071. Caráter Nacional Brasileiro

Reproduzo aqui texto de seminário que preparei em meus tempos de doutorado, abordando a obra O Caráter Nacional Brasileiro, de Dante Moreira Leite.

SEMINÁRIO

 

 

 

 

 

 

 

CRÍTICA DA IDEOLOGIA DO CARÁTER NACIONAL I:  Síntese e comentários sobre o “Caráter Nacional Brasileiro”,  de Dante Moreira Leite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FE 307 Tópicos Especiais de História da Educação

Professor: Sérgio E. M. Castanho

Faculdade de Educação – UNICAMP

Campinas, maio de 98

 

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 

Convém começar com uma citação do próprio Dante Moreira Leite, para caracterizar o resumo aqui apresentado:

 

…o problema básico de uma análise de conteúdo consiste em saber até que ponto podemos resumir um texto, sem alterá-lo, de forma que o leitor não seja levado a uma visão errônea  de um texto que não conhece. (p. 146)

 

 

Já que o próprio autor chama a atenção para a questão da fidelidade em resumos de leitura, resolvemos assumir uma atitude francamente interpretativa. Assim, mais do que apresentar as idéias de Dante Moreira Leite, tentaremos apresentar um registro interpretativo de uma parte de “O Caráter Nacional Brasileiro: História de Uma Ideologia”.

 

Antes  de ir aos capítulos a serem apresentados, ousaremos discutir o sentido geral da tese de Moreira Leite. Como psicólogo social, o autor examina a possibilidade de uma teoria científica que tenha como objeto o construto “caráter nacional”. Para tanto, o professor da Universidade de São Paulo procura situar a construção histórica da teia dos conceitos que integram ou podem integrar uma teoria do caráter nacional e, particularmente, do caráter nacional brasileiro. Ao que parece, a análise do autor revela que todas as elaborações teóricas em torno dos possíveis traços sócio-psicológicos do homem brasileiro são produções ideológicas cujos interesses podem ser desvelados com relativa facilidade. Por outro lado, as elaborações ideológicas em foco são marcos importantes para se entender a história de cultura nacional. Mas, certamente, não são produções às quais propriamente possamos dar o nome de ciência.

 

Ao que tudo indica, ideologias sobre o caráter nacional brasileiro desempenharam e desempenham um papel importante na cultura e educação nacionais. Cabe aqui uma constatação curiosa. É comum ouvir, em bares e botecos desta vida, comentários nada elogiosos aos “brasileiros”. Diz-se que o país não pode ir para frente por causa de um povo fraco, preguiçoso, covarde, metido a esperto, aproveitador, corrupto etc. Os interlocutores nestas conversas descompromissadas definem o brasileiro como o “outro”, colocando-se fora do grupo que merece tantos comentários pouco favoráveis . Constata-se, assim, que a produção de descritores – quase sempre pessimistas – de traços psico-sociais do brasileiro é uma mania nacional. É claro que a situação aqui descrita está muito distante das descrições dos autores analisados por Dante Moreira Leite. É claro, também, que esta referência a bares e botecos é muito pouco acadêmica. Mas seria uma pena não registrá-la. Ela talvez possa dar algum sabor à análise da obra. Vale ressaltar, por outro lado, que o discurso popular sobre o brasileiro reflete, muitas vezes, as “ideologias” dos autores analisados por Dante Moreira Leite.

 

Voltemos à obra e ao autor. Não fica claro, pelo menos a partir de nossa leitura, se o autor vê alguma possibilidade de uma psicologia social como ciência. Ou, em outras palavras, fica uma dúvida quanto à possibilidade de elaborar  uma moldura interpretativa do “ser brasileiro” que tenha alguma validade científica. Talvez esta seja uma afirmação apressada. De qualquer forma, voltaremos a ela quando examinarmos com mais vagar o capítulo 6: Método de Análise das Ideologias.

 

 

FORMATO DE APRESENTAÇÃO

 

O resumo que segue procura apresentar “para debate” as idéias centrais de cada capítulo analisado. Para tanto, procederemos da seguinte maneira: apresentaremos, em primeiro lugar, a estrutura do capítulo, repetindo quase sempre os itens escolhidos pelo próprio autor; em seguida, resumiremos os itens listados, dando realces eventuais a idéias que possam merecer debate; finalmente, tentaremos avaliar algumas das idéias mais críticas do autor. Eventualmente, se algo justificar a medida, poderemos introduzir alguma mudança neste esquema de três pontos.

 

 

AS RAÍZES DO CARÁTER NACIONAL

 

Apresentação do capítulo 1

 

Neste capítulo, o autor procura situar os principais conceitos relacionados com a temática central da obra. A intenção é apresentar e discutir as idéias que podem emoldurar os termos nacional, nacionalismo e caráter nacional.

 

Os itens do capítulo são os que seguem:

 

  • O estranho e o conhecido
  • Etnocentrismo e autoritarismo
  • Nacionalismo
  • O Racismo
  • Caráter Nacional
  • Nacionalismo europeu e nacionalismo brasileiro

 

Em “o estranho e o conhecido”, Moreira Leite tece comentários sobre as constatações de antropologia cultural e do senso comum de que as relações entre diferentes grupos são marcadas por admiração e aceitação, desprezo e recusa. Estranho e conhecido marcam um complexo jogo dos encontros entre grupos cujos valores originais são quase  sempre estranhos, estrangeiros. Desprezo e recusa surgem do medo de relacionar-se com o desconhecido. Mas, como curiosidade e aventura também são marcas humanas, admiração e aceitação de um grupo estranho ocorrem com muita freqüência. As duas tendências sinalizam, portanto, uma ambivalência nas relações entre grupos.

