077.Informação não é conhecimento

escritosO texto que trago para cá retoma comunicação que fiz num dos Educando, um evento educacional que discutia questões de tecnologia educacional comme il faut. Pena que o Educando acabou e foi substituído por um empreendimento comercial chamado Educar…

Como anoto no final, a matéria que coloco agora neste Boteco já foi publicada como capítulo de livro em 2002. Reli o escrito e julguei que o mesmo continua muito atual.

 

EDUCAÇÃO: INFORMAÇÃO OU CONHECIMENTO?

JARBAS N. BARATO

 

Ao participar da mesa redonda “Educação: Informação ou Conhecimento?”, no evento Educando da Comdex/Sucesu-SP South America 95’, incluí em meu roteiro de apresentação os seguintes temas:

. Os deuses serão informatas

. A fé que vem do novo Olimpo

. Novas filosofias da Sociedade da Informação

Nos dois primeiros tópicos utilizei, propositadamente, expressões religiosas para designar uma nova categoria de seres humanos, os informatas. É quase certo que os deuses não eram astronautas, mas, ao que tudo indica, serão informatas. E já faz algum tempo que estes seres sagrados construíram um novo Olimpo, morada divina  inacessível aos mortais comuns. No princípio, o Olimpo era tangível e conhecido como CPD – Centro de Processamento de Dados. Hoje, porém, os sacerdotes da informática não precisam mais de um templo; assim como os teólogos mais sofisticados das velhas religiões, os informatas descobriram que o melhor Olimpo é virtual, ocupando apenas mentes e corações humanos.

A fé que vem do novo Olimpo produziu, para consumo público, as filosofias da Sociedade da Informação. Tais filosofias invadiram todos os domínios da vida, incluindo a educação.

A esta altura, quem não me conhece  deve estar pensando que sou um inimigo feroz do computador na educação. Esclareço que sou idealizador do Programa Informática e Educação do SENAC de São Paulo e que venho participando de diversos projetos de produção de softwares educacionais. Acho, inclusive, que os computadores precisam ser extensivamente utilizados nas escolas. Não aceito o ponto de vista de que o uso de computadores em educação deva esperar soluções para os problemas da falta de giz, salários aviltantes dos professores e higienização dos banheiros escolares.

Espero ter criado, com esta introdução, o mesmo clima de impacto que procurei imprimir à minha comunicação no Educando 95’. Não quero, nem sei se consigo, escrever um artigo acadêmico. Pretendo apenas sugerir, num tom de conversa, algumas pistas para a reflexão.

OS DEUSES SERÃO INFORMATAS

Muitos de vocês lembram-se do livro “Eram os Deuses Astronautas?” e de toda uma literatura que procura explicar a inteligência na terra como fruto da intervenção de seres vindos de outros mundos. Estas idéias são muito atraentes, sobretudo como ponto de partida para estórias de ficção científica desumanizante, anulando história e evolução de nosso planeta. Parece que já nos livramos desta onda, os deuses agora são informatas.

Não vou esmiuçar o processo de divinização dos informatas. Vou apenas propor uma pista de reflexão a partir de duas citações. Vamos à primeira:

Todo mundo quer ser rico e sábio. Porém nossa saúde falha antes que alcancemos riqueza e sabedoria. Para aumentar nosso tempo de vida e melhorar nossas mentes, precisamos mudar nossos corpos e cérebros. Para tanto, temos de considerar como a tradicional evolução darwiniana fez com que chegássemos até aqui. Em seguida precisamos imaginar como será possível substituir parte de nossos corpos para que nos tornemos saudáveis. Logo depois precisamos inventar estratégias para aumentar nossos cérebros e ganhar mais sabedoria. Talvez, utilizando nanotecnologia, venhamos a substituir todas as partes de nossos cérebros. Uma vez livres dos limites da biologia, poderemos decidir a duração de nossas vidas – com opção para a imortalidade – e escolher, de um vasto repertório, capacidades até agora não imaginadas. (Minsky, p. 87)

Estas opiniões de Minsky, um dos mais respeitados especialistas em Inteligência Artificial, soam como um pesadelo. Sonhos de imortalidade, até mesmo em mundos de faz de conta, são uma forma de insanidade. É assim, por exemplo, que o romancista David Wingrove (1992) pinta alguns de seus personagens que recorrem à ciência tentando viver para sempre. Tal pretensão, mesmo que factível num futuro remoto, nega qualquer sentido da História e da vida em  Sociedade.

