Archive for the ‘Linguagem’ Category

TV e Educação

dezembro 12, 2020

Em 1997 me pediram um texto para subsidiar pauta sobre TV e educação. Escrevi. Nada aproveitaram. Não sei porque. Possivelmente nada sugeri que fosse do interesse do pessoal de comunicação. Acho que esperavam que eu anunciasse temas otimistas com relação ao papel que a TV pode exercer em educação. Acho que o que escrevi ainda vale. Por isso recupero o velho escrito e o publico aqui.

TV & EDUCAÇÃO

Temas para debate

  1. Por que as TV’s educativas não deram certo?

Na década de 50 gastaram-se fortunas com programas educativos nos EUA. Aulas, cursos e palestras, com os melhores professores do país, resultaram num imenso fracasso. Coisa parecida aconteceu no Brasil quinze anos depois, as TV’s educativas tupiniquins colocaram aulas  e cursos no ar. Mas não houve nenhuma revolução na educação nacional. O mínimo que se pode dizer é que a TV educativa foi (e continua sendo) ignorada pelos educadores.

No início dos anos 70, o SENAC de São Paulo e a Fundação Padre Anchieta ofereceram um curso técnico pela TV. Era o curso técnico de comércio exterior. O Canal 2 colocava no ar, em rede aberta e horário nobre, as aulas do curso. O programa alcançava todo o Estado de São Paulo. Nas últimas semanas do tal curso tínhamos cinqüenta alunos! Mas nem todos eles viam o programa, pois achavam melhor estudar  a matéria no teleposto, com um professor e após a transmissão.

Japão, Inglaterra e Holanda possuem TV’s educacionais que parecem dar certo. Mas elas não são TV’s educativas. São, muito mais, na sua relação com as escolas, produtoras e fornecedoras de um rico material audiovisual integrado ao currículo. Os programas educativos da BBC e da NHK não são autônomos, embora alguns deles sejam bons shows de televisão.

2. De quem é a culpa  pelo fracasso das TV’s educativas: dos produtores de TV? dos educadores?

No início do século, Tomas Edison, entusiasmado com o potencial do cinema, previu que toda a estrutura escolar de 1º grau americana seria substituída – com muitas vantagens – por cerca de 5000 ou 6000 filmes que cobririam todo o currículo. Este sonho de Edison foi reavivado nos anos 40 com o surgimento da televisão. Mas a colaboração do novo meio para educação escolar tem sido muito modesta. A televisão nunca entrou na escola para valer.

O relativo fracasso da TV enquanto meio de educação é explicado de duas formas distintas. Uns acham que a TV produz um lixo cultural que deve mesmo ficar longe da escola. Outros pensam que os educadores, quase sempre muito ignorantes no que diz respeito às tecnologias da comunicação, jamais souberam criar meios didáticos para aproveitar o imenso potencial do veículo chamado televisão.

3. A televisão deseduca?

Professores de todos os níveis e de todas as matérias revelam um grande descontentamento com o desempenho de seus alunos em duas habilidades fundamentais: escrita e leitura. Ninguém quer ler, nem mesmo os livrinhos especialmente fabricados para quem se enfada depois da terceira página. E a escrita? Um amontoado de palavras desconexas, desconhecendo sintaxe, acentuação, concordância , regência e quetais. Culpados? Entre outros, dizem muitos educadores, a televisão.

Muitos educadores, além de políticos e gente do povo, acham que a televisão deseduca em  diversos sentidos. Vai aqui uma pequena lista.

A TV:

  • banalisa (e promove) a violência.
  • elimina (artificialmente) as diferenças culturais.
  • aniquila  valores éticos profundos
  • elimina o senso histórico, valorizando apenas o “aqui e agora” noticiável.
  • promove valores e costumes descartáveis e superficiais.
  • impede relações familiares mais autênticas.
  • ridiculariza valores morais tradicionais.
  • converte política em mero espetáculo.
  • promove uma visão espetacular da realidade.

4. A TV comercial deve educar?

É comum a expressão “TV é entretenimento”. Ou, em português: “TV é diversão”. Neste sentido, dizem os entendidos, o novo veículo não deve ter qualquer compromisso educacional.

Mas há quem cobre compromissos educativos da TV comercial. E que compromissos seriam esses? Essa pergunta, ressalvada as devidas diferenças, é parecida com a indagação: quais são os compromissos educacionais do circo?

