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Informação X Conhecimento

outubro 7, 2017

VISÃO INTERATIVA DO SABER

 

 

Muita gente gosta de arranjar rótulos para períodos históricos. Em livros de história são comuns termos como “idade da pedra lascada”, “idade do bronze”, “idade do ferro”, etc. Nos dias de hoje, são frequentes as comparações entre Sociedade Industrial – uma era histórica cujos começos aconteceram três séculos atrás – e a Sociedade do Conhecimento – a novíssima era cujos começos aconteceram nos anos oitenta do século XX. Gente de empresa, por exemplo, declara que agora os produtos têm um “valor agregado”. E valor agregado, na nova era, é sobretudo conhecimento.

 

O uso da expressão Sociedade do Conhecimento está ligado a duas dimensões que nos interessam: informática e educação. Em muitos sentidos diz-se que a Sociedade do Conhecimento é um produto da informática. Computadores cada vez mais poderosos, acessíveis por meio de redes planetárias de comunicação eletrônica, colocam qualquer conhecimento humano ao alcance de todos. Quase tudo que um cidadão quer ou precisa saber, dizem os entusiastas pela Sociedade do Conhecimento, pode ser obtido de modo imediato. Basta entrar na rede!

 

Uma das características da nova era é a velocidade de produção. Diz-se que nos últimos trinta ou quarenta anos a humanidade produziu mais conhecimento que todo o período anterior de cem mil anos. Os entusiastas afirmam que o acervo de saber dos humanos irá dobrar em períodos cada vez mais curtos.

 

A formidável produção de conhecimentos, nos termos relatados até aqui, parece exigir mais educação. Assim, muitos futurólogos deste final de século insistem em dizer que o setor educacional será um grande campo de trabalho nas próximas décadas. O crescimento acelerado da oferta de conhecimento exigirá, de acordo com as visões futuristas, gente mais educada, capaz de fazer bom uso da formidável massa de conhecimentos que estará disponível para quem saiba aproveitá-la. Além disso, dizem as mesmas fontes, a educação deverá sofrer mudanças significativas para acompanhar as demandas da sociedade do futuro. Para exemplificar, cito a seguir trecho de um documento publicado pela Academia Americana de Ciência na WEB. O documento, um belo exemplo de publicação que usa os recursos computacionais disponíveis, chama-se Reiventing Schools: The Technology Is Now [www.nap-edu/readingroom/books/techgap]:

 

Professores, pais, administradores escolares, e políticos começaram a perceber que é necessário um modelo de educação inteiramente novo. Nesse novo tipo de escola, todos os estudantes irão chegar a altos padrões de aprendizagem porque todas as pessoas deverão estar preparadas para pensar pela vida inteira; todas as pessoas terão de ser capazes de aprender muitas novas habilidades durante o curso de suas vidas. Esse modelo de educação irá aumentar as ligações entre os estudantes e suas comunidades, fazendo com que a escola se envolva  com complexas decisões éticas, técnicas e cívicas que todos os cidadãos terão de fazer. O período e localização da educação será mais flexível para refletir e aproveitar vantagens de mudanças no mercado de trabalho. A distinção entre aprender dentro e fora da escola perderá sentido.

 

 

No trecho citado, fala-se de uma nova escola, de uma educação permanente e, sobretudo, de exigências de padrões educacionais muito altos para todos. Além de mudanças nos objetivos, a escola do futuro deverá usar recursos tecnológicos avançados. Deverá aproveitar a fartura de conhecimentos proporcionada pelos novos meios de comunicação. Isso tudo significa mais educação.

 

 

CONHECIMENTO OBJETIVADO

 

Antes de seguir em frente, quero listar algumas características de boa parte dos discursos sobre a nova era. Como veremos, mais à frente, tais características são muito importantes em qualquer discussão sobre como fazer educação. É bom notar que o discurso sobre uma Sociedade do Conhecimento, geralmente:

 

n  não distingue informação de conhecimento

n  não estabelece qualquer critério para avaliar qualidade de conhecimento/

informação

n  vê no conhecimento um produto que pode ser:

 

> armazenado

> vendido

> comprado

> transmitido

> doado

> controlado por donos ou proprietários

 

Tais características tem implicações sérias para a educação. A mais séria, no caso, é a implicação de que educar é um ato de transmissão. Não há muita novidade nisso; quase todos os livros de didática descrevem atividade sistemática de ensino como transmissão de conhecimento. Esse modo de ver o trabalho educacional supõe que os conhecimentos tem as características de produto que acabamos de ver.

 

Pensar o conhecimento com um objeto que independe de agentes do saber e de contextos de significação é uma abordagem que simplifica o entendimento do que é aprendizagem. Essa tendência acaba reforçando a ideia de que aprender é adquirir conhecimento. Na verdade, podemos adquirir informação. Mas o conhecimento só pode ser elaborado por agentes de saber. Essa temática vai merecer um estudo mais extenso na próxima unidade. Por enquanto, eu quero apenas deixar registrado que tratar o conhecimento como um objeto é uma tendência que empobrece nosso modo de ver o processo educacional.

 

 

VISÃO INTERACIONISTA

 

Neste curso, vamos estudar uma proposta à qual tenho dado o nome de abordagem interativa do saber.  Essa abordagem navega contra a corrente. Ao contrário das ideias predominantes, ela está baseada em pontos de vista que:

 

q não acham que o conhecimento humano está entrando numa fase de crescimento geométrico

q procuram estabelecer uma distinção nítida entre informação e conhecimento

 

q entendem que o conhecimento é uma  elaboração de sujeitos em atos de aprendizagem

 

q sabem  que há uma oferta imensa de informações, mas constatam que um número enorme de pessoas é incapaz de converter informação em conhecimento

 

Não vou expor a abordagem interacionista agora. Vou apenas apresentar um texto para reflexão, tentando mostrar que muita informação não produz, necessariamente, muito conhecimento.

 

 

 

FARTURA DE INFORMAÇÃO

 

Nosso tempo é uma época de muita fartura de informação. A famosa banca de jornais da Praça Villaboim oferece cerca de quinhentos títulos diferentes de livros, livretos, jornais, revistas etc. E essa oferta já não é tão nova, Caetano Veloso, em música muito conhecida, perguntava no fim dos anos sessenta: “quem lê tanta notícia?” A oferta de fontes de informação na Internet já se conta na casa dos milhões. Acadêmicos, como o professor Donald Norman, recebem em torno de dois mil e-mails por mês.

 

Tanta fartura é coisa recente na história. No século XIV, por exemplo, como conta S. Tuchman em A Distant Mirror, um rei francês deixou como principal item de herança um bem de preço incalculável: uma biblioteca com três centenas de livros! Hoje, qualquer professor universitário, tem bibliotecas pessoais que ultrapassam em muito a famosa coleção de livros do monarca francês de seiscentos anos atrás.

 

Há muita informação disponível. E o preço dessa mercadoria vem caindo sistematicamente. Isso não garante que estejamos ficando mais sábios e inteligentes. Sempre que vejo comentários sobre fartura de informação, lembro-me de dois nomes: Aristóteles e Santo Agostinho. Ambos foram gênios e produziram uma obra imensa. Aristóteles viveu a dois mil e quatrocentos anos. Agostinho, a mil e seiscentos. Possivelmente, nem um nem outro tinha biblioteca pessoal equiparável à de um intelectual do século XX. Não dispunham de muita informação. Apesar disso produziram uma obra que continua a ter grande importância para o pensamento de homens que vivem nesta virada de milênio.

 

 

 

Em vez de continuar com nossa conversa sobre conhecimento e informação, faço uma pequena pausa e proponho alguns exercícios, algumas vivências, como dizem os especialistas em treinamento.

 

 

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

Exercício/Vivência

 

Ver informação e conhecimento como sinônimos é uma crença bastante generalizada. Em educação, costumamos pensar que o conhecimento está no texto dos livros. É comum, por exemplo, a expressão “apropriar-se de conhecimentos”. Essa apropriação se faz como um ato de tomada de posse do texto. E, ao fazer isso, o aluno se torna proprietário do conhecimento pois este está contido nas palavras escritas. A crença em foco não é produto de ingenuidade ou ignorância das pessoas. Ela é uma ideia dominante uma vez que as estruturas escolares que conhecemos reforçam a convicção de que o saber pode ser capturado pela linguagem, sobretudo a linguagem escrita.

 

Para encaminhar uma reflexão sobre as relações entre texto e saber, proponho aqui um exercício. Vou sugerir a leitura de um pequeno escrito dos pesquisadores Bransford e Johnson (1972), citado no livro The Constructive Metaphor (Spivey, 1997). É um trecho curto, sem nenhuma grande dificuldade de estrutura e de vocabulário.

 

O exercício é simples. Você deve:

 

n  ler o texto, tentando entendê-lo

 

n  descrever, em quatro ou cinco palavras, a atividade à qual o texto se refere

 

n  comparar sua resposta com a resposta fornecida pelos autores

 

Vamos ao trabalho!

 

COISAS DA VIDA

 

O procedimento é muito simples. Em primeiro lugar você separa as coisas em diferentes grupos. É claro que um único monte será suficiente, dependendo da quantidade a ser processada. Ir a outro lugar devido à ausência de equipamento poderá ser o segundo passo; se essa providência for necessária, você estará pronto para continuar. É importante não exagerar na dose. Ou seja, é melhor fazer poucas do que muitas coisas de uma vez. A curto prazo isto pode não parecer importante, mas complicações podem surgir facilmente. Da mesma forma, um erro pode custar caro. No começo, o processo inteiro parecerá complicado. Logo, porém, ele vai se tornar uma outra faceta da vida. É difícil prever qualquer fim para a necessidade dessa tarefa num futuro próximo; mas, quem pode afirmar isso com certeza? Depois que o processo estiver completo, você deve organizar as coisas em diferentes grupos outra vez. A seguir, elas podem ser colocadas em seus lugares. E, quase certamente, serão usadas de novo e um ciclo completo terá de ser repetido. Mas isso faz parte da vida.

 

Agora que você já leu Coisas da Vida, tente adivinhar a atividade descrita pelo texto. Procure escrever sua adivinhação em poucas palavras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIMPAR
resposta
CONFIRMAR

 

 

 

 

Compare sua solução com o título dado pelos autores do texto, em

 

(V) resposta deve estar em localização que não permita ao usuário ter acesso à solução do problema antes de registrar sua (dele) tentativa. (V)

 

RESPOSTA PARA COISAS DA VIDA

 

§  Como lavar roupas (usando máquina de lavar)

 

 

REFLEXÕES SOBRE COISAS DA VIDA

 

Em experiências realizadas por Bransford e Johnson, os leitores de Coisas da Vida não conseguiam descobrir que o texto referia-se a atividade de lavar roupas. E isso acontecia porque os autores procuraram eliminar palavras que pudessem indicar contexto ao qual o texto se referia. Por essa razão, os leitores não conseguiam dar sentido ao texto.

 

Entender um texto (uma informação) requer iluminá-lo com conhecimento, dando-lhe sentido. Mas se encontrarmos um texto – fácil ou difícil – ao qual não possamos aplicar nosso conhecimento, é quase impossível o entendimento. Nessa altura acho que é bom citar uma explicação da professora Spivey (1997).