 

Neste item, o autor quer deixar marcados dois conceitos básicos: xenofilia e xenofobia. O primeiro corresponde a uma atitude individual de desprezar o grupo de origem e, ao mesmo tempo, eleger como desejáveis os valores de um outro grupo. O segundo descreve a recusa em aceitar grupos estranhos, assim como seus costumes.

 

No nível da vida em sociedade, a xenofobia pode dar origem a preconceitos e conflitos; a xenofilia, por sua vez, não é um problema sério. O xenófilo pode ser um desajustado, mas continua sendo um membro do grupo de origem. Seu comportamento pode gerar problemas apenas para ele mesmo.

 

A ironia que cerca atitudes xenófobas é ilustrada por uma observação de Linton. Após relacionar uma série de objetos utilizados por um americano típico, mas descobertos ou inventados em partes diversas do globo, o antropólogo americano conclui que este cidadão conservador agradece “a uma divindade hebraica, numa língua européia, o fato de ser cem por cento americano”.

 

É comum em relatos de antropólogos observar que alguns povos dizem ser os “homens” ou “seres humanos”. Obviamente, os outros povos não são propriamente humanos. Esta é uma definição radical de etnocentrismo,  tendendo a considerar o próprio povo (os seus valores) como critério de avaliação de tudo e de todos. Patriotismo e chauvinismo são conceitos assemelhados. Patriotismo está ligado aos cultos do estado moderno. O chauvinismo é uma auto-afirmação violenta do grupo. Um e outro são geralmente resultado de educação e propaganda. O autor não aceita a idéia de que a repulsa pelo diferente seja “primária e fundamental”. Há evidências  empíricas suficientes para mostrar que a aceitação de valores alheios marca a civilização (cf. restrição à endogamia e comportamento dos índios frente aos conquistadores europeus). O autoritarismo – cf. From e Adorno – é a face individual do etnocentrismo.

 

O nacionalismo é diverso.  Vemô-lo liberal na Revolução Francesa, autoritário em outras situações, e nazista na Alemanha da primeira metade deste século.

 

Convém aqui citar textualmente a definição do autor:

 

De um ponto de vista rigorosamente lógico, o nacionalismo implica a exaltação das qualidade de um povo, o que leva inevitavelmente à comparação com outros, então considerados inferiores. É que o nacionalismo, entendido como força política, nunca pode ser apenas uma análise  objetiva das características nacionais, e, além disso, suporia  sempre uma afirmação de poder e grandeza. De outro lado, nem todos os nacionalismos tiveram na realidade, essa afirmação de poder, o que levou Marx Weber a dizer que nesse caso não estamos diante do nacionalismo verdadeiro e integral. (p. 24)

 

Nacionalismo afirmativos, nos termos descritos pelo autor, são sobretudo os europeus do século XIX para cá. Mas há nacionalismo “de negação”, sobretudo os americanos, quando é necessário afirmar uma identidade própria contrapondo-se à metrópole nos movimentos de independência.

 

O autor, no caso europeu, assinala duas tendências muito diferentes de nacionalismo: uma nascendo da Revolução Francesa, contrariando de certa forma o universalismo dos filósofos iluministas; outra romântica, característica dos países em fase pré-capitalista e divididos em diversos estados independentes (casos da Alemanha e da Itália).

 

Obviamente há traços de nacionalismo no início da idade moderna (cf. Portugal, por exemplo). Mas o nacionalismo, como o conhecemos hoje, é um fenômeno do século XIX.

 

Vale terminar nossas observações sobre o nacionalismo com duas citações um tanto longas:

 

Essa aparente diversidade do nacionalismo não impediu que este se constituísse num dos processos mais significativos – e, às vezes, mais trágicos – da história dos séculos XIX e XX. Não seria descabido perguntar de onde o sentimento nacionalista retira tantas reservas de energia e ódio, capazes de justificar guerras e eliminações de pessoas. Ou, o que seria mais ou menos a mesma coisa, perguntar pela origem da aparente incompatibilidade entre alguns grupos nacionais.

 

Se propormos essas perguntas em níveis de maior generalidade, vemos que são falsas ou, melhor, que o nacionalismo é apenas uma justificativa ideológica de grupos que, por outras razões, já estão em conflito (pg. 28).

 

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Ou, para dizer de outro modo, o espírito humano parece incapaz de aprender uma condição geral do homem, a não ser na medida em que esta se exprime em formas particulares. No entanto, como já foi sugerido antes, o desenvolvimento dessas formas particulares depende do contato com outras culturas. E, como também já foi sugerido, só em casos muito específicos o contato entre povos diferentes é destrutivo; na maior parte das vezes, o contato é uma forma de enriquecimento e progresso, enquanto o isolamento conduz à esterilidade das formas culturais (p. 29).

