Garota da Uniban: culpada?

Novembro 14, 2009 por jarbas

burqa

Logo no início do caso da Garota da Uniban, postei aqui um trecho do filósofo  Adorno sobre educação e barbárie. Depois disso muita água rolou. A Uniban expulsou a moça. A Uniban readmitiu a moça. O MEC disse que ia pedir explicações (?) da, assim chamada, universidade. Twitters mil pipocaram sobre o caso. Colunas em jornais. Entrevistas na TV. Cobertura extensa do episódio. Aí veio o apagão, a Uniban respirou aliviada. Corremos o risco de esquecer o que de fato importa no acontecido.

Como ressaltei no meu primeiro post, a grande preocupação gerada pelo caso foi o de uma manifestação fascista reveladora de moralismos cínicos de uma turba que não aceita outros diferentes. Tudo rolou porque estudantes (?) da Uniban resolveram que a vestes de uma de suas colegas sugeriam que ela não era uma menina de bons costumes. Essa alegação serviu de motivo para pesados ataques verbais, agressividade para fotografar detalhes anatômicos da moça, ameças de estupro.

O episódio foi um caso grave de barbárie. Mostrou que a mesma turba, ou qualquer outra com as mesmas crenças, poderá amanhã ter como vítima um negro, um gay, um morador de rua, um crente de outra fé, um ser humano, enfim, com alguma diferença. Infelizmente a história já registrou muitos casos de barbáries com script semelhante ao caso da Uniban. A gente não pode deixar que isso volte e ganhe força em nosso mundo.

Muita gente na imprensa e na internet apontou os perigos da barbárie na linha que destaco aqui. Mas, por outro lado, muita gente, nos mesmos meios, prefiriu apontar possíveis culpas da moça da Uniban. Possíveis, não. Muita gente passou uma versão de que a turba estudantina (?) apenas manifestou indignação contra um comportamento imoral. Não me parece que a moça tenha praticado qualquer imoralidade. Ela apenas projetou um erotismo que é comum na TV, nas ruas e até mesmo em escolas.

Meus comentários já vão longe demais. Comecei esta conversa com a finalidade de mostrar um exemplo de gente que se perfilou para condenar a vítima. Escolhi para tanto carta de uma médica ginecologista à Folha de São Paulo (edição de 13 de novembro de 2009). A doutora nada diz sobre o ato de barbárie. Resolve condenar a vítima. Vamos ao que ela diz:

Não entendo mais o que são valores morais.

É claro que vivemos numa democracia, mas o direito de um termina quando o do outro começa.

A conduta descabida, o erotismo e o modo de vestir-se e de se portar dessa garota desviava a atenção dos alunos das aulas, prejudicando o bom desempenho daqueles que ali se encontravam na luta de um espaço no mercado de trabalho nesse mundo altamente competitivo.

Ela queria chamar a atenção para si e conseguiu o seu intento com êxito, pois essa nossa sociedade nos surpreende com tamanha tolerância, fazendo dessa aluna ‘um exemplo, um ícone’ para os demais jovens brasileiros. (Socorro Magalhães, médica ginecologista e obstreta – Fortaleza, CE).

Os argumentos da doutora se baseiam em lugares comuns e num moralismo arrogante. Não vale a pena analisar com mais cuidado o texto que ele enviou para a Folha. Reparo apenas que não há no escrito dela uma letra contra os fascistas que ameaçaram uma mulher que os enfrentou com a única arma que tinha, sua beleza.

Para ilustrar est post busquei na internet materiais fotográficos sobre burcas. Reproduzi um deles. Vai ver que os moralista querem que nossa meninas vistam-se como essas comportadas mulheres de roupa azul

Censura ou educação com liberdade?

Novembro 13, 2009 por jarbas

censurta inter

Hoje, numa arrumação para colocar meus papéis em ordem, encontrei trecho de texto que estava preparando sobre censura à internet em escolas e empresas. O escrito ficou inacabado, pois eu tinha a intenção de escrever uma artigo mais ou menos longo, mas os muitos trabalhos acumulados me inpediram de terminar a empreitada. De qualquer forma, acho bom colocar parte do que escrevi para exame público.