O trecho atrás citado merece uma análise detalhada desde a frase de abertura – “todo mundo que ser rico e sábio” – até a conclusão sobre o poder de escolher uma vida eterna. Mas eu não disponho de tempo e espaço para isto.

Penso que vocês, assim como eu, ficaram impressionados com a ausência de qualquer preocupação ética no texto de Minsky. A tese oculta é a de que “é permitido tudo o que for cientificamente possível”. Ou, dito de outra maneira, não há lugar para a ética nos campos da ciência.

Analisar extensivamente o texto de Minsky, como já disse, não é minha intenção aqui. Quero apenas mostrar uma evidência de que os informatas estão divinizados. Sabemos que os deuses gregos, moradores do Olimpo, não tinham qualquer obrigação ética e podiam entregar-se a caprichos inexplicáveis. O autor comprova a minha hipótese de duas maneiras: fala como um deus caprichoso, prometendo vida eterna e riqueza para os eleitos; ignora o humano e sugere que uma nova espécie de semideuses  – circuitos eletrônicos planejados pelas divindades do novo Olimpo – é o ser mais avançado na cadeia da evolução. Tudo isto pode parecer mera curiosidade sobre opiniões bizarras desta gente que lida com computadores. Não é. Isto é um exemplo de uma tendência que cresce continuamente e invade o nosso cotidiano.

Antes de seguir em frente, devo esclarecer um ponto. Emprego o tempo informata para designar um grupo de sacerdotes da informação que não inclui, necessariamente, todos os especialistas das ciências da computação. Cientistas da computação como Weizenbaum, Winograd ou Kay manifestam uma preocupação ética profunda. Com este esclarecimento, fico à vontade para citar outro informata:

Nós agora produzimos informação em massa da mesma forma que produzíamos carros em linhas de montagem. Na sociedade de informação, sistematizamos a produção do conhecimento e amplificamos o poder cerebral. Para usar uma metáfora industrial, produzimos agora conhecimento em massa e este conhecimento é a força motora da nossa economia. A nova fonte do poder não é o dinheiro na mão de poucos mas a informação na mão de muitos. Diferentemente de outras forças no universo, o conhecimento não depende da lei da conservação: ele pode ser criado, ele pode ser destruído. E, o mais importante, ele é sinergético, ou seja, o todo normalmente é maior que a soma de suas partes. Como observa Peter Drucker: (…) o conhecimento já é a indústria mais importante… (Naisbitt, p. 16-17)

Naisbitt não é um especialista em computadores. Provavelmente entende tanto de inteligência artificial quanto eu e vocês. Ele também não é um analista de sistemas. Não é sequer um consultor de usos de computadores em qualquer ramo de atividade. Mas é um informata e representa o ramo mais influente desta nova espécie. Ele é um guru do culto à informação.

O texto de Naisbitt reafirma o bordão que já ouvimos “ad nauseam”: “vivemos na sociedade da informação”. A notícia desta “descoberta” invadiu o discurso dos teóricos em administração de empresas, mas ela não tem mais aquela elegância que podemos encontrar na obra do inventor da “aldeia global”, Marshall Macluhan. Muito menos tem ela a profundidade da análise histórica dos novos meios de comunicação feita por Daniel Boorstin em The Image em 1961. Quase sempre, o rótulo “sociedade de informação” é empregado como cortina de fumaça escondendo as novas estratégias que o capital vem utilizando para exercer maior domínio sobre o trabalho.

