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Visão interativa do saber

novembro 10, 2016

Anos atrás, escrevi material para uma curso online, destinado a professores da rede pública do Estado de São Paulo, coordenado pela Fundação Vanzolini. Hoje, ao fuçar nos meus guardados, encontrei o rascunho da primeira unidade de tal curso. Não consegui recuperar as imagens que utilizei na época. Vou ver se elas ainda estão arquivadas em alguma velha pasta. Mas, acho que já posso publicar o texto aqui como uma curiosidade para quem queira saber como organizei meu curso na ocasião.

VISÃO INTERATIVA DO SABER

Muita gente gosta de arranjar rótulos para períodos históricos. Em livros de história são comuns termos como “idade da pedra lascada”, “idade do bronze”, “idade do ferro”, etc. Nos  dias de hoje, são freqüentes as comparações entre Sociedade Industrial – uma era histórica cujos começos aconteceram três séculos atrás – e a Sociedade do Conhecimento – a novíssima era cujos começos aconteceram nos anos oitenta do século XX. Gente de empresa, por exemplo, declara que agora os produtos têm um “valor agregado”. E valor agregado, na nova era, é sobretudo conhecimento.

O uso da expressão Sociedade do Conhecimento está ligado a duas dimensões que nos interessam: informática e educação. Em muitos sentidos diz-se que a Sociedade do Conhecimento é um produto da informática. Computadores cada vez mais poderosos, acessíveis por meio de redes planetárias de comunicação eletrônica, colocam qualquer conhecimento humano ao alcance de todos. Quase tudo que  um cidadão quer ou precisa saber, dizem os entusiastas pela Sociedade do Conhecimento, pode ser obtido de modo imediato. Basta entrar na rede!

Uma das características da nova era é a velocidade de produção. Diz-se que nos últimos trinta ou quarenta anos a humanidade produziu mais conhecimento que todo o período anterior de cem mil anos. Os entusiastas afirmam que o acervo de saber dos humanos irá dobrar em períodos cada vez mais curtos.

A formidável produção de conhecimentos, nos termos relatados até aqui, parece exigir mais educação. Assim, muitos futurólogos deste final de século insistem em dizer que o setor educacional será um grande campo de trabalho nas próximas décadas. O crescimento acelerado da oferta de conhecimento exigirá, de acordo com as visões futuristas, gente mais educada, capaz de fazer bom uso da formidável massa de conhecimentos que estará disponível para quem saiba aproveitá-la. Além disso, dizem as mesmas fontes, a educação deverá sofrer mudanças significativas para acompanhar as demandas da sociedade do futuro. Para exemplificar, cito a seguir trecho de um documento publicado pela Academia Americana de Ciência na WEB. O documento, um belo exemplo de publicação que usa os recursos computacionais disponíveis, chama-se Reiventing Schools: The Technology Is Now [www.nap-edu/readingroom/books/techgap]:

Professores, pais, administradores escolares, e políticos começaram a perceber que é necessário um modelo de educação inteiramente novo. Nesse novo tipo de escola, todos os estudantes irão chegar a altos padrões de aprendizagem porque todas as pessoas deverão estar preparadas para pensar pela vida inteira; todas as pessoas terão de ser capazes de aprender muitas novas habilidades durante o curso de suas vidas. Esse modelo de educação irá aumentar as ligações entre os estudantes e suas comunidades, fazendo com que a escola se envolva  com complexas decisões éticas, técnicas e cívicas que todos os cidadãos terão de fazer. O período e localização da educação será mais flexível para refletir e aproveitar vantagens de mudanças no mercado de trabalho. A distinção entre aprender dentro e fora da escola perderá sentido.

No trecho citado, fala-se de uma nova escola, de uma educação permanente e, sobretudo, de exigências de padrões educacionais muito altos para todos. Além de mudanças nos objetivos, a escola do futuro deverá usar recursos tecnológicos avançados. Deverá aproveitar a fartura de conhecimentos proporcionada pelos novos meios de comunicação. Isso tudo significa mais educação.

CONHECIMENTO OBJETIVADO

Antes de seguir em frente, quero listar algumas características de boa parte dos discursos sobre a nova era. como veremos, mais à frente, tais características são muito importantes em qualquer discussão sobre como fazer educação. É bom notar que o discurso sobre uma Sociedade do Conhecimento, geralmente:

n  não distingue informação de conhecimento

n  não estabelece qualquer critério para avaliar qualidade de conhecimento/

informação

n  vê no conhecimento um produto que pode ser:

> armazenado

> vendido

> comprado

> transmitido

> doado

> controlado por donos ou proprietários

Tais características tem implicações sérias para a educação. A mais séria, no caso, é a implicação de que educar é um ato de transmissão. Não há muita novidade nisso; quase todos os livros de didática descrevem atividade sistemática de ensino como transmissão de conhecimento. Esse modo de ver o trabalho educacional supõe que os conhecimentos tem as características de produto que acabamos de ver.

Pensar o conhecimento com um objeto que independe de agentes do saber e de contextos de significação é uma abordagem que simplifica o entendimento do que é aprendizagem. Essa tendência acaba reforçando a idéia de que aprender é adquirir conhecimento. Na verdade, podemos adquirir informação. Mas o conhecimento só pode ser elaborado por agentes de saber. Essa temática vai merecer um estudo mais extenso na próxima unidade. Por enquanto, eu quero apenas deixar registrado que tratar o conhecimento como um objeto é uma tendência que empobrece nosso modo de ver o processo educacional.

VISÃO INTERACIONISTA

Neste curso, vamos estudar uma proposta à qual tenho dado o nome de abordagem interativa do saber.  Essa abordagem navega contra a corrente. Ao contrário das idéias predominantes, ela está baseada em pontos de vista que:

q não acham que o conhecimento humano está entrando numa fase de crescimento geométrico

q procuram estabelecer uma distinção nítida entre informação e conhecimento

q entendem que o conhecimento é uma  elaboração de sujeitos em atos de aprendizagem

q sabem  que há uma oferta imensa de informações, mas constatam que um número enorme de pessoas é incapaz de converter informação em conhecimento

Não vou expor a abordagem interacionista agora. Vou apenas apresentar um texto para reflexão, tentando mostrar que muita informação não produz, necessariamente, muito conhecimento.

FARTURA DE INFORMAÇÃO

Nosso tempo é uma época de muita fartura de informação. A famosa banca de jornais da Praça Villaboim oferece cerca de quinhentos títulos diferentes de livros, livretos, jornais, revistas etc. E essa oferta já não é tão nova, Caetano Veloso, em música muito conhecida, perguntava no fim dos anos sessenta: “quem lê tanta notícia?” A oferta de fontes de informação na Internet já se conta na casa dos milhões. Acadêmicos, como o professor Donald Norman, recebem em torno de dois mil e-mails por mês.

Tanta fartura é coisa recente na história. No século XIV, por exemplo, como conta S. Tuchman em A Distant Mirror, um rei francês deixou como principal item de herança um bem de preço incalculável: uma biblioteca com três centenas de livros! Hoje, qualquer professor universitário, tem bibliotecas pessoais que ultrapassam em muito a famosa coleção de livros do monarca francês de seiscentos anos atrás.

Há muita informação disponível. E o preço dessa mercadoria vem caindo sistematicamente. Isso não garante que estejamos ficando mais sábios e inteligentes. Sempre que vejo comentários sobre fartura de informação, lembro-me de dois nomes: Aristóteles e Santo Agostinho. Ambos foram gênios e produziram uma obra imensa. Aristóteles viveu a dois mil e quatrocentos anos. Agostinho, a mil e seiscentos. Possivelmente, nem um nem outro tinha biblioteca pessoal equiparável à de um intelectual do século XX. Não dispunham de muita informação. Apesar disso produziram uma obra que continua a ter grande importância para o pensamento de homens que vivem nesta virada de milênio.

