035. Paulo Freire na Blogolândia

Segue aqui tradução de artigo de Christine Boese, analisando o movimento de blogs durante a guerra do Iraque, e a prática de klogs numa empresa de comunicação. O original – The Spirit of Paulo Freire in Blogland: Struggling for a Knowledge-Log Revolution – pode ser encontrado na Web com uma clicada aqui.

A tradução do texto foi feita por minha filha, Nara Cardoso Barato.  Apesar de Nara não ser uma profissional das letras, a tradução está bastante boa.  Pode acontecer que haja alguma imprecisão aqui ou ali. Não é culpa dela. É culpa minha, pois fiz uma revisão bastante corrida.

Há uma palavra muito em voga nos meios de informação/comunicação, empowerment. Não há termo equivalente em português. O sentido é o de “dar poder a”. Na falta de palavra em nosso idioma, Nara criou um neologismo “empoderamento” [coma as variações emponderado e empoderar]. Achei que ficou bom. Começarei a usar.

O Espírito de Paulo Freire na Blogolândia: Empenhando-se por uma Revolução dos Knowledge-logs

Christine Boese, pesquisadora independente

Weblogs e knowledge-logs, ou “blogs” e “klogs” emergiram no mundo virtual de post-doc.com como um notável (e normalmente não-comercial) fenômeno social. A maior parte das páginas da internet que surgiu em meados dos anos 90 deixou apenas alguns vestígios na rede, mas o fenômeno da blogagem ocorrido durante a guerra do Iraque, pode ter levado uma cultura cibernética rumo a novas direções. Esta pesquisa qualitativa e exploratória considera a viabilidade e os efeitos sociais dos fenômenos que modificaram o significado das páginas da internet, os blogs e klogs. Eles afetam as vidas daqueles que trabalham com informação, modificam lugares públicos da internet, com implicações para redes internas privadas. Esta pesquisa combina observações etnográficas de blogs sobre a guerra do Iraque com pontos de vista e observações pessoais da autora, referentes às suas experiências profissionais, como a criação de um klog para a rede interna da CNN, logo após a guerra. Procura-se ainda analisar a perspectiva da utópica, e não necessariamente tecnológica, promessa determinística de uma revolução dos knowledge-logs, e encontrar em quais aspectos o movimento real difere daquela promessa inicial. Os knowledge-logs podem ser um grupo de ferramentas eficientes para organizações, mas, além disso, as características de sua interface permitem que políticas mais abertas alterem, de maneira única, culturas corporativas. O objetivo é alcançar uma pedagogia crítica e dialógica por meio de trabalhadores auxiliando e ensinando outros trabalhadores, independentemente de “políticas oficiais”. Jornalistas de grandes organizações como a Time Warner aliviam essa mesma tensão em seus blogs pessoais de espaço público e revelam uma ruptura real em grande escala que klogs podem criar em pequena escala. Idéias e modelos mostrados por Paulo Freire e Michel de Certeau são usados como base para uma possível interpretação dos eventos estudados de março a novembro de 2003.

The Other Side: Josh Kucera
March 09, 2003

An introduction

Welcome to my blog, all. First, to introduce myself and The Other Side. I am a freelance journalist based in Erbil, in Kurdish-controlled northern Iraq. I am new to the world of blogging, and I heartily thank Chris Boese, a friend of a friend whom I’ve never even met, for suggesting this to me and for setting up all the technical stuff.

I chose to call the blog The Other Side for a couple of reasons. One, I want to show the other side of the news. I don’t intend for this site to be a substitute for the ordinary media, but as a complement to it. You can get good information from the New York Times, BBC and Associated Press. But you won’t hear unvarnished opinion from a guy on the ground, or what ordinary days are like for the people here: about pornographic movie theaters, tragic love stories or the sunset over Erbil.

Secondly, “the other side” refers to the land outside America’s borders, a big place that most Americans, even well educated ones, are not very familiar with. Reading the news about the Middle East or Indonesia or Venezuela is as about as meaningful as watching a game of Risk if you don’t know what the streets smell like there or what people eat. I hope this blog can be a small substitute for that sort of experience. . . .

That’ll be it for today … soon to come will be more reports, focusing on particular issues, relating particular incidents, etc. Stay tuned.

Posted by Josh at 10:39 PM |Comments (16) |TrackBack (1)

Weblogs, ou “blogs,” como o trecho mostrado acima, são locais de comunicação online que brotaram às margens de diversas formas de discursos públicos e práticas de comunicação profissional.  Em alguns casos, tornaram-se inesperadamente poderosos, ao representar uma força erosiva às correntes convencionais do jornalismo – blogs possuem uma maneira dialógica e sem obstruções de, aos poucos, corroerem as bases do poder da mídia de massas. Algumas vezes, porém, não há consciência institucional [do fenômeno].

À medida que os blogs, cujas origens estão às margens da internet, penetram na consciência pública, eles trazem consigo um exército interativo invisível, e sem precedentes, de participantes que podem estar vivenciando uma forma de consciência crítica (incômoda para mo poder estabelecido). O objetivo é alcançar uma cultura cada vez mais democrática, assim como intencionava Paulo Freire. Atualmente, até as campanhas presidenciais são publicadas em blogs, mas a originalidade do movimento pode ser encontrada, por exemplo, nos blogs sobre a guerra do Iraque de 2003.

Para o propósito deste artigo, blog é definido como página da internet, regularmente atualizada por meio de software especifico, que fornece a moldura para uma base de dados dinâmica e focada em seu contexto (Carl, 2003, p 1, 3). Nesse espaço, autores individuais ou grupos podem basear-se em infinitos pontos de vista retóricos e publicar fontes de materiais criativos e analíticos, mostrados em ordem cronológica, com a postagem mais recente no topo. O material fica associado a um arquivo permanente por meio de “permalinks”. Enquanto páginas da internet são estáticas, os blogs são desenvolvidos para constituírem uma conversa dinâmica, por meio dos “comments” contextuais. Uma vez instalados, os blogs requerem pouco conhecimento técnico para sua manutenção e atualização. Além disso, vem surgindo um movimento social em torno dos blogs, possibilitando aos artefatos técnicos um significado de contexto mais amplo, o qual muitos denominam de “vizinhanças” ou “ecossistemas de blogs”.

Klogs são simplesmente interfaces de softwares usados em blogs, adequados como ferramentas de gerenciamento do conhecimento em empresas, já que funcionam como sistemas administrativos rápidos, fáceis e participativos. Algumas firmas apresentam ferramentas de conteúdo gerencial construídas a partir de mecanismos rebuscados, as quais podem gerar resultados inconsistentes devido à dificuldade de uso. Por outro lado, o grande número de usuários independentes de blogs online reafirma a facilidade de manuseio desses softwares, o que justificaria a sua adoção pelos klogs organizacionais.