Algumas vezes discute-se o “compromisso educacional” como sendo uma dimensão da responsabilidade social da TV. Mas, quase sempre, os “compromissos sociais” acabamsendo desculpa para aqueles que querem  promover censura (explícita ou velada) sobre o meio.

5. A educação exige uma linguagem própria de TV?

A televisão é um veículo com uma linguagem especial. Cria ritmos e seqüências que, para serem realistas, não respeitam a realidade.  TV, por exemplo, não é um bom veículo de análise. Quase sempre na TV é preciso fundir, sintetizar.

Quase sempre os conteúdos educacionais demandam análise, tempo real, espera, maturação. Será que é possível produzir uma TV com estas características? Será que é necessário uma linguagem didático-televisiva para a educação?

6. Por que o uso didático de certos gêneros televisivos é tão chato?

Nos anos setenta, a TV educativa e o Departamento de Ensino Supletivo do MEC produziram uma “novela didática”. Todo o enredo foi elaborado por educadores e autores do gênero, numa parceria muito bem intencionada. A novela pretendia educar adultos, oferecendo dentro das tramas conteúdos de português, matemática, ciências e estudos sociais. Ninguém mais se lembra disto. Apesar do entusiasmo dos  produtores, a novela didática foi um fiasco.

Outros gêneros de grande sucesso na telinha já foram didatizados. Sempre com o mesmo resultado: tremendo fracasso.

Fica, portanto, a pergunta, por que o uso didático dos gêneros de sucesso da TV é tão chato?

7. Há lugar para uma TV educativa?

As TV’s educativas, principalmente aquelas que seguem modelos escolares, são reconhecidamente um fracasso. Então por que mantê-las?

As TV’s públicas (modelo americano e canadense) não tem um alvo educacional definido. O Canal 2 de São Paulo transmitia o campeonato japonês de futebol! Será que isto é educativo? Futebol japonês também é cultura?

Estão em jogo aqui diversas coisas. Uma delas é a questão relativa à possibilidade de uma linguagem didática na televisão. A outra é a questão relativa ao modelo de TV’s culturais. Para terem audiência, essas TV’s devem se aproximar muito das TV’s comerciais. E quando desaparecem as diferenças, é adequado perguntar se o cidadão deve manter uma TV que não faz diferença.

Há alguns anos atrás (começo dos anos 90), o sistema americano de TV’s públicas (PBS) foi colocado em xeque. Seus opositores diziam que ele não fazia diferença. Além disto, o jornalismo da PBS chegava a ser (para alguns críticos) anti-americano!

Mas, afinal de contas, por que as TV’s públicas não podem fazer sucesso

8. Os educadores estudam TV seriamente?

A TV quase nunca entra na escola. E quando entra não exerce influência notável. Ao que tudo indica, os educadores são leigos em TV. Faculdades de Educação continuam a ensinar tradicionalmente. Nelas, a TV, quando muito, é simples curiosidade. Coisa séria é o quadro negro, o livro, o caderno e a fala do professor. Talvez a TV não eduque por esta razão. Os educadores não sabem como manejá-la. Preferem os velhos meios.

9. Uma antena parabólica em cada escola é uma medida necessária?

O projeto TV Escola é a menina dos olhos do atual ministro da educação. Milhares de escolas já dispõem de uma antena parabólica e de um aparelho de TV. Programas da TV Escola e produções de outras fontes poderão chegar facilmente às escolas. Professores poderão assistir cursos de atualização. Há planos de capacitação docente que privilegiam o veículo TV. Será que esta é uma forma correta de uso da televisão para fins educativos? A audiência ainda não é grande. Apenas 50 e pouco por cento das escolas antenadas estão ligando os aparelhos no horário escolar. Mas o ministro acha que isso é um sucesso. Será?

10. Quais são os limites da TV enquanto veículo de educação?

Muita gente, incluindo professores de usos educacionais da televisão, pensa que o veículo é muito limitado. Serve para apresentar grandes sínteses. É um bom recurso quando a imagem é a principal informação a ser trabalhada educacionalmente. É um bom veículo para apresentar conteúdos que podem ser dramatizados. Não é adequado para propósitos analíticos. Não é um bom veículo para a reflexão. Não é um bom material de estudo. Não é facilmente manipulável. Não é interativo.

Como  a TV é um veículo imensamente poderoso, a maioria das pessoas acha que ela  que poderia ser aproveitada de modo mais intenso em educação. Mas esta esperança (ou ameaça) não é verdadeira. A TV é um péssimo veículo para ensinar a pensar, refletir.  Esta, pelo menos, é a opinião de dois dos mais importantes cientistas da computação: Alan Kay e Donald Norman. Ambos acham que o veículo não é adequado para qualquer tipo de aprendizagem mais exigente.

