TIC e Educação: Onde as coisas mudam? (2)

Meu post anterior foi proposto como tema de conversa no blog da Tatiane Martins. A conversa lá e em outros espaços do ciberespaço está muito boa. Compareci no blog da Tati para deixar um comentário. Mas, como dizia Pascal, não tive tempo para ser breve. Acabei escrevendo demais e rompi a barreira de espaços próprios para comentários. Solução: trouxe meu texto para cá no formato de post.

No meu escrito, menciono o Sérgio Lima, pois ele fez uma ponte que não aceitei, sugerindo que minha crítica à domesticação de invenções da internet tem a ver com preconceito meu ao associar chatura com didática. Talvez eu tenha escrito de forma a ser entendido neste sentido (aliás, como aprendi a partir de uma declaração de Susan Sotang, quem dá sentido ao texto é o leitor).

No meu comentário que virou post, tento mostrar que minhas considerações tem a ver com ontologia. Ou seja, em muitos usos educacionais as midias são alteradas em sua natureza, e por isso perdem alma, perdem essência. Isso nada tem a ver com provável preconceito meu contra a didática. Isso é uma questão ontológica.

Já expliquei demais o meu texto. Acho bom parar por aqui e copiá-lo para este espaço. Aqui vai o tal:

Acho um erro didatizar ou pedagogizar as mídias. A pedagogização das mídias funciona como um tipo de domesticação de animais selvagens. Todo processo de domesticação limita muito o potencial dos animais. Por essa razão, sempre achei que os shows da Baleia Shamoo (em todos os casos, um exemplar de orca) nos parques do Sea World são atos de crueldade. As orcas são muito mais inteligentes e espetaculares que o bichos tristes, presos a um cativeiro que lhe reduz anos de vida, capazes de executar uma rotina de proezas criadas pelo treinador.

 

Não vou elencar aqui o que pode ser dito a partir da metáfora da Baleia Shamoo. Apenas peço aos leitores que a considerem em suas análise de usos de ferramentas de informática no espaço escolar.

 

No meu texto inicial sobre o tema, concluo dizendo que os educadores devem continuar suas tentativas de usar TIC em educação, pois acredito que encontraremos bons caminhos. Ou seja, não sou uma nova espécie de luddita que quer quebrar tudo e ver o circo pegar fogo. Profissionalmente já fiz muitas coisas no ramo. Quebrei a cara. Tive alguns acertos. Aprendi muito.

 

Caro Sérgio, no texto, não associei chatura a didatismo. Até poderia fazê-lo, pelo menos no contexto acadêmico. As aulas mais chatas que tive na vida foram as de didática.

 

O que tentei ressaltar foi que os educadores não percebem as virtudes da mídia e, ao usar novos meios de comunicação, impõem a eles um modelo que os castra. Ás vezes os produtos educacionais que utilizam novas mídias são até divertidos. Recentemente vi alguns deles, feitos por gente que entende muito de tecnologia, construídos como jogos em 3D. Infelizmente, os jogos, abordando problemas de português e de matemática, são pouco autênticos, sem alma.

 

Sem alma. Este é ponto central da nota que fiz a partir de um artigo da Marion Strecker. Blogs didatizados, solenes, acadêmicos, não tem alma. O mesmo pode acontecer com Twitter, Face Book, aplicativos para construir histórias animadas etc.

 

Há alguns anos, num laboratório de informática, vi uma educadora dando uma olhada no meu blog, o Boteco Escola. Ela não sabia que o blog era meu e, talvez por isso, me disse: “que coisa horrorosa professor, como é que alguém pode associar boteco e escola?” Acho que ela gostaria do título do meu primeiro blog (dos idos de 2003): Nova Educação. Fiquei imaginando como aquela moça introduziria alguma proposta de uso de blogs entre seus alunos. Acho que a primeira providência seria a de eliminar a alma blogal.

Acho que tenho alguma dificuldade para comunicar minha opinião sobre o erro de ditatizar mídias. Tento clarear a coisa, pra mim e pra prováveis leitores. E vou fazer isso, considerando dois pontos.