Em vez de continuar com nossa conversa sobre conhecimento e informação, faço uma pequena pausa e proponho alguns exercícios, algumas vivências, como dizem os especialistas em treinamento.

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

Exercício/Vivência

Ver informação e conhecimento como sinônimos é uma crença bastante generalizada. Em educação, costumamos pensar que o conhecimento está no texto dos livros. É comum, por exemplo, a expressão “apropriar-se de conhecimentos”. Essa apropriação se faz como um ato de tomada de posse do texto. E, ao fazer isso, o aluno se torna proprietário do conhecimento pois este está contido nas palavras escritas. A crença em foco não é produto de ingenuidade ou ignorância das pessoas. Ela é uma idéia dominante uma vez que as estruturas escolares que conhecemos reforçam a convicção de que o saber pode ser capturado pela linguagem, sobretudo a linguagem escrita.

Para encaminhar uma reflexão sobre as relações entre texto e saber, proponho aqui um exercício. Vou sugerir a leitura de um pequeno escrito dos pesquisadores Bransford e Johnson (1972), citado no livro The Constructive Metaphor (Spivey, 1997). É um trecho curto, sem nenhuma grande dificuldade de estrutura e de vocabulário.

O exercício é simples. Você deve:

n  ler o texto, tentando entendê-lo

n  descrever, em quatro ou cinco palavras, a atividade à qual o texto se refere

n  comparar sua resposta com a resposta fornecida pelos autores

Vamos ao trabalho!

COISAS DA VIDA

O procedimento é muito simples. Em primeiro lugar você separa as coisas em diferentes grupos. É claro que um único monte será suficiente, dependendo da quantidade a ser processada. Ir a outro lugar devido à ausência de equipamento poderá ser o segundo passo; se essa providência for necessária, você estará pronto para continuar. É importante não exagerar na dose. Ou seja, é melhor fazer poucas do que muitas coisas de uma vez. A curto prazo isto pode não parecer importante, mas complicações podem surgir facilmente. Da mesma forma, um erro pode custar caro. No começo, o processo inteiro parecerá complicado. Logo, porém, ele vai se tornar uma outra faceta da vida. É difícil prever qualquer fim para a necessidade dessa tarefa num futuro próximo; mas, quem pode afirmar isso com certeza? Depois que o processo estiver completo, você deve organizar as coisas em diferentes grupos outra vez. A seguir, elas podem ser colocadas em seus lugares. E, quase certamente, serão usadas de novo e um ciclo completo terá de ser repetido. Mas isso faz parte da vida.

Agora que você já leu Coisas da Vida, tente adivinhar a atividade descrita pelo texto. Procure escrever sua adivinhação em poucas palavras.

LIMPAR
resposta
CONFIRMAR

Compare sua solução com o título dado pelos autores do texto, em

(V) resposta deve estar em localização que não permita ao usuário ter acesso à solução do problema antes de registrar sua (dele) tentativa. (V)

RESPOSTA PARA COISAS DA VIDA

§  Como lavar roupas (usando máquina de lavar)

REFLEXÕES SOBRE COISAS DA VIDA

Em experiências realizadas por Bransford e Johnson, os leitores de Coisas da Vida não conseguiam descobrir que o texto referia-se a atividade de lavar roupas. E isso acontecia porque os autores procuraram eliminar palavras que pudessem indicar contexto ao qual o texto se referia. Por essa razão, os leitores não conseguiam dar sentido ao texto.

Entender um texto (uma informação) requer iluminá-lo com conhecimento, dando-lhe sentido. Mas se encontrarmos um texto – fácil ou difícil – ao qual não possamos aplicar nosso conhecimento, é quase impossível o entendimento. Nessa altura acho que é bom citar uma explicação da professora Spivey (1997).

Entender um texto é um processo ativo de construir significado desde os sinais que o escritor fornece. E compor um texto é um processo ativo de construir significado para um texto e usar pistas  textuais para sinalizar significado para os leitores (p. 146)

Não vou falar muito sobre a experiência. Quero apenas insistir nas idéias de que:

n textos passam informação

n informação precisam ser interpretadas

n interpretações são atos de conhecimento

Se você quiser utilizar Coisas da Vida com um grupo de leitores e ver o que acontece, imprima o texto e boa sorte. Antes de seguir em frente, medite um pouco mais sobre Coisas da Vida. Está ficando claro, para você, a necessidade de distinguir claramente informação de conhecimento? Espero que o próximo exercício – SALA DE ESTAR – forneça mais elementos para a distinção que estou propondo. Vamos a ele.

(V) Se possível, usuário deverá poder acessar um cópia limpa de Coisas da Vida para imprimir e usar como sugiro (V)

SALA DE ESTAR

Exercício/Vivência

Vou descrever e fazer alguns comentários sobre SALA DE ESTAR, um exercício que utilizo com referência para discutir relações entre informação e conhecimento em processos educacionais. Se você tiver condições de conseguir voluntários que possam fazer o exercício, suas observações sobre a atividade serão de grande importância para a nossa conversa sobre a questão do conhecimento.

Como Fazer o Exercício

Em SALA DE ESTAR, a dinâmica de trabalho obedece a seguinte seqüência:

1.        os participantes são convidados a trabalhar em duplas num experimento de comunicação;

2.        nas duplas de trabalho, cada participante senta-se com as costas voltadas para as costas do respectivo parceiro;

3.        um dos componentes da dupla recebe o original de SALA DE ESTAR; o outro componente, uma folha de sulfite em branco;

4.        o componente que receber a figura original exercerá o papel de instrutor/professor; seu parceiro exercerá o papel de aluno/treinando;

5.        em hipótese alguma, o aluno poderá ver a figura em poder do professor;

6.        o professor deverá passar oralmente instruções que ajudem o aluno a desenhar SALA DE ESTAR, reproduzindo com a maior fidelidade possível a figura original;

7.        o trabalho das duplas devera durar de quinze a vinte minutos;

8.        terminado o trabalho de instrução e reprodução, as duplas discutirão a experiência por um cinco minutos.

Como disse, você poderá fazer essa experiência com alguns voluntários para verificar o que acontece. Além da dinâmica das relações entre professor e aluno em cada dupla, o que mais nos interessa aqui é o que o aluno produz a partir das instruções do professor.

Se você quiser fazer a experiência será preciso obter uma cópia do original de SALA DE ESTAR. Para obter sua cópia clique em original e imprima a página com a famosa figura.

(V) Será preciso garantir a possibilidade de acesso a uma página inteira com a figura original de sala de estar, pois assim o participante poderá imprimi-la para uso em experimentos que possa fazer (V)

Tenha você feito ou não a experiência proposta, convém ler os comentários que seguem:

Minhas Intenções com SALA DE ESTAR

Ao trabalhar com SALA DE ESTAR, procuro criar uma analogia que pode nos ajudar a pensar sobre as relações entre informação e conhecimento. Mas antes de falar sobre as relações que podem ser vivenciadas no exercício, quero explicar o significado dos elementos que integram SALA DE ESTAR.

n Desenho original: representa o conhecimento do professor.

n Instrução criada pelo professor: é informação produzida a partir de um determinado campo de conhecimento; na escola, damos a isso o nome de ensino.

n Posição dos pares – costa/costa: simula a impossibilidade do aluno ter acesso direto ao conhecimento do professor; simula também a impossibilidade do professor ter acesso direto ao conhecimento do aluno.

n Desenho produzido pelo aluno: representa o conhecimento elaborado pelo aluno a partir das instruções passadas pelo professor.

Minha principal intenção com SALA DE ESTAR é a de mostrar a diferença entre conhecimento (original) do professor e conhecimento elaborado pelo aluno. Além disso, é provável que já comece a ficar evidenciada a diferença entre informação e conhecimento, tema que pretendo discutir mais à frente neste curso.

