Archive for the ‘Notas de leitura’ Category

Imagens de escolas rurais

fevereiro 18, 2020

Estou relendo Small Wonder: The little red schoolhouse in history and memory, de Jonathan Zimmerman. No livro há muitas referências sobre imagens das Little Red Schools, pinturas e fotos. As pinturas, geralmente, passam uma imagem idealizada das escolas rurais. As fotos, se recentes, mostram prédios recuperados que não são mais utilizados em educação, mas funcionam como museus para atrair turistas interessados na antiga cultura rural dos EUA.

Percorri na web diversos sites com imagens de escolas rurais. Com isso, creio que construi certa visão de como eram as escolas rurais americanas, ou como os americanos idealizam uma de suas instituições nacionais, a Little Red Schoolhouse.

Selecionei algumas imagens que trago para cá, como registro do que estou estudando, e como mostra de imagens que podem ajudar prováveis leitores a a apreciarem a escola de sala única.

log radical

Começo com um log cabin, uma cabana de toras, que foi bastante comum nas áreas pioneiras. A construção era rústica e aproveitava material disponível, árvores, sem necessidade de grandes transformações.

log school 1

Aqui está outra log cabin school, menos rústica que a primeira.

log school 2

Como se vê, esta log cabin está abandonada. É rústica como as demais, tem poucas janelas. Estudar dentro dela não devia ser muito confortável.

log school 3

Esta imagem é um pintura. Mostra uma cabin log que talvez não fosse uma escola, mas uma moradia. De qualquer modo, a imagem capta bem o tipo de construção que se fazia com troncos de árvores.

log school 5

Essa é uma cabin log school impressionante. Está num terreno pouco atraente. A hora do recreio nessa escola não devia ser muito convidativa. É preciso registrar que muitas dessas escolas não tinham banheiros. A introdução de “casinhas”, uma para meninos e outra para meninas, só acontece na segunda metade do século XIX.

log school turistica

Essa não é a imagem de uma log cabin autêntica. Trata-se de uma construção recente que procura mostrar como eram as antigas escolas rurais americanas. Reparem que as professoras estão vestidas a caráter. Nesse prédio acontecem performances que emulam o ensino que se fazia nas velhas escolas rurais. Visitantes podem passar por parte do curso que faziam os alunos da roça no século XIX.

red 1

No imaginário americano, as escolas rurais de sala única eram vermelhas. Porém, poucas eram as escolas dessa cor no campo. Essa é uma little red school. É autêntica e corresponde ao padrão das antigas escolas rurais. Tem uma pequena torre onde poderia se alojar um sino. Como tal objeto era caro, nem sempre chegava a ser instalado. Os sinais da escola eram comandados pela sineta manual do professor ou professora. Esse prédio parece abandonado. Provavelmente não funciona mais como escola.

red 2

O cartaz diz que esta é uma little red school. Ela, porém, não é vermelha. Na origem deve ter sido branca, mas o tempo a coloriu de preto. Detalhe, essa escola está sendo deslocada de seu terreno original. Provavelmente está sendo deslocada para área em que pode ser mostrada mais facilmente para turistas. Cabe reparar que as escolas quase sempre eram construídas em terrenos inóspitos, porque mais baratos.

red 4 cruzamento

Mais uma little red school, certamente recuperada para atrair turistas. Esta construção retrata uma das particularidades da maioria das escolas rurais: elas ficavam em cruzamentos de estradas.

red homer 1

A imagem acima é um quadro do pintor Winslow Homer, o artista que mais contribuiu para a romantização das escolas rurais, com destaque para sua apresentação como prédios vermelhos.

red homer 2

O destaque aqui, também numa pintura de Homer, é a professora, não o prédio escolar. Dois detalhes: durante muito tempo (no século XIX), as professoras não podia ser casadas; em razão da primeira condição, as mestras geralmente eram adolescentes (muitas vezes, ensinavam para alunos mais velhos que elas).

red modernizada

Esse é o interior de uma red little school interinamente modernizada. Provavelmente funciona como museu para atrair turistas.

red old

Eis outra imagem de uma little red school autêntica. Está abandonada.red school white 3 painting

Essa é uma pintura de uma little red school. Reparem que ela não é vermelha, mas branca…

red school yellow

Outra pintura de antiga escola rural. A cor é amarela…

red white

E esta é branca…

rural brasil 1

Esta não é uma escola americana, é brasileira e atual. Há muitas escolas assim no Norte do país. Vale estuda-las. Cabe aqui uma olhada sobre reportagem que aborda condições das escolas rurais no Brasil

rural brasil 2

Foto de outra escola rural brasileira, em funcionamento nos dias de hoje.

schoo inside 3

Interior de uma little red school. Nenhum conforto. pouco recursos.

school inside 1

Outra foto de interior de uma little red school. Reparem que há mais conforto que na imagem anterior.

school inside 2

Interior de uma escola de sala única, pintura de Homer. Não há carteiras. As mesinhas dos alunos estão voltadas para a parede. Os bancos não têm encosto. A imagem retrata uma little red school da metade do século XIX.

school discipline

Desenho do século XIX. A disciplina nas little red school podia ser rigorosa e os castigos físicos eram muito comuns.

Apresentei aqui uma seleção de imagens que andei pesquisando. Espero que o conjunto nos ajude a compreender melhor a histórias das escoas rurais, particularmente das escolas que os gringos chama de little red schools.

Escola de roça

fevereiro 18, 2020

No velhos tempos, com uma população que vivia no campo, desenvolveram-se escolas de  sala única, nas quais apenas um professor ou professora era responsável pelo ensino de alunos de diferentes níveis. Nos Estados Unidos essas escolas acabaram sendo conhecidas como Little Red Schoolhouse. Na metade do século XIX, havia mais de duzentos e cinquenta mil escolas de sala única no país do Norte.

A maior parte das escolas de sala única não era vermelha, mas a imagem das red schoolhouse acabou predominando no imaginário da população. E isso foi reforçado por pintores. O caso mais famoso nessa direção é uma pintura de Winslow Homer. Trago para cá essa pintura famosa.

little school

Reparem nos meninos descalços se divertindo num gramado florido. O espaço é masculino. As meninas aparecem no fundo, brincando de maneira contida. E no centro da obra está a Little Red School.

Essa imagem bonita da escola de roça pouco corresponde à realidade. As condições dos espaços escolares não eram lá muito boas. A disciplina era rígida. Os castigos corporais eram comuns. Mas, tudo isso foi esquecido depois que a ideia de uma escola de sala única romantizada passou a predominar no imaginário dos americanos.

A escola rural atraente e memorável acabou também sendo celebrada na música. No começo do século passado, Gus Edward, autor de musicais, compôs uma música que celebra a Little Red School: School Days. Mais de dois milhões de cópias da partitura dessa música foram comercializadas. E depois, com o advento do cinema e do disco, ela foi gravada muitas vezes. Segue aqui uma das gravações, com imagens da partitura e com a letra da música famosa. Há quem diga que ela foi uma das mais importantes melodias do século XX nos EUA.

 

Meu objetivo neste post foi o de mostrar como as artes e os meios de comunicação promoveram uma imagem positiva da Little Red School. Devo essas informações a Nathan Zimmerman, autor de Small Wonder: The Little Red Schoolhouse in HIstory and Memory, livro que merece leitura dos educadores.

Evolução Humana

agosto 13, 2019

Estou relendo O Colar do Neandertal, de Juan Luis Arsuaga, coordenador das pesquisas paleontológicas da Serra de Atapuerca. O livro destaca descobertas de como viveu o homem de neandertal na Europa, com base nos achados arqueológicos em Sima de los Uesos.  O autor faz referência a um belo documentário sobre Atapuerca, as descobertas lá realizadas e o trabalho dos cientistas que investigam os achados na dita serra: Atapuerca: el misterio de la evolución humana. Interessados pelo documentário poderão vê-lo com um clique aqui.

 

 

 

Caráter Nacional Brasileiro

setembro 6, 2017

carater

 

Vivemos um momento em que nos perguntamos “quem somos nós?”. Dante Moreira Leite nos definiu muitos anos atrás num trabalho magistral: O Caráter Nacional Brasileiro. Vale rever o grande livro do Dante neste momento em que nossa autoestima como povo anda em grande baixa. Para colaborar com isso, eu trouxe para cá, no formato de página deste blog (página 071) um resumo interpretativo que escrevi sobre a obra citada em meus tempos de doutorado. Se  você quiser ler o texto que produzi sobre o livro do Dante, clique aqui.

Gagos: uma nota interessante

abril 23, 2017

marilyn

Li hoje no New York Review of Books matéria sobre gagueira. Esse distúrbio da fala é um assunto interessante. Há quem pense que os gagos são pessoas preguiçosas que não se esforçam o suficiente para superarem o problema. Há gente que se diverte com o drama dos gagos. O comediante José Vasconcelos, por exemplo, fazia um tipo muito engraçado, o locutor esportivo gago.
O artigo começa contando história de aluno que levantava a mão para fazer perguntas para seu professor de história. Este ignorava o gesto do rapaz. O docente julgava que gagueira do moço atrapalharia a aula. Essa não era a opinião dos alunos que diziam que o colega sempre tinha questões interessantes e suas dificuldades de fala não causariam problemas no andamento da aula. O rapaz reclamou com o diretor da escola e este, covardemente, encontrou forma de resolver a questão sem conflitar com o professor intolerante. Transferiu o aluno para outra turma, coordenada por uma professora capaz de lidar com o problema e permitir que o moço pudesse participar ativamente das aulas.
Muita gente famosa enfrentou problemas de gagueira. Entre outros, a matéria cita Aristóteles, Virgílio, Charles Darwin, Winston Churchill e Marilyn Monroe. Já na velha Mesopotâmia o problema preocupava. Foi encontrada uma prece em caracteres cuneiformes implorando aos deuses cura para a gagueira.
Outros famosos gagos eram escritores. Entre eles, a matéria cita Somerset Maughham, Lewis Carroll, Henry James, John Updike. Henry James era gago em sua língua nativa, o inglês, mas não gaguejava em francês, idioma no qual era fluente. Já George Vassiltchikov, intérprete que trabalhava na ONU, gaguejava em todos os idiomas nos quais era fluente: russo, alemão, francês e inglês. Nenhum gago enfrenta problemas quando canta. Um dos nossos grandes cantores, Nelson Gonçalves era gago, mas ao cantar não enfrentava qualquer problema com as palavras. Era, aliás, exemplo de boa dicção no mundo da musica.
Durante muitos séculos, a gagueira foi considerada um problema fisiológico. Aristóteles achava que ela era provocada por uma língua muito grossa, “incapaz de acompanhar a velocidade da imaginação”. Galeno, o grande médico helenista, entendia que a gagueira se devia a uma língua muito húmida e fria. Mais recentemente, um médico alemão começou a fazer cirurgias, seccionando certos músculos linguais, pois acreditava que a má formação do órgão fonador era responsável pela gagueira. O procedimento ganhou o mundo, e muitas cirurgias foram feitas na Europa e Estados Unidos sempre com resultados desastrosos. Os operados não saravam, sofriam muita dor e até corriam perigo de vida por causa do procedimento.
Não há conhecimento muito claro quanto às causas da gagueira. Parece que a mesma resulta de algumas dificuldades na articulação de certos fonemas. Mas os fonemas que desafiam os gagos variam muito caso a caso. No geral, terapeutas da fala, tentam identificar que dificuldades enfrentam os seus clientes. E a partir do diagnóstico planejam estratégias que possam ajudar os gagos a se comunicarem sem tropeçar nas palavras. Caso célebre nessa direção foi o do rei do Reino Unido, George VI. O drama linguístico do monarca foi tema do filme The King’s Speech.
A grande maioria dos gagos são homens. Raras são as mulheres gagas. Cientistas tentam explicar o porquê disso, mas as explicações não são muito convincentes.
Tratamentos para resolver problemas de gagueira evoluíram bastante. Mas, não há propriamente cura para esse distúrbio da fala. Há técnicas que funcionam bem com algumas pessoas, mas não com outras. De qualquer forma, já não estão mais em voga métodos mais radicais como o de utilizar pedrinhas sob a língua para superar o problema como o fez, segundo a lenda, o maior de todos os oradores gregos, Demóstenes.
Marilyn Monroe tinha o distúrbio da fala que chamamos de gagueira. Ele foi acentuado-se na infância da atriz. Era menos grave na juventude, mas às vezes aparecia no set de filmagem. O artigo termina com a história de que Marilyn gravou quarenta sete vezes a cena famosa em que diz “It’s me sugar” em Like It Hot. Tragicamente, a gagueira da atriz se agravou nos últimos e conturbados anos de sua vida.

Psicologia ecológica de Gibson

abril 2, 2017

Meu amigo Brock Allen sempre estava procurando novas referências para a tecnologia educacional. No começo dos anos 90, numa conversa com ele em San Diego, Brock me falou sobre Gibson. Além de falar sobre o autor, meu amigo da SDSU me presenteou com um paper que ele acabara de escrever. Li e confesso que não entendi muito bem. Agora, relendo pequeno trecho do escrito do Brock, acho que caiu uma ficha; Gibson olhava com muita perspicácia para ação (ou percepção, na linguagem que empregava) e indicava a necessidade de prestar atenção em aspectos de saber que não se vinculam necessariamente ao conhecimento proposicional. Se pudesse, estudaria hoje Gibson, pois me parece que ele oferece uma moldura interessante para minhas observações sobre o fazer-saber em oficinas.

para amigos que possam ter interesse em psicologia ecológica, trago pra cá pequeno trecho do texto do Brock com tradução minha e informação posterior sobre o conteúdo do paper do meu amigo da Califórnia.

PSICOLOGIA ECOLÓGICA:

CONTRIBUIÇÃO DE GIBSON

Trecho de Media as Lived Environments: The Ecological Psychology of Educational Psychology, de Brock Allen e Richard Otto

Muitos temas importantes na psicologia ecológica foram identificados pela primeira vez por J. J. Gibson, um psicólogo da percepção cujas idéias poderosas, incompletas e muitas vezes mal-entendidas desempenharam um papel seminal nas tecnologias para simular meios ambientes navegáveis. Apesar de não concordamos inteiramente com as teorias de Gibson, que ainda estavam em desenvolvimento quando ele faleceu em 1979, seu trabalho é uma moldura útil para examinar as implicações da psicologia ecológica para o design de mídia e pesquisa.

Apresentamos aqui, como uma orientação inicial, uma lista verbatim dos fenômenos que Gibson identificou em suas notas pessoais como críticos para o futuro da psicologia ecológica (J. J. Gibson, citado em Reed, 1971/1982, p. 394).

  1. Perceber o layout ambiental (inseparável do problema do ego e da locomoção)
  2. Perceber os objetos do meio ambiente (incluindo sua textura, cor, forma) (e incluindo suas “affordances”)
  3. Perceber eventos (e suas “affordances”)
  4. Perceber outros animais e pessoas (junto com aquilo que eles persistentemente dispõem e aquilo que fazem momentaneamente)
  5. Perceber as respostas expressivas de outras pessoas
  6. Perceber por comunicação ou fala
  7. Conhecimento mediado por displays artificiais, imagens, fotografias, e escrita
  8. Pensamento enquanto mediado por símbolos
  9. Estar atento às sensações
  10. Estar atento à estrutura da experiência (estética)
  11. Cultivar mapas cognitivos viajando e apreciando a paisagem

De acordo com Gibson (1971/1982), a vida diária depende de percepção direta, percepção que é independente das representações internas, proposicionais  ou associacionais – percepção que guia a ação intuitiva e automaticamente. A percepção direta, por exemplo, guia os motoristas quando estes respondem a mudanças sutis nas suas relações com a sinalização sobre o leito das estradas. A percepção direta ajusta os movimentos requeridos para levar a xícara aos lábios, e guia a manipulação de instrumentos como lápis, escovas de dentes e bisturis. A percepção direta está intimamente ligada em tempo real com a ação em andamento.

Talvez a contribuição mais adotada de Gibson (1979) para a linguagem descritiva da psicologia ecológica sejam os seus conceitos de affordances (aproximadamente, oportunidades para a ação) e effectivities (aproximadamente, capacidade para a ação). A seleção natural ajusta gradualmente as effectivities de uma espécie às affordances associadas com seus nichos ou “ocupação”. Dessa forma os dentes e mandíbulas são effectivities que permitem que as baleias orcas explorem o “exibicionismo” das focas; dessa forma as asas são effectivities que permitem que os pássaros explorem o ar.

Ao contrário da percepção direta, a percepção indireta opera por meio de intermediários como diagramas, símbolos, palavras e proposições que informam um organismo sobre o mundo ou meio ambiente por meio de ligações indexais (Nichols, 1991) com aquele meio ambiente. Seguir orientações verbais para localizar um objeto escondido é um bom exemplo de percepção indireta. A percepção indireta permite, e até mesmo promove, reflexão e deliberação.

Gibson reconhece a importância para o pensamento humano de intermediários como símbolos e proposições baseadas em linguagem. Ele era cético, porém, quanto a pretensões de que os processos cognitivos gerais pudessem ser modelados nos termos de tais intermediários e argumentava que os modelos excessivamente fundados em símbolos e proposições iriam inevitavelmente negligenciar relações críticas entre perceber e agir.

Apesar de Gibson (1977/1982) não ter desenvolvido uma teoria completa da percepção mediada (cf. 7.3.4) – ou seja, percepção por meio de intermediários como fotos e texto – ele afirmou que tais intermediários são efetivos porque são “ferramentas para perceber análogas às ferramentas para agir” (p.290). Uma avaliação cuidadosa dessa idéia faz nos lembrar que, na visão de mundo de Gibson, a percepção cotidiana não pode ser separada da ação. Meios estáticos como texto, diagramas, fotos e ilustrações atingiram muitos de seus mais importantes efeitos informativos substituindo atos de percepção por atos de exploração.

Toda tecnologia comunicativa, do livro ao vídeo ou simulação em computador, porém, impõe profundas restrições na representação ou descrição de mundos reais ou imaginários (cf. 12.3.1) e requer negociar que aspectos de um mundo serão representados. Mesmo museus, como repositórios de “não-mediados”, artefactos autênticos e espécimes, devem existir dentro de limitações técnicas de tecnologias de mostra que favorecem algumas modalidades de percepção em vez de outras – olhar em lugar de tocar, por exemplo.

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Depois de discutir algumas questões relativas à dinâmica das comunicações nos dias de hoje, os autores desenvolvem uma ampla aplicação das idéias de Gibson à questão do uso de novas tecnologias para fins instrucionais. São quarenta páginas de texto denso e exigente. Que ninguém se assuste, não pretendo traduzi-las. Para dar uma idéia do que se trata, vou apenas relacionar os itens de entrada utilizados:

Percepção integrada e ação

  • percepção
  • invariantes
  • um experimento simples
  • percepção de invariantes: algumas implicações “para o design de mídia”

Aprendizagem perceptual

  • aprendizagem proposicional versus aprendizagem não proposicional
  • affordances
  • effectivities
  • unificação de affordances e effectivities
  • aprendizagem cotidiana e meios ambientes de mídia

Percepção direta, sensitividade a contexto e mecanicalismo

  • situação e seletividade
  • alternativas para o empiricismo tradicional

Uma abordagem ecológica para entender mídia

  • análogos para a ação
  • a importância de estar lá (ou não…)
  • ilustração
  • fotografia
  • cinematografia

Agregando dados multivariados

Mídia e Miros

Transformação e alienação

Cavernas e consciências

História da Tecnologia Educacional

março 28, 2017

Um dos livros de referência em Tecnologia Educacional é Instructiuonal Technology Foundation, editado por Robert Gagné. Na obra, há um capítulo que recomendo: Instrucional Technology: A History, escrito por Robert A. Reiser. No final dos anos de 1990 fiz uma pequena resenha do texto de Reiser. Complementei a resenha com mais informações, procurando traçar um perfil bastante completo da História da Tecnologia Educacional. Reproduzo este meu velho texto aqui para quem se interessar.

HISTÓRIA DA TECNOLOGIA EDUCACIONAL:  OS MEIOS AUDIOVISUAIS

Jarbas Novelino Barato

Tecnologia Educacional é uma disciplina pedagógica muito nova. Por esta razão, não é fácil defini-la. Os especialistas a entendem como aplicação das modernas ciências do conhecimento. Mas, os leigos, e mesmo os profissionais de educação e treinamento, a vêem como a arte de usar recursos mecânicos e eletrônicos. Por outro lado, a disciplina em estudo ganhou importância, sobretudo na área de treinamento, como abordagem sistemática de instrução (em inglês, Instructional System Design – ISD). Estas três possibilidades definem, em conjunto, o que é Tecnologia Educacional atualmente.

Educação e treinamento, como regra geral, são atividades baseadas na linguagem, sobretudo a linguagem oral. A linguagem escrita desempenha um papel importante no processo, mas não substitui até hoje a oralidade. Assim os meios audiovisuais ainda são vistos como recursos auxiliares de ensino.

O uso de meios audiovisuais foi proposto por Comenius (em torno de 1600). Este autor ressaltava a importância das ilustrações na aprendizagem e escreveu o primeiro livro didático ilustrado (Orbis Sensualium Pictus) em 1650.

 

As idéias de Comenius não tiveram resultado imediato na educação e, por outro lado, a produção de audiovisuais em massa teve que esperar as invenções do século XIX: fotografia, telefone, rádio, telégrafo, disco, cinema, papel fotográfico e imprensa rotativa. Assim, o movimento dos audiovisuais surge apenas neste século, por volta de 1905, ano em que são criados os primeiros “museus pedagógicos” nos Estados Unidos. Tais museus funcionavam como centros  de recursos visuais, tais como mapas, ilustrações, slides e filmes. O movimento de audiovisuais cresce cada vez mais e tem sua grande expansão durante a II Grande Guerra. Nesta época, ele sai da escola e passa a ser uma atividade típica de treinamento, sobretudo de treinamento militar. O governo americano investe milhões de dólares em materiais audiovisuais para formar soldados e para treinar  uma mão-de-obra, quase toda ela feminina, que iria substituir os trabalhadores convocados pelo exército.

Depois da Guerra, por volta dos anos 50, o meio audiovisual que encantou os educadores foi a televisão. Acreditou-se que esta última poderia substituir a escola. O governo americano e fundações privadas investiram pesado na televisão educativa, entendida como aulas filmadas que poderiam chegar a toda parte. Este modelo foi um grande fracasso e hoje praticamente não existem televisões educativas nos EUA. Existem televisões públicas que transmitem programas culturais e fazem um jornalismo analítico. Este último modelo influenciou muito a TV Cultura de São Paulo.

Atualmente o audiovisual em evidência é o computador. O uso de computadores em educação começou nos anos 60. Naquela época apenas as grandes universidades americanas podiam usar o novo meio, pois os programas educacionais dependiam de redes acopladas a computadores de grande porte. Nos anos 70, com o surgimento dos computadores pessoais, a “informática educativa” passa a ser mais acessível. Nos últimos 20 anos houve um crescimento muito grande de softwares educacionais e de CBT (Computer Based Training: Treinamento Assistido por Computador).

Hoje a grande novidade em termos de audiovisuais em educação e treinamento é a possibilidade de integrar todos os meios em grandes redes eletrônicas ( a INTERNET, por exemplo). Nestas grandes redes, texto, imagens, fotos, cinema, televisão e som podem ser integrados por meio do computador em comunicações interativas.

Até hoje os meios audiovisuais prometeram muito e, com o tempo, fracassaram. Educação e Treinamento continuam a ser atividades baseadas na linguagem oral e escrita. Cabe, portanto, perguntar por que tanta “tecnologia” ainda não deu certo…

HISTÓRIA DA TECNOLOGIA EDUCACIONAL: O PLANEJAMETO SISTEMÁTICO DO ENSINO

A história da tecnologia educacional começa pelos recursos. Em 1905 o movimento de audiovisuais ganha campo graças às descobertas, no século XIX, da maioria dos recursos de comunicação que conhecemos hoje. Mas em torno dos anos 50 começa a surgir uma tendência voltada para o PLANEJAMENTO. Ou seja, a nova disciplina pedagógica começa a ser entendida como “aplicação científica de princípios, particularmente as teorias de aprendizagem, para melhorar o ensino.” É neste contexto que surge o ISD, ressaltando que toda a atividade educacional deve ser planejada de modo sistêmico.

No âmbito do planejamento sistemático do ensino, surgiram diversos conceitos que tiveram uma grande influência em educação e treinamento. Entre estes conceitos, podem ser destacados: taxonomia em objetivos, objetivos comportamentais (desempenho), avaliação baseada em critério, avaliação formativa e avaliação somativa.

Um planejamento sistemático só é possível quando se sabe com clareza quais os resultados a alcançar. Em educação e treinamento estes resultados foram descritos como objetivos comportamentais ou desempenhos desejáveis de treinandos/educandos. A idéia de desempenho relativiza conteúdos: não é importante o que ensinar, mas o que o treinando será capaz de fazer ao final de um treinamento. Além de destacar a importância do desempenho os especialistas em objetivos começaram a propor TAXONOMIAS (modelos de classificação de objetivos educacionais). Há diversas taxonomias na praça; as 3 mais interessantes e conhecidas são as de Bloom, Gagné e Merril.

Outra idéia importante em termos de ISD é a de avaliação baseada em critério. As avaliações comuns em educação e treinamento são baseadas em normas. Ou seja, descrevem resultados cuja distribuição esperada corresponde a uma curva normal. Em outras palavras, as avaliações mais utilizadas são comparativas e indicam a posição de uma pessoa dentro de um grupo. A avaliação baseada em critério está fundada numa idéia completamente diferente; ela mede o quanto uma pessoa aprendeu tendo em vista um resultado esperado. Assim, o aprendiz não é comparado com ninguém, mas avaliado individualmente tendo em vista uma meta. Em avaliações baseada em critério não há notas. Passa quem atinge a meta e quem não a atinge volta a estudar para completar o que ainda não aprendeu.