Volto aos informatas e ao texto de Naisbitt. O aspecto mais interessante do trecho atrás citado é uma passagem sutil de informação para conhecimento como se estes dois conceitos fossem equivalentes. Mais de uma vez no texto, o autor faz afirmações sobre informação e, em seguida, tira conclusões sobre a produção do conhecimento.

O entendimento de que os “produtos informáticos” são conhecimento é visto por muita gente como uma boa nova para a educação. Mal, tal tendência, conforme observa Larsen (1988) e Kay (1991) apenas reforça a tradicional visão de uma educação bancária. Convém observar que os novos teóricos da informação acreditam que o conhecimento pode ser concretamente entesourado em cofres de segurança e, se for o caso, vendido a varejo de acordo com as “demandas de mercado”.

ALGUNS DOGMAS DO NOVO OLIMPO

Na seção anterior indiquei algumas tendências da Sociedade de Informação utilizando duas citações, uma de Minsky, outra de Naisbitt. Acho, porém, que não fui muito explícito quanto aos dogmas propagados pelos informatas. Por esta razão, vou elencar e comentar aqui certos princípios característicos da nova fé. Tais princípios, basicamente, já foram apontados por Roszak quando este afirma que:

…(a fé dos informatas) baseia-se num pressuposto radical: o pensamento humano, mesmo em seus níveis mais intricados e sutis, é um tipo de processamento e informação; assim, quanto mais dados estiverem disponíveis e quanto mais rápido o processamento melhor (Roszak,       p. 228).

Acho que a observação de Theodore Roszak pode ser traduzida nos seguintes tópicos:

  • Informação e conhecimento são equivalentes
  • Sistemas de informação são próteses mentais
  • Velocidade da produção é critério de validade
  • Mais é melhor (o princípio do porco é soberano)
  • Conhecimento é mercadoria

O ponto central do credo dos informatas  é a convicção de que informação é conhecimento. As observações de Naisbitt, atrás citadas, deixam isto muito claro. Convém observar que isto não é novo. A escrita e, sobretudo, a imprensa promoveram esta perspectiva. Assim, já estávamos preparados para aceitar este dogma dos informatas. Os modelos educacionais predominantes hoje em dia, cujo desenho básico remonta a Comenius no século XVI (época em que a imprensa começa a conquistar o mercado), equiparam informação a conhecimento. Apesar do alerta de educadores como Freinet e Freire, o transmissivismo continua a ser a tendência hegemônica em educação. Para clarear este ponto recorro a uma observação de Anderson:

Predomina, nas escolas, uma visão ingênua que pressupõe que os efeitos da experiência podem ser considerados como conhecimento, que o conhecimento é consciente, e que o conhecimento pode ser traduzido em palavras. Simetricamente, as palavras podem ser traduzidas em conhecimento e assim as pessoas podem aprender, ou seja, podem adquirir conhecimento por meio de instruções verbais. Por razões importantes na história cultural do Ocidente e importantes para sustentar uma sociedade tecnológica, esta visão ingênua está embutida no texto escrito. Supõe-se que o texto é complemente transparente, mantém um significado fixo em qualquer contexto e permanece autônomo sem necessidade de intérpretes especiais ou, até mesmo, de uma referência interpretativa (Anderson, p. 423).

Vou repetir a observação final de Anderson: (supõe-se que) o texto é autônomo sem necessidade de intérpretes especiais ou, até mesmo, de uma referência interpretativa. Não encontro melhor forma que esta para mostrar como informação e conhecimento são colocados num mesmo saco. Esta equiparação começou há muito tempo e aparece continuamente nos livros de didática em expressões tais como “adquirir conhecimentos” e “transmitir conhecimentos e habilidades” (ver com estes olhos, por exemplo, Libâneo, 1990). Por isto a equivalência entre informação e conhecimento, proposta pelos informatas é aceita tranquilamente.

