Archive for the ‘Linguagem’ Category

Dizer a própria palavra

julho 30, 2018

Trago para cá post que publiquei no Primeiros Mil Microcontos em janeiro de 2007. Ele ainda faz muito sentido.

 

No título deste post tento sintentizar uma das esperanças de Paulo Freire; um cidadão livre é aquele que conscientemente é capaz de dizer a sua própria palavra. Nosso maior educador não chegou a publicar um blog, mas era alguém que alimentava muitas expectativas com relação às possibilidades libertárias da rede mundial de computadores. E, certamente, apreciaria muitos dos usos dos blogs em nossos dias. Faço tais reflexões a partir de um diálogo de Freire com um grupo de educadores sobre tecnologia educacional; diálogo do qual tive o privilégio de participar..

Um exemplo fantástico de possibilidade de dizer a própria palavra, proporcionada por blogs, é Baghdad Burning, o diário eletrônico publicado por uma jovem iraquiana que assiste diariamente aos efeitos da ocupação estrangeira em seu país. A edição do New York Review of Books de 11/01/2007 resenha alguns livros recentes sobre o Iraque. Um dos livros resenhados é uma compilação das mensagens de Riverbend, a blogueira de Bagdá. A autora, uma profissional de informática, faz um registro admirável de como é a vida de cada dia no Iraque ocupado. Na resenha, observa-se que o texto (em inglês) da moça deixaria muitos americanos envergonhados. E eu acrescento: deve envergonhar também muitos profissionais da área de computação. O texto é limpo, atraente, sedutor, além de fazer uma leitura muito bem informada dos acontecimantos. Mas, para além dos aspectos formais, o texto é um registro histórico imprescindível para quem queira entender o que está acontecendo no Iraque. Riverbend encontrou no blog uma forma de dizer com liberdade sua palavra sobre a experiência trágica sua e de sua terra. Baghdad Burning merece ser lido.

Ao ler a matéria do New York Review of Books fiz uma relação inevitável: os blogs continuam censurados (bloqueados) em muitas escolas. Uma pena! Nessas escolas, alunos e professores perdem um importante canal para dizer suas próprias palavras. Dias depois de ler a matéria sobre a blogueira de Bagdá, fiquei sabendo de mais uma medida (anunciada nos jornais de 23/01/2007) contra a liberdade de dizer a própria palavra: o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) baixou norma para impedir que os atletas brasileiros publiquem qualquer coisa em seu blogs durante os próximos Jogos Panamericanos. Cabe um pedido de socorro a nosso querido Paulo Freire.

Anúncios

Leitura e sentido

janeiro 22, 2018

 

Ao ler, construimos sentido. Esse um dos aspectos marcantes da semântica. O sentido não está dado, ele é elaborado a partir de informações disponíveis e dos esquemas que elaboramos previamente para ler o mundo. Essa incrível capacidade de criar sentido pode ser verificada num experimento muito popular, o de misturar as letras intermediárias das palavras num texto. Quem sabe ler e tem bom domínio do idioma em que o texto está escrito, entende sem problemas coisas aparentemente estranhas como o escrito que aparece em figura deste post. Se você tem domínio razoável do inglês não enfrentará qualquer problema para ler e entender o que está escrito. Boa leitura.

 

txteo

Escrita acadêmica

julho 14, 2016

Boa parte do povo da academia escreve mal. Isso não é novidade. Makarenko reclamava disso e se recusava a ler teóricos da didática de seus tempo. Costumo dizer que não há nada mais horroroso que livros “científicos” de didática. Talvez haja: livros de administração escritos por teóricos da GV. Outra coisa muito ruim: teses da área de educação. Entrem na biblioteca virtual da Unicamp e tentem ler algumas teses de doutorado em educação. Dou um doce para quem ler com gosto e prazer os textos científicos dos coleguinhas que produziram estudos científicos em nossa área.

Não vou comentar mais o assunto. Eu apenas faço aqui um gancho para ótimo texto sobre o assunto que acabo de ver na internet. Vale ler

Why Most Academics Will Always Be Bad Writers.

texto acadêmico

Leitura e comunicação

junho 27, 2016

Nos velhos tempos, leitura era um ato público, uma comunicação. Ou seja, um ato de compartilhar informações. A leitura solitária e silenciosa é uma invenção que se tornou generalizada com a imprensa, a partir do século XVI. Digo tudo isso porque achamos que a leitura “sempre foi assim”. Esse achismo não tem base histórica. As relações das pessoas com o texto mudaram muito no tempo e com novas tecnologias. Certamente hoje deve estar acontecendo mudanças no ler com as tecnologias digitais da comunicação e informação. Nós é que não sabemos muito bem como identificar as diferenças que vão surgindo.

