Archive for abril \28\UTC 2007

Bar do Agostinho

abril 28, 2007

Anos 67 e 68. A especialidade da casa eram as batidas, de limão, de coco, de agrião etc. Numa prateleira alta havia sempre um violão que podia ser dedilhado por fregueses do ramo. Um deles, um tal de Chico, ficou famoso desde que ganhou um Festival com a Banda. Outro, menos famoso, mas reconhecidamente melhor violeiro que o Chico, chamava-se Maranhão. Ambos eram estudantes da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo). E muitos outros músicos, com certa fama ou anônimos, andaram por ali. O lugar era frequentado sobretudo por estudantes das faculdades que ficavam nas ruas Dr. Vila Nova, Maria Antônia e Maranhão. E, é claro, estudantes de outros endereços costumavam também chegar no pedaço de vez em quando. O lugar não tinha nome conhecido. Por isso passou para a história como o Sem Nome. Amigos meus da FAAP- saudades do Mario Luiz Thompson – chamavam-no, não sei por que, de Quitanda. Em minha memória, aquele boteco sempre foi a casa do Agostinho.

Faz dois ou três anos que uma equipe de demolição derrubou numa só noite o prédio que abrigou por muitos anos o Sem Nome na altura do número 216 da Rua Dr. Vila Nova. Tal eficiência provavelemnte deveu-se ao medo de que velhos saudosistas como eu pedissem o tombamento da casa do Agostinho. Hoje, tristemente, o local abriga um estacionamento. A memória de grandes papos, planos de mudar o mundo, sonhos de vida melhor, músicas de boa qualidade, batidas imbatíveis vai morrendo sem o palco onde tais coisas rolaram, substituído por um chão mal asfaltado.

Censura atinge enciclopédia eletrônica

abril 24, 2007

Eu queria dar um tempo para que os visitantes do Boteco Escola pudessem entrar no estabelecimento pela “Festa de Inauguração”. Além disso estava aguardando as  publicações dos blogs de meus alunos para construir mensagens sobre os ensaios preliminares de marinheiros de primeira viagem. Mas as coisas da vida andam atropelando meus planos. E, infelizmente, uma dessas coisas foi a descoberta de mais um dos muitos efeitos da censura aos blogs. O acidente aconteceu quando procurei testar um link para o verbete Blog na Wikipedia. Meu teste aconteceu na rede de uma instituição que bloqueia blogs. E mais que isso, ela bloqueia qualquer endereço (URL) que inclua o termo ‘blog’. Consequência: os censores, analistas e progamadores preguiçosos, simplesmente bloquearam qualquer acesso que fale mal ou bem de blogs. Ou para dizer de outra forma: censuraram por tabela qualquer publicação (enciclopédia, dicionário, artigo acadêmico, notícia de jornal etc.) cuja indicação de link utilize a ‘diabólica’ palavra BLOG. Alguém mais bondoso que eu diria que tal situação acontece porque a censura é burra. Penso diferente. Acho que tal coisa acontece porque os censores se dão o direito de governar arbitrariamente as possibilidades de acesso dos usuários. As semelhanças entre isso e a censura nos tempos da ditadura não são fortuitas.

Minha indignação pede um texto duro e longo contra a censura. Mas não vou amolar os leitores com discursos extensos a favor da liberdade de informação. Contento-me em sugerir que a censura a blogs e outras publicações Web passa mensagens importantes no campo da educação. Crianças, estudantes e trabalhadores que sofrem os efeitos da censura em seus ambientes de uso da internet aprendem a lição de que mentes mais esclarecidas decidem por eles o que é bom e o que é mau no ciberespaço. Aos mortais comuns fica vedado o direito de ‘pecar’. E a internet é usada apenas para as atividades que os esclarecidos censores acharem adequadas para o povão. Assim, em vez de autonomia, aprende-se dependência, em vez de liberdade, aprende-se aceitação de controles dos poderosos, em vez de decisão pessoal, aprende-se expectativa de que alguém mais sábio fará a melhor escolha. É essa a educação que queremos para nossos filhos e netos?