São Paulo, 02 de dezembro de 1997.

 Jarbas Novelino Barato

Leitura e fluência linguística

julho 21, 2020

Há diversos exercícios que mostram que domínio de um idioma facilita fluência na leitura. Assim textos com claros podem ser lidos e entendidos se o leitor tiver bom conhecimento do idioma. Essa hipótese serviu de ponto de partida para o software educacional Investigando Textos com Sherlock, criado por David Carraher e desenvolvido por equipe que eu coordenava no PIE (Programa de Informática e Educação do SENAC/SP).

No exemplo que trago para cá, o criador do texto mistura inglês e francês. Meus conhecimentos do último idioma não são muito grandes. Mas consigo ler o texto fluentemente porque estou acostumado a ler inglês com bom entendimento.

Segue, no formato de imagem, o tal texto que mistura inglês com francês.

leitura

Ciência e educação profissional

maio 9, 2020

Em muitos discursos sobre educação profissional acentuam-se as bases científicas do trabalho. Daí se passa para propostas de ensino de ciências que podem ter efeitos desastrosos na educação dos trabalhadores. O filósofo André Gorz chama atenção para o problema num artigo que escreveu opondo-se a uma proposta pseudo-marxista sobre organização do trabalho [conf. GORZ, André. Para una crítica de las fuerzas productivas: respuesta a Mark Rakonski. El Cárabo, 13-14, 1979].

Gorz em seu artigo comenta que a ciência costuma ser ensinada para mostrar ao trabalhador ele é incapaz de entender o saber científico. O filósofo francês entende que tal modo de ensinar afasta o aprendiz do saber. Alunos concluem no final do processo que ciência não é para o bico deles e deve ser deixada para os teóricos que são capazes de entendê-la.

Para conferir o que diz Gorz basta ir até uma sala de aula e acompanhar como os professores ensinam conteúdos científicos em cursos de educação profissional. Jã fiz isso algumas vezes e constatei que os alunos boiam o tempo todo. Outro modo de conferir a crítica de Gorz é a de examinar material didático escrito para ensinar ciências para os trabalhadores. Também  fiz isso e vou mostrar aqui um exemplo bastante concreto de como provar que ciência não é para o bico dos trabalhadores.

No final dos anos de 1980 acompanhei a reestruturação dos cursos de cabeleireiro no Senac de São Paulo. Fiz isso depois de um trabalho que houvera coordenado para envolver todos os docentes do curso na elaboração de um manual de técnicas básicas do ofício de cabeleireiro. O trabalho que propus e coordenei partia do princípio de que o saber fundamental na formação dos profissionais de salão era a técnica. E mais, que o saber técnico era um patrimônio que a organização vinha desenvolvendo com base nos conhecimentos de seus docentes. No processo, todos os docentes contribuíam para a confecção do manual, escolhendo um ou mais técnicas nas quais se julgavam peritos. Não vou aqui contar a história do projeto. Vou apenas assinalar que conseguimos elaborar um manual que tinha autoria compartilhada de todos os docentes do Senac paulista.

Sepois que encerrei minha participação no processo de explicitação do saber técnico dos docentes do curso de cabeleireiro, pessoas que assumiram a coordenação da área de Beleza na organização criticaram muito o manual produzido. Além disso, proclamaram que era preciso garantir boa fundamentação teórica ao  curso. Para tanto, partiram para a elaboração de manuais relacionados com as ciências que “sustentam” o saber dos cabeleireiros.

Os manuais teóricos não foram elaborados pelos docentes da casa. Consultores externos –  professores da Faculdade de Farmácia da USP – foram contratados para a tarefa. Esse consultores elaboraram manuais de biologia e química sobre saberes supostamente relacionados com o ofício de cabeleireiro. E o resultado foi aquele criticado por Gorz, a forma ciência utilizada no material provava cabalmente que ciência não é saber para o bico dos trabalhadores.

Não vou analisar aqui todos os manuais produzidos. Fiz isso por volta de 1988 e escrevi um pequeno resumo de minhas impressões; Mais à frente vou reproduzir tal resumo aqui. Agora quero apresentar um exemplo de como os manuais voltados para as bases teóricas do curso de cabeleireiro mostravam que ciência era assunto para pessoas mais preparadas e inteligentes que os profissionais de salão. No manual de Citologia e Anatomia da Pele encontrei, entre outras, a seguinte joia:

DERME

A derme é a camada intermediária da pele, dando-lhe resistência mecânica. É formada por um gel: a substância amorfa onde estão mergulhadas as fibras colágenas (95%) e as fibras elástica (5%).