 

Racismo e nacionalismo são aparentados. Mas o primeiro tem bases biológicas. O segundo, bases históricas, culturais e políticas. Cabe aqui mais uma citação:

 

“o conceito de raça é destrutivo, dadas as evidente diferenças sociais existentes em todos os países. De forma que o racismo, antes de ser uma ideologia para justificar a conquista de outros povos, foi muitas vezes uma forma de justificar diferenças entre classes e grupos.(p. 29)

 

No século XIX, o racismo começou a apresentar com uma face “científica”. Lapouge, por exemplo, mede crânios de populações distintas para “provar” superioridade dos nórdicos. Esta tendência é acentuada na obra do conde de Gabineau. Este, nota Moreira Leite, pretende sobretudo justificar a supremacia da nobreza, ariana, nórdica, descendente do próprio Odin. E o sucesso da obra de Gabineau é ainda maior porque justifica o domínio europeu sobre os países “menos desenvolvidos”.

 

No Brasil, particularmente, a ideologia racista funcionou como uma justificativa poderosa para conciliar um liberalismo de fachada com a existência da escravidão.

 

O autor situa o conceito de “caráter nacional” como uma decorrência do Romantismo alemão e escolhe Herder como um autor que pode ilustrar bem tal conceito. Propõe uma comparação entre Condorcet  e Herder  para marcar as diferenças entre o Iluminismo e o Romantismo. Apresentamos este contraste a partir de duas citações do livro de Moreira Leite:

 

Para Condorcet (…), o princípio fundamental é a razão, igual em todos os homens. Desde o princípio, deve decorrer a igualdade fundamental entre homens e nações, quanto a riqueza, instrução, liberdade (p. 32).

………………………………………………………………………………………………………..

 

Nega-se (no Romantismo alemão), em primeiro lugar, a importância fundamental da razão e, portanto, o sentimento e a intuição passam para o primeiro plano. Mais importante ainda, fraciona-se a unidade fundamental da humanidade, que passa a ser vista não apenas na seqüência histórica (…) mas em suas peculiaridades regionais, nacionais e individuais.

 

Diversidade, particularismo, originalidade, cor, local, especificidade de cada língua enquanto modo de expressão da experiência humana são marcas do Romantismo e, ao mesmo tempo, situam a possibilidade de um discurso articulado sobre caráter nacional.

 

Já anotamos, em outra parte, diferenças entre o nacionalismo europeu e o americano. O nacionalismo brasileiro nasce, inicialmente, como contraponto ao nacionalismo das metrópoles. Mas, de certa forma, bebe nas mesmas fontes. Por esta razão, o romantismo brasileiro vai demarcando na segunda metade do século XIX um certo discurso sobre o ser brasileiro.

 

 

Notas para debate

 

Qualquer texto é marcado pela época em que foi concebido  e escrito. E é claro que o “Caráter Nacional Brasileiro” não foge à regra. O autor parece, em alguns casos, adotar posições que hoje mereceriam mais cuidados. Vamos a elas.

 

Na página 19 o autor afirma que:

 

… o grupo tecnicamente mais evoluído procurou explorar o grupo menos adiantado, enquanto este não teve recursos para defender-se. Mais ainda, a civilização branca introduziu, na vida indígena, alguns instrumentos que seriam fatais para o sistema de crenças e valores; por exemplo, a arma de fogo tende a destruir a significação da educação e da hierarquia indígena.

 

Aqui e em outras partes, Moreira Leite rotula povos e civilizações como mais adiantados, mais evoluídos, menos adiantados e menos evoluídos sem qualquer constrangimento. Na mesma página há uma afirmação sobre uma estabilidade imobilizadora de conhecimentos e costumes da China até o século XIX. Parece que uma afirmação como esta desconsidera a história chinesa, assim como  as relações entre o “Império do Meio” e os povos asiáticos. Ao que tudo indica não é fácil escapar de um etnocentrismo europeizante.

 

Na página 28, o professor Dante reduz o nacionalismo a um mecanismo de justificativa ideológica para interesses político-econômicos. Além disto, não vê possibilidades de conflito nos nacionalismos que se abrigavam sob as asas da União Soviética. Assistimos agora um ressurgir significativo de nacionalismos de toda ordem na Europa Ocidental, nos Balcãs, na antiga União Soviética, na África. Ao que tudo indica, o fenômeno está ainda merecendo explicação. Não basta colocá-lo na caixa dos conflitos sócio-econômicos.

 

 

MÉTODO DE ANÁLISE DAS IDEOLOGIAS

 

Apresentação do Capítulo 6

 

Nos capítulos intermediários, o autor examina uma ampla literatura, sobretudo nas áreas de antropologia e psicologia  social, caracterizando diversas tendências que trabalham com o conceito de caráter nacional. E o balanço final deste exame aparece logo no primeiro parágrafo do capítulo em análise:

 

Os capítulos anteriores devem ter demonstrado, senão o erro, ao menos a precariedade das teorias de caráter nacional. Constituam ou não formas complexas para traduzir a reação primitiva do etnocentrismo, é certo que não resistem a uma análise objetiva mais rigorosa, e parecem revelar formas explícitas ou disfarçadas de preconceito contra estrangeiros, bem como exaltação da própria cultura. (p. 133)

 

Este é um capítulo importante por diversos motivos. Ele tenta mostrar a direção da análise que será realizada na segunda parte do ensaio. Além disto, procura justificar o método de trabalho  utilizado. Finalmente, é nesta parte da obra que Moreira Leite discute os conceitos de ideologia e ciência.

