Archive for julho \31\UTC 2010

Escola de Lata

julho 31, 2010

Reproduzo foto de escola de lata do estado de Utah, USA. Encontrei esta imagem num blog com a informação sobre o estado com os piores índices educacionais do Grande Irmão do Norte.

Utah investe anualmente, por aluno, um terço do montante investido pelo Estado de Nova York. E nos últimos anos, consistentemente, ocupa a última posição entre todos os estados americanos no campo da educação.

Não tenho dados de quanto se investe no Brasil por aluno. De qualquer forma, para possível comparação, caso alguém saiba quanta grana é investida por aluno do ensino fundamental de nossa terra, aqui vai a cifra anual que Utah desembolsa por aluno: U$5,765 [pelo câmbio de hoje, R$10.350].

Não tinha a intenção de fazer registros sobre investimentos em educação. Mas, ao me referir ao post onde encontrei a dita imagem, achei que precisava repassar algumas informações de contexto.

Para os fins de um assunto sobre o qual insisto aqui no Boteco, arquitetura escolar, a imagem é que mais importa. Ela mostra como governos priorizam educação. Ela é uma reafirmação do velho ditado: uma imagem vale mais que mil palavras. Segue uma outra imagem das chamadas escolas móveis de Utah.


Educação progressista

julho 29, 2010

Entre as coisas que ando lendo, estudando ou fuçando, movimentos progressistas em educação é uma das mais interessantes. Nas informações que busco, as muitas experiências relativamente esquecidas gritam por um lugar em nossa memória pública. Uma das minhas descobertas recentes é Black Mountain College, concretização romântica e radical do projeto educacional imaginado por Dewey.

Hoje vi que há um único documentário completo sobre o famoso college. Gente interessada pode ver algumas informações e trailer da obra no link abaixo indicado.

Veja também informação sobre o fundador do college:

Huxley X Orwell

julho 28, 2010

Em RT, @rbanffy divulgou imagens interessantes sobre mensagens de Huxley e Orwell, autores, respectivamente, de Admirável Mundo Novo e 1984. Os dois romances, escritos em meados do do século XX, procuravam pintar os resultados de uma sociedade avançada do ponto de vista tecnológico. O tempo passou. As coisas mudaram. As novas tecnologias já imprimiram sua cara no mundo em que vivemos. Fica a pergunta: quem fez as previsões mais acertadas, Huxley ou Orwell?

As ilustrações divulgadas pelo Ricardo Banffy indicam que o maior acertador foi Huxley, embora, de vez em quando, pareça que Orwell tinha lá alguma razão.

Publico as ditas ilustrações antecipando introdução a trabalho que anualmente passo para meus alunos de filosofia no primeiro ano de comunicações. Eles devem ler um ou outro romance e mostrar como a obra dialoga com nossa sociedade da informação. As imagens serão ponto de partida para estudo de meus alunos. Espero, porém, que elas também sejam motivo de reflexão e conversa para frequentadores deste Boteco.

As imagens ora divulgadas apareceram originariamente no blog Accelerating Future e o autor utiliza como título o nome de um livro de Neill Postman: Amusing Ourselves to Death, mais uma referência importante para estudantes de comunicações.

Aproveito a oportunidade para reproduzir texto que escrevi em 1998, introduzindo comunicação num congresso de informática e educação. Título da comunicação: Mais Tecnologia, Menos Aprendizagem: Admirável Mundo Novo e Celebração da Ignorância.

Antes de mais nada, é preciso dizer algo sobre o título desta comunicação. Há duas referências de ficção para o tema que escolhi. Uma é explícita: trata-se do romance “Admirável Mundo Novo”, de Huxley. Outra não é tão óbvia, mas quase sempre está associada à primeira: trata-se do romance “1984”, de Orwell. As duas obras situam visões críticas quanto ao futuro uso das mais recentes descobertas tecnológicas. Elas, porém, marcam posições bastante diferentes. Em “Admirável Mundo Novo”, Huxley pinta um mundo organizado, limpo e divertido, onde seres humanos, geneticamente programados e cercados por maravilhas da tecnologia, vivem uma vida sem sobressaltos, paixão ou medo. Recursos sanitários e cosméticos garantem uma juventude permanente. Em “1984”, Orwell pinta um mundo cinzento, com uma organização política universal que impõe, por meio da violência, um modo único de ver a vida.