 

Entender um texto é um processo ativo de construir significado desde os sinais que o escritor fornece. E compor um texto é um processo ativo de construir significado para um texto e usar pistas  textuais para sinalizar significado para os leitores (p. 146)

 

Não vou falar muito sobre a experiência. Quero apenas insistir nas idéias de que:

 

n textos passam informação

 

n informação precisam ser interpretadas

 

n interpretações são atos de conhecimento

 

Se você quiser utilizar Coisas da Vida com um grupo de leitores e ver o que acontece, imprima o texto e boa sorte. Antes de seguir em frente, medite um pouco mais sobre Coisas da Vida. Está ficando claro, para você, a necessidade de distinguir claramente informação de conhecimento? Espero que o próximo exercício – SALA DE ESTAR –

(V) Se possível, usuário deverá poder acessar um cópia limpa de Coisas da Vida para imprimir e usar como sugiro (V)

 

SALA DE ESTAR

Exercício/Vivência

 

Vou descrever e fazer alguns comentários sobre SALA DE ESTAR, um exercício que utilizo com referência para discutir relações entre informação e conhecimento em processos educacionais. Se você tiver condições de conseguir voluntários que possam fazer o exercício, suas observações sobre a atividade serão de grande importância para a nossa conversa sobre a questão do conhecimento.

 

 

Como Fazer o Exercício

 

Em SALA DE ESTAR, a dinâmica de trabalho obedece a seguinte seqüência:

 

1.        os participantes são convidados a trabalhar em duplas num experimento de comunicação;

 

2.        nas duplas de trabalho, cada participante senta-se com as costas voltadas para as costas do respectivo parceiro;

 

3.        um dos componentes da dupla recebe o original de SALA DE ESTAR; o outro componente, uma folha de sulfite em branco;

 

4.        o componente que receber a figura original exercerá o papel de instrutor/professor; seu parceiro exercerá o papel de aluno/treinando;

 

5.        em hipótese alguma, o aluno poderá ver a figura em poder do professor;

 

6.        o professor deverá passar oralmente instruções que ajudem o aluno a desenhar SALA DE ESTAR, reproduzindo com a maior fidelidade possível a figura original;

 

7.        o trabalho das duplas devera durar de quinze a vinte minutos;

 

8.        terminado o trabalho de instrução e reprodução, as duplas discutirão a experiência por um cinco minutos.

 

 

Como disse, você poderá fazer essa experiência com alguns voluntários para verificar o que acontece. Além da dinâmica das relações entre professor e aluno em cada dupla, o que mais nos interessa aqui é o que o aluno produz a partir das instruções do professor.

 

Se você quiser fazer a experiência será preciso obter uma cópia do original de SALA DE ESTAR. Para obter sua cópia clique em original e imprima a página com a famosa figura.

 

(V) Será preciso garantir a possibilidade de acesso a uma página inteira com a figura original de sala de estar, pois assim o participante poderá imprimi-la para uso em experimentos que possa fazer (V)

 

Tenha você feito ou não a experiência proposta, convém ler os comentários que seguem:

 

Minhas Intenções com SALA DE ESTAR

 

Ao trabalhar com SALA DE ESTAR, procuro criar uma analogia que pode nos ajudar a pensar sobre as relações entre informação e conhecimento. Mas antes de falar sobre as relações que podem ser vivenciadas no exercício, quero explicar o significado dos elementos que integram SALA DE ESTAR.

 

n Desenho original: representa o conhecimento do professor.

 

n Instrução criada pelo professor: é informação produzida a partir de um determinado campo de conhecimento; na escola, damos a isso o nome de ensino.

 

n Posição dos pares – costa/costa: simula a impossibilidade do aluno ter acesso direto ao conhecimento do professor; simula também a impossibilidade do professor ter acesso direto ao conhecimento do aluno.

 

n Desenho produzido pelo aluno: representa o conhecimento elaborado pelo aluno a partir das instruções passadas pelo professor.

 

Minha principal intenção com SALA DE ESTAR é a de mostrar a diferença entre conhecimento (original) do professor e conhecimento elaborado pelo aluno. Além disso, é provável que já comece a ficar evidenciada a diferença entre informação e conhecimento, tema que pretendo discutir mais à frente neste curso.

Quem conseguiu fazer o exercício deve ter obtido figuras muito interessantes produzidas pelos alunos. Para nossa reflexão comum, mostro a seguir dois trabalhos elaborados por alunos num dos meus “experimentos”.

 

Figura original de SALA DE ESTAR

 

SALA DE ESTAR: Produção de Aluno A/2000

 

SALA DE ESTAR: Produção de aluno B/2000

 

Como a gente pode verificar, a distância entre a figura original e produções dos alunos é muito grande. Como explicar isso em termos das relações entre conhecimento do professor, informação ou ensino, e conhecimento produzido pelo aluno? Para responder essa questão de modo mais sistemático, vamos a nosso primeiro diagnóstico de aprendizagem.

 

 

DIAGNÓSTICO DE APRENDIZAGEM

 

Ao chegar até aqui, você deve ter lido meu texto e examinado dois exercícios (Coisas de Vida e Sala de Estar). Acho que já temos elementos para estabelecer uma visão compartilhada de entendimento sobre dois termos muito importantes, informação e conhecimento. E vamos fazer isso usando o Diagnóstico de Aprendizagem.

 

Não vou propor um exercício para saber se você domina o conteúdo. Vou, muito mais, sugerir uma atividade que possa servir de registro para os resultados de usa reflexões sobre o texto de leitura e os dois exercícios que integram essa unidade. Como SALA DE ESTAR é, a meu ver, um exercício muito rico, vou utilizá-lo como objeto de nossa conversa final nesta unidade.

 

 

ATIVIDADE

 

  • Como você pode verificar no exercício SALA DE ESTAR, há uma diferença muito acentuada entre conhecimento do professor e conhecimento elaborado pelo aluno. Considere a situação e escreva um pequeno ensaio (cerca de vinte linhas) sobre os porquês da diferença. Tente, em seu texto, definir o que é informação e o que é conhecimento. Quando terminar seu escrito compare o resultado de seu trabalho com o gabarito que criei.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Compare sua resposta com o gabarito

 

Há uma diferença acentuada entre conhecimento do professor e conhecimento do aluno. Como explicá-la?

 

Acho que uma boa resposta deve considerar:

 

1.    O conhecimento das pessoas não é diretamente acessível. Apenas o sujeito conhecedor tem visão clara e total daquilo que ele sabe. Nesse sentido, o conhecimento é subjetivo.

 

2.    Para tornar o conhecimento pessoal acessível, as pessoas produzem informação. Esta última é constituída por representações externas às quais conferimos significado. Quando duas ou mais pessoas se põem de acordo quanto ao significado de um item de informação (um símbolo, uma palavra, uma figura etc.) ocorre comunicação (algo conhecido é colocado em comum).

 

3.    Para produzir seu conhecimento, o aluno em SALA DE ESTAR conta com duas coisas: informação do professor e conhecimento prévio ou anterior. Ele interpreta as informações que recebe de acordo com seu entendimento (sua estrutura de conhecimento já constituída).

 

4.    Nem sempre as interpretações do aluno caminham na direção esperada pelo professor.

 

5.    Provavelmente, sempre haverá certa diferença entre conhecimento do professor e conhecimento elaborado pelo aluno.

 

6.    Parte do problema comunicativo em SALA DE ESTAR deve-se à falta de cuidado do professor na produção de informações. Muitas vezes os professores, na produção de informações, não consideram o ponto de vista dos alunos. Ao fazerem isso, geram informação que não comunica ou leva o aluno a interpretações não esperadas.

 

 

 

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Dez anos de Boteco

outubro 1, 2017

Vejo mapa com registros de visitas a este Boteco Escola, nestes dez anos. Fora do Brasil, acessos mais frequentes foram nos EUA: 35.016. E há algumas surpresas; Vietnã: 13, Namíbia: 8, Mongólia: 5. Ao todo, o blog foi visitado por gente de cento e trinta e seis países.

Visão interativa do saber

novembro 10, 2016

Anos atrás, escrevi material para uma curso online, destinado a professores da rede pública do Estado de São Paulo, coordenado pela Fundação Vanzolini. Hoje, ao fuçar nos meus guardados, encontrei o rascunho da primeira unidade de tal curso. Não consegui recuperar as imagens que utilizei na época. Vou ver se elas ainda estão arquivadas em alguma velha pasta. Mas, acho que já posso publicar o texto aqui como uma curiosidade para quem queira saber como organizei meu curso na ocasião.

VISÃO INTERATIVA DO SABER

Muita gente gosta de arranjar rótulos para períodos históricos. Em livros de história são comuns termos como “idade da pedra lascada”, “idade do bronze”, “idade do ferro”, etc. Nos  dias de hoje, são freqüentes as comparações entre Sociedade Industrial – uma era histórica cujos começos aconteceram três séculos atrás – e a Sociedade do Conhecimento – a novíssima era cujos começos aconteceram nos anos oitenta do século XX. Gente de empresa, por exemplo, declara que agora os produtos têm um “valor agregado”. E valor agregado, na nova era, é sobretudo conhecimento.

O uso da expressão Sociedade do Conhecimento está ligado a duas dimensões que nos interessam: informática e educação. Em muitos sentidos diz-se que a Sociedade do Conhecimento é um produto da informática. Computadores cada vez mais poderosos, acessíveis por meio de redes planetárias de comunicação eletrônica, colocam qualquer conhecimento humano ao alcance de todos. Quase tudo que  um cidadão quer ou precisa saber, dizem os entusiastas pela Sociedade do Conhecimento, pode ser obtido de modo imediato. Basta entrar na rede!

Uma das características da nova era é a velocidade de produção. Diz-se que nos últimos trinta ou quarenta anos a humanidade produziu mais conhecimento que todo o período anterior de cem mil anos. Os entusiastas afirmam que o acervo de saber dos humanos irá dobrar em períodos cada vez mais curtos.

A formidável produção de conhecimentos, nos termos relatados até aqui, parece exigir mais educação. Assim, muitos futurólogos deste final de século insistem em dizer que o setor educacional será um grande campo de trabalho nas próximas décadas. O crescimento acelerado da oferta de conhecimento exigirá, de acordo com as visões futuristas, gente mais educada, capaz de fazer bom uso da formidável massa de conhecimentos que estará disponível para quem saiba aproveitá-la. Além disso, dizem as mesmas fontes, a educação deverá sofrer mudanças significativas para acompanhar as demandas da sociedade do futuro. Para exemplificar, cito a seguir trecho de um documento publicado pela Academia Americana de Ciência na WEB. O documento, um belo exemplo de publicação que usa os recursos computacionais disponíveis, chama-se Reiventing Schools: The Technology Is Now [www.nap-edu/readingroom/books/techgap]:

Professores, pais, administradores escolares, e políticos começaram a perceber que é necessário um modelo de educação inteiramente novo. Nesse novo tipo de escola, todos os estudantes irão chegar a altos padrões de aprendizagem porque todas as pessoas deverão estar preparadas para pensar pela vida inteira; todas as pessoas terão de ser capazes de aprender muitas novas habilidades durante o curso de suas vidas. Esse modelo de educação irá aumentar as ligações entre os estudantes e suas comunidades, fazendo com que a escola se envolva  com complexas decisões éticas, técnicas e cívicas que todos os cidadãos terão de fazer. O período e localização da educação será mais flexível para refletir e aproveitar vantagens de mudanças no mercado de trabalho. A distinção entre aprender dentro e fora da escola perderá sentido.