É na derme que encontramos ainda:

  • Nervos: responsáveis pela sensibilidade à pressão tátil, térmica e dolorosa.

  • Vasos sanguíneos: distribuídos em um plexo mais profundo no nível dermo-hipodérmico e um plexo mais superficial na derme papilar. Têm função de nutrição da pele e regulação da temperatura corporal.

  • Vasos linfáticos: condutos de fundo cego – capilares – que confluem entre si, levam a linfa a vasos de maior calibre e possuem válvulas para impedir o refluxo. A linfa transporta patógenos e células tumorais até gânglios linfáticos que funcional como filtros.

  • Glândulas sudoríparas: produtoras de suor, um líquido incolor, sem cheiro, composto 99% por água e 1% Na, CI, K, uréia, Ca, P, Fe e lipídios. Existem dois tipos> écrinas, que desembocam diretamente na superfície cutânea e estão localizadas em toda a pele especialmente nas palmas das mãos e plantas dos pés, e apócrinas, que desembocam nos folículos polissebáceos e estão localizadas em axilas, região perimamilar e região anogenital.

O trecho que reproduzi tem alguns problemas de redação. Mas isso é o de menos. O que importa mesmo é a forma ciência do material. O texto passa para os alunos de um curso de cabeleireiro que a ciência é um assunto que está muito além da capacidade de compreensão deles. Há aqui muito o que comentar sobre ensino de ciências a partir de uma material como esse. Mas, isso é uma tarefa que deixo a cargo do amável leitor…

Como disse atrás, escrevi por vota de 1988 ou 1989 uma nota sobre o assunto, criticando o material e, ao mesmo tempo, fazendo algumas indicações sobre caminhos para o ensino de ciências no curso de cabeleireiro. Reproduzo, a seguir, tais notas.

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Dizer a própria palavra

julho 30, 2018

Trago para cá post que publiquei no Primeiros Mil Microcontos em janeiro de 2007. Ele ainda faz muito sentido.

 

No título deste post tento sintentizar uma das esperanças de Paulo Freire; um cidadão livre é aquele que conscientemente é capaz de dizer a sua própria palavra. Nosso maior educador não chegou a publicar um blog, mas era alguém que alimentava muitas expectativas com relação às possibilidades libertárias da rede mundial de computadores. E, certamente, apreciaria muitos dos usos dos blogs em nossos dias. Faço tais reflexões a partir de um diálogo de Freire com um grupo de educadores sobre tecnologia educacional; diálogo do qual tive o privilégio de participar..

Um exemplo fantástico de possibilidade de dizer a própria palavra, proporcionada por blogs, é Baghdad Burning, o diário eletrônico publicado por uma jovem iraquiana que assiste diariamente aos efeitos da ocupação estrangeira em seu país. A edição do New York Review of Books de 11/01/2007 resenha alguns livros recentes sobre o Iraque. Um dos livros resenhados é uma compilação das mensagens de Riverbend, a blogueira de Bagdá. A autora, uma profissional de informática, faz um registro admirável de como é a vida de cada dia no Iraque ocupado. Na resenha, observa-se que o texto (em inglês) da moça deixaria muitos americanos envergonhados. E eu acrescento: deve envergonhar também muitos profissionais da área de computação. O texto é limpo, atraente, sedutor, além de fazer uma leitura muito bem informada dos acontecimantos. Mas, para além dos aspectos formais, o texto é um registro histórico imprescindível para quem queira entender o que está acontecendo no Iraque. Riverbend encontrou no blog uma forma de dizer com liberdade sua palavra sobre a experiência trágica sua e de sua terra. Baghdad Burning merece ser lido.

Ao ler a matéria do New York Review of Books fiz uma relação inevitável: os blogs continuam censurados (bloqueados) em muitas escolas. Uma pena! Nessas escolas, alunos e professores perdem um importante canal para dizer suas próprias palavras. Dias depois de ler a matéria sobre a blogueira de Bagdá, fiquei sabendo de mais uma medida (anunciada nos jornais de 23/01/2007) contra a liberdade de dizer a própria palavra: o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) baixou norma para impedir que os atletas brasileiros publiquem qualquer coisa em seu blogs durante os próximos Jogos Panamericanos. Cabe um pedido de socorro a nosso querido Paulo Freire.