Com isso volto mais uma vez a um tema recorrente, a censura na internet. Aliás, faz uma semana que a censura me deixou indignado. Selecionei algumas WebQuests para análise de meus alunos. Publiquei os links aqui no Boteco. Ao iniciar os trabalhos no laboratório, pedi aos estudantes para que visitassem as WQ’s indicadas. Logo um deles me chamou para dizer que havia um problema. Em vez do site desejado, aparecia na tela uma mensagem de que o endereço não era aceito. Achei que o sistema da universidade estivesse bolqueando o material por suspeita de spam, afinal tratava-se de sítio da Universidade do Minho, uma estranha referência na academia brasileira.

Fui reclamar com o suporte. Ele me prometeu verificar. Voltei ao laboratório. Aí caiu a ficha: as duas WQ’s selecionadas tinham uma palavra maldita no título: JOGO. E as ferramentas de bloqueio odeiam jogos, games, juegos e assemelhados. Coisa do demônio. Motivo de distração. Pecado na academia. Passei a informação para o suporte. Ele me disse que eu precisaria de uma permissão especial para que meus alunos acessassem aquele material suspeito. Menino de boa vontade, ele tentou falar com os poderosos controladores dos bloqueios à internet na universidade. Os deuses da informática não estavam disponíveis. Meus alunos não conseguiram ver o que eu queria que eles vissem. Ponto para a censura.

Volto ao texto que anunciei no começo desta conversa e sem mais delongas copio-o a seguir.

Visito a sede da instituição em que trabalhei durante trinta anos. Já não conheço quase ninguém. Encontro finalmente alguém do meu tempo, o garçom da diretoria. Ele me convida para ir até a copa para um café tirado na hora. O ambiente é o mesmo de oito anos atrás. Noto apenas uma mudança: na salinha dos funcionários da copa há agora um computador. A moça que serve café num carrinho pelos andares do prédio está fazendo pesquisa na internet. Não sei se tal uso da rede é trabalho ou lazer. Deve ser trabalho. A instituição é muito rigorosa na administração dos usos da internet. Para garantir que seus empregados não saiam da linha, bloqueia tudo que supostamente pode afastar as pessoas de suas obrigações profissionais.

O episódio com o qual inicio esta conversa retrata a presença da internet por toda parte. Retrata também familiaridade de gente de todas as classes com as novas ferramentas de informação e comunicação. E sugere uma preocupação: muitos temem que os trabalhadores deixem suas obrigações de lado para se perderem nos imensos mares de informação e diversão da rede mundial de computadores. Para evitar que isso aconteça, as organizações contratam serviços de bloqueio (censura). Em muitos ambientes empresariais é impossível baixar imagens; é impossível também pesquisar sites buscados por meio de palavras como jogo, sexo, nudismo, música ou diversão. Além disso, as ferramentas de bloqueio impedem acesso a sites de relacionamento.

Toda essa paisagem parece tranquila e lógica. Mas não é bem assim. As explicações para bloqueios da internet são marcadas por um discurso moralista que vê os trabalhadores como gente sempre disposta a escapar de suas obrigações. E as medidas de bloqueio, aparentemente técnicas, acabam se convertendo em práticas de censura. Nesse clima, inocentes e culpados são punidos por anrtecipação. E surgem resistências na forma de dicas para burlar o sistema. Surgem os partisans. Com isso a censura aumenta. Fica mais burra e violenta.

O texto encontrado tem mais coisas. deixo-as para outra ocasião.

Fica aqui, mais uma vez, meu protesto contra a censura à internet

Não é tarefa

Novembro 6, 2009 por jarbas

Acabo de receber indicação de três WebQuests. Quem as encaminhou sugere que as mesmas tem exemplos de boas tarefas. Não posso concordar. Todas as três WebQuests que me foram enviadas reduzem o conceito de tarefa a trabalhos escolares, a atividades que podem tornar as aulas mais “legais” (sic). Falta, em todos os casos, a essência definidora de tarefa. Antes de seguir em frente, forneço aqui os links para as WQ’s objeto deste post:

A idéia de tarefa em WebQuest ou em planos de estudo com objetivos similares aos estabelecidos por Bernie Dodge exige mudança radical em modos de propor “trabalhos” para os alunos. É preciso romper completamente com uma concepção ativista e buscar desafios que correspondam a usos significativos do conhecimento. Há mais aspectos a serem considerados, mas não vou fazer isso agora. Vou aproveitar o acontecido para propor  uma conversa sobre a alma do modelo WebQuest. Particularmente, quero saber o que pensam meus alunos.

