Archive for the ‘Recreio’ Category

ESPANTO

abril 24, 2017

Microconto que escrevi anos atrás e que recebeu ilustração do meu sobrinho, Rodrigo Barato.

 

ESPANTO

Gagos: uma nota interessante

abril 23, 2017

marilyn

Li hoje no New York Review of Books matéria sobre gagueira. Esse distúrbio da fala é um assunto interessante. Há quem pense que os gagos são pessoas preguiçosas que não se esforçam o suficiente para superarem o problema. Há gente que se diverte com o drama dos gagos. O comediante José Vasconcelos, por exemplo, fazia um tipo muito engraçado, o locutor esportivo gago.
O artigo começa contando história de aluno que levantava a mão para fazer perguntas para seu professor de história. Este ignorava o gesto do rapaz, pois ele era gago. O docente julgava que gagueira do moço atrapalharia a aula. Essa não era a opinião dos alunos que diziam que o colega sempre tinha questões interessantes e suas dificuldades de fala não causariam problemas no andamento da aula. O rapaz reclamou com o diretor da escola e este, covardemente, encontrou forma de resolver a questão sem conflitar com o professor intolerante. Transferiu o aluno para outra turma, coordenada por uma professora capaz de lidar com o problema e permitir que o moço pudesse participar ativamente das aulas.
Muita gente famosa enfrentou problemas de gagueira. Entre outros, a matéria cita Aristóteles, Virgílio, Charles Darwin, Winston Churchill e Marilyn Monroe. Já na velha Mesopotâmia o problema preocupava. Foi encontrada uma prece em caracteres cuneiformes implorando aos deuses cura para a gagueira.
Outros famosos gagos eram escritores. Entre eles, a matéria cita Somerset Maughham, Lewis Carroll, Henry James, John Updike. Henry James, era gago em sua língua nativa, o inglês, mas não gaguejava em francês, idioma no qual era fluente. Já George Vassiltchikov, intérprete que trabalhava na ONU, gaguejava em todos os idiomas nos quais era fluente: russo, alemão, francês e inglês. Nenhum gago enfrenta problemas quando canta. Um dos nossos grandes cantores, Nelson Gonçalves era gago, mas ao cantar não enfrentava qualquer problema com as palavras. Era, aliás, exemplo de boa dicção no mundo da musica.
Durante muitos séculos, a gagueira foi considerada um problema fisiológico. Aristóteles achava que ela era provocada por uma língua muito grossa, “incapaz de acompanhar a velocidade da imaginação”. Galeno, o grande médico helenista, entendia que a gagueira se devia a uma língua muito húmida e fria. Mais recentemente, um médico alemão começou a fazer cirurgias, seccionando certos músculos linguais, pois acreditava que a má formação do órgão fonador era responsável pela gagueira. O procedimento ganhou o mundo, e muitas cirurgias foram feitas na Europa e Estados Unidos sempre com resultados desastrosos. Os operados não saravam, sofriam muita dor e até corriam perigo de vida por causa do procedimento.
Não há conhecimento muito claro quanto às causas da gagueira. Parece que a mesma resulta de algumas dificuldades na articulação de certos fonemas. Mas os fonemas que desafiam os gagos variam muito caso a caso. No geral, terapeutas da fala, tentam identificar que dificuldades enfrentam os seus clientes. E a partir do diagnóstico planejam estratégias que possam ajudar os gagos a se comunicarem sem tropeçar nas palavras. Caso célebre nessa direção foi o do rei do Reino Unido, George VI. O drama linguístico do monarca foi tema do filme The King’s Speech.
A grande maioria dos gagos são homens. Raras são as mulheres gagas. Cientistas tentam explicar o porquê disso, mas as explicações não são muito convincentes.
Tratamentos para resolver problemas de gagueira evoluíram bastante. Mas, não há propriamente cura para esse distúrbio da fala. Há técnicas que funcionam bem com algumas pessoas, mas não com outras. De qualquer forma, já não estão mais em voga métodos mais radicais como o de utilizar pedrinhas sob a língua para superar o problema como o fez, segundo a lenda, o maior de todos os oradores gregos, Demóstenes.
Marilyn Monroe tinha o distúrbio da fala que chamamos de gagueira. El foi acentuado na infância da atriz. Menos grave n juventude, mas às vezes aparecia no set de filmagem. O artigo termina com a história de que Marilyn gravou quarenta s sete vezes a cena famosa em que diz “It’s me sugar” em Like It Hot. Tragicamente, a gagueira da atriz se agravou nos últimos e conturbados anos de sua vida.

Matemática interessante

janeiro 21, 2017

game

Ontem comecei a folhear Laws of the Game: How the principles of nature govern chance. Li tal obra há uns trinta anos. E fiz algumas anotações no texto. Uma delas na forma de várias interrogações num trecho que conta a história de Ali Baba e os Trinta e Nove Camelos. A narrativa analisa interessante problema matemático e sua solução. A gente lê e fica achando que o viajante que resolveu o problema deve ter usado mágica. Mas, não. Ele usou apenas um princípio matemático.

Para aqueles que, como eu, são analfas em matemática, reproduzo aqui numa tradução adaptada da história contada em Laws of the Game.

Ali Baba tinha quatro filhos. Quando morreu, deixou trinta e nove camelos para seus herdeiros, e no seu testamento estabeleceu a divisão que segue. O filho mais velho receberia metade da herança; o segundo, um quarto; o terceiro, um oitavo; e o mais novo, um décimo.

Os quatro irmãos não sabiam o que fazer. A vontade do velho parecia indicar que alguns camelos seriam sacrificados para que cada um dos herdeiros recebesse sua justa parte. Isso não fazia sentido. Surgiu então, montado sobre seu camelo, um viajante que disse saber como o problema deveria ser resolvido.

O viajante juntou seu próprio animal à herança de Ali Baba. Com isso, a tropa passou a ser de quarenta camelos. A partir daí, a divisão foi efetuada. O irmão mais velho recebeu vinte camelos; o segundo irmão, dez; o terceiro irmão, cinco; e o irmão mais novo, quatro. Sobrou um camelo, o animal que pertencia ao viajante. E este então subiu sobre sua montaria e voltou para a estrada.

Admirados, os quatro irmãos viram o viajante partir. E começaram a verificar o resultado da partilha. No princípio acharam que o irmão mais velho levou vantagem. Mas, logo depois, viram que todos eles acabaram ganhando e recebendo mais do que o previsto

Música de rua

dezembro 8, 2016

Linda performance, na clarineta e na voz. Vale ouvir muitas vezes. E perguntar-se: como tanta gente sem talento faz sucesso e gente como essa, imensamente talentosa, tenha que ganhar uns trocados na rua?

 

Domesticado em grandes cidades

setembro 27, 2016

Em dois blogs antigos eu me definia como “menino da roça, domesticado em grandes cidades”. Resolvi oferecer aqui evidência empírica desse meu detalhe biográfico. A foto que trago para cá é de Itirapuã, cidade em que fui registrado. Nasci nas lonjuras desses horizontes roceiros, na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, propriedade do Chico Coelho, de quem meu pai era meieiro de café. Pouco ficou de minhas raízes. Aos três anos fui para uma cidade grande. Aos onze para uma maior. Aos vinte para essa loucura que é São Paulo. Estive por duas vezes fora de São Paulo por uns tempos, quatro anos em Ribeirão Preto, dois anos em San Diego na Califórnia. Virei bicho urbano.

 

itirapua

Leitura e comunicação

junho 27, 2016

Nos velhos tempos, leitura era um ato público, uma comunicação. Ou seja, um ato de compartilhar informações. A leitura solitária e silenciosa é uma invenção que se tornou generalizada com a imprensa, a partir do século XVI. Digo tudo isso porque achamos que a leitura “sempre foi assim”. Esse achismo não tem base histórica. As relações das pessoas com o texto mudaram muito no tempo e com novas tecnologias. Certamente hoje deve estar acontecendo mudanças no ler com as tecnologias digitais da comunicação e informação. Nós é que não sabemos muito bem como identificar as diferenças que vão surgindo.

No parágrafo anterior propus um começo de conversa que pode ir muito longe. Neste parágrafo, introduzo um vídeo. O ator é uma criança que ainda não chegou aos dois anos, mas já viu muita gente lendo. E ela sabe imitar direitinho certos leitores. Vale a pena ver.

Uma estrela de amor

junho 16, 2016

Lindo e premiado curta produzido por uma estudante da China. Imagens e história de muita delicadeza. Vale ver.

Net Emotions

janeiro 19, 2016

A cultura da internet tem suas particularidades. Uma delas é a dos símbolos que vão se integrando aos sistemas de comunicação na rede. A tais símbolos se tornam tão comuns que passam desapercebidos. Talvez esse seja o caso da carinhas dos emotions que aparecem em muitas mensagens de internautas.

Também é parte da cultura da internet a produção de coisas que procuram negar a ordem estabelecida. Às vezes isso acontece como brincadeira. Às vezes, como assunto muito sério.

Hoje, numa visita ao Stax, site pelo qual passo com muita frequência, encontrei uma produção de imagens que parece brincadeira, humor inocente. Mas, nenhum humor é inocente, pois, como diziam os velhos latinos, ridendo castigat mores (tradução muito livre: ” coisas que fazem rir criticam a ordem estabelecida”).

Acho que as imagens publicadas pelo Stax são um material útil para quem queira trabalhar com abordagens críticas da cultura da rede. Por essa razão, vou reproduzi-la aqui para quem possa se interessar.

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Natalie Merchant na NPR

janeiro 12, 2016

O National Public Radio, em All Songs Considered, tem um segmento chamado Tiny Desk Concert. O endereço que indico aqui tem um pequeno concerto da Natalie Merchant. Lindo!

http://www.npr.org/event/music/462277254/natalie-merchant-tiny-desk-concert?utm_source=facebook.com&utm_medium=socia

Celulares e almas perdidas

janeiro 7, 2016

O uso de celulares no espaço público mudou completamente comportamento de muitas pessoas. Um desses usos resulta na mania do sefie. Tem gente que fotografa tudo. Fotografam até o ato de fotografar. O que vemos hoje é a epítome da Sociedade da Imagem. Daniel Boorstin, em seu clássico The Image, nunca imaginou que sua descrição de uma sociedade que elegeu a imagem como forma predominante de comunicação e significação chegaria a tal ponto.

Trago para cá um vídeo que aborda isso com muito humor. Tal vídeo vale mais que um tratado sobre o assunto, pois, como diziam os latinos, ridendo castigat mores.