Archive for the ‘Referências’ Category

Educação crítica

março 4, 2020

Em 2015, um jovem de quinze anos foi morto pela polícia no Rio de Janeiro. Registrou-se que ele e amigos estavam armados. Essa versão oficial foi desmentida por um vídeo gravado ao acaso pelo celular do rapaz assassinado. A gravação não mostra imagens da ação dos soldados, mas a trilha sonora, de cerca de quinze minutos, revela ataque a jovens que conversavam pacificamente na rua e que não estavam armados. O jovem assassinado era negro. Negros também eram seus amigos atacados pela polícia. Segue foto do rapaz. Se você clicar sobre ela verá a matéria publicada pelo El Pais.

negro

O caso desse moço não é um fato isolado. Ele é mais um numa série de assassinatos de jovens negros no Brasil. Esse é um assunto que deveria ser discutido extensamente em nossas escolas. Não é. E há muita gente que diria que tal discussão é política e que política deve ficar fora das escolas.

Começo este post com um caso que reflete violência contra os negros em nosso país porque acabo de ler um artigo sobre educação crítica que começa com a descrição de uma caso de assassinato de jovem negro nos Estados Unidos. E os autores mostram que houve grande controvérsia sobre a questão de se discutir temas assim no espaço escolar. Eles opinam que tal discussão é necessária para a construção da cidadania.

Racismo, homofobia, assassinato de jovens negros, trabalho escravo, violência contra as mulheres são alguns dos temas que podem dar concretude ao que chamamos de educação crítica. Esta última não é um exercício formal de como raciocinar, mas uma prática voltada para o mundo em que vivemos.

O que apenas sugiro neste começo de conversa é abordado com muita propriedade no artigo de que falei. Vale ler a matéria e relacioná-la com o que anda acontecendo em nosso país. Professores e escolas vêm sofrendo violentas pressões para não fazerem educação crítica voltada para fatos sociais que precisam ser discutidos e analisados em profundidade, tanto na sociedade como nas escolas.

O artigo a que me refiro foi publicado na revista The Atlantic e é assinado por Jonathan Zimmerman e Emily Robertson, professores de importantes universidades americanas. Como muitos amigos não leem inglês com facilidade, resolvi cometer tradução do texto que saiu no The Atlantic. É uma tradução livre que não passou por necessárias revisões, mas acho que ela dá uma boa ideia do que apresenta o artigo.

O título original do texto é The Case for Contentious Curricula. Achei que tal título, com bastante liberdade interpretativa, poderia ser traduzido como Argumentos a Favor da Educação Crítica. Convido amigas  e amigos para apreciarem a obra de Zimmerman e Robertson no que segue.

Argumentos a favor da educação crítica

Jonathan Zimmerman e Emily Robertson

The Atlantic April 26, 2017

edu

No dia 9 de agosto de 2014, o policial Darren Wilson atirou e matou Michael Brown nas ruas de Ferguson, Missouri. Wilson é branco; Brown era negro e estava desarmado. Em poucos dias Ferguson foi tomada por violentos protestos. E em muitas outras cidades americanas, milhares de manifestantes foram às ruas para condenar o racismo e a brutalidade da polícia.

Algumas escolas em Ferguson prorrogaram a volta às aulas para permitir que o pessoal da limpeza retirasse os detritos deixados pelos protestos e para se assegurarem de que os alunos poderiam ser transportados em segurança. Quando finalmente abriram suas portas, as escolas tiveram que decidir como – e se – abordar o assassinato de Brown e o que veio depois. Por todo o país, os participantes dos protestos cantavam “A Vida dos Negros Importa”. Como iriam os professores da área de Ferguson fazer com que a controvérsia tivesse sentido, e com que finalidade?

Sem nenhuma surpresa, as abordagens docentes variaram. Em University City, um subúrbio [vale lembrar que em cidades americana subúrbios são áreas afluentes] que se limita com St Louis, um professor levou os alunos a uma “discussão livre” sobre raça, justiça criminal, e desigualdade. “Eles são capazes de desconstruir os assuntos olhando para coisas como pobreza, educação, militarização das forças policiais, e percepção de que o país e o mundo tinham de que St. Louis passou por uma turbulência” declarou orgulhosamente o professor. Mas, às margens do Mississippi, em Edwardsville, Illinois, as autoridades escolares orientaram os professores a “mudar de assunto” sempre que o caso de Ferguson emergisse na classe. E em Riverview Gardens, o distrito em que Brown foi morto, os dirigentes disseram aos professores para falar do assunto apenas quando os alunos o levantassem. Se os alunos ”se mostrassem emocionalmente envolvidos com a situação”, os professores eram orientados a encaminha-los á orientação educacional e serviço social da escola.

