência cada vez maior no Reino Unido. Ele procura sinalizar um caminho mais sistemático e profissional para pessoas que criam e administram empreendimentos sociais relevantes.

O folheto institucional da SSE situa o empreendedorismo como segue:

O termo entrepreneur está naturalmente associado com o setor privado de negócios. Mas as qualidades de energia, imaginação e obstinação são igualmente importantes para outros setores; talvez mais, porque eles carecem da pressão contínua para obter mais lucros e da busca incessante para melhorar a produção, impostas pelo mercado.

Empreendedores sociais vislumbram gaps (carências) no tecido social, e criam novas instituições sociais e instrumentos para eliminar tais gaps.

Michael Young e seus associados acreditam que o setor social precisa de empreendedores com as mesmas qualidades requeridas para o empreendedorismo no setor privado. Pensam que o empreendedor na área social talvez tenha que ser mais ambicioso e criativo que o empreendedor privado. Essa crença motivou a criação de mais um projeto inspirado pelo Dr. Young, a School for Social Entrepreneurs – SSE.

2) Origens da SSE

A School for Social Entrepreneurs foi criada recentemente (1997) e faz parte de uma família de instituições britânicas criadas e/ou inspiradas por Michael Young e seu Institute of Community Studies. O Instituto foi criado em 1953 para a realização de estudos e pesquisas no campo das ciências sociais. Nesses quase cinqüenta anos, produziu diversas obras que tiveram grande influência tanto no campo acadêmico como no âmbito institucional. Nesse último caso, vale observar que a British Consumers Association e a Open University foram geradas pela atuante usina de idéias e estudos chamada Institute of Community Studies.

A School of Social Entrepreneurs é a mais recente criação do Instituto. Ela é a décima nona instituição fundada pela Instituto com o qual ainda divide espaço em Bethnal Green.

3) Atuação da School for Social Entrepreneurs.

A SSE formou até agora duas turmas e está com a terceira em andamento. Atendeu cerca de setenta “estudantes”.  A turma atual é de dezessete pessoas. Números tão pequenos podem passar a idéia de que a Escola é um empreendimento pouco expressivo. É preciso lembrar, porém, que os “alunos” não são estudantes comuns, são pessoas necessariamente comprometidas com um projeto concreto na área social.

O Diretor da Escola observa que, no início, a instituição pensou em atender um número mais substancial de candidatos. Assim, a primeira turma tinha cinqüenta e dois “estudantes”. Os responsáveis pelo trabalho pensam atualmente que o número ideal de “estudantes”, a cada ano, deve girar em torno de vinte.

Colocamos até aqui o termo estudante entre aspas porque a proposta da SSE nada tem a ver com as concepções tradicionais de escola. A proposta original da organização britânica é a de favorecer o surgimento de social entrepreneurs. Para tanto, a SSE procura montar estrutura e proposta congruentes com essa visão social. Assim, nesses três primeiros anos criou-se:

1.    Uma rede de organizações sociais que podem dar suporte à SSE em termos de conteúdos e dinâmica do curso.

2.    Uma rede de ex-alunos e especialistas para proporcionar aos entrepreneurs já formados oportunidades de educação continuada.

3.    Um grupo de líderes de projetos sociais comprometidos com a linha da SSE. Tais líderes assumem o papel de “docentes” durante o pequeno período de “aulas” que ocorrem na escola.

4.    A constituição de uma equipe nacional de coordenação do projeto.

5.    O início de experiências locais para descentralizar a ação da SSE.

4) Como funciona a SSE

4.1. Seleção de candidatos.

Pessoas interessados em cursar a SSE precisam, necessariamente, estar engajadas num projeto da área social. Assim, no ato de seleção, a primeira coisa a ser examinada é um projeto concreto que a pessoa pretende desenvolver durante o curso. Nos termos de James Smith, Diretor da SSE, na seleção pesam acima de tudo aspectos de caráter  atitudinal. Conhecimentos e habilidades específicas não têm grande importância no caso. O folheto institucional da Escola resume a questão da seguinte forma:

Entrepreneurship (empreendedorismo) é essencialmente uma atitude e uma abordagem de ação, não um conjunto de habilidades específicas. (Talvez não seja ensinável, mas pode ser aprendida).