No parágrafo anterior propus um começo de conversa que pode ir muito longe. Neste parágrafo, introduzo um vídeo. O ator é uma criança que ainda não chegou aos dois anos, mas já viu muita gente lendo. E ela sabe imitar direitinho certos leitores. Vale a pena ver.

Ortografia, fonética e reacionários

janeiro 28, 2016

Hoje vi no Face que há gente pedindo para que o CONAR (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) faça o Itaú tirar do ar uma propaganda que brinca com a fonética e a ortografia, convertendo digital em digitau. Uma brincadeira inteligente, mas reclamantes, que se acham vestais da norma culta, entraram em cena com argumento que tem como base desprezo pela inteligência alheia e uma falta de humor de pseudointelectuais.

Notícia na internet informa que:

De acordo com o órgão [CONAR], as denúncias eram de que a propaganda, veiculada na TV e online, poderia induzir crianças e pessoas em processo de alfabetização ao erro, ao mostrar a palavra “digital” somada com Itaú em trocadilho, trocando o L pelo U.

Os denunciantes devem achar que crianças e adultos em processo de alfabetização são idiotas incapazes de entender uma brincadeira. Essa gente acha que regrinhas bobas e rigor gramatical são o melhor caminho para que as pessoas aprendam a redigir corretamente. Ignoram que quem aprende precisa manipular a linguagem para dela se assenhorar, em vez de se converterem em fieis servidores de normas rígidas da suposta correção gramatical.

Por volta de 1978 tive o privilégio de participar de uma oficina com um grande educador francês (infelizmente não me lembro mais o nome dele). Ele era um dos líderes da escola popular (movimento inspirado por Celestin Freinet). Entre os exercícios que ele nos propôs havia um que era o de manipular as letras das palavras, mudando-as de lugar para criar outras palavras. De certa forma, ele nos propôs brincar com as letras como se essas fossem argila que poderia receber várias formas. Resistimos muito. Tivemos dificuldades para imaginar novos arranjos para as letras. E o francês nos chamou de “reaças”. Ele tinha razão. Não conseguíamos brincar livremente com os instrumentos que nos permitem elaborar a escrita. Aceitamos a crítica e depois de algum esforço começamos a lidar com as letras com muita liberdade e criatividade.

Essa gente que quer que o CONAR obrigue o Itaú a tirar do ar propaganda tão inventiva é extremamente reaça. Vê educação como imposição de normas a pessoas dependentes de mentes brilhantes como as deles (os tais reclamantes…). Esses reaças são perigosos para a educação, pois não entendem que o saber se constrói em jogos pelos quais os aprendentes se tornam senhores do saber.

 

 

O Significado do texto

janeiro 26, 2016

Tem gente que manifesta estranheza quando leitores não entendem um texto na direção que elas esperam. Mas, isso é normal. É o leitor quem dá sentido ao texto. Para evitar interpretações indesejáveis, os autores precisam ter muito cuidado. E, mesmo que cuidados sejam tomados, o sentido desejado não fica garantido. Essa é uma questão muito importante no campo didático. Muitas vezes, textos de livros didáticos podem levar os alunos a entenderem um assunto em direção completamente diferente daquela que autores e professores querem.

Para oferecer situações de discussão sobre o problema aqui indicado eu costumava, em minhas aulas e em formação de professores, utilizar certos exemplos de textos preparados para experimentos no campo de investigações orientadas por princípios construtivistas.

Recentemente encontrei uma professora que me disse utilizar até hoje um exercício que apresentei numa formação da qual ela participou. Tal exercício, baseado em estudos construtivistas do ato de ler, procura mostrar que o sentido do texto pode ficar muito difícil quando as referências são retiradas ou restringidas. Não achei o texto mencionado pela professora. Mas encontrei outro texto que eu também utilizava, em minhas aulas e em formações docentes, com a mesma finalidade. Tal texto costuma ser interpretado de muitas e muitas maneiras diferentes. E geralmente os leitores não conseguem sequer desconfiar da situação original à qual o escrito se refere (ou deveria se referir).

Para interessados em utilizar tal texto, reproduzo-o a seguir.

>> “Se os balões estourassem o som não poderia ser levado, uma vez que tudo ficaria muito distante do andar certo. Uma janela fechada também poderia impedir o som de chegar ao destino, pois muitos edifícios hoje dispõem de isolamento acústico. Uma vez que a operação inteira dependia de um fluxo constante de eletricidade, um fio partido também causaria problemas. É claro que o cidadão poderia gritar, mas a voz humana não é suficientemente potente para ir tão longe. Um problema adicional era a possibilidade de que uma corda do instrumento se partisse. Assim não haveria acompanhamento para a mensagem. É claro que a melhor situação envolveria menor distância. Haveria então poucos problemas potenciais. Num contato face a face, um número menor de cosias poderia dar errado.”

Vocês podem distribuir o texto e pedir à pessoas, alunos ou professores, para indicar a cena ou situação à qual o texto se refere. A lista de opiniões irá variar muito. E, dificilmente, alguém indicará a situação na qual o autor pensou ao produzir esse escrito.

É preciso observar que o texto que estou reproduzindo aqui foi preparado com muito cuidado para que os leitores não soubessem ao que ele se referia. Todas as pistas referenciais foram cuidadosamente retiradas. Por essa razão, as pessoas costumam “viajar” quando procuram dizer como entendem essa história de balões, fios, janelas, sons, eletricidade, dificuldades para que o som chegue ao destino etc.

Depois que os participantes fizerem sua adivinhações, vocês devem mostrar a eles um desenho sobre a história e pedir que leiam mais uma vez o texto. Tudo ficará mais claro, pois os referentes são dados pela imagem.

Aqui está a imagem:

desafio de uma paixão

 

 

 

Net Emotions

janeiro 19, 2016

A cultura da internet tem suas particularidades. Uma delas é a dos símbolos que vão se integrando aos sistemas de comunicação na rede. A tais símbolos se tornam tão comuns que passam desapercebidos. Talvez esse seja o caso da carinhas dos emotions que aparecem em muitas mensagens de internautas.

Também é parte da cultura da internet a produção de coisas que procuram negar a ordem estabelecida. Às vezes isso acontece como brincadeira. Às vezes, como assunto muito sério.

Hoje, numa visita ao Stax, site pelo qual passo com muita frequência, encontrei uma produção de imagens que parece brincadeira, humor inocente. Mas, nenhum humor é inocente, pois, como diziam os velhos latinos, ridendo castigat mores (tradução muito livre: ” coisas que fazem rir criticam a ordem estabelecida”).

Acho que as imagens publicadas pelo Stax são um material útil para quem queira trabalhar com abordagens críticas da cultura da rede. Por essa razão, vou reproduzi-la aqui para quem possa se interessar.

  nenê 1

nenê 2

nenê 3

nenê 4

nenê 5

nenê 6

nenê 7

nenê 8

nenê 9

nenê 10

 

Imagens e significados

janeiro 19, 2016

Vejam nesse vídeo uma série de fotos de Lima, Peru. As imagens foram feitas na perspectiva do antipostal. Estamos acostumados a ver postais das cidades que visitamos. Sempre lindos. O antipostal vai em outra direção. Mostra o inusitado. Mostra até o feio. Em projetos educacionais que tenham imagens como eixo central, vale experimentar essa ótima ideia do antipostal. Alunos poderiam, por exemplo, produzir antipostais de São Paulo. Seria uma bela exploração de imagens que podem revelar sentidos nem sempre claros sobre o que é a cidade.

O sentido do texto

dezembro 20, 2015

Discute-se muito o sentido do que está escrito. Na Igreja, a interpretação das escrituras sagradas é uma área importante de estudos teológicos que atende pelo nome de Exegese. Na vida leiga também há uma disciplina dedicada à interpretação, a Hermenêutica. Hoje escrevi sobre isso no Face, analisando reação dos leitores aos meus microcontos. Reproduzo aqui o que publiquei em minha TL dia 20/12/2015.

 

Quem dá sentido ao texto é o leitor. Esse é um princípio que mereceu comentários de admiração da escritora Susan Sontag, pois os leitores manifestavam sentimentos até opostos na interpretação de seus romances. E, muitas vezes, revelavam direções que a própria escritora não houvera previsto.

Em escala muito mais modesta que as observações de Sontag, percebo grandes diferenças em leituras dos meus microcontos. Percebo também diferenças notáveis entre minhas avaliações das histórias que escrevo e a reação dos leitores. Muitas vezes, histórias nas quais não aposto muito caem no gosto de quem as lê. E o contrário também ocorre com frequência.

Faço essa observações ao reparar na reação dos leitores ao microconto que postei ontem:

>>> Com ainda não sabe a diferença entre alcateia e rebanho, o jovem lobo vive entre cordeiros.

Para mim, essa história precisaria de mais acertos formais e de conteúdo. Não estava, a meu ver, madura para publicação. Divulguei-a, pois não tive inspiração para torná-la melhor e, ademais, por preguiça não tinha eu outra história em estoque. Para minha surpresa, o número de leitores que manifestou apreciação pelo microconto do lobo acordeirado foi muito maior que a média. Vá entender!

Blogs, comunicação e educação

dezembro 2, 2015

Quando planejei este Boteco Escola, tinha como objetivo principal criar um espaço de conversa sobre blogs na confluência dos diários eletrônicos coma comunicação e a educação. Ao mesmo tempo, o espaço foi imaginado como referência para minhas alunas e alunos da pedagogia desafiados a publicar blogs.

Com o passar do tempo, outros assuntos entraram na prosa: tecnologia educacional, educação, NTIC’s, usos educacionais da internet, redação cooperativa, obras de grandes educadores, e até filosofia.

Este Boteco Escola ganhou certo destaque nos meios educacionais. Por esse motivo, fui convidado diversas vezes para entrevistas sobre uso de blogs em educação. Parte do que eu disse ou escrevi para tais entrevistas aparece aqui na forma de posts e páginas. Além disso, traduzi diversos artigos sobre blogs e seus usos nas comunicações e na educação para enriquecer papos neste boteco. Mas, nos últimos anos pouco publiquei sobre blogs neste espaço. Em parte isso se deve a redução do entusiasmo por blogs no ciberespaço.  Novas formas de publicação como o Twitter e o Facebook foram ocupando o lugar dos blogs na internet. Mas, os blogs não morreram. Estão por aí, como espaços privilegiados de autoria e comunicação.

Tempos atrás apareceu um livro importante sobre blogs, Blog Theory, de Jodi Dean. Escrevi resenha da obra e indiquei aqui no Boteco link para a mesma. Agora, para reavivar conversas sobre blogs neste espaço, resolvi trazer para cá a dita resenha, publicada nos idos de 2011.

blog imageDEAN, Jodi. blog theory: feedback and capture in the circuits of drive. Malden, MA: Polity Press, 2010. 153 p.

Novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs) ganham espaço cada vez maior na vida cotidiana. Essas tecnologias são vistas como avanços desejáveis, pois os ganhos que trazem em termos de ampliação do conhecimento são imensos. Tal interpretação do papel das NTICs tem uma dupla face. De um lado, ela entende que produção e acumulação de saberes é um processo contínuo e cumulativo. De outro, ressalta a necessidade de se adotarem as mudanças que as mais recentes tecnologias trazem. Comentários nos meios de comunicação e em produções acadêmicas tendem à tecnofilia. Ao mesmo tempo, a aceitação entusiasmada das NTICs tem muitos traços de ingenuidade.

O pensamento hegemônico sobre as novas tecnologias da informação e comunicação sugere que sociedade e indivíduos têm conhecimento cada vez maior, que a educação dará um salto de qualidade e que a prática política ganhou grandes espaços de exercício da liberdade. Tais conclusões não são fruto de análises aprofundadas das NTICs. São, muito mais, consequências de crenças que ignoram qualquer análise crítica dos novos meios de comunicação.

Blog Theory, obra de Jodi Dean, contesta o pensamento hegemônico. Examina o fenômeno dos blogs, tentando perceber o significado dessa prática comunicativa na sociedade e para os blogueiros individualmente. A autora, porém, não se restringe aos blogs. Na verdade, realiza uma análise mais ampla, incluindo em seu estudo outras práticas comunicativas que ganharam espaço expressivo na web.

A intenção de Dean é analisar criticamente as NTICs a partir de uma tradição que busca entender o significado e impactos sociais das tecnologias, assim como a maneira pela qual as forças hegemônicas se apropriam das ferramentas de comunicação. Ela procura superar o nível das aparências para desvelar o que está acontecendo nos planos coletivo e individual. Há mudanças. Mas, que mudanças estão acontecendo em modos de ver a vida, no plano dos valores, na vida política, no plano epistemológico? Respostas a essas perguntas balizam o caminho percorrido por Dean.

A autora reconhece que analisar criticamente as NTICs não é tarefa fácil. A atualidade das análises é efêmera, pois as novas redes de comunicação são turbulentas, sempre mutantes. Muitos de seus aspectos definidores desaparecem em pouco tempo. A obsolescência de equipamentos e ferramentas é extremamente acelerada. Por esses motivos, livros que abordem criticamente os novos meios de comunicação correm o risco de ficarem desatualizados assim que chegarem às livrarias. Por outro lado, utilizar a própria web para registrar aspectos críticos em blogs e outros ambientes de publicação digital é providência vã, pois o conteúdo não merecerá a devida atenção.

Dean mostra que os livros desempenham papel importante na elaboração e no registro de análises críticas. Sugere que as mídias digitais não conseguem substituí-los em tal função. Conclui que eles continuam a ser o veículo mais adequado para articular análises que evidenciem as consequências mais profundas das NTICs.

O funcionamento da Internet, segundo a autora, mostra a emergência do capitalismo da comunicação. Esse fenômeno vem recebendo diversos nomes, com destaque para “sociedade da informação”. No entanto, quase sempre os analistas ignoram o capital como o maior interessado na produção, na circulação e no uso de uma commodity intangível que vem mudando as relações entre as pessoas, a formação de identidade e os modos de ver o mundo. Para Jodi Dean, “o capitalismo marca a estranha convergência da democracia e do capitalismo em redes de comunicações e mídias de diversão” (p. 4).

Para mostrar os desdobramentos ideológicos do ambiente mediático de nossos dias, Dean examina como movimentos de esquerda com raízes nos anos 1960,
acreditando em virtudes intrínsecas das redes de comunicação, acabaram caindo em armadilhas e passaram a defender valores que criticavam. Para ela, esse é o caso, por exemplo, dos novos comunalistas. Estes, ao abraçarem promessas libertárias da Internet, aliaram-se aos adversários de outrora – as forças armadas, o capital, a burocracia –, promovendo ideias neoliberais e justificando a flexibilização do trabalho e outras decorrências de um capitalismo no qual se entranha a comunicação.

As observações de Jodi Dean sobre aspectos ideológicos promovidos no e pelo uso das redes digitais nada têm a ver com teorias conspiratórias. A autora examina as práticas comunicativas correntes e nelas encontra características que não são evidentes para usuários e entusiastas das novas mídias. Ela busca caracterizar que cultura e sociedade estão sendo construídas naquilo que se convencionou chamar de “sociedade da informação”.

Na produção e circulação de informações, a autora vê um fenômeno que precisa ser considerado: o fenômeno da reflexibilidade. Este, em síntese, é caracterizado por uma circularidade, na qual informação gera mais informação, sem qualquer referência a realidades que não integrem as redes digitais. No plano individual, a reflexibilidade gera comportamentos análogos aos da obsessão pelo jogo. Usuários de redes sociais entram em um circuito que não privilegia conteúdos, mas o constante uso de veículos de informação.

Nos planos axiológicos e epistemológicos, Jodi Dean sugere que a utilização das novas mídias caminha na direção do declínio da eficiência simbólica. Ou seja, as pessoas deixam de ter uma referência sólida para julgar a informação. Vale tudo. Em
Blogs e outros meios de expressão digital, acredita-se que todas as opiniões sejam válidas. A tendência reforça traços de relativismo já presentes na cultura ocidental antes do advento das redes digitais. No caso dos valores, há um esvaziamento de referências aceitas coletivamente. No caso da ciência, há uma crença de que todo e qualquer saber é equivalente. O resultado dessas maneiras de ver é que banalidades sem fundamento e afirmações ancoradas em investigações sistemáticas em nada diferem. São informações que entram no circuito, reivindicando tratamento igualitário.

Predomina na rede digital impulso para o uso, não importando outros fins. A lógica do sistema é a de um consumo cada vez mais avassalador de informações, não pelo valor intrínseco destas últimas, mas pelo sentimento de participar de um processo informativo que não cessa. A comunicação constante é uma obrigação. Mais ainda: uma obsessão. É preciso comunicar-se, não importa para quê, nem o que comunicar.

Dean consagra um capítulo inteiro à questão do afeto (Affective
Networks). A autora observa: “O capitalismo da comunicação manda nos divertirmos, ao mesmo tempo que nos adverte de que não estamos nos divertindo o bastante, ou tão bem como os outros. Nossa diversão permanece frágil, arriscada”(p. 92).

