Archive for the ‘Educação e Trabalho’ Category

Formação de professores em educação profissional

março 3, 2016

ensino medio unescoEm 2008, participei de um simpósio organizado pela UNESCO para abordar o ensino médio integrado. A organização me pediu para introduzir a questão de formação de professores em educação profissional. Minha intervenção aconteceu numa fala breve, cujo texto foi publicado no livro que registra o citado simpósio: Ensino Médio e Educação Profissional: Desafios da Integração. Minha fala aparece a partir da página 202, sob o titulo “O saber do trabalho e formação de docentes.

No mesmo livro, há um capítulo que aborda os eixos centrais do simpósio: “Juventude, trabalho e educação: balanço interpretativo do simpósio”, texto que escrevi por solicitação da UNESCO. (cf. página 247 e seguintes).

Meus textos podem ser lidos no livro disponível na internet para leitura e cópia (repito o link,interessados podem clicar aqui). Mas, para quem quiser ler apenas minhas provocações sobre a formação de mestres em educação profissional, reproduzo aqui o pequeno texto que registra minha participação no simpósio:

 

O SABER DO TRABALHO E A FORMAÇÃO DE DOCENTES

Comentarista:
Jarbas Novelino Barato

Se o trabalho é concebido como princípio orientador da ação educativa, a atividade docente relaciona-se à natureza do aprender a trabalhar e não importa muito se isso acontece no ensino médio integrado ou concomitante, no ensino profissional pós-secundário e na qualificação.
Vou procurar ser breve, apresentando aqui algumas ideias sobre aprendizagem e trabalho com a intenção de provocar discussão.

TRABALHO E MERCADO

Cláudio Salm, em sua tese de doutorado, fez um reparo importante sobre a mania de se propor uma escola congruente com o mercado de trabalho. Ele observa que o capital usa a escola de acordo com seus interesses. Toda tentativa de estruturar uma escola congruente com o
mercado de trabalho é um esforço vão. Sempre que precisar, o capital mudará critérios, ignorando a escola que supostamente foi organizada de acordo com seus interesses. Para o capital, o que importa são as suas conveniências; e ele usa a escola de acordo com estas, não importando os planos que os educadores tenham feito para adequar educação a mercado.

O SABER NO E DO TRABALHO

Para se contrapor a uma educação orientada para o mercado e por ele, é preciso pensar em uma formação profissional voltada para o saber no e do trabalho. O saber do trabalho é uma questão pouco estudada, despertando quase nenhum interesse nos meios acadêmicos. Esta é, pelo menos, minha experiência pessoal. Tive dificuldades no doutorado, quando procurei discutir o saber que se constrói no interior das atividades produtivas.

Em conversas com minha orientadora e outros pesquisadores da universidade, eu tentava chamar atenção para detalhes que acontecem no interior do trabalho. Um dia, relatei minhas observações sobre a técnica de enrolar cabelos, mostrando a dinâmica do conhecimento exigido por esta prática profissional. A reação dos meus ouvintes foi de completo desinteresse e alguma complacência.

SABER DO TRABALHO E CIÊNCIA
No documento escrito pelo professor Amin Aur, há alguns registros que dão a impressão de que ciência e tecnologia geram o trabalho e sem elas este não teria sentido. É preciso considerar com mais cuidado essa noção quase hegemônica nos meios educacionais, porque o trabalho nasce antes da ciência. Nós somos o que somos e até fazemos ciência porque trabalhamos.

SUPOSTA IGNORÂNCIA DE ALGUMAS PROFISSÕES

Outra preocupação muito pessoal, biográfica, e que sempre tive receio de discutir com meus colegas da academia, é a de que existe uma perspectiva de julgar alguns trabalhos como embrutecedores, como atividades que exigem pouca ou nenhuma inteligência.
Há dois trabalhos sempre citados e tidos como embrutecedores em dois países diferentes: garçonete, nos Estados Unidos, e pedreiro, no Brasil.

Em ambos os casos, parece que as atividades dos citados profissionais são trabalhos sem inteligência. Garçonetes e pedreiros são vistos como gente que não sabe o que faz, nem tem ideia do próprio saber de seu trabalho.