Importa aqui destacar algumas características de ambas as obras. No romance de Huxley, a tecnologia é usada para garantir estabilidade, diversão e prazer. No romance de Orwell, a tecnologia é usada para o controle, a imposição (às vezes violenta) de valores. Em “Admirável Mundo Novo”, as conquistas científico-tecnológicas são utilizadas para garantir uma vida despreocupada. Todos os seres humanos, geneticamente programados, ocupam sem conflitos seu lugar na sociedade. Alguma mudança só poderia ocorrer se houvesse um acidente genético durante o desenvolvimento dos embriões humanos nos laboratórios. Em “1984”, as conquistas científico-tecnológicas são utilizadas para vigiar os cidadãos, impor novos modos de pensar e castigar gente que sai da linha. Ao contrário do mundo pintado por Huxley, o mundo de Orwell é triste e pesado. Em “1984”, a tecnologia é um meio severo de controle. O prazer, praticamente, inexiste no universo criado por Orwell.

Em “Admirável Mundo Novo”, o cidadão bem resolvido (corretamente programado durante sua gestação em laboratório) não faz indagações, não tem dúvidas, busca prazer contínuo. Vive uma  vida aparentemente feliz. Nada quer saber para além daquilo que deve saber. Em “1984”, o cidadão bem resolvido é aquele que se conforma e pensa de acordo com a verdade oficial. Pode ter dúvidas ou fazer indagações. Mas a falta de conformidade é tratada como crime. Predomina um clima de terror; não há, portanto, lugar para qualquer tipo de felicidade. O máximo de prazer no mundo orwelliano é fumar um cigarro intragável ou beber um gim raro e fedorento.

Se a vida, como se diz comumente, imita a arte, nosso tempo está muito mais para “Admirável Mundo Novo” que para “1984”. As novas tecnologias, sobretudo as de comunicações, vêm sendo empregadas para divertir. Os usos predominantes de computadores e televisão são os de entretenimento. E assim como no universo ficcional de Huxley, a diversão é um fim em si mesma. O que importa é estar num contínuo estado de prazer, sem sobressaltos, paixão ou dúvida.

Não vou aqui explorar as decorrências sociais de uma ou outra obra. Vou apenas destacar uma das características marcantes do universo ficcional criado por Huxley. O cidadão de “Admirável Mundo Novo” tem, praticamente, uma única meta: uma vida prazerosa. O prazer, no caso, é aquele que o velho Aristóteles chamaria de prazer sensível. Neste universo, por exemplo, não há lugar para emoções como amor ou compaixão. Não há lugar também para a indagação, a curiosidade, a pergunta, a dúvida. Tudo está programado. Pouca coisa deve ser aprendida. Os recursos tecnológicos resolvem “a priori” todas as dúvidas e garantem doses diárias de prazer.

Educação e diversão

julho 27, 2010

Abro este post com um vídeo do Cirque du Soleil. Espetáculo de primeira qualidade. Diversão sofisticada. Vale a pena ver, emocionar-se, admirar.

Pergunta: o que aprendemos com um espetáculo assim? Ou para voltar na história: o que aprendiam os romanos em seus circos?

Falo em espetáculo e mostro imagens de um belo circo por um motivo: a mania de dizer que a educação precisa ser divertida. Para quem assim pensa, acho fundamental um estágio no Cirque du Soleil. Se a educação deve ser divertida,  é preciso que os espetáculos que ela promove sejam de qualidade no mínimo equivalente à oferecida pelo circo canadense.

Estas observações foram motivadas por um manchete que vi hoje na Web:

Chegada de computadores promete aulas divertidas e melhor aprendizado

A chamada aparece num site do Ministério da Educação. Parece, portanto, que o órgão máximo da coordenação de educação no país julga que a entrada dos computadores na escola tem como uma das finalidades principais levar o espetáculo para as salas de aula. E ninguém  reclama. Parece que a crença de que a escola precisa virar circo é hegemônica. Aqui do meu canto, acho que isso é um tremendo de um equívoco. É certo que as novas mídias são utilizadas sobretudo para a diversão. Isso atrai freguesia. Exige pouco esforço. Chama atenção. Faz o cidadão esquecer-se por uns instantes da vidinha limitada do dia-a-dia. Emociona. Concretiza sonhos. Distrai.

As razões que elenquei atrás e muitas outras levam o capital a investir muito em TV, Internet e outra mídias eletrônicas para promover diversão. E tais mídias são ótimas para tanto. E o sucesso das novas formas de diversão contaminaram modos de ver a educação. Formulo isso de modo bem rude: hoje, ao que tudo indica, vive-se o sonho de que a principal finalidade da escola é a de oferecer espetáculos divertidos para a sua freguesia (clientala, no sentido original que o termo tinha no velho Império Romano).  Assim, a pergunta clássica “para que educação?” tem hoje um resposta clara e definitiva: para divertir o povo.

Há muito o que dizer sobre o tema. Mas paro por aqui.