No trecho citado, fala-se de uma nova escola, de uma educação permanente e, sobretudo, de exigências de padrões educacionais muito altos para todos. Além de mudanças nos objetivos, a escola do futuro deverá usar recursos tecnológicos avançados. Deverá aproveitar a fartura de conhecimentos proporcionada pelos novos meios de comunicação. Isso tudo significa mais educação.

CONHECIMENTO OBJETIVADO

Antes de seguir em frente, quero listar algumas características de boa parte dos discursos sobre a nova era. como veremos, mais à frente, tais características são muito importantes em qualquer discussão sobre como fazer educação. É bom notar que o discurso sobre uma Sociedade do Conhecimento, geralmente:

n  não distingue informação de conhecimento

n  não estabelece qualquer critério para avaliar qualidade de conhecimento/

informação

n  vê no conhecimento um produto que pode ser:

> armazenado

> vendido

> comprado

> transmitido

> doado

> controlado por donos ou proprietários

Tais características tem implicações sérias para a educação. A mais séria, no caso, é a implicação de que educar é um ato de transmissão. Não há muita novidade nisso; quase todos os livros de didática descrevem atividade sistemática de ensino como transmissão de conhecimento. Esse modo de ver o trabalho educacional supõe que os conhecimentos tem as características de produto que acabamos de ver.

Pensar o conhecimento com um objeto que independe de agentes do saber e de contextos de significação é uma abordagem que simplifica o entendimento do que é aprendizagem. Essa tendência acaba reforçando a idéia de que aprender é adquirir conhecimento. Na verdade, podemos adquirir informação. Mas o conhecimento só pode ser elaborado por agentes de saber. Essa temática vai merecer um estudo mais extenso na próxima unidade. Por enquanto, eu quero apenas deixar registrado que tratar o conhecimento como um objeto é uma tendência que empobrece nosso modo de ver o processo educacional.

VISÃO INTERACIONISTA

Neste curso, vamos estudar uma proposta à qual tenho dado o nome de abordagem interativa do saber.  Essa abordagem navega contra a corrente. Ao contrário das idéias predominantes, ela está baseada em pontos de vista que:

q não acham que o conhecimento humano está entrando numa fase de crescimento geométrico

q procuram estabelecer uma distinção nítida entre informação e conhecimento

q entendem que o conhecimento é uma  elaboração de sujeitos em atos de aprendizagem

q sabem  que há uma oferta imensa de informações, mas constatam que um número enorme de pessoas é incapaz de converter informação em conhecimento

Não vou expor a abordagem interacionista agora. Vou apenas apresentar um texto para reflexão, tentando mostrar que muita informação não produz, necessariamente, muito conhecimento.

FARTURA DE INFORMAÇÃO

Nosso tempo é uma época de muita fartura de informação. A famosa banca de jornais da Praça Villaboim oferece cerca de quinhentos títulos diferentes de livros, livretos, jornais, revistas etc. E essa oferta já não é tão nova, Caetano Veloso, em música muito conhecida, perguntava no fim dos anos sessenta: “quem lê tanta notícia?” A oferta de fontes de informação na Internet já se conta na casa dos milhões. Acadêmicos, como o professor Donald Norman, recebem em torno de dois mil e-mails por mês.

Tanta fartura é coisa recente na história. No século XIV, por exemplo, como conta S. Tuchman em A Distant Mirror, um rei francês deixou como principal item de herança um bem de preço incalculável: uma biblioteca com três centenas de livros! Hoje, qualquer professor universitário, tem bibliotecas pessoais que ultrapassam em muito a famosa coleção de livros do monarca francês de seiscentos anos atrás.

Há muita informação disponível. E o preço dessa mercadoria vem caindo sistematicamente. Isso não garante que estejamos ficando mais sábios e inteligentes. Sempre que vejo comentários sobre fartura de informação, lembro-me de dois nomes: Aristóteles e Santo Agostinho. Ambos foram gênios e produziram uma obra imensa. Aristóteles viveu a dois mil e quatrocentos anos. Agostinho, a mil e seiscentos. Possivelmente, nem um nem outro tinha biblioteca pessoal equiparável à de um intelectual do século XX. Não dispunham de muita informação. Apesar disso produziram uma obra que continua a ter grande importância para o pensamento de homens que vivem nesta virada de milênio.

Em vez de continuar com nossa conversa sobre conhecimento e informação, faço uma pequena pausa e proponho alguns exercícios, algumas vivências, como dizem os especialistas em treinamento.

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

Exercício/Vivência

Ver informação e conhecimento como sinônimos é uma crença bastante generalizada. Em educação, costumamos pensar que o conhecimento está no texto dos livros. É comum, por exemplo, a expressão “apropriar-se de conhecimentos”. Essa apropriação se faz como um ato de tomada de posse do texto. E, ao fazer isso, o aluno se torna proprietário do conhecimento pois este está contido nas palavras escritas. A crença em foco não é produto de ingenuidade ou ignorância das pessoas. Ela é uma idéia dominante uma vez que as estruturas escolares que conhecemos reforçam a convicção de que o saber pode ser capturado pela linguagem, sobretudo a linguagem escrita.

Para encaminhar uma reflexão sobre as relações entre texto e saber, proponho aqui um exercício. Vou sugerir a leitura de um pequeno escrito dos pesquisadores Bransford e Johnson (1972), citado no livro The Constructive Metaphor (Spivey, 1997). É um trecho curto, sem nenhuma grande dificuldade de estrutura e de vocabulário.

O exercício é simples. Você deve:

n  ler o texto, tentando entendê-lo

n  descrever, em quatro ou cinco palavras, a atividade à qual o texto se refere

n  comparar sua resposta com a resposta fornecida pelos autores

Vamos ao trabalho!

COISAS DA VIDA

O procedimento é muito simples. Em primeiro lugar você separa as coisas em diferentes grupos. É claro que um único monte será suficiente, dependendo da quantidade a ser processada. Ir a outro lugar devido à ausência de equipamento poderá ser o segundo passo; se essa providência for necessária, você estará pronto para continuar. É importante não exagerar na dose. Ou seja, é melhor fazer poucas do que muitas coisas de uma vez. A curto prazo isto pode não parecer importante, mas complicações podem surgir facilmente. Da mesma forma, um erro pode custar caro. No começo, o processo inteiro parecerá complicado. Logo, porém, ele vai se tornar uma outra faceta da vida. É difícil prever qualquer fim para a necessidade dessa tarefa num futuro próximo; mas, quem pode afirmar isso com certeza? Depois que o processo estiver completo, você deve organizar as coisas em diferentes grupos outra vez. A seguir, elas podem ser colocadas em seus lugares. E, quase certamente, serão usadas de novo e um ciclo completo terá de ser repetido. Mas isso faz parte da vida.

Agora que você já leu Coisas da Vida, tente adivinhar a atividade descrita pelo texto. Procure escrever sua adivinhação em poucas palavras.

LIMPAR
resposta
CONFIRMAR

Compare sua solução com o título dado pelos autores do texto, em

(V) resposta deve estar em localização que não permita ao usuário ter acesso à solução do problema antes de registrar sua (dele) tentativa. (V)

RESPOSTA PARA COISAS DA VIDA

§  Como lavar roupas (usando máquina de lavar)

REFLEXÕES SOBRE COISAS DA VIDA

Em experiências realizadas por Bransford e Johnson, os leitores de Coisas da Vida não conseguiam descobrir que o texto referia-se a atividade de lavar roupas. E isso acontecia porque os autores procuraram eliminar palavras que pudessem indicar contexto ao qual o texto se referia. Por essa razão, os leitores não conseguiam dar sentido ao texto.

Entender um texto (uma informação) requer iluminá-lo com conhecimento, dando-lhe sentido. Mas se encontrarmos um texto – fácil ou difícil – ao qual não possamos aplicar nosso conhecimento, é quase impossível o entendimento. Nessa altura acho que é bom citar uma explicação da professora Spivey (1997).

Entender um texto é um processo ativo de construir significado desde os sinais que o escritor fornece. E compor um texto é um processo ativo de construir significado para um texto e usar pistas  textuais para sinalizar significado para os leitores (p. 146)

Não vou falar muito sobre a experiência. Quero apenas insistir nas idéias de que:

n textos passam informação

n informação precisam ser interpretadas

n interpretações são atos de conhecimento

Se você quiser utilizar Coisas da Vida com um grupo de leitores e ver o que acontece, imprima o texto e boa sorte. Antes de seguir em frente, medite um pouco mais sobre Coisas da Vida. Está ficando claro, para você, a necessidade de distinguir claramente informação de conhecimento? Espero que o próximo exercício – SALA DE ESTAR – forneça mais elementos para a distinção que estou propondo. Vamos a ele.

(V) Se possível, usuário deverá poder acessar um cópia limpa de Coisas da Vida para imprimir e usar como sugiro (V)

SALA DE ESTAR

Exercício/Vivência

Vou descrever e fazer alguns comentários sobre SALA DE ESTAR, um exercício que utilizo com referência para discutir relações entre informação e conhecimento em processos educacionais. Se você tiver condições de conseguir voluntários que possam fazer o exercício, suas observações sobre a atividade serão de grande importância para a nossa conversa sobre a questão do conhecimento.

Como Fazer o Exercício

Em SALA DE ESTAR, a dinâmica de trabalho obedece a seguinte seqüência:

1.        os participantes são convidados a trabalhar em duplas num experimento de comunicação;

2.        nas duplas de trabalho, cada participante senta-se com as costas voltadas para as costas do respectivo parceiro;

3.        um dos componentes da dupla recebe o original de SALA DE ESTAR; o outro componente, uma folha de sulfite em branco;

4.        o componente que receber a figura original exercerá o papel de instrutor/professor; seu parceiro exercerá o papel de aluno/treinando;

5.        em hipótese alguma, o aluno poderá ver a figura em poder do professor;

6.        o professor deverá passar oralmente instruções que ajudem o aluno a desenhar SALA DE ESTAR, reproduzindo com a maior fidelidade possível a figura original;

7.        o trabalho das duplas devera durar de quinze a vinte minutos;

8.        terminado o trabalho de instrução e reprodução, as duplas discutirão a experiência por um cinco minutos.

Como disse, você poderá fazer essa experiência com alguns voluntários para verificar o que acontece. Além da dinâmica das relações entre professor e aluno em cada dupla, o que mais nos interessa aqui é o que o aluno produz a partir das instruções do professor.

Se você quiser fazer a experiência será preciso obter uma cópia do original de SALA DE ESTAR. Para obter sua cópia clique em original e imprima a página com a famosa figura.