Edwardsville é um distrito de maioria branca; Riverview Gardens é um distrito de maioria negra. Mas, em ambos os lugares, as razões para restringir o debate eram as mesmas: o medo de que os professores estariam inserindo seus próprios vieses – e botando fogo numa situação já muito volátil. O foco central da preocupação era o bem estar psicológico dos estudantes, não o seu crescimento intelectual e político. De fato, para muitos educadores na região, “política” era justamente o que as escolas deviam evitar. Ressaltavam-se visões de alunos emocionalmente frágeis, com elevada raiva e, possivelmente, violência decorrentes da situação de Ferguson. Mas talvez esse seja o caminho errado; as escolas públicas talvez devam abordar temas controversos que elas frequentemente evitam. O episódio de Ferguson merecia atenção das escolas. O assunto era objeto de divergência entre especialistas e de interesse e preocupação públicos.

Na mídia e nos grupos sociais da internet, acadêmicos discutiram as origens das abordagens policiais em Ferguson e sua ligação mais ampla para as relações americanas de raça e de justiça criminal. E através do país, pessoalmente ou em redes sociais, milhões de cidadãos se engajaram amplamente, e muitas vezes de modo apaixonado, em conversações sobre o assunto. E é claro que foi precisamente o volume e a veemência da discussão pública que levou muitos educadores a evita-la nas escolas. E isso tem sido um tema recorrente na história da educação americana. Como mostram os exemplos de Ferguson, as pessoas simplesmente não confiam nos professores como profissionais capazes de engajar os alunos em conversas sobre assuntos controversos de maneira bem informada e sensível. E não se dá aos professores espaço para conduzirem essas discussões no tempo escolar, crescentemente dominado pela preparação para testes padronizados [os ENEM da vida!]. Como confirma um relato de Riverside Gardens, “há pouco tempo disponível no espaço escolar” para abordar casos como o de Ferguson e, ao mesmo tempo, preparar os alunos para testes em matemática e leitura, especialmente em escolas da periferia onde muitos alunos não são proficientes em tais áreas de saber. Na verdade, como as pesquisas repetidamente confirmam, os alunos mais pobres têm menos oportunidades que outros estudantes de examinar assuntos controversos no espaço escolar.

As escolas ensinam muitas coisas. Na maior parte das vezes, porém, elas não têm ensinado os alunos com se engajar em debates bem informados e racionais sobre as inúmeras diferenças que perpassam a sociedade. Em síntese, o compromisso retórico de “ensinar temas controversos” nas escolas americanas não teve reflexos notáveis no dia a dia das salas de aula. Por causa de uma formação insuficiente, alguns professores não têm background de conhecimento ou habilidades pedagógicas – ou ambos – para liderar discussões em profundidade sobre questões quentes da política. Acima de tudo, porém, os professores não têm autonomia profissional para fazê-lo. Isso acontece particularmente durante períodos de guerra, quando as escolas são impedidas de abordar a conduta militar americana. Mas, através da história americana – e no presente – os professores enfrentaram, formal e informalmente, restrições na discussão de assuntos políticos de todos os tipos. A elevação dos níveis de educação provavelmente aumentou essa pressão, envolvendo desafios que os cidadãos antes julgavam que deveriam ser responsabilidade dos professores, com credenciais e saberes superiores para tanto. “O professor de ensino médio perdeu de fato o relativo status nos anos recentes na medida em que os pais têm agora formação secundária” observou, em 1958, o eminente sociólogo David Reisman. “Enquanto o professora da pré-escola ganha admiração porque ela pode controlar várias dúzias de pré-alfabetizados cujas mães sequer conseguem controlar uma única criança, o professor de ciências sociais no ensino médio tem dificuldades para se colocar como mais preparado que os pais que declaram que sabem tanto quanto ele”.