Além de recorrer ao circo como referência para a educação, a notícia veiculada pelo MEC revela um outro equívoco: o de ignorar a maior virtude do computador. Essa máquina, como observou tempos atrás Alan Kay, é um piano. Somos capazes de imaginar sonoridades fantásticas. E o piano é um meio que nos permite expressar tais sonoridades. Quanto mais conhecemos o instrumento, mais podemos criar uma música que sem ele não poderia ganhar concretude. Mas, a música não está no piano. A música está em seres humanos capazes de criar, admirar, imaginar, ver o mundo de muitas maneiras surpreendentes. Tudo isso não está no piano (computador). Tudo isso está em gente que pode expressar saberes de modo sempre admirável.

Usar o computador como um grande piano é desafio formidável. Exige construção de modelos de ciência, de arte, de formas de expressão. Exige imaginação capaz de projetar desafios que podem ser concretizados por modos de expressão que se tornaram possíveis com a invenção dos computadores. E isso não é espetáculo. É desafio de criação para professores, para alunos. Infelizmente a hegemonia da metáfora do espetáculo está impedindo que os educadores vejam a maior vitude dos computadores.

Queria escrever mais sobre o tema. Mas, meu tempo anda curto. Volto ao assunto assim que tiver uma folga maior.

WebQuest: mais uma informação

julho 23, 2010

Na Web há muitas apresentações sintéticas que definem e descrevem o conceito WebQuest. Tais apresentações vem sendo feitas desde 1997, época em que o conceito ganhou espaço significativo entre educadores de diversas partes do mundo.

Quase todos os resumos trazem informações bastante parecidas. Mas, sua existência é sinal de expansão do conceito, pois cada vez que alguém se dá ao trabalho de colocar na Rede sua versão sobre a ferramenta intelectual criada por Bernie Dodge há uma revalorização das WebQuests.

Acabo de ver a apresentação de mais um resumo sobre WebQuests. Minha visita ao link sobre a matéria motivou a elaboração deste post. Acho que a informação que acabo de ver pode ser útil para pessoas que estão começando a se interessar pela proposta de uso de Internet sugerida por Bernie Dodge em 1995. Segue link para quem quiser dar uma olhada na citada informação:

TIC e vida privada

julho 21, 2010

Um velho amigo, sempre envolvido com aventuras românticas, costumava dar para nossa mesa de whisky no final do dia alguns conselhos valiosos. Aqui estão dois exemplos:

  1. Não beije a patroa no elevador. O porteiro verá a cena e espalhará para todos os empregados de edifícios da região seus arroubos de carinho. Pior: se ele achar que o espetáculo é quente pode colocá-lo na Internet.
  2. Não pague contas de motel com cartão de crédito. Sua mulher, ao conferir na Internet o movimento bancário da família, vai descobrir a despesa.

Os conselhos brincalhões do meu saudoso companheiro no pós-expediente, em volta de uma garrafa de scotch, têm base sólida. No primeiro caso, câmaras de vigilância, espalhadas por toda parte, podem inibir cenas de carinho. Ou, se delas nos esquecermos, nossa atuação pode virar sucesso no Youtube.

No segundo caso, os implacáveis registros de seu cartão de crédito vão anular aquele álibi de uma reunião chata na firma, encerrada muito depois da meia noite.

Tecnologias de informação e comunicação invadem cada vez mais nossa vida pessoal. Com isso, a Amazon Books, dados seus pedidos, volta e meia aparece no email para anunciar obras que são a sua cara. Chatos de todos os tipos enchem seu correio eletrônico de propagandas disfarçadas de mensagens. Outros chatos invadem seu blog e mascateam produtos, cursos, imóveis, serviços da Internet e assim por diante.

Nos anos 80, malas diretas eram um bom negócio. Para enviar correspondências para uma clientela selecionada, bastava comprar uma lista de etiquetas com nomes e endereços da freguesia desejada. Não sei de onde as empresas de mala direta selecionavam as vítimas. Provavelmente compravam informações de fontes diversas, incluídas aí até informações supostamente sigilosas. De qualquer forma, tenho certeza que as malas diretas eram produtos elaborados a partir de invasão de dados da vida privada dos cidadãos. Faz tempo que não ouço falar de malas diretas. Será que foram substituídas por outros recursos invasores, as listas de call centers, por exemplo? De qualquer forma tenho uma certeza, as atuais malas diretas ou suas substitutas são geradas por mecanismos digitais que invadem a vida privada de todos nós.

Infelizmente estamos anestesiados para os efeitos invasivos dos meios digitais. Preenchemos formulários, usamos as chamadas mídias sociais, expomos fotos nossas e de filhos em arquivos fotográficos que todos podem ver etc. Não falo aqui de gente que invade nossos computadores. Falo de informações que voluntariamente colocamos na Web ou de traços de nossas andanças pelo mundo digital, registrados e armazenados por poderosos instrumentos analíticos como o Google.

Intimidade e vida privada estão ameaçadas, embora continuemos com a ilusão de que é possível ter espaço e tempo só  para nós. Essa ilusão corresponde a uma necessidade muito humana. De vez em quando queremos viver momentos muito nossos. E tudo que consideramos íntimo é só nosso, não deve ser objeto de curiosidade alheia.

