Archive for setembro \30\UTC 2010

A alma das Webquests

setembro 30, 2010

Gostamos de coisas animadas. Esse gostar tem a ver com vida. Anima, ou seu equivalente grego psyche, significa sopro vital. Assim quando falamos em desâmino, estamos nos referindo a algo que perdeu ou está perdendo vitalidade. Quando falamos em ânimo, estamos nos referindo a algo que ganhou mais vida.

Originariamente, falamos de alma quando estamos nos referindo a seres vivos. Mas, por artes da metáfora, passamos a atribuir alma a coisas ou situações. Falamos de festas animadas. De desenho animado. Etc.

Em meu trabalho, sempre acho que devemos ter animação, em todos os sentidos. Não há coisa pior que gente (professor, aluno, diretor, coordenador, educador, pesquisador) desanimada. Isso me faz lembrar um proposta muito popular na França na década de 1970: l’animation pegagogique. Tal proposta sugeria diversas medidas que poderiam dar alma à educação.

Animados também devem ser os recursos educacionais que elaboramos. Por isso, ao receber convite da revista Quaderns Digitals para escrever sobre WebQuests, resolvi examinar a necessidade de alma em propostas contruídas de acordo com o modelo criado por Bernie Dodge. O resultado foi o texto El alma de las webquest, publicado num número monográfico da citada revista e posteriormente convertido em capítulo do livro Ordinadors a les aules (Editora Graó, 2010).

Como no momento meus alunos estão elaborando WebQuests, resolvi colocar versão do meu artigo em português aqui no Boteco. Interessados poderão encontrá-la em:

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Computadores na sala de aula

setembro 28, 2010

Recebi hoje notícia de que saiu finalmente versão espanhola de livro da Graó no qual há dois capítulos de minha autoria: El alma da las webquest e Webgincana: un uso estructurado de la web para la educación. Devo tal honra a meus amigos Carme Barba e Sebastià Capella, coordenadores da obra, que me convidaram para escrever sobre WebGincanas e solicitaram que um texto já publicado em Quaderns Digitals – El alma da las webquest – entrasse no livro.

A obra, cujo título em espanhol é Ordenadores en las aulas: La clave es la metodología, é um empreendimento coletivo do grupo Webquestcat. Todos os capítulos são escritos por participantes daquela comunidade. Vale dizer que, apesar de brasileiro, sou membro da comunidade desde sua criação. O outro membro não catalão do grupo é Bernie Dodge, criador do modelo WebQuest. Bernie, aliás, é quem prefacia o livro.

Em comunicação anterior sobre a versão catalã da mesma obra, frequentadores deste Boteco me perguntaram pela possível versão em espanhol. Aqui está a informação solicitada. Interessados poderão adquirir a obra diretamente na Graó via Web. Dá um pouco de trabalho pois todo o processo de compra é registrado em catalão. Mas, gente acostumada com compras na Amazon ou na Submarino pode tirar isso de letra. Se alguém achar a dificuldade insuperável, entre em contato comigo. Terei prazer em ajudar.

Segue aqui o link do citado livro:

Reformas educacionais

setembro 27, 2010

Acabo de ver, a partir de sugestão de @MarioAsselin, trailer de Waiting for Superman, o controverso documentário sobre reformas no sistema público de ensino nos EUA.

O filme de Davis Guggenheim vê com simpatia o movimento de reforma de cunho privatista conduzido por autocratas que se recusam a ouvir educadores experientes. O documentário reforça tendências de acusar professores pelo fracasso escolar, deixando de fora condições sociais desfavoráveis. Além disso, a obra de Guggenheim adota a mesma cantilena dos neoliberais contra os sindicatos de professores.

Uma das estrelas do filme é Michelle Rhee, superintendente do sistema escolar de Washington. Rhee, com seu estilo de executiva de multinacional, passou como um trator por cima de professores, pesquisadores, pais e sindicato dos docentes, implantando autocraticamente “sua” reforma na capital dos Estados Unidos. Em eleição recente, Adrian Fenty, prefeito que entregou para Michelle Rhee o destino da educação pública em Washington, perdeu (feio) as eleições. Rhee e Fenty estão atribuindo a derrota ao sindicato dos professores, não à insatisfação dos eleitores pobres e negros com o que fizeram com a educação na cidade.

Não sei se o Gilberto Dimenstein já comentou Waiting for Superman. Se o fez ou fizer, certamente vai elogiar a obra, pois costuma defender as reformas de caráter privatista que invadiram o palco da educação no Grande Irmão do Norte.

Para quem quiser mais se informar sobre o documentário e a situação da reforma educacional americana, aqui vão algumas sugestões de leitura:

Para uma visão mais completa e profunda das reformas privatistas na educação americana, a obra fundamental é Death and Life of  The Great American School System, de Diane Ravitch.