Isso é mais verdadeiro ainda nos dias de hoje, na medida em que mais e mais pais têm ensino superior. Mas o professor de ensino médio – particularmente o que ensina estudos sociais –  ainda enfrenta restrições mais agudas, por razões que Riesman apontou na metade do século passado. “Os professores de ensino médio podem ser rotulados de ‘controvertidos’ assim que qualquer discussão se torna acalorada ou se aproxime do lar”, escreveu Riesman. E o perigo é maior em estudos sociais que “tanto pode refletir o que está nos jornais como pode se converter em notícia”. Em muitas comunidades isso é um grande risco para os professores de estudos sociais. Por isso, muitos deles ensinam o que Riesman chamou de ‘irrelevâncias sociais’ – uma ladainha de clichês e pieguices – e evitam qualquer tema controverso que possa lhes trazer aborrecimentos com alguma parte da população [pais, opinião pública, formadores de opinião etc.]. “Eles temem que a abordagem de ‘temas controversos’ em educação os exponha a críticas”, escreveu o futuro vice-presidente Hubert Humphrey, alguns anos antes. “Isso produziu insegurança incômoda que, por sua vez, forçou muitos professores a abandonar técnicas educacionais válidas”.

Seguramente, muitos outros conteúdos escolares – não apenas estudos sociais – envolvem potencialmente assuntos controversos. No desenvolvimento curricular, os professores lutam para confrontar suas obrigações de abordar tais assuntos com as inevitáveis pressões para evita-los. Nos anos vinte e trinta do século passado, por exemplo, os professores de ciências no ensino médio enfatizavam o ensino da física e da química; não davam, porém, grande importância à biologia. A razão era óbvia: ao contrário de outras ciências importantes, escreveu um observador, a biologia era uma ameaça que “poderia familiarizar rapazes e moças com a teoria da evolução”.

Reclamações dos cidadãos também restringiram incursões dos professores de inglês em assuntos controversos. Algumas vezes os professores foram impedidos de indicar The Catcher in the Rye, The adventures of Huckberry Finn, e outros livros ´banidos’ que provocam arrepios [e condenação] em reuniões de conselhos de educação [nos EUA há conselhos de educação em vários níveis, na própria escola, no distrito, no estado] por todo o país. Mesmo quando tais obras são permitidas, professores experimentam grandes limitações para discutir questões delicadas presentes no texto – especialmente aquelas que se referem a sexo. Finalmente, a educação sexual obrigatória também é alvo de constantes objeções da comunidade. Isso é um problema principalmente para professores no campo da saúde e da educação física, que muitas vezes eliminam de suas aulas qualquer coisa muito explícita – ou controversa – por medo de reações negativas das famílias.

Leis, dirigentes escolares e opinião da comunidade têm, todos eles, conspirado para evitar ou para desencorajar os professores americanos a discutir assuntos controversos em sala de aula. Isso não quer dizer que os professores sempre evitaram tais assuntos. Em 1953, no auge da Guerra Fria, uma pesquisa junto a professores de estudos sociais em Ohio revelou que os docentes estavam conduzindo discussões para determinar se o presidente Harry Truman deveria intervir na indústria de produção de aço, se Truman deveria ter demitido o general Douglas MacArthur, e se – como queria MacArthur – os Estados Unidos deveriam utilizar armas atômicas na Guerra da Coréia. No mesmo ano, em outra pesquisa, professores da cidade de Nova Iorque informavam que estavam conduzindo debates cujo foco era o direito da ‘China Vermelha’ ter assento nas Nações Unidas, ou se os comunistas tinham direito de lecionar em escolas públicas, ou se Julius e Ethel Rosenberg deveriam ser condenados à pena de morte por terem fornecido segredos atômicos  para a União Soviética, ou se o senador Joseph McCarthy era “uma ameaça ou uma salvador da democracia americana”.

Depois que vários professores foram demitidos por serem considerados comunistas, muitos docentes admitiram que estavam com medo de discutir qualquer assunto controverso em suas aulas. Mas, a pesquisa indicou que seus temores eram infundados, ou pelo menos exagerados. “É preciso que os professores que têm esses medos ganhem coragem”, escreveu o autor da pesquisa. “O assunto que eles dizem ter medo de ensinar está sendo abordado por muitos de seus colegas em salas de aulas próximas, e em escolas da vizinhança. Tais professores estão impondo desnecessária censura a eles mesmos”.