Necessidade de vida privada é consequência da consciência pessoal conquistada pelos humanos e provavelmente por nossos primos chimpazés. Achamos que temos uma individualidade, um eu. Temos autoconsciência. Por isso, vez ou outra queremos distância da multidão. Queremos curtir sentimentos que não gostaríamos de ver expostos para estranhos ou até mesmo conhecidos que não são gente de nosso círculo mais íntimo.

O desejo de intimidade deve ser bastante antigo. Jean Auel, no primeiro volume da saga Earth’s Children,  descreve divisões com pedras para separar, dentro da caverna, áreas ocupadas por famílias de uma tribo de neanderthais. Uma separação que não garantia intimidade física. Mas, a autora nota que o arranjo de pedras era um sinal para que ninguém de  fora registrasse o que se comunicava dentro da área demarcada pela família. É claro que o espaço de intimidade neanderthal criado por Auel é uma especulação. Mas, faz sentido. Nossos primos mais próximos, os neandertais, certamente tinham consciências individuais. Por isso, é bastante provável que apreciassem certa privacidade, certos momentos de intimidade.

Entendemos que o direito à vida privada é sagrado. Mas,  tal direito depende muito do ambiente em que vivemos. Por isso, um dos horrores que sentimos ao ver moradias de favelas é a extrema promiscuidade em que vivem as pessoas que se vêem obrigadas a morar em barracos. Em casa e mesmo na vizinhança é impossível qualquer momento de real intimidade. Tudo está à vista.

Sentimentos de admiração pelas maravilhas eletrônicas e adesão à comunicação digital, por necessidade e conforto, fazem com que nos esqueçamos de como as novas tecnologias são invasivas. Eventualmente discutimos medidas paliativas para evitar invasões muito evidentes de nossos cantinhos no ciberespaço. Mas isso é muito pouco. Deveríamos conversar mais sobre o assunto. Cabe reparar que dificuldades para manter vida privada e intimidade numa esfera de comunicação dominada por meios digitais é um tema fundamental em educação. Fica a pergunta: as novas gerações terão possibilidade de vida privada autêntica?

Post recente do blog Internetactu relata três comunicações sobre a questão, introduzindo o tema da seguinte forma:

É coisa bem conhecida: o digital muda a vida privada.   No Lift (Lift é um conjunto de  eventos promovido para discutir consequências das novas tecnologias da informação e comunicação) foi isso que três convidados tentaram nos explicar, com discursos diferentes dos gritos de alarme habituias.

Depois de tal introdução, o post em questão apresenta as idéias centrais dos três expositores e reproduz os roteiros que utilizaram. O texto é em francês, mas os roteiros aparecem em inglês (o que pode facilitar entendimento para a maioria de nós que não é francófona). Vale a pena ler as opiniões dos palestrantes e ver os seus roteiros de apresentação.

Na verdade, os roteiros de apresentação são dois. A representante do Google no evento preferiu projetar o vídeo da empresa sobre a questão da privacidade. Peça muito bem feita. Explicações claras. Mas, a gente fica com um pé atrás. Será que o Google respeita mesmo nossa privacidade? Há quem pense que não.

Se você ainda não viu a peça do Google, aqui está ela:


A Internet é uma Meretriz?

julho 20, 2010

Anunciei que pediria à Taís, uma de minhas filhas, para traduzir um post, indicado por @MarioAsselin, que recebeu o seguinte título: La Plume est une Vierge, L’Internet est une Putaine. No domingo que passou minha herdeira fez o que pedi.

A matéria conversa com Nicholas Carr, autor de um artigo que fez furor no planeta Web: Is Google Making us Stupid? Recentemente o linguista Steven Pinker botou mais lenha na fogueira, escrevendo um artigo que contesta as ideias de Carr. Traduzi o texto de Steven Pinker e o publiquei no post:

E houve tréplica. Carr não deixou barato. Escreveu uma resposta quase que imediata para o artigo de Pinker. Fiz também a tradução dessa continuidade do debate. Você pode ver o texto do Carr em:

A tradução, que ora divulgo, é mais uma perspectiva que convém considerar, pois além de uma suposta influência negativa da Internet em nosso cérebro (a tese de Carr), há quem celebre supostos benefícios, proclamando as virtudes cognitivas da geração Y. O autor do artigo traduzido por minha filha sugere um caminho de equílibrio, lembranndo que a evolução não acontece em saltos abruptos, mas é fruto de um longo processo. Paro por aqui. É melhor dar a você a oportunidade de ler já essa matéria de título intrigante: A Internet não é uma Meretriz.

