008. Subsídio sobre ética

Tempos atrás, para ajudar meus alunos de filosofia a refletirem sobre o centro de qualquer preocupação ética, a relação eu/outro, escrevi um subsídio para aproveitamento do filme Shrek em atividades sobre Bullying. Tem a ver com tecnologia, pois minha sugestão pode ajudar educadores interessados a utilizar uma produção popular de cinema para um projeto de educação moral. Segue, para quem interessar possa, o tal subsídio.

Vendo Shrek com os Olhos da Ética


Jarbas Novelino Barato

 

Shrek, filme infantil de muito sucesso, é puro divertimento. Nada pretende ensinar. Será que pode ser aproveitado em educação? Há alguma coisa no enredo, na trama, nos diálogos ou na história que pode ser objeto de conversa com finalidades de aprendizagem.? Até alguns dias atrás, eu diria que nada há no filme que possa ser aproveitado para fins educacionais. Mas, ao estudar a questão do bullying nas escolas, encontrei uma sugestão em sentido contrário. Alguém propôs que Shrek fosse um ponto de partida para um diálogo sobre a violência física e simbólica da qual são vítimas muitas crianças que apresentam alguma diferença. Por isso resolvi rever o filme e elaborar este pequeno subsídio.

Shrek é uma história que nos mostra muitos encontros com o outro. E nesses encontros, mostra relações de desigualdade que podem gerar espanto, desconforto, estranheza, violência, desentendimentos. O personagem central, aquele ogro simpático, é um outro que é ou perseguido ou temido. Isso o leva a um isolamento quebrado pela estranha invasão de personagens de histórias de contos de fadas. [Estes também outros cuja aceitação pode ser difícil]. O isolamento num lugar pouco atraente, um pântano, é sintoma de fuga. Shrek não quer ser objeto de olhares de susto, estranheza, ódio. Resolve ficar só num espaço assustador ou desagradável para as pessoas normais. O ogro quer paz; e já que não a consegue na convivência, busca-a no pântano, no isolamento. Essa fuga pode ser um dos caminhos buscados por vítimas de bullying. Estas podem construir um espaço de isolamento para viverem em paz, longe de gente normal que as atormenta. E, como na história de Shrek, o espaço escolhido não é necessariamente agradável.

A história de Fiona, a princesa enfeitiçada, sugere mais reflexões sobre a aceitação do outro. No caso dela, um primeiro outro é a figura que a princesa vê no espelho assim que o sol se vai. Fiona sonha com o dia em que o beijo de um cavalheiro apaixonado irá libertá-la do pesadelo da outra assustadora criada por uma maldição. Não passa por sua cabeça que a outra é a princesa da luz do dia, pois esta é aceita por todos. Pessoas não compreendidas ou não aceitas pelos outros podem passar por dramas semelhantes, sonhando com um outro eu que nada tem a ver com elas mas que corresponde aos padrões de aceitação da sociedade. Fogem de si mesmas. Negam suas origens. Têm vergonha de mostrar suas verdadeiras caras. E sofrem muito porque suas supostas monstruosidades não desaparecem. Não passa por suas cabeças que a aceitação de diferenças é o começo de um equilíbrio e felicidade que poderá integrá-las em mundos onde suas diferenças não farão qualquer diferença. Mas é preciso ser justo nesta avaliação: a mudança não depende apenas das vítimas de casos parecidos com o de Fiona.. É preciso que a sociedade se abra para a aceitação das belezas da verdadeira Fiona.

Até o romance do burro com a fêmea de dragão, apesar da ausência de qualquer traço dramático, pode ser visto como uma situação de encontro de outros desiguais. E, como na história, podemos aprender que a convivência, e até o amor, é sempre possível em encontros de seres muitos diferentes.

É interessante notar em Shrek que, ao contrário de certos contos de fadas, a mudança não acontece no sentido da beleza sonhada pela personagem vítima de feitiço. A mudança acontece no sentido da consagração de uma existência a princípio monstruosa. Nenhum personagem ganha a identidade de um outro dos desejos baseados em padrões de beleza inacessíveis à maioria. Seres comuns e até monstruosos podem viver felizes em Shrek. Basta se aceitarem como são. Basta serem aceitos como são. Há muito que aprender com essa história aparentemente tão simples.

