Archive for the ‘Novas Tecnologias’ Category

Escrita e tecnologia

janeiro 28, 2018

Para facilitar aprendizagem da escrita foram criados vários instrumentos. Um deles era um painel de cera no qual o estudante podia escrever com um estilete. O painel tinha duração ilimitada e era também usado em rascunhos de escritores profissionais. Faço esses comentários lembrando-me de descrições feitas por Dom Paulo Evaristo Arns em seu magnífico livro A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo. Para quem quiser mais saber sobre a obra de Dom Paulo, sugiro olhada em resenha que escrevi sobre a mesma tempos atrás.

Este é um post rápido no qual associo duas coisas que me fascinam, a arquitetura escolar em suas relações com os significados que se dão à educação, os apoios utilizados pelos alunos na aprendizagem da escrita. Para conversas sobre arquitetura e educação, acho que esta foto é um ponto de partida interessante. Para conversas sobre aprendizagem da escrita, acho que essa lousa individual, avó distante do laptop, é um instrumento que merece exame.

 

laptop

Anúncios

Tecnologia e Gente

janeiro 13, 2018

tecnologia

Sempre conto história de uma frase da Doutora Allison Rossett, grande nome da tecnologia educacional, irritada com a fala de um reitor de universidade brasileira que falava sem parar sobre os maravilhosos equipamentos que ele havia comprado para a TV Educativa da sua instituição. No evento eu atuava como intérprete ad hoc. E a Allison não se aguentando, disparou””Jarbas, dia a este senhor que tecnologia é uma questão de cabeça, não de máquinas e equipamentos”.

A figura que trouxe para cá ilustra bem o que minha amiga da San Diego State University tentou ensinar ao reitor. Há outros paralelos que podemos traçar aqui. Um deles é uma observação de Alan Kay: “a música está em gente capaz de criança-la, não no piano”. Mas, acho essa observação do fotógrafo mais expressiva ainda: a arte do cozinheiro não está no fogão…

Tecnologias do não

novembro 28, 2017

escovao

Li em algum lugar que muitos avanços tecnológicos são descritos em desfechos que começam por um NÃO. E a negativa descreve o fim de alguma habilidade até então necessária. Cabe um exemplo. Antigamente, azulejos, antes de serem assentados. ficavam vários dias imersos n’água. Era comum ver em canteiros de obras enormes tambores, cheios de água, onde os pedreiros colocavam os azulejos que iriam usar. Isso era necessário porque azulejos secos dificilmente permaneceriam nas paredes. Eles precisavam de muita umidade para serem fixados decentemente. Mas, além da permanência em barris, os azulejos exigiam outros saberes dos pedreiros. Eles eram assentados com cuidado e, no geral, os profissionais davam leves pancadas nas peças até que cada uma delas se acomodasse sobre a massa e ficasse no prumo esperado. Nos velhos tempos, exigia-se dos azulejistas capacidade de avaliar o grau de umidade dos azulejos, assim como de avaliar a qualidade da massa preparada pelo servente: exigiam-se também gestos finos para assentar cada peça, e um bom ouvido para sentir por meio daquela pancadinha se a peça estava bem acomodada.

Nenhuma das velhas técnicas dos azulejistas é mais necessária. Não é preciso deixar as peças dormindo em barris de água. Não é preciso preparar massa para assentar azulejos. E aquelas pancadinhas que ofereciam feedback sobre qualidade do assentamento são apenas uma lembrança de velhos profissionais. Hoje, uma massa pré-preparada é espalhada sem muito cuidado pelas paredes e os azulejos, secos, são praticamente, colados na superfície. Com as novas técnicas, NÃO é mais preciso umedecer azulejos, preparar massas, treinar o ouvido para interpretar as famosas pancadinhas. O profissional que assenta azulejos hoje NÃO precisa mais de muitas habilidades que compunham necessariamente o repertório de bons azulejistas. As novas técnicas de assentar azulejos eliminaram muitas habilidades. Podem ser descritas com vários “não é mais necessário”.

Abri este post com a imagem de um escovão. Esse instrumento, tão comum nas residências de outrora, saiu de cena. Como muitos talvez nunca tenham visto um escovão, é preciso acrescentar aqui outra história de tecnologia que resultou em vários NÃOS. Nos velhos tempos, pisos de madeira e, às vezes, de cimento precisam ser encerados. O superfície do piso era cuidadosamente limpa. Depois disso, com um pano, flanela de preferência, espalhava-se cera por toda a superfície. Mas, a cera não se entranhava na madeira ou no cimento para dar o esperado brilho. Era preciso fricciona-la até que ela penetrasse na superfície. Isso podia ser feito com enceradeiras elétricas, máquinas com um pequeno motor que fazia girar escovas sobre o piso até que a gente ficasse satisfeito com o brilho obtido. Mas tais máquinas eram caras. Famílias pobres não tinham grana para compra-las. A solução era pois a de um substituto que com certa força bruta pudesse encerrar o piso até que o desejado brilho aparecesse. E o substituto era o escovão. Um instrumento de ferro, bastante pesado, com escovas que a dona ou dono de casa fazia deslizar sobre os tacos ou a superfície de cimento vermelhão. Os escovões sumiram. São hoje peças de museu. E ninguém mais precisa encerrar pisos. Nas superfície de madeiras aplica-se cascolac ou sinteko. Para manter a limpeza do piso basta varreção e aplicação de um pano úmido. O vermelhão praticamente desapareceu e deu lugar a cerâmicas brilhantes que dispensam uso de cera. Hoje NÃO é mais preciso encerrar o chão, usar enceradeiras, ou usar escovões. Saber encerrar superfícies é uma habilidade que se foi…

Se considerarmos o introdução das novas tecnologias de informação e comunicação, podermos desfilar um grande numero de NÃOS. Não vou examinar todas as possibilidades. Fico com apenas numa que despertou meu interesse numa conversa incidental sábado passado (25/11/2017).

Um amigo, tecnófilo de carteirinha, estava com o celular na mão numa festa em que a gente queria mais era colocar a conversa em dia. Mas, gente como ele, não consegue guardar o celular em nenhuma circunstância. Aproveitei a situação para dizer que não gosto de celulares. E uma das razões para meu desgosto são aquelas teclinhas onde a gente tem que dedar textos. Aquelas teclinhas não foram feitas para gente idosa como eu. Meu amigo disse que NÃO é mais preciso digitar textos em computadores ou no celular. Já há, segundo ele, um aplicativo que aceita ditados e converte fala em texto. Outro amigo, velho jornalista e editor, observou que fala e texto são idiomas diferentes. Transcrição de fala não resultará em bom texto. Nosso amigo tecnófilo ignorou o argumento e comentou que com novas tecnologias o antigo texto tem mais mesmo é que morrer. Em outras palavras, num futuro bem próximo, NÃO será mais preciso saber escrever.

Como disse, não pretendo examinar muitos casos de “não é preciso mais”  que decorrem das novas tecnologias da informação e comunicação. O caso da escrita já é um bom ponto de partida para gerar reflexões. Exames de outros NÃOS serão necessários para que a gente saiba que habilidades estamos perdendo. Espero que muitos de nós não aceite o desfecho passivamente. Espero, por exemplo, que a escrita de boa qualidade ainda seja uma habilidade respeitável no próximos tempos, mesmo que algum aplicativo consiga escrever por nós.

PLATO: uma revolução educacional

novembro 27, 2017

 

plato

Acabo de ler resenha de livro recente sobre o PLATO (Programmed Logic for Automated Teaching Operations), um sistema que, por meio de terminais, permitia usos compartilhados de softwares educacionais. O PLATO, baseado em grandes computadores, acabou sofrendo concorrência das iniciativas que resultariam na internet. A resenha examina tal questão e tem como alvo aspectos tecnológicos, não examinando virtudes e defeitos do uso educacional de computadores inaugurado pelo PLATO.