Esta pesquisa qualitativa e exploratória considera a viabilidade e os efeitos sociais do fenômeno dos blogs e klogs. Eles afetam as vidas dos que trabalham com informação, em espaços públicos da internet, com implicações para as redes internas privadas. A pesquisa combina observações etnográficas de um blog sobre a guerra do Iraque, com pontos de vista pessoais e observações feitas a partir de minha experiência profissional, como o lançamento um klog para a CNN Headline News logo após a guerra. Com esta pesquisa, procura-se obter melhor percepção da utópica, e por vezes desnecessária, promessa determinística de uma revolução dos knowledge-logs. Além disso, objetiva-se encontrar os pontos em que o movimento dos blogs e klogs difere daquela promessa inicial.

Os métodos etnográficos empregados neste estudo qualitativo foram elaborados através de acesso a dois sites independentes. Em cada um deles, eu tive participações como web designer e hospedeira. Também fui parte interessada no lançamento dos blogs, o que poderia ser visto como uma forma de transgressão e comprometimento dos dados (no caso do primeiro site) ou interferência por observações pessoais (no caso do segundo site). Porém, não havia outra forma de obter informações sem que eu fosse uma das partes envolvidas. As histórias aqui teriam permanecido invisíveis. Mas, meu ponto de vista deve ser afirmado e colocado em primeiro plano. A perspectiva feminista afeta o conhecimento (Rich, 1984), mesmo quando eu me distancio dos essencialismos de políticas de identidade, assim como um organismo cibernético híbrido, independente de organizações mais amplas como a Time Warner (Haraway, 1991). De acordo com Haraway, organismos cibernéticos são invisíveis e onipresentes, “descendentes ilegítimos do militarismo e capitalismo patriarcal, para não mencionar o Socialismo de Estado” (153), sem lealdades ou origens, “cometidos a parcialidade, ironia, segredos, e perversidade, são antagonistas, utópicos e completamente sem inocência” (151). Ao adotar este papel, minha perspectiva torna-se parte da historia.

Os dois sites estudados serão descritos em termos de idéias de “consciência crítica” (Freire, 1973) e “coleta textual” (de Certeau, 1984) em um esforço para desvendar a complexa rede de eventos relacionada a um site sobre a guerra do Iraque e, em menor escala, ao lançamento de um klog de rede interna.

Blogs como um local de pesquisa

O ano de 2003 foi muito importante para o desenvolvimento e a criatividade das atividades blogueiras. Atualmente, o que se sabe sobre blogs e klogs, é que eles criaram um vasto sistema de comunicação, o qual a mídia de massas vem chamando de “beat” ou “febre do momento”. A existência da blogosfera foi notada após os eventos de 11 de Setembro de 2001 por um público reduzido, mas intensamente interessado (Carl, 2003). Quando houve falha nos sistemas de comunicação da cidade de Nova Iorque, muitos blogs pessoais seguiram o curso daqueles eventos, expressando as preocupações dos que trabalhavam diretamente com tecnologia de comunicação e dos que haviam perdido seus empregos. No inicio da guerra contra o Afeganistão, também emergiram, por meio de blogagem, convenções sobre os acontecimentos bélicos. Com o desastre envolvendo um ônibus espacial e a renúncia do Líder Majoritário do Senado, Trent Lott, a mídia prevalecente tomou consciência da existência dos blogs. Eles também receberam a atenção da academia, possivelmente em 2003, com o lançamento dos blogs sobre a guerra do Iraque e os de Howard Dean. Sem dúvidas, mais artigos e coleções como esta também estão sendo elaborados.

Apareceram também os usuais artigos da imprensa popular e comercial, que pregaram o evangelho de blogs e klogs, referindo-se a eles como “a mais nova febre do momento” (Heyboer, 2003; Lewis, 2004; Rosencrance, 2004; Creamer, 2004). Pelo menos uma tese de mestrado foi escrita (Carl 2003). Além de descrever cuidadosamente a história do fenômeno dos blogs (com base em histórias dos próprios blogueiros), Christine Carl conduziu uma enquete que levou em conta locais de atuação dos blogueiros e suas práticas. Houve mais de 1400 participantes, todos dos Estados Unidos. Foram analisados escolaridade, idade, raça, situação empregatícia, renda, entre outros.

A maior parte das bancas examinadoras de trabalhos sobre blogs surgiu em 2003. Um dos artigos examinados foi o de Sybil Nolan, que tratava dos eventos da Conferência Digital de Arte e Cultura em Melbourne e focava o impacto de atividades blogueiras no jornalismo (2003).

Jane B. Singer (2003) publicou o que talvez seja o mais completo estudo sobre aspectos jornalísticos dos blogs criados até hoje. Os blogs em si não foram o foco do estudo, mas sim os desafios lançados por jornalistas online, especialmente blogueiros, sobre os padrões jornalísticos de profissionalismo. Dada a falta de conhecimento geral sobre blogagem e blogueiros, há ainda mais trabalho a ser feito, já que a blogagem é um fenômeno social significativo e não simplesmente um modismo da internet.

Além de analisar o impacto de blogs de guerra no jornalismo, este artigo tem o objetivo de situar o movimento em um contexto mais amplo da informação, onde trabalhadores esculpem seus produtos em sites públicos e privados. Procura-se também estudar as ramificações políticas e sociais dessas ações blogueiras. Dessa forma, este artigo considera todos os blogs, em determinado grau, como knowledge-logs.

Other Side e OJO: Blogs sobre a Guerra do Iraque

Os sites mais importantes, estudados por meio de métodos etnográficos, são os blogs sobre a guerra do Iraque de Joshua Kucera e Carolina Podesta. Ambos os jornalistas trabalharam muitos anos como correspondentes internacionais na Bósnia antes de irem juntos a Erbil, Curdistão, no Norte do Iraque, pouco antes do inicio da guerra. Eu construí e hospedei os sites The Other Side e OJO, no meu domínio serendipit-e.com. O blog de Podesta é inteiramente em espanhol, com um link no menu lateral direcionado ao programa de tradução do Goggle. Como não falo espanhol, meu entendimento geral deste blog ainda é bastante rudimentar. Apesar disto, pude perceber que algo bastante transcendental estava acontecendo com Carolina e sua legião de fãs. Eu reuni dados adicionais através de correspondências pessoais, antes e durante a guerra, com Kucera e Podesta. Ambos possuíam laptops e telefones por satélite, bem como contratos de freelancers, Kucera com a revista TIME, Podesta com um serviço de noticias da Argentina. Enquanto treinava os jornalistas, que estavam em uma zona de guerra, a usarem o software, discutíamos planos de contingência. Decidimos por moldar o site sem permitir a blogagem móvel, ou seja, através de telefones celulares. Em caso de falhas de sinal de rede em seus laptops, eles me disseram que teriam acesso à internet em diversos cybercafes.

Conheci Kucera por intermédio de um colega de trabalho. Ele também me apresentou Carolina Podesta, que na época era sua companheira. Eu trabalhava para a CNN Headline News, redigindo as manchetes da tarde, de segunda a sexta. Logo antes do inicio da guerra do Iraque, eu observava colegas se prepararem para o “embedding process,” ou “processo de integração militar”. Os jornalistas iriam até a capital Washington e completariam um treinamento do Pentágono sobre armas químicas e regras militares básicas, obrigatório para viajarem com as unidades do exército. Eu estava apreensiva com o processo de integração. Lembrava das restrições feitas a repórteres, mesmo aos mais renomados, que foram integrados as unidades militares durante a Primeira Guerra do Golfo. Minha preocupação era que os repórteres poderiam ser censurados devido à restrição de uso dos telefones por satélite, ou pior, por favorecimento inconsciente.