5 Respostas to “008. Subsídio sobre ética”

  1. Abel Sidney Says:

    Eis uma reflexão séria, útil e de fácil entendimento. Jarbas, o autor, é filósofo, pasmem os senhores. Isso pode parecer suspeito, mas é virtude mesmo!

    Escrever simples e bonito e despertar reflexões é coisa de poucos neste mundão de Deus – e de tantas criaturas que teimam em escrever complicado e difícil…

    Estive no teu blog Aprendente.

    Valeu as visitas. Já gostava do Shrek, da Dreamworks, das tantas educações que criam e recriam e tudo isso se ampliou.

    Abraços
    Abel Sidney

  2. jarbas Says:

    Alô Abel Sidney,
    Prazer grande encontrá-lo neste estabelecimento. Obrigado pelos elogios sobre o texto. Estou cada vez mais convencido de que os educadores precisam escrever bonito. Este é um dever de respeito para com o leitor. Acho que a gente tem de fazer uma campanha nesse sentido. Estou cansado de ler escritos horrorosos cujos autores se desculpam com aquela esfarrapada explicação de que o ‘texto é científico’. Conversa fiada. Não há qualquer evidência de que ciência precisa ser comunicada em textos impenetráveis e mal arrumados. Aqui também, como já dizia o poetinha, “beleza é fundamental”. Gostaria de conversar mais com você sobre o assunto. Abraço grande, Jarbas.

  3. jose luiz lopes Says:

    olha eu aqui tra veiz, texto muito interessante o texto acima, principalmente porque aborda um desenho infantil que é direcionado às crianças, futuros adultos, quanto ao caso do sherk e sua fuga, fica muito sutil para os leigos entenderem principalmente as crianças, mas o caso da fiona ja fica mais facil porque ha uma mudança fisionomica do feio para o bonito e do bonito para o feio, então fica bem claro que na sociedade o bonito á aceito ( a princesa do dia) e o feio nao a ogra da noite, ja no caso do burrão e da dragão tambem é claro a diferença de um para o outro, e eles se dao muito bem mesmo com tantas diferenças, então o foco não deveria ser a simples aceitação do outro e sim se colocar no lugar dele ver o mundo com os olhos dele, assim só pode se saber o que o outro sente.

  4. Diogo Says:

    O filme Shrek é uma lavagem cerebral que é produzido por grandes marketeiros boilas,bullynquistas e anorexicistas.Todos só estão vendo o lado de “vamos levantar a mão para céu e liberara geral”.Não devemos ver a situação comouma forma de querer aceitar o diferentes mesmo porque não cabe a nós aceitar as coisas e sim o proprio individuo se conhecer.
    O que devemos ver é que uma criança ou um ser que esta absorvendo temas para montar sua personalidade esta constantemente vendo esses desenhos que de inicio parece inofensivo,mas por trás das cortinas é uma incitação ao homoafetismo,anorexicismo e ao bullying.
    Não sou preconceituoso,não sou racista e muito menos xenofobo.Espero que você entenda meu ponto de vista e se quiser me mandar algo para discurtismo a respeito,estarei a disposição.

    Atenciosamente: Umnovo amigo ou não.O importante não é você me obrigar a tender suas ideologias ,mas juntos chegarmos as nossas verdades que podem diferir uma da outra.

  5. docarmocosta Says:

    Olá Jarbas,

    Serei sincero. Acabei de conhecê-lo, mas devo dizer, encantado. Estou completamente apaixonado pelo seu modo de escrever, ou melhor, de compartilhar o seu pensar. Comecei também a acompanhar o trabalho do Mike Roses que você me apresentou. Estou fazendo Especialização em docência para a Educação Profissional, Senac, e tenho fé que jamais me afastarei de seus escritos tão valiosos quanto prazerosos.

    Tenho utilizado o filme “Happy Feet” com alguns alunos para refletirmos sobre diferenças, diversidades, convivência, inclusão e o que mais der para extrair do filme, inclusive questões de ética. O retorno tem sido valioso para todos. Assistirei Shrek com esse olhar mais crítico e tentarei utilizá-lo com os meus pupilos.

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