Para recolher as opiniões dos meus alunos, vai aqui o roteiro do que espero deles.  Meninos e meninas:

  1. Examinem as supostas tarefas propostas nas três WebQuests cujos links forneci no início deste post.
  2. Escolham uma delas para uma análise bem fundamentada.
  3. Leiam e releiam a suposta tarefa da WQ que vocês elegeram para análise.
  4. Listem os aspectos de tais supostas tarefas que contrariam o conceito de tarefa conforme a proposta original do modelo WebQuest.
  5. Elaborem um texto analítico mostrando, com base em referências que podem ser encontradas neste blog e na apostila de nossa matéria, por que a WebQuest eleita por vocês não tem uma tarefa como manda o figurino.
  6. Convertam suas análises em comentários a este post.

Atenção. Como já afirmei, nenhuma das três WebQuests aqui indicadas tem uma tarefa que corresponde ao conceito desta parte do modelo criado por Bernie Dodge.

Outros visitantes deste Boteco estão convidados a fazer o exercício proposto. Aguardo comentários. Voltarei ao assunto mais tarde para expressar minhas opiniões sobre as três WebQuests que me foram encaminhadas como bons exemplos.

Prova no blog

Novembro 5, 2009 por jarbas

Faço aqui uma experiência. Chego ao final do semestre e  quero verificar saberes de minhas alunas do 4º de pedagogia sobre tecnologia educacional. Não vou propriamente fazer uma prova. Vou indicar uma tarefa de final de curso.

Tenho a impressão de que a maioria dos educadores vêem tecnologia com óculos do instrumentismo. Isso exagera o poder dos artefatos e, ao mesmo tempo, pode levar a usos inadequados das TIC’s. Escrevi e falei sobre isso nos últimos anos. Uma parte do que penso aparece numa entrevista para o CENPEC. Com mais detalhes, abordo a questão num artigo que foi publicado na revista eletrônica Quaderns Digitals. Vou utilizar essas duas referências para propor a atividade avaliativa para as minhas alunas. Leitores e frequentadores deste Boteco também estão convidados a entrar na dança, pois meu objetivo maior é o de registrar aqui uma boa conversa sobre dois temas: necessidade de imaginação para utilizar tecnologia em educação,  e enganos do instrumentismo.

Preciso ser mais claro e direto. Das minhas alunas, espero:

  • Leitura atenta da entrevista e do artigo.
  • Escolha de um dos temas – tecnologia e imaginação ou instrumentismo – com objeto de análise.
  • Redação de pequeno ensaio de uma lauda (22 linhas), tendo com referência os dois textos citados. Observo que o ensaio pode ser opinativo, mas deve levar em consideração as idéias que aparecem em ambos os textos. As autoras podem inclusive mostrar discordâncias, desde que os argumentos sejam de qualidade.
  • Publicação do ensaio, aqui no Boteco Escola, na forma de comentário.
  • Execução da tarefa até o dia 23 deste mês de novembro.

Falta indicar onde os textos podem ser encontrados. Aqui vão so links:

Tecnologia da informação: o que falta?

Novembro 2, 2009 por jarbas

Escrevi, anos atrás, um texto para provocar reflexões num evento que deveria associar tecnologia e imaginação. Deveria… Na execução, os organizadores acabaram apelando para antigas fórmulas. Além do texto de fundamentação, respondi a algumas perguntas feitas pela assessoria de imprensa do evento. Infelizmente, para os jornalistas do pedaço, não dei respostas que poderiam virar manchetes. Nem fiz comentários na direção do deslumbramento tecnológico promovido por fabricantes e assumido por gente de imprensa como “tendências”. Segue aqui parte de minha resposta sobre como estimular a imaginação pedagógica.