 

Antes de partir para o resumo, convém deixar registrado um comentário apreciativo. Na primeira parte do capítulo – “Teoria e Ideologia” – o autor enfrenta desafios bastante difíceis. Cinco termos centrais percorrem todo o escrito: teoria, ideologia, ciência, objetividade e universatividade. Não nos parece que tais termos, apesar de sua centralidade para a obra, são definidos claramente. Talvez, mais que problemas de indefinição terminológica, há no capítulo um clima de dúvida quanto à possibilidade de conferir status de ciência a estudos sobre o homem e suas realizações sociais, culturais e econômicas. Isto aparentemente explica algumas passagens  obscuras ou mal  alinhavadas do texto. Citamos, a título de exemplo, duas passagens que, do ponto de vista formal, deixam a desejar:

 

… a classificação de uma teoria como ideológica supõe duas alternativas: a primeira, segundo a qual a ciência já dispõe de conhecimento objetivo, capaz de superar o nível ideológico ou de racionalização; a segunda, de acordo com a qual todo o conhecimento sobre o homem é ideológico, isto é, depende da posição ou dos interesses dos teóricos. (p. 133)

 

As explicações que vêm depois dos dois pontos estão redigidas de modo dúbio, não deixando claros os verbos que devem ser referidos a primeira e a segunda. Examinemos uma das alternativas. O autor diz: “primeira (alternativa), segundo a qual a ciência já dispõe de conhecimento objetivo, capaz de superar o nível ideológico ou de racionalização”. Ficamos sem saber se a parte final – capaz de superar o nível ideológico ou de racionalização – refere-se a primeira ou a conhecimento objetivo.

 

Vamos a outro trecho problemático:

 

… a teoria evidentemente errada de que os negros são inferiores aos brancos pode fazer com que se dêem escolas diferentes para os dois grupos sociais, e isso chegue a dar uma confirmação espúria da teoria.

 

Para não ir muito longe, fiquemos apenas na expressão dar uma confirmação. Seria melhor dizer resultar numa confirmação.

 

Este não é um espaço apropriado para análise dos problemas formais do texto. Nossa preocupação central são os conteúdos. Mas, ao que parece, os defeitos redacionais constatados decorrem das dificuldades que o autor enfrenta ao tentar deixar claras quais são as possibilidades de produção de “ciências humanas”.

 

Feitas estes reparos eventuais, voltemos à nossa rota original de apresentação.

 

O capítulo está dividido em apenas três partes:

 

  • Teoria e Ideologia

 

  • Análise Quantitativa e Análise Intuitiva

 

  • As Várias Fases das Ideologias do Caráter Nacional Brasileiro

 

Teoria e Ideologia

 

Boa parte do capítulo discorre sobre a questão que já abordamos na introdução: como caracterizar as produções teóricas sobre o homem e suas realizações sociais, econômicas e culturais. Elas são ciências? Elas são, tão somente, ideologias? Ao que parece, o autor não oferece uma resposta satisfatória para estas questões.

 

Vamos ao resumo.

 

Para decidir se os estudos humanísticos são ideologia ou ciência, o autor começa por uma proposta de classificação das teorias. Vê duas alternativas, neste caso. É ideologia uma teoria cujos compromissos com interesses e racionalizações podem ser objetivamente explicados pela ciência. Esta é a primeira alternativa. A segunda não é propriamente uma alternativa; é, muito mais, uma visão que nega a possibilidade de ciências humanas, pois qualquer teoria que trate de nossa espécie é, por definição, ideológica.

 

Como estamos quase que imitando o autor, produzimos no parágrafo anterior uma explicação obscura. Convém, por esta razão, retornar às idéias de modo mais sintético. O autor trabalha inicialmente com as seguintes idéias:

 

  • produções ideológicas podem ser superadas pela ciência quando esta produz conhecimento objetivo sobre o objeto de estudo.

 

  • a solução de recorrer à ciência pode não funcionar quando se pensa que todo o conhecimento sobre o homem é ideológico (depende de posição ou interesses das teóricos).

 

Para ilustrar a primeira alternativa, o professor Dante emprega dois exemplos: era certamente ideológica a teoria medieval de existência de bruxas, pois a ciência (a psicanálise) mostra objetivamente que os perseguidores de bruxas eram pessoas com problemas patológicos, projetando culpa e pecado nas outras; ideológico também  era o racismo do século XIX, pois a antropologia cultural (teoria objetiva da cultura) veio a mostrar que as diferenças atribuídas à origem social são explicadas por fatores históricos e sociais.

 

A primeira alternativa em análise é contestada pela segunda. Se todas as teorias sobre o homem são ideológicas, psicanálise e antropologia cultural não podem propriamente serem chamadas de ciências. A  psicanálise é explicável pelo clima repressivo de era vitoriana e pela biografia de Freud. A interpretação de igualdade entre os diversos  seres humanos – antropologia cultural – é explicável pela sociedade plural que a produziu. Assim, a segunda alternativa apresenta dificuldades insuperáveis: sempre será possível mostrar que uma teoria, na área das ciências (?) humanas, é ideológica.

 

Para o autor, a insistência sobre o status ideológico dos estudos humanísticos leva ao relativismo. E o relativismo nada mais é do que uma forma de ceticismo. Como sabemos, partindo de uma posição cética, é impossível assegurar a possibilidade  de qualquer conhecimento. Apesar disto, predominam as teorias relativistas quando se fala no status epistemológico das ciências humanas.