Quem conseguiu fazer o exercício deve ter obtido figuras muito interessantes produzidas pelos alunos. Para nossa reflexão comum, mostro a seguir dois trabalhos elaborados por alunos num dos meus “experimentos”.

Figura original de SALA DE ESTAR

 

SALA DE ESTAR: Produção de Aluno A/2000

SALA DE ESTAR: Produção de aluno B/2000

Como a gente pode verificar, a distância entre a figura original e produções dos alunos é muito grande. Como explicar isso em termos das relações entre conhecimento do professor, informação ou ensino, e conhecimento produzido pelo aluno? Para responder essa questão de modo mais sistemático, vamos a nosso primeiro diagnóstico de aprendizagem.

DIAGNÓSTICO DE APRENDIZAGEM

Ao chegar até aqui, você deve ter lido meu texto e examinado dois exercícios (Coisas de Vida e Sala de Estar). Acho que já temos elementos para estabelecer uma visão compartilhada de entendimento sobre dois termos muito importantes, informação e conhecimento. E vamos fazer isso usando o Diagnóstico de Aprendizagem.

Não vou propor um exercício para saber se você domina o conteúdo. Vou, muito mais, sugerir uma atividade que possa servir de registro para os resultados de usa reflexões sobre o texto de leitura e os dois exercícios que integram essa unidade. Como SALA DE ESTAR é, a meu ver, um exercício muito rico, vou utilizá-lo como objeto de nossa conversa final nesta unidade.

ATIVIDADE

  • Como você pode verificar no exercício SALA DE ESTAR, há uma diferença muito acentuada entre conhecimento do professor e conhecimento elaborado pelo aluno. Considere a situação e escreva um pequeno ensaio (cerca de vinte linhas) sobre os porquês da diferença. Tente, em seu texto, definir o que é informação e o que é conhecimento. Quando terminar seu escrito compare o resultado de seu trabalho com o gabarito que criei.

Compare sua resposta com o gabarito

Há uma diferença acentuada entre conhecimento do professor e conhecimento do aluno. Como explicá-la?

Acho que uma boa resposta deve considerar:

1.    O conhecimento das pessoas não é diretamente acessível. Apenas o sujeito conhecedor tem visão clara e total daquilo que ele sabe. Nesse sentido, o conhecimento é subjetivo.

2.    Para tornar o conhecimento pessoal acessível, as pessoas produzem informação. Esta última é constituída por representações externas às quais conferimos significado. Quando duas ou mais pessoas se põem de acordo quanto ao significado de um item de informação (um símbolo, uma palavra, uma figura etc.) ocorre comunicação (algo conhecido é colocado em comum).

3.    Para produzir seu conhecimento, o aluno em SALA DE ESTAR conta com duas coisas: informação do professor e conhecimento prévio ou anterior. Ele interpreta as informações que recebe de acordo com seu entendimento (sua estrutura de conhecimento já constituída).

4.    Nem sempre as interpretações do aluno caminham na direção esperada pelo professor.

5.    Provavelmente, sempre haverá certa diferença entre conhecimento do professor e conhecimento elaborado pelo aluno.

6.    Parte do problema comunicativo em SALA DE ESTAR deve-se à falta de cuidado do professor na produção de informações. Muitas vezes os professores, na produção de informações, não consideram o ponto de vista dos alunos. Ao fazerem isso, geram informação que não comunica ou leva o aluno a interpretações não esperadas.

Livro sobre MOOC

setembro 2, 2016

Acabo de ver no Face indicação de um livro crítico sobre MOOC. Dei rápida olhada e vi que a obra é bem interessante. Vou ler oportunamente. Recomendo, em especial, o capítulo 2, escrito pela Professora Maria Elena Chan, da Universidade de Guadalajara.

Para interessados, segue link:

MOOC: debate abierto.

Sociedade da informação. Da informação… Da informação…

agosto 4, 2014

blog tOs educadores usam com certo entusiasmo a expressão Sociedade da Informação. E costumam achar que a fartura de informação que há na Web faz com que a escola perca cada vez mais sentido. Para mim, este modo de ver o que anda acontecendo em nosso mundo é um equívoco. A fartura de informação não gera necessariamente mais conhecimento. Alan Kay, cientista da computação, já chamava atenção para isso num artigo que publicou em Scientic American em 1995. Kay observava que com tanta informação disponível as pessoas estão cada vez mais incapazes de dizer o que há por trás da informação. Perderam o rumo dos significados.
Análise interessante sobre o fenômeno foi feita por Jodi Dean em Blog Theory. Em 2011 escrevi resenha do livro de Dean. Na resenha, tento enfatizar alguns dos pontos que a autora considera importantes nas práticas comunicativas na Web. Ela, como Kay e muitos outros autores, chama atenção para aspectos que deveriam ser analisados pelos educadores.
Não pretendo resumir a resenha que fiz. Acho que ela não faz inteira justiça a toda a riqueza do livro de Jodi Dean. Não cabe, portanto, reduzir mais ainda considerações sobre a obra. Por esse motivo, resolvi trazer para cá o texto integral da resenha, esperando assim oferecer uma boa referência para julgar os rumos da Sociedade da Informação.