No presente, algumas evidências sugerem que na verdade os professores superestimam as limitações para abordar assuntos controversos em suas aulas. Novos professores, particularmente, demonstram surpresa quando ouvem que velhos docentes discutem questões politicamente espinhosas com seus alunos. “Você os deixa falar sobre isso?!”, perguntaram os [novos] professores a uma colega quando ouviram falar sobre suas aulas. “Que opiniões você os deixa expressar?”. Em diversos sentidos, essas observações revelam a fraca preparação dos professores para um de seus deveres cívicos fundamentais: explorar assuntos controversos com futuros cidadãos. Elas também lembram que esse tipo de ensino continua a acontecer, apesar da pobreza de preparação profissional para a tarefa e – particularmente nos anos recentes – do encolhimento da proteção legal para ele.

Quando os Estados Unidos atacaram o Iraque em 1991, estudantes de uma escola de Pittsburgh foram para as ruas protestar contra a instituição que se recusou a abordar o assunto. Mas, doze anos depois, quando os EUA invadiram o Iraque de novo, uma escola suburbana de Nova Iorque patrocinou um dia inteiro de discussão sobre o fato. Em assembleia geral na quadra da escola, cinco estudantes e dois professores de estudos sociais apresentaram argumentos a favor e contra a guerra; a seguir os estudantes se dispersaram e voltaram às respectivas classes para continuar o debate. As salas de aula dos Estados Unidos oferecem muitas oportunidades para crescimento por meio de assuntos controversos. A questão é se os professores serão empoderados para abordar tais assuntos.

Este artigo foi adaptado da obra de Jonathan Zimmerman e Emily Robertson, The Case for Contention: Teaching Controversial Issues in American Schools.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jerome Bruner, psicologia e educação

fevereiro 19, 2020

Jerome Bruner foi um dos expoentes da psicologia cognitiva, do construtivismo. Sua importância para a educação é imensa. Mas, por outro lado, as lições que ele deixou ainda não foram inteiramente aprendidas.

Ao pesquisar Nathan Zimmerman, autor de Small Wander (um livro necessário sobre a história e mitos da escola rural de sala única), acabei encontrando alguns artigos interessantes dele no The Atlantic. Entre tais artigos, destaco um precioso ensaio sobre Bruner e a educação. Como muitos amigos não leem inglês com facilidade, traduzi o artigo de Zimmerman. É uma tradução ligeira que não foi revista por gente mais capacitada em inglês do que eu. Mas, acho que o resultado não deixa a desejar.

Segue a tradução.

Jerome Bruner: Uma busca inacabada em educação

Jerome Bruner promoveu a psicologia cognitiva, uma ideia que as escolas ainda lutam para adotar.

 

Jonathan Zimmerman

The Atlantic, June 7, 2016

bruner

Alguns anos atrás, Jerome Bruner visitou um curso de pós que eu coordeno na New York University sobre pesquisa educacional e política. Eu disse a Jerry que concordava com quase tudo que ele escreveu sobre educação, mas temia que muitos americanos não concordassem com tais ideias. O que aconteceria se o país não aceitasse o que ele estava propondo?

“Bem”, disse Jerry com um largo sorriso: “então você teria em mãos uma boa história”.

A própria história admirável de Bruner chegou ao fim na segunda feira passada, quando ele faleceu aos 100 anos. Filho de imigrantes poloneses, ele foi uma criança sem visão até que uma cirurgia o livrou da cegueira aos dois anos de idade. Bruner dedicou toda sua vida estudando a percepção humana, e os modos pelos quais as histórias que contamos sobre o mundo influenciam como pensamos e aprendemos sobre ele.

Ao longo do caminho, ele ajudou a revolucionar a psicologia americana. Quando Bruner foi para sua pós-graduação na Harvard University, nos anos de 1930, predominava uma pesquisa psicológica que examinava o comportamento que as pessoas exibiam frente a pressões externas e estímulos. Mas tal modelo não levava em conta nossa mente individual, que filtra e interpreta tudo que experimentamos.

Bruner decidiu estudar o que ele chamou de “psicologia cognitiva” – como as pessoas pensam e raciocinam, não apenas como reagem e respondem. Para a educação, particularmente, as implicações eram enormes. Bruner descobriu que mesmo as crianças muito novas construíam seu próprio conhecimento – ou seja, davam sentido a novas informações com base em experiências e entendimentos prévios. O trabalho dos professores era o de ajudar os estudantes construir conhecimento sobre o que já sabiam.