Internet, a meretriz de nossos tempos

A meretriz dos nossos tempos é a Internet, assim como os computadores. Seu poder de sedução é tanto que ela nos tira de nossas obrigações familiares e de trabalho. O computador dissipa. Ele é o objeto que chama inexoravelmente a nossa atenção, drena nossas energias, dispersa nossas forças. Seu uso frequente transforma nossos espíritos em vastos pântanos nos quais nos atolamos um pouco mais a cada dia.

Aquilo que somos como homens devemos intimamente aos objetos. Nós não somos aquilo que somos porque nós somos animais desnaturados insuficientemente adaptados ao nosso ambiente. Nós nos desenvolvemos cultura e técnica, e adaptamos o mundo à nossa inadaptação.

A invenção da ferramenta foi o ponto de partida de uma cascata de mudanças: a ferramenta levou os primeiros hominídeos a adotar a postura vertical, o que liberou espaço para o cérebro dento da caixa craniana. A mandíbula se desenvolveu, permitindo a linguagem articulada e a explosão de técnicas de memória: as estórias, as gravuras rupestres, a escrita, enfim. Essas modificações foram muito lentas e invenções de novas ferramentas levaram milhões de anos para, de fato, produzir esse tipo de modificação.

Portanto, eu fico desconfiado da ideia de que os computadores já tenham produzido grandes mudanças na organização de nossos cérebros, já que eles não têm nem um século de existência e que apenas um indivíduo em cada sete os utiliza no mundo.  Eu acho improvável que os circuitos neuronais desenvolvidos em milhões de anos possam ser colocados em questão pelo Facebook, ou pelo World of Warcraft.

Eu desconfio da ideia de que a Web estaria recabeando nossos cérebros.

A Internet nos deixa mais burros?

Aqui há um erro duplo: o primeiro é o etnocentismo. Ele considera que todo mundo vive as mesmas coisas, quando, na verdade, o nosso uso de máquinas diz respeito apenas a um punhado de pessoas. Nós não temos todos os iPhones e outros Blackberrys à mão, nós não estamos todos no Twitter, não estamos todos hiperconectados à Internet.

O segundo erro é temporal: se é verdade que na Internet, como na cultura dos países industrializados do Norte, as coisas acontecem cada vez mais rápido, isso não quer dizer que as mudanças que os computadores provocam também sejam rápidas.

Nós estamos hoje na iminência de alguma coisa e os computadores têm um seu papel nisso. Depois de termos prolongado nossos corpos com as ferramentas, nós acabamos lançando nosso sistema nervoso “como uma rede sobre o conjunto do globo” (McLuhan, Pour comprendre les média). A desmaterialização trazida por essa técnica carrega e traduz mudanças profundas das quais nós percebemos apenas as premissas.

Na introdução de seu último livro, Nicholas Carr cita uma série de experiências sobre as quais ele apóia seu argumento final: a parte imagética do cérebro de internautas experientes é diferente daquela dos novatos, mas depois de cinco horas de treinamento, as imagens dos cérebros dos dois grupos tornam-se as mesmas; a memória daquilo que foi lido é melhor do que a memória daquilo que foi apresentado num vídeo e, de maneira geral, nós retemos menos aquilo que está numa tela em comparação com o que está no papel.

A partir disso, ele tira a conclusão dramática: maravilhados pelos tesouros da internet, nós nos tornamos cegos aos estragos que podemos fazer na nossa vida intelectual e até mesmo na nossa cultura.  Nicholas Carr resgata uma parte da argumentação do famoso texto “O Google nos torna idiotas?” Com talento, ele descreveu como que, a partir do momento em que Nietzsche teve nas mãos uma das primeiras máquinas de escrever, a escrita do filósofo começou a mudar. Nietzsche teria passado de prosas longas a sentenças curtas. Esse exemplo é suficiente para que Nicholas Carr conclua que a máquina teve um impacto sobre o pensamento do filósofo e que esse pensamento ficou mais pobre, também por causa da máquina.

Mas nós podemos medir a riqueza de um pensamento por seu número de caracteres? Proust seria Proust por causa do tamanho de suas frases? Seria o tamanho do Mahâbhârata o que faz dele um grande texto? O Haicai não deveria ser considerado válido porque é curto demais?

Nós podemos nos perguntar por que um filósofo como Nietzsche se interessou por uma máquina e podemos nos perguntar se essa máquina não foi muito mais uma ajuda que uma desvantagem na formação de seu pensamento. Dizendo de outra maneira, as máquinas de ontem não nos deixaram mais burros que as máquinas de hoje.

A caneta nunca foi virgem

É evidente que os objetos têm uma influência sobre nossas vidas físicas. Mas a caneta nunca foi uma virgem, a gráfica não foi uma meretriz, nem o computador é um perigo para a cultura…a não ser nas nossas representações.

