Archive for the ‘Fundamentação’ Category

Jerome Bruner, psicologia e educação

fevereiro 19, 2020

Jerome Bruner foi um dos expoentes da psicologia cognitiva, do construtivismo. Sua importância para a educação é imensa. Mas, por outro lado, as lições que ele deixou ainda não foram inteiramente aprendidas.

Ao pesquisar Nathan Zimmerman, autor de Small Wander (um livro necessário sobre a história e mitos da escola rural de sala única), acabei encontrando alguns artigos interessantes dele no The Atlantic. Entre tais artigos, destaco um precioso ensaio sobre Bruner e a educação. Como muitos amigos não leem inglês com facilidade, traduzi o artigo de Zimmerman. É uma tradução ligeira que não foi revista por gente mais capacitada em inglês do que eu. Mas, acho que o resultado não deixa a desejar.

Segue a tradução.

Jerome Bruner: Uma busca inacabada em educação

Jerome Bruner promoveu a psicologia cognitiva, uma ideia que as escolas ainda lutam para adotar.

 

Jonathan Zimmerman

The Atlantic, June 7, 2016

bruner

Alguns anos atrás, Jerome Bruner visitou um curso de pós que eu coordeno na New York University sobre pesquisa educacional e política. Eu disse a Jerry que concordava com quase tudo que ele escreveu sobre educação, mas temia que muitos americanos não concordassem com tais ideias. O que aconteceria se o país não aceitasse o que ele estava propondo?

“Bem”, disse Jerry com um largo sorriso: “então você teria em mãos uma boa história”.

A própria história admirável de Bruner chegou ao fim na segunda feira passada, quando ele faleceu aos 100 anos. Filho de imigrantes poloneses, ele foi uma criança sem visão até que uma cirurgia o livrou da cegueira aos dois anos de idade. Bruner dedicou toda sua vida estudando a percepção humana, e os modos pelos quais as histórias que contamos sobre o mundo influenciam como pensamos e aprendemos sobre ele.

Ao longo do caminho, ele ajudou a revolucionar a psicologia americana. Quando Bruner foi para sua pós-graduação na Harvard University, nos anos de 1930, predominava uma pesquisa psicológica que examinava o comportamento que as pessoas exibiam frente a pressões externas e estímulos. Mas tal modelo não levava em conta nossa mente individual, que filtra e interpreta tudo que experimentamos.

Bruner decidiu estudar o que ele chamou de “psicologia cognitiva” – como as pessoas pensam e raciocinam, não apenas como reagem e respondem. Para a educação, particularmente, as implicações eram enormes. Bruner descobriu que mesmo as crianças muito novas construíam seu próprio conhecimento – ou seja, davam sentido a novas informações com base em experiências e entendimentos prévios. O trabalho dos professores era o de ajudar os estudantes construir conhecimento sobre o que já sabiam.

Não fazia sentido então empanturrar as crianças com fatos, que elas esqueceriam assim que a prova terminasse. A meta era ajuda-las  a reconhecer relações entre fatos. Você não precisa ser um físico ou um historiador para entender a gravidade ou a Guerra Civil. Mas você precisaria de um professor que pudesse ajuda-lo a pensar como um físico ou como um historiador, ordenando e analisando as informações como eles fariam.

Meio século depois que Bruner propôs essas ideias em sua obra mais importante, The Process of Education, elas acabaram sendo aceitas como “melhores práticas” nas escolas americanas. Mas poucos professores e alunos as praticam. Há um enorme fosso entre a história que os Estados Unidos conta sobre educação e o caminho em que ela realmente percorre.

A primeira razão tem a ver com a preparação de professores no país. Para instruir os alunos da maneira imaginada por Bruner, você precisa ter um profundo conhecimento da matéria que ensina. Sou professor de educação numa grande universidade, mas eu não poderia ensinar biologia no curso secundáio. Eu poderia fazer com que os alunos memorizassem partes de um átomo ou de uma célula, mas não poderia ajuda-los a entender como a biologia funciona: como ela levanta questões, delineia teorias, reúne evidências.