Nova WebQuest

setembro 22, 2010

Acabo de publicar uma nova WebQuest no Zunal. É trabalho sobre ética, buscando sintetizar algumas idéias que já foram repassadas para meus alunos dos primeiros anos de Comunicação Social. Testes de uso começam esta semana.

Para os interessados, segue o endereço da WebQuest Fundamentos da Ética:

www.zunal.com/webquest.php?w=69623

Vida, muita vida

setembro 15, 2010

Faz algum tempo que publiquei aqui um post com o título Velho! Nele falei de um caso pessoal de atendimento na recepçao de um edifício. Sugeri que velhos são vistos mas não enxergados. Relacionei minhas conclusões com educação e com um futuro próximo com muita gente madura.

Vejo agora um vídeo com música de Nathalie Merchant. O tema é um amor antigo que se vai. Lembrei-me do drama de um amigo, Steen Larsen. Depois que ele perdeu Christen, um amor de quase meio século, não conseguia mais ver sentido na vida. A letra da música parece ser uma crônica da dor de Steen. Espero que ele tenha mudado um pouco e esteja se dedicando com entusiasmo aos netos.

Para quem não sabe, Steen Larsen é um dos maiores educadores da Dinamarca e tem textos indispensáveis sobre tecnologia educacional. Tem também um belíssimo texto sobre Paulo Freire. Esse texto de Larsen está aqui, em páginas. Veja-o em  Pedagogia da Esperança: Uma conversa com Paulo Freire.

Este é um post com textos esparsos, do tipo uma coisa puxa a outra. Mas, preciso voltar à minha intenção original: divulgar mais uma performance imperdível de Nathalie Merchant. A razão pela qual quero fazer isso está ligada a uma de minhas insistências com os alunos: mostrar sentimentos por meio de imagens. Aliás, como estou vendo em Echo Objects: The Cognitive Work of Images, as imagens não retratam apenas sentimentos. Elas são base de muitos de nossos conceitos mais importantes. Acho que quem postou o vídeo no Youtube sabe disso muito bem.

Segue letra da música:

You were the love
for certain of my life
you were simply my beloved wife
I don’t know for certain
how I’ll live my life
now alone without my beloved wife
my beloved wife

I can’t believe
I’ve lost the very best of me

you were the love
for certain of my life
you were simply my beloved wife
I don’t know for certain
how I’ll live my life
now alone without my beloved wife
my beloved wife

I can’t believe
I’ve lost the very best of me

you were the love
for certain of my life
for 50 years simply my beloved wife
with another love I’ll never lie again
it’s you I can’t deny
it’s you I can’t defy
a depth so deep
into my grief
without my beloved soul
I renounce my life
as my right
now alone without my beloved wife
my beloved wife

my beloved wife
my love is gone she suffered long
in hours of pain
my love is gone
now my suffering begins
my love is gone
would it be wrong if I should
surrender all the joy in my life
go with her tonight?

my love is gone she suffered long
in hours of pain
my love is gone
would it be wrong if I should
just turn my face away from the light
go with her tonight?

Motherland cantada numa escola para cegos

setembro 15, 2010

Nathalie Merchant canta em show na Perkins School, instituição educacional para cegos com uma longa tradição nos Estados Unidos. Nathalie, além de ser uma cantora fantástica, engaja-se em causas sociais. Educação é uma de suas praias.

Na canção, Motherland, a cantora é acompanhada por um trio de músicos da Perkins School. Repare na belíssima voz do menino que com ela faz dueto.

Segue letra da música para quem quiser treinar um pouco de listening:

Where in the hell can you go far from the things that you know
Far from the sprawl of concrete that keeps crawling its way about 1,000 miles a day?
Take one last look behind, commit this to memory and mind.
Don’t miss this wasteland, this terrible place.
When you leave keep your heart off your sleeve.

Motherland cradle me, close my eyes, lullaby me to sleep.
Keep me safe, lie with me, stay beside me don’t go.
Don’t you go.
Oh, my five & dime queen tell me what have you seen?
The lust and the avarice, the bottomless, cavernous greed, is that what you see?

Motherland cradle me, close my eyes, lullaby me to sleep.
Keep me safe, lie with me, stay beside me don’t go.

It’s your happiness I want most of all and for that I’d do anything at all, oh mercy me!
If you want the best of it or the most of all, if there’s anything I can do at all.

Now come on shot gun bride what makes me envy your life?
Faceless, nameless, innocent, blameless and free, what’s that like to be?

Motherland cradle me, close my eyes, lullaby me to sleep.
Keep me safe, lie with me, stay beside me don’t go.
Don’t go.