Quando estudei, em 1983, Computer Education no meu mestrado em Edtech na San Diego State University, o PLATO já era coisa do passado. Os computadores pessoais começavam a ocupar a cena e a gente trabalhava com o Apple IIe. Mas, de certa forma, o PLATO estava muito presente em nossa formação. Muitos software educacionais criados para o velho sistema eram ótimos e foram adaptados para computadores pessoais. Uma dessas adaptações aconteceu com um program de simulação em história da Mesosamérica, o Aztlan. Anos depois, minha equipe do Programa de Informática e Educação produziu uma versão do Aztlan para o português. Nossa versão fez grande sucesso entre os educadores que começavam a experimentar uso de computadores em educação na segunda metade de 1980. Cumpre notar que as versões originais do PLATO eram, geralmente, mais sofisticadas que as versões que foram produzidas para computadores pessoais.

Interessados pela matéria sobre o PLATO podem ir até clicando aqui.

Informação X Conhecimento

outubro 7, 2017

VISÃO INTERATIVA DO SABER

 

 

Muita gente gosta de arranjar rótulos para períodos históricos. Em livros de história são comuns termos como “idade da pedra lascada”, “idade do bronze”, “idade do ferro”, etc. Nos dias de hoje, são frequentes as comparações entre Sociedade Industrial – uma era histórica cujos começos aconteceram três séculos atrás – e a Sociedade do Conhecimento – a novíssima era cujos começos aconteceram nos anos oitenta do século XX. Gente de empresa, por exemplo, declara que agora os produtos têm um “valor agregado”. E valor agregado, na nova era, é sobretudo conhecimento.

 

O uso da expressão Sociedade do Conhecimento está ligado a duas dimensões que nos interessam: informática e educação. Em muitos sentidos diz-se que a Sociedade do Conhecimento é um produto da informática. Computadores cada vez mais poderosos, acessíveis por meio de redes planetárias de comunicação eletrônica, colocam qualquer conhecimento humano ao alcance de todos. Quase tudo que um cidadão quer ou precisa saber, dizem os entusiastas pela Sociedade do Conhecimento, pode ser obtido de modo imediato. Basta entrar na rede!

 

Uma das características da nova era é a velocidade de produção. Diz-se que nos últimos trinta ou quarenta anos a humanidade produziu mais conhecimento que todo o período anterior de cem mil anos. Os entusiastas afirmam que o acervo de saber dos humanos irá dobrar em períodos cada vez mais curtos.

 

A formidável produção de conhecimentos, nos termos relatados até aqui, parece exigir mais educação. Assim, muitos futurólogos deste final de século insistem em dizer que o setor educacional será um grande campo de trabalho nas próximas décadas. O crescimento acelerado da oferta de conhecimento exigirá, de acordo com as visões futuristas, gente mais educada, capaz de fazer bom uso da formidável massa de conhecimentos que estará disponível para quem saiba aproveitá-la. Além disso, dizem as mesmas fontes, a educação deverá sofrer mudanças significativas para acompanhar as demandas da sociedade do futuro. Para exemplificar, cito a seguir trecho de um documento publicado pela Academia Americana de Ciência na WEB. O documento, um belo exemplo de publicação que usa os recursos computacionais disponíveis, chama-se Reiventing Schools: The Technology Is Now [www.nap-edu/readingroom/books/techgap]:

 

Professores, pais, administradores escolares, e políticos começaram a perceber que é necessário um modelo de educação inteiramente novo. Nesse novo tipo de escola, todos os estudantes irão chegar a altos padrões de aprendizagem porque todas as pessoas deverão estar preparadas para pensar pela vida inteira; todas as pessoas terão de ser capazes de aprender muitas novas habilidades durante o curso de suas vidas. Esse modelo de educação irá aumentar as ligações entre os estudantes e suas comunidades, fazendo com que a escola se envolva  com complexas decisões éticas, técnicas e cívicas que todos os cidadãos terão de fazer. O período e localização da educação será mais flexível para refletir e aproveitar vantagens de mudanças no mercado de trabalho. A distinção entre aprender dentro e fora da escola perderá sentido.

 

 

No trecho citado, fala-se de uma nova escola, de uma educação permanente e, sobretudo, de exigências de padrões educacionais muito altos para todos. Além de mudanças nos objetivos, a escola do futuro deverá usar recursos tecnológicos avançados. Deverá aproveitar a fartura de conhecimentos proporcionada pelos novos meios de comunicação. Isso tudo significa mais educação.

 

 

CONHECIMENTO OBJETIVADO

 

Antes de seguir em frente, quero listar algumas características de boa parte dos discursos sobre a nova era. Como veremos, mais à frente, tais características são muito importantes em qualquer discussão sobre como fazer educação. É bom notar que o discurso sobre uma Sociedade do Conhecimento, geralmente:

 

n  não distingue informação de conhecimento

n  não estabelece qualquer critério para avaliar qualidade de conhecimento/

informação

n  vê no conhecimento um produto que pode ser:

 

> armazenado

> vendido

> comprado

> transmitido

> doado

> controlado por donos ou proprietários

 

Tais características tem implicações sérias para a educação. A mais séria, no caso, é a implicação de que educar é um ato de transmissão. Não há muita novidade nisso; quase todos os livros de didática descrevem atividade sistemática de ensino como transmissão de conhecimento. Esse modo de ver o trabalho educacional supõe que os conhecimentos tem as características de produto que acabamos de ver.

 

Pensar o conhecimento com um objeto que independe de agentes do saber e de contextos de significação é uma abordagem que simplifica o entendimento do que é aprendizagem. Essa tendência acaba reforçando a ideia de que aprender é adquirir conhecimento. Na verdade, podemos adquirir informação. Mas o conhecimento só pode ser elaborado por agentes de saber. Essa temática vai merecer um estudo mais extenso na próxima unidade. Por enquanto, eu quero apenas deixar registrado que tratar o conhecimento como um objeto é uma tendência que empobrece nosso modo de ver o processo educacional.

 

 

VISÃO INTERACIONISTA

 

Neste curso, vamos estudar uma proposta à qual tenho dado o nome de abordagem interativa do saber.  Essa abordagem navega contra a corrente. Ao contrário das ideias predominantes, ela está baseada em pontos de vista que:

 

q não acham que o conhecimento humano está entrando numa fase de crescimento geométrico

q procuram estabelecer uma distinção nítida entre informação e conhecimento

 

q entendem que o conhecimento é uma  elaboração de sujeitos em atos de aprendizagem

 

q sabem  que há uma oferta imensa de informações, mas constatam que um número enorme de pessoas é incapaz de converter informação em conhecimento

 

Não vou expor a abordagem interacionista agora. Vou apenas apresentar um texto para reflexão, tentando mostrar que muita informação não produz, necessariamente, muito conhecimento.

 

 

 

FARTURA DE INFORMAÇÃO

 

Nosso tempo é uma época de muita fartura de informação. A famosa banca de jornais da Praça Villaboim oferece cerca de quinhentos títulos diferentes de livros, livretos, jornais, revistas etc. E essa oferta já não é tão nova, Caetano Veloso, em música muito conhecida, perguntava no fim dos anos sessenta: “quem lê tanta notícia?” A oferta de fontes de informação na Internet já se conta na casa dos milhões. Acadêmicos, como o professor Donald Norman, recebem em torno de dois mil e-mails por mês.

 

Tanta fartura é coisa recente na história. No século XIV, por exemplo, como conta S. Tuchman em A Distant Mirror, um rei francês deixou como principal item de herança um bem de preço incalculável: uma biblioteca com três centenas de livros! Hoje, qualquer professor universitário, tem bibliotecas pessoais que ultrapassam em muito a famosa coleção de livros do monarca francês de seiscentos anos atrás.

 

Há muita informação disponível. E o preço dessa mercadoria vem caindo sistematicamente. Isso não garante que estejamos ficando mais sábios e inteligentes. Sempre que vejo comentários sobre fartura de informação, lembro-me de dois nomes: Aristóteles e Santo Agostinho. Ambos foram gênios e produziram uma obra imensa. Aristóteles viveu a dois mil e quatrocentos anos. Agostinho, a mil e seiscentos. Possivelmente, nem um nem outro tinha biblioteca pessoal equiparável à de um intelectual do século XX. Não dispunham de muita informação. Apesar disso produziram uma obra que continua a ter grande importância para o pensamento de homens que vivem nesta virada de milênio.

 

 

 

Em vez de continuar com nossa conversa sobre conhecimento e informação, faço uma pequena pausa e proponho alguns exercícios, algumas vivências, como dizem os especialistas em treinamento.

 

 

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

Exercício/Vivência

 

Ver informação e conhecimento como sinônimos é uma crença bastante generalizada. Em educação, costumamos pensar que o conhecimento está no texto dos livros. É comum, por exemplo, a expressão “apropriar-se de conhecimentos”. Essa apropriação se faz como um ato de tomada de posse do texto. E, ao fazer isso, o aluno se torna proprietário do conhecimento pois este está contido nas palavras escritas. A crença em foco não é produto de ingenuidade ou ignorância das pessoas. Ela é uma ideia dominante uma vez que as estruturas escolares que conhecemos reforçam a convicção de que o saber pode ser capturado pela linguagem, sobretudo a linguagem escrita.

 

Para encaminhar uma reflexão sobre as relações entre texto e saber, proponho aqui um exercício. Vou sugerir a leitura de um pequeno escrito dos pesquisadores Bransford e Johnson (1972), citado no livro The Constructive Metaphor (Spivey, 1997). É um trecho curto, sem nenhuma grande dificuldade de estrutura e de vocabulário.

 

O exercício é simples. Você deve:

 

n  ler o texto, tentando entendê-lo

 

n  descrever, em quatro ou cinco palavras, a atividade à qual o texto se refere

 

n  comparar sua resposta com a resposta fornecida pelos autores

 

Vamos ao trabalho!

 

COISAS DA VIDA

 

O procedimento é muito simples. Em primeiro lugar você separa as coisas em diferentes grupos. É claro que um único monte será suficiente, dependendo da quantidade a ser processada. Ir a outro lugar devido à ausência de equipamento poderá ser o segundo passo; se essa providência for necessária, você estará pronto para continuar. É importante não exagerar na dose. Ou seja, é melhor fazer poucas do que muitas coisas de uma vez. A curto prazo isto pode não parecer importante, mas complicações podem surgir facilmente. Da mesma forma, um erro pode custar caro. No começo, o processo inteiro parecerá complicado. Logo, porém, ele vai se tornar uma outra faceta da vida. É difícil prever qualquer fim para a necessidade dessa tarefa num futuro próximo; mas, quem pode afirmar isso com certeza? Depois que o processo estiver completo, você deve organizar as coisas em diferentes grupos outra vez. A seguir, elas podem ser colocadas em seus lugares. E, quase certamente, serão usadas de novo e um ciclo completo terá de ser repetido. Mas isso faz parte da vida.

 

Agora que você já leu Coisas da Vida, tente adivinhar a atividade descrita pelo texto. Procure escrever sua adivinhação em poucas palavras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIMPAR
resposta
CONFIRMAR

 

 

 

 

Compare sua solução com o título dado pelos autores do texto, em

 

(V) resposta deve estar em localização que não permita ao usuário ter acesso à solução do problema antes de registrar sua (dele) tentativa. (V)

 

RESPOSTA PARA COISAS DA VIDA

 

§  Como lavar roupas (usando máquina de lavar)

 

 

REFLEXÕES SOBRE COISAS DA VIDA

 

Em experiências realizadas por Bransford e Johnson, os leitores de Coisas da Vida não conseguiam descobrir que o texto referia-se a atividade de lavar roupas. E isso acontecia porque os autores procuraram eliminar palavras que pudessem indicar contexto ao qual o texto se referia. Por essa razão, os leitores não conseguiam dar sentido ao texto.

 

Entender um texto (uma informação) requer iluminá-lo com conhecimento, dando-lhe sentido. Mas se encontrarmos um texto – fácil ou difícil – ao qual não possamos aplicar nosso conhecimento, é quase impossível o entendimento. Nessa altura acho que é bom citar uma explicação da professora Spivey (1997).

 

Entender um texto é um processo ativo de construir significado desde os sinais que o escritor fornece. E compor um texto é um processo ativo de construir significado para um texto e usar pistas  textuais para sinalizar significado para os leitores (p. 146)

 

Não vou falar muito sobre a experiência. Quero apenas insistir nas idéias de que:

 

n textos passam informação

 

n informação precisam ser interpretadas

 

n interpretações são atos de conhecimento

 

Se você quiser utilizar Coisas da Vida com um grupo de leitores e ver o que acontece, imprima o texto e boa sorte. Antes de seguir em frente, medite um pouco mais sobre Coisas da Vida. Está ficando claro, para você, a necessidade de distinguir claramente informação de conhecimento? Espero que o próximo exercício – SALA DE ESTAR –

(V) Se possível, usuário deverá poder acessar um cópia limpa de Coisas da Vida para imprimir e usar como sugiro (V)

 

SALA DE ESTAR

Exercício/Vivência

 

Vou descrever e fazer alguns comentários sobre SALA DE ESTAR, um exercício que utilizo com referência para discutir relações entre informação e conhecimento em processos educacionais. Se você tiver condições de conseguir voluntários que possam fazer o exercício, suas observações sobre a atividade serão de grande importância para a nossa conversa sobre a questão do conhecimento.

 

 

Como Fazer o Exercício

 

Em SALA DE ESTAR, a dinâmica de trabalho obedece a seguinte seqüência:

 

1.        os participantes são convidados a trabalhar em duplas num experimento de comunicação;

 

2.        nas duplas de trabalho, cada participante senta-se com as costas voltadas para as costas do respectivo parceiro;

 

3.        um dos componentes da dupla recebe o original de SALA DE ESTAR; o outro componente, uma folha de sulfite em branco;

 

4.        o componente que receber a figura original exercerá o papel de instrutor/professor; seu parceiro exercerá o papel de aluno/treinando;

 

5.        em hipótese alguma, o aluno poderá ver a figura em poder do professor;

 

6.        o professor deverá passar oralmente instruções que ajudem o aluno a desenhar SALA DE ESTAR, reproduzindo com a maior fidelidade possível a figura original;

 

7.        o trabalho das duplas devera durar de quinze a vinte minutos;

 

8.        terminado o trabalho de instrução e reprodução, as duplas discutirão a experiência por um cinco minutos.

 

 

Como disse, você poderá fazer essa experiência com alguns voluntários para verificar o que acontece. Além da dinâmica das relações entre professor e aluno em cada dupla, o que mais nos interessa aqui é o que o aluno produz a partir das instruções do professor.

 

Se você quiser fazer a experiência será preciso obter uma cópia do original de SALA DE ESTAR. Para obter sua cópia clique em original e imprima a página com a famosa figura.

 

(V) Será preciso garantir a possibilidade de acesso a uma página inteira com a figura original de sala de estar, pois assim o participante poderá imprimi-la para uso em experimentos que possa fazer (V)

 

Tenha você feito ou não a experiência proposta, convém ler os comentários que seguem:

 

Minhas Intenções com SALA DE ESTAR

 

Ao trabalhar com SALA DE ESTAR, procuro criar uma analogia que pode nos ajudar a pensar sobre as relações entre informação e conhecimento. Mas antes de falar sobre as relações que podem ser vivenciadas no exercício, quero explicar o significado dos elementos que integram SALA DE ESTAR.

 

n Desenho original: representa o conhecimento do professor.

 

n Instrução criada pelo professor: é informação produzida a partir de um determinado campo de conhecimento; na escola, damos a isso o nome de ensino.

 

n Posição dos pares – costa/costa: simula a impossibilidade do aluno ter acesso direto ao conhecimento do professor; simula também a impossibilidade do professor ter acesso direto ao conhecimento do aluno.

 

n Desenho produzido pelo aluno: representa o conhecimento elaborado pelo aluno a partir das instruções passadas pelo professor.

 

Minha principal intenção com SALA DE ESTAR é a de mostrar a diferença entre conhecimento (original) do professor e conhecimento elaborado pelo aluno. Além disso, é provável que já comece a ficar evidenciada a diferença entre informação e conhecimento, tema que pretendo discutir mais à frente neste curso.