Minhas razoes para oferecer Josh e Carolina a construção de blogs eram, acima de tudo, pessoais. Eu queria ter certeza de que teria fontes independentes do controle militar americano em solo do Iraque. Desejava construir os sites para ambos, pois assim, leria seus blogs. Naquela época, eu havia construído diversos outros blogs com auxilio do Movable Type e acompanhado de perto o movimento dos blogs de guerra. Parecia que os nomes mais proeminentes entre os blogueiros de guerra estavam nos Estados Unidos, processando e reprocessando a cobertura da guerra à distância. “Isto não está certo”, eu pensei: “Repórteres independentes e experientes no Iraque precisam blogar durante esta guerra”. Era isso que eu queria ler.

Naquele mesmo período, meu empregador, a CNN, pediu ao jornalista Kevin Sites, que já estava no Iraque, para encerrar as postagens em seu popular blog. Isto foi determinante para minha decisão. Josh pediu permissão para manter o blog pela revista TIME, já que ele tinha um contrato exclusivo. A TIME respondeu que sim, desde que o blog não fosse de caráter comercial e não mencionasse assuntos que a TIME desejava ela mesma publicar. A mesma empresa que ficou devendo favores a CNN, Time Warner, deve agora também a revista TIME.

Meu supervisor imediato da CNN Headline News sabia que eu construía e mantinha blogs, mas devido ao meu anonimato e relativa desimportância no processo de coleta de informações para nossa organização, minhas atividades extracurriculares não eram consideradas conflitantes com o desempenho das minhas tarefas de jornalista. Por considerações éticas, eu me abstive de fazer comentários sobre minhas atividades em blogs pessoais.

Coleta Textual e Consciência Crítica

Esta pesquisa coloca lado a lado duas linhas de pensamento: a abordagem pedagógica marxista radical de Paulo Freire, que procurou locais fora da escola tradicional para aprendizados e ensinamentos dialógicos, e o teórico cultural pós-moderno, Michel de Certeau. O francês escreveu, de forma subversiva, que pessoas comuns mostram resistência ao serem definidas com base em seus locais de trabalho e como parte de uma sociedade de consumo. Eu acredito que estas duas óticas sejam complementares. Freire escapa dos aspectos totalitários do marxismo e coloca sua ênfase no co-aprendizado dialógico. Os escritos de Certeau sobre práticas do dia-a-dia podem fortalecer um possível estilo democratizado de elaborar o conhecimento em blogs, promovendo um senso livre de resistência, mesmo quando trabalhadores são oprimidos ou dominados. Ambos os autores priorizam aquilo que pulsa fora das áreas de controle rígido e de edição profissional.

Os blogs e klogs muitas vezes representam um grupo de ferramentas bastante eficiente para empresas e corporações. Mais do que isso, as características de interface dos klogs parecem permitir, de maneira não-intencional, aberturas políticas e mudanças de cultura corporativa. O objetivo é alcançar uma pedagogia critica e dialógica de trabalhadores ajudando e ensinando colegas em uma realidade que foge das “políticas oficiais”. Dada a natureza honesta e sem maquiagens desta ação do conhecimento, é possível que ocorra um enfraquecimento do controle institucional sobre o que se pensa e o que se diz. Cria-se, assim, uma tensão entre políticas de controles oficialmente sancionadas e conhecimentos prováveis e disciplinatórios ou competências profissionais (Friedson, 1986; Gilbert & Mulkay, 1984; Edwards & Mercer, 1987; Geisler, 1994). Blogs pessoais de jornalistas empregados em grandes organizações como a Time Warner aliviam esta mesma tensão em espaços públicos e revelam uma ruptura real de grande escala, a qual os klogs podem criar em pequena escala. Quando fazia a cobertura da guerra, eu usava blogs de guerra como minha própria fonte de informações pública sobre o assunto. Para expandir meu conhecimento, lia as postagens de colegas independentes que trabalhavam na área.

Michel de Certeau, em “Práticas do Dia-a-Dia”, preocupa-se com as práticas de trabalho que permanecem marginais e agrupam-se em uma espécie de “coleta textual”, como ele mesmo descreve.

Reading introduces an “art” which is anything but passive. …Imbricated within the strategies of modernity (which identify creation with the invention of a personal language, whether cultural or scientific), the procedures of contemporary consumption appear to constitute a subtle art of “renters” who know how to insinuate their countless differences into the dominant text. … Today this text no longer comes from a tradition. It is imposed by the generation of a productivist technocracy. It is no longer a referential book, but a whole society made into a book, into the writings of the anonymous law of production. (1984, p. xxii)

A descrição das praticas blogueiras mostra-se bastante clara nessa passagem. O profundo estudo de de Certeau revela como os supostos leitores passivos encontram maneiras de “coletar informações” em textos convencionais, apresentado assim, uma forma de resistência. A blogagem durante a guerra do Iraque trazia claramente esta resistência à tona, mostrando uma rebelião aberta ao mundo. Como jornalista praticante, Josh Kucera não era tipicamente alguém que se envolvia em rebeliões, ao contrario de muitos outros blogueiros de guerra. Como veremos mais adiante, ele resiste em tornar-se um “garoto propaganda” para o movimento independente da mídia. Mesmo assim, Josh expunha, por meio de suas postagens discretas e observadoras em Erbil, incontáveis contradições em textos convencionais. Ironicamente, através da minha inserção na CNN Headline News, cobrindo a guerra e, ao mesmo tempo, trabalhando como redatora de manchetes, eu também era cúmplice da “lei de produção anônima”, que de Certeau menciona acima. Eu era uma dos muitos autores de textos convencionais, aos quais os blogueiros estavam resistindo. Dada as contradições que eu vivenciava, não havia outra saída a não ser voltar-me a Haraway (1991), e olhar para mim mesma como um ciborgue hibrido dentro da barriga de uma “tecnocracia produtivista”.

O Knowledge-Log da CNN Headline News

A sensibilidade cibernética me levou a propor a construção de um knowledge–log para rede interna da CNN Headline News. Era uma forma de promover a poderosa interface aos meus colegas. Eles poderiam compartilhar conhecimentos, experiências acumuladas e práticas profissionais que os auxiliavam a produzir um excelente trabalho dia após dia. Este é o segundo site estudado neste trabalho, não através de métodos de pesquisa formais, mas por meio de pontos de vista pessoais de uma entusiasta e promovedora de klogs. Este trabalho não poderia ser denominado “etnográfico” porque eu não tive permissão de iniciar o estudo em sala de noticias. Mesmo se tivesse tido tal permissão, estava muito envolvida como promovedora de klogs para conseguir me distanciar e trabalhar sob uma ótica etnográfica.