E aqui há um fato deprimente: boa parte dos professores do país não tem esse tipo de conhecimento. Embora em muitos estados se exija que os professores sejam formados na matéria que lecionam, a legislação não demanda que os mestres dominem de fato os saberes próprios de sua disciplina. Provenientes dos grupos de baixo e médio desempenho de distribuição de desempenho acadêmico, muitos professores americanos simplesmente carecem de um forte background de saber específico para ajudar os alunos a mergulharem na disciplina que estudam.

Enquanto isso, professores que possuem a necessária expertise são prejudicados pela besta da “accountability”. Desde que o Congresso aprovou a lei conhecida como No Child Left Behind em 2001, normas federais e estaduais atrelaram o financiamento das escolas – e, em alguns lugares, o salário dos professores – ao desempenho dos alunos em testes padronizados [algo parecido com o nosso ENEM]. Particularmente nas comunidades mais pobres, o resultado tem sido a antítese do que Bruner imaginava: uma pedagogia triste de memorização apenas prepara os alunos para o próximo teste padronizado.

Finalmente, não é claro que os cidadãos americanos – essa gente que paga impostos e elege os membros de conselhos escolares – desejam o tipo de instrução que Bruner desejava. Ele aprendeu isso de maneira bastante dura quando desenvolveu um currículo financiado pelo governo federal nos anos de 1960, chamado Man: A Course of Study (MACOS), que usava exemplos de diferentes lugares e eras para gerar questões básicas sobre o comportamento humano e a moralidade – especialmente sua descrição dos Netslik Eskimos, que praticavam infanticídio e eutanásia – chamou atenção dos conservadores, que queriam que a seus filhos fosse ensinado um único código moral. O Congresso acabou cancelando o financiamento do MACOS, o que nos faz lembrar dos perigos de encorajar as crianças a pensarem por elas mesmas. Elas podem terminar discordando de seus pais, e muitos americanos – talvez a maioria – não querem isso.

No final de sua carreira, Bruner se voltou para a questão da cultura e educação, examinando como diferentes sociedades influenciam o crescimento e desenvolvimento humanos. Meu temor é o de que a cultura americana não aceite verdadeiramente a estória que Bruner nos contou sobre o ensinar. Mas, sempre serei agradecido a ele pelo que disse, insistentemente, na esperança de que a nação um dia aprendesse a lição.

Para quem quiser ver o original em inglês, indico o link: An Unfinished Quest in Educaction.

 

Imagens de escolas rurais

fevereiro 18, 2020

Estou relendo Small Wonder: The little red schoolhouse in history and memory, de Jonathan Zimmerman. No livro há muitas referências sobre imagens das Little Red Schools, pinturas e fotos. As pinturas, geralmente, passam uma imagem idealizada das escolas rurais. As fotos, se recentes, mostram prédios recuperados que não são mais utilizados em educação, mas funcionam como museus para atrair turistas interessados na antiga cultura rural dos EUA.

Percorri na web diversos sites com imagens de escolas rurais. Com isso, creio que construi certa visão de como eram as escolas rurais americanas, ou como os americanos idealizam uma de suas instituições nacionais, a Little Red Schoolhouse.