Boteco Escola em Destaque

abril 16, 2007

O título deste post foi inspirado pelo estilo de Patrícia, colunista social do Diário da Franca, jornal da cidade onde vivi minha infância. Anunciamos, com muito orgulho, que o WordPress relaciona nosso espaço entre os 100 blogs que mais cresceram nas últimas semanas. Uma proeza, pois apenas dois outros blogs em português mereceram tal destaque. E o Boteco Escola é a única publicação educacional da lista. O mérito é sobretudo dos convidados que estão frequentando o Boteco Escola nas duas últimas semanas. Não sumam do pedaço, queremos continuar a crescer. Obrigado pelas visitas, apoio, sugestões, palpites. Como sabem, blog é sobretudo um espaço de conversação. Se a freguesia escasseia, poucos são os papos, ou para falar de modo acadêmico: poucas são as oportunidades de negociação de significados num espaço livre e não regulado.

Festa de Inauguração

abril 10, 2007

 

Esta casa já está estabelecida, com habite-se, marketing de lançamento, pesquisa de mercado, estoque, decoração e linhas de serviço em dia. Há agora um longo caminho pela frente, o caminho de manter uma boa clientela e de renovar continuamente as conversas que darão alma ao lugar. O desafio não é dos pequenos. A mortalidade de blogs é grande. Muitos autores começam a aventura mas param no meio da estrada. O local vai perdendo vida e com o tempo fica com aquela cara de tapera abandonada. Nossa aposta aqui é a de manter um espaço vivo por muito tempo. Para isso contamos com a presença da distinta freguesia. Mas sabemos que isso não basta. Precisaremos reiventar continuamente motivos para boas conversas sobre os blogs educacionais.

O momento é de festa. Estamos inaugurando oficialmente o lugar. O Boteco escola já tem uma certa cara. Mas não é uma cara definitiva. Sabemos que a personalidade mais definitiva do lugar vai depender muito dos conteúdos das conversas que vão rolar por aqui. E não temos bola de cristal para prever o final da história, embora saibamos que no processo aprenderemos a fazer blogs educacionais inovadores, provocadores, criativos e capazes de conquistar uma freguesia muito distinta. Tin tin para nós todos!

Bar São Benedito

abril 10, 2007

Prometi colocar aqui de vez em quando referências sobre botecos que valem a pena. Cumpro mais uma vez a promessa para recomendar uma casa imperdível de Piracicaba. Trata-se do Bar São Benedito, estabelecimento situado na saída da cidade, ali, à esquerda, naquela avenida onde começa a estrada para São Pedro. A cerveja é geladinha e a cachaça, sempre de marcas muito populares, pode ser arredondada com um limãozinho esprimido. Faz tempo que não apareço por lá. Anos atrás, em viagens para Águas de São Pedro, o São Benedito era parada obrigatória de nosso grupo liderado pelo saudoso Julinho de Freitas. Um dia antes, Julinho encomendava uns bolinhos de carne, divinos, feitos pela dona da casa a pedidos. Além dos comes e bebes, a fama do São Benedito devia-se à simpatia do seu propietário. Infelizmente não tenho uma foto desse afamado boteco piracicabano. Por isso, como justa homenagem ao santo que dá nome à casa, coloquei aí no canto uma imagem de São Benedito. Antes de tomar o primeiro gole de cachaça, não se esqueçam do santo…

Um aperitivo para fregueses novos

abril 10, 2007

Na Internet já há um número expressivo de teses, dissertações e artigos acadêmicos sobre blogs em geral, assim como sobre blogs e educação. Mas tal literatura pode assustar quem está começando. Fica pois a pergunta: há na Internet alguma coisa mais leve, um aperitivo para marinheiros de primeira viagem? A resposta é positiva. E tem coisa à beça. Para quem apenas ouviu a palavra blog mas não tem idéia do que ela quer dizer, recomendo a leitura de uma pequeno artigo de Marcelo Tas: A palavra do ano é… Depois de ler o texto do Tas, convém dar uma olhada em algo mais técnico. Nas páginas da Interney, o leitor encontrará um bom resumo sobre a matéria no texto O que é blog.

Depois dos dois textos introdutórios, é bom dar uma olhada na definição de blog que pode ser encontrada na mais famosa enciclopédia da Web: A Wikipedia. Você pode ver isso clicando aqui na palavra blog. A mesma Wikipedia tem um outro verbete que vale a pena ler, trata-se de Blogs educativos.

Se você já leu as matérias até aqui indicadas, sugiro mais duas outras fontes. A primeira é uma pequena reportagem feita pela Microsoft Educação com edublogueiros do Brasil. Para acessar tal reportagem, clique aqui. A segunda fonte é um periódico online que pode ser consultado para saber que novidades há sobre o assunto. Trata-se do Jornal do Blogueiro.