Quem conseguiu fazer o exercício deve ter obtido figuras muito interessantes produzidas pelos alunos. Para nossa reflexão comum, mostro a seguir dois trabalhos elaborados por alunos num dos meus “experimentos”.

 

Figura original de SALA DE ESTAR

 

SALA DE ESTAR: Produção de Aluno A/2000

 

SALA DE ESTAR: Produção de aluno B/2000

 

Como a gente pode verificar, a distância entre a figura original e produções dos alunos é muito grande. Como explicar isso em termos das relações entre conhecimento do professor, informação ou ensino, e conhecimento produzido pelo aluno? Para responder essa questão de modo mais sistemático, vamos a nosso primeiro diagnóstico de aprendizagem.

 

 

DIAGNÓSTICO DE APRENDIZAGEM

 

Ao chegar até aqui, você deve ter lido meu texto e examinado dois exercícios (Coisas de Vida e Sala de Estar). Acho que já temos elementos para estabelecer uma visão compartilhada de entendimento sobre dois termos muito importantes, informação e conhecimento. E vamos fazer isso usando o Diagnóstico de Aprendizagem.

 

Não vou propor um exercício para saber se você domina o conteúdo. Vou, muito mais, sugerir uma atividade que possa servir de registro para os resultados de usa reflexões sobre o texto de leitura e os dois exercícios que integram essa unidade. Como SALA DE ESTAR é, a meu ver, um exercício muito rico, vou utilizá-lo como objeto de nossa conversa final nesta unidade.

 

 

ATIVIDADE

 

  • Como você pode verificar no exercício SALA DE ESTAR, há uma diferença muito acentuada entre conhecimento do professor e conhecimento elaborado pelo aluno. Considere a situação e escreva um pequeno ensaio (cerca de vinte linhas) sobre os porquês da diferença. Tente, em seu texto, definir o que é informação e o que é conhecimento. Quando terminar seu escrito compare o resultado de seu trabalho com o gabarito que criei.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Compare sua resposta com o gabarito

 

Há uma diferença acentuada entre conhecimento do professor e conhecimento do aluno. Como explicá-la?

 

Acho que uma boa resposta deve considerar:

 

1.    O conhecimento das pessoas não é diretamente acessível. Apenas o sujeito conhecedor tem visão clara e total daquilo que ele sabe. Nesse sentido, o conhecimento é subjetivo.

 

2.    Para tornar o conhecimento pessoal acessível, as pessoas produzem informação. Esta última é constituída por representações externas às quais conferimos significado. Quando duas ou mais pessoas se põem de acordo quanto ao significado de um item de informação (um símbolo, uma palavra, uma figura etc.) ocorre comunicação (algo conhecido é colocado em comum).

 

3.    Para produzir seu conhecimento, o aluno em SALA DE ESTAR conta com duas coisas: informação do professor e conhecimento prévio ou anterior. Ele interpreta as informações que recebe de acordo com seu entendimento (sua estrutura de conhecimento já constituída).

 

4.    Nem sempre as interpretações do aluno caminham na direção esperada pelo professor.

 

5.    Provavelmente, sempre haverá certa diferença entre conhecimento do professor e conhecimento elaborado pelo aluno.

 

6.    Parte do problema comunicativo em SALA DE ESTAR deve-se à falta de cuidado do professor na produção de informações. Muitas vezes os professores, na produção de informações, não consideram o ponto de vista dos alunos. Ao fazerem isso, geram informação que não comunica ou leva o aluno a interpretações não esperadas.

 

 

 

Computadores e educação: PLATO

setembro 20, 2017

Os primeiros arranjos para usos de computadores em educação aconteceram por meio de um projeto que atendia pela sigla PLATO (Programmed Logic for Automatic Teaching Operation). Os softwares eram desenhados para rodarem em grande computadores. Os alunos tinham acesso a eles por meio de terminais. Tudo isso começou nos anos de 1960. Mas, se a gente olha para as imagens, parece coisa de muitos séculos atrás, pois o tempo no mundo digital anda tão depressa que uma década parece um século. Porém, se a gente descontar a questão das aparências da mídia, o tratamento dos conteúdos era muito sofisticado, bastante mais sofisticado que o dos softwares educacionais que encontramos hoje.

PLATO seguiu uma linha que meu amigo Steen Larsen caracterizou da seguinte maneira: “a  concepção educacional em tecnologia educacional precisa ser mais sofisticada que os instrumentos de comunicação à disposição dos educadores”. Essa orientação faz com que educadores não fiquem embasbacados pela parafernália eletrônica, pois esta não é o que mais importa. O que mais importa são as concepções criativas em termos de construção de ambientes que mais favoreçam a aprendizagem.

Em meu trabalho pregresso no campo de tecnologia educacional entusiasmei minha equipe para criar um versão brasileira para o programa de simulação Aztlan, um software que trabalhava alguns aspectos da história da Meso-América. Minha equipe fez um ótimo trabalho que foi bastante utilizado na época (circa 1987 e anos seguintes). Mas nossa versão utilizou como referência um programa adaptado para o Apple IIe. Tal programa simplificou muito o que se fazia no âmbito do PLATO.

Trago para cá um vídeo que apresenta sinteticamente o que foi o PLATO. Acho que tal vídeo é um bom material para estudos sobre história de  usos de computadores em educação.

 

Tecnologia e Professores

setembro 14, 2017

techno

Bonnie Nardi e Vicki O’Day, ao considerar usos de tecnologia, distinguem artefatos de serviços, e utilizando observações feitas por Hoffman destacam os seguintes pontos:
  1. os serviços são tão importantes como os artefatos;
  2. os serviços requerem os talentos criativos das pessoas;
  3. nós não valorizamos esse tipo de criatividade [o dos serviços] do mesmo modo que valorizamos criatividade puramente técnica;
  4. o desdobramento de um serviço requer abordagem de equipe na qual trabalho e criatividade estão distribuídos entre pessoas, não concentrados num único gênio.
Os pontos destacados mostram que tecnologia não é apenas instrumental, uma ideia muito disseminada que justifica compras de equipamentos sofisticados para os quais, quase sempre, não há propostas de uso muito claras. E propostas de uso dependem daquilo que as autoras chamam de serviços, de um uso social significativo de artefatos.
Convém pensar esses quatro pontos no caso de uso de tecnologias em educação, pois o serviço [apoio à aprendizagem] e os profissionais capazes de prestar serviços [os professores] são aspectos esquecidos. Muita gente acha que basta ter artefatos modernosos para que a tecnologia faça milagres na educação. Ledo engano, diria alguém com vernizes literários.
Faço esta nota sem muitos comentários ou explicações. Talvez no futuro eu produza um texto mais extenso e explicativo sobre o que dizem Bonnie e Vicki. Por ora termino apenas com a referência para quem quiser saber de que obra vem as considerações que acabo de fazer:

O que é tecnologia?

agosto 31, 2017

key

Chaveiro de um serviço do Sonda Pompeia me fez uma chave que não entrou na fechadura. Voltei lá. Reclamei. Refizeram o serviço. A chave continuou a não combinar com a fechadura. Fui ao serviço pela terceira vez. Me atendeu um chaveiro muito simpático que colocou a chave rebelde numa máquina bem transada e depois limou-a manualmente. A dita cuja agora entra, mas não gira. Continua inservível. Voltarei a reclamar. Porém, não tenho esperança de que os chaveiros (são vários) do Sonda Pompeia me façam uma chave que funcione.
Como precisava de nova cópia da chave, fui a um chaveiro que tem uma barraquinha de serviço perto do meu apartamento em Santos. Ele fez seu serviço. A cópia feita pelo moço de Santos funciona com perfeição.
Os chaveiros do Sonda Pompeia têm uma máquina bem moderna e vistosa. Ela copia chaves sem fazer muito barulho. O chaveiro de Santos tem uma máquina muito velha e barulhenta. Onde está a tecnologia? Gente menos avisada dirá que a melhor tecnologia está no Sonda Pompeia. Eu tenho certeza de que a melhor tecnologia está na barraquinha com equipamentos muito velhos que frequento lá em Santos. Preciso explicar isso para meus amigos.
Num artigo que escrevi para uma revista digital catalã, Quaderns Digitals, ofereci a seguinte definição de tecnologia educacional: tecnologia = equipamento + imaginação. No artigo, argumento que a tecnologia não está nos instrumentos utilizados, ela está nos saber de quem produz. Exagerei na dose, pois sei que as ferramentas incorporam saberes historicamente construídos pelos homens. Mas, foi preciso porque há uma crença disseminada de que tecnologia é equipamento e só equipamento. Porém, a dimensão mais importante da tecnologia está na competência de profissionais que sabem produzir utilizando ferramentas de seus ofícios. Minha experiência com chaveiros é prova disso.

Psicologia ecológica de Gibson

abril 2, 2017

Meu amigo Brock Allen sempre estava procurando novas referências para a tecnologia educacional. No começo dos anos 90, numa conversa com ele em San Diego, Brock me falou sobre Gibson. Além de falar sobre o autor, meu amigo da SDSU me presenteou com um paper que ele acabara de escrever. Li e confesso que não entendi muito bem. Agora, relendo pequeno trecho do escrito do Brock, acho que caiu uma ficha; Gibson olhava com muita perspicácia para ação (ou percepção, na linguagem que empregava) e indicava a necessidade de prestar atenção em aspectos de saber que não se vinculam necessariamente ao conhecimento proposicional. Se pudesse, estudaria hoje Gibson, pois me parece que ele oferece uma moldura interessante para minhas observações sobre o fazer-saber em oficinas.

para amigos que possam ter interesse em psicologia ecológica, trago pra cá pequeno trecho do texto do Brock com tradução minha e informação posterior sobre o conteúdo do paper do meu amigo da Califórnia.

PSICOLOGIA ECOLÓGICA:

CONTRIBUIÇÃO DE GIBSON

Trecho de Media as Lived Environments: The Ecological Psychology of Educational Psychology, de Brock Allen e Richard Otto

Muitos temas importantes na psicologia ecológica foram identificados pela primeira vez por J. J. Gibson, um psicólogo da percepção cujas idéias poderosas, incompletas e muitas vezes mal-entendidas desempenharam um papel seminal nas tecnologias para simular meios ambientes navegáveis. Apesar de não concordamos inteiramente com as teorias de Gibson, que ainda estavam em desenvolvimento quando ele faleceu em 1979, seu trabalho é uma moldura útil para examinar as implicações da psicologia ecológica para o design de mídia e pesquisa.

Apresentamos aqui, como uma orientação inicial, uma lista verbatim dos fenômenos que Gibson identificou em suas notas pessoais como críticos para o futuro da psicologia ecológica (J. J. Gibson, citado em Reed, 1971/1982, p. 394).

  1. Perceber o layout ambiental (inseparável do problema do ego e da locomoção)
  2. Perceber os objetos do meio ambiente (incluindo sua textura, cor, forma) (e incluindo suas “affordances”)
  3. Perceber eventos (e suas “affordances”)
  4. Perceber outros animais e pessoas (junto com aquilo que eles persistentemente dispõem e aquilo que fazem momentaneamente)
  5. Perceber as respostas expressivas de outras pessoas
  6. Perceber por comunicação ou fala
  7. Conhecimento mediado por displays artificiais, imagens, fotografias, e escrita
  8. Pensamento enquanto mediado por símbolos
  9. Estar atento às sensações
  10. Estar atento à estrutura da experiência (estética)
  11. Cultivar mapas cognitivos viajando e apreciando a paisagem

De acordo com Gibson (1971/1982), a vida diária depende de percepção direta, percepção que é independente das representações internas, proposicionais  ou associacionais – percepção que guia a ação intuitiva e automaticamente. A percepção direta, por exemplo, guia os motoristas quando estes respondem a mudanças sutis nas suas relações com a sinalização sobre o leito das estradas. A percepção direta ajusta os movimentos requeridos para levar a xícara aos lábios, e guia a manipulação de instrumentos como lápis, escovas de dentes e bisturis. A percepção direta está intimamente ligada em tempo real com a ação em andamento.

Talvez a contribuição mais adotada de Gibson (1979) para a linguagem descritiva da psicologia ecológica sejam os seus conceitos de affordances (aproximadamente, oportunidades para a ação) e effectivities (aproximadamente, capacidade para a ação). A seleção natural ajusta gradualmente as effectivities de uma espécie às affordances associadas com seus nichos ou “ocupação”. Dessa forma os dentes e mandíbulas são effectivities que permitem que as baleias orcas explorem o “exibicionismo” das focas; dessa forma as asas são effectivities que permitem que os pássaros explorem o ar.

Ao contrário da percepção direta, a percepção indireta opera por meio de intermediários como diagramas, símbolos, palavras e proposições que informam um organismo sobre o mundo ou meio ambiente por meio de ligações indexais (Nichols, 1991) com aquele meio ambiente. Seguir orientações verbais para localizar um objeto escondido é um bom exemplo de percepção indireta. A percepção indireta permite, e até mesmo promove, reflexão e deliberação.

Gibson reconhece a importância para o pensamento humano de intermediários como símbolos e proposições baseadas em linguagem. Ele era cético, porém, quanto a pretensões de que os processos cognitivos gerais pudessem ser modelados nos termos de tais intermediários e argumentava que os modelos excessivamente fundados em símbolos e proposições iriam inevitavelmente negligenciar relações críticas entre perceber e agir.

Apesar de Gibson (1977/1982) não ter desenvolvido uma teoria completa da percepção mediada (cf. 7.3.4) – ou seja, percepção por meio de intermediários como fotos e texto – ele afirmou que tais intermediários são efetivos porque são “ferramentas para perceber análogas às ferramentas para agir” (p.290). Uma avaliação cuidadosa dessa idéia faz nos lembrar que, na visão de mundo de Gibson, a percepção cotidiana não pode ser separada da ação. Meios estáticos como texto, diagramas, fotos e ilustrações atingiram muitos de seus mais importantes efeitos informativos substituindo atos de percepção por atos de exploração.

Toda tecnologia comunicativa, do livro ao vídeo ou simulação em computador, porém, impõe profundas restrições na representação ou descrição de mundos reais ou imaginários (cf. 12.3.1) e requer negociar que aspectos de um mundo serão representados. Mesmo museus, como repositórios de “não-mediados”, artefactos autênticos e espécimes, devem existir dentro de limitações técnicas de tecnologias de mostra que favorecem algumas modalidades de percepção em vez de outras – olhar em lugar de tocar, por exemplo.

____________________________________#______________________________________

 

Depois de discutir algumas questões relativas à dinâmica das comunicações nos dias de hoje, os autores desenvolvem uma ampla aplicação das idéias de Gibson à questão do uso de novas tecnologias para fins instrucionais. São quarenta páginas de texto denso e exigente. Que ninguém se assuste, não pretendo traduzi-las. Para dar uma idéia do que se trata, vou apenas relacionar os itens de entrada utilizados:

Percepção integrada e ação

  • percepção
  • invariantes
  • um experimento simples
  • percepção de invariantes: algumas implicações “para o design de mídia”

Aprendizagem perceptual

  • aprendizagem proposicional versus aprendizagem não proposicional
  • affordances
  • effectivities
  • unificação de affordances e effectivities
  • aprendizagem cotidiana e meios ambientes de mídia

Percepção direta, sensitividade a contexto e mecanicalismo

  • situação e seletividade
  • alternativas para o empiricismo tradicional

Uma abordagem ecológica para entender mídia

  • análogos para a ação
  • a importância de estar lá (ou não…)
  • ilustração
  • fotografia
  • cinematografia

Agregando dados multivariados

Mídia e Miros

Transformação e alienação

Cavernas e consciências

Tecnologia Educacional: Uma Visão Crítica

abril 1, 2017

Faz muitos anos que traduzi um artigo que propõe uma leitura crítica da tecnologia educacional. Eu pretendia usar o texto com meus alunos. No caminho, desisti. Hoje não desistiria, pois acho que o escrito vale leitura. Por isso trago-o aqui para o Boteco.