Eu queria mergulhar a fundo no que havia por trás dessas práticas respeitáveis e cheias de razão do gerenciamento de informação na era da informação. Desejava encontrar possíveis formas de trabalho, cujos produtos criados pelos profissionais do conhecimento, que fariam uso social massivo de ferramentas da informação, eram os “widgets”. Minha intenção era testar os efeitos da democratização e subversão no processo de manutenção de um klog. E, ao fazer isto, aprender maneiras pelas quais as práticas de trabalho poderiam, em algum momento, ser afetadas pela força desses sistemas de softwares.

Eu também percebi um choque de culturas, bastante visível (e documentável), entre velhas e novas mídias – um choque talvez até mais óbvio do que os que ocorrem em grandes corporações “mais típicas”. Essencialmente, produtos externos ou conhecimentos comercializáveis da Time Warner representam, quase que em sua totalidade, as verdades aceitas pela mídia de massas. Estas suposições vêm, muitas vezes, sem grandes reflexões, assim como os truísmos explícitos ou tácitos. Antes de vir para a CNN, eu cultivava algumas crenças sobre a “velha mídia”. O foco de minha dissertação estava nas lutas de poder entre criadores do show “Xena: a Princesa Guerreira” e a comunidade online interativa de fãs, etnograficamente vistos como uma cultura (popular e com diversos coletores textuais ativos) de seguidores de um ícone.

Já no universo da produção da mídia de massas, no qual eu estava inserida, sentia-me preparada para desafiar as algumas de minhas crenças. Porém, ao invés disto, eu me surpreendi em tê-las ainda mais reiteradas. O modelo de comunicação da mídia de massas parece estar fortemente atrelado aos chamados redatores de programas da “mídia velha”. Por isso, este modelo de comunicação passa praticamente despercebido nas discussões do pessoal das salas de noticias, quando abordam assuntos relacionados ao “good news judgment”, aos programas de mínima sofisticação, e fazem suposições demográficas sobre audiência jovem. Talvez eu fosse ingênua. A literatura acadêmica parece bastante ciente da existência de uma ”tensão entre a mídia de notícias e a disciplina de estudos culturais”, de acordo com Sybil Nolan (2003). Eu havia deixado a área do jornalismo para passar 15 anos na academia. Talvez por ter, eu mesma, mudado ao longo dos anos, assumia que as suposições jornalísticas sobre audiências e interatividade também haviam se transformado.

No entanto, estas são minhas observações pessoais. Elas não fazem parte de um estudo formal sobre culturas de salas de noticia. Fiz essas observações, como parte de um processo de delineamento, enquanto estudava a audiência para o klog que estava construindo. Ao fim, minhas observações foram reforçadas durante o lançamento do klog. O mais surpreendente foi que os redatores de programas (o klog essencialmente serviria aos redatores de sala de noticias e editores) imaginavam os telespectadores como recipientes passivos dos produtos da mídia. Eles próprios também se consideravam recipientes passivos, apesar de estarem escrevendo ativamente dia após dia no trabalho e moldando produtos midiáticos. O anonimato da “voz” com que estavam condicionados a escrever parecia impedir ou tornar impossível o encontro com a “voz” de comunicação em um klog.

A segunda coisa que eu encontrei foi uma generalizada tecnofobia ou ignorância tecnológica em relação à Internet. Um editor me disse que, em 1996, os browsers ainda não estavam instalados na maioria dos computadores das salas de noticia da CNN. Na mesma época, um colega o apresentou a Internet pela primeira vez. Nos dias de hoje (2004), a sala de noticias ainda depende de ferramentas de pesquisa dos processadores centrais. Foi fácil ensinar Josh e Carolina (que fala e escreve inglês básico, enquanto eu não falo nada de espanhol) a utilizar as interfaces dos blogs, mesmo que por emails, de Atlanta ao Curdistão. Por outro lado, eu tive que fazer certo esforço para treinar colegas face a face nas salas de noticia. Isto para que eles perdessem o medo e se sentissem a vontade para postar em nosso klog interno.

Bruce Garrison (2001) estudou a difusão de tecnologias de informação online em salas de noticia de jornais, enfatizando as teorias de massa critica e de difusão. Apesar de a pesquisa ser anterior ao surgimento de blogs e klogs, comparei seus dados às anedotas sobre “difusão de tecnologia”, contadas por meus colegas, os quais estavam no ramo desde o inicio da década de 90. Realmente, tudo indica que a sala de noticias da Headline News adotava pelo menos algumas ferramentas de pesquisa online, mas um tanto defasadas, como indicou Garrison. Eu também observei a hesitação de colegas ao tentarem ganhar autonomia para explorarem as ferramentas de pesquisa online. Isto ficou evidenciado pela lenta adoção do algoritmo beta “Google News” e pela demorada descoberta da barra de ferramentas do Google, que além de bastante facilitadora, também bloqueia dos incômodos “pop-ups”.

War Begins
The Other Side
March 17, 2003

War Panic in Erbil

Today is the first official day of war panic in Erbil. Yesterday everything looked much like it has since I got here. Today many shops are closed, there are fewer cars in the street and people tell me their neighbors are fleeing the city for towns further towards the Iranian border. My translator’s family all left for their hometown of Koy Sanjak, which is closer to the Iraqi lines but which they feel is less of a target. Shop owners are emptying their stores, putting their stuff in more secure locations in case there are looting during the war.

Most people are afraid of chemical weapons. As you know, this area was attacked hundreds of times by chemical weapons during the Anfal campaign of the 1980s. The most notorious incident, in Halabja, was 15 years ago this weekend. Over 7,000 people died in that one attack. Now people here are afraid that it will happen again. But people aren’t preparing much. Very few people have gas masks – other than the foreigners, of course. There is a military market here in Erbil, and I went a couple of weeks ago to stock up. I bought four German-made masks (for me, Carolina, our driver and translator) for $150, a little out of the range of ordinary Iraqis. The dealer told me the only locals who bought the masks were the richest ones. “The poor people want to die,” he said. “The rich people want to live 200 years.” One political party today was giving out leaflets on how to make a homemade gas mask. You take flour, coal and salt, wrap it in a cloth and hold it over your mouth. . . .

Posted by Josh at 05:46 PM |Comments (2) |TrackBack (0)

Os blogs de Josh e Carolina começaram a ganhar uma boa publicidade durante o curso da guerra. A TV Argentina deu atenção especial ao site da Carolina, cujo trafego de internautas, após a primeira semana de lançamento, chegou a 1.000 cliques por dia. Eventualmente, o site adquiriu presença duradoura na web (cliques significativos, não só da Argentina, mas de outros países, principalmente México). Quando Carolina voltou à Argentina, depois da guerra, ela assinou um contrato para transformar seu site em livro (2003b). Além disso, o OJO foi tema central de algumas conferências.

O blog do Josh era bem escrito, em inglês e bastante visual. Era citado respeitosamente em outros blogs. A rede formada pelos sites nos levava até a batalha em Bagdá. O conflito tornou-se então assunto principal no The Boston Globe (Bray 2003), já que o material contido nos sites Baghdad Blogger, Salam Pax e Back to Iraq colocou as noticias da guerra em primeiro plano nacionalmente. O artigo do The Boston Globe parecia zombar da revista TIME. Sugeria que os escritos abordados no site do Josh eram muito mais imediatos e atraentes do que publicações daquela revista com o nome do jornalista.