Selecionei algumas imagens que trago para cá, como registro do que estou estudando, e como mostra de imagens que podem ajudar prováveis leitores a a apreciarem a escola de sala única.

log radical

Começo com um log cabin, uma cabana de toras, que foi bastante comum nas áreas pioneiras. A construção era rústica e aproveitava material disponível, árvores, sem necessidade de grandes transformações.

log school 1

Aqui está outra log cabin school, menos rústica que a primeira.

log school 2

Como se vê, esta log cabin está abandonada. É rústica como as demais, tem poucas janelas. Estudar dentro dela não devia ser muito confortável.

log school 3

Esta imagem é um pintura. Mostra uma cabin log que talvez não fosse uma escola, mas uma moradia. De qualquer modo, a imagem capta bem o tipo de construção que se fazia com troncos de árvores.

log school 5

Essa é uma cabin log school impressionante. Está num terreno pouco atraente. A hora do recreio nessa escola não devia ser muito convidativa. É preciso registrar que muitas dessas escolas não tinham banheiros. A introdução de “casinhas”, uma para meninos e outra para meninas, só acontece na segunda metade do século XIX.

log school turistica

Essa não é a imagem de uma log cabin autêntica. Trata-se de uma construção recente que procura mostrar como eram as antigas escolas rurais americanas. Reparem que as professoras estão vestidas a caráter. Nesse prédio acontecem performances que emulam o ensino que se fazia nas velhas escolas rurais. Visitantes podem passar por parte do curso que faziam os alunos da roça no século XIX.

red 1

No imaginário americano, as escolas rurais de sala única eram vermelhas. Porém, poucas eram as escolas dessa cor no campo. Essa é uma little red school. É autêntica e corresponde ao padrão das antigas escolas rurais. Tem uma pequena torre onde poderia se alojar um sino. Como tal objeto era caro, nem sempre chegava a ser instalado. Os sinais da escola eram comandados pela sineta manual do professor ou professora. Esse prédio parece abandonado. Provavelmente não funciona mais como escola.

red 2

O cartaz diz que esta é uma little red school. Ela, porém, não é vermelha. Na origem deve ter sido branca, mas o tempo a coloriu de preto. Detalhe, essa escola está sendo deslocada de seu terreno original. Provavelmente está sendo deslocada para área em que pode ser mostrada mais facilmente para turistas. Cabe reparar que as escolas quase sempre eram construídas em terrenos inóspitos, porque mais baratos.

red 4 cruzamento

Mais uma little red school, certamente recuperada para atrair turistas. Esta construção retrata uma das particularidades da maioria das escolas rurais: elas ficavam em cruzamentos de estradas.

red homer 1

A imagem acima é um quadro do pintor Winslow Homer, o artista que mais contribuiu para a romantização das escolas rurais, com destaque para sua apresentação como prédios vermelhos.

red homer 2

O destaque aqui, também numa pintura de Homer, é a professora, não o prédio escolar. Dois detalhes: durante muito tempo (no século XIX), as professoras não podia ser casadas; em razão da primeira condição, as mestras geralmente eram adolescentes (muitas vezes, ensinavam para alunos mais velhos que elas).

red modernizada

Esse é o interior de uma red little school interinamente modernizada. Provavelmente funciona como museu para atrair turistas.

red old

Eis outra imagem de uma little red school autêntica. Está abandonada.red school white 3 painting

Essa é uma pintura de uma little red school. Reparem que ela não é vermelha, mas branca…

red school yellow

Outra pintura de antiga escola rural. A cor é amarela…

red white

E esta é branca…

rural brasil 1

Esta não é uma escola americana, é brasileira e atual. Há muitas escolas assim no Norte do país. Vale estuda-las. Cabe aqui uma olhada sobre reportagem que aborda condições das escolas rurais no Brasil

rural brasil 2

Foto de outra escola rural brasileira, em funcionamento nos dias de hoje.

schoo inside 3

Interior de uma little red school. Nenhum conforto. pouco recursos.

school inside 1

Outra foto de interior de uma little red school. Reparem que há mais conforto que na imagem anterior.

school inside 2

Interior de uma escola de sala única, pintura de Homer. Não há carteiras. As mesinhas dos alunos estão voltadas para a parede. Os bancos não têm encosto. A imagem retrata uma little red school da metade do século XIX.

school discipline

Desenho do século XIX. A disciplina nas little red school podia ser rigorosa e os castigos físicos eram muito comuns.