A ordem para nos divertirmos aparece de diversas formas. Uma delas é a de sentir-se membro de uma comunidade que, segundo a autora, “é uma comunidade sem comunidade”. Contraditoriamente, as redes facilitam a superação do isolamento, embora as pessoas continuem isoladas. Outra forma é a da repetição. Faz-se a mesma coisa o tempo todo. Não importa o significado do que é repetido, mas sempre a repetição, em um ritmo cada vez mais envolvente. Repetição e redundância é o nome do jogo. Isso já era característico nos meios de comunicação de massa que chegaram um pouco mais cedo que as redes digitais. Essa circunstância foi e é largamente utilizada em publicidade na TV.

Convém, mais uma vez, recorrer ao texto da autora:

A dimensão aditiva da comunicação pela comunicação marca um excesso.
Esse excesso não é novo significado ou perspectiva. Ele não se refere a um novo conteúdo. Em vez disso, advém da repetição, agitação ou emoção por mais. Na duplicação reflexiva da comunicação, a diversão incorporada à comunicação pela comunicação desaloja intenção, conteúdo e significado. O extra na repetição é diversão, a diversão que é capturada no impulso e na diversão expropriada pelo capitalismo da comunicação. (p. 116)

A meta, como já se disse, é a de usar a rede. E usá-la à exaustão. O discurso ideológico justifica tal uso com promessa de mais conhecimento. Mas, conforme diz a autora, “quanto mais conhecimento incorporamos, menos sabemos”. Na verdade, o
que predomina é a circulação de informação, não a sua apropriação pelos usuários. Uma das consequências disso é a falta de ação. Em vez de agir, busca-se mais informação. Os resultados encontrados não satisfazem. Por isso, mais informações são procuradas. Esse processo não tem fim, e estar nele é fonte de prazer. A produção de informação com características de reflexibilidade é uma criação dos usuários. Eles acabam produzindo o ambiente em que vivem, pois as conexões estabelecidas no interior do sistema configuram as pessoas. Gerar informação, consumi-la, reproduzi-la, dentro de um loop, substitui busca de sentido, de significado; é tudo que se quer.

Apesar do título de seu livro e de ter um capítulo dedicado aos
blogs, estes não são o foco de Dean, mas, sim, as práticas mediáticas que se tornaram comuns com a chegada dos recursos digitais. A autora faz menção às características técnicas dos diários eletrônicos e examina as analogias mais comuns que são utilizadas para defini-los. Ela, porém, não se prende a visões mais tradicionais. Para além de aparências óbvias de blogs como diários eletrônicos ou formas de expressão de um novo jornalismo, Jodi Dean mostra como a prática deles está a serviço da expressão da subjetividade.

A autora vai buscar nas práticas epistolares do antigo Império Romano, assistida por estudos realizados por Michel Foucault, analogias para iluminar o sentido da escrita em diários eletrônicos. Revela que as correspondências produzidas pelos latinos tinham acima de tudo características de auto-escrita. A arte de escrever cartas era vista como um elemento de reflexão. Nesse sentido, importava pouco o que comunicar. Importava o próprio exercício de produzir as cartas, mesmo que estas não fossem enviadas aos seus destinatários. Essa é uma descoberta intrigante. O ato, a prática era mais importante que o escrito. E é isso o que acontece com os blogs: valem para eles as observações feitas para todo o sistema de comunicação digital. Eles são uma alternativa de ingresso na ciranda interminável de gerar e consumir informação, pouco importando o conteúdo. Também concretizam o sentimento de participação no qual se acentua a dimensão afetiva. Não são, assim, diferentes de qualquer outro formato que facilita a participação dos usuários na Web.

Blog Theory é um livro denso e exigente. A autora, para desenvolver seus argumentos, recorre a uma ampla literatura, influenciada principalmente por Lacan. Cada capítulo da obra mereceria uma resenha própria para que não se perdessem elementos importantes das análises feitas por Dean. Porém, os registros aqui feitos são suficientes para situar a obra e sua importância em áreas relacionadas com informação e comunicação. Importa assinalar como Blog Theory sugere novos modos de ver as NTICs em educação. O estudo de Dean mostra que aproveitamentos de qualidades aparentes da web para finalidades pedagógicas não podem acontecer de modo ingênuo. O predomínio de práticas de comunicação pela comunicação é um traço que deveria merecer análises críticas dos educadores. Usos educacionais das NTICs, caso ignorem uma visão crítica, irão apenas facilitar ingresso dos alunos em circuitos comunicativos que desconsideram conteúdos e significados.