Vale aqui lembrar um caso clássico: a história de Schmidt, o trabalhador instruído por Taylor para executar movimentos de acordo com critérios da organização científica do trabalho. Schmidt é caracterizado como alguém de inteligência limítrofe, mas esse “bruto”, na ocasião em que era instruído por Taylor, estava construindo a própria casa. Sabia fazer cálculos, sabia quanto de sua renda podia gastar para comprar material, sabia lidar com eletricidade, sabia muitas técnicas de construção. Não era o “bruto” que Taylor nos quer fazer crer.

Não tenho tempo para desenvolver as questões que apresentei de forma resumida e, supostamente, provocativa. Quero apenas deixar uma mensagem com base nelas: precisamos rever a questão do saber do trabalho.

O que tudo isso tem a ver com docência em educação profissional? Tem muito, pois o modo pelo qual os professores veem o saber no trabalho tem consequências na docência, na escolha de conteúdos, na escolha de enfoques didáticos.

A última provocação: sempre se afirma que os professores que vão trabalhar com educação profissional precisam fazer complementação pedagógica, caso contrário, não farão um bom trabalho didático, não darão boas aulas. Não tenho tanta certeza disso, pois acho que algumas complementações pedagógicas pioram o desempenho destes professores.

É interessante notar que ninguém fala em complementação laboral para professores no campo da formação profissional. Afinal de contas: como é que professores que nunca saíram da escola podem desenvolver sensibilidade necessária para adotar o trabalho como princípio pedagógico?
Educadores não costumam pensar nisso, mas se apressam em falar na necessidade de complementação pedagógica para profissionais que não passaram por faculdades de Educação. Tais complementações, em geral, ignoram as dinâmicas do aprender no interior das atividades produtivas. Ignoram as dinâmicas do saber, da elaboração do conhecimento que se estrutura no fazer cotidiano do trabalhador, e impõem uma didática nascida de práticas com conteúdos acadêmicos. Por causa disso, acho importante uma “complementação laboral”, lembrando uma observação que ouvi de José Carlos Peliano: “De vez em quando é preciso conhecer com as mãos e não apenas falar sobre uma coisa”.

Ao ler o documento elaborado pelo professor Amin, observei algumas coisas que estão sempre acontecendo, quando se fala em formação de professores na junção ou na encruzilhada entre educação e trabalho. Vou listá-las aqui, na esperança de que minhas observações possam merecer discussões.
• Às vezes há um entendimento de que, se a pessoa se concentra na técnica, está, sendo adestrada, pois aprende apenas a prática.
• A dualidade entre teoria e prática continua, mesmo quando se pensa em integração. Os professores da parte de educação profissional acabam sendo classificados de modo diferente dos demais docentes. O trabalho que fazem, como professores, é visto como uma atividade inferior à “formação científica”; seus salários e a forma do contrato de trabalho denunciam um tratamento que os considera professores de segunda categoria; a proposta de complementação pedagógica que lhes é imposta ignora sua experiência profissional.

Docentes da parte profissional são, muitas vezes, pessoas com pouca formação escolar e grande experiência em sua área de trabalho. Conheci um professor de cozinha que dizia querer aprender pedagogia. Assisti a algumas aulas dele e conclui que quem tinha de aprender era eu. Do ponto de vista de organização de um curso dentro de uma cozinha, ele tinha um domínio de espaço e de tempo que nenhum curso de complementação pedagógica lhe daria.

Quase sempre, ao propormos complementação pedagógica, padecemos de uma cegueira que não é evidente: não conseguimos ver o conhecimento que se estrutura no fazer das profissões que supostamente queremos ensinar. Os próprios trabalhadores chamados para exercer docência costumam desconsiderar o conteúdo do trabalho de suas profissões de origem, pois estas são desqualificadas pela sociedade. Muitos fazeres são vistos como trabalho simples, banal, bruto. São, por isso, invisíveis; e invisíveis também são os profissionais que deles vivem.
• No trabalho do professor, de educação geral ou formação profissional, preocupa-me a invisibilidade do saber do trabalho. Preocupa-me a ideia de que a ciência e a tecnologia possam explicar integralmente o trabalho. Tal visão acadêmica acaba ignorando conhecimentos cuja natureza se forja nos fazeres de uma prática social iluminada pela obra.
• Acho que é preciso sempre se perguntar: qual é o papel do docente quando o trabalho é um conteúdo significativo a ser considerado na educação? Esta pergunta, a meu ver, não deve ser feita apenas em cursos técnicos. Ela vale para qualquer modalidade de educação que tenha como horizonte imediato a formação das pessoas para um trabalho concreto.