(V) Será preciso garantir a possibilidade de acesso a uma página inteira com a figura original de sala de estar, pois assim o participante poderá imprimi-la para uso em experimentos que possa fazer (V)

Tenha você feito ou não a experiência proposta, convém ler os comentários que seguem:

Minhas Intenções com SALA DE ESTAR

Ao trabalhar com SALA DE ESTAR, procuro criar uma analogia que pode nos ajudar a pensar sobre as relações entre informação e conhecimento. Mas antes de falar sobre as relações que podem ser vivenciadas no exercício, quero explicar o significado dos elementos que integram SALA DE ESTAR.

n Desenho original: representa o conhecimento do professor.

n Instrução criada pelo professor: é informação produzida a partir de um determinado campo de conhecimento; na escola, damos a isso o nome de ensino.

n Posição dos pares – costa/costa: simula a impossibilidade do aluno ter acesso direto ao conhecimento do professor; simula também a impossibilidade do professor ter acesso direto ao conhecimento do aluno.

n Desenho produzido pelo aluno: representa o conhecimento elaborado pelo aluno a partir das instruções passadas pelo professor.

Minha principal intenção com SALA DE ESTAR é a de mostrar a diferença entre conhecimento (original) do professor e conhecimento elaborado pelo aluno. Além disso, é provável que já comece a ficar evidenciada a diferença entre informação e conhecimento, tema que pretendo discutir mais à frente neste curso.

Quem conseguiu fazer o exercício deve ter obtido figuras muito interessantes produzidas pelos alunos. Para nossa reflexão comum, mostro a seguir dois trabalhos elaborados por alunos num dos meus “experimentos”.

Figura original de SALA DE ESTAR

 

SALA DE ESTAR: Produção de Aluno A/2000

SALA DE ESTAR: Produção de aluno B/2000

Como a gente pode verificar, a distância entre a figura original e produções dos alunos é muito grande. Como explicar isso em termos das relações entre conhecimento do professor, informação ou ensino, e conhecimento produzido pelo aluno? Para responder essa questão de modo mais sistemático, vamos a nosso primeiro diagnóstico de aprendizagem.

DIAGNÓSTICO DE APRENDIZAGEM

Ao chegar até aqui, você deve ter lido meu texto e examinado dois exercícios (Coisas de Vida e Sala de Estar). Acho que já temos elementos para estabelecer uma visão compartilhada de entendimento sobre dois termos muito importantes, informação e conhecimento. E vamos fazer isso usando o Diagnóstico de Aprendizagem.

Não vou propor um exercício para saber se você domina o conteúdo. Vou, muito mais, sugerir uma atividade que possa servir de registro para os resultados de usa reflexões sobre o texto de leitura e os dois exercícios que integram essa unidade. Como SALA DE ESTAR é, a meu ver, um exercício muito rico, vou utilizá-lo como objeto de nossa conversa final nesta unidade.

ATIVIDADE

  • Como você pode verificar no exercício SALA DE ESTAR, há uma diferença muito acentuada entre conhecimento do professor e conhecimento elaborado pelo aluno. Considere a situação e escreva um pequeno ensaio (cerca de vinte linhas) sobre os porquês da diferença. Tente, em seu texto, definir o que é informação e o que é conhecimento. Quando terminar seu escrito compare o resultado de seu trabalho com o gabarito que criei.

Compare sua resposta com o gabarito

Há uma diferença acentuada entre conhecimento do professor e conhecimento do aluno. Como explicá-la?

Acho que uma boa resposta deve considerar:

1.    O conhecimento das pessoas não é diretamente acessível. Apenas o sujeito conhecedor tem visão clara e total daquilo que ele sabe. Nesse sentido, o conhecimento é subjetivo.

2.    Para tornar o conhecimento pessoal acessível, as pessoas produzem informação. Esta última é constituída por representações externas às quais conferimos significado. Quando duas ou mais pessoas se põem de acordo quanto ao significado de um item de informação (um símbolo, uma palavra, uma figura etc.) ocorre comunicação (algo conhecido é colocado em comum).

3.    Para produzir seu conhecimento, o aluno em SALA DE ESTAR conta com duas coisas: informação do professor e conhecimento prévio ou anterior. Ele interpreta as informações que recebe de acordo com seu entendimento (sua estrutura de conhecimento já constituída).

4.    Nem sempre as interpretações do aluno caminham na direção esperada pelo professor.

5.    Provavelmente, sempre haverá certa diferença entre conhecimento do professor e conhecimento elaborado pelo aluno.

6.    Parte do problema comunicativo em SALA DE ESTAR deve-se à falta de cuidado do professor na produção de informações. Muitas vezes os professores, na produção de informações, não consideram o ponto de vista dos alunos. Ao fazerem isso, geram informação que não comunica ou leva o aluno a interpretações não esperadas.

Technorati e blogolândia

setembro 3, 2016

 

technorati

Antigamente, Technorati era uma ferramenta que nos permitia realizar análises detalhadas sobre características de blogs que estavam no ar. Com ela era possível saber em que posição estava seu diário eletrônico na blogosfera, quantos blogs tinham título semelhante ao seu, que postagens rolavam sobre assuntos de seu interesse etc. Fui visitar o site e vi que tudo mudou. Não há mais serviço de busca. O local agora é um sítio para facilitar propaganda na internet. Ou era, pois a mais recente pesquisa do Tecnorati sobre a blogosfera é um estudo de como andavam os blogs em 2011. Nenhuma palavra sobre os anos mais recentes. Os blogs estão morrendo lentamente ou se convertendo em espaços pouco frequentados (qualquer semelhança com zonas urbanas decadentes não é mera coincidência).

Nas ruínas da blogolândia é possível observar número imenso de edifícios de boa construção que não registram qualquer atividade há muito tempo. Entre esses edifícios, alguns são de construção minha e foram abandonados por volta de 2008. Entre tais edifícios está meu saudoso Aprendente. Acabo de passar por lá e vi que a última postagem aconteceu em 2011.

O próprio Technorati hoje faz parte das ruínas da blogosfera. Ao escrever este post, fui ao Google e descobri que o uso ferramental do Technorati par pesquisar blogs cessou completamente em 2014. Veja a notícia aqui.

Aqui no Boteco Escola ainda resisto, mas sem grande entusiasmo por uma atividade que antigamente ocupava boa parte do meu tempo autoral na internet.

 

Blogs, comunicação e educação

dezembro 2, 2015

Quando planejei este Boteco Escola, tinha como objetivo principal criar um espaço de conversa sobre blogs na confluência dos diários eletrônicos coma comunicação e a educação. Ao mesmo tempo, o espaço foi imaginado como referência para minhas alunas e alunos da pedagogia desafiados a publicar blogs.

Com o passar do tempo, outros assuntos entraram na prosa: tecnologia educacional, educação, NTIC’s, usos educacionais da internet, redação cooperativa, obras de grandes educadores, e até filosofia.

Este Boteco Escola ganhou certo destaque nos meios educacionais. Por esse motivo, fui convidado diversas vezes para entrevistas sobre uso de blogs em educação. Parte do que eu disse ou escrevi para tais entrevistas aparece aqui na forma de posts e páginas. Além disso, traduzi diversos artigos sobre blogs e seus usos nas comunicações e na educação para enriquecer papos neste boteco. Mas, nos últimos anos pouco publiquei sobre blogs neste espaço. Em parte isso se deve a redução do entusiasmo por blogs no ciberespaço.  Novas formas de publicação como o Twitter e o Facebook foram ocupando o lugar dos blogs na internet. Mas, os blogs não morreram. Estão por aí, como espaços privilegiados de autoria e comunicação.

Tempos atrás apareceu um livro importante sobre blogs, Blog Theory, de Jodi Dean. Escrevi resenha da obra e indiquei aqui no Boteco link para a mesma. Agora, para reavivar conversas sobre blogs neste espaço, resolvi trazer para cá a dita resenha, publicada nos idos de 2011.

blog imageDEAN, Jodi. blog theory: feedback and capture in the circuits of drive. Malden, MA: Polity Press, 2010. 153 p.

Novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs) ganham espaço cada vez maior na vida cotidiana. Essas tecnologias são vistas como avanços desejáveis, pois os ganhos que trazem em termos de ampliação do conhecimento são imensos. Tal interpretação do papel das NTICs tem uma dupla face. De um lado, ela entende que produção e acumulação de saberes é um processo contínuo e cumulativo. De outro, ressalta a necessidade de se adotarem as mudanças que as mais recentes tecnologias trazem. Comentários nos meios de comunicação e em produções acadêmicas tendem à tecnofilia. Ao mesmo tempo, a aceitação entusiasmada das NTICs tem muitos traços de ingenuidade.

O pensamento hegemônico sobre as novas tecnologias da informação e comunicação sugere que sociedade e indivíduos têm conhecimento cada vez maior, que a educação dará um salto de qualidade e que a prática política ganhou grandes espaços de exercício da liberdade. Tais conclusões não são fruto de análises aprofundadas das NTICs. São, muito mais, consequências de crenças que ignoram qualquer análise crítica dos novos meios de comunicação.

Blog Theory, obra de Jodi Dean, contesta o pensamento hegemônico. Examina o fenômeno dos blogs, tentando perceber o significado dessa prática comunicativa na sociedade e para os blogueiros individualmente. A autora, porém, não se restringe aos blogs. Na verdade, realiza uma análise mais ampla, incluindo em seu estudo outras práticas comunicativas que ganharam espaço expressivo na web.

A intenção de Dean é analisar criticamente as NTICs a partir de uma tradição que busca entender o significado e impactos sociais das tecnologias, assim como a maneira pela qual as forças hegemônicas se apropriam das ferramentas de comunicação. Ela procura superar o nível das aparências para desvelar o que está acontecendo nos planos coletivo e individual. Há mudanças. Mas, que mudanças estão acontecendo em modos de ver a vida, no plano dos valores, na vida política, no plano epistemológico? Respostas a essas perguntas balizam o caminho percorrido por Dean.

A autora reconhece que analisar criticamente as NTICs não é tarefa fácil. A atualidade das análises é efêmera, pois as novas redes de comunicação são turbulentas, sempre mutantes. Muitos de seus aspectos definidores desaparecem em pouco tempo. A obsolescência de equipamentos e ferramentas é extremamente acelerada. Por esses motivos, livros que abordem criticamente os novos meios de comunicação correm o risco de ficarem desatualizados assim que chegarem às livrarias. Por outro lado, utilizar a própria web para registrar aspectos críticos em blogs e outros ambientes de publicação digital é providência vã, pois o conteúdo não merecerá a devida atenção.

Dean mostra que os livros desempenham papel importante na elaboração e no registro de análises críticas. Sugere que as mídias digitais não conseguem substituí-los em tal função. Conclui que eles continuam a ser o veículo mais adequado para articular análises que evidenciem as consequências mais profundas das NTICs.

O funcionamento da Internet, segundo a autora, mostra a emergência do capitalismo da comunicação. Esse fenômeno vem recebendo diversos nomes, com destaque para “sociedade da informação”. No entanto, quase sempre os analistas ignoram o capital como o maior interessado na produção, na circulação e no uso de uma commodity intangível que vem mudando as relações entre as pessoas, a formação de identidade e os modos de ver o mundo. Para Jodi Dean, “o capitalismo marca a estranha convergência da democracia e do capitalismo em redes de comunicações e mídias de diversão” (p. 4).