 

O autor propõe um caminho para superar a aparente impossibilidade de construção de ciências humanas. Começa com uma distinção entre ciências das natureza e ciências humanas. As primeiras seriam a históricas, não sujeitas às mudanças observadas na sociedade, estáticas. As segundas, dinâmicas, mutáveis. Assim, umas e outras deveriam reger-se  por estatutos epistemológicos distintos.

 

A seguir, Dante Moreira Leite sugere a necessidade de distinguir diversos níveis quando falamos de teorias sobre os homens. Indo de maior para menor universalidade, é possível reconhecer os seguintes níveis:

 

  1. o homem visto como animal; neste nível mais básico, há possibilidades de estabelecer proposições universais e objetivos sobre alimentação, reprodução, percepção e aprendizagem.

 

  1. o homem visto em suas relações sociais primárias; neste nível é possível constatar universais tais como: sentido de continuidade no tempo, ligação com os antepassados, elaboração de imagens do futuro, etc.

 

Depois de apontar a rota dos diferentes níveis, o autor faz uma observação sobre as conseqüências do livre arbítrio. O homem pode reagir ao seu destino e mudá-lo. Esta constatação é importante em termos de aplicação das ciências. Mesmo que queira, o homem não pode contrariar restrições da natureza. Mas o livre querer, na área social, pode provocar desastres imensos.

 

Mais uma observação do autor: o pesquisador objetivo, em certos domínios das ciências humanas,  é uma ficção.

 

Depois de estabelecer e desenvolver a distinção ciências naturais/ciências humanas, Moreira Leite faz as seguintes afirmações:

 

  • em nível, é possível estudar o homem animal, isto é, seus aspectos anatômicos ou fisiológicos (p. 137)

 

  • num segundo nível, é possível estudar aspectos psicológicos e sociais que parecem relativamente impermeáveis à interferência ideológica, (desenvolvimento infantil, percepção, aprendizagem, motivação, sociologia dos pequenos grupos). (p. 138)

 

  • nos demais níveis, os abrangentes, a interferência ideológica do pesquisador acentua-se. (p. 138)

 

As conclusões do autor são ambivalentes. Citamos aqui alguns trechos conclusivos para mostrar esta circunstâncias.

 

O fato de uma teoria estar enraizada em certa situação não significa que seja, necessariamente, falsa; pode ser, ao contrário, a teoria mais correta em determinado momento histórico. (p. 139)

 

Esta apresentação não pretende indicar uma solução para o problema da ideologia, mas apenas sugerir o objetivo deste ensaio. (p. 140)

 

A última afirmação é surpreendente. Parece que o autor queria sugerir a possibilidade  de ciências humanas, pelo menos em determinados níveis. Parecia que o mesmo autor estava sugerindo um continuum para as ciências humanas, indicando níveis com pouca ou nenhuma interferência ideológica e níveis muito ideologizados. Mas, ao encerrar  suas considerações de caráter epistemológico, Dante Moreira Leite decide-se pela versão de que todas as teorias que estudam seres humanos são ideológicas.

 

 

OBJETO DE ESTUDO

 

Na segunda parte do segmento Teoria e Ideologia, o autor passa a delimitar  o objeto de seu estudo: “apresentar várias interpretações do caráter brasileiro, supondo-se que revelam diferentes etapas na maneira de intelectuais brasileiros verem o Brasil e as características psicológicas do povo brasileiro.” (p. 140)

 

Dante esclarece que, embora possam ter alguma importância para o estudo do caráter brasileiro, não serão consideradas observações incidentais de autores respeitáveis. Para exemplificar incidentalidade, o Professor da USP cita trechos deliciosos, de Machado de Assis, Alcântara Machado e Graciliano Ramos, que fazem referência ao caráter brasileiro.

 

Interessa, para o Caráter Nacional Brasileiro teorias consistentes, coerentes e com valor explicativo.

 

 

ANÁLISE QUANTITATIVA E ANÁLISE INTUITIVA

 

Moreira Leite apresenta argumentos a favor de uma análise de conteúdo que possa servir-se abordagens quantitativas.

 

Um exemplo útil para entender a análise quantitativa é o trabalho de Lowerthal que constata, em análise de incidência de biografias em duas revistas populares americanas, uma mudança significativa: no período 1901/1914 predominam biografias de políticos (46%); no período de 1930/1934 predominam biografias de pessoas ligadas ao setor de diversões (55%). A partir destes dados, é possível caracterizar objetivamente o “triunfo dos ídolos de massa”.