Dean, Jodi. Blog Theory: Feedback and capture in the circuits of drive. Malden, MA: Polity Press, 2010, 153 p.
Novas tecnologias da informação e comunicação – NTIC’s ganham espaço cada vez maior na vida cotidiana. Essas tecnologias são vistas como avanços desejáveis, pois os ganhos que trazem em termos ampliação do conhecimento são imensos. Tal interpretação do papel das NTIC’s tem uma dupla face. De um lado, ela entende que a produção e acumulação de saberes é processo contínuo e cumulativo. De outro lado, ela ressalta a necessidade de se adotar as mudanças que as mais recentes tecnologias trazem. Comentários nos meios de comunicação e em produções acadêmicas tendem à tecnofilia. Ao mesmo tempo, a aceitação entusiasmada das NTIC’s tem muitos traços de ingenuidade.
O pensamento hegemônico sobre as novas tecnologias da informação e comunicação sugere que sociedade e indivíduos têm conhecimento cada vez maior, que a educação dará um salto de qualidade, e que a prática política ganhou grandes espaços de exercício da liberdade. Tais conclusões não são fruto de análises aprofundadas das NTIC’s. São, muito mais, conseqüências de crenças que ignoram qualquer análise crítica dos novos meios de comunicação.
Blog Theory, obra de Jodi Dean, contesta o pensamento hegemônico. Examina o fenômeno dos blogs, tentando perceber o significado dessa prática comunicativa na sociedade e para os blogueiros individualmente. A autora, porém, não se restringe aos blogs. Na verdade, realiza uma análise mais ampla, incluindo em seu estudo outras práticas comunicativas que ganharam espaço expressivo na Web.
A intenção de Dean é a de analisar criticamente as NTIC’s a partir de uma tradição que busca entender o significado e impactos sociais das tecnologias, assim como a maneira pela qual as forças hegemônicas se apropriam das ferramentas de comunicação. Ela procura superar o nível das aparências para desvelar o que está acontecendo no plano coletivo e individual. Há mudanças. Mas, que mudanças estão acontecendo em modos de ver a vida, no plano dos valores, na vida política, no plano epistemológico? Respostas e a essas perguntas balizam o caminho percorrido por Dean.
A autora reconhece que análises críticas da NTIC’s não é tarefa fácil. A atualidade das análises é efêmera, pois as novas redes de comunicação são turbulentas, sempre mutantes. Muitos de seus aspectos definidores desaparecem em pouco tempo. A obsolescência de equipamentos e ferramentas é extremamente acelerada. Por esses motivos, livros que abordem criticamente os novos meios de comunicação correm risco de ficarem desatualizados assim que chegarem às livrarias. Por outro lado, utilizar a própria Web para registrar aspectos críticos em blogs e outros ambientes de publicação digital é providência vã, pois a conteúdo não merecerá devida atenção.
Dean mostra que os livros desempenham papel importante na elaboração e registro de análises críticas. Sugere que as mídias digitais não conseguem substituí-los em tal função. Conclui que eles continuam a ser o veículo mais adequado para articular análises que evidenciem as conseqüências mais profundas das NTIC’s.
O funcionamento da Internet, segundo a autora, mostra a emergência do capitalismo da comunicação. Esse fenômeno vem recebendo diversos nomes, com destaque para Sociedade da Informação. Mas, quase sempre, os analistas ignoram o capital como o maior interessado na produção, circulação e uso de uma commodity intangível que vem mudando relações entre as pessoas, formação de identidade, modos de ver o mundo. Para Jodi Dean “o capitalismo marca a estranha convergência da democracia e do capitalismo em redes de comunicações e mídias de diversão” (p.4).
Para mostrar desdobramentos ideológicos do ambiente mediático de nossos dias, Dean examina como movimentos de esquerda com raízes nos anos de 1960, acreditando em virtudes intrínsecas das redes de comunicação, acabaram caindo em armadilhas e passaram a defender valores que criticavam. Para ela, este é o caso, por exemplo, dos novos comunalistas. Estes, ao abraçarem promessas libertárias da Internet, aliaram-se aos adversários de outrora – as forças armadas, o capital, a burocracia – promovendo idéias neoliberais e justificando flexibilização do trabalho e outras decorrências de um capitalismo dentro do qual se entranha a comunicação.
As observações de Jodi Dean sobre aspectos ideológicos promovidos no e pelo uso das redes digitais nada tem a ver com teorias conspiratórias. A autora examina as práticas comunicativas correntes e nelas encontra características que não são evidentes para usuários e entusiastas das novas mídias. A autora busca caracterizar que cultura e sociedade estão sendo construídas naquilo que se convencionou chamar de Sociedade da Informação.
Na produção e circulação de informações, a autora vê um fenômeno que precisa ser considerado, o fenômeno da reflexibilidade. Este fenômeno, em síntese, é caracterizado por uma circularidade na qual informação gera mais informação sem qualquer referência a realidades que não integrem as redes digitais. No plano individual, a reflexibilidade gera comportamentos análogos aos da obsessão pelo jogo. Utilizadores de redes sociais entram num circuito que não privilegia conteúdos, mas, o constante uso de veículos de informação.
Nos planos axiológicos e epistemológicos, Jodi Dean sugere que a utilização das novas mídias caminha na direção do declínio da eficiência simbólica. Ou seja, as pessoas deixam de ter uma referência sólida para julgar informação. Vale tudo. Em blogs e outros meios de expressão digital, acredita-se que todas as opiniões são válidas. A tendência reforça traços de relativismo que já presentes na cultura ocidental antes do advento das redes digitais. No caso dos valores, há um esvaziamento de referências aceitas coletivamente. No caso da ciência, há uma crença de que todo e qualquer saber é equivalente. O resultado dessas maneiras de ver é o de que banalidades sem fundamento e afirmações ancoradas em investigações sistemáticas em nada diferem. São informações que entram no circuito, reivindicando tratamento igualitário.
Predomina na rede digital impulso para o uso, não importando outros fins. A lógica do sistema é a de um consumo cada vez mais avassalador de informações, não pelo valor intrínseco destas últimas, mas pelo sentimento de participar de um processo informativo que não cessa. A comunicação constante é uma obrigação. Mais ainda: uma obsessão. É preciso comunicar-se, não importa para que, nem o que comunicar.
Dean consagra um capítulo inteiro à questão do afeto (Affective Networks). A autora observa:
O capitalismo da comunicação nos manda divertir, ao mesmo tempo ele nos adverte que não estamos nos divertindo o bastante, ou tão bem como os outros. Nossa diversão permanece frágil, arriscada. (p. 92)
A ordem para nos divertir aparece de diversas formas. Uma delas é a de sentir-se membro de uma comunidade que, segundo a autora, “é uma comunidade sem comunidade”. Contraditoriamente, as redes facilitam a superação do isolamento, embora as pessoas continuem isoladas. Outra forma é a da repetição. Faz-se a mesma coisa o tempo todo. Não importa o significado do que é repetido. Importa sempre a repetição, num ritmo cada vez mais envolvente. Repetição e redundância é o nome do jogo. Isso já era característico nos meios de comunicação de massa que chegaram um pouco mais cedo que as redes digitais. Essa circunstância foi e é largamente utilizada em publicidade na TV. Convém, mais uma vez, recorrer ao texto da autora:
A dimensão aditiva da comunicação pela comunicação marca um excesso. Esse excesso não é novo significado ou perspectiva. Ele não se refere a um novo conteúdo. Em vez disso, ele advém da repetição, da agitação ou emoção por mais. Na duplicação reflexiva da comunicação, a diversão incorporada à comunicação pela comunicação desaloja intenção, conteúdo, e significado. O extra na repetição é diversão, a diversão que é capturada no impulso e na diversão expropriada pelo capitalismo da comunicação. (p.116).
A meta, como já se disse, é a de usar a rede. E usá-la à exaustão. O discurso ideológico justifica tal uso com promessa de mais conhecimento. Mas, conforme diz a autora “quanto mais conhecimento incorporamos, menos sabemos”. Na verdade, o que predomina é a circulação de informação, não a sua apropriação pelos usuários. Uma das conseqüências disso é a falta de ação. Em vez de agir, busca-se mais informação. Os resultados encontrados não satisfazem. Por isso mais informações são procuradas. Esse processo não tem fim. E estar nele é fonte de prazer. A produção de informação com características de reflexibilidade é uma criação dos usuários. Eles acabam produzindo o ambiente em que vivem. As conexões estabelecidas no interior do sistema configuram as pessoas. Gerar informação, consumi-la, reproduzi-la, dentro de um loop, substitui busca de sentido, de significado, é tudo que se quer.
Apesar do título de seu livro, Dean não tem como foco os blogs, mas as práticas mediáticas que se tornaram comuns com a chegada dos recursos digitais. O livro, porém, tem um capítulo dedicado aos blogs. A autora faz menção às características técnicas dos diários eletrônicos. Examina as analogias mais comuns que são utilizadas para defini-los. Ela, porém, não se prende a visões mais tradicionais. Para além de aparências óbvias de blogs como diários eletrônicos ou formas de expressão de um novo jornalismo, Jodi Dean mostra como a prática deles está a serviço da expressão da subjetividade.
A autora vai buscar nas práticas epistolares do antigo Império Romano, assistida por estudos realizados por Michel Foucault, analogias para iluminar o sentido da escrita em diários eletrônicos. Revela que as correspondências produzidas pelos latinos tinham acima de tudo características de auto-escrita. A arte de escrever cartas era vista como um elemento de reflexão. Neste sentido, importava pouco o que comunicar. Importava o próprio exercício de produzir as cartas, mesmo que estas não fossem enviadas aos seus destinatários. Essa é uma descoberta intrigante. O ato, a prática era mais importante que o escrito. E é isto o que acontece com os blogs. Valem para eles as observações feitas para todo o sistema de comunicação digital. Os blogs são uma alternativa de ingresso na ciranda interminável de gerar e consumir informação, pouco importando o conteúdo. Eles também concretizam o sentimento de participação no qual se acentua a dimensão afetiva. Não são, assim, diferentes de qualquer outro formato que facilita a participação dos usuários na Web.
Blog Theory é um livro denso e exigente. A autora, para desenvolver seus argumentos, recorre a uma ampla literatura influenciada principalmente por Lacan. Cada capítulo da obra mereceria uma resenha própria para que não se perdessem elementos importantes das análises feitas por Dean. Porém, os registros aqui feitos são suficientes para situar a obra e sua importância em áreas relacionadas com informação e comunicação.
Importa assinalar como Blog Theory sugere novos modos de ver NTIC’s em educação. O estudo de Dean mostra que aproveitamentos de qualidades aparentes da Web para finalidades pedagógicas não podem acontecer de modo ingênuo. O predomínio de práticas de comunicação pela comunicação é um traço que deveria merecer análises críticas dos educadores. Usos educacionais das NTIC’s, caso ignorem uma visão crítica, irão apenas facilitar ingresso dos alunos em circuitos comunicativos que desconsideram conteúdos e significados.

