
Logo no início do caso da Garota da Uniban, postei aqui um trecho do filósofo Adorno sobre educação e barbárie. Depois disso muita água rolou. A Uniban expulsou a moça. A Uniban readmitiu a moça. O MEC disse que ia pedir explicações (?) da, assim chamada, universidade. Twitters mil pipocaram sobre o caso. Colunas em jornais. Entrevistas na TV. Cobertura extensa do episódio. Aí veio o apagão, a Uniban respirou aliviada. Corremos o risco de esquecer o que de fato importa no acontecido.
Como ressaltei no meu primeiro post, a grande preocupação gerada pelo caso foi o de uma manifestação fascista reveladora de moralismos cínicos de uma turba que não aceita outros diferentes. Tudo rolou porque estudantes (?) da Uniban resolveram que a vestes de uma de suas colegas sugeriam que ela não era uma menina de bons costumes. Essa alegação serviu de motivo para pesados ataques verbais, agressividade para fotografar detalhes anatômicos da moça, ameças de estupro.
O episódio foi um caso grave de barbárie. Mostrou que a mesma turba, ou qualquer outra com as mesmas crenças, poderá amanhã ter como vítima um negro, um gay, um morador de rua, um crente de outra fé, um ser humano, enfim, com alguma diferença. Infelizmente a história já registrou muitos casos de barbáries com script semelhante ao caso da Uniban. A gente não pode deixar que isso volte e ganhe força em nosso mundo.
Muita gente na imprensa e na internet apontou os perigos da barbárie na linha que destaco aqui. Mas, por outro lado, muita gente, nos mesmos meios, prefiriu apontar possíveis culpas da moça da Uniban. Possíveis, não. Muita gente passou uma versão de que a turba estudantina (?) apenas manifestou indignação contra um comportamento imoral. Não me parece que a moça tenha praticado qualquer imoralidade. Ela apenas projetou um erotismo que é comum na TV, nas ruas e até mesmo em escolas.
Meus comentários já vão longe demais. Comecei esta conversa com a finalidade de mostrar um exemplo de gente que se perfilou para condenar a vítima. Escolhi para tanto carta de uma médica ginecologista à Folha de São Paulo (edição de 13 de novembro de 2009). A doutora nada diz sobre o ato de barbárie. Resolve condenar a vítima. Vamos ao que ela diz:
Não entendo mais o que são valores morais.
É claro que vivemos numa democracia, mas o direito de um termina quando o do outro começa.
A conduta descabida, o erotismo e o modo de vestir-se e de se portar dessa garota desviava a atenção dos alunos das aulas, prejudicando o bom desempenho daqueles que ali se encontravam na luta de um espaço no mercado de trabalho nesse mundo altamente competitivo.
Ela queria chamar a atenção para si e conseguiu o seu intento com êxito, pois essa nossa sociedade nos surpreende com tamanha tolerância, fazendo dessa aluna ‘um exemplo, um ícone’ para os demais jovens brasileiros. (Socorro Magalhães, médica ginecologista e obstreta – Fortaleza, CE).
Os argumentos da doutora se baseiam em lugares comuns e num moralismo arrogante. Não vale a pena analisar com mais cuidado o texto que ele enviou para a Folha. Reparo apenas que não há no escrito dela uma letra contra os fascistas que ameaçaram uma mulher que os enfrentou com a única arma que tinha, sua beleza.
Para ilustrar est post busquei na internet materiais fotográficos sobre burcas. Reproduzi um deles. Vai ver que os moralista querem que nossa meninas vistam-se como essas comportadas mulheres de roupa azul

Faz uns nove anos que tive uma conversa interessante sobre EaD com 