Leitura e sentido

janeiro 22, 2018

 

Ao ler, construimos sentido. Esse um dos aspectos marcantes da semântica. O sentido não está dado, ele é elaborado a partir de informações disponíveis e dos esquemas que elaboramos previamente para ler o mundo. Essa incrível capacidade de criar sentido pode ser verificada num experimento muito popular, o de misturar as letras intermediárias das palavras num texto. Quem sabe ler e tem bom domínio do idioma em que o texto está escrito, entende sem problemas coisas aparentemente estranhas como o escrito que aparece em figura deste post. Se você tem domínio razoável do inglês não enfrentará qualquer problema para ler e entender o que está escrito. Boa leitura.

 

txteo

Escrita acadêmica

julho 14, 2016

Boa parte do povo da academia escreve mal. Isso não é novidade. Makarenko reclamava disso e se recusava a ler teóricos da didática de seus tempo. Costumo dizer que não há nada mais horroroso que livros “científicos” de didática. Talvez haja: livros de administração escritos por teóricos da GV. Outra coisa muito ruim: teses da área de educação. Entrem na biblioteca virtual da Unicamp e tentem ler algumas teses de doutorado em educação. Dou um doce para quem ler com gosto e prazer os textos científicos dos coleguinhas que produziram estudos científicos em nossa área.

Não vou comentar mais o assunto. Eu apenas faço aqui um gancho para ótimo texto sobre o assunto que acabo de ver na internet. Vale ler

Why Most Academics Will Always Be Bad Writers.

texto acadêmico

Leitura e comunicação

junho 27, 2016

Nos velhos tempos, leitura era um ato público, uma comunicação. Ou seja, um ato de compartilhar informações. A leitura solitária e silenciosa é uma invenção que se tornou generalizada com a imprensa, a partir do século XVI. Digo tudo isso porque achamos que a leitura “sempre foi assim”. Esse achismo não tem base histórica. As relações das pessoas com o texto mudaram muito no tempo e com novas tecnologias. Certamente hoje deve estar acontecendo mudanças no ler com as tecnologias digitais da comunicação e informação. Nós é que não sabemos muito bem como identificar as diferenças que vão surgindo.

No parágrafo anterior propus um começo de conversa que pode ir muito longe. Neste parágrafo, introduzo um vídeo. O ator é uma criança que ainda não chegou aos dois anos, mas já viu muita gente lendo. E ela sabe imitar direitinho certos leitores. Vale a pena ver.

Ortografia, fonética e reacionários

janeiro 28, 2016

Hoje vi no Face que há gente pedindo para que o CONAR (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) faça o Itaú tirar do ar uma propaganda que brinca com a fonética e a ortografia, convertendo digital em digitau. Uma brincadeira inteligente, mas reclamantes, que se acham vestais da norma culta, entraram em cena com argumento que tem como base desprezo pela inteligência alheia e uma falta de humor de pseudointelectuais.

Notícia na internet informa que:

De acordo com o órgão [CONAR], as denúncias eram de que a propaganda, veiculada na TV e online, poderia induzir crianças e pessoas em processo de alfabetização ao erro, ao mostrar a palavra “digital” somada com Itaú em trocadilho, trocando o L pelo U.

Os denunciantes devem achar que crianças e adultos em processo de alfabetização são idiotas incapazes de entender uma brincadeira. Essa gente acha que regrinhas bobas e rigor gramatical são o melhor caminho para que as pessoas aprendam a redigir corretamente. Ignoram que quem aprende precisa manipular a linguagem para dela se assenhorar, em vez de se converterem em fieis servidores de normas rígidas da suposta correção gramatical.

Por volta de 1978 tive o privilégio de participar de uma oficina com um grande educador francês (infelizmente não me lembro mais o nome dele). Ele era um dos líderes da escola popular (movimento inspirado por Celestin Freinet). Entre os exercícios que ele nos propôs havia um que era o de manipular as letras das palavras, mudando-as de lugar para criar outras palavras. De certa forma, ele nos propôs brincar com as letras como se essas fossem argila que poderia receber várias formas. Resistimos muito. Tivemos dificuldades para imaginar novos arranjos para as letras. E o francês nos chamou de “reaças”. Ele tinha razão. Não conseguíamos brincar livremente com os instrumentos que nos permitem elaborar a escrita. Aceitamos a crítica e depois de algum esforço começamos a lidar com as letras com muita liberdade e criatividade.

Essa gente que quer que o CONAR obrigue o Itaú a tirar do ar propaganda tão inventiva é extremamente reaça. Vê educação como imposição de normas a pessoas dependentes de mentes brilhantes como as deles (os tais reclamantes…). Esses reaças são perigosos para a educação, pois não entendem que o saber se constrói em jogos pelos quais os aprendentes se tornam senhores do saber.

 

 

O Significado do texto

janeiro 26, 2016

Tem gente que manifesta estranheza quando leitores não entendem um texto na direção que elas esperam. Mas, isso é normal. É o leitor quem dá sentido ao texto. Para evitar interpretações indesejáveis, os autores precisam ter muito cuidado. E, mesmo que cuidados sejam tomados, o sentido desejado não fica garantido. Essa é uma questão muito importante no campo didático. Muitas vezes, textos de livros didáticos podem levar os alunos a entenderem um assunto em direção completamente diferente daquela que autores e professores querem.

Para oferecer situações de discussão sobre o problema aqui indicado eu costumava, em minhas aulas e em formação de professores, utilizar certos exemplos de textos preparados para experimentos no campo de investigações orientadas por princípios construtivistas.

Recentemente encontrei uma professora que me disse utilizar até hoje um exercício que apresentei numa formação da qual ela participou. Tal exercício, baseado em estudos construtivistas do ato de ler, procura mostrar que o sentido do texto pode ficar muito difícil quando as referências são retiradas ou restringidas. Não achei o texto mencionado pela professora. Mas encontrei outro texto que eu também utilizava, em minhas aulas e em formações docentes, com a mesma finalidade. Tal texto costuma ser interpretado de muitas e muitas maneiras diferentes. E geralmente os leitores não conseguem sequer desconfiar da situação original à qual o escrito se refere (ou deveria se referir).

Para interessados em utilizar tal texto, reproduzo-o a seguir.

>> “Se os balões estourassem o som não poderia ser levado, uma vez que tudo ficaria muito distante do andar certo. Uma janela fechada também poderia impedir o som de chegar ao destino, pois muitos edifícios hoje dispõem de isolamento acústico. Uma vez que a operação inteira dependia de um fluxo constante de eletricidade, um fio partido também causaria problemas. É claro que o cidadão poderia gritar, mas a voz humana não é suficientemente potente para ir tão longe. Um problema adicional era a possibilidade de que uma corda do instrumento se partisse. Assim não haveria acompanhamento para a mensagem. É claro que a melhor situação envolveria menor distância. Haveria então poucos problemas potenciais. Num contato face a face, um número menor de cosias poderia dar errado.”

Vocês podem distribuir o texto e pedir à pessoas, alunos ou professores, para indicar a cena ou situação à qual o texto se refere. A lista de opiniões irá variar muito. E, dificilmente, alguém indicará a situação na qual o autor pensou ao produzir esse escrito.

É preciso observar que o texto que estou reproduzindo aqui foi preparado com muito cuidado para que os leitores não soubessem ao que ele se referia. Todas as pistas referenciais foram cuidadosamente retiradas. Por essa razão, as pessoas costumam “viajar” quando procuram dizer como entendem essa história de balões, fios, janelas, sons, eletricidade, dificuldades para que o som chegue ao destino etc.

Depois que os participantes fizerem sua adivinhações, vocês devem mostrar a eles um desenho sobre a história e pedir que leiam mais uma vez o texto. Tudo ficará mais claro, pois os referentes são dados pela imagem.

Aqui está a imagem:

desafio de uma paixão

 

 

 

Net Emotions

janeiro 19, 2016

A cultura da internet tem suas particularidades. Uma delas é a dos símbolos que vão se integrando aos sistemas de comunicação na rede. A tais símbolos se tornam tão comuns que passam desapercebidos. Talvez esse seja o caso da carinhas dos emotions que aparecem em muitas mensagens de internautas.

Também é parte da cultura da internet a produção de coisas que procuram negar a ordem estabelecida. Às vezes isso acontece como brincadeira. Às vezes, como assunto muito sério.

Hoje, numa visita ao Stax, site pelo qual passo com muita frequência, encontrei uma produção de imagens que parece brincadeira, humor inocente. Mas, nenhum humor é inocente, pois, como diziam os velhos latinos, ridendo castigat mores (tradução muito livre: ” coisas que fazem rir criticam a ordem estabelecida”).

Acho que as imagens publicadas pelo Stax são um material útil para quem queira trabalhar com abordagens críticas da cultura da rede. Por essa razão, vou reproduzi-la aqui para quem possa se interessar.

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