Para mostrar os desdobramentos ideológicos do ambiente mediático de nossos dias, Dean examina como movimentos de esquerda com raízes nos anos 1960,
acreditando em virtudes intrínsecas das redes de comunicação, acabaram caindo em armadilhas e passaram a defender valores que criticavam. Para ela, esse é o caso, por exemplo, dos novos comunalistas. Estes, ao abraçarem promessas libertárias da Internet, aliaram-se aos adversários de outrora – as forças armadas, o capital, a burocracia –, promovendo ideias neoliberais e justificando a flexibilização do trabalho e outras decorrências de um capitalismo no qual se entranha a comunicação.

As observações de Jodi Dean sobre aspectos ideológicos promovidos no e pelo uso das redes digitais nada têm a ver com teorias conspiratórias. A autora examina as práticas comunicativas correntes e nelas encontra características que não são evidentes para usuários e entusiastas das novas mídias. Ela busca caracterizar que cultura e sociedade estão sendo construídas naquilo que se convencionou chamar de “sociedade da informação”.

Na produção e circulação de informações, a autora vê um fenômeno que precisa ser considerado: o fenômeno da reflexibilidade. Este, em síntese, é caracterizado por uma circularidade, na qual informação gera mais informação, sem qualquer referência a realidades que não integrem as redes digitais. No plano individual, a reflexibilidade gera comportamentos análogos aos da obsessão pelo jogo. Usuários de redes sociais entram em um circuito que não privilegia conteúdos, mas o constante uso de veículos de informação.

Nos planos axiológicos e epistemológicos, Jodi Dean sugere que a utilização das novas mídias caminha na direção do declínio da eficiência simbólica. Ou seja, as pessoas deixam de ter uma referência sólida para julgar a informação. Vale tudo. Em
Blogs e outros meios de expressão digital, acredita-se que todas as opiniões sejam válidas. A tendência reforça traços de relativismo já presentes na cultura ocidental antes do advento das redes digitais. No caso dos valores, há um esvaziamento de referências aceitas coletivamente. No caso da ciência, há uma crença de que todo e qualquer saber é equivalente. O resultado dessas maneiras de ver é que banalidades sem fundamento e afirmações ancoradas em investigações sistemáticas em nada diferem. São informações que entram no circuito, reivindicando tratamento igualitário.

Predomina na rede digital impulso para o uso, não importando outros fins. A lógica do sistema é a de um consumo cada vez mais avassalador de informações, não pelo valor intrínseco destas últimas, mas pelo sentimento de participar de um processo informativo que não cessa. A comunicação constante é uma obrigação. Mais ainda: uma obsessão. É preciso comunicar-se, não importa para quê, nem o que comunicar.

Dean consagra um capítulo inteiro à questão do afeto (Affective
Networks). A autora observa: “O capitalismo da comunicação manda nos divertirmos, ao mesmo tempo que nos adverte de que não estamos nos divertindo o bastante, ou tão bem como os outros. Nossa diversão permanece frágil, arriscada”(p. 92).

A ordem para nos divertirmos aparece de diversas formas. Uma delas é a de sentir-se membro de uma comunidade que, segundo a autora, “é uma comunidade sem comunidade”. Contraditoriamente, as redes facilitam a superação do isolamento, embora as pessoas continuem isoladas. Outra forma é a da repetição. Faz-se a mesma coisa o tempo todo. Não importa o significado do que é repetido, mas sempre a repetição, em um ritmo cada vez mais envolvente. Repetição e redundância é o nome do jogo. Isso já era característico nos meios de comunicação de massa que chegaram um pouco mais cedo que as redes digitais. Essa circunstância foi e é largamente utilizada em publicidade na TV.

Convém, mais uma vez, recorrer ao texto da autora:

A dimensão aditiva da comunicação pela comunicação marca um excesso.
Esse excesso não é novo significado ou perspectiva. Ele não se refere a um novo conteúdo. Em vez disso, advém da repetição, agitação ou emoção por mais. Na duplicação reflexiva da comunicação, a diversão incorporada à comunicação pela comunicação desaloja intenção, conteúdo e significado. O extra na repetição é diversão, a diversão que é capturada no impulso e na diversão expropriada pelo capitalismo da comunicação. (p. 116)

A meta, como já se disse, é a de usar a rede. E usá-la à exaustão. O discurso ideológico justifica tal uso com promessa de mais conhecimento. Mas, conforme diz a autora, “quanto mais conhecimento incorporamos, menos sabemos”. Na verdade, o
que predomina é a circulação de informação, não a sua apropriação pelos usuários. Uma das consequências disso é a falta de ação. Em vez de agir, busca-se mais informação. Os resultados encontrados não satisfazem. Por isso, mais informações são procuradas. Esse processo não tem fim, e estar nele é fonte de prazer. A produção de informação com características de reflexibilidade é uma criação dos usuários. Eles acabam produzindo o ambiente em que vivem, pois as conexões estabelecidas no interior do sistema configuram as pessoas. Gerar informação, consumi-la, reproduzi-la, dentro de um loop, substitui busca de sentido, de significado; é tudo que se quer.

Apesar do título de seu livro e de ter um capítulo dedicado aos
blogs, estes não são o foco de Dean, mas, sim, as práticas mediáticas que se tornaram comuns com a chegada dos recursos digitais. A autora faz menção às características técnicas dos diários eletrônicos e examina as analogias mais comuns que são utilizadas para defini-los. Ela, porém, não se prende a visões mais tradicionais. Para além de aparências óbvias de blogs como diários eletrônicos ou formas de expressão de um novo jornalismo, Jodi Dean mostra como a prática deles está a serviço da expressão da subjetividade.

A autora vai buscar nas práticas epistolares do antigo Império Romano, assistida por estudos realizados por Michel Foucault, analogias para iluminar o sentido da escrita em diários eletrônicos. Revela que as correspondências produzidas pelos latinos tinham acima de tudo características de auto-escrita. A arte de escrever cartas era vista como um elemento de reflexão. Nesse sentido, importava pouco o que comunicar. Importava o próprio exercício de produzir as cartas, mesmo que estas não fossem enviadas aos seus destinatários. Essa é uma descoberta intrigante. O ato, a prática era mais importante que o escrito. E é isso o que acontece com os blogs: valem para eles as observações feitas para todo o sistema de comunicação digital. Eles são uma alternativa de ingresso na ciranda interminável de gerar e consumir informação, pouco importando o conteúdo. Também concretizam o sentimento de participação no qual se acentua a dimensão afetiva. Não são, assim, diferentes de qualquer outro formato que facilita a participação dos usuários na Web.

Blog Theory é um livro denso e exigente. A autora, para desenvolver seus argumentos, recorre a uma ampla literatura, influenciada principalmente por Lacan. Cada capítulo da obra mereceria uma resenha própria para que não se perdessem elementos importantes das análises feitas por Dean. Porém, os registros aqui feitos são suficientes para situar a obra e sua importância em áreas relacionadas com informação e comunicação. Importa assinalar como Blog Theory sugere novos modos de ver as NTICs em educação. O estudo de Dean mostra que aproveitamentos de qualidades aparentes da web para finalidades pedagógicas não podem acontecer de modo ingênuo. O predomínio de práticas de comunicação pela comunicação é um traço que deveria merecer análises críticas dos educadores. Usos educacionais das NTICs, caso ignorem uma visão crítica, irão apenas facilitar ingresso dos alunos em circuitos comunicativos que desconsideram conteúdos e significados.

Definição de WebQuest

maio 8, 2015

Recupero texto de uma entrevista cuja primeira questão me pedia para definir em poucas palavra o que é WebQuest. Acho que minha resposta ainda vale, por isso publico-a aqui no Boteco.

 

(Entrevistador) Como a WebQuest pode ser definida de maneira
resumida? Seria uma ferramenta?

 

(Jarbas Novelino Barato):

Não, não é uma ferramenta se a considerarmos do ponto de vista da Web. Ou seja, ela não é uma solução capaz de facilitar produção em ambientes da Internet. Mas essa ideia de ferramenta costuma ser a primeira que as pessoas têm quando ouvem a expressão WebQuest.
WebQuest é uma proposta sobre criação de ambientes de aprendizagem para um bom aproveitamento dos recursos de informação existentes na Internet. Mas não é só isso. A proposta inclui alguns princípios que sempre devem ser levados em conta:
• Aprendizagem cooperativa. Ou seja, o ambiente criado pelo educador numa WQ deve exigir que os aprendizes negociem significados para chegar a um resultado, produzir alguma coisa, resolver um problema. As WQs não são propostas para estudos e aprendizagens individuais.
• Transformação de Informação. Uma das coisas que mais perturba os educadores em usos da Internet é o corta-e-cola. Em WQ’s bem planejadas isso é impossível. A situação criada pelo educador, no caso, é a de uma tarefa que exige do grupo de trabalho uma transformação das informações estudadas.
• Autenticidade. Muitas vezes, o modo de dar matéria nas escolas é artificial. O modo como os alunos estudam, os problemas propostos, as produções desenvolvidas são coisas artificiais. Fora da escola ninguém vai exigi-las. Numa WebQuest bem planejada, a tarefa proposta assemelha-se ao que os adultos fazem na vida real. Assim, em vez de uma redação (produto escolar típico), numa boa WQ se pede que os alunos escrevam reportagens, projetos de lei, cartas, etc., produções de texto sempre contextualizadas em ambientes onde fazem sentido.

Você pede uma resposta curta. Não é fácil fazer isso. Uma resposta curta supõe que o leitor esteja bem informado sobre os três princípios que listei ali atrás. Por isso sou tentado a continuar a explicação.

O modelo WebQuest surgiu de modo intuitivo. Ele foi criado num curto espaço de tempo. Surgiu como solução para colocar os professores de um curso de capacitação docente em contato com um software de simulação. Bermie Dodge não queria fazer algo convencional. Queria, ao mesmo tempo, aproveitar os recursos da Internet. Planejou uma aula (de cerca de três horas) centrada numa tarefa: escrever um parecer técnico para um diretor de escola, recomendando ou não o software Archeotype. Tal parecer exigia que uma equipe de “especialistas” examinasse o material a partir de diversas perspectivas. Para “formar especialistas” em tão pouco tempo, Bernie dividiu as fontes disponíveis entre diversas pessoas de uma equipe. Cada pessoa estudava parte do material disponível. Após o estudo, a equipe de especialistas se reunia para planejar e redigir o parecer.

O que rolou foi uma participação muito ativa dos alunos na busca de informações e no trabalho de construir um parecer bem fundamentado. Em tal experiência a tarefa era “autêntica” [especialistas em educação costumam analisar materiais e sugerir ou não seu aproveitamento em escolas], dar conta do recado exigia “cooperação cognitiva” entre os membros de um grupo, os materiais disponíveis não traziam uma resposta pronta [era necessário transformar a informação estudada num novo formato, o tal parecer técnico]. Isso tudo aconteceu em 1995. Logo depois da experiência, construída de modo intuitivo, Bernie começou a elaborar um quadro prescritivo que pudesse ajudar outros educadores a fazerem usos semelhantes dos recursos Web. Para comunicar o que havia desenvolvido, o professor da San Diego Sate Universisty utilizou o termo WebQuest.