Que tal? Gostou do aperitivo? Transforme suas opiniões em comentários para este post. A redação do Boteco Escola agradece desde já sua preciosa colaboração.

Dizer a própria palavra

abril 8, 2007

Gostaria de não mais voltar ao assunto. Mas infelizmente o que rola em escolas e outras organizações me leva a insistir sobre a questão do bloqueio dos blogs. Dia 25 de janeiro último, publiquei num espaço que estou usando com pouca frequencia, o blog Primeiros mil microcontos, a mensagem que segue:

No título deste post tento sintentizar uma das esperanças de Paulo Freire; um cidadão livre é aquele que conscientemente é capaz de dizer a sua própria palavra. Nosso maior educador não chegou a publicar um blog, mas era alguém que alimentava muitas expectativas com relação às possibilidades libertárias da rede mundial de computadores. E, certamente, apreciaria muitos dos usos dos blogs em nossos dias. Faço tais reflexões a partir de um diálogo de Freire com um grupo de educadores sobre tecnologia educacional; diálogo do qual tive o privilégio de participar.

Um exemplo fantástico de possibilidade de dizer a própria palavra, proporcionada por blogs, é Baghdad Burning, o diário eletrônico publicado por uma jovem iraquiana que assiste diariamente aos efeitos da ocupação estrangeira em seu país. A edição do New York Review of Books de 11/01/2007 resenha alguns livros recentes sobre o Iraque. Um dos livros resenhados é uma compilação das mensagens de Riverbend, a blogueira de Bagdá. A autora, uma profissional de informática, faz um registro admirável de como é a vida de cada dia no Iraque ocupado. Na resenha, observa-se que o texto (em inglês) da moça deixaria muitos americanos envergonhados. E eu acrescento: deve envergonhar também muitos profissionais da área de computação. O texto é limpo, atraente, sedutor, além de fazer uma leitura muito bem informada dos acontecimantos. Mas, para além dos aspectos formais, o texto é um registro histórico imprescindível para quem queira entender o que está acontecendo no Iraque. Riverbend encontrou no blog uma forma de dizer com liberdade sua palavra sobre a experiência trágica sua e de sua terra. Baghdad Burning merece ser lido.

Ao ler a matéria do New York Review of Books fiz uma relação inevitável: os blogs continuam censurados (bloqueados) em muitas escolas. Uma pena! Nessas escolas, alunos e professores perdem um importante canal para dizer suas próprias palavras. Dias depois de ler a matéria sobre a blogueira de Bagdá, fiquei sabendo de mais uma medida (anunciada nos jornais de 23/01/2007) contra a liberdade de dizer a própria palavra: o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) baixou norma para impedir que os atletas brasileiros publiquem qualquer coisa em seu blogs durante os próximos Jogos Panamericanos. Cabe um pedido de socorro a nosso querido Paulo Freire.

Conversa sobre blogs

abril 5, 2007

No momento estou num bom papo com Frideriki sobre blogs. Ela é a jornalista que faz a pré-edição das  matérias para o Jornal da São Judas. Outros assuntos entraram na conversa: software social, sites de relacionamento, liberdade na Internet, educação e Web etc. Alguns dos frequentadores deste Boteco também serão entrevistados. Aguardem.

Ilustração para censura de blogs

abril 4, 2007

Ícone que poderia ser usado por censores de blogs.

Raízes da censura aos blogs

abril 2, 2007

Até pouco tempo, eu pensava que a interdição aos blogs era medida garantidora de espaço de poder para os informatas que continuam a ter cabeça de CPD. Confesso que minha visão do problema era muito limitada. Meus estudos recentes sobre a blogosfera mostram que a questão maior situa-se na natureza de espaço público que os softwares sociais (blogs inclusos) podem ter. O que isso quer dizer? Espaços públicos são uma zona onde o cidadão pode dizer a sua palavra, sem medo das autoridades, sem limites impostos por chefes autoritários. E mais, num espaço público há também conversações livres. Liberdade autoral e oportunidade para diálogos não regulados por qualquer autoridade são um exercício de cidadania no ciberespaço. Isso, consciente ou inconscientemente assusta muita gente que detém mando. As desculpas para a censura são muitas, mas a raiz do problema é mesmo o medo de que uma nova “praça do povo” (algo similar à velha ágora ateniense) possa oferecer oportunidade para conversas na contra-mão dos interesses estabelecidos. Mais informações sobre a questão podem ser vistas nos comentários de minhas amigas Cris Sleiman, Fátima e Miriam (obrigado, meninas!) ao post anterior a este..