Jarbas Novelino Barato. Professor. Mestre em Tecnologia Educacional pela San Diego State University (SDSU). Doutor em educação pela UNICAMP.

Fartura de informação e educação

julho 11, 2014

Ontem coloquei nesta Boteco, na seção páginas, texto do paper que preparei em 2005 para a Fundação Telefonica, abordando questões relativas a usos da internet em educação (cf. página 064. Quem lê tanta notícia). No começo do referido paper faço algumas considerações sobre o aumento exponencial de registros de informação na história recente. Acredito que é preciso contar com uma visão histórica do aumento constante de registros de informação para não ficarmos deslumbrados com a internet. Para interessados, reproduzo a seguir a página inicial do meu paper para a Telefonica.

 

O SOL NAS BANCAS DE REVISTA
ME ENCHE DE ALEGRIA E PREGUIÇA
QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA
(Caetano Veloso)

Começo com versos de Alegria, Alegria nos quais, entre admirado e provocativo, Caetano Veloso lança uma questão aparentemente banal: “quem lê tanta notícia?”. Não creio que a pergunta do famoso músico e poeta baiano refira-se apenas a um número muito grande de eventos registrados por jornais diários. Penso que a questão vai um pouco mais longe. Ela retrata certa admiração com a quantidade de publicações que podem ser encontradas numa simples banca de revistas. Ela tem a ver com a produção crescente de informação em nossa sociedade. Simples bancas de revista têm mais informação que a capacidade de consumo de um cidadão comum. Num levantamento informal realizado há alguns anos, calculei que a famosa banca de revistas da praça Villaboim oferecia a seus frequentadores cerca de quinhentos diferentes títulos de jornais, revistas, livretos, e livros publicados em edições de bolso. E, diferentemente das livrarias, o acervo de uma banca de revistas, renova-se em prazos muito curtos (alguns dias, pois as publicações periódicas ali vendidas são no máximo mensais). É esse o contexto que, a meu ver, melhor situa a pergunta feita por Caetano no já distante ano de 1968: “quem lê tanta notícia?”.
Um contraponto aos versos de Caetano é a constatação que aparece em A Distant Mirror, livro em que Bárbara W. Tuchman (1978) narra passagem da Peste Negra pela Europa. Ao falar dos bens de Carlos V, rei de França na segunda metade do século XIV, a autora constata que aquele soberano tinha uma riqueza de preço incalculável: uma biblioteca. Uma biblioteca de mil e poucos volumes! Ou seja, uma coleção de livros que hoje é uma marca apenas razoável para o acervo de um professor universitário. Na Europa de 1372, mesmo para o rei do país mais poderoso do continente, reunir número significativo de fontes de informação era um desafio formidável. Seis séculos depois da Peste Negra, a disponibilidade de informações sofreu um salto significativo. A coleção de mil e poucos livros que deu origem ao acervo bibliográfico do museu do Louvre é um número insignificante quando sabemos que uma simples banca de revista pode oferecer mais de quinhentos títulos aos seus clientes.
É tentador utilizar os dois casos que delineei nos parágrafos anteriores para mostrar a imensidão da Internet ou, mais propriamente, do espaço Web. Mas não vou fazer isso imediatamente. Acho que antes é preciso compreender melhor quando começou a revolução informativa que Caetano Veloso identificou nas bancas de revista. A explosão informativa já era visível em 1968. Será que ela é uma criação da segunda metade do século passado? Ou será que a mesma tem raízes mais distantes?
Sabemos que a biblioteca de Carlos V era constituída por manuscritos preciosos e caros. Livros, no século XIV, eram produtos de arte, elaborados individualmente por pacientes copistas. Essa circunstância vai mudar apenas no século XV, quando Gutenberg cria tipos móveis fáceis de usar e prensas que podem imprimir livros dentro de um escala de centenas ou até milhares de volumes. Mas tal escala de produção ainda não é muito expressiva se a compararmos com a escala de produção de nossos dias. Hoje, potencialmente, as informações podem ser produzidas na casa dos milhões a custos cada vez mais reduzidos.
Para gente que gosta de marcar certos períodos históricos com determinados nomes, os dias em que vivemos podem ser caracterizados como a Era da Fartura de Informações. Será que os números impressionantes das possibilidades de reproduzir informações são a marca distintiva de nosso tempo? Podemos dizer que sim. Mas é preciso qualificar tal resposta. Acredito que Steen Larsen faz isso quando usa, sem pretensões com exatidão, dois jogos de relações interessantes. Numa figura mostra um pequeno conjunto contido por outro conjunto bastante maior. O conjunto menor ocupa uma área de cerca de dez por cento da área do conjunto que o envolve. O que Larsen quer representar com isso? A proporção entre saberes de um indivíduo e os saberes disponíveis no inicio do século XX. Ao lado de tal figura, Larsen desenha outra; um grande conjunto contendo um conjunto muitíssimo menor. Este último ocupa apenas uma pequena fração (algo menor que um por cento) da área abrangida pelo conjunto que o envolve. Na nova figura, o autor pretende mostrar a mesma relação entre saberes individuais e saberes disponíveis no século XXI. Cabe notar que nas duas situações a capacidade de “guardar informações” permaneceu constante para os indivíduos. O que cresceu de modo espetacular foi a capacidade social de produzir e distribuir informações.
As figuras utilizadas por Larsen mostram de forma dramática um dos problemas com o qual nos confrontamos hoje em educação; o que ensinar tendo em vista a imensidão de informações disponíveis?

 

 

Prova de tecnologia educacional

junho 22, 2014

Entre os meus guardados, tenho provas que fiz para cumprir o dever de elaborar instrumentos que pudessem me ajudar a dar nota para os alunos. Eu nunca fui muito rigoroso em dar notas. Sempre utilizei critérios para que meus estudantes já partissem para a prova com nota 4, pois ninguém é ZERO. Nunca cheguei a dizer isso claramente para meus alunos. Eu partia da nota 4 como mínimo, o que tornava muito difícil a reprovação de quem eu avaliava. Neste post não vou conversar sobre avaliação. Vou apenas matar saudades, reproduzindo uma prova de tecnologia educacional que elaborei em 2006.

Tecnologia Educacional 4apgn
Avaliação Semestral

Universidade São Judas Tadeu
Curso de Pedagogia
Prof. Jarbas N Barato
Parte 1 (3 pontos)

Nas questões que seguem, escolha a melhor alternativa.

1. Atualmente, com a divulgação das novas TIC’s –Tecnologias da Informação e Comunicação – é comum um modo de pensar que pode ser chamado de instrumentismo. Esse modo de pensar pode ser caracterizado como:
___a) um entendimento de que os novos meios são “apenas ferrramentas” cujo uso depende de planejamento didático-pedagógico.
___b) a idéia de que basta adquirir e usar as novas ferramentas para que haja tecnologia no espaço escolar.
___c) a tendência de achar que o uso de novas ferramentas faz com que os alunos aprendam mais e melhor.
___d) a idéia de que usar ou não as novas ferramentas de comunicação é indiferente.
___e) a convicção de que os educadores precisam necessariamente utilizar as novas ferramentas.

2. Com as novas tecnologias da informação e da comunicação:
___a) passamos a contar com mais ferramentas para diversificar a comunicação dos conteúdos de conhecimento
___b) começamos a reorganizar os conteúdos e a estruturar maneiras inéditas de pensar
___c) podemos tornar a aprendizagem mais divertida, obtendo conseqüentemente melhores resultados
___d) passamos a enfrentar o desafio de maior dispersão e falta de atenção dos estudantes, dada a superficialidade dos novos meios
___e) assistimos a uma mudança radical no papel do professor.