 

Na apresentação das teorias a serem analisadas, o Moreira Leite adotará  abordagens quantitativas. Tais abordagens serão complementadas por outras de caráter intuitivo. Ou, melhor dito:

 

…para cada autor serão anotadas e tabuladas as características indicadas no brasileiro. Ao mesmo tempo, far-se-á análise intuitiva ou compreensiva de cada autor, de forma a salientar as influências que recebeu, bem como o nível de sua descrição. (p. 147)

 

 

AS VÁRIAS FASES DAS IDEOLOGIAS DO CARÁTER NACIONAL BRASILEIROS

 

A fase das ideologias do caráter nacional brasileiro vai do fim do século XIX até a década de 1940-50. Mas, para bem compreender essa fase é preciso constratá-la com o período que a supera e com os períodos que a antecederam. Assim o esquema de apresentação da obra, na segunda parte, terá a seguinte estrutura:

 

  1. Fase Colonial: da descoberta ao movimento nativista (1500-1822)

 

  1. O Romantismo (1822-1880)

 

  • As ciências sociais e a imagem pessimista do brasileiro (1880-1950)

 

  1. Superação da ideologia do caráter nacional brasileiro (1950-1960)

 

 

FASE COLONIAL: A DESCOBERTA DA TERRA E O MOVIMENTO NATIVISTA

 

Apresentação do Capítulo 7

 

Mudamos aqui o modo de abordagem. Em vez de análise, adotamos a forma de uma síntese quase que telegráfica.

 

A Carta de Pero Vaz de Caminha

 

. 1º documento sobre a terra

 

. editado apenas em 1871

 

ê citado para ilustrar algumas características e temas que outros autores irão retornar:

 

  • destaque para fauna e flora
  • aves típicas
  • indígenas, limpos, saudáveis, sem crenças (não há símbolos aparentes de culto)
  • sonhos de riquezas minerais
  • abundância de águas

 

  • dois tópicos interessantes:

 

  • Caminha aproveita a oportunidade para um pedido a El Rei (será isto a pré-história do “jeitinho” e do comércio de favores?)

 

  • ficam na terra dois degredados e dois aventureiros (personagens que reiteradamente aparecem nas leituras de histórias da terra).

 

 

Notícias, Grandezas, Histórias

 

. Primeiros cronistas: Gândavo, Gabriel Soares de Souza, Fernão Cardim, Fernando Brandão.

 

. Gândavo:

 

– com seis escravos, vida de senhor

– qualidade da terra

– frutas e frutos tropicais, ANANÁS

– língua indígena sem F (é), L (ei), R (ei).

 

. Gabriel Soares de Souza:

 

– registro de lendas (as amazonas)

– grandeza da terra, frutas, frutos, ANANÁS

– perigos da terra (destaque para a saúva)

– descrição dos tupinambás

– menção a pedras preciosas

 

. Fernão Cardim:

 

– temática parecida com os dois anteriores, destaque para a descrição de costumes indígenas

 

. Ambrósio Brandão:

 

– destaque para a idéia (criticada) de “fazer a América” e voltar para a terrinha

 

. Frei Vicente Salvador:

 

– mais um inventário sobre a terra

– crítica a uma valorização descuidada e ao desejo de “fazer a América”

 

. Rocha Pita (1730) História da América Portuguesa:

 

– ufanismo

 

Síntese apresentada pelo próprio autor:

 

os autores aqui citados indicam algumas atitudes comuns na colônia: a admiração pela natureza tropical, o interesse pela vida indígena, o desejo de ver o progresso do país, a crítica aos governos da metrópole e alguns comportamentos considerados característicos dos colonos  (p. 155).

 

Tudo isto resulta na primeira cristalização de imagens do Brasil.

 

 

Descrição na Poesia: Bento Teixeira, Manuel B. Oliveira e Manuel de Santa Rita Itaparica

 

. certa semelhança temática com os primeiros cronistas

. poesia de gosto duvidoso

 

A crítica social de Gregório de Matos

 

. crítica satírica aos cristãos novos, comerciantes que se enriquecem rapidamente, mulatos e estrangeiros que invadem a Bahia.

 

Vale a pena citar o parágrafo conclusivo do autor:

 

De qualquer forma, em Gregório de Matos não se nota uma direção crítica…(p. 159)

 

 

O nativismo do século XVIII

 

Só no século XVIII é que surge uma literatura propriamente brasileira

 

. O Precursor: Frei Santa Rita Durão:

 

– repete os primeiros cronistas ao descrever a riqueza terra

 

Ainda no Caramuru, a descrição geográfica (p. 160)

 

. Cláudio Manuel da Corta

 

– anteriormente não considerado nativista; hoje, os críticos vêem-no de modo diverso

 

– nativismo ainda não é nacionalismo

 

. José Basílio da Gama (1740-1795), autor do poema épico Uraguai

 

– apesar de ver índios como inimigos, não os vê como vilões

 

. Inácio José de Alvarenga Peixoto:

 

– idéia de que os brasileiros não são piores que os europeus, embora implicitamente se suponha descendência aristocrática

 

. Antonio Domingos Caldas Barbosa: (1738-1800)

 

– segundo Buarque de Holanda, foi quem “mais vivamente exprimiu a meiguice brasileira”.

 

 

ROMANTISMO: A INDEPENDÊNCIA E A FORMAÇÃO DE UMA IMAGEM POSITIVA DO BRASIL E DOS BRASILEIROS

 

Apresentação do capítulo 8

 

Convém inicialmente listar todos os itens que o autor utiliza para descrever o Romantismo:

 

Características Gerais do Romantismo

A natureza e o homem

O indianismo

O idioma nacional

A luta pela abolição da escravatura

 

 

Características Gerais do Romantismo

 

Contradição é a marca do Romantismo. É um movimento do desequilíbrio. Sonhos românticos e realidade se confrontam. Todas as temáticas do movimento geram opostos. O movimento também é desequilibrado em suas direções. Abriga libertários. Abriga saudositas.