Termino, lendo um pequeno trecho da apresentação que fiz para a edição brasileira de uma obra de Mike Rose,O saber do trabalho:

“A riqueza cognitiva do ofício de garçonete tem equivalentes em saberes de cabeleireiros, marceneiros, soldadores, eletricistas e encanadores. Tem também uma mesma sina: é invisível aos olhos dos observadores incapazes de ver o trabalho como desdobramento constante de atos de inteligência. Vale observar que conhecimento invisível é diferente de conhecimento tácito, este visto como um saber não verbalizado que pode emergir a qualquer momento na vida de um trabalhador. O primeiro é um saber do qual o trabalhador tem consciência, mas não evidente para observadores incapazes de examinar as atividades produtivas a partir do olhar de quem as faz. Esta invisibilidade do trabalho lembra outra invisibilidade de grupos humanos, cuja existência é ignorada pelos poderosos. Lembra a invisibilidade do camponês índio do romance Garabombo, o invisível, de Manuel Scorza.”

Insisto: professores envolvidos com formação para o trabalho precisam abrir os olhos para aspectos que permanecem invisíveis para uma boa parte dos educadores. Esses aspectos podem mudar completamente os modos de ver a atuação docente em cursos de formação profissional.
Podem mudar completamente modos de ver a formação de professores.

 

 

 

Educação e Tecnologia em Davos

dezembro 17, 2015

Reproduzo aqui observação que acabo de fazer no Face, usando com referência post publicado por Jordi Adell:

 

 

O povo de Davos preparou um documento sobre rumos da educação e usos de tecnologias no ensino. O mantra economicista de “formar trabalhadores qualificados” predomina no informe. Jordi Adell, educador Catalão comenta o tal documento com ironia e humor. Destaco aqui algumas observações do Jordi.

Depois de ler a peça. meu amigo da Catalunha chega à seguinte conclusão:

>>> “Los fines de la educación están claros: competir como “skilled workers” en este valle de lágrimas.”

Cidadania, prazer em aprender, curtir a vida, buscar felicidade, apreciar a beleza e outras cositas más ficam de fora. Tudo está voltado para uma suposta eficiência econômica. A educação, para essa gente, é um capítulo de livro de finanças…

O documento aborda o uso de tecnologias em direções muito suspeitas. Jordi não faz comentários. Apenas cita algumas afirmações preocupantes.

À pergunta para que tecnologia, o documento responde:

>>> “To help lower the cost and improve the quality of education, education technology …”

Na lista de justificativas para investimentos em tecnologia estão essas joias:

>>> “Find creative solutions to fundamental challenges in many countries, such as a lack of well-trained teachers and broadly accessible technology infrastructure.”

>>> “Make education available to a broader audience at a much lower cost or provide higher quality instruction at the same price.”

No primeiro caso, ao reconhecer a ausência de bons professores, o documento propõe mais investimento em tecnologia, não em formação de docentes.

No segundo caso, a justificativa clara cristalina para investimentos em tecnologia é a de baratear a educação. Essa é um promessa duvidosa. A tecnologia é cara e as promessas messiânicas de seus vendedores geralmente não são concretizadas.

Faço uma última nota: essas concepções de educação e de usos de tecnologia são hegemônicas nos meios de comunicação. Não vi matéria de nossos jornalões sobre o documento de Davos, mas eles certamente apoiariam as observações e conclusões apresentadas ali.

skills

O Ócio, em diálogos impertinentes

dezembro 10, 2015


Finalmente colocaram na internet este Diálogos Impertinentes do qual participei dialogando com Claudia Costin sobre o ócio. Oportunamente quero comentar mais o vídeo e minha participação.