A gráfica, no início suspeita de promover a circulação de edições fora das normas vigentes, escapando do controle eclesiástico, e de inscrever o saber nas línguas correntes, foi em seguida, muito elogiada por essas mesmas razões. A invenção de papéis para impressão permitiu uma uniformização dos textos e foi então que o manuscrito começou a ser visto como suspeito de conter mais erros. Depois, a cópia foi novamente vista como suspeita: limpa demais, perfeita demais, muito distante da escrita do autor. Em uma palavra, industrializada e, portanto, muito distante das idiossincrasias criadoras. Assim, o manuscrito e a impressão foram, a cada momento, elogiados e criticados, por razões similares.

O mesmo acontece com os computadores. Eles são tanto nossos confidentes, quanto nossos assistentes de trabalho ou nossos carrascos. Eles não o são em si mesmos. Eles o são porque nós pensamos neles como tal, conscientemente e, às vezes, inconscientemente. Tomando a expressão de Sherry Turkle, eles são objetos evocadores: espelhos modernos nos quais Psiqué se olha. Tanto os esplendores que algumas pessoas enxergam nos computadores como os medos de outros que vêem a máquina como um monstro são reflexos do esplendor e da monstruosidade que nossas psiques abrigam.

A ordem e o caos

Nicholas Carr tem razão de apontar a oposição entre aquilo que ele chama de leituras lentas e difrações que nós podemos observar online. Mas ele erra ao superestimar as primeiras em detrimento das segundas. Essas são duas posições que só têm valor quando comparadas uma com a outra; nós podemos resumi-las em duas palavras: ordem e caos.

Nós precisamos da ordem para ordenar nossos pensamentos. Para isso, nós nos apoiamos numa série de dispositivos: rituais, estilos de frases.

Mas nós também precisamos de uma dose de caos para poder criar, para fazer aparecer a surpresa e para sermos capazes de acolhê-la. “É preciso ter o caos dentro de si para parir uma estrela que dança”, dizia Nietzsche. Sem essa parte de desordem, a ordem não é nada mais que um estereótipo estéril. Sem a parte da ordem, o caos não passa de dispersão.

Quando a dinastia Han construiu o império chinês, ela decidiu que os textos seriam gravados na pedra. Anteriormente, os textos eram escritos em tabuletas feitas de bambu ligadas por cordinhas. Quando essas cordinhas se rompiam, o texto se dividia em fragmentos esparsos. A inscrição na pedra resolvia esse problema e dava a todos os professores o mesmo texto. No Ocidente, o processo de cópia estava a cargo dos monges, sujeito a erros, o que sem dúvida contribuiu para desenvolver o gosto pela interpretação e pelo comentário. A Europa buscava o texto por trás do texto, e o reconstituía, indício por indício, enquanto que a China se apoiou durante centenas de anos sobre textos imutáveis.

Até mesmo o livro não é isento dos estigmas do texto numérico que tanto inquieta Nicholas Carr. Um livro nunca está isolado, ele faz parte de um conjunto (romance, texto científico, poema…) no qual ele respeita ou transgride os cânones. O livro cita outros textos, explicitamente ou implicitamente: o que é a citação, senão o equivalente à nossa “embed” numérica? O que é uma grade e matérias, senão o equivalente à coluna de linha internas de nossos blogues? Um livro sempre nos conduz aos espaços fora dele, porque a leitura é, por essência, hipertextual.

Podemos tranquilizar Nicholas Carr? A internet não é uma doença auto-imune da nossa cultura. As máquinas de hoje têm como origem pensamentos de ontem. Elas não trazem novas formas de pensar, mas antecipam maneiras de pensar que já existiam.

O choque do digital

Nós somos testemunhas do conflito de duas tecnologias: a escrita e a digital, com essa complicação de que a digital é uma técnica nova. O digital não se beneficia do longo aprendizado da escrita e do papel.

Nós ainda temos que domesticar as matérias digitais para fazer delas matérias sobre as quais pensar. Esse trabalho está em curso nas nossas sociedades, e, evidentemente, ele provoca mudanças e questões que podemos mensurar pela intensidade do trabalho legislativo em torno da internet. Exigir que a internet forneça os mesmos serviços que a escrita é esquecer que foram necessários três séculos para que a escrita e a leitura se democratizassem suficientemente num saber de massa. Seria preciso também esquecer que isso não foi feito sem conflitos.

Nós estamos hoje sob os efeitos de choque que as técnicas digitais produzem. É preciso que nós não as subestimemos. O choque é profundo e brutal. Sem dúvidas, algumas formas desaparecerão, da mesma maneira que o texto impresso reduziu ao silêncio certas formas de pensamento que o antecederam.