3. Na história da educação, o deslumbramento causado pelo cinema oferece ótimo exemplo de erros de avaliação quanto ao papel que os novos meios de comunicação podem desempenhar em termos de aprendizagem. Isso fica muito claro em declarações de:
___a) Albert Einstein
___b) Henry Ford
___c) Thomas Edison
___d) Santos Dumont
___e) Emile Freinet

4. Cinema e TV, dos meios de comunicação que se desenvolveram no século XX:
___a) tiveram papel importante na educação escolar
___b) foram usados apenas por educadores inspirados pela Escola Nova
___c) ficaram restritos a programas de educação a distância
___d) educaram as pessoas fora dos muros escolares
___e) sofreram sérias resistência dos educadores

5. Visões negativas caracterizam os blogs como:
___a) forma de comunicação restrita a quem gosta de escrever
___b) publicações que incentivam promoção pessoal, superficialidade e fofocas
___c) instrumento de comunicação que exige muito conhecimento do funcionamento da Web
___d) moda passageira que não criará raízes no universo da comunicação humana publicações que incentivam promoção pessoal, superficialidade e fofocas
___e) produção muito trabalhosa, considerados os resultados de aprendizagem que proporcionam

6. Na linha de crítica ao instrumentismo, especialistas em tecnologia educacional chamam nossa atenção para o fato de tecnologia é:
___a) uma opção entre muitas outras
___b) é inteligência humana, não máquinas e equipamentos
___c) uso bem planejado dos recursos disponíveis
___d) opção que exige muita pesquisa do educador
___e) uso adequado dos novos meios de comunicação

7. O ingresso de novos meios de comunicação não tem efeito aditivo (antigo mundo + nova ferramenta). Há no caso mudança profunda comparável a:
___a) ruptura de paradigmas na ciência
___b) revoluções no campo do comportamento e dos costumes
___c) reformas substanciais na estrutura da educação
___d) alteração profunda de visão de mundo
___e) impacto ecológico de um novo organismo no meio ambiente

8. Especialistas preocupados com os rumos que a utilização dos novos meios de comunicação e informação vêm tomando, previnem-nos contra:
___a) a desumanização provocada pela tecnologia
___b) a idéia de que informação e conhecimento são sinônimos
___c) a perda de valores importantes promovidos pelas antigas tecnologia
___d) a idéia de que toda a aprendizagem precisa ser divertida
___ e) a ilusão de que os novos meios nos tornam mais inteligentes

9. Para serem usados com sucesso em educação, os blogs:
___a) precisam ser entendidos primordialmente como meios de comunicação com virtudes próprias
___b) devem ser replanejados para atender a finalidades específicas de aprendizagem
___c) precisam passar por uma atenta supervisão dos educadores para evitar superficialidades
___d) devem atender a orientações pedagógicas previamente definidas
___e) precisam ser produzidos de acordo com normas éticas e de bom gosto

10. Blogs, se usados como espaço de conversação, promovem aprendizagens não reguladas. Tais aprendizagens são conseqüência:
___a) da liberdade que o aluno ganha ao se tornar efetivamente um autor
___b) da experiência de redação que o aluno vai desenvolvendo à medida que publica seus posts
___c) da interação que vai acontecendo à medida que seus posts repercutem no ciberespaço
___d) das amizades virtuais que vão surgindo à medida que sua obra fica conhecida
___e) do efeito causado pela reflexão necessária à produção de suas mensagens

11. Blogs exigem produção textual. Mas não desenvolvem apenas redação no sentido tradicional. Eles são um instrumento importante para:
___a) familiarizar os alunos com o ambiente Web
___b) desenvolver sentimento de autoria
___c) desenvolver gosto pela redação
___d) aperfeiçoar estilo dos alunos-autores
___e) oferecer oportunidade para aprendizagens de produção hipertextual

12. Nas alternativas que seguem, assinale aquela que não corresponde a um entendimento correto do uso de blogs em comunicação e educação:
___a) eles (os blogs) são uma ferramenta para jovens
___b) para publicá-los, não é necessário muito conhecimento de informática, computadores e internet
___c) conversar, esta é a idéia central da produção e uso de blogs
___d) antes de usar, é preciso que os educadores compreendam a natureza comunicativa dos blogs
___e) ingressar na blogosfera é um meio de exercer cibercidadania

Parte 2 (4 pontos)

O mote de nossa disciplina este ano é a fórmula tecnologia = ferramenta + imaginação. Esse modo de pensar é um pouco diferente dos modos hegemônicos de ver o uso das novas ferramentas comunicativas no processo de ensino-aprendizagem. Explique, num ensaio de pelo menos vinte linhas de texto, as direções que a mencionada fórmula sugere para a atuação dos educadores.

 

Água na internet

dezembro 29, 2013

Vai faltar água. Muitos “empreendedores”, tendo em vista escassez de água potável, já se propõem a cuidar do problema, cobrando pelo serviço de fornecimento e ganhando pleno direito de posse desse recurso vital.

Sabemos que a falta d’água é um drama já anunciado faz bastante tempo. É preciso, portanto, que sejamos educados em todos os sentido quanto aos aspectos relativos ao recurso mais importante para a vida.

Em 2010, o educador Javier Escajedo organizou um material muito interessante sobre a água, utilizando o sugestivo título La crisis del agua. Recomendo aos professores uma boa olhada na obra do Javier, seja para usá-la como está, seja para inspirar-se na organização de seu próprio material.

Depois de ver o material do Javier, achei que valia a pena dar uma olhada em algum vídeo que reproduzisse a canção Planeta Água, do Guilherme Arantes. Encontrei vídeo, ilustrado com imagens, que pode ser utilizado como ponto de partida bastante motivador para conversas sobre a água.

Naufrágios na Web

agosto 4, 2013

Em 2004, comecei a escrever um artigo sobre WebGincanas. Mas parei logo no começo. Fiquei apenas na Introdução. Hoje achei, por acaso, o referido texto. Ele retrata a questão do naufrágio de navegadores que buscam informações na internet para fazerem “pesquisas escolares”. No artigo não concluído eu queria usar os casos de naufrágio internético para justificar propostas de uso da Web com estrutura, uma vez que WebGincanas são uma forma estruturada de propor buscas de informação.

Quase dez anos depois, não tenho mais como terminar o artigo que estava escrevendo em 2004. Mas acho que a Introdução que escrevi ainda é uma reflexão útil para conversas sobre usos da internet em educação. Por isso, reproduzo-a aqui nas linhas que seguem.

Naufrágios na Internet: Introdução para um artigo sobre webGincanas

Suponha que você é um professor de biologia e  propôs a seus alunos uma pesquisa na internet sobre Teoria da Evolução. Suponha ainda que tais alunos tivessem a intenção de ler com alguma atenção o material selecionado. O que é que os estudantes iriam encontrar? Se entrassem no motor de buscas Google com a expressão Teoria da Evolução (sem aspas), receberiam a informação de que “foram encontradas aproximadamente 86.400” entradas para o termo pesquisado (dado do dia 11.07.2004). Se entrassem no mesmo Google com a expressão “Teoria da Evolução” (com aspas) o valor seria bem menor: 5.840 entradas. O que é que os alunos iriam estudar? Que escolhas fariam? Já fiz essas perguntas diversas vezes para professores do ensino fundamental e médio. A resposta mais freqüente foi a de que os estudantes costumam dar uma olhada nos três ou quatro primeiros endereços listados pelo buscador. No caso de Teoria da Evolução, os três primeiros endereços são: Teoria da Evolução: refutação, Edificador- Conseqüências da Teoria da Evolução e    A teoria da evolução é fato comprovado? Coincidência ou não, esses três primeiros sites listados pelo Google  se posicionam contra a Teoria da Evolução, refletindo crenças de grupos religiosos fundamentalistas. A que conclusões chegariam os alunos que lessem as três primeiras referências encontradas? Em “Teoria da Evolução: refutação”, logo na abertura, eles  encontrariam a seguinte afirmação:

Muitas autoridades científicas já admitem que esta teoria [Teoria da Evolução] se constitui de 10% de má ciência e 90% de má filosofia.

