Archive for the ‘Filosofia’ Category

Onde está a verdade?

novembro 2, 2016

 

Há um belo desenho animado produzido pelo National Film Board of Canada que eu usava muito em minhas aulas de filosofia para começar uma conversa sobre conhecimento. Procurei versão do mesmo no Youtube. Não encontrei. E não consegui trazer para cá a versão que pode ser encontrada no site do NFBC. Por isso faço indicação de link onde interessados poderão ver o filme. para tanto, cliquem aqui.

Depois que os alunos viam “E”, eu lhes dava um exercício para que comentassem que aspectos do filem poderiam ser considerados tendo em vista a ideia de verdade. E no final eu distribuía minha versão que é a que segue.

Conhecimento e Realidade
Reflexões sobre É

Jarbas N Barato
Usjt/2004

O filme É apresenta uma idéia de senso comum: o grande É colocado no parque é reproduzido por pequenos és na cabeça das pessoas. Aparentemente não se usa o conhecimento já existente para interpretar a nova informação. Ou seja, a idéia de conhecimento presente no filme é a de que o nosso saber é resultado de cópias mentais daquilo que nossos sentidos percebem. Esse modo de ver o conhecimento é chamado de “teoria da página em branco”. O que isso quer dizer? Muita gente entende o conhecimento como conteúdo que pode ser impresso na mente (página em branco) das pessoas. O grande educador brasileiro, Paulo Freire, costumava dizer que esse modo de ver o conhecimento produzia uma “educação bancária” . Ou seja, uma educação que entende que a missão da escola é a de depositar o saber pré-existente na cabeça (vazia) dos alunos.

O filme tem outros detalhes sobre os quais vale a pena refletir. Quase todo mundo vê a imagem da nova estátua e a lê como é. Há, porém, um senhor que lê o É de modo diferente. E mesmo com toda a insistência dos outros leitores, ele não consegue ver aquela figura como um E. Mas um cientista encontra a solução: um par de óculos. Com a visão corrigida, o tal cidadão passa a ver o mundo como os demais. Onde estava o problema? Numa visão incorreta? Se for isso, podemos nos perguntar se a tarefa da educação é a de corrigir visões incorretas. Os óculos, no caso, representariam, um novo modo de ver o mundo. Com eles, uma pessoa, antes ignorante, teria os olhos abertos para a “realidade”. Mas ainda ficam perguntas: como calcular a graduação correta da lente para que o ignorante possa ver o novo conhecimento sem erro ou desvio? Ou, sendo bastante radical, quem tem a visão correta nesta história?

Tudo parecia resolvido em É até aparecer o rei. Ele não vê um é na estátua, vê um b. Consternação geral. Todo mundo quer ajudar. O povo insiste. O cientista mostra o caminho, oferecendo os óculos para Sua Majestade. Fica a sensação de que o problema foi resolvido: o rei está vendo o é. Mas, não. O rei continua com sua primeira opinião, apesar de todas as informações que o povo lhe deu e dos óculos que lhe foram fornecidos. E para complicar as coisas, o monarca quebra os óculos. Essa atitude sinaliza a proibição de uma visão diferente ou corrigida. Fica proibido o uso de óculos. Ou seja, fica proibida a visão discordante do pensamento real.Começa a imperar um conhecimento imposto.

A maneira de impor certo modo de ver em É é interessante. Os guardas chamados pela segurança do monarca mudam na pancada as representações que as pessoas tinham em suas cabeças. Isso mostra que não basta impor um modo de pensar, é preciso mudar nos agentes de conhecimento modos de ver o mundo. É claro que um “papagaio” sempre pode falsificar as coisas.

Destes comentários é possível estabelecer algumas conclusões:

O conhecimento, ao contrário da idéia da mente como uma folha em branco, é constituído pela nossa percepção do mundo interpretada a partir de nossos saberes anteriores.
Apesar das diferenças entre as pessoas, há uma boa chance de que elaboremos representações bastante parecidas de um mesmo objeto.