4.2. Estrutura do Curso

A espinha dorsal do curso é o projeto que o aluno desenvolverá durante o ano que estiver vinculado à SSE. Em termos de estudos, o projeto é o ponto de partida para que o estudante, em entendimentos com seu tutor, construa um Personal Learning Plan (Plano Pessoal de Aprendizagem). Conteúdo e atividades de tal plano deverão atender àquilo que o estudante precisa para desenvolver-se enquanto social entrepreneur e para desenvolver o seu projeto.

O plano pessoal de aprendizagem, além de estudos e sessões de orientação com o tutor, pode incluir cursos que ajudem o participante a desenvolver habilidades e conhecimentos definidos em seu Personal Learning Plan. Tais cursos podem ser escolhidos livremente pelo estudante. Para tanto, cada participante dispõe de uma Individual Learning Account (conta individual de aprendizagem) que hoje chega as oito mil libras esterlinas (+ – R$20.000,00).

Embora cada estudante tenha de ser necessariamente responsável por um projeto, os estudos realizados são discutidos passo a passo por um grupo de alunos. No geral, as equipes de estudo são constituídas com base em proximidade geográfica.

Como já se observou anteriormente, o SSE não é uma escola convencional. No início do curso há um módulo de oito semanas que pode ser classificado como um seminário geral para todos os estudantes. O seminário, porém, não obedece as normas tradicionais de organizar o ensino. As atividades nesse período podem ser caracterizadas sobretudo como encontro dos estudantes com pessoas experientes em trabalho social.

5) Filosofia Educacional

Vários observações já registradas neste relatório caracterizam uma filosofia educacional bastante diferente dos modos convencionais de entender educação. Convém repetir aqui uma observação do Diretor da SSE: “nas situações convencionais de educação, procura-se desenvolver inicialmente conhecimentos e habilidades com a crença de que um repertório de conteúdos cognitivos será um alicerce para as atitudes do administrador/empreendedor; a filosofia da SSE propõe um caminho inverso: antes de tudo é preciso que o aluno tenha atitudes, compromissos”. Com base nisso ele construirá um plano pessoal de aprendizagem de conhecimentos e habilidades necessários ao seu desenvolvimento.

Convém aqui citar textualmente trecho do folder da SSE que explica a filosofia educacional da instituição:

Há características pessoais fundamentais que são pré-requisitos para o comportamento empreendedor. Por isso procuramos encontrar estudantes que mostram altos níveis de energia e que manifestam gosto pela incerteza, mudança e novas idéias. (…)

Acreditamos profundamente que o comportamento empreendedor não é encorajado pelo ensino convencional. Por isso a SSE procura criar um clima e uma estrutura que sejam “desenvolvimentistas” e práticos em vez de acadêmicos. Clima e estrutura que envolvam um processo de experiência, investigação e discussão, e onde o indivíduo seja capaz de adaptar as ofertas da SSE à satisfação de suas necessidades pessoais de aprendizagem.

Nossa abordagem da aprendizagem baseia-se nas seguintes idéias:

§  As pessoas aprendem melhor sobre empreendedorismo ao agirem de forma empreendedora. Assim, o elemento mais importante do programa é o projeto voltado para uma nova iniciativa de algum tipo.

§  Gente com experiência e organizações com uma história de inovação, empreendimento e resultados fornecem material valioso. (…) não devem, porém, ser copiadas, mas devem sobretudo ajudar os alunos a descobrir e desenvolver suas próprias idéias.

§  Conhecimento especializado tem mais valor quando é diretamente relevante para uma necessidade concreta de saber.(…)

§  Estudantes aprendem melhor sobre empreendedorismo ao agirem de forma empreendedora. Assim o elemento mais importante do programa é o projeto voltado para uma nova iniciativa de algum tipo.

§  Estudantes aprendem muito com outros estudantes. (…) Questionamentos, desafios e discussões críticas em grupos devem ser encorajadas para apurar e classificar valores, idéias e habilidades.