Apresentei aqui uma seleção de imagens que andei pesquisando. Espero que o conjunto nos ajude a compreender melhor a histórias das escoas rurais, particularmente das escolas que os gringos chama de little red schools.

Escola de roça

fevereiro 18, 2020

No velhos tempos, com uma população que vivia no campo, desenvolveram-se escolas de  sala única, nas quais apenas um professor ou professora era responsável pelo ensino de alunos de diferentes níveis. Nos Estados Unidos essas escolas acabaram sendo conhecidas como Little Red Schoolhouse. Na metade do século XIX, havia mais de duzentos e cinquenta mil escolas de sala única no país do Norte.

A maior parte das escolas de sala única não era vermelha, mas a imagem das red schoolhouse acabou predominando no imaginário da população. E isso foi reforçado por pintores. O caso mais famoso nessa direção é uma pintura de Winslow Homer. Trago para cá essa pintura famosa.

little school

Reparem nos meninos descalços se divertindo num gramado florido. O espaço é masculino. As meninas aparecem no fundo, brincando de maneira contida. E no centro da obra está a Little Red School.

Essa imagem bonita da escola de roça pouco corresponde à realidade. As condições dos espaços escolares não eram lá muito boas. A disciplina era rígida. Os castigos corporais eram comuns. Mas, tudo isso foi esquecido depois que a ideia de uma escola de sala única romantizada passou a predominar no imaginário dos americanos.

A escola rural atraente e memorável acabou também sendo celebrada na música. No começo do século passado, Gus Edward, autor de musicais, compôs uma música que celebra a Little Red School: School Days. Mais de dois milhões de cópias da partitura dessa música foram comercializadas. E depois, com o advento do cinema e do disco, ela foi gravada muitas vezes. Segue aqui uma das gravações, com imagens da partitura e com a letra da música famosa. Há quem diga que ela foi uma das mais importantes melodias do século XX nos EUA.

 

Meu objetivo neste post foi o de mostrar como as artes e os meios de comunicação promoveram uma imagem positiva da Little Red School. Devo essas informações a Nathan Zimmerman, autor de Small Wonder: The Little Red Schoolhouse in HIstory and Memory, livro que merece leitura dos educadores.

A melhor escola

janeiro 25, 2020

 

Ótima fala de Tonucci sobre crianças, escolas, educação. Há um trecho da fala que merece muita análise. Em tal trecho, o educador italiano diz que a melhor escola é a que está mais próxima de casa. Vale ouvir e refletir sobre isso. Não consegui trazer o vídeo para cá. Por isso, apenas o indico. Interessados poderão vê-lo com um clique aqui.

 

Educação inclusiva

janeiro 20, 2020

Acabo de visitar uma página que sempre recomendei no campo da educação inclusiva, Operation Respect. Ela é resultado da iniciativa de Peter Yarrow, do Peter, Paul & Mary. Vi que nos últimos tempos o espaço ganhou mais material e ficou mais rico. Operation Respect é grande inspiração para quem trabalha com educação e inclusão.

Sugiro aos interessados que cliquem em Operation Respect para visitar o site e verificar grande riqueza de materiais e ideias lá existentes..

Educação divertida 2

outubro 5, 2019

Sempre me preocupou a ideia de que a educação deve ser divertida. Tentei, em meus tempos de professor em faculdades de educação, combater essa crença. Mas, confesso que não tive muito sucesso. Por isso, certo dia resolvi aderir ao movimento. Já tinha me esquecido disso. Hoje minha memória foi reativada quando encontrei um rascunho de texto que comecei a escrever em defesa da educação divertida. Tal rascunho pode ser muito melhorado. Por isso, publico-o aqui, solicitando colaboração dos amigos.

MANIFESTO POR UMA EDUCAÇÃO DIVERTIDA

Não dá mais pra suportar. A educação que temos é muito chata. Já é hora de virar o jogo. E podemos começar com as medidas que seguem neste manifesto.