Educação e autonomia

setembro 14, 2010

Nos velhos guardados encontrei outra coisa interessante, uma lista de ações para matar aprendizagem com autonomia. Fiz tal lista para uma dinâmica numa conversa que tive com professores do Senac de Taubaté. Creio que o ano da conversa foi 1991 ou 1992.

O exercício era o de converter a receita para uma proposta que promovesse autonomia. Toda a discussão aconteceu depois de uma exposição sobre novas tecnologia e moldura. Em tal exposição eu mostrava uma série de transparências para ilustrar a história de restauro de uma obra danificada num museu italiano. As sucessivas transparências mostravam mudanças de moldura, cada vez mais elaboradas, cada vez mais chics. Mas a obra continuava danificada. Continuava, não. Na verdade a cada nova moldura o estado da obra se deteriorava. A analogia era um começo para conversas sobre mudança em educação.

Voltemos ao achado, o exercício. A fundamentação da proposta é a de que apresentações de um quadro negativo serve para repensarmos nossos próprios erros numa boa. Afinal estamos corrigindo algo que  não nos diz respeito… O que fazemos num caso assim é colaborar para que todos saibam qual é o bom caminho…

RECEITA PARA MATAR APRENDIZAGEM COM AUTONOMIA

  • Venda certezas.
  • Rotule os alunos.
  • Elimine curiosidade.
  • Penalize erros.
  • Crie dependência.
  • Fortaleça corporações.
  • Acredite em dons.
  • Simplifique a realidade.
  • Converta saber em mercadoria.
  • Promova ignorância.
  • Banalize conteúdos.
  • Elimine cooperação.
  • Exija disciplina.
  • Dê matéria.
  • Encurte o tempo.
  • Transfira tecnologia
  • Seja moldureiro.

BARATO, Jarbas N. (em) Tecnologia e Reformas Educacionais. Taubaté, circa 1991.

Ciência, Tecnologia e Mudança

setembro 14, 2010

Estou a falar de velhos guardados. Numa das minhas pastas encontrei notas que fiz no começo de 1990. No post anterior, publiquei uma delas, notas de uma fala do meu amigo Mário Sérgio Cortella. Mas há muito mais.

Há um livro que sempre recomeço a ler. O texto é exigente. Trata-se de Knowledge and Power, de Joseph Rouse. Trata-se de uma ensaio filosófico cujo fundo são as idéias de Heidegger sobre ciência e tecnologia. Não é um prato leve. É um prato saboroso, mas que exige grande preparo para boa digestão. Qualquer dia destes volto a ele e talvez chegue até o fim.

Por volta de 1991 li alguns capítulos da obra de Rouse. Ao ler fiz notas. Uma delas, reflexão sobre impactos da ciência em nossas vidas é a que segue, em tradução que fiz vinte anos atrás.

Indubitavelemente, muitas das mais profundas diferenças entre o mundo que habitamos e o mundo de apenas duas centenas de anos atrás podem aser atribuídas aos resultados intelectuais e práticos das ciências naturais. No âmbito da universidade, as atenções talvez se voltem mais especificamente para as mudanças intelectuais provocadas pelas ciências. Nós não apenas sabemos mais sobre o mundo natural. Muitos de nossos ramos centrais de conhecimento sequer existiam em formas reconhecíveis até a metade do século XVIII. Entre esses ramos de conhecimento podemos destacar: o eletromagnetismo, a termodinâmica, a evolução, a genética, a geologia, virtualmente toda a química moderna, e tudo o que tem a ver com o comportamento das moléculas, átomos e núcleos atômicos. Mas, as mudanças físicas e sociais provocadas por esse desenvolvimento foram ainda mais impactantes. A face do globo foi transformada fisicamente pelo desenvolvimento das inovações técnicas vinculadas às ciências naturais. Nossos padrões de vida e interações mais comuns, nossas esperanças, nossos medos, as coisas com as quais nos relacionamos, os problemas que enfrentamos e as metas que perseguimos foram ainda mais afetadas. Vivemos num mundo que foi substancialmente reconstruído por causa do que aconteceu num tempo muito curto no interior dos laboratórios científicos.

ROUSE, Joseph. Knowledge and Power. Ithaca. Cornell University Press, 1987.

Educação e tecnologia segundo Cortella

setembro 14, 2010

Tenho muitos guardados de velhos tempos. Hoje encontrei um deles, notas que fiz de palestra do Mário Sérgio Cortella no Centro de Tecnologia Educacional do Senac de São Paulo, unidade que eu gerenciava nos inícios dos anos de 1990.

O material encontrado tem a marca do meu falecido MacIntosh. No final das notas há o registro:

  • CORTELLA, Mário Sérgio. Mudança Tecnológica e Trabalho: Uma Questão Educacional?