Ponto 1: impacto cultural de novos meios de comunicação. Novas tecnologias geram impactos ambientais. Quando a televisão entra em cena e passa a ser um meio importante em nosso mundo, a conta não era velho mundo + televisão. Novos meios não são aditivos. São transformativos, pois novas espécies quando ingressam num velho ambiente tudo mudam. O mesmo pode ser dito do cinema. Etc.

 

Quando penso nos impactos de novas mídias em educação, penso que há transformações radicais que precisam ser compreendidas pela escola. Essas transformações têm certamente efeitos importantes em jogos de aprendizagem.  Meus antigos professores, que desconheciam a transformação que a “literatura ilustrada” produzia, continuavam a ensinar como se muitos de seus alunos não tivessem incorporado uma cultura dos quadrinhos que mexia muito com a imaginação. Gibizeiro, eu sentia grande desconforto naqueles exercícios de redação classificados como descrição.

 

Quando falo em impactos, não sugiro que o uso de novas mídias seja a prioridade para amenizá-los. Tais impactos têm efeitos difíceis de serem avaliados. Mas, de qualquer forma, eles trazem mudanças que não podem ser ignoradas pela escola. No caso da televisão, por exemplo, os alunos desenvolveram um ritmo que exclui estudo atencioso, concentrado, demorado. Isso torna mais difícil o desafio de criar situações de aprendizagem onde estudo demorado, concentrado e atencioso é necessário. Não é possível, por exemplo, aprender filosofia sem tal tipo de estudo. As questões filosóficas são exigentes, precisam de tempos de maturação que nada tem a ver com a cultura da TV.

 

A internet está causando grandes impactos ambientais na cultura. É preciso conhecer tais impactos e ver que efeitos podem ter em educação.

 

Ponto 2: uso das mídias nos espaços escolares. Boa parte dos argumentos que vejo sobre usos educacionais da internet tem como fonte a convicção de que é preciso fazer isto porque os jovens gostam. Essa é uma bobagem escolanovista que há uns cem anos desalojou das escolas estudos consistentes de história, substituída por estudos sociais preocupados com o gosto dos alunos [para saber mais sobre isso é bom ler Daiane Ravitch]. 

 

Os jovens gostam (ou gostavam) do Orkut, do Face Book, de jogos etc. por causa da alma dessas formas de curtir novas mídias. Disso não decorre necessariamente que a escola deva usar Orkut, Face Book, jogos etc. [não abordei isso no meu texto original, nem vou seguir em frente com esta linha de análise, pelo menos aqui].

O que mais comentei no texto original foi o uso das novas mídias nos espaços escolares. E em tais usos vejo grandes problemas. As propostas de uso, muitas vezes nascem de encantamentos ingênuos pelos novos meios. Não sei se sabem, mas bobagens risíveis aconteceram porque alguns educadores há uns sessenta anos se encantaram com o telefone e incluíram sessões de telefonia como um grande avanço em suas escolas [sei disso graças a meu amigo Steen Larsen, grande educador dinamarquês, que teve atividades de telefonia na sua escola pré-primária].

Na maior parte dos casos as novas mídias são didatizadas. Ou seja, os educadores ignoram sua ontologia e a elas impõem uma nova essência. [permitam-me brincar aqui utilizando algum verniz filosófico].  Cada mídia é um ser que se revela em sua natureza própria. Mas o desvelar de ser nem sempre é percebido. Por isso, muita gente fala que as ferramentas são neutras e podem receber o significado que lhes for atribuído. Desçamos pro chão: a natureza dos blogs, por exemplo, é ignorada. Eles passam a ser vistos como uma ferramenta cujo uso dependerá de propostas educacionais. Isso é um crime ontológico…

 

Escrevi muito e não fiquei satisfeito. Ainda devo explicações. Mas, não sei se serei capaz de dá-las. Agradeço a paciência dos amigos acompanharei com muita atenção o papo proposto pela Tatiane.