 

 Este seria um mau começo de conversa sobre um tópico importante das ciências biológicas.Nosso aluno hipotético poderia começar seus estudos  achando que a evolução é apenas uma alternativa para explicar a vida no planeta. Os dados numéricos (86.400, no primeiro caso, ou 5.840, no segundo) podem ser desanimadores. Os primeiros sites relacionados não são propriamente uma introdução esclarecedora sobre o assunto. Em outros idiomas, os problemas podem ser mais assustadores. Em inglês, por exemplo, as cifras são: 4.510.000, para Evolution Theory (sem aspas) e 39.300 para “Evolution Theory” (com aspas). Em espanhol, 216.000 para Teoria de la Evolución e 13.500 para “Teoria de la Evolución”.

 Poucos educadores propõem o uso de operadores lógicos para refinar a busca quando solicito uma pesquisa sobre Teoria da Evolução.  Um ou outro sabe, por exemplo, que é possível associar a expressão pesquisada com um complemento por meio do sinal de mais (+). E quando sugiro que Teoria da Evolução seja associada a algo, quase ninguém indica palavra ou expressão capaz de refinar a pesquisa.  Minha provocação preferida, no caso, é a de perguntar  aos educadores, na seqüência, se a fórmula Teoria da Evolução + Beagle funcionaria a contento. Quase sempre vejo um sorriso de incredulidade nos lábios de meus amigos professores, convencidos de que a  menção da raça do simpático Snoopy logo após o sinal de mais (+) é uma brincadeira minha. (“Teoria da Evolução” + Beagle reduz, no Google, a lista  de referências a apenas 291 sites) . Gente que estudou biologia há muito tempo costuma esquecer-se do navio científico (Beagle) utilizado por Darwin. É improvável, portanto, que estudantes utilizem espontaneamente complementos como Beagle ou Galápagos para refinar a procura. Mais improvável ainda é a possibilidade de algum aluno sem conhecimentos prévios do assunto, mas conhecedor do idioma inglês, utilizar a fórmula “Evolution Theory “+ “moth population”  que pode refinar a busca para apenas 36 entradas.

Uma investigação sobre Teoria da Evolução na internet poderia ainda ser facilitada com a escolha de termos mais adequados do ponto de vista da linguagem científica.(usar, por exemplo, Seleção das Espécies em vez de Teoria da Evolução como tema geral). No Google, para “Seleção das Espécies”, há apenas 361 entradas,  uma lista de sites provavelmente mais confiáveis do ponto de vista científico que o conjunto de 5.810 páginas que se obtém com “Teoria da Evolução”.

Com todas essas observações sobre usos de motores de busca e Teoria da Evolução, quero, inicialmente, destacar os seguintes pontos:

● para cada  termo ou expressão que merece estudo, há milhares ou milhões de referências na internet.

● as listagens dos sites selecionados pelos motores de busca não apresentam necessariamente uma ordem que favoreça prioridades de pesquisa

● para refinar a busca, associando o tema com chaves que possam levar à criação de conjuntos de dados mais manejáveis, é preciso que o pesquisador conheça certos aspectos do assunto (possibilidade de associar Teoria da Evolução com Beagle, ou Evolution Theory com moth population, por exemplo).

Dominar apenas aspectos técnicos de uso de motores de busca não resolve o problema. Um pesquisador que saiba como operar com o sinal de mais (+) precisa decidir que palavras ou termos são adequados. Ou seja, refinar buscas na internet exige algum conhecimento do conteúdo. Mas o que acontece normalmente, nas pesquisas que os alunos costumam fazer, é uma situação investigativa sem qualquer base ou critério. Não é de se estranhar, portanto, que o resultado mais freqüente das investigações na internet seja uma colagem de textos e figuras cuja importância e sentido os estudantes ignoram. Essas constatações parecem sinalizar um caminho completamente diferente daquele pintado pelo otimismo dos entusiasmados amantes das novidades da Sociedade da Informação.

 Náufragos no Oceano Web

Estudantes desafiados a usar internet para pesquisar determinado assunto podem viver aventuras semelhantes aos náufragos dos velhos veleiros do século XVI. Perdidos numa ilha qualquer do imenso mar de informações da Web, esses náufragos do mundo digital acabam mandando mensagens de socorro para qualquer destinatário. Uma das histórias mais ilustrativas sobre isso me foi contada pelo Professor Aquiles Von Zuben.

Ali pelos idos de 2000, Aquiles recebeu o seguinte e-mail:

Querido Professor Aquiles,

Sou estudante do ensino médio e estou pesquisando na internet o sentido da vida. Não encontrei nada. Recorro ao senhor para resolver o meu problema. Mande-me uma resposta sobre o tema. Nada muito longo, bastam duas páginas. E, por favor, responda-me logo, tenho de entregar o trabalho amanhã à tarde.

Abraço,

Fulano de Tal

Ao relatar o episódio, Aquiles ressaltou dois pontos: a solicitação de um texto breve e a urgência da resposta. O autor do e-mail não queria uma explicação, para o sentido da vida, que  ultrapassasse duas páginas. Esse pedido é congruente com uma expectativa cada vez mais comum de nossos alunos: textos, sobre qualquer assunto, devem ser sempre breves. A urgência da resposta retrata outra característica de nossa Sociedade da Informação: tudo é para aqui e agora (Barato, 1993). Brevidade e imediatismo das informações são aspectos que revelam algumas das tendências do mundo em que vivemos. Seria bom discuti-los aqui, mas isso fugiria ao foco deste texto. Por isso, deixo apenas um registro das observações do Professor Von Zuben, esperando que o leitor elabore por conta própria essas duas dimensões retratadas pelo e-mail do aluno que pesquisava o sentido da vida.

Meu interesse maior é o de elaborar uma explicação sobre os porquês de mensagens como a enviada para meu amigo Aquiles. Para tanto, acho conveniente fornecer algumas explicações sobre quem é professor ao qual o e-mail foi destinado. Aquiles Von Zuben é doutor filosofia, formado pela Universidade Católica de Louvain. Nos últimos anos, suas investigações tiveram como foco a questão da bioética. Como é que o aluno interessado no sentido da vida chegou ao site do Aquiles? Provavelmente por acaso. E quando viu que estava no território de um filósofo, resolveu jogar uma última cartada  para fazer sua tarefa escolar. Em vez de ler, estudar, investigar, o aluno resolveu pedir ao filósofo um pequeno tratado sobre a questão. Por que isso aconteceu? As explicações possíveis são muitas.  Provavelmente o aluno foi buscar na internet (com ou sem sugestão  docente) material para elaboração de um trabalho solicitado por algum de seus professores. E não faltam informações sobre o tema na internet. Numa busca por meio do Google (dados de 11.07.2004) há indicação de 984.00 entradas para sentido da vida, e 17.400 para “sentido da vida”. (para “sentido da vida” + Aquiles Von Zuben são 20 entradas!). Há, portanto, um oceano imenso de informações que deixa o navegante inteiramente perdido (o que escolher no meio de quase um milhão de documentos disponíveis?). O número imenso de informações disponíveis, em vez de nos tornar mais esclarecidos, tende a nos deixar inteiramente perdidos. Aliás, muito antes da explosão informativa da internet, Caetano Veloso, em verso célebre e comentando apenas o número muito grande de publicações vendidas nas bancas de jornal, perguntava: “quem lê tanta notícia?” Assim, cercado de informações por todos os lados, o navegador da internet não sabe o que utilizar. Naufraga. Um ou outro náufrago, desde uma ilha desconhecida, manda, em garrafas virtuais,  apelos desesperados. Forneço mais um exemplo sobre tal comportamento.