Blogs e aprendizagem

maio 7, 2015

Entre os meus guardados há um texto de entrevista que dei para uma publicação da rede Pueri Domus. Nunca soube se meu texto foi publicado, pois a Pueri Domus não me deu feedback depois que lhes enviei respostas às perguntas que recebi. Resolvi retomar aquele velho texto e publicá-lo em pedaços aqui no Boteco Escola. A matéria revela muito do que aprendi publicando blogs no ambiente educacional.

 
Publicação Pueri Domus:
_ Os blogs podem funcionar como uma ferramenta pedagógica eficiente? Qual a vantagem em usar os blogs no ensino? Eles representam uma boa estratégia para atrair os alunos para o estudo?

 
Jarbas Novelino Barato:

 
_ Eu não daria aos blogs o nome de ferramenta pedagógica. Quando se faz isso acontece o empobrecimento de algo que não é bem entendido. Sempre temo a ânsia dos educadores que querem usar novos meios de comunicação humana sem entendê-los muito bem. Isso pode acontecer com os blogs.

Acho que, em primeiro lugar, é preciso ter uma boa visão do que são blogs no campo da comunicação humana. A partir disso, a gente pode conversar sobre possíveis ganhos educacionais em usos de tal alternativa de comunicação em nosso mundo. Pesquisas ressaltam que os blogs são principalmente locais de encontro onde se pode conversar com liberdade, sem imposições, com muita espontaneidade, dizendo a própria palavra. Essa característica dos diários eletrônicos não é evidente. Ela só é percebida quando examinamos, no tempo, o desenvolvimento de blogs de sucesso.

Autores que mostram a importância dos blogs como um local de encontros humanos significativos costumam comparar essa forma de comunicação do ciberespaço com a antiga praça pública (ágora) das cidades gregas. Tal praça era o local onde se exercia uma democracia direta. Há ainda outras comparações muito utilizadas. Uma delas é a que vê os blogs como algo parecido com os cafés do século XIX, espaços públicos de encontro onde se discutia cultura, política, literatura etc. sem qualquer censura.

Conversar, esse é o verbo que melhor define o funcionamento de um blog. E uma característica importante da conversa é o interesse imediato aliado à surpresa. O que quero dizer com isso? Não convém “pedagogizar” os blogs, convertendo-os numa ferramenta para passar conteúdos previamente estruturados. Em bons usos dessa alternativa de cibercomunicação o que se espera são aprendizagens não reguladas. Ou seja, aprendizagens que nascem de um processo que se constrói na direção daqueles famosos versos de Antonio Machado: “caminante no hay camino, se hace camino al andar”. Isso parece muito pouco pedagógico, pois o que estou dizendo aqui é que a aprendizagem será consequência do blogar, mas não é possível prever que resultados serão obtidos desde o começo.

Há muitos blogs que se convertem num instrumento de controle docente e são usados para discutir a “matéria”, passar recados do professor, registrar opiniões dos pais etc. Provavelmente tal modo de usar pode funcionar bem, mas ele empobrece demais a natureza original dos blogs. Melhores usos desse modo de comunicação são aqueles em que a proposta é a de criação de um espaço para conversas sobre temas de interesse do autor (professor e/ou aluno). Isso tem muito pouco a ver com programas escolares. Um autor (individual ou coletivo) desenvolve um blog colocando mensagens (posts) destinadas a um público que tem interesses semelhantes.
A expectativa de todo blogueiro é a de que seus posts serão lidos por interessados e, se possível, comentados. Além disso, os blogueiros esperam que algumas de suas mensagens ecoem pelo ciberespaço (ou seja, a glória de um blogueiro é saber que algo que ele disse está sendo comentado em outros blogs ou páginas da Web).
Convém mostrar, a partir do que disse até agora, algumas características do blogar. Autores de blogs geralmente experimentam:

• um sentimento de que podem se expressar com liberdade
• certa alegria em perceber que seus posts vão clareando (para si próprios) seus interesses, conhecimentos, gostos, modos de pensar
• uma visão do evoluir do próprio pensar na medida releem suas mensagens e veem as direções que elas vão seguindo
• surpresas, na medida em que posts, comentários e outras ocorrências vão lhes trazendo conhecimentos de um modo fluente e sem esforço aparente
• estabelecimento de relações de amizade com parceiros do ciberespaço (blogueiros com interesses semelhantes ou pessoas que lhes passaram informações que ampliaram seus interesses e modo de ver o mundo ou assuntos que rola nos blogs)
• um sentimento de confiança ao saber que suas mensagens sensibilizam pessoas em locais distantes ou até em outros países
• um sentimento de encontrar a “própria turma” no ciberespaço

Acho que poderia listar mais coisas, mas os pontos que levantei já são suficientes para a gente perceber a riqueza educacional dos blogs. Eles são acima de tudo ferramentas que podem colocar as pessoas em encontros no ciberespaço. Essa circunstância provavelmente vai expandir interesses e resultar naquilo que estou chamando de “aprendizagem não regulada”. Essa é a grande vantagem de usar blogs no ensino, pois um bom blogueiro é um aprendiz e ensinante do ciberespaço. Aprende ao tentar dar sentido à sua fala por meio dos posts. Aprende ao receber comentários de seus leitores (companheiros de papo). Ensina ao emitir opiniões, falar que sabe de um modo espontâneo, dar prosseguimento a conversas iniciadas por comentários. Aprende ao conhecer novos sítios e espaços Web indicados por seus leitores. Ou seja, a grande vantagem dos blogs é a de que eles, se usados com liberdade e sem imposições, são um instrumento de ensinar e aprender por meio da conversa. E mais, como são uma dimensão do ciberespaço, proporcionam a seus autores a possibilidade de ingressarem em comunidades virtuais sem muitos limites de idade, formação, nível escolar, espaço etc.

Atrair os alunos para o estudo não me parece ser uma função dos blogs, se a atração no caso for entendida como uma forma de amenizar a necessidade de estudos. Me explico. Há uma tendência de ver o uso novas tecnologias em educação como algo agradável e até divertido. A partir desse entendimento muitas pessoas (meus alunos inclusos) acham que as novas tecnologias podem amenizar a “chatice” do estudo. Há dois equívocos nisso: equiparar estudo a entretenimento (na verdade o estudo está mais próximo do trabalho que do lazer), equiparar diversão a prazer (grandes prazeres nada têm a ver com artes circenses, mas com experiências humanas profundas).

Acho que a grande vantagem das novas tecnologias é a possibilidade de abrir novos campos de aprendizagem. No caso dos blogs, o que mais me encanta é a possibilidade de um aprender completamente diferente daquele proporcionado por ferramentas mais antigas.

Microcontos: história de um desafio

janeiro 2, 2015

Algum tempo depois que atingimos a meta de mil e poucos microcontos, num blog que editei com obras de velhos amigos do SENAC, escrevi texto que poderia ser prefácio para nosso sonhado livro de microcontos. O livro não saiu. O candidato a prefácio ficou guardado nos meus arquivos até agora. Mas, acho que o texto precisa de uma chance na internet. Por isso, vou publicá-lo aqui. Para matar saudade. Para relembrar um bela aventura de arte com letras.

 

História do desafio
Jarbas Novelino Barato
Um grupo de aposentados do Senac São Paulo, reforçado por profissionais que estiveram muitos anos na casa e hoje trabalham em outros endereços, produziu estes mil e poucos microcontos. Pode parecer que o feito é uma dessas invenções criadas para ocupar gente da “melhor idade”. Mas, não. As muitas histórias mínimas, que resultaram nesta coleção de pequenas jóias e bijuterias feitas de palavras, surgiram acidentalmente.

Tudo começou quando eu andava a procura de algum desafio que ajudasse meus alunos a perderem o receio de escrever. Em minhas buscas acabei encontrando um grande movimento de microliteratura na Internet. Textos curtos e criativos, contando ou sugerindo histórias com muita economia verbal, um achado perfeito para os sonhos literários de cibernautas. Assim, escritores pouco ou muito conhecidos embarcaram na publicação de blogs para fazer circular suas obras. Essa paixão pelas letras casou-se com as urgências de nosso tempo. Tudo rápido. Tudo imediato. Tudo para um aqui e agora que se sucede em parcelas cada vez menores de tempo. Personagens, cenários, enredos, dramas, tramas precisam ser mostrados de modo imediato. Essa literatura instantânea e acomodada em blogs já foi antecipada em outros espaços de comunicação. Frases em camisetas, dizeres em cartazes, mensagens de humor e sabedoria em para-choques de caminhões, textos em filipetas de todos os tipos com pretensões de vender políticos e produtos vários, painéis de muitas naturezas por toda parte, frases em adesivos que enfeitam para-brisas de automóveis e vidros de janelas de adolescentes exigem economia de palavras. Ao mesmo tempo, o limite de espaço desafia o escrevinhador a achar construções imaginosas que conquistem imediatamente o leitor. Em todos os casos a leitura se dá num relance de olhos. Mas as mensagens que valem a pena querem conquistar espaços permanentes na imaginação de quem as lê. O jogo é interessante. E o desafio comunicativo nesses espaços limitados exige estratégias de composição que podem ser muito criativas.

Uma das vantagens da microliteratura é a possibilidade do autor ver sua obra pronta em muito pouco tempo. Isso alimenta um prazer de criar que emerge assim que o artesão das letras faz, em pequenas peças, obras completas. Em outras palavras, a microliteratura possibilita uma fruição quase que imediata do prazer de criar arte com as palavras. E era algo assim que procurava para meus alunos.

Mas eu não queria levar para a sala de aula ou para o laboratório de informática a literatura mais sofisticada de autores famosos do ciberespaço. Queria algo produzido por gente comum, pois pretendia mostrar que fazer arte com as letras não é um privilégio raro. Para tanto embarquei na onda e escrevi alguns minicontos que poderiam servir de exemplo. Mas não fiquei satisfeito com minhas produções. Eu precisava testar a idéia num meio que compreendesse a questão e se animasse a colaborar comigo na campanha de incentivo à escrita por meio de microliteratura. Lembrei-me então da comunidade virtual formada por aposentados do Senac São Paulo. Os membros da comunidade encontram-se no ciberespaço por meio de uma lista. Escrevi uma breve mensagem sobre microliteratura pedindo aos companheiros da lista colaborações na forma de minicontos. Deu certo. Recebi em pouco tempo mais de uma dezena de minicontos. Consegui belos exemplos para as minhas aulas.

Provavelmente tudo teria cessado num círculo de conversa e produção de minicontos para suprir necessidades de um professor preocupado com a baixa estima de seus alunos pelas letras. Mas um dos membros da lista, o Zeca Ildefonso, lançou um desafio: produzir na comunidade os “Primeiros Mil Microcontos” e publicar a obra em livro. O desafio foi aceito imediatamente. Cerca de uma dezena de aposentados do Senac São Paulo estava irremediavelmente conquistada pelos prazeres de produzir peças de microliteratura. Faltava apenas um espaço para publicar as produções que iam surgindo com muita velocidade. Para isso criei o blog “Primeiros Mil Microcontos”, que foi colocando na Web de modo imediato criações de mais de vinte autores. A produção, no início, chegou a picos de cem histórias numa única semana. Parecia que a meta seria atingida em três meses. Esse ritmo febril durou até mais ou menos a produção dos primeiros quinhentos microcontos. Na segunda metade, as coisas caminharam mais devagar, com uma produção que não chegava à meia centena por semana. No processo, mais autores apareceram. E o empreendimento literário dos mil e poucos microcontos acabou sendo obra de mais de duas dezenas de contadores de histórias mínimas.