Vez ou outra aparecem visões diferentes. Elas podem ser “corrigidas” para que seus autores passem a ver como a maioria. Isso implica grande mudança e necessidade de algo para auxiliar as pessoas a terem novas visões.

Mudanças profundas de visão exigem transformações significativas no nível das representações mentais.

Ficam algumas perguntas:

É fácil ou difícil obter mudanças profundas nos modos de ver o mundo?

Temos o direito de operar tais mudanças?

A educação muda modos de ver o mundo?

Anúncios

Aventura da Busca

setembro 25, 2016

 

Em minhas aulas de filosofia, eu costumava começar o tema da busca (epistemologia) com essa belíssima canção de Silvio Rodriguez: El Unicornio Azul. Não sei se meus alunos embarcavam em aventuras de busca com a gana e dedicação proposta por Silvio. Mas, de uma coisa tenho certeza, eles tinham oportunidade de ouvir boa música.

Racismo e peanuts

dezembro 21, 2015

Hoje vi na TL da Chris Boese essa imagem:

racismo

Não sei se o desenho é original ou se é uma versão para mostrar um forma sutil de racismo. Franklin, o menino negro, foi introduzido na tira após reiterados pedidos da professora Harriet Glickman. Se for um original há duas hipóteses de leitura da imagem: (1) Charles Schulz fez uma crítica social muito sutil; (2) o desenhista foi vítima inconsciente de seus preconceitos.

Acho que esse desenho pode ser utilizado em exercícios de leitura de imagens para que os alunos desenvolvam senso crítico no exame de peças de comunicação de massa.

Conhecimento e verdade: uma avaliação diferente

dezembro 3, 2015

Em meus tempos de professor de filosofia em cursos de comunicação social, fiz várias experiências para deixar de lado a sisudez nas abordagem de temas filosóficos. Inventei. Experimentei. Acertei. Errei. Foi uma aventura interessante. Para muitos alunos, surpreendente. Para alguns, incômoda.

Tentei inovar no desenvolvimento de aulas, na solicitação de trabalhos para os alunos, na avaliação. Revendo meus guardados, encontrei uma avaliação que quero compartilhar com interessados e talvez com algum ex-aluno que passe por aqui.

Em meu programa, dei destaque à epistemologia. Em comunicação social fala-se muito em verdade, em verificação, em fidelidade aos fatos. Presume-se que o povo da área de comunicação social tem a verdade como um de seus compromissos mais sagrados. Por isso, julguei que meus alunos deviam ter uma iniciação em epistemologia.

Depois de oito aulas sobre epistemologia, sempre relacionando essa disciplina filosófica com os fazeres dos profissionais de comunicação, achei que deveria realizar uma avaliação. Não uma prova sobre o que é, quais são as partes de, escreva sobre etc. Resolvi que uma técnica de escrita criativa, a redação cooperativa, poderia ser um modo interessante de verificar o que sabiam meus alunos. Segue aqui o que fiz.

 

Atividade de Avaliação
Filosofia nos cursos de comunicação social
Universidade São Judas Tadeu

Professor Jarbas Novelino Barato

 

Em oito aulas fizemos diversos exercícios com a finalidade de examinar problemas relacionados com epistemologia, disciplina filosófica que estuda a questão do conhecimento. Examinamos principalmente situações que podem nos ajudar a refletir sobre a verdade. Já é hora de verificar como as coisas vão indo. Será que já temos algumas ideias mais claras com relação ao nosso conhecimento?
Procuramos, ao analisar questões do conhecimento, articular nossas reflexões com dois conceitos muito importantes para profissionais de comunicação social: informação e comunicação. De certa forma, um e outro conceito é sinônimo de conhecimento. Um e outro é representação de objetos, situações, ideias.
Mas, chega de conversa sobre o que rolou até agora. A proposta é fazer uma avaliação. Para que? Para ver como os alunos estão percebendo questões epistemológicas. Para ajudar o professor a melhor planejar o que vem pela frente.
Proposta de avaliação
Vocês não farão um teste. Nem darão respostas para uma série de questões. Esta avaliação é diferente. Elaborei uma proposta de redação cooperativa, a partir do início de uma história. Muitos de vocês já fizeram exercício de redação cooperativa. Lembram-se da história da Cotovia e os Sapos? Agora a redação merece um pouco mais de capricho. Ela servirá de elemento de verificação de aprendizagem (a popular avaliação). Vejam, a seguir, o que será feito:

1. Cada um de vocês continuará a história no ponto em que ela parou. Se não pudermos fazer a avaliação em laboratório, caprichem na letra, por favor.
2. Será considerada a redação cooperativa com participação de cinco alunos.
3. A cada dez minutos, as folhas de redação (ou telas Word) mudarão de mãos . Essas mudanças serão determinadas pelo professor.
4. Quando a redação estiver concluída (ou quando o professor determinar o fim da atividade), cada grupo deverá escolher a melhor história que elaborou. Apenas esta será considerada para efeitos de avaliação.
5. A história que será apresentada a seguir tem como personagem central uma senhora chamada Verdade. Na continuação da narrativa (obra de vocês), essa senhora deverá encontrar-se com os seguintes personagens:
• Percepção
• Razão
• Poder
• Interesse
• Pensamento
• Representação
• Epistemologia
• Erro ou engano
• Ciência
• Informação
• Comunicação
• Racionalismo
• Empirismo
Não se esqueçam de registrar nomes e RA dos autores na medida em que a redação for se desenvolvendo.
O ponto de partida para todos os grupos é o texto que segue.

 

Dona Verdade Chegou
Ela é uma senhora. Bonita. Vivida. Bem humorada. Nasceu muito longe, numa outra galáxia. E ninguém sabe por que ela resolveu fixar residência no planeta Terra. Ah! O nome dela? Dona Verdade.
Faz alguns anos que Dona Verdade anda por aqui. Já visitou todos os países. Já participou de muitos eventos históricos. Sempre desejou ser bem conhecida, mas, numa entrevista, declarou que muita gente sequer olha para ela. E tudo que ela quer é estar presente na vida de todos.
Nos últimos tempos, Dona Verdade parece muito preocupada. Na maior parte dos lugares por onde passa ninguém lhe dá a mínima. Ela até andou pensando que o problema é de aparência. “Talvez eu esteja ficando velha”, pensou a bela senhora. Considerou fazer uma plástica e até uma lipo. Porém, depois de muito pensar, ela chegou a uma conclusão terrível. Ninguém mais a vê. Ela ficou invisível.
As coisas precisam mudar, pensa Dona Verdade. Para tanto, ela começou a conversar com seus vizinhos, amigos e conhecidos dos velhos tempos: pensamento, percepção, razão etc. Ela acha que vai encontrar um modo de recuperar a visibilidade.
Começou assim uma grande aventura. No fim desta história saberemos se Dona Verdade tem chances de recuperar sua visibilidade.

Epistemologia, metodologia científica e percepção

setembro 14, 2012

Há um pressuposto importante quando falamos em conhecimento. O que sabemos tem como uma de suas bases o modo pelo qual percebemos o mundo.

Na linguagem comum, quase sempre, reduzimos percepçâo à visão. Diante de alguma questão sobre o saber, é comum a pergunta: “como você vê isso?”. Não falamos em percepção do mundo, falamos em visão do mundo.

As considerações aqui introduzidas de modo telegráfico surgiram a partir de comentário feito por minha amiga Ivete Palange a uma mensagem que postei no Facebook. Em tal mensagem, indiquei uma história clássica do folclore mundial que recontei num blog, provocando minhas alunas para pensarem sobre epistemologia. A história que recontei é a dos cegos que examinaram um elefante e, de acordo com sua percepção, formularam definições muito diferentes para o bicho. No final deste post vou copiar minha versão da história. Antes disso, copio o comentário da Ivete:

Adorei ser apresentada a ilustres docentes/sábios de Ray Ban. Conhecer depende de referências, intuição e sentidos. Questão que não quer calar: por que os sábios somente usaram o tato e não o olfato e a audição?

De imediato, escrevi no Face a seguinte resposta para minha amiga:

Ivete Palange, levanta aqui uma questão interessante em metodologia da pesquisa. Em termos mais gerais, a questão que ela levanta tem a ver com entendimentos epistemológicos em suas relações com a percepção. Equiparamos “conhecer” a “ver”. Quando enfatizamos abordagens empíricas, a necessidade de “medidas”, quase sempre, ficam reduzidas a espectos que passam pelo tato. Olfato e gosto ficam de fora. Escrevi um pouco sobre isso numa resenha que fiz sobre o livro The Philosophy of Wine.

Se foi até o link indicado para The Philosophy of Wine, você viu que as reflexões epistemológicas ignoram alguns dos nossos sentidos. Ao que tudo indica, a epistemologia tradicional não consegue acomodar gosto e olfato como referências para o saber.

Neste post não pretendo desenvolver mais as questões levantadas. Minha preocupação é apenas a de fazer um registro e oferecer, para quem se interessar, algumas notas para conversas sobre conhecimento e metodologia científica. Por isso, passo de imediato para o fragmento final que quero deixar registrado aqui: a história dos cegos e do elefante, na versão que recontei para minhas alunas em 2007.

 Havia antigamente, no norte da Índia, uma cidade cujos habitantes eram todos cegos desde o nascimento. Mas, apesar de não poderem conhecer o mundo iluminado pelo sol, os cegos de Ray Bhan (pois é… esse era o nome da cidade) queriam ter idéias claras de tudo o que existe no mundo. Por isso, a URB (Universidade de Ray Bhan) sempre mandava equipes de pesquisadores para estudos em todas as partes do planeta. Foi assim que começou a aventura de seis sábios de Ray Bhan enviados ao Ceilão. A missão deles incluía estudos sobre o chá, os búfalos, as areias de praias do Oceano Índico etc. Mas a tarefa mais emocionante que receberam foi a de descobrir o que era um elefante. E a pesquisa desses seis estudiosos de Ray Bhan sobre o famoso paquiderme virou história. Talvez você a conheça. Mas, eu quero recontá-la, pois ela nos diz muito sobre meios e modos do conhecer. É um clássico mundial de epistemologia.

Um guia de elefantes trouxe para estudo dos sábios seu bicho mais bonito, um animal de sessenta anos, grande, forte e saudável. A equipe de Ray Bhan usou seu preciso e fino tato para examinar o bicho. Os sábios analisaram profundamente aquele magnífico animal. Depois do exame, cada pesquisador procurou oferecer uma definição bem fundamentada de elefante.

— Dizia um: Que bicho esquisito! Nunca apalpei nada igual. Parece uma coluna coberta de pêlos!

— Você está variando? Coluna que nada! Elefante é um enorme abano, bom para espantar o calor! Dizia um outro cientista da URB.

— Qual abano, colega! Elefante é uma adaga ou uma espada. Uma arma poderosa, dizia o terceiro pesquisador. Seu tato anda falhando…

— Vocês estão todos enganados, caros colegas, dizia o quarto pesquisador. O bicho não é arma, não é espada, não é coluna. É apenas uma corda viva, não muito comprida.

— Quanta ignorância, doutores! Como é que vocês não perceberam que o elefante é uma enorme e poderosa serpente capaz de derrubar até árvores? Essa era a linha de pesquisa do quinto investigador.

— Colegas! Espanta-me a ignorância de vocês. Apesar de muita prática de pesquisa, não perceberam que o elefante é uma enorme montanha que se move? Assim argumentava o sexto sábio.

E a discordância continuou durante os muitos dias de viagem na volta para Ray Bhan. Não houve acordo. Por isso, na enciclopédia da URB há seis definições de elefante. Uma conflitando com a outra. E até hoje os habitantes de Ray Bhan não têm uma idéia definitiva do que vem a ser bicho tão afamado.

Morais da história:

Aqui estão duas morais da história fornecidas por um dos narradores da famosa aventura dos pesquisadores cegos de Ray Bhan:

Quando algo é tido como verdade, o que é diferente parece mentira.

Se você for falar sobre um bicho para uma pessoa que nunca viu um, melhor fazer com que ela o veja primeiro.

Gostou? Agora é sua vez. Mande seu comentário na forma de duas outras morais para a história dos cegos e do elefante.

Moralidade privada X moralidade pública

maio 14, 2012

Já não dou aula de ética. Se estivesse na ativa, certamente usaria o vídeo aqui mostrado em minhas aulas. Problemas de moralidade privada invadem o espaço público e políticos oportunistas se fingem de santos para ganhar votos de gente que gosta de impor seus valores aos demais. Não preciso falar muito sobre o assunto, ele sempre volta à baila a cada campanha eleitoral. Vamos ao vídeo.

Epistemologia heideggueriana de Paulino da Viola

fevereiro 13, 2012

No post passado, exemplifiquei atividade de transformação de informação (direção síntese>expansão), sugerindo verso de Paulinho da Viola como ponto de partida para conversas sobre conhecimento. Pra quem sabe um pouco de filosofia, o verso de Paulinho pode ser ilustração para entendimento de ser-no-mundo como conhecimento das coisas que está na base do saber humano. Um livro para se ler aqui é Designing Technology in the Postmodern Age.

O post passado ainda deve estar fresco, mas não custa repetir aqui o verso de Paulinho da Viola:

As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.

Se alguém estiver interessado em se inspirar na experiência de transformação de informação que já experimentei com alunos meus de epistemologia, segue aqui a referência filosófico-musical:

http://letras.terra.com.br/paulinho-da-viola/204148/

Método anárquico

fevereiro 13, 2012

Nos meus últimos anos de sala de aula, investi bastante numa sugestão de dois amigos: Steen Larsen e Bernie Dodge. De maneiras distintas, ambos insistem na idéia de que a melhor forma de aprender é aquela que exige transformação de informação. Isso parece um preceito acaciano. Ledo (e Ivo) engano. As práticas educacionais, mesmo de gente que talvez acredite nas propostas de Larsen e Dodge, são caracterizadas por simples reprodução de informação, na direçao daquilo que Paulo Freire chamava de educação bancária.

Predomia no cenário educacional uma abordagem cujas palavras chaves são programa e matéria. O programa lista um conjunto de conteúdos que serão dados (surpervisores zelosos estão sempre  a conferir os diários de classe para saber se os professores estão cumprindo o programa!). A matéria é um conteúdo claramente definido que o professor entrega em pequenas doses (as aulas) aos alunos. Em períodos previamente definidos, os professores conferem por meio de provas se os alunos são capazes de reproduzir (há críticos ranzinzas que usam o verbo vomitar em vez de reproduzir) a matéria dada (dar matéria sempre foi uma expressão que me incomodou).

Não é fácil sair do reprodutivismo. Em parte porque os alunos no geral esperam que os professores deem matéria. Em parte porque dar matéria é uma atividade confortável para os docentes (vi muitas vezes, em locais onde trabalhei como  docente, quadros negros repletos de matéria, apresentada de modo muito organizado e com letra pedagógica). Para os aluno, matéria dada é uma segurança pois é “o que vai cair na prova”. Para os professores dar matéria, às vezes na forma de ditado, é uma atividade que não requer muito esforço e imaginação, além de funcionar como um modo seguro de exercer autoridade docente (“o mestre falou”).

Criar ambientes e desafios que podem favorecer transformação de informação é trabalhoso, exige imaginação, pode criar supostos problemas de disciplina, e nem sempre é caminho aceito pelos alunos.

Transformações de informação são favorecidas por  atividades que exigem trânsito de uma para outra forma de expressão. No geral ocorrem em desafios que solicitam produção de música, teatro, poesia, vídeo ou foto para sintetizar exposições encontradas num texto. Podem ocorrer também quando se solicita elaborar algo criativo a partir de um texto sintético.  Neste último caso, o que ocorre é uma expansão, não síntese de uma saber. Forneço um exemplo para tornar mais claro o que entendo por expansão. Em conversas sobre o conceito de conhecimento, uma atividade bem interessante é a de convidar os alunos para, em grupos, elaborarem algo criativo – geralmente uma teatralização com cinco minutos de duração, mostrando seu entendimento quanto ao seguinte verso de Paulinho da Viola : as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.

Minhas propostas de transformação de informação resultavam em apresentações entusiasmadas, criativas, bem humoradas, quase sempre barulhentas. Daí minha chamada para método anárquico. Os resultados, para alguns alunos e para coordenadores, poderiam ser vistos como aulas anárquicas, sem clareza, bangunçadas. Mas, insisti. Ás vezes acertei. Às vezes errei. Para docentes, propostas de transformação de informação são muito exigentes. De um lado, requerem muita criatividade. De outro, demandam trabalho árduo para vender o peixe para os alunos.

Uma coisa que sempre me surpreendeu em atividades de transformação de informações foi a imensa capacidade criativa dos alunos. Essa é uma riqueza que muitos profesores ignoram. Nos dias de hoje, há um número expressivo de alunos que utiliza com muita competência ferramentas digitais. Formas de expressão que envolvem foto, imagem, som e vídeo são praia da moçada. Talvez os alunos de hoje não escrevam bem (insisto no talvez), mas sabem se expresar muito bem no mundo ao qual Daniel Boorstin deu o nome de Sociedade da Imagem.

De vez em quando, ex-alunos meus se lembram de trabalhos de transformação de informação feitos alguns anos atrás, principalmente quando há registro do evento na internet. Fico orgulhoso. Afinal quem é que se lembra de um paper escrito para cumprir tabela (geralmente textos gerados em parceria com titio Google)? Ou, quem é que se lembra daquela prova semestral da disciplina X? Memórias de  trabalhos escolares são um sinal de que alguma coisa ficou, apesar da anarquia de produção e apresentação.

Este post foi motivado por uma mensagem publicada hoje no Face Book pelo meu ex-aluno Cauê, comentada por outro ex-aluno, José Roberto. Eles se referem à apresentação musical-poética, ocorrida nos idos de 2010, sobre O Amor capítulo de Cultura de Massas no Século XX, obra fundamental de Edgar Morin para o povo da área de comunicações. Vejam um dos resultados de meu esforço metodológico, com alunos que gostam de uma boa anarquia.

Dona Verdade: tema de redação cooperativa

junho 13, 2011

Em 2009, para verificar como andava o desenvolvimento de conceitos no campo da Epistemologia, propus a meus alunos um exercício que deveria ser feito num processo de redação cooperativa.

Tal processo começa com um trecho escrito pelo professor. Os alunos se dividem em grupos de cinco e dão continuidade ao escrito. A cada parágrafo escrito, os alunos mudam de computador e continuam a história no ponto em que esta parou. Na quinta troca será preciso dar um fecho para o escrito. Com isso, chega-se à produção de cinco histórias diferentes. Cada grupo examina os resultados e decide qual das histórias ficou melhor. A história escolhida passa a ser o texto “oficial” do grupo. É essa história que deve ser entregue ao professor ou divulgada para conhecimento de toda a classe.

Fiz a introdução acima para solicitar um favor a leitores do Boteco Escola. Vou reproduzir aqui o começo da história que utilizei em exercício com meus alunos. Quem quiser e puder poderá me ajudar continuando a história em comentário para este post. Alguém mais organizado pode até propor uma redação que conte com a colaboração de outras pessoas conhecidas.