A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo mantém, na internet, uma página de apoio para educadores que queiram utilizar o modelo WebQuest. Educadores interessados em conversar sobre o tema central da página podem utilizar o e-mail webquest@futuro.usp.br para comunicarem-se com os coordenadores do projeto na Escola do Futuro. De vez em quando, alunos de diversos graus de ensino mandam mensagens de socorro para esse e-mail destinado à troca de idéias sobre usos educacionais de recursos da internet. Tais alunos ignoram completamente as finalidades do referido endereço eletrônico. Recorrem ao e-mail citado solicitando respostas para os mais variados assuntos. Uma das mensagens que chegou ao correio eletrônico do projeto WebQuest dizia:

Prezado WebQuest,

Estou pesquisando a globalização. Preciso de dados e informações sobre Revolução Industrial, sobretudo Inglaterra e França. Séculos XVII, XIX e XX. Eletrônica. Computadores. Novas formas de organização da produção. Mande-me dados e indicação de sites.

Fulano de Tal.

Esse pedido de socorro é parecido com o recebido pelo Professor Aquiles Von Zuben. O solicitante, porém, não se preocupou com qualquer forma de cortesia. Foi direto ao pedido, provavelmente pensando que um serviço da Universidade de São Paulo deve atender de imediato qualquer demanda escolar. Certamente, o autor do pedido não se deu ao trabalho de verificar o conteúdo do site sobre WebQuests, nem observou a natureza do serviço que a Escola do Futuro coloca à disposição dos educadores no caso. Aproveitou a existência de um endereço de uma grande universidade brasileira para obter respostas para sua pesquisa sobre globalização. Entrou na internet para procurar informações. Perdeu-se num mar imenso de referências. Encontrou, provavelmente por acaso, a página WebQuest da Escola do Futuro e resolveu enviar para ela uma garrafa virtual de náufrago do oceano Web.

Na mensagem sobre globalização aparecem informações mais diversificadas que no caso da mensagem sobre sentido da vida.  Nela aparecem indícios de que o investigador relaciona o assunto com Revolução Industrial, história da Europa, novas tecnologias etc. Por outro lado, as possíveis associações não estão logicamente ordenadas. São mais palavras de uma possível listagem de aspectos que podem ter alguma relação com o fenômeno da globalização. O teor da mensagem indica provável anotação de instruções de um professor na definição de uma tarefa escolar. Num e noutro caso fica evidente a ausência de critérios para selecionar as informações necessárias.

A esta altura acho conveniente esclarecer que a questão de desorientação em levantamentos sobre determinado assunto não é uma criatura da internet. Dificuldades na busca de referências sobre assunto a ser estudado têm como fonte inabilidades investigativas e ausência de conhecimento. Investigar é uma atividade que exige o domínio de determinadas estratégias, capacidade de fazer indagações conseqüentes, e habilidade de ler, interpretar e julgar informações disponíveis. Todas essas capacidades precisam estar aliadas a alguma familiaridade com o assunto a ser investigado.  Sem conhecimento prévio do assunto, é improvável que o investigador faça indagações consistentes. Essa circunstância pode ocorrer em levantamentos numa biblioteca, num centro de documentação ou na internet. Independe, portanto, da natureza da fonte de recursos. É, muito  mais, um fenômeno vinculado a domínio do campo de conhecimento por parte do investigador. Em outras palavras, sem conhecimento, fartura de informação não resulta em facilidade investigativa. A questão da necessidade do conhecimento como condição prévia para o bom uso de informações disponíveis mereceu um alerta de Alan Kay (1994) em artigo para uma edição especial de Scientific American. Os dois primeiros parágrafos do texto de Kay colocam com bastante impacto a questão:

O físico Murray Gell-Mann observou que a educação no século vinte assemelha-se a ida ao maior restaurante do mundo para alimentar-se (literalmente) com o livreto do cardápio. Com essa metáfora, o autor pretendia mostrar que as representações de nossas idéias substituíram as próprias idéias; os estudantes são ensinados superficialmente sobre grandes descobertas em vez de serem ajudados a aprender profundamente por si mesmos.

 

No futuro próximo, todas as representações já inventadas pelos seres humanos serão imediatamente disponíveis em qualquer parte do mundo por meio de computadores pessoais “de bolso”. Mas seremos capazes de passar do cardápio para o alimento? Ou não seremos capazes de distinguí-los? Ou, pior ainda, perderemos a habilidade de ler o cardápio e ficaremos satisfeitos apenas em reconhecê-lo?

Alan Kay teme que as pessoas achem que simples informação é conhecimento, não uma representação que precisa de intérpretes capazes  para ganhar sentido. O autor aborda assim uma questão central em nossos dias: o engano freqüente de achar que a produção  gigantesca de informação, acompanhada por um consumo cada vez maior desta nova mercadoria, gera automaticamente uma “sociedade do conhecimento”. Esse engano explica os muitos naufrágios no oceano Web.

Scavenger Hunt e WebGincana

julho 29, 2013

Desenvolvi o modelo WebGincana com base num jogo bastante popular nos EUA, Scavenger Hunt. Tal jogo tem como foco a busca de respostas objetivas para questões curtas. Já existe há bastante tempo. Ele foi adaptado para o ambiente Web e é bem interessante para trabalhar conteúdos factuais em educação. Geralmente é bom ponto de partida para que os alunos tenham uma ideia panorâmica de um tema que começarão a estudar.

Acabo de encontrar um bom exemplo de Sacavenger Hunt. Interessados poderão  vê-lo clicando sobre o link indicado a seguir:

 

O Poder de Aprendizagem das WebQuests

março 5, 2013

As Webquests têm duas referências indispensáveis, Bernie Dodge, inventor do modelo, e Tom March, autor de exemplos clássicos da genial forma de organização de informações para usos inteligentes de recursos do webespaço. Um e outro não são acadêmicos tradicionaios. Pouco escrevem “sobre”. Preferem produzir indicações de como elaborar webquests criativas e bem feitas. Esse modo de trabalhar traz grandes embaraços para quem procura fazer investigações sobre o modelo criado por Dodge nos moldes de trabalhos acadêmicos. Além disso, orientadores de dissertações e membros de bancas em investigações que têm webquests como objeto sentem desconforto por acasião de qualificações e defesas, pois até hoje não há referências “teóricas sólidas”” (ou tradicionais, na minha opinião) para conversas sobre um dos modelos melhor sucedido de proposta de uso da internet para fins educacionais.

Há, porém, alguns artigos fundamentais sobre o modelo criado por Bernie Dodge. Um deles foi escrito por Tom March e deveria ser literatura obrigatória em qualquer estudo sobre WebQuest. Para interessados, segue link para o texto do Tom:

Avaliação de blogs: mais informações

agosto 31, 2012

Faz algum tempo que publiquei neste Boteco uma rubrica elaborada para avaliar blogs de meus alunos. Para vê-la, clique aqui.

Amigos me disseram que era muito difícil avaliar blogs em propostas que resultavam na publicação de diários eletrônicos pelos estudantes. Me parece que a dificuldade pode ser superada por meio da utilização de rubricas. Rubricas são um instrumento no qual o educador estabelece aspectos (critérios) a serem observados e, para cada aspecto, descreve diferentes níveis, geralmente quatro, que correspondem a possíveis desempenhos (em termos técnicos, essa providência se baseia na ideia de distribuição normal de um traço em quartis).

Não vou aqui entrar em detalhes sobre elaboração de rubricas para blogs. Prefiro indicar exemplos para quem estiver interessado, pois encontrei uma boa fonte que pode inspirar educadores que queiram avaliar mais criteriosamente blogs de seus estudantes. A fonte a que me refiro, pode ser encontrada no link indicado a seguir: