Archive for the ‘Referências’ Category

Psicologia ecológica de Gibson

abril 2, 2017

Meu amigo Brock Allen sempre estava procurando novas referências para a tecnologia educacional. No começo dos anos 90, numa conversa com ele em San Diego, Brock me falou sobre Gibson. Além de falar sobre o autor, meu amigo da SDSU me presenteou com um paper que ele acabara de escrever. Li e confesso que não entendi muito bem. Agora, relendo pequeno trecho do escrito do Brock, acho que caiu uma ficha; Gibson olhava com muita perspicácia para ação (ou percepção, na linguagem que empregava) e indicava a necessidade de prestar atenção em aspectos de saber que não se vinculam necessariamente ao conhecimento proposicional. Se pudesse, estudaria hoje Gibson, pois me parece que ele oferece uma moldura interessante para minhas observações sobre o fazer-saber em oficinas.

para amigos que possam ter interesse em psicologia ecológica, trago pra cá pequeno trecho do texto do Brock com tradução minha e informação posterior sobre o conteúdo do paper do meu amigo da Califórnia.

PSICOLOGIA ECOLÓGICA:

CONTRIBUIÇÃO DE GIBSON

Trecho de Media as Lived Environments: The Ecological Psychology of Educational Psychology, de Brock Allen e Richard Otto

Muitos temas importantes na psicologia ecológica foram identificados pela primeira vez por J. J. Gibson, um psicólogo da percepção cujas idéias poderosas, incompletas e muitas vezes mal-entendidas desempenharam um papel seminal nas tecnologias para simular meios ambientes navegáveis. Apesar de não concordamos inteiramente com as teorias de Gibson, que ainda estavam em desenvolvimento quando ele faleceu em 1979, seu trabalho é uma moldura útil para examinar as implicações da psicologia ecológica para o design de mídia e pesquisa.

Apresentamos aqui, como uma orientação inicial, uma lista verbatim dos fenômenos que Gibson identificou em suas notas pessoais como críticos para o futuro da psicologia ecológica (J. J. Gibson, citado em Reed, 1971/1982, p. 394).

  1. Perceber o layout ambiental (inseparável do problema do ego e da locomoção)
  2. Perceber os objetos do meio ambiente (incluindo sua textura, cor, forma) (e incluindo suas “affordances”)
  3. Perceber eventos (e suas “affordances”)
  4. Perceber outros animais e pessoas (junto com aquilo que eles persistentemente dispõem e aquilo que fazem momentaneamente)
  5. Perceber as respostas expressivas de outras pessoas
  6. Perceber por comunicação ou fala
  7. Conhecimento mediado por displays artificiais, imagens, fotografias, e escrita
  8. Pensamento enquanto mediado por símbolos
  9. Estar atento às sensações
  10. Estar atento à estrutura da experiência (estética)
  11. Cultivar mapas cognitivos viajando e apreciando a paisagem

De acordo com Gibson (1971/1982), a vida diária depende de percepção direta, percepção que é independente das representações internas, proposicionais  ou associacionais – percepção que guia a ação intuitiva e automaticamente. A percepção direta, por exemplo, guia os motoristas quando estes respondem a mudanças sutis nas suas relações com a sinalização sobre o leito das estradas. A percepção direta ajusta os movimentos requeridos para levar a xícara aos lábios, e guia a manipulação de instrumentos como lápis, escovas de dentes e bisturis. A percepção direta está intimamente ligada em tempo real com a ação em andamento.

Talvez a contribuição mais adotada de Gibson (1979) para a linguagem descritiva da psicologia ecológica sejam os seus conceitos de affordances (aproximadamente, oportunidades para a ação) e effectivities (aproximadamente, capacidade para a ação). A seleção natural ajusta gradualmente as effectivities de uma espécie às affordances associadas com seus nichos ou “ocupação”. Dessa forma os dentes e mandíbulas são effectivities que permitem que as baleias orcas explorem o “exibicionismo” das focas; dessa forma as asas são effectivities que permitem que os pássaros explorem o ar.

Ao contrário da percepção direta, a percepção indireta opera por meio de intermediários como diagramas, símbolos, palavras e proposições que informam um organismo sobre o mundo ou meio ambiente por meio de ligações indexais (Nichols, 1991) com aquele meio ambiente. Seguir orientações verbais para localizar um objeto escondido é um bom exemplo de percepção indireta. A percepção indireta permite, e até mesmo promove, reflexão e deliberação.

Gibson reconhece a importância para o pensamento humano de intermediários como símbolos e proposições baseadas em linguagem. Ele era cético, porém, quanto a pretensões de que os processos cognitivos gerais pudessem ser modelados nos termos de tais intermediários e argumentava que os modelos excessivamente fundados em símbolos e proposições iriam inevitavelmente negligenciar relações críticas entre perceber e agir.

Apesar de Gibson (1977/1982) não ter desenvolvido uma teoria completa da percepção mediada (cf. 7.3.4) – ou seja, percepção por meio de intermediários como fotos e texto – ele afirmou que tais intermediários são efetivos porque são “ferramentas para perceber análogas às ferramentas para agir” (p.290). Uma avaliação cuidadosa dessa idéia faz nos lembrar que, na visão de mundo de Gibson, a percepção cotidiana não pode ser separada da ação. Meios estáticos como texto, diagramas, fotos e ilustrações atingiram muitos de seus mais importantes efeitos informativos substituindo atos de percepção por atos de exploração.

Toda tecnologia comunicativa, do livro ao vídeo ou simulação em computador, porém, impõe profundas restrições na representação ou descrição de mundos reais ou imaginários (cf. 12.3.1) e requer negociar que aspectos de um mundo serão representados. Mesmo museus, como repositórios de “não-mediados”, artefactos autênticos e espécimes, devem existir dentro de limitações técnicas de tecnologias de mostra que favorecem algumas modalidades de percepção em vez de outras – olhar em lugar de tocar, por exemplo.

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Depois de discutir algumas questões relativas à dinâmica das comunicações nos dias de hoje, os autores desenvolvem uma ampla aplicação das idéias de Gibson à questão do uso de novas tecnologias para fins instrucionais. São quarenta páginas de texto denso e exigente. Que ninguém se assuste, não pretendo traduzi-las. Para dar uma idéia do que se trata, vou apenas relacionar os itens de entrada utilizados:

Percepção integrada e ação

  • percepção
  • invariantes
  • um experimento simples
  • percepção de invariantes: algumas implicações “para o design de mídia”

Aprendizagem perceptual

  • aprendizagem proposicional versus aprendizagem não proposicional
  • affordances
  • effectivities
  • unificação de affordances e effectivities
  • aprendizagem cotidiana e meios ambientes de mídia

Percepção direta, sensitividade a contexto e mecanicalismo

  • situação e seletividade
  • alternativas para o empiricismo tradicional

Uma abordagem ecológica para entender mídia

  • análogos para a ação
  • a importância de estar lá (ou não…)
  • ilustração
  • fotografia
  • cinematografia

Agregando dados multivariados

Mídia e Miros

Transformação e alienação

Cavernas e consciências

Fala na Constituinte

novembro 4, 2016

Na época da Assembleia Nacional Constituinte, eu fazia parte do Fórum Nacional de Educação. Numa das audiências públicas falei sobre educação de adultos. O tempo foi insuficiente. Florestan Fernandes, na época deputado constituinte, me cedeu o tempo dele para que eu concluísse minha comunicação (essa é uma das memórias emocionantes de minha vida, pois a iniciativa de me conceder mais tempo foi do grande intelectual brasileiro).

Copio aqui o programa da Subcomissão de Educação para o dia 23/04/1987:

 

Comunicação de ordem administrativa. Audiência Pública

Assuntos: Poderes públicos e educação / Ensino básico / Educação de adultos / Ensino superior / Valorização do docente de ensino superior / Inteiração da educação física na educação / Administração da educação / Deterioração do ensino público

Expositores: Elba Siqueira de Sá Barreto, Jarbas Novelino Barato, Newton Lima Neto, Miriam Limoeiro Cardoso, Cláudio Boschi, Maria Beatriz Moreira Luce e Luiz Antônio Cunha.

Segue link para o programa integral.

Domesticado em grandes cidades

setembro 27, 2016

Em dois blogs antigos eu me definia como “menino da roça, domesticado em grandes cidades”. Resolvi oferecer aqui evidência empírica desse meu detalhe biográfico. A foto que trago para cá é de Itirapuã, cidade em que fui registrado. Nasci nas lonjuras desses horizontes roceiros, na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, propriedade do Chico Coelho, de quem meu pai era meieiro de café. Pouco ficou de minhas raízes. Aos três anos fui para uma cidade grande. Aos onze para uma maior. Aos vinte para essa loucura que é São Paulo. Estive por duas vezes fora de São Paulo por uns tempos, quatro anos em Ribeirão Preto, dois anos em San Diego na Califórnia. Virei bicho urbano.

 

itirapua

Livro sobre MOOC

setembro 2, 2016

Acabo de ver no Face indicação de um livro crítico sobre MOOC. Dei rápida olhada e vi que a obra é bem interessante. Vou ler oportunamente. Recomendo, em especial, o capítulo 2, escrito pela Professora Maria Elena Chan, da Universidade de Guadalajara.

Para interessados, segue link:

MOOC: debate abierto.

Para convesas sobre inclusão

maio 25, 2016

Linda história. Pode ser um belo ponto de partida sobre conversas sobre inclusão em educação.

Aqui, Agora.

fevereiro 20, 2016

O título deste post foi utilizado tempos atrás por um programa noticioso de TV.  Escrevi sobre isso num velho artigo publicado na Revista da ABT:

Aqui Agora, sem vírgula, sem ponto. Uma câmara nervosa e um repórter insistente invadem a privacidade de políticos, jogadores de futebol, bandidos e outras celebridades. Na edição, cortes evidentes e imagens tremidas caracterizam a “autenticidade” e o “realismo” dos fatos noticiados… Em casa, a audiência, vencendo qualquer barreira de hora e lugar, persegue bandidos, conversa com herói do dia, exerce sua justa indignação diante dos desmandos dos poderosos. O telejornal do SBT desvela uma das características mais perturbadoras da Sociedade da Imagem ou da Informação: a eliminação das barreiras de tempo e espaço. Aqui Agora, na favela, no Rio, no Recife, na delegacia da periferia, no Palácio do Planalto, nas ruas de Los Angeles, em Ruanda, é a “realidade” em milhares de lares brasileiros. O cotidiano do telespectador é apenas um pano de fundo para as verdades da vida que aparecem na telinha.

 

Vivemos num mundo que gratifica o imediato, que confunde inteligência com rapidez, que ignora a necessidade de trabalho continuado para se obter resultados significativos em ciência. Esse tema acaba de ser retomado por Alan Lightman num artigo em que ele comenta descoberta que confirma uma das propostas da teoria gravitacional de Eistein. Reproduzo aqui trecho do artigo de Lightman, que precisa ser considerado nesses tempos em que acabamos cultuando o imediato e perdendo a paciência porque a tela do computador demorou dez segundos chegar onde queremos:

The world at large, and the United States in particular, has developed an unfortunate need for instant gratification. We live not only in the age of information. We live in the Age of the Now. We grow impatient with printers that cannot churn out 10 pages per minute, or with computer screens that take 30 seconds to boot up.

Interessados em ver o artigo de Lightman podem clicar aqui.

 

Coração de professora

janeiro 1, 2016

Trago para cá uma caricatura que diz muito em poucos traços e num comentário curto e certeiro. Com o registro homenageio minhas professoras primárias: Elza, Marina, Mariana e Maria Aparecida. A personagem é uma mulher, professora. Mas, minha homenagem precisa incluir também um homem, Professor João Madureira, meu mestre no quarto ano de grupo.

Coração de professora

Educação Profissional : Livro

novembro 25, 2014

No Youtube há um vídeo com sinopse de um dos meus livros. Trago para cá tal vídeo.

Educação, Trabalho, Tecnologia: resenhas.

novembro 24, 2014

Faz algum tempo que escrevo resenhas de livros para o Boletim Técnico do SENAC. Minha amiga Ana Lúcia, antiga diretora da revista, me convidou para inaugurar uma seção de resenhas no Boletim. Eu não escrevera esse tipo de comunicação acadêmica até então. O desafio foi muito bom. Tive que encontrar um caminho para que meus textos não ficassem muito acadêmicos e chatos. Ás vezes consegui, às vezes, não. De qualquer forma, produzir resenhas foi uma atividade prazerosa. Escrevo falando de resenhas no passado. Mas, este ano fui convidado para voltar à ativa. Escrevi duas resenhas que ainda permanecem inéditas. São textos mais soltos, um sobre o livro Philosophy of Wine, outro sobre romances que têm como fundo tecnologias da comunicação e informação.

Minhas resenhas se voltam para três áreas: Educação, Tecnologia e Trabalho. Às vezes consigo combinar mais de um tema na mesma resenha. Ás vezes a obra que examino têm foco único. Já indiquei aqui no Boteco links para a maioria das resenhas que escrevi. Mas, as referências ficaram perdidas no tempo. Agora resolvi fazer uma coleção das tais resenhas, recuperando a maioria delas. Para interessados, publico aqui título dos livros resenhados, autor ou autores, com link das respectivas resenhas.

 

Educação de pé no chão

junho 15, 2014

Trago para cá velha foto de um grupo de alunos da escola em que fiz o curso primário, o Grupo Escolar Coronel Francisco Martins, de Franca, SP. Não é coisa do meu tempo. A turma mostrada é da década de vinte do século passado, eu frequentei a escola na metade dos anos cinquenta. Tenho dois objetivos com a iniciativa: homenagear o velho Coronel e refletir um pouco sobre um detalhe da foto. Com o registro, minha escola da infância já fica homenageada. Vamos ao segundo objetivo.

Há na turma vários meninos de pés descalços. Certamente suas famílias não tinham recurso para comprar calçados. Eles iam para escola com os pés cascudos e grossos que, quando muito, viam uma botina na missa dos domingos. A constatação tem um lado triste e um lado alegre. A tristeza é a de que aquela molecada de pé no chão devia ser muito pobre. A alegria é a de que, apesar da pobreza, os meninos descalços tinham acesso à educação e conviviam com crianças de todas as extrações sociais.

No meu tempo, trinta anos depois, ainda havia muitos meninos descalços no Coronel. Eu era um deles. Faço este registro sem qualquer mágoa. O Coronel era uma escola muito boa e eu fiz um ótimo curso primário. Além disso, como os meninos pobres dos anos vinte, convivi com crianças de todos os segmentos sociais. No meu quarto ano, por exemplo, além dos muitos filhos de operários, nossa classe tinha filhos de donos de fábricas, de proprietário de um hotel, de médicos, de fazendeiros. Acho que essa diversidade não mais existe em nossas escolas públicas. Os filhos das classes abastadas estão hoje em escolas particulares.

Convido os leitores a olhar bem os pés dos meninos descalços. Não são pés compactos. Os dedos estão bem separados pois não foram formatados pelos sapatos. Olhem também as caras da meninada. Há brancos, há mestiços, há caboclos, há negros. Essa composição possivelmente ainda exista na escola pública. Mas, é improvável que ocorra na escola privada.

A contemplação da foto sugere muitas outras reflexões sobre educação. Convido os leitores a fazê-las, examinando detalhes desta foto histórica à beira do centenário. E, se quiserem colaborar com suas reflexões, registrem-nas aqui em comentários.

pé no chão