Na memória do Ocidente, isso pode ser antigo, mas na África a chegada da escrita está ainda no horizonte das memórias. Para as civilizações africanas, a princípio o livro foi uma ferida, porque ele derrotou as formas e hierarquias da oralidade. Ele foi considerado, primeiramente, como o lugar da “arte de vencer sem ter a razão” (Cheikh Hamidou Kane); ele era um atalho para economizar nas escutas anteriormente lentas e profundas.

Na internet, nós somos todos africanos.

Yann Leroux

Artigo inicialmente publicado no “Psi et Geek”, blog de Yann Leroux.

Tradução: Taís Cardoso Barato, São Paulo, 18/07/2010

As vantagens da ignorância

julho 19, 2010

Por volta de 1997, Bernie Dodge me disse uma coisa que jamais esqueci: “odeio gente que sabe tudo, elas não aprendem nada”. O leitor já deve ter encontrado gente assim, principalmente em congressos. Depois de palestra de alguém muito criativo e que traz propostas originais, essa gente sabida costuma dizer: “o cara fala bem, mas no que disse não há qualquer novidade”.

Pessoas que vão para a sala de aula ou para o auditório convencidas de que nada a ser apresentado terá algum teor de coisa nova não aprendem. Pararam em algum lugar do caminho e acham que já chegaram ao final da viagem.

Essa segurança absoluta quanto ao saber tem dois desdobramentos sérios:

1. incapacidade para reconhecer idéias originais,

2. falta de senso de admiração por novos aspectos numa dada área de estudos.

O primeiro desdobramento resulta em equiparação de novas perpectivas a velhos conhecimentos, às vezes fossilizados. E isso é muito comum. É difícil abandonar velhas crenças. Daí a acomodação do novo em velhas caixas já etiquetadas. Ou, quando não conseguimos isso, simplesmente deixamos de integrar o novo à nossa estrutura de conhecimento. Temos grande capacidade de envelhecer ideias autenticamentge novas. Gardner observa que esse é um dos grandes desafios da educação. Provocar mudanças significativas é coisa rara. Em outras palavras: reconhecer algo autenticamente novo exige uma abertura que não é moeda corrente. Precisamos desenvolver tal capacidade. Caso contrário ficaremos com a acomodação, processo mais fácil, confortável e seguro.

O segundo desdobramento decorre do primeiro. A abertura para o novo exige um sentimento de busca de quem imagina que sempre há mais o que aprender. E mais que isso, imagina que o desconhecido é mais surpreendente, bonito e admirável que aquilo que já faz parte de nosso velho conhecimento.

As reflexões que faço aqui decorrem de descobertas recentes que fiz sobre movimentos importantes de educação que aconteceram no século XX. Eu achava que conhecia as experiências e autores que fizeram diferença de 1900 a nossos dias. Mas, como já revelei aqui, depois de listar para minhas alunas de pedagogia cerca de dez experiências relevantes de educação, fui conferir o acerto de minhas indicações. Sim, elas tinham algum acerto. Deixei de fora, porém, movimentos e autores que não podem ser esquecidos. E ontem, por acaso, acabei descobrindo mais um caso que merece destaque: o Black Mountain College.

Por causa de meu interesse pelas relações entre educação e trabalho, no sábado que passou, comecei a ler o capítulo Skilled de Thinking through Craft, um livro muito bonito sobre arte e educação. Logo após considerações sobre o aprender fazendo, o autor relata brevemente a história do Black Mountain College, um projeto de educação superior inspirado pelos princípios propostos por Dewey.

É possível que a história do Black Mountain College seja bem conhecida por alunos e professores da área de artes. Para mim é completa novidade. Confesso aqui minha ignorância no caso. E não considero minha ignorância um problema. Pelo contrário, ela é um ponto de partida para uma nova aprendizagem. Já comecei a levantar informações sobre o referido College. A história é muito bonita e ilumina entendimento sobre o processo de inovação em educação.

Para quem quiser começar a ver como era o Black Mountain College, vai aqui um belo vídeo sobre essa escola que infelizmente fechou suas portas em 1957.

Há um portal dessa experiência admirável de educação do século passado. Veja-a no link que segue:

Tese do André

julho 17, 2010

Nesta sexta, André, meu filho caçula defendeu tese de doutorado na Universidade de Wurzburg. Como qualquer pai babão, fiquei muito feliz. Afinal de contas meu herdeiro se doutorou num dos centros planetários mais importantes no campo da física.

Aproveito a oportunidade para cometer um exagero de pai coruja: publico aqui capa e abstract da tese do menino.