Alguns esclarecimentos precisam ser feitos antes de continuar a história do nascimento do Primeiros Mil Microcontos. O primeiro deles refere-se ao nome das produções literárias que ocupou aposentados do Senac e simpatizantes por sete meses seguidos. No começo achei que o gênero de microliteratura que estávamos produzindo poderia ser chamado de minicontos. Este, aliás, foi o nome que utilizei nos primeiros comunicados para os meus alunos. Mas, um alerta do Carlos Seabra e a descoberta da Casa das Mil Portas, do Nemo Nox, começaram me trazer informações mais precisas sobre o tipo de histórias mínimas que começamos a produzir. A partir de então, adotamos definitivamente o nome de microcontos. O segundo esclarecimento refere-se a conceito. Em A Casa das Mil Portas, espaço que publica microcontos de blogueiros lusos e brasileiros, as histórias mínimas não podem ultrapassar o limite de cinquenta letras. É um critério exigente e tradicional. Resolvi propor algo um pouquinho mais liberal, textos de no máximo sessenta letras. Mas um erro de edição substituiu letras por palavras. E se o erro não fosse corrigido teríamos microcontos gigantes, uma aberração na terra da microliteratura. Outro alerta do Carlos Seabra pôs as coisas nos trilhos. Adotamos o critério de microcontos com cento e cinquenta toques [espaços incluídos]. O critério não é arbitrário. Ele já existia no universo da literatura em novos meios de informação e comunicação. Acontece que as telinhas de celulares têm espaço para um máximo de cento e sessenta toques. Assim, uma mensagem completa para tais telinhas fica em torno dos cento e cinquenta toques, sobrando um espaço de dez toques para a assinatura do autor ou autora. Essa definição nos pareceu boa pois coloca limites físicos determinados por um dos instrumentos mais populares das comunicações em nossos dias. Ao mesmo tempo, a fronteira estabelecida é bastante mais liberal que a norma da meia centena de letras. Um limite mais folgado acabou se mostrando uma medida justa para escrevinhadores com pouca prática nas artes do texto mínimo. Mesmo assim, os novos microcontistas nem sempre se continham e as histórias mínimas ultrapassavam a margem dos cento e cinquenta toques. Mas com tempo e prática, os autores foram dominando a arte de muito comunicar em espaços diminutos.

No parágrafo de abertura, falei em joias e bijuterias. E é isso mesmo. Algumas das pequenas histórias aqui publicadas são joias. Outras são apenas bijuterias feitas por diligentes artesãos das palavras. É preciso lembrar que os autores não são profissionais das letras. Eles e elas são pessoas que trabalham ou trabalharam no Senac. Sonharam e sonham com as artes. Têm muitas histórias para contar. Gostam de desafios. Têm muita imaginação. Mas começaram a produzir microcontos apenas a partir do desafio proposto pelo Zeca Ildefonso. A publicação do blog, portanto, foi uma oficina de aprendizagem. E como nas velhas oficinas dos artesãos dos tempos pré-industriais, os aprendizes aprenderam fazendo. Quem acompanhou o blog desde o início percebeu a melhora constante dos microcontos contados pela comunidade dos antigos trabalhadores do Senac São Paulo.

A oficina artesanal na qual se fabricaram mais de mil contos mínimos ensinou muitas lições. A primeira delas foi a de que homens e mulheres maduros podem aprender e criar coisas novas. A segunda foi a de que os tais microcontos são um formato muito interessante de produzir arte com as letras. A terceira foi a de que na comunidade dos aposentados do Senac São Paulo há um número grande de pessoas que apreciam o prazer de escrever. Muitas dessas pessoas estavam escondendo talentos. A oportunidade de escrever microcontos fez com que tais talentos emergissem com humor, histórias originais, invenção, elegância, surpresa, arte, provocação. Nada escapou. Memórias dos tempos de trabalho no Senac. Memórias da infância. Crítica social. Política. Amores. Desenganos. Paixões, resolvidas, esquecidas, permanentes. Literatura. Cultura. História. Trabalho. Religião. Arte, artistas, arteiros. Passado. Presente. Futuro. Aliterações. Imaginação. Contas a pagar. Contas a receber. Aqui e ali, coisas que são patrimônio de um passado comum e que, talvez, não sejam entendidas por gente da nova geração. O conjunto dessas produções artesanais emocionou os autores e primeiros leitores.

A oficina artesanal ensinou mais. Ela mostrou uma tendência que pesquisadores do saber descobriram recentemente: conhecimento e aprendizagem são empreendimentos de comunidades de prática. E prática, no caso, é algo com muitos significados. Os autores refletiram nas obras suas práticas no trabalho e na vida. Práticas de amores, paixões e fazeres. Práticas de viver. Um outro sentido da palavra foi a experiência de produzir histórias numa comunidade virtual, numa prática social novíssima que só se tornou possível com a popularização do ciberespaço. Quem acompanhou a produção viu que alguns autores a princípio tímidos foram se soltando aos poucos. E cada autor foi aprendendo com os outros autores. Às vezes uma história contada por um autor abriu caminho para histórias paralelas criadas por outros autores. Assim, embora cada autor assine suas histórias, o conjunto inteiro é verdadeiramente uma obra coletiva, fruto da aprendizagem de pessoas que ensinaram a aprenderam a arte dos microcontos.

Há organizações que marcam muito fortemente as pessoas que por ela passaram. O Senac parece ser uma dessas organizações. As experiências vividas nos fazeres de educação profissional criaram certa cumplicidade que não desapareceu com o tempo. Os aposentados e antigos trabalhadores da casa têm algo em comum. Têm um espírito muito particular. Sem essa marca da organização, a possibilidade de produzir mais de mil microcontos seria impossível.

As colaborações aconteceram de acordo com os ritmos e ousadias de cada autor. Alguns apareceram de quando em quando com umas poucas histórias. Outros apareceram com muita constância e com muitas histórias. Houve até quem aparecesse uma única vez com um único microconto. Certamente houve gente que acompanhou todo o processo mas não se arriscou a contar suas histórias talvez querendo mais espaço que os limitados cento e cinquenta toques no teclado. Vez ou outra, amigos ou convidados enviaram microcontos. Tais histórias foram publicadas no blog embora sem a necessária numeração para a devida contagem na busca da meta dos primeiros mil microcontos.

O empreendimento da comunidade dos aposentados do Senac São Paulo foi descoberto por cibernautas, alguns deles microcontistas do Brasil e de outras terras. Assim, por exemplo, nosso blog passou a ser citado como blog amigo pelo ‘Mil e uma pequenas histórias’, do blogueiro Luís Ene, de Portugal. Em Espanha, Carlos Santos, do blog Sekeirox, também citou os nossos microcontos como uma referência. No Brasil, Fátima Franco, blogueira de encantadores espaços para contos infantis, adotou-nos como ciberamigos. Quando os autores, na segunda metade da produção, pareceram ter perdido o pique, chegaram muitas mensagens de pessoas que nunca se encontraram com qualquer dos antigos trabalhadores do Senac São Paulo, pedindo mais histórias e incentivando os contistas a cumprir a meta dos mil ou mais microcontos. Assim, além do incentivo de gente da casa – principalmente os atuais trabalhadores do Senac São Paulo – a aventura de escrever microcontos recebeu apoio de leitores distantes que se encantaram com o desafio criado na comunidade dos antigos trabalhadores das casas do comércio paulista.

A meta foi atingida. Os mil e poucos contos estão contados. Mas a obra não está terminada. A vontade de contar mais histórias continua. Mas a maior história já foi contada: a história de que escrever com arte é um desafio ao alcance de todos aqueles que se encantam com as letras.

Avaliação qualitativa

julho 6, 2014

Professores, no geral, fazem avaliações para atribuir notas ou conceitos para seus alunos. Poucas vezes, os alunos recebem feedbacks detalhados sobre suas aprendizagens. Quando se fala em avaliação, alunos pensam em notas e em sistemas de classificação. Na escola há pouca avaliação qualitativa.

O que estou chamando de avaliação qualitativa aqui é uma resposta clara para desempenhos dos alunos. Tal tipo de avaliação pode ser facilitada quando os estudantes produzem, em vez de apenas darem respostas em testes ou provas. A avaliação quantitativa predomina porque tal prática é mais fácil tanto para os docentes com para os alunos. Avaliações qualitativas são mais exigentes para ambos os atores do processo de ensino-aprendizagem.

Não conheço referências teóricas bem arrumadas sobre avaliação qualitativa. Aprendi algo sobre ela com um excelente professor de filosofia, Frei Lauro Borges. O Laurão, como o chamávamos, devolvia nossos trabalhos escritos acompanhados por fichas que registravam suas observações sobre os textos produzidos. Ele fazia observações sobre clareza do texto, qualidade da argumentação, originalidade, correção etc. Além disso fazia indicações de melhoria. Nas avaliações do Laurão valiam mais as observações que a nota. As fichas dele eram sinais de consideração pelo que havíamos produzido e nos ajudavam a mais aprender.

Muitos anos depois do meu curso de filosofia, lembrei-me do Laurão quando dava aulas de tecnologia educacional e pedia a meus alunos para produzirem WebQuests. Durante o processo de produção, eu acompanhava o progresso dos alunos no laboratório de informática, dava-lhes apoio, fazia indicações, viajava um pouco quando a equipe era muito imaginosa. E na fase final do projeto, fazia uma avaliação qualitativa do trabalho escrito que as equipes me apresentavam. Nessa avaliação qualitativa eu procurava fazer algo parecido com as fichas do Frei Lauro.

Tenho até hoje muitas das avaliações qualitativas que fiz. Para que o leitor tenha uma ideia vou reproduzir duas delas aqui. Segue a primeira, uma avaliação do projeto de WebQuest “Mazzaropi: o homem que inventou o cinema caipira”:

Mazzaropi: “ O homem que inventou o cinema caipira”
Camila Catucci
Claudia Alves
Lílian Juarez Cunha
Luciane Traqui
Bom Trabalho. Vocês demonstraram boa compreensão do modelo WebQuest. Escolheram um tema que pode resultar em alternativas muito interessantes de Artes, Comunicação e Expressão, História do Brasil, Estudos Sociais.

A montagem da WQ está bem acabada. Cada parte do trabalho revela bom entendimento da estratégia proposta pelo Professor Bernie Dodge. É um trabalho para ser publicado, testado e usado. Parabéns ao grupo.

Para que vocês possam preparar a versão final e saberem mais especificamente quais as minhas considerações sobre o trabalho, leiam as observações que seguem.

INTRODUÇÃO

Está adequada. Poderia, porém, ser um texto que procurasse mais especificamente os interesses pessoais dos alunos.

No segundo parágrafo há muitas repetições dentro de um mesmo período. Sem tais repetições o trecho em questão poderia ser reescrito mais ou menos assim:

Vocês são uma equipe de jornalistas que recebeu um convite para participar de um Congresso Mundial sobre grandes cineastas. No evento, vocês representarão o Brasil e deverão mostrar o quanto Mazzaropi foi importante para o nosso cinema.