Educação Profissional : Livro

novembro 25, 2014

No Youtube há um vídeo com sinopse de um dos meus livros. Trago para cá tal vídeo.

Educação, Trabalho, Tecnologia: resenhas.

novembro 24, 2014

Faz algum tempo que escrevo resenhas de livros para o Boletim Técnico do SENAC. Minha amiga Ana Lúcia, antiga diretora da revista, me convidou para inaugurar uma seção de resenhas no Boletim. Eu não escrevera esse tipo de comunicação acadêmica até então. O desafio foi muito bom. Tive que encontrar um caminho para que meus textos não ficassem muito acadêmicos e chatos. Ás vezes consegui, às vezes, não. De qualquer forma, produzir resenhas foi uma atividade prazerosa. Escrevo falando de resenhas no passado. Mas, este ano fui convidado para voltar à ativa. Escrevi duas resenhas que ainda permanecem inéditas. São textos mais soltos, um sobre o livro Philosophy of Wine, outro sobre romances que têm como fundo tecnologias da comunicação e informação.

Minhas resenhas se voltam para três áreas: Educação, Tecnologia e Trabalho. Às vezes consigo combinar mais de um tema na mesma resenha. Ás vezes a obra que examino têm foco único. Já indiquei aqui no Boteco links para a maioria das resenhas que escrevi. Mas, as referências ficaram perdidas no tempo. Agora resolvi fazer uma coleção das tais resenhas, recuperando a maioria delas. Para interessados, publico aqui título dos livros resenhados, autor ou autores, com link das respectivas resenhas.

 

Aprender depois dos sessenta

outubro 21, 2014

Trago para cá texto que escrevi no Aprendente em 2008, registrando leitura que eu acabara de fazer

 

Faz umas três semanas que acabei de ler um livrinho surpreendente, How Starbucks Saved My Life. É uma história verdadeira e improvável. Michael Gates Gill, o autor, foi executivo de uma grande empresa de publicidade. Poderoso e amigo de gente também muito poderosa. Aos cinquenta e três anos foi demitido. Uma moça que ele ajudou a subir na empresa foi quem lhe comunicou a notícia.

Desempregado, Gates, criou uma consultoria e foi levando a vida até ficar completamente quebrado aos sessenta e dois anos. Aos sessenta e três esperava inutilmente chamado de algum cliente. Tomar café numa loja Starbucks era seu último luxo. Um dia, entrou numa Starbucks onde gerentes de várias unidades de Nova Iorque participavam de um dia de recrutamento. Ele não viu a faixa que anunciava o evento. Entrou como de costume na loja, pediu o seu café e acomodou o celular à espera de chamadas de clientes que jamais ligavam. Mais um dia de um velho desempregado e sem esperança.

De repente, surge à sua frente uma moça negra e bonita, vestindo o uniforme da grande rede de cafés, que lhe pergunta: “quer trabalhar comigo?”. Pergunta inusitada. Sem pensar, Gates deu uma resposta automática: “quero”. A moça se apresentou, informou que era gerente de uma loja distante, anotou os dados de Mike e lhe disse que entraria em contato.

Dias depois Mike recebeu um telefonema. Era a moça. Convidava-o para uma entrevista. Ele foi aprovado. Começou na faxina. Mais tarde foi aprendendo outras funções na Starbucks até dominar todas as rotinas de serviço e atendimento típicos da grande rede. Vive uma vida com a qual nunca sonhara. Seus parceiros de trabalho são quase todos muito jovens. São quase todos negros. São quase todos oriundos dos “projetos”,aqueles bairros de cortiços da área de Nova Iorque. Aprende um trabalho braçal e exigente do ponto de vista físico. Convive com seus novos companheiros que o aceitam sem restrições aparentes.

O episódio todo é um exemplo bonito de aprendizagem. Mike aprende não apenas uma profissão. Aprende a viver de novo. Reflete sobre seus velhos valores. Arrepende-se de sua auto-suficiência e falta de sensibilidade dos tempos de executivo poderoso. Ganha novo sentido para a sua vida. Aprende que a elite é, em muitos sentidos, ignorante. Relembra, agora com toda a carga de significado que sua atuação no Starbucks dá ao texto, um velho dito de Fitzgerald:

Work is Dignity

Neste vídeo, o autor de How Starbucks Saved My Life aparece numa conversa com empregados da Google.