Espero que a proposta esteja clara. Aqui vai o trecho inicial de nosso exercício:

Dona Verdade Chegou

Ela é uma senhora. Bonita. Vivida. Bem humorada. Nasceu muito longe, numa outra galáxia. E ninguém sabe por que ela resolveu fixar residência no planeta Terra. Ah! O nome dela? Dona Verdade.

Faz alguns anos que Dona Verdade anda por aqui. Já visitou todos os países. Já participou de muitos eventos históricos. Sempre desejou ser bem conhecida, mas, numa entrevista, declarou que muita gente sequer olha para ela. E tudo que ela quer é estar presente na vida de todos.

Nos últimos tempos, Dona Verdade parece muito preocupada. Na maior parte dos lugares por onde passa ninguém lhe dá a mínima. Ela até andou pensando que o problema é de aparência. “Talvez eu esteja ficando velha”, pensou a bela senhora. Considerou fazer uma plástica e até uma lipo. Porém, depois de muito pensar, ela chegou a uma conclusão terrível. Ninguém mais a vê. Ela ficou invisível.

As coisas precisam mudar, pensa Dona Verdade. Para tanto, ela começou a conversar com seus vizinhos, amigos e conhecidos dos velhos tempos: pensamento, percepção, razão etc. Ela acha que vai encontrar um modo de recuperar a visibilidade.

Começou assim uma grande aventura. No fim desta história saberemos se Dona Verdade tem ou não chances de recuperar sua visibilidade.

Filosofia do corpo

junho 13, 2011

Faz algum tempo que li The Meaning of the Body. de Mark Johnson. A obra é um livro de filosofia que procura caminho diferente do modo hegemônico de pensar, cartesiano, dualista. Uma filosofia do corpo, que sugere abandono de pares antitéticos como mente/corpo, corpo/alma, material/espiritual, teórico/prático, pode nos indicar mudanças substanciais em modos de ver a vida, a aprendizagem, o conhecimento, a educação.

Minha investigação de doutorado, cuja versão final resultou no livro Educação Profissional – Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho?, foi um estudo que buscava caminhos de superação do pensamento dicotômico no campo da formação profissional. Pena que na época daquele estudo o livro de Mark Jonhson ainda não fora publicado. Ele poderia iluminar muitas das minhas observações sobre modos de entender aprendizagens relacionadas com a técnica, com o trabalho.

Pretendo fazer uma resenha de The Meaning of the Body. Isso vai levar um tempo. Mas, enquanto a oportunidade não chega, vou aguçar curiosidade dos leitores com tradução das duas páginas iniciais do livro de Mark Johnson. Leiam o texto e comecem a pensar na necessiadade de abandonar pares antitéticos como mente/corpo ou teoria/prática.

Mark Johnson

A tese central deste livro é a de que a chamada “mente” e o chamado “corpo” não são duas coisas, mas apenas aspectos de um mesmo processo; assim, todos os nossos significados, pensamentos e linguagem emergem a partir das dimensões estéticas dessa atividade corporal. As dimensões estéticas mais importantes são qualidades, imagens, padrões e processos senso-motores, e emoções. Nas três últimas décadas, acadêmicos e pesquisadores em diversas disciplinas colecionaram uma pilha de argumentos e evidências sobre a corporeidade da mente e do significado. Entretanto, as implicações para tais pesquisas não chegaram à consciência pública. Por isso a recusa do dualismo mente/corpo ainda é uma afirmação  altamente provocativa que muitas pessoas acham improvável e até mesmo ameaçadora. Examinar nossa corporeidade é uma das mais profundas tarefas filosóficas que podemos confrontar. Reconhecer que cada aspecto do ser humano está assentado em formas específicas do nosso engajamento corporal com o meio ambiente requer um repensar exigente de quem e o que nós somos, de uma maneira que contraria muito várias tradições religiosas e filosóficas que herdamos da cultura ocidental.