A TAREFA

Está clara e bem proposta. Convém apenas rever o primeiro parágrafo. Segue aqui uma sugestão de revisão;

Para bem representar o Brasil no Congresso Mundial e para dar a todos os participantes do evento uma idéia de quem foi Mazzaropi, vocês deverão:
O PROCESSO:

Em linhas gerais, vocês propõem um Processo que atende algumas das características do modelo WQ. Aqui, porém, há mais observações a serem feitas. Vou dividí-los em duas partes: conceitual e formal.

Começo pela parte conceitual. Tarefas, em WQ’s são um problema ou situação que requer atenção de um grupo. Mas não é só isso. O grupo deve ser constituído de tal modo que os participantes cooperem cognitivamente uns com os outros. Como é que essa cooperação pode ser desencadeada?

Boas WQ’s geralmente estruturam o processo de tal forma que os participantes de um grupo de trabalho atuem como especialistas. Ou seja, como alguém que no grupo traz uma contribuição de conhecimento que os outros componentes não têm. Num tema como energia eólica, por exemplo, em que um grupo de quatro alunos deve preparar um programa de rádio, pode-se ter os seguintes personagens: economista, geógrafo, especialista em motores, advogado. Tais personagens não são propostos para favorecer dinâmica de grupo ou para criar uma boa dramatização. Eles são pensados a partir dos possíveis enfoques que o tema pode ter. No exemplo, a questão do uso de energia eólica requer conhecimento de custos de produção (economia), locais favoráveis à produção de energia eólica (geografia), tipos de motores e indústrias que os produzem (especialização em motores), e legislação sobre energia no Brasil (aspectos legais = advogado).

Quando a gente consegue ver com clareza os diversos enfoques possíveis para um tema, fica fácil escolher os personagens. É preciso, além disso, escolher com critério as fontes (sites e/ou literatura) para cada personagem/enfoque.

Quando num grupo, as pessoas tem papéis distintos e estudam a matéria a partir de pontos de vista do respectivo papel, há possibilidades mais seguras de promover aprendizagem cooperativa, situações em que os alunos, dadas as especializações individuais de cada um, trazem para o grupo conteúdos que ajudam o resolver o problema e a desenvolver o conhecimento dos demais.

Examinem o trabalho de vocês. Do modo como vocês organizaram o Processo são poucas as chances de aprendizagem cooperativa. Para que isso fosse possível, o tema deveria ser abordado desde diferentes pontos de vista.

Em parte, acho que vocês não estruturam o processo de modo a favorecer aprendizagem cooperativa porque não conhecem muito bem a obra do Mazzaropi. Fica aqui um alerta: ao fazer uma WQ é preciso que os autores tenham um bom domínio do assunto.

Quanto ao aspecto formal, creio que vocês devem fazer uma revisão de português no Processo para tornar as coisas mais claras e corretas. Revejam o texto inteiro. Para contribuir, ofereço aqui uma alternativa de redação para o item 3.

3. Em grupo e utilizando os conhecimentos desenvolvidos a partir do estudo individual dos sites aqui indicados, vocês deverão abordar no texto do Word pelo menos os seguintes itens:
 Breve relato sobre a vida de Mazzaropi.
 Aspectos que vocês acham mais relevantes na obra do cineasta.
 Os filmes mais marcantes da obra de Mazzaropi. (Não se esqueçam de justificar suas escolhas).

AVALIAÇÃO

Está bem estruturada. Há um ou outro erro de digitação que precisa ser corrigido.

CONCLUSÃO

Talvez o primeiro parágrafo devesse ser reescrito. Em vez do sujeito ser “nós autoras”, considerem a possibilidade de um Vocês (alunos). Nesse sentido, o mencionado parágrafo poderia ser algo mais ou menos assim:

Vocês certamente chegaram ao final desta WebQuest com um bom conhecimento sobre o genial Mazzaropi. Devem ter sentido como é interessantes a história do cinema brasileiro. Tudo isso deve ter deixado vocês com um gosto de “quero mais”.

CRÉDITOS

Estão adequados. Falta apenas colocar local e data de produção do trabalho de vocês.

Outro exemplo é a avaliação qualitativa do projeto de WebQuest “A Água Nossa De Cada Dia”:

 

A ÁGUA NOSSA DE CADA DIA
Edla Yara Priess Perini
Mônica Schüler Menslin
O trabalho de vocês está praticamente pronto. Em termos de concepção é uma WQ e, certamente, pode desencadear atividades de aprendizagem com uso de materiais autênticos e com o alcance de objetivos de uma educação crítica, científica e favorecedora da cidadania.

Resta-me apenas indicar possíveis melhorias e aguardar, num futuro próximo, informações sobre como foi a experimentação da proposta de vocês.

Vamos aos comentários pró-melhoria, se adequadas e possíveis, pois a decisão final é de vocês.
FOLHA DE ROSTO-APRESENTAÇÃO

Duas sugestões: Coloquem o respectivo endereço eletrônico logo depois do nome de cada uma de vocês.

Assim:

Edla……Perini eypperini@….
Mônica….Menslin msm63@….

Coloquem a ilustração (torneira com gota) antes do menu (introdução, etc.) e logo depois do nome de vocês.
INTRODUÇÃO

Tenho algumas sugestões de mudança no texto:

1ª No trecho que começa com “Ano 2200…”, lá onde se diz “Um bicho é o cão. O outro, um homem”, talvez fique melhor “Um bicho é um cão. Outro, um homem”.

2ª No trecho que começa com “Será que vamos…” modifiquem a quarta linha, cortando algumas palavras para obter texto mais enxuto e claro. Proponho a seguinte redação alternativa:

“A escassez de água, que já se sente em algumas partes do Brasil como Santa Catarina, traz sérias conseqüências para sobrevivência e é um sinal das dificuldades do que pode acontecer num futuro próximo”.

Vejam que cortei algumas coisas e tentei universalizar mais a WQ de vocês. Como a gente espera que outras regiões do Brasil se interessem pelo uso de Água Nossa de Cada Dia, é bom não localizar as questões em Santa Catarina.

3ª No parágrafo que começa com “Os especialistas não cansam…” fica melhor “Os especialistas não se cansam…”

4ª No trecho seguinte, em vez de “Convido-os a participar da investida” proponho “Convido vocês para a luta contra…”

5ª No parágrafo que vem logo depois, proponho que vocês substituam “Com certeza, vocês não foram convidados a serem” por “Vocês não serão meros expectadores!”

6ª No próximo trecho, cujo começo diz “A cena que…”, substituam “Se nós não conscientizarmos a população como um todo” por “se a população não se conscientizar”. Motivos para a proposta de mudança: em perspectivas de uma educação preocupada com processos de conscientização, não podemos assumir um papel de alguém que conscientiza, ou seja, de alguém que coloca o aprendente na situação de não-sujeito de suas ações; a expressão “como um todo” quase sempre (como no caso do texto de vocês) é tautológica. Não acrescenta sentido àquilo que vocês querem dizer.

No trecho seguinte, não há crase em “à respeito”; substituam por “a respeito”. Coloquem a expressão, “mais que informar a população”, logo depois do que no início da frase. Com essa medida vocês obterão maior clareza, ficando com a seguinte frase:

“Um material gráfico que, mais que informar a população, se proponha a colaborar para uma tomada de consciência coletiva”.

No trecho que vem logo depois da grande questão colocada em negrito, eliminem, na frase que começa com “Essa empreitada…” a expressão “dando opiniões sobre o assunto”. Com essa providência o texto vai ficar mais leve. No final do mesmo trecho, substituam a expressão “dos que dele se utilizem” por “dos leitores”. Fica mais claro e limpo.

Finalmente, no mesmo parágrafo, substituem a parte final “… poderão utilizar o Page Maker” por “…utilizem o Page Maker”.

O PROCESSO E OS RECURSOS

No passo três, substituam na primeira linha “cada um de vocês gostaria…” por “cada um de vocês quer…”

No passo 2 do papel Diretor, substituam “que alguns deles” por “que algum membro”; acrescentem um se ao “desviando” para obter forma correta que deve ser “desviando-se”.

Talvez seja preciso pensar um pouco sobre indicações de sites para estudo do diretor. Da forma como está, ele será o único membro do grupo que não estudará o assunto. Acho que ficaria bem indicar 3 ou 4 sites gerais sobre questões relacionadas com a água em nosso planeta. É bom que o Diretor também conheça mais o assunto.

No texto para o especialista em mananciais, vocês colocarem mais um “à respeito” com crase. Tirem o acento. Exceto para a expressão “àqueles” em certos contextos, a crase só pode ser usada para substantivos femininos quando há junção do artigo a(s) com a preposição a. “A respeito” não comporta um a+a, pois respeito é masculino.

Minha próxima observação sobre texto está lá na frente, no passo 7 do processo. Vocês deixaram de colocar um s em “usado etc.”, o correto é “usados etc.”
AVALIAÇÃO

Está ótima. Tenho apenas um palpite. Na classificação de níveis vocês utilizaram as categorias originais da rubrica para avaliar WQ’s. Pode ficar assim. Mas talvez a coisa fique mais interessantes se vocês substituírem “Iniciante, Profissional e Mestre” por “Foca, Repórter Júnior e Repórter Sênior”, utilizando uma linguagem comum nas redações de jornais e revistas.

Como viram, a maior parte de minhas sugestões são de texto. Em certos casos são correções. Na maioria dos casos, são palpites. Vocês saberão o que convém fazer. Bom fim de trabalho.

 

 

Ebooks e livros impressos

junho 11, 2014

Em 2010, Nicholas Negroponte, previu que os livros impressos estariam mortos em 2015. Chegamos a 2014 e parece que a profecia do mago do MIT errou completamente o alvo. A produção de livros impressos continua a crescer e a Galáxia de Gutemberg ainda não foi ameaçada seriamente. Com os livros não aconteceu ainda nada parecido com o que aconteceu com os CD’s de música.

Mas, os ebooks estão aí. Sua produção cresceu muito nos primeiros anos e parece que agora chegou a um nível de estabilidade, numa proporção que varia de 15 a 20% do total dos livros produzidos. É possível que tal percentual aumente nos próximos anos, mas sem grande velocidade. E o predomínio ou exclusividade dos ebooks, se acontecer, parece que foi deslocado para um futuro distante.

As observações que fiz atrás enfatizam alguns pontos de escrito recente de Nicholas Carr, famoso analista crítico dos meios digitais. Quem estiver interessado no escrito de Carr poderá vê-lo no link que segue:

 

 

Tenho uma opinião bastante pessoal sobre ebooks. Até o momento não existem ebooks de verdade, existem apenas cópias eletrônicas dos velhos livros, não importando os muitos recursos tecnológicos utilizados. Para mim, ebooks deveriam ser um modo de tratar informação inteiramente diferente dos livros cuja configuração ficou bem estabelecida por volta do século IV. Escrevi sobre tal tecnologia aqui no Boteco. Vejam, por exemplo:

 

 

Espero que um dia surjam ebooks de verdade, algo completamente diferente do livro impresso. E sabem porque não temos ebooks de verdade ainda? A resposta é simples, ainda não surgiram autores que produzam obras para ebooks. O que temos no momento são produções para a imprensa que foram acomodadas em telas. Mas, apesar de terem ido para telas, as obras continuam a ser de papel.