A idéia de avaliação formativa está relacionada com desenvolvimento. Em planejamento sistemático do ensino há uma fase que é a elaboração de protótipos. Estes protótipos são testados com amostras de pessoas que utilizarão o produto final. Testa-se o método, a linguagem, o conteúdo, o formato, os aspectos motivacionais etc. Testa-se, em outras palavras, uma proposta pedagógica em formação. Esta é também uma idéia nova. No geral, as propostas pedagógicas não são testadas-avaliadas no processo de formação do produto.

A avaliação somativa é sobretudo uma avaliação de proposta pedagógica já testada. Ele procura medir sobretudo a eficácia de uma proposta. Ou seja, procura medir até que ponto um planejamento sistemático deu certo…

Planejar sistematicamente educação e treinamento é muito caro. Por esta e outras razões, continuamos a educar e treinar de improviso

HISTÓRIA DA TECNOLOGIA EDUCACIONAL: AS CIÊNCIAS DO CONHECIMENTO

A Tecnologia Educacional começou como um movimento de uso de recursos, passou por uma fase de valorização do planejamento (anos 60 e 70) e, finalmente, chegou ao estágio das ciências do conhecimento.

O interesse pelas questões do conhecimento nasceu fora dos meios educacionais. Ele começa na área de comunicações (1949) com Shannon e Weaver. Em engenharia das comunicações descreve-se um modelo que envolve um emissor e um receptor, e um canal  ou meio através do qual a mensagem é enviada. Os autores de tais modelos enfatizavam que durante o planejamento de comunicação era necessário considerar todos os elementos do processo, e não apenas o meio como o fazem muitos especialistas em audiovisuais. Berlo, um especialista em comunicação afirmava em 1963: “Como homem de comunicação eu devo argumentar fortemente que o processo é o aspecto central na comunicação e que os meios, apesar de importantes, são secundários”.

Além da área de comunicação, as áreas de ciências de computação, de psicologia do conhecimento e de lingüística colocam a questão dos processos cognitivos como foco central da educação.  Em todas estas áreas, desenvolvem-se teorias de representação. Tais teorias rompem com a visão ingênua da reprodução. Em lingüística, é importante o nome de Noam Chomsky que argumenta a favor de um mecanismo inato da linguagem, propondo que por trás das línguas conhecidas há um aparato universal (comum a todas as pessoas) de representação simbólica. Na área de computação fica evidente que os recursos internos de armazenagem de informações são representação (símbolos colocados no lugar da coisa representada),  pois os impulsos digitais não são cópias de imagem, som, cenas, movimentos, etc.

No campo da psicologia, por volta dos anos 70, começam a ganhar força estudos sobre o conhecimento e a mente humana. Esta linha de estudos já fora desenvolvida por Piaget, Vigostky e Brunner, mas a psicologia que dominava o cenário era a experimentalista (contrária a qualquer teoria da representação).

Todos os estudos sobre a questão do conhecimento passaram a ter uma influência muito grande na área de Tecnologia Educacional. Merril e Gagné, já citados em outra parte, deixam o experimentalismo e afirmam que qualquer proposta de ensino deve ser, sobretudo, uma proposta favorecedora da elaboração do conhecimento. Esta é mais uma tendência contrária ao conteudismo e à educação reprodutora ou bancária. Também é uma tendência que relativiza os meios. Na verdade, de acordo com as modernas ciências do conhecimento, o que importa não são os meios, mas os processos pelos quais os seres humanos elaboram e reelaboram o saber.

O desafio cognitivista é muito recente em educação e treinamento. Quase todos os educadores e treineros acreditam que importantes são os conteúdos. Por outro lado, pensar o pensar e criar oportunidades desafiadoras para que os aprendizes elaborem o seu próprio saber não é uma tarefa banal. Assim, a idéia de Tecnologia Educacional como uma aplicação das modernas ciências do conhecimento ainda é um campo a ser explorado.