  1. Extinção do Conselho Nacional de Educação (CNE) e demais conselhos de educação em todos os níveis, substituindo-os por órgãos capazes de julgar e animar espetáculos. Há exemplos de coletivos que podem exercer tal papel com muita competência. Sugere-se que os novos conselhos se inspirem em grupos de jurados como os do Chacrinha, Flávio Cavalcanti, Raul Gil, Bolinha e Silvio Santos.
  2. Fechamento imediato das faculdades de educação. Elas devem dar lugar a escolas circenses que formam palhaços, malabaristas, trapezistas, showpeople, profissionais muito necessários nas escolas de hoje. Entre os novos profissionais da educação, destaque especial será dado aos palhaços. Queremos já bons doutores em palhaçadas. Eles serão adorados pelos estudantes.
  3. Proibição de livros do Paulo Freire e autores assemelhados. Fora com a chateação de discursos articulados sobre fins da educação, Eles serão substituídos por manuais de como organizar espetáculos. Em vez de Freire, queremos Bial.
  4. Reforma urgente de espaços escolares, com derrubada de salas de aula, bibliotecas, laboratórios, oficinas. Os ambientes ideais das novas escolas serão picadeiros, arenas, palcos, estúdios. E enquanto a demolição da velha escola não se concretiza, façamos tudo via celular.
  5. Proibição de livros de disciplinas chatas como Anatomia e Fisiologia, Estatística, Física, Matemática, Cálculo, Lógica e História. Mas não basta proibir livros assim. É preciso proibir também as disciplinas. Elas são muito desagradáveis, exigentes, Não há qualquer razão para aprendê-las,
  6. Proibição de pesquisas científicas que deverão ser substituídas por roteiros capazes de gerar bons programas de TV, de jogos eletrônicos e de outros produtos que promovam o riso e a diversão.
  7. Eliminação de exercícios exigentes para a formação de artistas na música, na pintura, na dramaturgia etc. Toda a produção artística deverá ser levada à frente por robôs.
  8. Eliminação da chatice do dia a dia, as obrigações aborrecidas. Para gente que delas não consiga se livrar, serão administradas generosas doses diárias de SOMA ou de outra droga mais eficaz para promover o prazer.
  9. Há um objeto maldito que se aliou à escola e tem ojeriza quase que total dos alunos, o tal de livro. Ele precisa desaparecer. Não merece lugar nem mesmo em museu. E não venham com essa história de que o livro pode se transferir para a banda digital. Isso é golpe baixo, além de baita equívoco. As bibliotecas e livrarias serão conservadas apenas para alimentar uma diversão que deixará os estudantes muito contentes: fogueiras de livros em praças públicas. Essa diversão será provisória e desaparecerá quando o último livro for consumido pelo fogo.

 

Teoria e Prática

março 9, 2019

Encontrei no Facebook uma figura que merece ser registrada. Ela mostra a importância da experiência na elaboração do conhecimento. Segue, sem mais, a dita figura.

kay

 

Ao ver tal figura me lembrei de um comentário feito por Alan Kay sobre informação e conhecimento. Não são conceitos que têm o mesmo significado que teoria e prática, mas o contraste sugerido pelo texto de Kay vai na mesma direção. Sem mais, segue o texto de Alan Kay.

O físico Murray Gell-Mann observou que a educação no século vinte assemelha-se a ida ao maior restaurante do mundo para alimentar-se (literalmente) com o livreto do cardápio. Com esta metáfora, o autor  pretendia mostrar que as representações de nossas idéias substituíram as próprias idéias; os estudantes são ensinados superficialmente sobre grandes descobertas em vez de serem ajudados a aprender profundamente por si mesmos.