Arte do trabalhador

outubro 15, 2014

Albarda, 2012 (Pereiro)

Qualquer trabalho é uma arte. Nos dias de hoje, com o esvaziamento do trabalho, o império das máquinas e a invasão de sistemas que subordinam pessoas a rotinas acabamos nos esquecendo da estética mais significativa do viver; a estética de obras que o trabalhador produz, mudando o mundo e mudando seu próprio eu.

A arte do trabalhador aparece com muita frequência em romances. Personagens que produzem alguma coisa quase sempre manifestam seu orgulho por uma obra bem feita, bonita. Em minha recente releitura de O Joio e o Trigo, de Fernando Namora, fiquei encantado com um trecho em que o grande romancista mostra o orgulho de um artesão, um seleiro.

Joana, uma das protagonistas da história, encomenda uma albarda (arreio de animal de carga) para a burra da família. O profissional diz que a sela ficará pronta em três dias. No dia combinado, Loas, marido de Joana, vai buscar a albarda. Mas, o seleiro tinha sumido. Loas sai atrás dele pela região e fica sabendo que o profissional está exibindo a albarda por toda a parte. Finalmente o dono da burra consegue encontrar o seleiro numa taberna. Este lhe dá uma explicação que copio a seguir:

_ Olhe, meu amigo _ insistiu _, isto é uma albarda como você nunca viu na vida. E eu não podia lha entregar sem que pelo menos meia dúzia de pessoas a vissem. Sim, mostrei-a por aí, como obra-prima que é. Todos nós temos um bocado de brio com aquilo que nos sai das mãos. Não tinha esse direito? (p. 202)

Tempos depois, Namora descreve como Loas falava da sela que adquirira :

Sempre que se referia à albarda, recordava o homem da taberna. Ali estava um bom tipo, um artista, destes que dão valor às coisas, que têm sentimentos. Se fosse alguém capaz de perceber de lavoura, tê-lo-ia convidado para fazer parte da courela. Talvez ele pudesse amar a terra ou um animal, como sabia amar a arte que, por magia, lhe saía das mãos grosseiras. (p. 206)

Os dois pequenos trecho do romance de Fernando Namora tem muita substância sobre trabalho e valor. Uma dia quero usá-los num artigo sobre educação e trabalho que aborde a estética do feito em obras de trabalhadores identificados com seu ofício. Por enquanto fico com as citações,achando que elas podem sugerir reflexões interessantes para quem esteja no campo da educação profissional e tecnológica.

 

Valores e educação profissional

julho 30, 2014

Estou redigindo a parte final do relatório de meu estudo sobre valores, trabalho e educação profissional e tecnológica. Essa parte final, como quer meus parceiros da UNESCO, deve sugerir direções em termos de políticas públicas e processos didático-pedagógicos. A tarefa não é fácil e confesso que estou com bastante dificuldades para concluir este último relatório parcial.

Antes de sugerir direções, elaborei uma síntese do que foi observado na forma de enunciados. Não sei se todos eles estão claros e dizem o que quero dizer. Por isso, publico-os aqui na esperança de que amigos contribuam com suas opiniões, sugestões e críticas. Os enunciados são os que seguem:

 