O dia após o lançamento do artigo, 25 de Marco de 2003, a TIME exigiu que Josh parasse de escrever em seu blog. Isto foi pouco antes de Kevin, da CNN, ter sido proibido de continuar com as atividades blogueiras em seu site, o qual ganhava apoio popular durante a guerra. O trecho abaixo mostra os dois últimos posts de Josh no site de arquivos permanentes.

Muitos devem se lembrar que os blogs passaram por uma reviravolta às vésperas da “Batalha de Bagdá” em 2003. Salam Pax havia parado de postar em Dear Raed e diversos blogs ecoavam certo receio de que algo pudesse ter acontecido a ele (depois Salam Pax apareceu, a salvo). Kevin Sites e Joshua Kucera foram convidados a suspender suas postagens (após o termino da guerra, Kevin Sites deixou a CNN e voltou a publicar em seu blog). Sean Paul Kelly em Agonist.org foi acusado de plágio. O fim das postagens ativas de Josh foi um desdobramento decepcionante. O estilo de suas observações, em primeira pessoa, sobre assuntos como o preço da gasolina ou a abertura de casas de filme pornô, haviam me alertado para as novas discussões integradas dos muitos blogs de guerras. O tráfego no site de Josh chegou ao topo quando a noticia proeminente de seu fim veio à tona em publicação do The Wall Street Journal, no site da MSNBC e em um artigo aprofundado do The Chicago Tribune (Rose & Cooper 2003, Femia 2003, Ryan 2003). Ambas as emissoras, MSNBC e a BBC, haviam apoiado a causa do movimento dos blogs de Guerra. Até mesmo os hospedavam em seus sites oficiais. Para a Time Warner e a CNN era como se o movimento não existisse, apesar de toda a cobertura rotineira e entusiasmada dada aos blogs.

Enquanto eu trabalhava 10 horas por dia, seis dias por semana, para cobrir a Guerra do Iraque, também me via envolvida por um drama corrente: a cobertura da guerra dada pela mídia convencional havia sido desafiada pelo fenômeno da blogagem. O desafio era tentar criar significados para os conflitos entre dois universos totalmente diferentes em discurso. Um deles estava severamente limitado pelas suposições da mídia de massas, como aquelas sobre atitudes patrióticas dos EUA. O outro, o da blogosfera, situava-se mais firmemente em discursos relacionados à cobertura internacional da Guerra, o que diferia significativamente da ênfase dada pela mídia americana (focada em pontos de vista americanos).

Achei apropriado moldar retoricamente esses dois empreendimentos jornalísticas divergentes em ações do conhecimento epistêmico, uma versão macro de contraste entre o conteúdo do jornalismo corporativo e dos blogs internacionais de guerra. As diferenças começavam a se confundir à medida que eu considerava o jornalismo e a comunicação profissional dos blogs e klogs um produto comercializável, e também uma forma de conhecimento interativo e de ação do conhecimento.

Paulo Freire e a Ação do Conhecimento Empoderado

Vamos dar um passo atrás e pensar os blogs e klogs em termos de sua relação com entidades corporativas, muitas das quais, entendem o gerenciamento do conhecimento na era da informação como administração de finanças. Temos a impressão de que, em uma economia baseada na informação, blogs e klogs poderiam ajudar entidades corporativas a gerenciar as “propriedades intelectuais” de uma empresa, especialmente aquelas focadas em profissionais da informação. Mas quem gerencia quem? Foi dito que há uma crescente preocupação dentro das empresas com a evasão de seus melhores profissionais. Os lobos vestidos de ovelha poderiam ser os knowledge-logs que buscam a criação de artefatos baseados em bens da informação. O provável conhecimento disseminado tanto em klogs internos de empresas quanto em blogs de caráter público, blogs de jornalistas ou de caráter jornalístico extracurricular, ou blogs de outros peritos como escritores e comunicadores, criam uma espécie de conhecimento-mercadoria, existente em planos exteriores ao sistema econômico convencional de valor. Se entendidos como empreendimentos de imprensa formais, blogs e klogs podem ser pensados através de um modelo. Neste caso, a revista TIME se sentiria no direito de proteger seu próprio empreendimento contra um rival poderoso e competitivo, como fez quando exigiu a extinção do blog de Josh. Mas será que esses empreendimentos são mesmo empreendimentos de imprensa formais?

Paulo Freire foi um educador brasileiro que se engajou para encontrar soluções para como trazer a democracia a uma população colonizada e oprimida, a qual, mesmo esforçando sua memória, não se lembrava de ter conhecido nada semelhante. A alfabetização não era o único problema. A responsabilidade e o empoderamento da auto-suficiência tinham que vir de algum lugar. Ao invés de aceitar modelos tradicionais de ensino e aprendizagem, Freire percebeu que aqueles modelos, como o da “educação bancária” estavam na verdade, desviando dos princípios democráticos. Através destas percepções, ele desenvolveu a Pedagogia do Oprimido, seu trabalho mais famoso, e também o conceito de consciência critica ou conscientização, principal objetivo de seu modelo de educação. Este conceito determinava que as pessoas deveriam ser participantes ativos, e não meramente espectadores, deveriam fazer escolhas ao invés de serem oprimidas pela ilusão das escolhas. O pensador via tudo isso como características-chave para uma sociedade aberta (Freire, 1973).

Ao considerarmos o poder do cérebro do trabalhador um depósito de capital na era da informação, certamente, parece razoável que uma empresa desenvolva seu próprio capital intelectual e de conhecimento. É também uma forma de preservar e documentar os processos e políticas desenvolvidos por empregados, os produtos da informação, e resguardar-se contra a perda desses bens caso um empregado decida pedir demissão. O desenvolvimento intelectual de trabalhadores, sua continua educação e colaboração parecem sintonizar a idéia de uma empresa com força de trabalho ativa, pensante e colaboradora. Klogs internos, que dialogicamente exploram aspectos do produto do trabalho, projetos em grupo, processos, entre outros, teriam enorme valor como ferramenta refinadora dos tais bens em locais de trabalho. Desta maneira, tudo indica que os objetivos de Paulo Freire estariam alinhados com os dos criadores de softwares de auxílio ao gerenciamento de informação no trabalho.

Klogs são capazes de moldar o formato de um grupo de ferramentas destinadas a auxiliar o gerenciamento do conhecimento. Eles também atraem hierarquias corporativas, interessadas em saber o que seus empregados estão pensando e fazendo. Essas hierarquias podem até enxergar esses klogs como um mecanismo de vigilância. Tanto em artigos jornalísticas como em grupos de discussões dos klogs, essa questão é tomada como a razão pela qual há determinado receio (ou pouco entusiasmo) de colegas de trabalho quando são convidados a participarem de klogs. Isto é particularmente evidenciado em culturas corporativas, onde os trabalhadores têm medo de falar o que realmente pensam, mesmo que a repressão dos setores administrativos seja não-intencional e de maneira alguma, explícita, como eu e meus colegas da CNN Headline News discutíamos. Em tempos de recessão e constantes cortes nas empresas, onde muitos trabalham por duas pessoas, a maioria dos trabalhadores abaixa a cabeça e diz pouco, pois nunca se sabe se uma opinião direta irá afetar a chefia de forma equivocada. Muitos dos que trabalham em grandes corporações também testemunharam o descarte de profissionais de considerável capital intelectual, que ganhavam altos salários, e tinham mais de 50 anos. A justificativa das empresas era o corte de custos através da substituição dos mais velhos por jovens, que receberiam menores salários. Nesta situação, poderíamos entender que estes ótimos profissionais da maturidade não são valorizados.