No futuro próximo, todas as representações já inventadas pelos seres humanos serão imediatamente disponíveis em qualquer parte do mundo por meio de computadores pessoais “de bolso”. Mas seremos capazes de passar do cardápio para o alimento? Ou não seremos capazes de distinguí-los? Ou, pior ainda, perderemos a habilidade de ler o cardápio e ficaremos satisfeitos apenas em reconhecê-lo? (KAY, A. (1991). Computers, networks and education. Scientific American, September, 1991. p. 148)

 

A mão educa o cérebro

janeiro 2, 2019

Já escrevi muito sobre o tema que dá título a este post em tentativas de explicar que o fazer (a técnica) tem um status epistemológico específico. Em meus escritos recorri a observações de Johnson, um filósofo americano que escreveu belo livro sobre o assunto. Recorri também a Crawford, um intelectual que foi para a oficina de motos onde sabia que iria encontrar saberes tão ou mais desafiadores que os que havia enfrentado m seu doutorado de filosofia política.

Insisto muito na atenção que deve merecer o saber do trabalho. Mas, sei que quase nunca consigo sensibilizar  pessoas formadas sob a influência de Descartes, que acham óbvia a divisão mente/corpo e que sempre, em educação, falam em teoria e prática como instâncias apartadas na vida.

Voltei ao tema porque acabo de ler um belíssimo trecho de A Caverna, do Saramago, que aborda a relação mão e cérebro pontuando todos os aspectos que julgo essenciais. E o grande escritor português faz isso de uma maneira fantástica.

No trecho a que me refiro, Saramago comenta as primeiras tentativas de um oleiro que começa a dar formas a figuras (bonecos) que até então não fabricara. E o escritor, a partir de manipulações com intenções de dar formas pensadas à argila, desenvolve um texto de inegável valor epistemológico.

Em outra ocasião pretendo examinar cada um dos aspetos sugeridos pelo escrito do grande romancista lusitano. Por agora, contento-me em divulgar o que ele escreveu:

Na verdade, são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada uma dos dedos das mãos, algures entre falange, falanginha e falangeta. Aquele outro órgao que chamamos cérebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro do crânio e que nos transporta a nós mesmos para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir senão intenções vagas, difusas, sobretudo pouco variadas, acerca de que as mãos e os dedos deverão fazer. Por exemplo, se ao cérebro da cabeça lhe ocorreu a ideia de um pintura, ou música, ou escultura, ou literatura, ou boneco de barro, o que ele faz é manifestar o desejo e ficar depois à espera, a ver o que acontece. Só porque despachou uma ordem ás mãos e aos dedos, crê, ou finge crer, que isso era tudo quanto se necessitava para que o trabalho, após umas quantas operações executadas pelas extremidade dos braços, aparecesse feito. Nunca teve a curiosidade de se perguntar por que razão o resultado final dessa manipulação, sempre complexa até nas suas mais simples  expressões, se assemelha tão pouco ao que havia imaginado antes de dar instrução às mãos. Note-se que, ao nascermos, os dedos ainda não têm cérebros, vão nos formando pouco a pouco com o passar do tempo e o auxílio daquilo que por eles é visto. Por isso que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no cérebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, seja o que for que signifiquem sobrenatural, mágico e infuso, foram os dedos e seus pequenos cérebros que lho ensinaram. Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhes sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. Só muito tempo depois o cérebro compreendeu que daquele pedaço de rocha se poderia fazer uma coisa  a que se chamaria faca e uma coisa a que se chamaria ídolo. O cérebro da cabeça andou toda vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tato, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro… (SARAMAGO, José. A Caverna. Companhia das Letras: São Paulo, 2.000, p. 85-86)

 

 

A melhor escola…

dezembro 28, 2018

A melhor escola é a que fica mais perto de casa e à qual os alunos chegam andando. Essa é minha opinião. Também é a opinião de Francesco Tonucci.

Crise na escola

dezembro 28, 2018

Entrevista com Francesco Tonucci.