Não fazia sentido então empanturrar as crianças com fatos, que elas esqueceriam assim que a prova terminasse. A meta era ajuda-las  a reconhecer relações entre fatos. Você não precisa ser um físico ou um historiador para entender a gravidade ou a Guerra Civil. Mas você precisaria de um professor que pudesse ajuda-lo a pensar como um físico ou como um historiador, ordenando e analisando as informações como eles fariam.

Meio século depois que Bruner propôs essas ideias em sua obra mais importante, The Process of Education, elas acabaram sendo aceitas como “melhores práticas” nas escolas americanas. Mas poucos professores e alunos as praticam. Há um enorme fosso entre a história que os Estados Unidos conta sobre educação e o caminho em que ela realmente percorre.

A primeira razão tem a ver com a preparação de professores no país. Para instruir os alunos da maneira imaginada por Bruner, você precisa ter um profundo conhecimento da matéria que ensina. Sou professor de educação numa grande universidade, mas eu não poderia ensinar biologia no curso secundáio. Eu poderia fazer com que os alunos memorizassem partes de um átomo ou de uma célula, mas não poderia ajuda-los a entender como a biologia funciona: como ela levanta questões, delineia teorias, reúne evidências.

E aqui há um fato deprimente: boa parte dos professores do país não tem esse tipo de conhecimento. Embora em muitos estados se exija que os professores sejam formados na matéria que lecionam, a legislação não demanda que os mestres dominem de fato os saberes próprios de sua disciplina. Provenientes dos grupos de baixo e médio desempenho de distribuição de desempenho acadêmico, muitos professores americanos simplesmente carecem de um forte background de saber específico para ajudar os alunos a mergulharem na disciplina que estudam.

Enquanto isso, professores que possuem a necessária expertise são prejudicados pela besta da “accountability”. Desde que o Congresso aprovou a lei conhecida como No Child Left Behind em 2001, normas federais e estaduais atrelaram o financiamento das escolas – e, em alguns lugares, o salário dos professores – ao desempenho dos alunos em testes padronizados [algo parecido com o nosso ENEM]. Particularmente nas comunidades mais pobres, o resultado tem sido a antítese do que Bruner imaginava: uma pedagogia triste de memorização apenas prepara os alunos para o próximo teste padronizado.

Finalmente, não é claro que os cidadãos americanos – essa gente que paga impostos e elege os membros de conselhos escolares – desejam o tipo de instrução que Bruner desejava. Ele aprendeu isso de maneira bastante dura quando desenvolveu um currículo financiado pelo governo federal nos anos de 1960, chamado Man: A Course of Study (MACOS), que usava exemplos de diferentes lugares e eras para gerar questões básicas sobre o comportamento humano e a moralidade – especialmente sua descrição dos Netslik Eskimos, que praticavam infanticídio e eutanásia – chamou atenção dos conservadores, que queriam que a seus filhos fosse ensinado um único código moral. O Congresso acabou cancelando o financiamento do MACOS, o que nos faz lembrar dos perigos de encorajar as crianças a pensarem por elas mesmas. Elas podem terminar discordando de seus pais, e muitos americanos – talvez a maioria – não querem isso.

No final de sua carreira, Bruner se voltou para a questão da cultura e educação, examinando como diferentes sociedades influenciam o crescimento e desenvolvimento humanos. Meu temor é o de que a cultura americana não aceite verdadeiramente a estória que Bruner nos contou sobre o ensinar. Mas, sempre serei agradecido a ele pelo que disse, insistentemente, na esperança de que a nação um dia aprendesse a lição.

Para quem quiser ver o original em inglês, indico o link: An Unfinished Quest in Educaction.

 

Imagens de escolas rurais

fevereiro 18, 2020

Estou relendo Small Wonder: The little red schoolhouse in history and memory, de Jonathan Zimmerman. No livro há muitas referências sobre imagens das Little Red Schools, pinturas e fotos. As pinturas, geralmente, passam uma imagem idealizada das escolas rurais. As fotos, se recentes, mostram prédios recuperados que não são mais utilizados em educação, mas funcionam como museus para atrair turistas interessados na antiga cultura rural dos EUA.