A engenhosidade dos novos equipamentos nos atrai enquanto dura a novidade. Depois, viram lugar comum. Não provocam mais deslumbramentos. Ingressam no nosso dia-a-dia. Assim, as novidades tecnológicas são efêmeras. Por isso procuro mostrar que tais inovações podem ter efeitos muito pequenos em educação se não percebermos onde podem estar as conseqüências permanentes das novas tecnologias da comunicação em nossas vidas. Novos meios de comunicação e informação abrem janelas para modos originais de informar, aprender, elaborar saberes. Mas isso não é óbvio. No geral, continuamos a organizar as informações como antigamente nos novos meios. Qual o motivo? Aproveitar as janelas que se abrem não é coisa banal. É um desafio que exige a criação de formas originais apresentar as representações do saber humano. Mas nós continuamos a contar do mesmo jeito as velhas histórias nos novos meios. O cientista Donald Norman observa que um uso original das novas mídias só vai acontecer quando artistas inventarem  modos completamente novos e surpreendentes de fazer comunicação.

Não acredito que educadores presos às fórmulas pedagógicas comuns sejam capazes de criar formas de comunicação originais. Anos atrás, meu amigo Bernie Dodge levou seus alunos de mestrado em Tecnologia Educacional para um seminário de imersão em redação de ficção científica. Intrigado, disse a ele que achava aquilo muito estranho. Com alguma paciência, ele me explicou que escrever ficção científica poderia ser um modo de destravar o convencionalismo dos educadores. Não era uma solução. Mas uma forma de fazer com que educadores se livrassem das fôrmas da didática. Isso significa livrar-se de chavões, de uma linguagem pesada e pretensiosa, de messianismos, de formatos didáticos etc. E o resultado pode ser algo aparentemente não educativo. Mas os formatos não educativos, se atraentes, podem educar mais que manuais feitos com boa didática mas nenhuma inspiração…

Taí a amostra. Em posts futuros coloco mais alguns trechos desta minha entrevista que acabou não indo para os jornais.

WebQuest com alma

Novembro 1, 2009 por jarbas

Acabo de ver que um texto meu, publicado originariamente em espanhol, foi colocado na Web. Não sei quem é o autor ou autora da façanha. Não sei se a versão do escrito está revisada. E não reclamo. O texto que escrevi pode ser divulgado livremente, desde que citada a fonte. Para os interessados, aqui vai o link da minha descoberta:

NTIC’s: imaginação é fundamental

Novembro 1, 2009 por jarbas

A imaginação é mais importante que o conhecimento

Albert Eistein

Novas tecnologias sempre nos desafiam a redesenhar espaços, produções, modos de organizar a sociedade, formas de comunicação, relações com os outros, conhecimentos, a vida enfim. Mas as mudanças não acontecem imediatamente, pois  as novidades técnicas geradas por soluções de engenharia são apenas um começo. Para produzirem efeitos inteiramente novos, as tecnologias que entram na história precisam ganhar contornos originais, superando antigos modos de ver o mundo e a vida. Caso contrário elas apenas resultarão num fazer “más de lo mismo” como dizem os espanhóis.

Redesenhar espaço e vida a partir do potencial de uma nova tecnologia não é tarefa simples. No começo quase sempre se opta por manter as velhas formas. Um exemplo clássico disso aconteceu com os automóveis. Os primeiros carros a motor tinham a cara das velhas carruagens. O assento do motorista era desenhado num lugar alto assemelhado ao espaço antes destinado ao cocheiro. Os primeiros desenhistas de automóveis não perceberam uma mudança fundamental: o cavalo deixara de ser a força motriz. Assim, o cocheiro, digo o motorista, não precisava mais de ficar numa posição que favorecesse o controle do animal de tração. Passaram-se alguns anos para que os designers de veículos automotores começassem a produzir uma arquitetura mais adequada ao novo veículo.