Para ver o que essa reconceptualização significa, considere o que segue. As mais avançadas idéias em biologia, psicologia, neurociência cognitiva e fenomenologia nos dizem que formas humanas da experiência, consciência, pensamento e comunicação não existiriam sem nossos cérebros, as quais, por sua vez, estão ativamente engajados com os ambientes físicos, sociais e culturais nos quais os humanos vivem. Mudemos nossos cérebros ou nossos ambientes de maneira significativa, e mudaremos como experimentamos nossos mundos, como as coisas são, e mesmo o que nós somos.

A ilusão da mente sem corpo

Compare a tese da corporeidade com a visão de senso comum. Apesar de muitas pessoas não pensarem muito a respeito disso, elas vivem as suas vidas pressupondo e agindo de acordo com um conjunto de dicotomias que distinguem mente de corpo, razão de emoção, e pensamento de sentimento. O dualismo mente/corpo está tão profundamente enraizado nas nossas tradições filosóficas e religiosas, nos nossos sistemas conceituais compartilhados, e na nossa linguagem que ele parece ser fato inescapável da natureza humana. Uma manifestação hegemônica desse dualismo em muitas de nossas práticas éticas, políticas é religiosas é o pressuposto de que possuímos um livre arbítrio radical, independente de nossos corpos e capazes de controlá-los. Nós postulamos um eu “superior” (a parte racional) que deve exercer o controle do eu “inferior” (corpo, desejo, emoção). Nós pressupomos que cada um de nós tem um núcleo interior (o “verdadeiro eu”, a “alma”) que transcende nosso seu situado corporalmente. Nós acreditamos na idéia de que o pensamento é uma atividade conceptual pura que transcende o corpo, mesmo quando nós compreendemos que não há pensamento sem um cérebro.

Essa ilusão hegemônica de uma mente, pensamento e significado incorpóreos é explorada de forma muito bonita pelo poeta americano Billy Collins que desmascara nosso sonho de um pensamento puro, mostrando que podemos pensar e imaginar apenas por meio de nossos corpos.

PUREZA

Meu tempo favorito para escrever é o da tarde,

Em dias de semana, particularmente as quartas feiras

Eis aqui como atuo:

Pego uma xícara de chá e vou para o escritório, fecho a porta

Tiro então toda a minha roupa e coloco peça sobre peça

e tudo se passa como se eu tivesse derretido e minha herança fosse apenas

uma camisa branca, uma calça e uma xícara de chá

Depois removo minha carne e a penduro numa cadeira

Eu a removo de meus ossos como se ela fosse um tecido de lã

Faço isso para deixar puro tudo o que escrevo

Completamente limpo de tudo que é carnal

Sem qualquer contaminação vinda doe preocupações do corpo

Finalmente eu retiro meus órgãos

E os acomodo numa mesinha perto da janela

Eu não quero escutar seus antigos ritmos

Quando tento criar ritmos com meu próprio tamborilar

Sento então diante da mesa, pronto para começar

Estou completamente puro, nada mais que um esqueleto e um teclado

Devo observar que algumas vezes deixo o meu pênis

Acho difícil vencer a tentação

Sou então um esqueleto com um teclado e um pênis

Nessa condição escrevo poemas extraordinários de amor

Muitos deles explorando as conexões entre sexo e morte

Sou a própria concentração: existo num universo

Onde nada mais há que sexo, morte e teclado

Depois de expressar isso, removo também  meu pênis

Sou então um crânio e ossos digitando tarde afora

Apenas o absolutamente essencial, nada supérfluo

Agora só escrevo sobre morte, o mais clássico dos temas

Numa linguagem leve como o ar entre minhas costelas

Depois disso, permito me recompensar com uma volta de carro pelas redondezas

Recoloco meus órgãos e visto minha carne de novo

Assim como minha roupa. Tiro o carro da garagem

E dirijo através dos bosques por estradas do campo

Passando por muros de pedra, casas de fazenda, e lagoas geladas

Todos arrumados como palavras num soneto famoso

Ah! Como seria bom se a mente pudesse flutuar liberta de seu peso carnal, pensando pensamentos puros das coisas corretas, eternas e boas.