 

UM DESAFIO ÀS ATUAIS CRENÇAS SOBRE TECNOLOGIA EDUCACIONA

Randall G. Nichols

Educational Technology/November 1990

Um lado Negro da Tecnologia Educacional

A tecnologia educacional, como as demais criações humanas, é multidimensional em suas relações com outros fenômenos. Por esta razão, os tecnólogos educacionais andam não apenas por caminhos pavimentados mas também por trilhas pouco apropriadas em termos de como pensar e usar  tecnologias. De modo geral não escolhemos (intencionalmente) caminhos excusos e, certamente, não perseguimos nada inapropiado. Porém, existe, um “lado negro” da tecnologia  educacional. Por este motivo, utilizando notas e exemplos selecionados que reuni recentemente, quero especular sobre as bases conceituais e algumas características da disciplina em questão. Tentarei algo mais: vou nomear algumas ramificações pouco óbvias dessas bases conceituais. Finalmente, vou, sobretudo, sugerir leituras relacionadas com as idéias aqui desenvolvidas.

Crenças Atuais sobre Conhecimento, Aprendizagem e Instrução

Uma das maneiras mais básicas de analisar tecnologia educacional é estabelecer contrastes entre esta disciplina e um quadro geral de algumas dimensões de aprendizagem, conhecimento e instrução desenvolvidas nas últimas décadas. Tais dimensões não freqüentam normalmente a literatura especializada no campo da tecnologia educacional. São novos paradigmas (filosofia, movimentos, modos de pensar?) e podem, talvez, ser chamados de “pós-estruturalismo” (cf. Cherryholmes, 1988) ou, no âmbito educacional, de “nova sociologia da educação” (cf. Yourng, 1971) ou “pedagogia crítica”  (cf. Giroux, 1988, em especial, ou Aronowitz e Giroux, 1985). Maxine Greene (1986) também discute diversas dessas noções num artigo intitulado “Filosofia do Ensino”.

Em resumo, conhecimento, aprendizagem e instrução são entendidos da seguinte maneira:

  • O conhecimento é construído (Fosnot, 1984). E construído numa trama em que distinções bem delimitadas entre aprendiz e outros fenômenos não são muito claras – uma entidade nunca é a única causa de um efeito sobre uma outra entidade. O conhecimento é vinculado a contexto, e contexto significa que um todo é um pouco maior que a soma de suas partes. Este contextualismo parece ser especialmente verdadeiro no campo da aprendizagem  de conceitos (Brown, Collins, e Duguid, 1989). Boa parte do contexto é sócio-cultural. O conhecimento é tanto tácito como consciente. Estas características do conhecimento são aplicáveis a outras formas do saber, não apenas à dimensão cognitiva; habilidades motoras e emoções também são construídas. Verdade e significado, aspectos do conhecimento, são igualmente resultados de construções (Cherryholmes, 1988). O conhecimento, na verdade, inclui as demais dimensões atrás listadas. Uma vez que o conhecimento é construído pelo aprendiz, conhecimento e aprendizagem são virtualmente sinônimos.
  • Conhecimento e aprendizagem, em grande parte, são criados desde o contexto sócio-cultural via linguagem (Cherryholmes, 1988). Winograd e Flores (1987) concluem sua interpretação dentro desta linha como segue: “Assim, a linguagem não é apenas um meio reflexivo mas constitutivo (do conhecimento). Criamos e damos sentido ao mundo em que vivemos e compartilhamos com os outros. Ou, assumindo as conclusões de modo mais radical, planejamos nós mesmos…por meio da linguagem” (p.78).

De modo  análogo, a comunicação  –  um modo de conformação do conhecimento e da aprendizagem – é um ato pelo qual se cria o significado a partir da intencionalidade (Winograd and Flores (1987), um ato cuja meta é alcançar  consenso social (Harbemas, 1984, 1987).

Como método de pesquisa , a análise da linguagem pode explicar as posturas filosóficas, políticas, sociais, éticas e estéticas de uma comunidade ou de um indivíduo (cf. Carr e Kemmis, 1986, para, nesta linha, verificar os contornos de uma teoria  crítica de análise da linguagem).

Obviamente, outros tipos de conhecimento e de aprendizagem humanos relacionados  com as capacidades visuais, tácteis e auditivas, por exemplo, podem ser criados sem uma associação tão estrita com a linguagem.

  • Conhecimento, aprendizagem e linguagem são atos econômicos e políticos, potencialmente importantes para influenciar e exercer poder sobre os outros. Nesta direção, estudiosos como Aronowitz e Giroux (1985) afirmam que um dos primeiros passos na especificação do que nós enquanto comunidade queremos da educação é “determinar meios que assegurem tanto a importância como as limitações da crítica da linguagem” (p. 19). Os mesmos autores afirmam: “Acreditamos que os educadores, em todos os níveis de escolarização, devem ser vistos como intelectuais que, enquanto mediadores, legitimadores e produtores de idéias e práticas sociais, exercem uma função pedagógica essencialmente política por natureza” (p. 19).
  • Conhecimento, aprendizagem e linguagem possuem uma dimensão estética. Maxine Greene dedicou grande parte de sua vida à estética na educação. Esta autora argumenta que “Da mesma forma que a alfabetização verbal e numérica, a alfabetização estética proporciona aproximação com linguagens específicas, como é o caso, por exemplo, do que ela faz com modos particulares de percepção e imaginação… (e esta alfabetização) pode garantir uma familiaridade mais enriquecida com a aparência das coisas (com o sentimento, com o som), alargando os repertórios simbólicos necessários para se pensar sobre o mundo e expressar o que é pensado” (Greene, 1981, p. 120).
  • Conhecimento, aprendizagem e linguagem possuem um aspecto ético. Um exemplo: ao explicarem a teoria da competência comunicativa de Habermas (cf. Habermas, 1984 e 1987, para mais explicações sobre a teoria), Carr e Kemmis (1986) afirmam que ela é uma teoria ética uma vez que “sua proposta é estabelecer como, desde uma perspectiva inerente à antecipada pela fala humana, há um concepção de uma forma ideal de vida pela qual o desabrochar da autonomia racional, mediada pelo interesse emancipatório, pode ocorrer  (p. 141). (“Interesse emancipatório” é uma forma de conhecimento pouco ou nada  discutida no interior dos círculos de tecnologia educacional). Vem crescendo a convicção de que devemos não apenas ensinar ética mas também de que conteúdos e métodos de ensino carregam uma ou outra ética (a de que o “progresso técnico é bom”, por exemplo).
  • A instrução, portanto, é constituída por atos construtivos lingüísticos, sociais, políticos, econômicos, estéticos e éticos. A educação, na verdade, é tudo isto. E se educar-se significa, pelo menos em parte, ser responsável por si mesmo, tornando-se consciente, reflexivo e ativo nas relações com os fenômenos a nosso redor, os educadores são obrigados a levar em conta todas estas dimensões da instrução. Temos que trabalhar com aprendizes que “planejam” a si próprios e que não são (não devem ser) predominantemente planejados , sem o saber, por outros.

Cherryholmes (1988) propõe certos caminhos que podem facilitar o alcance destas metas pelos educadores. Desde sua visão pós-estruturalista ou, como autor prefere, “crítico-pragmática”, são relevantes as seguintes indicações:

  1. Descreva as relações entre desenvolvimento histórico, e práticas políticas, e a teoria e prática curricular. Como é que dá forma ao discurso curricular e por quê certos conteúdos predominam sobre outros?
  2. Descreva os grupos poderosos. Quem, individual e coletivamente, é premiado ou perdoado, quem é alienado?
  3. Aprofunde a leitura do discurso curricular e analise-o cuidadosamente. Quem ouve? Quem é excluído? Que metáforas e argumentos são apresentados?
  4. Analise as categorias dominantes e mais valorizadas. Que valores e ideologias dão sustentação às categorias?
  5. Gere interpretação alternativa daquilo que os alunos podem aprender.
  6. Examine proposta, ênfases e outros aspectos do currículo sob a luz da mudança e de descobertas em outras disciplinas que não as tradicionais áreas do saber pedagógico (pp. 145-146).