(texto escrito no final do anos 90)

 

Filosofia do Vinho: Resenha

dezembro 23, 2014

PhilOfWine-COVER-front.inddTempos atrás publiquei aqui uma nota sobre um belo livro, The Philosophy of Wine, de Cain Todd. É uma obra filosófica mesmo, não um título elegante para se falar de enologia. Este ano, dado um pedido de produção de resenha para uma revista acadêmica, resolvi resenhar a obra com bastante liberdade. Acho que o texto ficou bom. Tento passar a mensagem de Todd, ressaltando que a apreciação do vinho tem dimensões estéticas, epistemológicas e até ontológicas.

Para os amigos interessados, deixo aqui link para a resenha que escrevi. Boa leitura!

>>> The Philosophy of Wine: A case of truth, beauty and intoxication

Memória, aprendizagem e conhecimento

junho 19, 2013

A Escola Nova fez uma crítica severa à memorização em processos de aprendizagem. Essa crítica foi aceita pelos educadores e o horror à memorização tornou-se uma crença hegemônica. Infelizmente, tal crença pode provocar equívocos inteiramente bobos.

Nicholas Carr, em What The Internet Is Doing To Our Brains _ THE SHALLOWS, tem um capítulo inteiro mostrando que transferir todas as operações de memória para a Web resulta em perda irreparável na elaboração do saber dos seres humanos. Num trecho, o autor resolve mostrar que memorização não é necessariamente um ato mecânico desprovido de sentido. O processo de memorização na verdade é uma ação para colocar as informações que nos interessam  em estruturas cerebrais que nos deem possibilidade de sintetizá-las e recuperá-las em contextos significativos. Esse modo de entender a memorização não é novo. Erasmo já o sugeria no século XVI. Para quem se interessa pelo assunto, reproduzo, numa tradução livre, um pedacinho do livro do Carr:

O humanista holandês, Erasmo, em sua obra De Copia, de 1512, sublinhava a conexão entre memória e leitura. Ele incentivava os estudantes a fazer marcas em seus livros, usando um “pequeno sinal apropriado”, para assinalar “ocorrência de palavras que mereciam destaque, pronúncias arcaicas e novas, passagens estilísticas brilhantes, adágios, exemplos e observações expressivas merecedoras de memorização”. Ele também sugeria a cada estudante ou professor para manter um caderno, organizado por assunto, “de tal maneira que pudesse destacar algo digno de nota e escrever este algo na seção apropriada”. Transcrever normalmente trechos de texto, e repetindo-o verbalmente de modo sistemático para mantê-los e fixá-los na mente. As passagens selecionadas deveriam ser vistas como “um tipo de flores”, retiradas de páginas de livros para serem preservadas nas páginas da memória.

 

Erasmo, que em seu tempo de menino memorizou extensos trechos da literatura clássica, incluindo as obras completas de Horácio e a obra teatral de Terêncio, não estava recomendando memorização por memorização, como exercício mecânico para reter fatos. Para ele, memorizar não era simplesmente uma maneira de armazenar [informação]. Memorização era o primeiro passo num processo que leva a um entendimento mais profundo e pessoal. Ele acreditava, como explica a historiadora clássica Erika Rummel, que a pessoa precisa “digerir e internalizar o que aprende e reflete em vez de reproduzir servilmente qualidades do autor modelo”. Longe de ser um processo mecânico e irracional, o tipo de memorização proposta por Erasmo engaja a mente de maneira total. “Ele exige”, escreve Rummel, “criatividade e julgamento”.

Educação e Felicidade

junho 7, 2013

Uma das finalidades da educação, talvez a mais importante, é a de oferecer às pessoas oportunidades e meios para serem mais felizes. Esta ficha acaba de cair após leitura de um trecho em que Mike Rose, em Back to School, critica entendimentos predominantes hoje sobre fins da educação.

O pensamento hegemônico entende que o papel principal da educação é o de preparar bem as pessoas para o trabalho. Tudo é avaliado em termos de resultados econômicos e financeiros. Há outro pensamento também bastante popular: o de que a educação tem por finalidade primeira desenvolver o senso crítico. Como diz o Mike, nada a opor quanto a essas duas finalidades. Elas, porém, se esquecem das pessoas concretas e dos sonhos que elas têm.

No geral, vejo as finalidades da educação formuladas assim: adquirir (sic) competências, desenvolver senso crítico, apossar-se do patrimônio científico e cultural historicamente construído pela humanidade. São finalidades nobres. Mas, nenhuma delas revela preocupação com realização pessoal.

A partir de agora, vou insistir na ideia de que a educação deve ser, acima de tudo, instrumento para promover felicidade.