Corremos o risco, como afirma Daniel Boorstin (citado por Larsen, 1988) de termos gerações cada vez melhor informadas, mas sem nenhum conhecimento. Acho que esta perspectiva é tanto decorrência de uma educação cuja meta é “encher depósitos” como da orientação de que “o importante é saber manipular informações”. No primeiro caso teremos papagaios que falam de coisas que não sabem. No segundo, “consumidores” que desconhecem o conteúdo dos produtos oferecidos, embora possam classificar rótulos.

Como meu propósito aqui é apenas o de abrir pistas para a reflexão, não vou me extender muito mais sobre a questão informação/conhecimento. Em outra parte (Barato, 1994) sugiro as seguintes linhas de encaminhamento para a questão:

Informação pode ser definida como “forma de comunicação do conhecimento” ou  “forma de mediação dos conhecimentos socialmente compartilhados” (Barato,1988). Ela é, portanto, uma representação externa do saber, constituída por meios (som, imagens, gestos, etc.) aos quais atribuímos significado. O conhecimento, por outro lado, é representação interna (subjetiva) do saber elaborado pelos seres humanos. A estas duas categorias, é preciso acrescentar o desempenho ou ação humana ( a interação entre sujeito conhecedor e o contexto de aplicação do conhecimento) para entendermos o saber desde uma visão interativa na direção proposta por Popper & Eccles (1977). Esquematicamente, tal visão pode ser assim representada:

saber = informação«conhecimento«desempenho. Este interacionismo mostra que a educação não é redutível a ensino (transferência de informações). O saber, além de acesso a informações, exige a construção de representações internas (conhecimento) e uma prática (desempenho) que molda continuamente o conhecimento (Barato, p. 47).

Volto aos outros tópicos que listei no começo desta seção. Nos anos sessenta era comum a expressão “cérebros eletrônicos” para designar os computadores. Hoje tal expressão desapareceu do cenário. À primeira vista, parece que redescobrimos que os computadores são apenas um tipo especial de máquinas. Esta impressão, porém, não é verdadeira. A expressão “cérebros eletrônicos desapareceu”  porque a tendência agora é pensar que os cérebros humanos são “computadores orgânicos”. Desta forma, a ideia de que os sistemas de informação são próteses mentais limita consideravelmente o significado do que é conhecimento.

Outro dogma é o da velocidade. Mais rápido é indicador de validade. Mais uma vez, é preciso notar que esta ideia dos informatas não nasceu com a recente ciência da computação. Ela tem raízes mais antigas e começa a estruturar-se já na segunda metade do século passado com as novas facilidades de comunicação como o telégrafo e o rádio. Além disto, este dogma está presente nos conceitos de inteligência que  foram desenvolvidos desde paradigmas quantitativos. Mas, como observar Sternberg (1987), nem sempre o mais rápido é uma solução válida e inteligente (sábia). A elaboração de alguns saberes tem de ser necessariamente um processo de lenta maturação.

Joseph Weizenbaum (1978), um dos grandes cientistas da computação ,  mostra que os informatas defendem o princípio do porco – “mais é melhor”. A imensa capacidade de armazenar registros que os meios eletrônicos possuem facilitou, entre outras coisas, a introdução de mecanismos de controle muito eficientes na sociedade. Tanto  controle, nos níveis coletivos e individuais, só é melhor para quem exerce poder. Além disto, a acumulação de grandes quantidades de informações (muitas delas irrelevantes e inúteis) não é condição necessária para elaboração do saber. Ainda acho que gênios como Aristóteles e Santo Agostinho, cujas bibliotecas pessoais certamente ficavam abaixo dos mil volumes, não começarão a desabrochar aos milhares em nossa época por causa da formidável massa de informação disponível.

Finalmente chego ao último dogma listado no começo desta seção: “conhecimento é mercadoria”. Penso que, a esta altura, já não é mais preciso mostrar porque este dogma é falso. Acreditar que conhecimento pode ser comprado e vendido é uma forma sutil (e cruel) de perpetuar a ignorância.