La perruque, ou a Peruca

Algumas empresas enxergam a posse de produtos do trabalho intelectual de funcionários como uma vantagem. Justificam o fato pela segurança. Por exemplo: caso o funcionário deixe a empresa, esta possuiria todos os itens contidos em seu disco rígido. Marshall McLuhan (1963) demonstra que um disco rígido, como um livro, é uma extensão da mente do trabalhador. Mas quanto dessa atividade intelectual uma empresa pode, de maneira sensata, alegar possuir? Será que é permitido a uma empresa requerer aquilo que os funcionários escrevem trabalhando em casa? No caso de blogs pessoais de jornalistas, vimos que a Times Warner sentiu-se ameaçada pelas atividades blogueiras de Kevin Sites e Joshua Kucera. Isto implica que uma nova escala de valores está se sobrepondo ao dinheiro na economia de mercado. Mas este é um tipo de processo que advogados perspicazes poderiam vencer em cláusulas padrão.  E se Josh estivesse escrevendo as mesmas coisas que escrevia em seu blog, porém através de cartas a sua família? Será que ele poderia manter um blog protegido por senha, uma rede interna privada e pessoal, reservada ao acesso pela família e amigos (e outras centenas de pessoas)? Eu me ofereci para hospedar tal site, mas Josh receava que pudesse ter problemas. Então, não arrisquei. A Time Warner desejava o conteúdo intelectual do cérebro de Josh ou invejava o fato de o jornalista conseguir alcançar ampla audiência? Certamente, a segunda alternativa afetaria os brios de uma das maiores redes de mídia. Será que era o ponto de vista de Josh que incomodava tanto? O estilo é padrão em blogs e podemos chamá-lo de “primeira pessoa idiossincrática”, o que contrasta com a maneira despersonalizada da TIME de fazer reportagens.

Michel de Certeau descreve uma tática de distração em locais de trabalho chamada de ”la perruque,” ou “a peruca”, inserida nas, muitas vezes invisíveis, “artes da pratica”. Assim como um subterfúgio, “a peruca” é:

…the worker’s own work disguised as work for his [sic] employer. It differs from pilfering in that nothing of material value is stolen. It differs from absenteeism in that the worker is officially on the job. …The worker who indulges in la perruque actually diverts time (not goods, since he uses only scraps) from the factory for work that is free, creative, and precisely not directed toward profit. In the very place where the machine he must serve reigns supreme, he cunningly takes pleasure in finding a way to create gratuitous products whose sole purpose is to signify his own capabilities through his work and to confirm his solidarity with other workers or his family. (1984, pp. 24-26)

Em outras palavras, “a peruca” é uma forma de coleta textual em local de trabalho através da apropriação de produtos que, até certo ponto, são invisíveis ou de pouco valor. Em locais onde se trabalha com a informação, os “scraps” que entretêm os funcionários, funcionam como alívio para suas mentes. Dessa forma, o blog de Josh era constituído dos “restos” que ele percebia que a TIME não desejava publicar. Josh me disse que a TIME não estava tão preocupada em ser a primeira a possuir suas melhores observações. Sua preocupação real era não deixar ninguém mais conhecê-las. O alcance das publicações da internet através de softwares de blogs deu a estes chamados “produtos gratuitos” um valor não convencional, desassociado do dinheiro e da economia da informação. Os “produtos invisíveis” utilizados por Josh eram os acontecimentos que chamavam sua atenção e que não se encaixavam em atividades mais formais. Tudo indicava que os profissionais da informação iriam ter que erguer um muro em suas mentes, separando o trabalho para o empregador e o trabalho para eles mesmos. Talvez um repórter dissesse: “A revista TIME está alugando meus olhos atualmente. Ninguém mais tem permissão de utilizá-los neste momento…” Novas fronteiras estão surgindo para uma negociação.

Alguém pode até argumentar, no contexto dos klogs, que a “consciência crítica” de Freire é uma condição sub-valorizada no local de trabalho, como é a habilidade do funcionário de criar conhecimento e de transformar produtos de pouco valor em verdades sobre o ambiente de trabalho, melhores práticas de comunicação profissional e em conhecimento acumulado. Mas é aqui onde se encontra a subversão de blogs e klogs interativos e não editados. É uma região de cruzamentos de fronteiras diferentes, entre possíveis ações do conhecimento de especialistas, entre limites disciplinadores, entre sistemas populares e elitistas de acesso à pesquisa e tecnologia, limites entre vida profissional e pessoal, sem mencionar, para os que trabalham de sua residência, as fronteiras físicas entre trabalho e casa (Friedson, 1986; Gilbert & Mulkay, 1984; Edwards & Mercer, 1987; Geisler, 1994).

À medida em que blogs e klogs deixam de ser marginais e penetram nas principais correntes da comunicação, trazem consigo o subterfúgio da “peruca”, com participantes interativos e dialógicos que podem estar vivenciando as turbulências da consciência crítica, um dos principais objetivos para o alcance de uma cultura tecnológica mais democrática, assim como promovia o educador Paulo Freire. Mesmo que jornalistas estejam auxiliando colegas por meio de seus blogs públicos ou funcionários estejam ajudando no treinamento da utilização de klogs internos, qualquer que seja o caso, a consciência critica ativa supera a absorção passiva de informação.

O design dos blogs é orientado para a humanização e coleta textual. Seus participantes são ativos e dialógicos, não há audiência passiva. Em uma economia voltada para a informação, os klogs, aparentemente, permitem entidades corporativas a “gerir” os “bens intelectuais” da empresa. Mas klogs de redes internas e alguns de seus equivalentes em rede pública, como esses produtos do conhecimento criados por jornalistas durante a guerra do Iraque, têm o potencial de libertar vozes mais “humanizadas”. Este poder é capaz de forçar muitas instituições a encararem um diálogo mais consciente e empoderado e de despertar criatividades e poderes analíticos, mesmo quando outras instituições reagem fortemente e resistem às mudanças (fatos descritos e discutidos por Freire através de suas experiências no Brasil).

Enquanto eu me correspondia com Josh durante nossas diversas semanas de notoriedade, antes da Batalha de Bagdá, ele me disse algo importante. Josh havia trabalhado muitos anos como autônomo na Bósnia antes de se mudar ao Curdistão para cobrir a guerra. Depois que a TIME eliminou o blog, o jornalista ficou claramente incomodado. Fazia comentários mais enérgicos em seu blog, com certa pitada de raiva contra grandes corporações da mídia. Ele resistiu fortemente em se tornar um garoto propaganda ao movimento do jornalismo independente. Josh dizia que havia sido treinado para focar a história e não tornar-se a história. Ele expressou que, em quatro anos trabalhando como autônomo, nunca havia recebido tanto retorno e interesse por seu trabalho como durante aquelas semanas de postagens sobre a guerra do Iraque, durante o conflito.  Seus escritos estavam sendo publicados por uma das revistas de notícias de maior circulação no Oeste. Mesmo assim, os leitores de seu blog preocupavam-se com ele, importavam-se com ele, e davam ao seu trabalho um retorno constante. Ele ficou bastante comovido.