O texto é uma transcrição de fala, por isso, aqui e ali, serão encontradas repetições ou pequenos erros próprios da comunicação oral

Mas, vamos ao que interessa, os trechos de uma fala do Cortella em 1992.

Vou começar relatando uma história contada por um professor há alguns anos atrás no Rio Grande do Sul sobre o tema.

Imaginem que um monge medieval, da França do século XIII, tenha tropeçado, ao descer para a adega do convento. Como era um lugar frio, ele entrou em estado de morte aparente, de catalepsia. Dado como morto,  foi então guardado no esquife e, em função do clima, passou séculos intacto, dentro do caixão. No século XX, abriram o caixão e, ao perceberem que o corpo estava intacto, levaram-no a vários conventos que a ordem mantinha mundo afora.

Foi trazido também para São Paulo e ficou exposto à visitação dos monges num convento do centro da cidade.

Certo dia, num sábado, saiu do esquife, deu dois passos e saiu no Largo São Bento. Entrou em desepero porque tudo lhe era absolutamente estranho: casas imensas, um barulho insuportável, máquinas de metal que passavam com seres humanos aprisionados dentro, muita fumaça e uma multidão que andava de lá para cá. Num dado momento, entrou por uma porta e foi para uma sala em que, finalmente, se sentiu bem. Tratava-se de uma sala de aula, lugar absolutamente idêntico ao que ele conhecera no século XIII.

No fim do século XX continuamos sentados em bancos de madeira, escrevendo numa pedra com outra pedra, do mesmo jeito que eles nos anos de 1200.

(…) Por isto, a escola básica tem de preparar para a mudança: afinal de contas a existência humana, a vida humana, é uma mudança. A tarefa fundamental da escolarização, além do seu papel chave na formação para a cidadania e de atender um direito social, é formar as pessoas para existirem de modo mais crítico, mais criativo, mais solidário. Isso exige não só, mas também, conhecimento científico …

(…) O que a escola precisa é ter clareza em relação à sua tarefa, ao seu papel, e saber mesclar duas coisas básicas: educação e formação para o mundo do trabalho. No nosso país, quando se fala em tecnologia, fala-se muito em know-how e muito pouco em savoire faire, seu correspondente francês, que tem um molho mais saboroso. Know-how é um pouco mais técnico e savoire faire dá mais idéia de criatividade. E é disso que precisamos, pois somos vítimas da “síndrome do besouro”. Do ponto de vista da física, principalmente da aerodinâmica, o besouro é um animal que, por incrível que pareça, não poderia voar. Mas ele voa.Provavelmente porque ele não sabe (não estudou) que não tem condições para voar. Temos a síndrome do besouro, principalmente no interior do espaço escolar e de formação, onde as pessoas são impedidas de desenvolver sua criatividade.

A professora ou professor convidam: “”vamo criar, vocês podem pintar o que quiserem!” Mas entregam um desenho  acabado, que muitas vezes já vem impresso, pronto para ser pintado.

Criam desde a infância modelos de comportamento que são fatais para a educação e para a vida social. Servirão muito para a fábrica, para a organização de filas… Meninos e meninas, desde os quatro anos já fazem fila para entrarem na sala de aula. Ora, a função de uma fila é ordenar. (…) A escola não é criativa, não aumenta a produtividade do mundo do trabalho; o que ela faz é aumentar a lucratividade do capital na medida em que molda seres humanos acríticos.

(…) Para concluir. O papel da escola não pode deixar nós educadores à margem da questão tecnológica. Muitas vezes argumenta-se que não dá para entrar na área da tecnologia porque a escola ainda é pobre, porque ainda falta livro, falta caderno etc. Mas, isso é um mito. O nosso trabalho, a nossa atividade de educadores é atuar na formação da população na maior escala possível.

Ao invés de um Piaget, de uma Emília Ferrrero, de um Paulo Freire,  de  um Darcy Ribeiro, escolhemos como patrono da educação Cristóvão Colombo, que representa a questão tecnológica para nós, pois quando  saiu não sabia onde ira chegar, e quando chegou não sabia onde estava …

TED: show de Nathalie Merchant

setembro 14, 2010

A Amazon Books, dado o meu padrão de compras no setor de música, recomendou uma cantora para mim desconhecida: Natalie Merchant. Fiz umas buscas na Internet e gostei dos resultados. A Amazon acertou na indicação.

Entre as coisas que descobri, há um show da cantora em evento do TED (Technology, Entertainment and Design) 2010. A diva canta poemas quase esquecidos de grandes autores do século XIX. Músicas bonitas, de muita sensibilidade, surpreendentes. Belíssima articulação entre arte e tecnologia.

Para ter legenda do show em português, basta clicar na chamada View subtitles (em vermelho) e escolher “Portuguese (Brazil)”.