Archive for junho \19\UTC 2013

Memória, aprendizagem e conhecimento

junho 19, 2013

A Escola Nova fez uma crítica severa à memorização em processos de aprendizagem. Essa crítica foi aceita pelos educadores e o horror à memorização tornou-se uma crença hegemônica. Infelizmente, tal crença pode provocar equívocos inteiramente bobos.

Nicholas Carr, em What The Internet Is Doing To Our Brains _ THE SHALLOWS, tem um capítulo inteiro mostrando que transferir todas as operações de memória para a Web resulta em perda irreparável na elaboração do saber dos seres humanos. Num trecho, o autor resolve mostrar que memorização não é necessariamente um ato mecânico desprovido de sentido. O processo de memorização na verdade é uma ação para colocar as informações que nos interessam  em estruturas cerebrais que nos deem possibilidade de sintetizá-las e recuperá-las em contextos significativos. Esse modo de entender a memorização não é novo. Erasmo já o sugeria no século XVI. Para quem se interessa pelo assunto, reproduzo, numa tradução livre, um pedacinho do livro do Carr:

O humanista holandês, Erasmo, em sua obra De Copia, de 1512, sublinhava a conexão entre memória e leitura. Ele incentivava os estudantes a fazer marcas em seus livros, usando um “pequeno sinal apropriado”, para assinalar “ocorrência de palavras que mereciam destaque, pronúncias arcaicas e novas, passagens estilísticas brilhantes, adágios, exemplos e observações expressivas merecedoras de memorização”. Ele também sugeria a cada estudante ou professor para manter um caderno, organizado por assunto, “de tal maneira que pudesse destacar algo digno de nota e escrever este algo na seção apropriada”. Transcrever normalmente trechos de texto, e repetindo-o verbalmente de modo sistemático para mantê-los e fixá-los na mente. As passagens selecionadas deveriam ser vistas como “um tipo de flores”, retiradas de páginas de livros para serem preservadas nas páginas da memória.

 

Erasmo, que em seu tempo de menino memorizou extensos trechos da literatura clássica, incluindo as obras completas de Horácio e a obra teatral de Terêncio, não estava recomendando memorização por memorização, como exercício mecânico para reter fatos. Para ele, memorizar não era simplesmente uma maneira de armazenar [informação]. Memorização era o primeiro passo num processo que leva a um entendimento mais profundo e pessoal. Ele acreditava, como explica a historiadora clássica Erika Rummel, que a pessoa precisa “digerir e internalizar o que aprende e reflete em vez de reproduzir servilmente qualidades do autor modelo”. Longe de ser um processo mecânico e irracional, o tipo de memorização proposta por Erasmo engaja a mente de maneira total. “Ele exige”, escreve Rummel, “criatividade e julgamento”.

Educação na Finlândia

junho 12, 2013

Moral do trabalhador na educação profissional

junho 12, 2013

Segue link para artigo meu publicado recentemente no Boletim Técnico do Senac: Revista da Educação Profissional:

 

 

Esta é a primeira sistematização de estudos que estou fazendo sobre Valores, Trabalho e Educação.

Educação e Felicidade

junho 7, 2013

Uma das finalidades da educação, talvez a mais importante, é a de oferecer às pessoas oportunidades e meios para serem mais felizes. Esta ficha acaba de cair após leitura de um trecho em que Mike Rose, em Back to School, critica entendimentos predominantes hoje sobre fins da educação.

O pensamento hegemônico entende que o papel principal da educação é o de preparar bem as pessoas para o trabalho. Tudo é avaliado em termos de resultados econômicos e financeiros. Há outro pensamento também bastante popular: o de que a educação tem por finalidade primeira desenvolver o senso crítico. Como diz o Mike, nada a opor quanto a essas duas finalidades. Elas, porém, se esquecem das pessoas concretas e dos sonhos que elas têm.

No geral, vejo as finalidades da educação formuladas assim: adquirir (sic) competências, desenvolver senso crítico, apossar-se do patrimônio científico e cultural historicamente construído pela humanidade. São finalidades nobres. Mas, nenhuma delas revela preocupação com realização pessoal.

A partir de agora, vou insistir na ideia de que a educação deve ser, acima de tudo, instrumento para promover felicidade.

Educação e Pobreza

junho 7, 2013

A existência de escolas públicas aparentemente pode garantir igualdade de oportunidades para todos em educação. Não é bem assim. Condições de vida podem impedir acesso e sucesso escolar. No debate americano sobre qualidade da educação, Deborah Meier e Daine Ravitch mostram (cf. Bridging Differences) mostram que a pobreza é um grande obstáculo para que muitas pessoas permaneçam nas escolas, estudem e aprendam.

back-to-school-50Em Back to School, Mike Rose observa que gente pobre, com enormes privações de todos os tipos, precisa de alguma ajuda, sobretudo financeira, para frequentar cursos de capacitação profissional nos community colleges. Essa exigência é maior em colleges e programas de reconhecida qualidade.

Alunos que Mike acompanhou e entrevistou, no geral, tem alguma ajuda financeira. Muitos desses estudantes têm  a bolsa de estudos (de valor bem limitado) como  única fonte de renda com qual sustentam a família.

Ao ler o livro do Mike, fiquei pensando num grupo de brasileiros, na faixa dos 18 aos 39 anos, com uma história de engajamento precoce e precário no mercado de trabalho, e escolaridade básica insatisfatória, que frequenta ou poderia frequentar os Institutos Federais ou unidades do SENAI e do SENAC . Essa gente tem enormes dificuldades financeiras. Por essa razão, são  poucas suas chances de alcançar bons rendimentos nos estudos.

Comentários incidentais sobre o PRONATEC, um programa planejado para facilitar acesso de populações carentes a cursos de capacitação profissional, revelam profundas dúvidas de muitos educadores (dos IF’s e do sistema S) quanto a possibilidades de sucesso dessa gente castigada por uma vida inteira de pobreza.

Acho que ainda estamos muito longe de garantir acesso efetivo dos pobres a oportunidades educacionais de qualidade. E temo que a elite direitona fará tudo o que puder contra bolsas (dinheiro na mão dos interessados, não pagamento a instituições educacionais) para que os pobres possam, de fato, ter igualdade de oportunidades no campo da educação.