 

Apesar da diversidade, há características comuns do Romantismo. Citemos o autor:

 

… os românticos procuravam, mais que os clássicos e neoclássicos, a individualidade e a originalidade; à tradição clássica, opunham as tradições nacionais; aos claros limites do estético ou não estético, tentaram as formas novas que permitissem exprimir o inexprimível… (p. 165)

 

O Romantismo se vincula as novas condições sócio-econômicas que se delineiam  a partir do século XVIII. Em conseqüência surge e vai ganhando corpo o sentimento de individualidade uma vez que as condições concretas de existência (ou vice-versa?) abrem espaço para tanto. O autor apresenta as conseqüências disto na literatura da seguinte forma:

 

… essa transformação tem, aparentemente, uma conseqüência bem nítida: procura-se a expressão, não do geral, do que é válido para qualquer homem, mas do que é único, do que resulta da experiência singular do artista. A imitação e o modelo perdem o valor e, ao contrário, tornam-se condenáveis; ser incompreendido deixa de ser um pecado, para ser um título de glória. (p.166)

 

Mais uma vez é preciso notar a contradição do movimento. Individualista em seu programa , o Romantismo não deixa de ser  uma flexão voltada para o nacionalismo e a ampliação da educação.

 

Romantismo no Brasil é, obviamente influenciado pelo modelo europeu, mas com cores próprias:

 

  • ênfase no nacionalismo
  • data de referência 1836
  • nota sobre continuidade (cf. poemas péssimos de Gonçalvez Magalhães e José Bonifácio de Andrade e Silva

 

um nativismo que já anuncia a ênfase na natureza exuberante…

 

 

A natureza e o homem

 

  1. Ferdinand Dennis e Almeida Garret

 

 

 

cobrando a exaltação de matéria nova, assim como do indígena.

 

Nacionalismo  (circa  1820)

 

 

 

canção do exílio (Gonçalves Dias – 1823-1864) “minha terra tem palmeiras (p. 170)

 

 

 

Casimiro de Abreu (1839-1860)

 

O indianismo

 

Romantismo busca raízes na história, no passado, nas produções populares, nas expressões nativas etc.

 

 

 

como fazer isto no Brasil, se era preciso negar raízes européias

 

 

 

resposta: idealização do índio

 

 

cit. P. 172

 

  • além disso, o índio idealizado não entrava em contradição com a situação do escravismo.

 

 

 

  • José de Alencar

 

. O Guarani  –  índio bom, valente, etc. e etc. (só não pode se casar com a moça loira)

  • um Brasil medieval

 

.  Iracema   –    a virgem dos lábios de mel

  • Adão e Eva no paraíso
  • mais um mito

 

 

REALISMO E  PESSIMISMO

 

Apresentação do capítulo 9

 

A imagem que os realistas nos passaram é a de que tentavam expressar a realidade dos fatos. No entanto, essa imagem torna-se falsa se pensarmos que Alencar tentava mostrar o índio idealizado como real. O realismo é, sem dúvida, um movimento que falseia os propósitos de outros movimentos literários, pois toda literatura autêntica é realista, mas nenhuma literatura chega a apresentar toda a realidade.

 

Um das marcas do realismo brasileiro (que começa a surgir por volta de 1870) é a idéia de ciência. Talvez, mais do que isto, o realismo brasileiro é marcado por uma certa idéia de ciência que podia ser consumida num Brasil imperial e escravista.

 

Figura importante neste jogo de cientificismo e realismo é a de Silvio Romero (1851-1914), fortemente influenciado por divulgadores de um certo cientificismo de talhe francês. Como nota Dante Moreira Leite:

 

… foi essa literatura de divulgação que se difundiu no Brasil e é ela que, em grande parte, explica o uso – e o abuso – do conceito de ciência, em Silvio Romero e em seus contemporâneos. Como para os autores europeus que imitavam, ciência era freqüentemente uma palavra prestigiosa, capaz de garantir a verdade do que afirmavam. Outras vezes era um programa a que se propunham, embora não tivessem recursos para cumpri-lo (p. 180).

 

Romero, misto de ensaísta e polemista militante, critica o ideário romântico e tenta elaborar uma interpretação científica da cultura brasileira. É, neste caminho, influenciado pelo evolucionismo de seus mestres europeus que vêem a história como uma evolução linear cujo ponto final seria a sociedade européia do século XIX. Pensa, como eles, que a história humana poderia ser explicada pelos critérios de meio e raça. Obviamente, progresso e avanço são resultados de processos conduzidos por uma raça superior: a raça branca ou ariana. Limites às possibilidades de evolução poderiam existir devido a fatores físicos, sobretudo o clima.

 

No que tange ao fator raça, Romero aceita a tese da superioridade ariana. Examina o problema social no Brasil e formula uma teoria sobre a emergência de uma sub-raça mestiça. Não deixa, porém, de insistir na necessidade do branqueamento dos mestiços, esperando que a migração de europeus para o Brasil purifique a sub-raça emergente.

 

O autor em análise sofre contradições continuas em sua obra. Aceita e, ao mesmo tempo, critica o determinismo climático de seus mestres da Europa. Não aceita o determinismo racial, mas revela preconceitos contra o negro e o índio.