NOVAS FILOSOFIAS DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO

Em minha comunicação no Educando 95’ apresentei os seguintes exemplos das novas filosofias da sociedade da informação:

  • É VERDADE, DEU NO JORNAL

     – critério de verdade é registro

  • TRABALHADOR INFORMADO NÃO FICA DESEMPREGADO

     – as vítimas são culpadas

     – esperteza é competência maior

  • PENSAR É PROCESSAR INFORMAÇÕES

     – educação sem conteúdo

     – imperialismo das lógicas formais

  • SÓ O PÉ DA CINDERELA MERECE SAPATO DE CRISTAL

     – são armazenados apenas os “artigos” compatíveis com os armazéns

     – “artigos incompatíveis” não são informação 

Acho que os exemplos são muito claros. A crença popular de que algo é verdadeiro porque foi impresso num jornal é apenas a manifestação mais evidente de que o registro (em qualquer mídia) significa verdade. Os desdobramentos desta “filosofia”  são preocupantes. Assim, por exemplo, não temos nenhuma chance de convencer nossos filhos de que certas coisas que frequentam livros didáticos são erros grosseiros, preconceitos perigosos ou mera opinião.

O MOBRAL – lembram-se dele? – tinha um lema informático para o seu programa de orientação profissional: “trabalhador informado não fica desempregado”.  Entre outras coisas, tal lema é cruel pois ele sugere que o desemprego é culpa exclusiva da vítima. Além disto, numa época de desqualificação crescente, elege a esperteza como competência maior.

O terceiro exemplo – “pensar é processar informação – desqualifica o saber humano, não deixando lugar para a construção do conhecimento e para a criatividade. Ele sugere uma educação em que os conteúdos não teriam qualquer relevância social, mas seriam apenas matéria para exercitar  “processos lógicos”. Não preciso dizer para onde este modo de pensar pode nos levar.

Chego finalmente à síndrome de Cinderela – “só o pé da Cinderela merece sapato de cristal”. O que muitas pessoas não percebem é que os meios, dadas as suas características próprias, filtram e transformam conteúdos. O texto dispensa muita coisa que cabe na fala. A TV expulsa do roteiro qualquer literatura. O computador, por fim, só aceita o que é programável. Não há nada de errado com os limites e possibilidades de expressão dos meios. O grande problema, porém, é negar o significado daquilo que não cabe nas mídias hegemônicas.

AS CONSEQÜÊNCIAS

Da mesma forma que na seção anterior, vou recuperar o roteiro que utilizei no Educando 95’ para destacar algumas conseqüências das novas filosofias da sociedade de informação. Quero chamar a atenção para as seguintes situações:

  • O SNI TUDO SABE

     – a Força está com a comunidade de informação

     – o registro é prova de culpa (de verdade)

  • DESPERDÍCIO É SABEDORIA

     – novo é certo; velho é errado

     – a história acabou

     – fome insaciável por novidade

  • CADA VEZ MAIS A REALIDADE PROCESSADA (INFORMAÇÃO) OCUPA O LUGAR DA REALIDADE VIVIDA

     – deixamos de aprender fazendo

     – abandonamos o concreto pelo abscreto

     – perdemos autenticidade

  • AS MÁQUINAS DE CONSUMIR INFORMAÇÃO, DADA A ESCASSEZ DE MATÉRIA PRIMA, COMEÇAM A PRODUZIR PSEUDO-INFORMAÇÃO

     – e entre os usuários, ninguém sabe mais que moeda é falsa ou verdadeira

Volto a um ponto já comentado: na sociedade da informação, o registro é prova de verdade (ou de culpa, se colocarmos a questão no âmbito de sistemas de segurança como o velho SNI – Sistema Nacional de Informação). Quem merecia a atenção do SNI e ganhava um registro era necessariamente culpado. Da mesma forma, o cidadão que,  por engano, for registrado como mau pagador no Serviço de Proteção ao Crédito tem de provar que é um ente financeiro confiável. Um exemplo notável desta relação registro/verdade ocorreu com o educador americano John Dewey (Beineke, 1987). Apesar do engajamento de Dewey contra a União Soviética por causa do assassinato de Trotsky, o FBI continuava a registrar observações que, no mínimo, apresentavam o grande pensador americano como um simpatizante do regime de Moscou. Pior ainda, sistemas educacionais dirigiam-se a o FBI, para saber se poderiam citar Dewey em seus projetos pedagógicos!