Percorri na web diversos sites com imagens de escolas rurais. Com isso, creio que construi certa visão de como eram as escolas rurais americanas, ou como os americanos idealizam uma de suas instituições nacionais, a Little Red Schoolhouse.

Selecionei algumas imagens que trago para cá, como registro do que estou estudando, e como mostra de imagens que podem ajudar prováveis leitores a a apreciarem a escola de sala única.

log radical

Começo com um log cabin, uma cabana de toras, que foi bastante comum nas áreas pioneiras. A construção era rústica e aproveitava material disponível, árvores, sem necessidade de grandes transformações.

log school 1

Aqui está outra log cabin school, menos rústica que a primeira.

log school 2

Como se vê, esta log cabin está abandonada. É rústica como as demais, tem poucas janelas. Estudar dentro dela não devia ser muito confortável.

log school 3

Esta imagem é um pintura. Mostra uma cabin log que talvez não fosse uma escola, mas uma moradia. De qualquer modo, a imagem capta bem o tipo de construção que se fazia com troncos de árvores.

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Essa é uma cabin log school impressionante. Está num terreno pouco atraente. A hora do recreio nessa escola não devia ser muito convidativa. É preciso registrar que muitas dessas escolas não tinham banheiros. A introdução de “casinhas”, uma para meninos e outra para meninas, só acontece na segunda metade do século XIX.

log school turistica

Essa não é a imagem de uma log cabin autêntica. Trata-se de uma construção recente que procura mostrar como eram as antigas escolas rurais americanas. Reparem que as professoras estão vestidas a caráter. Nesse prédio acontecem performances que emulam o ensino que se fazia nas velhas escolas rurais. Visitantes podem passar por parte do curso que faziam os alunos da roça no século XIX.

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No imaginário americano, as escolas rurais de sala única eram vermelhas. Porém, poucas eram as escolas dessa cor no campo. Essa é uma little red school. É autêntica e corresponde ao padrão das antigas escolas rurais. Tem uma pequena torre onde poderia se alojar um sino. Como tal objeto era caro, nem sempre chegava a ser instalado. Os sinais da escola eram comandados pela sineta manual do professor ou professora. Esse prédio parece abandonado. Provavelmente não funciona mais como escola.

red 2

O cartaz diz que esta é uma little red school. Ela, porém, não é vermelha. Na origem deve ter sido branca, mas o tempo a coloriu de preto. Detalhe, essa escola está sendo deslocada de seu terreno original. Provavelmente está sendo deslocada para área em que pode ser mostrada mais facilmente para turistas. Cabe reparar que as escolas quase sempre eram construídas em terrenos inóspitos, porque mais baratos.

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Mais uma little red school, certamente recuperada para atrair turistas. Esta construção retrata uma das particularidades da maioria das escolas rurais: elas ficavam em cruzamentos de estradas.

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A imagem acima é um quadro do pintor Winslow Homer, o artista que mais contribuiu para a romantização das escolas rurais, com destaque para sua apresentação como prédios vermelhos.

red homer 2

O destaque aqui, também numa pintura de Homer, é a professora, não o prédio escolar. Dois detalhes: durante muito tempo (no século XIX), as professoras não podia ser casadas; em razão da primeira condição, as mestras geralmente eram adolescentes (muitas vezes, ensinavam para alunos mais velhos que elas).

red modernizada

Esse é o interior de uma red little school interinamente modernizada. Provavelmente funciona como museu para atrair turistas.

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Eis outra imagem de uma little red school autêntica. Está abandonada.red school white 3 painting

Essa é uma pintura de uma little red school. Reparem que ela não é vermelha, mas branca…

red school yellow

Outra pintura de antiga escola rural. A cor é amarela…

red white

E esta é branca…

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Esta não é uma escola americana, é brasileira e atual. Há muitas escolas assim no Norte do país. Vale estuda-las. Cabe aqui uma olhada sobre reportagem que aborda condições das escolas rurais no Brasil

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Foto de outra escola rural brasileira, em funcionamento nos dias de hoje.

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Interior de uma little red school. Nenhum conforto. pouco recursos.

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Outra foto de interior de uma little red school. Reparem que há mais conforto que na imagem anterior.