 

Em sua História da Literatura, Romero dedica um capítulo à psicologia nacional. Afirma que existe um espírito de época e um espírito comum “que determina a corrente geral das opiniões de um povo”. Vale aqui mais uma citação de Moreira Leite:

 

Quanto ao brasileiro, (Romero) admite que ainda não existe documentação sobre as várias atividades e tendências; no entanto, isso não impede que, logo depois, indique os principais traços do brasileiro. (p. 189)

 

Apatia, desânimo, falta de iniciativa, mania de imitar os estrangeiros são alguns dos traços que Romero destaca. O clima seria um determinante das características do brasileiro (aliás, os autores da época, associavam o calor a doenças e outras condições pouco satisfatórias do viver humano). Mas apesar do pessimismo, dos preconceitos com relação às “raças inferiores”, Romero sugere um grande destino para a sub-raça mestiça do Brasil.

 

 

 

A REAÇÃO INGÊNUA E PATRIÓTICA

 

Apresentação do capítulo 10

 

Merece destaque especial a obra de Afonso Celso ” Por que me ufano do meu país”, publicada em 1900. A obra opõe-se ao trabalho de Silvio Romero e dos realistas. É uma espécie de volta ao Romantismo naquilo que este tinha de mais ingênuo.

 

Afonso Celso teve uma influência muito grande em livros didáticos e na forma de apresentar às crianças uma história ufanista do Brasil. Segue aqui um resumo de seu modo de ver as “raças formadoras”:

 

. negros: importados da África, desenvolveram sentimentos de resignação estóica, afetividade e Eram menos bárbaros que os negros que foram para outras partes das Américas. Praticamente não há preconceito de cor no Brasil (em parte isto pode ser explicado pelo sentimento de afeto que ligou brancos a negros por meio das amas – de – leite).

 

. portugueses: a História não registra povo que mais tenha feito com menos recursos. Além disto, os lusos contribuíram significativamente com as descobertas, as artes etc. “Entre as características psicológicas dos portugueses, Afonso Celso cita: heroicidade, resignação, esforço, união patriotismo, amor ao trabalho, filantropia…”

 

. índios: generosos, de grande coragem pessoal.

 

Vale ressaltar que Afonso Celso, fala também dos diversos tipos de mestiços, mas não menciona os mulatos. Para Dante, há neste caso um traço de preconceito.

 

Para encerrar este resumo sobre Afonso Celso, convém deixar registrado um balanço que ele faz sobre o caráter nacional, apresentando lados positivo e negativo.

 

Lado positivo:

 

. sentido de independência

. hospitalidade

. afeição à ordem

. paciência e resignação

. doçura, desinteresse

. escrúpulos para cumprir obrigações contraídas

. caridade

. “acessibilidade”

. tolerância, ausência de preconceitos

. honradez no desempenho de funções públicas e privadas

 

Lado negativo:

 

. falta de iniciativa, decisão e firmeza

. pouca disposição para grande esforço, provavelmente por causa da terra fértil e da vida fácil.

 

 

GRANDEZA E MISÉRIA DOS SERTÕES

 

Apresentação do capítulo 11

 

Com o Romantismo, o Brasil começa a experimentar surtos de expressões regionalistas. Exemplos disto são os romances “O Gaúcho” (1870) e “O Sertanejo” (1975) de Alencar. Outros exemplos, com tons naturalistas, são as obras “O Missionários”, de Inglês de Souza, e “Pelo Sertão”, de Afonso Arinos. Mas a figura central deste capítulo é um engenheiro que irá propor uma nova Filosofia de História do Brasil: Euclides da Cunha.

 

Nos Sertões, sua grande obra, Euclides da Cunha tenta explicar como Antônio Conselheiro conseguiu fanatizar milhares de pessoas, tornando-as capazes de enfrentar quatro expedições do exército. A obra é dividida em duas partes principais: A Terra e O Homem. Em A Terra, o autor descreve o semi-deserto do Nordeste, com as suas variações entre secas e chuvas. Observa que a seca provoca grandes movimentos migratórios. Propõe uma solução para a estiagem nordestina: represas e imigração. Em O Homem, aponta as três raças formadoras. Discorre sobre a mestiçagem. Quanto à unidade étnica oscila entre duas opiniões: 1) não temos unidade de raça, talvez nunca venhamos a tê-la; 2) imagina que no futuro seja possível formar “uma raça histórica”, desde que tenhamos tempo para uma vida autônoma.

 

Euclides fala do sertanejo como “rocha vida de nossa raça” ( “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”).  Dante observa aqui contradições na obra de Euclides. Se o sertanejo é um forte já constituiu raça autônoma. Mas parece que Euclides, apesar de heroicizar o sertanejo, não o vê como uma raça, muito menos como um paradigma de unidade da raça brasileira.

 

Apesar de seu caráter às vezes contraditório, a obra de Euclides da Cunha teve grande repercussão e é, até hoje, um marco da literatura nacional. Ressalta-se, ainda, que os Sertões é obra que revela simpatia pelo jagunço, tentando compreender seus motivos e sua maneira de ver o mundo.

 

Do início do século XX até 1922, época caracterizada como pré-modernista, há um expansão significativa do regionalismo. A obra de Euclides caracteriza este momento. Embora o regionalismo literário não interesse diretamente como movimento preocupado com a questão do caráter nacional, ele é aqui mencionado, sobretudo no trabalho de Euclides da Cunha , porque em certos momentos quase chega  a uma concepção geral do brasileiro e de suas atitudes básicas.

 

 

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