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3 Respostas to “TIC e Educação: Onde as coisas mudam? (2)”

  1. Tatiane Martins Says:

    Querido Jarbas, fiquei impressionada com a repercussão dessa conversa. Provavelmente estamos começando a enxergar novas coisas que antes ainda não nos eram visíveis.
    O que posso dizer é que nos meus seis anos de blogueira, dentro dos meus 17 anos de magistério, venho tentando desenvolver trabalhos com as mídias digitais nas escolas em que trabalho/trabalhei, mas ainda não consegui fazer nada muito “inovador”. Ora realizei um ou outro trabalho em que consegui ver nos olhos de meus alunos algum ganho em potencial; ora fracassei. Mas nada disso tem uma continuidade que permita avaliar, de fato, o impacto na formação desses estudantes.
    Na verdade, sinto falta de um trabalho comparativo. Não enxergo, por exemplo em nada do que conheço (com exceção do trabalho do Sérgio), algo que tenha uma continuidade para ser devidamente avaliado). Mas também não temos uma comparação para saber os ganhos e as perdas das turmas dele em oposição a uma “tradicional” (Sérgio, usei-o só como exemplo, porque gosto muito de sua proposta de trabalho). Os poucos trabalhos que li sobre isso, normalmente, mostram uma experiência em um espaço específico, em um período específico, mas, após o fechamento da pesquisa e a defesa, tudo volta ao normal, sem que haja tempo de “regar” o que foi “plantado” para, mais a frente, poder “colher” e avaliar o fruto.
    Ando agoniada. Querendo mais. Mas também me sinto saturada de muito “enlatado”. O blog que criei no colégio onde trabalho é um simples mural de alguns professores que se propuseram a participar comigo dessa empreitada. Não consegui até hoje ter permissão para que os alunos possam participar efetivamente desse processo. Eles são meros espectadores. A imagem, porém, do trabalho para pais e direção é de que é algo tremendamente inovador. Todos acham o máximo. A 8a maravilha do mundo. E eu fico só sonhando em poder fazer mais…
    Bom, vou ficando por aqui. Minha orientadora está encantada com as suas reflexões.
    Espero, um dia, poder dizer, de verdade, que não estou didatizando nem domesticando as inúmeras tecnologias a que tenho acesso e que auxiliam, promovem, ilustram, incentivam, enriquecem… as diversas aprendizagens dos seres humanos em seu período escolar.
    Beijo!

    • jarbas Says:

      Oi, Tatiane. Vai aqui comentário rápido.

      Em usos da internet em educação temos uma grande vantagem: não há nada pronto, definitivo. Somos todos aprendizes. Podemos ousar. Podemos errar sem medo. Podemos dispensar quem se proclama especialista, pois especilaistas verdadeiros no ramo inexistem. Vejo nisso tudo muita beleza. E olho com desconfiança gente cheia de certezas ou incapaz de enxergar as limitações que ainda temos para usar novas tecnologias com competência.

      Cientistas importantes no ramo, Winograd, Norman, Kay, são muito críticos. e não podem ser acusados de resistência à mudança. Muitas das ótimas coisas que usamos em nossos computadores são criações deles…

  2. Suely Aymone Says:

    Professor Jarbas e Tatiane!

    Quando descobri o blog, em 2008 ( faz pouco tempo!), passei pelo “encantamento ingênuo”: era a solução para as dificuldades de publicação dos textos dos alunos. Fiquei alguns meses lendo blogs de professores, de escolas, de alunos… observando como eram editados…

    Até que, em 2009, propus para as alunas o uso dessa ferramenta; aos poucos fomos definimos os objetivos e como faríamos as postagens… combinamos que a adesão seria espontânea.

    De lá pra cá, tentamos várias formas de organização… voltadas, especialmente, para a autoria e para a colaboração.

    Sei que, apenas, o uso de ferramentas da web não garante transformações, mas gostaria muito que as vivências das meninas, durante os 4 anos de curso, se estendessem às práticas com as crianças. Ou que elas continuassem com os blogs para registrar as práticas, refletindo sobre elas…

    Continuamos conversando…

    Abraços!

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