Novas tecnologias e ser no mundo

Novas tecnologias facilitam controle e são, por isso, muito utilizadas pelo poder corporativo, político, institucional. Esse é um tema que já estava presente na obra fundamental sobre usos sociais dos computadores, Computer Power and Human Reason: From Judgment to Calculation , de Joseph Weizenbaum. E sob outras referências, ele foi retomado recentemente por Matthew Crawford em Why We Drive. No que segue, vou citar trechos de recente entrevista de Crawford sobre seu livro.

>>> cada vez mais a tecnologia resulta em erosão do espaço para habilidades de ação humana inteligente.

>>> muitos domínios de ação humana foram colonizados pelos sistemas que agem por nós, sejam eles burocráticos, sejam eles tecnológicos.

>>> carros sem motoristas são um exemplo deste padrão muito amplo de mudanças em nossa relação com o mundo físico no qual as demandas de de habilidades e competência dão lugar a promessas de segurança e conveniência, como um tipo de situação que tira os seres humanos do loop de controle das ações.

>>> acho que já fomos muito longe […], o mundo inteiro começa a se parecer com um local de vida delegada [um local em que a tecnologia “vive” por nós].

O ponto de partida do novo livro de Matthew Crawford são as notícias otimistas de que os carros do futuro próximo não precisarão de motoristas, terão programas poderosos que garantirão circulação dos veículos por toda parte, sem necessidade de um ser humano por trás da direção. No anúncios desses carros do futuro destaca-se melhoria da segurança, tráfego melhor organizado, liberação do ex-motorista para que este possa fazer o que queira durante a viagem [quase sempre liberação para usar o celular…]. O autor mostra que essas supostas vantagens afastarão os seres humanos de suas relações com o mundo físico, além de eliminar habilidades e responsabilidades das pessoas nos espaços de circulação com veículos. Carros sem motoristas são apenas um dos casos em que a tecnologia é utilizada para mais afastar os seres humanos de experiências imediatas com o meio que os cerca. Isso significa uma mudança radical de ser no mundo, pouco percebida por todos nós, embarcados em viagens tecnológicas aparentemente promissoras, mas marcadas por dependência cada vez maior de sistemas burocráticos e tecnológicos de controle social.

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