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Interior de uma escola de sala única, pintura de Homer. Não há carteiras. As mesinhas dos alunos estão voltadas para a parede. Os bancos não têm encosto. A imagem retrata uma little red school da metade do século XIX.

school discipline

Desenho do século XIX. A disciplina nas little red school podia ser rigorosa e os castigos físicos eram muito comuns.

Apresentei aqui uma seleção de imagens que andei pesquisando. Espero que o conjunto nos ajude a compreender melhor a histórias das escoas rurais, particularmente das escolas que os gringos chama de little red schools.

Arquitetura e educação, nova informação

janeiro 20, 2020

arqunova

Já publiquei aqui diversos posts sobre arquitetura e educação. Ontem vi no Face nova matéria sobre o assunto – Projeto de escolas: a arquitetura como ferramenta educacional. O texto está centrado em ideias de que é possível planejar um espaço educacante em si e ignora, a meu ver, determinações históricas e sociais. É uma abordagem bastante diferente das que andei divulgando aqui. Por outro lado, vale ler a matéria, pois a mesma tem informações interessantes é é ilustrada por imagens também de muito interesse.

Vale contrastar a matéria aqui indicada com o resenha que escrevi sobre o tema tempos atrás. Para ver a resenha, clique em Espaço e Educação.

Educação inclusiva

janeiro 20, 2020

Acabo de visitar uma página que sempre recomendei no campo da educação inclusiva, Operation Respect. Ela é resultado da iniciativa de Peter Yarrow, do Peter, Paul & Mary. Vi que nos últimos tempos o espaço ganhou mais material e ficou mais rico. Operation Respect é grande inspiração para quem trabalha com educação e inclusão.

Sugiro aos interessados que cliquem em Operation Respect para visitar o site e verificar grande riqueza de materiais e ideias lá existentes..

Hora de união

maio 5, 2019

Estamos no começo de maio de 2019. A loucura de um desgoverno destrutivo está criando bases para uma união nacional de resistência. Eu não saberia como colocar isso em palavras, mas felizmente encontrei um texto do Antônio Prata que diz tudo o que precisa ser dito. Copio Antônio Prata.

Bolsonaro vai unir o Brasil

Acabou o flá-flu: agora é todo mundo contra o Olaria

Devo admitir que pelo menos uma coisa boa o Bolsonaro conseguiu neste início de governo: pacificou meus grupos de WhatsApp. Havia dez anos que o flá-flu vinha corroendo os grupos da família, do trabalho, da faculdade; o grupo Réveillon 2012, cujo momento de maior tensão tinha sido um impasse sobre leite integral ou desnatado transformou-se, a partir de 2013, em mais um campo de batalha entre coxinhas e petralhas.

Na terra de ninguém do meu celular, a guerra chegou ao ápice logo depois das eleições, quando o tio Eurípedes perguntou o que podia levar pro Natal da tia Eugênia, o tio Agenor falou “Leva mortadela, não é disso que VOCÊS gostam?!” e o peru subiu no telhado. (Nomes e situações foram ligeiramente alterados para o bem do meu convívio familiar).

Então Bolsonaro assumiu e, diante do seu show de horrores, começou a pacificação. Até fevereiro ainda se lia nos meus grupos um ou outro “Mas e o PT, hein?!”, “E o Lula, hein?!”. Em algum momento, porém, entre o vídeo do “golden shower” e a fala sobre gays, turistas & sexo, até o tio Agenor deu o braço a torcer: “Gente, esse homem é louco ou burro?”.

O burro, percebo agora, se parece com o gênio. Ele é imprevisível, surpreendente, criativo: o burro vê o que ninguém mais vê. Bolsonaro é como um Picasso que realmente enxergasse o mundo retorcido. Ou plano? É como uma criança de dois anos que não pode ficar só, sob risco de botar a Presidência na tomada, engasgar com uma reforma, emporcalhar com guache todas as instituições, botar fogo na casa.

Ilustração
Adams Carvalho/Folhapress

Fosse um burro feliz, feito um Forrest Gump, menos mau. Acontece que, como escreveu aqui na Folha Sérgio Rodrigues, o ethos deste governo é o ressentimento. Do ressentimento brota o ódio ao conhecimento, à arte, à diversidade, a qualquer forma de dissenso. Resultado: no grupo da família, tio Agenor e tio Eurípedes sentem-se tão diferentes da atual gestão que esqueceram as próprias diferenças.