§  A auto – consciência capacita os estudantes a fazerem maior uso de seus talentos, a fazerem escolhas compatíveis com seus valores e a encontrarem soluções para suas dificuldades pessoais. Atividades que dão feedback a respeito de seus  estilos pessoais, de seus pensamentos e seus comportamentos capacitam os estudantes a alcançar maior nível de autoconsciência. Isso lhes permite fazer experiências com padrões menos familiares de comportamento e pensamento, e dá-lhes confiança para desenvolver um estilo compatível com seus valores e ambições.

§  Os indivíduos têm diferentes necessidades de aprendizagem e aprendem de diferentes maneiras. As pessoas aprendem melhor desde atividades e experiências que se casam com suas preferências pessoais, aspirações e estilos de aprendizagem. (…)

§  Valores são significativos para os empreendedores sociais. Considerar  valores é um componente importante no desenvolvimento de um empreendedor social.

6) Mais observações sobre os alunos

A SSE não trabalha com pré-requisitos acadêmicos. Nem coloca limite de idade para seus alunos. Entre os quase cem alunos e ex-alunos da Escola, há pessoas com extenso background acadêmico e pessoas sem qualquer formação de nível superior. Entre os alunos até hoje aceitos, a idade mínima andou por volta dos 23 e a idade máxima por volta dos 72.

7) Habilidades procuradas

Como já se observou em outras partes, a SSE nada tem de acadêmico. Os alunos entram na Escola para desenvolverem capacidades de empreendedorismo. Em linhas muito gerais, a habilidades procuradas são as que seguem:

–       conseguir levantar fundos necessários ao desenvolvimento dos projetos sociais

–       operar as entidades sociais com instrumentação financeira igual ou melhor que a utilizada nas boas empresas privadas.

–       criar novos nichos de ação social.

–       articular comunicação e informação de modo a conquistar espaço significativo na mídia.

–       atuar de modo a contaminar colaboradores com o necessário entusiasmo para chegar às metas pretendidas.

8) Coisas a Serem Evitadas

Para James Smith, a atração exercida pela idéia de social entrepreneur pode levar a alguns desvios que a SSE tenta evitar.

O primeiro desvio é o da escolarização. Muita gente “de fora” sugere que a SSE se torne um programa de pós-graduação. O Diretor da SSE aponta inclusive um atrativo adicional que resultaria dessa idéia: se a Escola fosse escolarizada passaria a receber recursos substanciais do Ministério da Educação do Reino Unido (Hoje ela nada recebe dessa fonte, pois sua proposta não atende qualquer formalidade legal).

A analogia entre o empreendedor social e o empreendedor empresarial é fonte do segundo desvio. Muita gente quer medir o sucesso do empreendedorismo social com réguas de business management. Entre essas réguas está a do sucesso financeiro e da grandeza do empreendimento, James afirma que essas não são metas adequadas para avaliar o empreendedor social. Aliás é muito difícil avaliar o empreendedor social pois a essência de seu trabalho deve ser medida sobretudo pela qualidade de atitudes, comportamentos e desejos.

Assim que a escola formou a primeira turma, houve quem quisesse verificar se os alunos haviam se convertido em empreendedores sociais. Essa mania de avaliar resultados de modo muito imediatista é outro desvio que a SSE tenta evitar. A organização pensa que os resultados de formação devem ser avaliados com base na atuação dos ex-alunos durante anos seguidos. Importa saber se as pessoas manterão suas atitudes de modo mais ou menos permanente.

9. Balanço Final

O contato rápido com James Smith – uma reunião de duas horas – e a pouca documentação que a SSE pode disponibilizar certamente limitam o conteúdo deste relatório. A SSE é muito mais interessante e dinâmica que a imagem que conseguimos passar aqui.

É possível que o nosso relato tenha sido um tanto genérico e incapaz de enfatizar o caráter extremamente inovador de mais uma iniciativa inspirada pelo Professor Michael Young.

São Paulo, 29 de agosto de 2000.

Jarbas Novelino Barato

Assessoria de Projetos Especiais

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