O caso dos automóveis tem uma grande vantagem: pode ser mostrado graficamente. Há, porém, outros exemplos mais expressivos que a gente quase sempre ignora uma vez que o design de produtos para a nova tecnologia não passou por uma fase de cópia do velho paradigma. A dificuldade no caso era de outra natureza: como inventar situações criativas e inteiramente originais que aproveitem o potencial de uma nova tecnologia. O exemplo mais ilustrativo dessa outra circunstância é o cinema. A invenção dos irmãos Lumière foi, durante décadas, uma curiosidade que atraia multidões mas nada acrescentava em termos de comunicação. Admirava-se, no caso, a novidade de imagens em movimento. Mas o cinema como o conhecemos teve que esperar o gênio de Griffith que, no ano de 1915,  em “O Nascimento de uma Nação”, fez o primeiro filme com as características da arte cinematográfica. Por causa de exemplos como o do cinema, Donald Norman, ao apresentar Computer as Theatre, livro de Brenda Laurel, faz a seguinte observação:

Já é hora dos engenheiros voltarem para a engenharia. Para desenvolver estas novas tecnologias [tecnologias de comunicação e informação] precisamos de uma nova raça de pessoas criativas, principalmente aquelas envolvidas com poesia, escrita e direção teatral.

Além de Norman, importantes pesquisadores da área das ciências do conhecimento como Alan Kay, Terry Winograd, Brenda Laurel,  Nardy e muitos outros insistem na idéia de que usos mais amigáveis, efetivos e humanos das novas tecnologias da informação e da comunicação dependem de invenções criativas de “artistas”, não de mais e mais soluções inventadas por “engenheiros”.  Esta convicção gerou nos últimos anos muita pesquisa no campo da interação entre os seres humanos e os novos sistemas de informação e comunicação. Volto a citar Donald Norman para mostrar uma direção que me parece interessante:

No passado, a tecnologia tinha de se preocupar com a adaptação aos corpos das pessoas; atualmente ela tem de se adaptar às mentes dos seres humanos. Isto significa que as velhas abordagens não funcionam mais. Os mesmos métodos analíticos que se aplicavam tão bem às coisas mecânicas não se aplicam às pessoas. Hoje em dia,  ciência e engenharia  geralmente vêem o desenho das máquinas desde um ponto de vista que é centrado nas próprias máquinas. Este ponto de vista acaba influenciando o modo pelo qual as pessoas são vistas. Conseqüentemente, a tecnologia planejada para ajudar a cognição e prazer humanos muitas vezes mais interfere e confunde que ajuda e clarifica.

A análise de Norman clareia uma das tendências para a qual não estamos muito atentos: a de que o senso comum nos leva a acreditar que é preciso adaptar-se às máquinas e sistemas. Este desvio faz com que nos esqueçamos de que comunicação e informação são atividades “humanas”. Máquinas, equipamentos e sistemas deveriam apenas oferecer-nos oportunidades para expandir nossas capacidades de criar, negociar, transformar e usar informações para enriquecer a vida. Felizmente a submissão a conveniências de engenharia no desenho de máquinas e equipamentos vem sendo substituída por uma atitude que procura encontrar caminhos determinados pelas necessidades e características humanas. Tal tendência é bastante nítida hoje nos estudos sobre interfaces dos sistemas computacionais.

Os estudos e tendências delineados nos parágrafos anteriores podem nos alertar quanto a cuidados que precisam ser tomados em educação no que se refere a usos de novas tecnologias da informação e da comunicação. Aparentemente, ainda predominam em educação entendimentos de que os usos das novas tecnologias devem ser determinados por conveniências de engenharia. O laboratório de informática nas escolas, com um informata responsável por seu uso, é uma evidência de tal fenômeno. A insistência em treinamentos “informáticos” para professores é outra. Ao observamos o uso das novas tecnologias em educação sentimos um certo vazio.Falta alguma coisa no cenário. Falta imaginação. Parece que ainda estamos usando os novos meios da mesma forma que o cinema foi concebido até a revolução de formato criada por Griffith. Submetemo-nos ás conveniências da engenharia, deslumbrados com as inúmeras novidades técnicas que aparecem continuamente.

Como mudar o jogo? Recorro mais uma vez ao exemplo do cinema. A tecnologia das imagens em movimento só se tornou uma forma importante de comunicação quando um artista inventou modos de fazer cinema para contar histórias, emocionar, criar suspense etc. Assim, para mudar o jogo, estamos precisando de projetos educacionais que recriem as novas tecnologias “com imaginação”. E, como diz Norman, escritores, atores, poetas, pintores, artistas gráficos, músicos, comunicadores são os profissionais de quem se pode esperar uma mudança significativa nos usos de novas tecnologias em educação. Mas não podemos ficar esperando. Devemos ser proativos. Ou seja, é preciso que os educadores utilizem as inspirações das áreas de arte e comunicação para criar formas verdadeiramente novas de ensinar e aprender.