Não é só nos grupos de WhatsApp que sinto os antigos flás e flus se unirem diante da ameaça do tenebroso Olaria que tomou a política nacional. Vejo Renato Janine Ribeiro, por exemplo, buscando pontos de concordância numa entrevista do Luciano Huck. Amigos de esquerda dando share nas colunas do Reinaldo Azevedo. Eu mesmo concordo com tudo o que o Demétrio Magnoli escreve e dou like atrás de like nos tuítes do meu ex-antípoda Carlos Andreazza. Mudou a esquerda? Mudaram estes colunistas? Eu? Talvez um pouco de cada, mas mudou sobretudo o cenário. O buraco, agora é bem mais embaixo.

Quem sabe o tiro da arminha de mão não esteja saindo pela culatra e Bolsonaro consiga o que o PSDB e o PT não conseguiram: juntar no mesmo barco todos os que, mesmo que com diferentes visões de mundo, tenham apreço pela democracia, pelas leis, pelos direitos humanos, enfim, por todo esse mimimi efeminado chamado civilização.

Precisamos de um movimento como o das Diretas Já. Do sociólogo ao metalúrgico. Da feminista negra ao pastor. Do banqueiro ao tio Agenor. (Não podemos deixar de fora o tio Agenor, todos os tios Agenores: acorda, esquerda! Vocês precisam conquistar o eleitor não bolsonarista-raiz do Bolsonaro e não espezinhá-lo com posts lacradores tipo “Bem feito!”, “Eu avisei!”).

Podem me chamar de ingênuo, mas acho que tal união é possível: contrastados com a barbárie do Bolsonaro, começo a enxergar pontos de convergência entre pessoas tão distantes quanto Boulos e Arminio Fraga. Espero que eles também enxerguem —antes que a burrice, o ressentimento e o ódio passem por cima de todos nós.

Antonio Prata

Meus escritos no BTS

abril 15, 2019

Parte das matérias que escrevi para o Boletim Técnico do Senac aparece numa relação organizada pela revista. Boa parte da relação é composta por resenhas. Ana, antiga editora do periódico, me convidou para publicar resenhas no BTS. Era algo que eu não havia feito até então. O convite tinha cara de desafio. Topei. E aprendi fazendo. Com o tempo, acho que minhas resenhas foram melhorando. Além disso, com os resultados, acabei gostando muito de tal tipo de produção textual. Em parte, aprendi a resenhar lendo os ótimos artigos sobre livros publicados no New York Review of Books.

Para quem quiser ver a relação dos meus textos no BTS, clique aqui.

Teoria e Prática

março 9, 2019

Encontrei no Facebook uma figura que merece ser registrada. Ela mostra a importância da experiência na elaboração do conhecimento. Segue, sem mais, a dita figura.

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Ao ver tal figura me lembrei de um comentário feito por Alan Kay sobre informação e conhecimento. Não são conceitos que têm o mesmo significado que teoria e prática, mas o contraste sugerido pelo texto de Kay vai na mesma direção. Sem mais, segue o texto de Alan Kay.

O físico Murray Gell-Mann observou que a educação no século vinte assemelha-se a ida ao maior restaurante do mundo para alimentar-se (literalmente) com o livreto do cardápio. Com esta metáfora, o autor  pretendia mostrar que as representações de nossas idéias substituíram as próprias idéias; os estudantes são ensinados superficialmente sobre grandes descobertas em vez de serem ajudados a aprender profundamente por si mesmos.

No futuro próximo, todas as representações já inventadas pelos seres humanos serão imediatamente disponíveis em qualquer parte do mundo por meio de computadores pessoais “de bolso”. Mas seremos capazes de passar do cardápio para o alimento? Ou não seremos capazes de distinguí-los? Ou, pior ainda, perderemos a habilidade de ler o cardápio e ficaremos satisfeitos apenas em reconhecê-lo? (KAY, A. (1991). Computers, networks and education. Scientific American, September, 1991. p. 148)

 

A melhor escola…

dezembro 28, 2018

A melhor escola é a que fica mais perto de casa e à qual os alunos chegam andando. Essa é minha opinião. Também é a opinião de Francesco Tonucci.

Financiamento da educação

dezembro 6, 2018

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