Ética do cuidado

 

Valores nos ambientes de trabalho: ética do cuidado

 

Jarbas Novelino Barato

 

Estou elaborando um dos relatórios parciais do estudo sobre Valores, Trabalho e Educação que estou fazendo para a UNESCO. Em tal relatório enfatizo que uma das coisas que se aprende ou se pode aprender por meio da ação em ambientes de trabalho-aprendizagem, por meio é ética do cuidado. Já apresentei essa ideia em alguns fóruns. O mais recente deles foi um evento sobre educação corporativa acontecido no SENAC de Jundiaí. Mas, em tais fóruns fiz apenas referência a aspectos de ética do cuidado que verifiquei em minhas observações. Como parece que algumas pessoas apreciaram a possibilidade de abordar a ética do cuidado com mais atenção nos processos de trabalho, reproduzo aqui a parte de meu relatório parcial que destaca indicações sobre ética do cuidado.

Resolvi compartilhar publicamente essas considerações de meu estudo – mesmo que parciais – esperando que eventuais leitores me forneçam feedfacks sobre o que estou escrevendo.

 

Ética do Cuidado

Um princípio fundamental de educação para o trabalho é a de que os alunos precisam aprender a cuidar. Cuidado aqui significa importar-se com o outro. Esse outro aparece em diferentes instâncias. Refere-se a pessoas, companheiros de trabalho e beneficiários de produtos ou serviços. Refere-se a matérias utilizadas no trabalho. Refere-se a ferramentas e equipamentos. Refere-se ao ambiente onde o trabalho é realizado. Refere-se a padrões social e historicamente criados por uma comunidade de prática.

Casos observados durante as investigações conduzidas para este estudo ilustram bem a ética do cuidado. Para observadores sem simpatia pelo trabalho e pelos trabalhadores, talvez alguns aspectos de cuidado pareçam banais. Mas, eles compõem uma teia de significados e valores que os membros de uma comunidade de prática acham importantes. 

Num curso de marceneiro, aprendizes, no final do período, limpam com esmero suas bancadas individuais e deixam todas as ferramentas nos compartimentos próprios para acomodá-las. Depois limpam toda a oficina com vassouras e aspiradores. Tudo isso pode ser definido numa norma impessoal: manter limpo e organizado o ambiente de trabalho. Essa impessoalidade não se casa, porém, com o que foi observado. Os hábitos de limpeza e organização são construídos em repetidos términos de turnos, ocasiões em que os alunos vão constituindo por meio da ação um sentimento de respeito por equipamentos, ferramentas e ambiente de trabalho. Não há evidência de que as normas de limpeza e organização sejam impostas.  Após alguns dias de trabalho na oficina, os alunos realizam operações de limpeza e organização espontaneamente. No caso estudado, os atores revelaram que os cuidados que tinham eram necessários para que o pessoal de outro turno tivesse um ambiente favorável para realizar suas tarefas.

Em conversas com os estudantes de marcenaria, ouço que limpeza e organização são sinais de profissionalismo. O cuidado com ambiente e equipamentos é um sinal de respeito, respeito pelos outros, respeito para consigo mesmo. Convém anotar que declarações desse tipo demoram a emergir. Os alunos desenvolvem uma ética do cuidado por meio de ações simples. Dificilmente o instrutor justifica limpeza e organização verbalizando preceitos morais. Ele fala sobre obrigações para com a turma que entrará na oficina no turno que segue. Ele fala que é preciso ser profissional no trato com ferramentas.

Os padrões de limpeza e organização se repetem em cursos de cozinha, padaria, produção de salgados. Há cuidado contínuo com o ambiente de trabalho. Não se acumulam equipamentos sujos. Espontaneamente eles são limpos durante o processo de produção. E no final de um período, o ambiente estará inteiramente limpo e arrumado.

Volto á marcenaria. É uma turma de aprendizagem. Olho com atenção o que faz um dos alunos. Tem dezessete anos, mas parece ter doze. Lida com uma tábua imensa que precisa ir à mesa de serra, mas não tem força suficiente para carregar a peça de madeira. Imediatamente dois colegas se juntam a ele para ajudá-lo. Pergunto ao instrutor se aquilo ocorre com frequência. Ele me diz que sim e acrescenta, “sempre há alguém que o auxilia na operação de alguns equipamentos, pois estes estão dimensionados para trabalhadores adultos e o aluno pequeno não consegue alcançar alguns dos controles”.

Situações similares às narradas atrás foram observadas em cozinhas. Entre os muitos aspectos de cuidado, resolvi explorar em conversas o cuidado com a ferramenta símbolo da profissão de cozinheiro. Antes conversar com professores e alunos, havia notado que os profissionais exigem que as facas estejam devidamente afiadas. Além disso, querem facas adequadas para cada tipo de serviço. Na conversa, ouço mais uma vez a explicação de que cuidado com as facas é um indicador de profissionalismo. Ferramentas afiadas e adequadas são condição para serviço de qualidade. A ligação entre os profissionais e a ferramenta tem um que de afeto. O detalhe não é desimportante, pois o uso de facas sem as qualidades necessárias para o serviço indica ambiente em que os trabalhadores não têm compromisso com execução, com a obra. Falta, no caso, o necessário engajamento profissional que dá sentido à ação.

A ética do cuidado não se restringe à educação moral dos alunos. Ela tem desdobramentos no nível de concepção dos cursos oferecidos. Mais concretamente, ela tem repercussão nas concepções dos ambientes de trabalho-aprendizagem.

Numa das escolas observadas, noto que o ambiente de soldagem é muito limpo. O piso é claro e feito de placas que facilitam a limpeza. Além disso, a escola abandonou os tradicionais jalecos cinza escuros, típicos de ambientes industriais. Os alunos trajam camisas brancas, imaculadas. Converso com o diretor da escola sobre o que vejo. Ele me diz que operou mudanças no ambiente de trabalho-aprendizagem para que os alunos percebessem que são respeitados.  A partir da observação feita nessa escola e da conversa com o diretor passei a anotar detalhes sobre a arquitetura dos ambientes utilizados como oficinas e laboratórios nas demais instituições de educação profissional e tecnológica visitadas.

Na grande maioria das escolas da rede federal, do SENAI e do SENAC os ambientes são muito cuidados, tem bons equipamentos e ferramentas, tem boas instalações de laboratório. Infelizmente isso não ocorre em algumas escolas de redes estaduais. Numa delas vi oficinas e laboratórios muito velhos, tetos com goteiras e limpeza precária. Essas condições passam para os alunos como as instituições escolares os veem. Há, como, já anotei, uma dimensão da ética do cuidado que passa pelas instalações escolares. Ao que parece, as instituições escolares não consideram a precariedade de suas instalações como indicador de princípios de cuidados com seus alunos. Instalações inadequadas, recursos inexistentes são contabilizados em itens relacionados, com planejamento, finanças e gestão. Mas, sempre passarão mensagens significativas para os alunos. Em escolas desprovidas de recursos, sujas, descuidadas, discursos sobre valores do trabalho, ética e estética soam falsos, mesmo que os educadores que os façam tenham boas intenções.

[É importante levar em conta a arquitetura das escolas. Os ambientes passam para os alunos mensagens implícitas de como eles são vistos pelos sistemas educacionais. Discursos bem intencionados sobre importância dos alunos no processo educacional soam falsos em escolas precárias. Esse assunto, se adequado, pode merecer mais espaço no relatório final deste estudo]

Num dos cursos de marcenaria observado, assisto a uma aula de tecnologia da madeira, atividade que precedeu ida dos alunos à oficina. Na conversa com o instrutor os alunos comentam a diversidade das madeiras com as quais já tinham trabalhado. Vejo que eles já sabem que precisam trabalhar com madeira certificada. E na oficina, toda a madeira disponível é certificada, de origem sabida, aprovada pelo IBAMA. Essa particularidade mostra como os estudantes estão aprendendo cuidado com o meio ambiente. Os diversos tipos de madeira que podem ser encontrados em oficinas são manipulados pelos alunos e entram na composição de móveis que eles fazem. Isso é bastante diferente do discurso genérico sobre meio ambiente que pode ser encontrado em aulas e materiais onde predomina abordagem de valores via discurso [via proposições de princípios; convém analisar um pouco mais essas duas abordagens sobre meio ambiente, utilizando com referência JENSEN, 2010].

Noutro curso de marcenaria, vi a turma inteira trabalhando na recuperação de um móvel antigo, feito de madeira que está em extinção. Alguns alunos trabalham na remoção de verniz e tinta que foram utilizados indevidamente no móvel, escondendo a cor original da madeira. Outros grupos trabalham na remontagem do móvel. A beleza original da madeira vai sendo evidenciada. A qualidade da madeira utilizada é reconhecida a partir do trabalho de recuperação.  Árvores daquela madeira atualmente não podem ser mais derrubadas. Os alunos compreendem, em sua ação que a exploração descontrolada de madeiras de grande qualidade provocou perdas irreparáveis e possibilidades de produzir móveis muito bonitos.

[O trabalho com diversos tipos de madeira, o entendimento de que a qualidade da matéria prima utilizada depende da árvore que foi processada em serrarias para usos em marcenarias, e o conhecimento da madeira que se funda numa manualização inteligente dão sentido muito concreto a cuidados ecológicos. É bom reparar que este caminho é muito diferente da apreensão de princípios por meio de transações verbais com a esperança de que os alunos sejam capazes de “conscientizar (sic) e reconhecer problemas ambientais que afligem e põem em risco a humanidade”. ]

 

Nos dois parágrafos anteriores estão relatadas situações que certamente contribuem para a formação de consciência ecológica, pois ao aprenderem, via manipulação, qualidades das madeiras que podem estar presentes na vida de um marceneiro, os alunos certamente desenvolvem sentimentos de respeito pela natureza. Podemos discutir se tal sentimento é transferível para outras situações de respeito pelo meio ambiente, mas isso é assunto para capítulo sobre sugestões didático-pedagógicas [que ainda será escrito na sua primeira versão…]

Acredito que cuidados com a madeira com a qual se trabalha, tanto no caso introduzido por narrativa sobre tecnologia da madeira como no caso de recuperação de um móvel antigo, são indicadores de uma educação moral que é muito mais efetiva que a da aprendizagem de proposições que, supostamente resultariam na competência que faz parte da lista do plano de curso de técnico de informática ao qual me referi na introdução desta seção do relatório. Os alunos dos cursos de marcenaria observados lidam com madeira e fazem julgamentos que retratam uma compreensão bem fundamentada de um problema ecológico específico. Aprendem uma dimensão particular de ética do cuidado lidando com outro que é significativo no ofício para o qual se preparam.

O caso do cuidado com a madeira e seus desdobramentos em termos de respeito pelo meio ambiente merece uma observação complementar. Em tecnologia e ciência há uma tendência em julgar que tudo que seja possível é permitido (cf. SENNETT, 2007). No caso da marcenaria é de se perguntar se nos meios profissionais tal tendência não resulta em justificativas para uso de madeira não certificada na confecção de móveis. Em outras palavras, nos meios profissionais não há também uma tendência no sentido de que a exploração de algumas possibilidades técnicas, mesmo que gente que não é do ramo ache que há restrições morais, uma vez que a experimentação e invenção são atos que não devem ser limitadas. A partir de minhas observações, conclui que alunos e professores das oficinas que visitei desenvolvem uma consciência ambiental numa em direção que aceita restrições de caráter moral. Mas, a questão é aberta. Escrevo esta nota, vendo em vista que a questão merece mais investigação e deve ser considerada em indicações de caráter didático-pedagógico, uma vez que o ethos profissional do marceneiro pode conflitar com a ética da permissibilidade tão comum em ciência e tecnologia. [No caso da bioética essa questão fica muito clara, sempre se pergunta se experiências científicas devem ser feitas mesmo que possam causar prejuízos aos sujeitos – humanos ou animais. Há um caso clássico que pode merecer atenção, The Tuskegee Case. No caso Tuskegee, cientistas que estavam acompanhando pessoas atingidas pela sífilis deixam de medicar os pacientes depois que foi descoberta medicação – penicilina – capaz de curar os doentes. Tal decisão foi tomada em nome da “ciência”, pois a cura dos doentes impediria que as observações continuassem. Há uma bela Webquest de Tom March que sugere estudo do caso e uma tarefa concreta para que os estudantes aprofundem sua educação moral por meio da análise de um caso histórico; cf. http://jarbasquest.wordpress.com/exemplo-de-wq/ .]

Uma resposta to “Ética do cuidado”

  1. Sergio Roberto Crejo Says:

    Li com bastante interesse o presente post, logo, como de costume, passei a ruminar situações e informações que me deparei ao longo do tempo. Em certa ocasião vi-me de posse de um móvel antigo o qual o proprietário estava descartando (jogando fora), observei a peça, vi que era feita de madeira maciça com contornos coloniais então expliquei para a pessoa que aquela peça era de alta qualidade e que aquela madeira era rara, ele me respondeu que não via utilidade naquele móvel, pedi então permissão para levá-lo para minha casa, o dono logo concordou pois isso o livraria de pagar um carreto para se ver livre do mesmo.
    Levei a peça para minha residência e logo passei a retirar cuidadosamente todas as camadas de verniz que foram indevidamente aplicadas nele (enquanto fazia este trabalho, notei através dos selos de fábrica que se tratava de uma peça de 1920) e após a retirada total das camadas de verniz, revelou-se em todo o seu esplendor uma bela obra confeccionada em Imbúia maciça. Depois de devidamente restaurada ela foi colocada na primeira sala da minha casa tornando-se um imponente aparador, alvo de comentários e elogios por parte de todos que o veem e sempre me perguntam a sua origem e então eu passo a explicar com certo orgulho todo o trabalho que ali realizei.
    Acredito que a ética do cuidado é também um componente muito importante de algo que o Sr. citou em um post no face, relatando sobre a celebração do trabalho (do seu próprio pai), e acrescento que viví situações idênticas pois também a profissão do meu pai era pedreiro e nos levava as vezes nos finais de semana para mostrar o que ele havia construído.
    Tomo emprestado agora para isso o pensamento de Karl Marx dizendo que o homem constrói a arte e a arte constrói o homem, numa reciprocidade construtiva e digna de celebração.
    Gostamos de exibir aquilo que fazemos de melhor, gostamos de celebrar aquilo que construímos e esta celebração só pode ser total se nosso trabalho for bem realizado em todos os aspectos e a ética do cuidado é um dos principais elementos para tanto.

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