Crenças de alguns tecnólogos educacionais

Com as sugestões que já reuni, minhas conclusões sobre o conteúdo predominante na área de tecnologia educacional podem ser sumarizadas conforme segue:

  • Muitos especialistas em tecnologia educacional parecem desconhecer as idéias atrás delineadas ou, até mesmo, defendem posições contrárias a elas. As principais organizações americanas da área de tecnologia educacional – particularmente aquelas relacionadas com computadores – raramente produzem algo remotamente parecido com as idéias educacionais até aqui descritas. Termos como “pós-estrutural” ou teoria/pedagogia crítica” quase nunca aparecem em obras daqueles especialistas. (Existem algumas exceções , tais como Becker, 1987; Fosnot, 1984 e 1988; Hlynka, 1988; Koetting, 1983; Nichols, 1987; Streibel, 1989; Taylor e Swartz, 1988). Algumas das crenças e posturas predominantes dos especialistas em tecnologia educacional parecem, pelo contrário, caminharem nas seguintes direções:
  • O conhecimento é objetivo e existe a priori. É composto por parcelas discretas de informação. Conhecimento é diferente de aprendizagem, por esta razão prescreve-se uma análise de tarefas antes de decidir que resultados de aprendizagem podem ser esperados. Boa parte da aprendizagem é manipulação de parcelas de informação por funções cerebrais causadas predominantemente pela instrução. Conhecimento, aprendizagem e instrução podem ocorrer, até certo ponto, sem relações com o contexto, por esta razão é possível uma separação temporal entre planejamento e execução da instrução. Nunan (1983) desenvolve uma boa discussão contra esta des-contextualização.
  • Os especialistas em tecnologia educacional, geralmente, não falam sobre os papéis da linguagem na direção atrás delineada. As exceções, no caso, incluem Deckman (1984) e Taylor e Johnsen (1986). Tiberius (1986) realiza um bom trabalho ao desvendar as metáforas relacionadas com tecnologia educacional. Porém, muito poucos são os especialistas que abordam o modo pelo qual a tecnologia educacional reproduz cultura, por exemplo. Ocasionalmente discutimos comunicação em termos de troca (Heinich, Molenda e Russel, 1989), apesar desta idéia parecer estar fora de moda. Comunicação agora é entendida como manipulação de parcelas discretas de informação para ganhos individuais, não para a construção de conhecimento compartilhado em contextos reais.
  • Talvez, muito mais seriamente, deixemos de considerar a idéia de que conhecimento, aprendizagem, instrução e tecnologia são estéticos. Sei que há alguma discussão sobre a arte e a criatividade que as tecnologias recentes podem fazer desabrochar. Suspeito, porém, que tal discussão não passa de um discurso parecido com o de John Sculley, presidente da Apple. Ele afirma, em sua introdução a Interactive Multimedia (Ambron e Hooper, 1988) que o aplicativo Hypercard abrirá para professores e alunos todo o mundo do conhecimento, e dar-lhes-á a ferramenta para criar e crescer num mundo mágico. Sei que ele está vendendo um produto com esta fala, mas apesar disto, me pergunto se ele entende que ninguém está a beira de possuir todo o conhecimento, ou que os detentores do poder irão ou podem dar o resto de nós acesso livre ao pouco conhecimento que dominam. Informação é não só uma ferramenta livremente disponível para a educação. Ela é, por outro lado, um bem econômico e político pouco disponível. Precisamos fazer perguntas sobre a estética da própria idéia de tecnologia. Que poder, eficiência e controle há na tecnologia que tanto atrai os seres humanos?
  • As discussões econômicas e políticas sobre tecnologia educacional são também raras, embora mais visíveis porque os autores como Heinich (1984, 1985) abordaram aspectos políticos. Ele fala de “sistemas de clientes”, de “poder”, e de “níveis mais elevados de decisão”. Porém, minha opinião é a de que a fala política de Heinich é muito limitada, pois ela quase sempre deixa de fora a política mais geral da educação, e não aborda a questão de como muitas pessoas podem ter mais poder ou perdê-lo na sociedade a partir daquilo que os “especialistas” em tecnologia educacional fazem. Faço o mesmo tipo de crítica à discussão de Stewart (1985) sobre a tecnologia educacional americana  e as contribuições desta para as mudanças sociais no Exterior. Também merece crítica o relatório de Holloway (1984) sobre os caminhos que os tecnólogos educacionais parecem percorrer, buscando tecnologias fora do campo da educação em vez de adaptá-las ou de criar uma tecnologia genuinamente educacional. Apple (1986), por outro lado, faz abordagens menos limitadas. Faz perguntas sobre tecnologia, escolarização, e sobre poder social e político. Quer saber quem perde e quem ganha.
  • Parece que há um movimento significativo nos círculos de tecnologia educacional no que tange à questão da ética e tecnologia. Schwen (1988), Taylor & Swartz (1988) e outros autores realizaram estudos realizaram estudos com este tipo de preocupação. O comitê de ética da AECT (Association for Educational Communications and Technology) é atuante – atualmente ele é responsável pela coluna de ética na revista Tech Trends Magazine. Mas o nível de nosso interesse profissional por questões éticas não tem, a meu ver, a mesma profundidade que podemos observar em outros campos com relação a armas atômicas,medicina e ecologia. No campo da tecnologia educacional não geramos idéias e análises do fenômeno tecnológico que guardem qualquer relação com as indagações radicais produzidas sobre tais áreas. Será que os tecnólogos educacionais estão conscientes que nossa tecnologia está associada com a tecnologia em geral e com seus efeitos – efeitos ecológicos, por exemplo? (ver Nichols, 1987)

Neste ponto convém sublinhar que os comentários de Winn (1989) são alentadores considerando o clima até aqui descrito. Ele afirma que o planejamento da instrução talvez seja uma arte; por esta razão deve basear-se em reflexões sobre a prática, não apenas em mais cursos de planejamento e modelos prescriptivos. Ele observa também que as máquinas não podem adaptar-se tão bem como os professores, não podem ensinar melhor do que muitos professores. Porém, como vou argumentar mais à frente, não concordo com Winn quando este sugere que deixemos de trabalhar para os professores mais experientes. Divirjo dele também sobre o futuro impacto que as ciências do conhecimento possam ter qualquer avanço real no planejamento da instrução. Ainda não relacionei meus argumentos, mas suspeito que nenhum conhecimento  adicional no âmbito do paradigma psicocognitivo irá nos ajudar a criar conhecimento, aprendizagem ou instrução mais significativos  que aqueles existentes agora.

Em resumo, o racionalismo parece ser a filosofia predominante de muitos tecnólogos educacionais. Dentro do quadro deste racionalismo, pressupomos que o mundo “real” é feito de fatos objetivos que tem certas propriedades; fatos “objetivos” não dependem de interpretação; fatos são registrados em nossos pensamentos e sentimentos exclusivamente pela via da percepção; e que pensamentos e intenções podem provocar de alguma forma, movimentos físicos em nossos corpos (cf. Winograd e Flores, 1987, p. 31). O método sumarizados a seguir é uma decorrência  destes pressupostos:

  1. O método sumarizado em termos de objeto identificáveis com propriedades bem definidas.
  2. encontre regras gerais aplicáveis a situações nos termos daqueles objetos e propriedades.
  3. aplique as regras logicamente a situação em questão, chegando a conclusões a respeito do que deve ser feito (Winograd e Flores, p. 15).

Ramificações das Crenças

Quais são as possíveis ramificações dos princípios atrás descritos? Ironicamente, nossa adesão a algumas idéias e formas de racionalismo, bastante datadas (incluindo o behaviorismo), indicam que, pelo menos do ponto de vista filosófico, alguns aspectos do campo da tecnologia educacional são velhos , não são novos.

Além disto, pode-se argumentar que “tecnologia educacional” está se tornando um rótulo  inapropriado. Isto está acontecendo não só porque os aprendizes não vem sendo ajudados a serem responsáveis pela sua própria aprendizagem mas também porque nossas organizações profissionais estão se afastando do ambiente educacional e se transferindo para o mundo do treinamento. Winn (1989) sugere esta transição para a AECT. O Encontro Anual de Professores de Tecnologia Educacional parece cada vez mais preocupado em atender necessidades das organizações de treinamento do que necessidades educacionais de professores e alunos. Na verdade, tecnologia educacional não é sequer um dos tópicos relevantes em esforços de reforma como, por exemplo, a Iniciativa Holmes para professores de educação. Talvez devamos nos aproximar, em vez de nos afastarmos, das estruturas educacionais e dos professores.

Este último assunto levanta a questão: até que ponto a tecnologia educacional é uma disciplina de pleno direito? Muitos não nos vêem oferecendo algo diferente daquilo que eles já tem. Professores de matemática, física ou inglês já estão planejando seu próprio ensino, por que então eles devem esperar alguma contribuição nossa? Será que temos uma base conceitual própria? (em outras palavras, será que tecnologia educacional  é um área  de conhecimento com contornos  definidos?). Com o advento dos computadores pessoais perderemos cada vez mais a fama de “especialistas”. Todo mundo já pode ter um computador. Talvez a ausência de uma base conceitual própria explique a diminuição do número de sócios na AECT.

Como já mencionei antes, está sob suspeita uma abordagem de ciência cognitiva quando queremos entender  melhor o que é conhecimento , aprendizagem  e ensino. Será que esta ciência  não está nos ajudando a compreender e, por consequência  controlar o aprendiz para servir interesses alheios, em vez de ajudar os aprendizes a serem responsáveis por eles mesmos? Será que ela não atomiza o saber num mundo em que a compreensão do todo é tão necessária? Será que o predomínio da ciência  do conhecimento e da psicologia da mente não exclui as outras dimensões  do conhecimento, aprendizagem e ensino discutidas atrás neste artigo? Após décadas e décadas de pesquisa, que resultados da investigação psicológica estão sendo utilizados em salas de aula? Muito menos do que nós gostaríamos,  a julgar pelos movimentos de reforma educacional que estão ocorrendo agora.

Finalmente, se  os meus comentários até aqui fazem sentido, acredito que apoiamos de modo acrítico o desenvolvimento da tecnologia; tal atitude, em grandes linhas, é o mesmo que apoiar as ideologias estreitas e atuais do “progresso” e do “individualismo” que estão triturando a sociedade. Incentivamos, em outras palavras,  as ideologias ecológicas tão bem analisadas por Bowers (1988). Talvez possamos julgar nossa própria culpa pelo esfacelamento da sociedade se analisarmos até que ponto acreditamos que os problemas enfrentados hoje em nosso planeta podem ser resolvidos com mais “progresso” tecnológico.

Conclusão

Acho que vários leitores não concordam com  muitos dos meus pontos de vista. Isto pode ser positivo se a discordância gerar debates e escritos sobre o tema; se gerar pesquisa, refinamento teóricos  e desenvolvimento instrucional que contribuam criticamente para uma visão mais equilibrada do que é tecnologia educacional. Se isto acontecer, acredito que iremos fortalece as bases conceituais de nossa disciplina. Além disto, espero que as indicações aqui reunidas tenham mostrado que é preciso ampliar consideravelmente os horizontes da tecnologia educacional.

 

[ Tradução: Jarbas Novelino Barato, Fev/94]

 

[ Original: A Challenge to Current Beliefs About Educational Technology]

 

 

Referências

Ambron, S. and Hooper, K. Interactive Multimedia. Redman, Washington: Microsoft Corporation, 1988.

Apple, M. W. Teachers and Texts. New York: Routledge and kegan Paul, 1986.

Aronowitz, S. and Giroux, H. A. Education Under Siege. Cambridge, MA: Bergin and Garvey Publishers, Inc., 1985.

Becker, A. D. Reader Theories and Educational Media Analysis. 1987 Proceedings of Selected Research Paper Presentations of the Research and Theory Division. Washington, DC: Association for Educational Communications and Technology, 1987.

Brown, J. S., Collins, A., and Duguid, P. Situated Cognition ande the Culture of Learning. Educational Researcher, 1989, 19(10, 32-41.

Carr, W., and Kemmins, S. Becoming Critical. Philadelphia:  The Falmer Press, 1986.

Cherryholmes, C. H. Power and Criticism. New York: Teachers College Press, 1988.

Deckman, D. M. [Review of Orality and Literacy: The Technologizing of the World]. Educational Communications and Technology Journal, 1984, 32, 244 – 247.

Fosnot, C. T. Media and Technology in Education: A Constructivist View. Educational Communications and Technology Journal, 1984, 32, 195-205.

Fosnot, C. T. The Dance of Education. Paper presented at the Annual Meeting of the Association for Educational Communications and Technology, New Orleans, 1988.

Gagne, R. M. Instructional Technology: Foundations. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, 1987.

Giroux, H. A. Schooling and the Struggle for Critical Pedagogy. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1988.

Greene, M. Philosophy and teaching. In M. C. Wittrock (Ed.), Handbook of Research on Teaching. New York: Macmillan, 1986.

Greene, M. Aesthetic Literacy in General Education. In J. F. Soltis (Ed.), Philosophy and Education. Chicago: University of Chicago Press, 1981.

Habermas, J. The Theory of Communicative Action: Vol 1. Reason and The Rationalization of Society. Boston: Beacon Press, 1984. (Original work published in 1981).

Habermas, J. The Theory of Communicative Action: Vol 2. Lifeworld and System: A Critique of Functionalist Reason. Boston: Beacon Press, 1987. (Original work published in 1981.)

Heinich, R. The Proper Study of Instructional Technology. Educational Communications and Technology Journal, 1984, 32, 67-88.

Heinich, R. Instructional Technology and the Structure of Education. Educational Communications and Technology Journal, 1985, 33 (1), 19-25.

Heinich, R., Molenda, M., and Russell, J. Instructional Media and the New Technologies of Instruction. New York: Macmillan, 1989.

Holloway, R. E. Educational TechnologyA Critical Perspective. Syracuse University: ERIC Clearinghouse on Information Resources, 1984.

Hlynka, D. Making Waves with Educational Technology: A Deconstructionist Reading of Ted Aoki. Paper presentede at the Bergamo Conference, 1988.

Koetting, J. R. Philosophical Foundations of Instructional Technology. 1983 Proceedings of Selected Research Paper Presentations of the Research and Theory Division. Washington, DC: Association for Educational Communications and Technology, 1983.

Nichols, R. G. Toward a Conscience: Negative Aspects of Educational Technology. Journal of Visual and Verbal Languagin, 1987, 7, 60-71.

Nunan, T. Coutering Educational Design. New York: Nichols Publishing, 1983.

Schwen, T. M. Professional Ethics: An Analysis of Some Arguments for Development of Virtuous Behavior. Paper presented at the Annual Meeting of the Association for Educational Communications and Technology, New Orleans, 1988.

Streibel, M. Instructional Design and Situated Learning: Is a Marriage Possible? Paper presented at the Annual Meeting of the American Educational Research Association , San Francisco, 1989.

Stewart, A. Appropriate Educational Technology: Does “Appropriateness” Have Implications for the Theoretical  Framework of Educational Communications and Technology? Educational Communications and Technology Journal, 1985, 33, 58-65.

Taylor, W. D. and Swartz, J. D. Instructional Technology and Proliferating World Views. 1988 Proceedings of Selected Research Paper Presentations of the Research ande Theory  Division. Washington, DC: Association for Educational Communications and Technology, 1988.

Taylor, W. D., and Johnse, J. E. Resisting Technological Momentum. In J. A. Culberstson and L. L. Cunningham (Eds.), Technology and Education. Chicago: University of Chicago Press, 1986.

Tiberius, R. G. Metaphors Underlying the Improvement of Teaching and Learning. British Journal of Educational Technology, 1986, 17, 144 – 156.

Winn, W. Toward a Rationale and Theoretical Bassis for Educational Technology. ETR&D, 1989, 37 (1), 35-46.

Winograd, T., and Flores, F. Understanding Computers and Cognitions. Reading, MA: Addison-Wesley, 1987.

Young, M. F. D.  (Ed.) Knowledge and Control. London: Collier-Macmillan, 1971.