Isto também me afetou, mas de um modo diferente. Eu não conhecia Josh nem Carolina face a face, mas à medida que a guerra se aproximava de Erbil, eu me preocupava com ambos, envolvida em suas historias, em seus blogs. Quando eu não recebia seus emails com certa freqüência, ficava bastante ansiosa. Existia um lado humano, um nível de envolvimento pessoal. Os correspondentes de guerra haviam rompido a barreira impessoal das vozes jornalísticas.

As práticas de blogs e klogs

Ao desenvolver meu klog para a rede interna da Headline News, eu procurei me basear em alguns sites, que me ajudaram bastante, como o de Phil Wolff, chamado “a klog apart”. Wollf havia iniciado uma forma de pedagogia crítica e dialógica para ajudar entusiastas de klogs em organizações voltadas ao ensino da comunicação via blogs. Ele também abordava questões como o envolvimento dos trabalhadores no aprendizado da redação, não simplesmente de palavras, mas através de postagens de imagens, diagramas, áudio e vídeo, etc. Em um considerável numero de seus posts, parece que Wollf soa mesmo como um professor de redação, buscando formas de encorajar e empoderar escritores, ajudando colegas de trabalho a encontrar suas próprias vozes. Com a ausência de professores e salas de aula, a atmosfera do aprendizado e compartilhamento invoca não apenas Paulo Freire, mas também Peter Elbow (1973), em Writing Without Teachers.

Wolf coleciona dicas e truques para o uso de softwares de klogs, que são enviadas por seus contribuidores e correspondentes. Tais idéias se estendem da pratica à teoria, passando pelas projeções mais especulativas do “e se?” e por listas de idéias para softwares, em uma grande sessão colaborativa de brainstorm . Uma das postagens sugere que klogs podem ser usados para auxiliar apresentações do PowerPoint. Outra, chama a atenção para problemas de letramento em locais de trabalho. Há também algumas dicas aos aspirantes de professores de redação e idéias para empoderar escritores tímidos através do desenvolvimento de klogs multimídia, que misturam áudio, vídeo e uma lousa gráfica.

Poderes e políticas nos locais de trabalho são também temas de francas discussões em “a klog apart” e no klog do Yahoo. Um dos temas correntes destaca o medo da extensa vigilância dos supervisores (Foucault 1977).

Peter Elbow provavelmente reconheceria esses entusiastas de klogs como líderes de um workshop dialógico de redação, sem professores, mas com co-professores fora da sala de aula tradicional. Porém, há algo mais – algo parecido com o modelo de Freire, como resposta à  opressão, um tipo de opressão que Freire mesmo hesitaria em nomear como tal, centrada no Oeste super privilegiado. Mas se workshops de redações dialógicas e espontâneas estão surgindo nesse meio, não era isso o que Freire buscava construir fora dos socialmente limitados e muitas vezes autoritários espaços de sala de aula tradicionais? Como ferramentas que não apenas coletam textos da mídia de massas, mas também discorrem sobre a sala de aula, os klogs, assim como imaginados por Phil Wolf, têm  um início bastante auspicioso, pelo menos em teoria.

Por outro lado, também posso citar as dificuldades que encontrei ao lançar o meu klog para a rede interna da Headline News, logo após o término formal da guerra. O departamento administrativo promoveu uma série de seminários sobre redação e codificação de roteiros, que seria dado obrigatoriamente por editores, durante um período de seis semanas. Eu adaptei o klog que havia construído para especificamente receber as discussões sobre o seminário e reproduzir os folhetos informativos a respeito dos cursos. Fiquei incumbida de, durante a sétima semana da agenda, conduzir um treinamento sobre construção de klogs.

O klog que havia lançado teve um começo auspicioso. Apesar do entusiasmo da administração e minha da minha dedicação, redatores e editores pareciam mal preparados para usá-lo, a não ser como uma referência passiva de folhetos. Eu promovi o klog como um local para falar sobre o ofício de redigir e encontrar formas de trabalhar melhor. Os funcionários da Headline News são muito ambiciosos e estão sempre em treinamento para subir de posição, muitas vezes trabalhando horas extras ou fazendo jornada dupla. Mesmo assim, não encontravam maneiras de expressar o que era uma boa ou má redação para nosso contexto e audiência específicos. Redatores reclamavam, de forma oral, que os editores eram incapazes de conversar sobre o que poderia melhorar. Ao invés disso, diziam: “esta matéria esta muito ruim” e pronto. Eu esperava que nosso klog pudesse chamar a atenção para esses problemas. Eu pensava: “São jornalistas. O que fazem é escrever. Certamente, terão muito o que dizer.”

Passei a entender que as mesmas barreiras reais que dificultavam as postagens em nosso klog estavam presentes na cultura do trabalho da CNN e provavelmente, em muitas outras. Não era apenas medo de represálias. Pessoas em postos hierárquicos mais baixos, lutando para subir de posição, sentem medo de falar, pois podem comprometer suas chances de promoção, apesar dos estímulos positivos dados pelo pessoal administrativo. A maioria poderia expressar os fatos de uma história, mas não possuía o vocabulário necessário para falar sobre redação, em todos os aspectos. Estas são pessoas que também trabalham demasiado, estão exaustas e se arrastam para cumprir os estressantes turnos de uma rede de televisão. Chegam a um limite. Finalmente, eu não conseguia encontrar ninguém que não se sentisse intimidado pela tecnologia e pela internet, até mesmo aqueles que trabalhavam na sala de controle ou com edição de vídeos, e lidavam com procedimentos complexos na rede de sistemas da CNN system. Postar é ter uma voz, mas é preciso confiar nela. Eu encontrei pessoas que gelaram ao encarar o botão “Postar no Blog” do nosso klog e outras que pensavam nunca serem capazes de desvendar o blog, apesar de trabalharem em terminais todos os dias.

Nosso klog tem valor de banco de dados, uma interface que guarda materiais de treinamento, guias de estilo e políticas oficiais. É um método de busca mais facilmente utilizado e referenciado quando comparado aos arquivos dos computadores centrais. Mas esta é uma comunicação organizada a partir do topo hierárquico. O movimento de empoderamento nunca aconteceu em nosso klog. Como alternativa, tentei incentivar amigos da sala de noticias a criarem seus blogs pessoais. Ofereci minha ajuda, mas ainda estava intrigada com a resistência apresentada por redatores profissionais em desenvolver esse novo modelo de comunicação. Meu melhor palpite para o motivo de tão poucos terem aceitado a minha oferta está relacionado com o tom impessoal do jornalismo de mídia de massas. Ou seja, um tom que apaga o ponto de vista do autor. São autores que, todos os dias de trabalho, vivem tentando remover julgamentos e opiniões pessoais de suas matérias. Tudo isso para que o estilo de seus artigos assemelhe-se com a reportagem do âncora  do show.