Avaliação em EaD

Novembro 1, 2009 por jarbas

sabaFaz uns nove anos que tive uma conversa interessante sobre EaD com Fred Saba, professor de EdTech na SDSU. Fred acabara de publicar um pequeno artigo sobre a questão de estrutura em materiais para cursos de educação a distância. No texto, o professor da SDSU mostrava que é precisso muita estrutura (prevendo quase tudo o que pode acontecer no processo de aprendizagem de um dado conteúdo) para que o material seja efetivo. A razão principal de exigência de estrutura no caso, segundo Saba, era a impossibilidade do educador receber aqueles feedbacks tão normais nos contatos cara a cara.

Anos depois, convidado para falar sobre avaliação num evento promovido pelo CEE de São Paulo, lembrei-me da conversa com Fred e resolvi usar o artigo dele como prinicpal referência na conversa com os educadores (conselheiros de outros conselhos estaduais de educação), convidados pelo CEE/SP). Agora, ao mexer nos meus guardados, acabo de ver os eslaides que preparei para a ocasião. Acho que a abordagem que fiz ainda pode ser útil em discussões sobre avaliação em EaD. Por essa razão resolvi publicá-la no Slideshare. Se quiser ver o citado material, basta clicar no título destacado a seguir:

Garota da Uniban, educação, e barbárie

Outubro 30, 2009 por jarbas

Em meu twitter tenho insistido que as agressões a uma estudante na Uniban é um caso de barbárie. Preciso qualificar esta minha insistência. Para tanto, copio aqui parte de um subsídio que escrevi para minhas aulas de filosofia em 2006.

Há um livrinho do Adorno que os educadores precisam conhecer. Trata-se de Educação e Emancipação, editado no Brasil pela Paz e Terra em 1995. Num dos capítulos da obra, o filósofo conversa sobre a questão “Educação e Barbárie”. Cito a seguir alguns trechos do mencionado capítulo:

Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que , estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontram atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza. Considero tão urgente impedir isto que eu reordenaria todos os outros objetivos educacionais por esta prioridade. (p. 155).

Eu começaria dizendo algo terrivelmente simples: que a tentativa de superar a barbárie é decisiva para a sobrevivência da humanidade. (p.156)

… porém entendo com sendo fatores objetivos neste caso os momentos sociais que, independentemente da alma individual dos homens singulares, geram algo como a barbárie. (p.156)

A forma de que a ameaçadora barbárie se reveste atualmente é a de, em nome da autoridade, em nome de poderes estabelecidos, praticam-se precisamente atos que anunciam, conforme sua própria configuração, a deformidade, o impulso destrutivo e a essência mutilada da maioria das pessoas. (p. 159)

Isto é, desacostumar as pessoas de se darem cotoveladas. Cotoveladas constituem sem dúvida uma expressão de barbárie. (p. 162)

Adorno entende que uma das principais (talvez a principal) finalidades da educação é  a de formar gente que evite a barbárie no mundo em que vivemos. Para sustentar essa posição não é possível partir de um entendimento de que  verdades ou princípios morais universais são impossíveis. Ou, para colocar a questão como o fiz no início deste subsídio, sem verdades a educação é impraticável.

Novecento

Outubro 29, 2009 por jarbas

1900

Aqui no Boteco os comentários chegaram a 1.900. Resolvi divulgar a façanha. Não quero elogios. Quero mais comentários. Minha meta: chegar a 2.000 comentários até o final deste ano. Tenho fé que chego lá, mas dependo de você. Que tal fazer um comentariozinho sobre este post de auto-promoção? O ego deste dono de boteco vai ficar inchado e satisfeito.

Blog sem comentário é como macarronada sem queijo, arroz sem feijão, amor sem paixão. Aproveito para dizer que isso tudo tem a ver com o aprender a blogar, pois os comentários são a forma mais usual de conversa cá na blogosfera. Vamos, portanto a um dedo de prosa. Prometo que no final do ano, se atingir a meta dos 2.000, convido os comentaristas para um chope no Amigo Leo.