A estratégia do desperdício é uma característica evidente do capitalismo (reparem, por exemplo, que as embalagens de remédios dificilmente acomodam quantidades receitadas pelos médicos; assim, quase sempre, temos “sobras” de antibióticos em casa ou enriquecemos o lixo com fármacos valiosos). Na sociedade da informação, esta estratégia foi aperfeiçoada com o culto à novidade. Velho é necessariamente ruim. Novo é necessariamente bom. O pior aspecto desta conseqüência é a negação da história. Há uma obsessão pelo futuro que dispensa qualquer entendimento do passado. Dizer que nos últimos vinte ou cinqüenta anos (as referências numéricas variam) produzimos mais conhecimento que em todo o período anterior da vida humana é uma das manias dos informatas. Além da confusão entre informação e conhecimento, este modo de ver tem outros problemas. Não se diz, nestes casos, que boa parte de informação (não necessariamente conhecimento) produzida é material descartável e sem valor de uso. Não fica dito também que algumas informações “novas” são resultados de uma elaboração histórica, não um milagre de um aqui e agora, produzido pelos novos meios de comunicação.

Os novos meios de comunicação colocam no ar imagens maquiadas da realidade. Neste sentido, mais vale a cópia que o original, pois:

O original, de certa forma, perde originalidade. A cópia é muito mais familiar. Na verdade é a cópia que é realmente familiar. Ela muitas vezes nos dá mais prazer. Na exposição de Gauguin no Instituto de Arte de Chicago em 1959, os visitantes reclamavam que as pinturas originais eram menos brilhantes que as reproduções ( Boorstin, p. 126-7).

As possibilidades de produção de imagens cada vez mais agradáveis no cinema, na TV, nas revistas, nos computadores coloca desafios sérios para a educação. Aparentemente, a riqueza das imagens disponíveis é um valioso meio para facilitar a aprendizagem. Mas é preciso reparar  que a imagem é um substituto do mundo com  o qual o aprendiz deve se defrontar. Assim, a riqueza de imagens e a facilitação de acesso a informações, ilustradas por meio de multimídia, são elementos abscretos (abstrações disfarçadas de concreto). Na verdade, apesar de todos os recursos disponíveis, a educação escolar continua a perder autenticidade. Cada vez mais aprendemos com os simulacros, não com os elementos originais.

Examino, finalmente, a última conseqüência que listei atrás: “as máquinas de consumir informação, dada a escassez de matéria prima, começam a produzir pseudo-informação”. A capacidade instalada dos meios de comunicação é muito maior que a capacidade humana de produzir informação autenticamente nova. Assim, nos jornais, nas TVs, no rádio, nas redes computacionais, aumenta cada vez mais a oferta de pseudo-informação.

CONCLUSÕES PROVISÓRIAS

Tentei recuperar aqui o conteúdo e o espírito de minha comunicação sobre “Educação: Informação ou Conhecimento?” no Educando 95’. Acho que, em parte, consegui dar conta do recado. Mas fico com a sensação de que este texto não faz justiça à fala original, um diálogo com quatro companheiros de mesa e cerca de setecentos participantes.