Julius-Maximilians-Universit¨at W¨urzburg
Fakult¨at f¨ur Physik und Astronomie
Nonequilibrium phase transitions and surface
growth
Andre Cardoso Barato
Betreuer: Prof. Dr. Haye Hinrichsen
Dissertation zur Erlangung des
naturwissenschaftlichen
Doktorgrades
der Julius-Maximilians-Universit¨at
W¨urzburg
W¨urzburg
2010

Abstract
This thesis is concerned with the statistical physics of various systems far
from thermal equilibrium, focusing on universal critical properties, scaling
laws and the role of fluctuations. To this end we study several models
which serve as paradigmatic examples, such as surface growth and
non-equilibrium wetting as well as phase transitions into absorbing states.
As a particular interesting example of a model with a non-conventional
scaling behavior, we study a simplified model for pulsed laser deposition by
rate equations and Monte Carlo simulations. We consider a set of
equations, where islands are assumed to be point-like, as well as an
improved one that takes the size of the islands into account. The first set of
equations is solved exactly but its predictive power is restricted to the first
few pulses. The improved set of equations is integrated numerically, is in
excellent agreement with simulations, and fully accounts for the crossover
from continuous to pulsed deposition. Moreover, we analyze the scaling of
the nucleation density and show numerical results indicating that a
previously observed logarithmic scaling does not apply.
In order to understand the impact of boundaries on critical phenomena, we
introduce particle models displaying a boundary-induced absorbing state
phase transition. These are one-dimensional systems consisting of a single
site (the boundary) where creation and annihilation of particles occur,
while particles move diffusively in the bulk. We study different versions of
these models and confirm that, except for one exactly solvable bosonic
variant exhibiting a discontinuous transition with trivial exponents, all the
others display a non-trivial behavior, with critical exponents differing from
their mean-field values, representing a universality class. We show that
these systems are related to a (0 + 1)-dimensional non-Markovian model,
meaning that in nonequilibrium a phase transition can take place even in
zero dimensions, if time long-range interactions are considered. We argue
that these models constitute the simplest universality class of phase
transition into an absorbing state, because the transition is induced by the
dynamics of a single site. Moreover, this universality class has a simple field
theory, corresponding to a zero dimensional limit of direct percolation with
L´evy flights in time.
Another boundary phenomena occurs if a nonequilibrium growing interface
is exposed to a substrate, in this case a nonequilibrium wetting transition
may take place. This transition can be studied through Langevin equations
or discrete growth models. In the first case, the Kardar-Parisi-Zhang
equation, which defines a very robust universality class for nonequilibrium
moving interfaces, is combined with a soft-wall potential. While in the
second, microscopic models, in the corresponding universality class, with
evaporation and deposition of particles in the presence of hard-wall are
studied. Equilibrium wetting is related to a particular case of the problem,
corresponding to the Edwards-Wilkinson equation with a potential in the
continuum approach or to the fulfillment of detailed balance in the
microscopic models. In this thesis we present the analytical and numerical
methods used to investigate the problem and the very rich behavior that is
observed with them.
The entropy production for a Markov process with a nonequilibrium
stationary state is expected to give a quantitative measure of the distance
form equilibrium. In the final chapter of this thesis, we consider a
Kardar-Parisi-Zhang interface and investigate how entropy production
varies with the interface velocity and its dependence on the interface slope,
which are quantities that characterize how far the stationary state of the
interface is away from equilibrium. We obtain results in agreement with the
idea that the entropy production gives a measure of the distance from
equilibrium. Moreover we use the same model to study fluctuation
relations. The fluctuation relation is a symmetry in the large deviation
function associated to the probability of the variation of entropy during a
fixed time interval. We argue that the entropy and height are similar
quantities within the model we consider and we calculate the Legendre
transform of the large deviation function associated to the height for small
systems. We observe that there is no fluctuation relation for the height,
nevertheless its large deviation function is still symmetric.

Leitura de Texto – Educação e Sociedade

julho 17, 2010

Hoje descobri que um outro programa que gravei para a Univesp está no ar. Trata-se de Leitura de Texto – Educação e Sociedade. Salvo engano, este foi o primeiro vídeo que gravei para a série.

Ao elaborar roteiro que iria orientar minha fala, tentei utilizar uma comunicação bem coloquial. Por isso evitei qualquer palavrório acadêmico. Fazer isso não é fácil. Tenho a impressão de que sempre se espera que façamos discursos “intelectuais”. Qualquer conversa que utilize um vocabulário muito comum será considerada pouco profunda.

Na tentativa de ser coloquial, acho que cometi certos deslizes em termos de elegância oratória. Minha fala tem repetições desnecessárias e certas construções de pouca beleza. Ao rever o vídeo, pensei: “eu podia ter evitado isso” ou ‘”ficaria muito melhor se eu …”. De certa forma, este foi o preço pago para que o programa tivesse uma cara de espontaneidade, pois decidimos não utilizar um texto pronto e o teleprompter para que eu construísse um discurso bem comportado e artificialmente mais elegante.

Águas passadas. O vídeo está aí. Foi uma oportunidade maravilhosa de aprendizagem. Aproveito a ocasião para agradecer as precisosas lições de “como fazer TV” da equipe de produção da Univesp.