Como grupos se desenvolvem quando moldam e são moldados por interfaces de blogs? Em parte, a resposta pode ser encontrada na repentina ascensão ao poder do movimento dos blogs, ganhando uma força social oposta às paginas estáticas da rede ou meramente geradas a partir de banco de dados, como as que eu estudei em minha pesquisa sobre o Universo de Xena e a constelação de web sites de fãs que rodeavam o programa de televisão “Xena: Warrior Princess,” (1998). Dada a complexidade de forças envolvendo interfaces e culturas, talvez ainda seja cedo para dizer, mas eu acredito que as características da interatividade, exclusivas ao movimento social dos blogs, mereçam grande parte dos créditos pela exploração de energia dialógica na internet. No entanto, não estou adotando nenhuma postura tecnologicamente determinística. As características da interface sem o movimento social não poderiam criar a mesma força. Este assunto foi abordado por Phil Wolfe em “a klog apart”, mas eu também descobri a importância do movimento social através do klog da Headline News. Parece algo como a questão do ovo e da galinha. Quem veio primeiro, a interatividade ou o movimento social? O movimento social que emerge da interatividade é empoderado pelas próprias características interativas. O estudo de Bruce Garrison’s (2001) sobre a “massa critica” envolvida na difusão de tecnologias da informação online em salas de noticia mostra como aumentos graduais em sua taxa de adoção podem criar um efeito social bola de neve.

O Universo de Xena foi um movimento social empoderado que existiu antes das interfaces de blogs se tornarem disponíveis. As comunidades conectadas e os comentadores regulares de alguns dos mais populares blogs, como Boing Boing ou Kuro5hin não precisam ser coagidos para participarem. Parecem que essas pessoas sentem que têm algo a dizer. Além disso, mostram suficientes habilidades técnicas para perceberem como as páginas da internet podem ser úteis, mesmo as formas mais simples. Ainda assim, grupos offline não migram para espaços online, mesmo com as tantas oportunidades existentes, ou facilidade de uso, e com vantagens de já serem um grupo de redatores profissionais habilidosos.

Conclusão

Um artigo publicado na  Business 2.0 considerava a questão: “Gestão por meio de Blog?” (2003) e concluiu que, apesar dos muitos fortes proponentes, o movimento dos klogs ainda não “pegou”. O artigo lembra que as empresas preferem incorporar características dos blogs em um web site de serviço aos clientes (assim com fez o Macromedia) do que usá-los como um método de trabalho em equipe para gerar conhecimentos, informar andamentos de relatórios, documentação de projetos, etc. Mas, por que a relutância? Talvez, pelo fato de que blogs provêm de um movimento social de raiz e, não necessariamente, do universo ponto.com, geralmente à procura de capitais associados. Os blogs só chamaram a atenção das empresas quando o Google lançou o Blogger. É possível que isso reflita a resistência dos funcionários ao uso de ferramentas dos blogs, fato que encontrei dentro da Headline News.

O artigo da Business 2.0 alega que a manobra do Google em comprar o Blogger, por si só, já fortalece o campo do gerenciamento da informação, que certamente será um grande negócio, Por outro lado, aqueles que estão acostumados coma super valorização exagerada e muitas vezes acrítica da Business 2.0, já ouviram a historia antes. Muitos que tentaram lançar klogs de rede interna em empresas perceberam que o obstáculo maior pode estar no treinamento de pessoal, com funcionários incomodados e estressados pelas horas extras de trabalho. Este problema foi muito bem discutido por Phil Wolff em “a klog apart”. Não estou preparada para declarar uma vitória tão fácil para os klogs, principalmente porque as fronteiras e os portões de acesso as redes internas ainda são fortemente dominados pelas culturas corporativas, baseadas no controle da informação, rigidez e reticência a aceitação dos conceitos de compartilhamento da informação. Tanto os funcionários dentro de empresas competitivas como as próprias corporações, que não desejam perder território no mercado, preferem continuar com suas tecnologias restritas e ferramentas obsoletas de administração do conhecimento do que experimentar um local de trabalho mais democratizado.

Podemos ver claramente como estes interesses são ameaçados pelas interfaces de blogs. Basta lembrarmos do que a Time Warner fez para tentar controlar o fluxo de conhecimento de suas “propriedades intelectuais”.  Joshua Kucera era um autônomo, não era nem mesmo um empregado registrado da Time Warner. A distinção podia ter sido questionável, já que a questão envolvia vantagens estratégicas através do poder e controle dos “scraps” intelectuais de Josh. Também ficaram perdidos os diálogos, o estilo de aprendizado e crescimento de Freire, os quais, finalmente, fortaleceriam o conhecimento de produtos no local de trabalho. Certos tópicos de discussão vão além dos limites corporativos e, portanto, é pouco conveniente que sejam anunciados em discursos públicos ou em redes internas de empresas, a não ser anonimamente em blogs de “protesto” como o enronsucks.com e outros do gênero.

Jornalistas empregados em grandes organizações de comercio do conhecimento, tal como a Time Warner, liberam essas mesmas tensões e conflitos em espaços públicos por meio de seus blogs pessoais. Desta forma, revela-se uma ruptura real em grande escala, que klogs podem criar em pequena escala dentro das organizações. Assim são as vozes em um diálogo que se opõem aos monólogos políticos e aos discursos com imposições de formas de pensar. No entanto, como percebi através das minhas experiências com o klog da Headline News, ainda existem muitos desafios a serem superados antes de grupos off-line puderem migrar com sucesso para o estilo interativo dos klogs.

Da mesma forma que Paulo Freire determinou a reflexão, o questionamento e o diálogo como ideais para estimulo da consciência crítica no Brasil, essas mesmas técnicas podem ser usadas em âmbito corporativo. Freire argumenta que a repressão e o antagonismo imposto pelas elites é muitas vezes resultado da conquista, pelos oprimidos, de poder de voz e consciência. Não se trata de nenhum golpe militar ou repressão, como ocorreu no Brasil. Mas eu acredito que estamos vendo e continuaremos vendo um retrocesso. Ainda assim, a grande força de oposição, que previne a volta do gênio para dentro da garrafa, pode ser encontrada, como descreveu de Certeau, na técnica de coleta textual de “a peruca”. Isto é, o trabalho do próprio trabalhador disfarçado de trabalho para seu empregador. Estarei observando a evolução desta resistência cultural a partir de minha condição de ciborgue feminino híbrido. Um retrocesso implica em surgimento de “movimentos clandestinos” ou, em outras palavras, movimentos escondidos por baixo da peruca.

March 25, 2003

Goodbye for now

My editors have demanded that I stop posting to this site until the war ends. And they pay the bills, so what can I do. Thanks everyone for reading, and I hope to be back here soon. Peace, Josh.

Posted by Josh at 10:00 PM |Comments (33) |TrackBack (0)

Referências

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2 Respostas to “035. Paulo Freire na Blogolândia”

  1. Blogs: estudos e análises « Boteco Escola Says:

    [...] Paulo Freire na Blogolândia [...]

  2. Chris Boese Says:

    Thank you so much for translating this! I am extremely flattered!

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