Diante da questão “informação ou conhecimento?”, procurei fazer uma crítica ampla dos processos de produção de informação que, muitas vezes, são vistos como processos de produção de conhecimento. Procurei mostrar que os “engenheiros de informação”, membros da poderosa corporação dos especialistas em comunicação,  querem nada menos que poder absoluto. Neil Postman examina o monopólio destas novas corporações em diversas áreas. Cito, aqui, a título de exemplo suas considerações sobre as tecnologias computacionais:

Não há dúvida de que o computador fez crescer o poder das mega-organizações como as forças armadas, as companhias aéreas, os bancos e as agências de coleta de impostos. Não há dúvida também de que os computadores são agora indispensáveis em pesquisas de alta tecnologia em física e outras ciências naturais. Mas até que ponto as tecnologias computacionais tem sido uma vantagem para o povo em geral? Para os metalúrgicos, os verdureiros, os professores, os mecânicos, os músicos, os pedreiros, os dentistas e para todos aqueles cujas vidas foram invadidas por computadores?

Segui uma trilha já demarcada por especialistas em ciências do conhecimento (Anderson e Larsen, por exemplo), por cientistas da área de computação como Alan Kay e Joseph Weizenbaum e por analistas de comunicação como Daniel Boorstin e Neil Postman. Esta trilha nos leva ao entendimento de que o alvo da educação é conhecimento, não informação. Mas para alcançar este alvo é preciso ter muita clareza de que informação não é conhecimento.

Finalmente, para que não paire uma dúvida no ar, acho que as escolas não devem dispensar nenhum dos novos meios de comunicação. É certo que tais meios estão a serviço da cultura da informática.  É certo, também, que por diversos motivos e interesses, predomina a idéia de que a mercadoria mais valiosa de nossa sociedade é a informação. Mudar tais perspectivas depende de conhecimento. Depende de seres humanos capazes de contrariar os valores hegemônicos de um mundo que, sob a capa de uma suposta modernidade, promove novas formas de dominação. Depende, como assinalam Larsen, Kay, e, sobretudo, Postman, de uma nova educação. E esta nova educação, além de incluir novos processos e conteúdos, deve utilizar-se de modo competente todos os novos meios de comunicação.

REFERÊNCIAS

ANDERSON, C. A. (1977). The Notion of Schemata and the Educational Enterprise. in Anderson. R. C., Spiro, R. & Montague, N. (Ed.) Schooling and the Acquisition of Knowledge. Hillsdale, Lawrence Erlbaum Associates.

BARATO, J. N. (1994). Aqui Agora: Novas Tecnologias e Ensino Municipal. Tecnologia Educacional, 94, 46-51.

BEINEKE, J. A. (1987). The Investigation of John Dewey by the FBI. Education Theory, 37, N.1, 43-52.

BOORSTIN, D. (1992). The Image: A Guide to Pseudo-Events in America, New York, Vintage Books.

KAY, A. (1991). Computers, Networks and Education, Scientific American, september, 1991, 100-108.

LARSEN, S. (1988). New Technologies in Education: Social and Psychological Aspects. in Tavis, T. & Tagg, E. D. (Eds). Computers in Education. Amsterdam, Elsevier Science Publisher.

LIBÂNEO, J. C. (1990). Didática. São Paulo, Cortez Editora.

MINSKY, M. (1994). Will Robots Inherit the Earth? Scientific American, October 1994,  85-90.

NAISBITT, J. (1982). Megatrends: The New Directions Transforming our Lives. New York, Warner Books.

POSTMAN, N. (1993). Technopoly: The Surrender of Culture to Technology. New York, Vintage Books.

ROSZAK, T. (1988). The Cult of Information. London, Paladin Grafton Books.

STERNBERG, R. (1988). The Triarchic Mind: A New Theory of Human Intelligence. New York, Viking Books.

WEIZENBAUM, J. (1976). Computers Power and Human Reason: From Judgment to Calculation. San Francisco, W.H. Freeman and Company.

WINGROVE, D. (1992). The White Moutain –  New York, Dell Publishing.

 

Observação: texto publicado como capítulo do livro Escritos sobre Tecnologia Educacional e Educação Profissional, Editora SENAC, 2002.


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