  • Há valores intrínsecos ao trabalho. Tais valores fazem parte do saber ser que se articula no fazer.
  • Observações do fazer em oficinas podem revelar valores subjacentes ao trabalho.
  • Ambientes de trabalho refletem valores em sua organização e funcionamento.
  • Valores dependem de aceitação e de concretização no cotidiano dos trabalhadores. Nada mudam se forem reduzidos a proposições.
  • A aprendizagem de valores em ambientes de trabalho é consistente porque ocorre por meio de experiências vivenciais.
  • Experiências vivenciais são formas pelas quais os organismos entendem o mundo no qual estão inseridos.
  • Muitos valores presentes na ação são invisíveis.
  • É conveniente sistematizar os valores que emergem na ação, classificando-os em categorias, para facilitar diálogos sobre ética, estética e axiologia no campo do trabalho.
  • Valores universais, nascidos fora dos ambientes de trabalho, devem ser transformados em medidas no cotidiano das profissões para que passem a ter sentido para os trabalhadores.
  • Direções da educação enraizada na história do trabalho devem ser consideradas para que orientações didáticas de origem escolar não as substituam, com o decorrente prejuízo na formação dos trabalhadores.
  • Há indicações de que a ética do cuidado é uma das referências mais importante na educação moral dos trabalhadores.
  • Em sua associação com o trabalho, estética não se reduz a belas artes, mas deve ser entendida como compromisso do trabalhador com suas obras.
  • Emprego de categorias dualísticas com tecnicismo/humanismo é um equívoco que ignora os valores intrínsecos ao trabalho.
  • O fazer em ambientes de trabalho é prática social fundamental na tessitura de comunidades de prática.
  • A presença de obras no percurso de aprendizagens em EPT é fundamental para a construção de identidades, e no favorecimento de atitudes de colaboração e companheirismo.
  • O cuidado que as instituições educacionais dedicam à organização de ambientes de trabalho/aprendizagem revela como tais organizações valoram trabalho, trabalhadores e alunos.
  • Valores de algumas comunidades de prática – ou de corporações de ofício – podem contrariar interesses sociais mais amplos.
  • Na organização de seus cursos e dos ambientes de trabalho/aprendizagem, instituições educacionais podem promover valores que não são comuns no mundo do trabalho.

 

 

Produção para a paz

julho 23, 2014

Durante a crise de emprego no começo de 1970, os operários da Lucas Aerospace propuseram um contraplano que converteria uma indústria da guerra numa indústria da paz, garantindo com isso trabalho para todos os empregados da firma. O contraplano mereceu análises em diversas publicações. Num período em que eu estava estudando com certo afinco questões de emprego/desemprego, fiz um resumo do artigo de Casassus sobre o caso da Lucas Aerospace. Para interessados, segue tal resumo.

 

CASASSUS, C. E CLARK, J. (1978). UNE ALTERNATIVE AU CHÔMAGE: lE CONTRE-PLAN DE PRODUCTION DES TRAVAILLERS DE LUCAS AEROSPACE. SOCIOLOGIE DU TRAVAIL, 4/78, 379-397

CONTEXTO
• A luta contra o desemprego e as demissões coletivas na Inglaterra (1974 e ss.) foi caracteristicamente tradicional: reivindicação por uma retomada da economia e propostas de redução das jornadas de trabalho.

• Desemprego como questão “política”. Luta centrada na conservação dos empregos existentes. Nenhuma iniciativa que se referisse ao conteúdo do trabalho, à natureza dos produtos, ao direito de estabelecer políticas de produção…

• “Mesmo quando a reivindicação do direito ao emprego começa a ser objeto de lutas importantes, os fundamentos estruturais das demissões permanecem intocados, o nível de emprego continua a ser uma consequência das escolhas de produção dominadas pela lógica do mercado (ou seja, do lucro) ou pela implantação de novas tecnologias… (380)
CARACTERÍSTICAS DO CONTRA-PLANO
…(eles – os empregados da Lucas) “apoiam sua ação de defesa do emprego propondo intervir na escolha dos produtos, das tecnologias e dos modos de organizações do trabalho”. (380)
EFEITOS DA RECESSÃO
“Para os trabalhadores altamente qualificados, a recessão e a restruturação da indústria resultam em:

1. Desemprego estrutural: que significa, ao mesmo tempo, um desperdício da mão-de-obra (mesmo que esta pudesse vir a ser aproveitada na produção de bens necessários) e um crescimento de despesas que recaem sobre o contribuinte (seguro desemprego, seguridade social)…

2. Desqualificação da mão-de-obra: a automação transfere para as máquinas o conhecimento humano, situação esta que conduz a uma desqualificação do trabalhador…” (381)
SENTIDO DO CONTRA-PLANO
Propõe intervenção na escolha tanto dos produtos quanto da organização do trabalho. Contesta, desta maneira, o direito exclusivo dos empregadores decidirem sobre política de produção.

A proposta geral do plano é assegurar o direito ao trabalhado, em vista das ameaças ao emprego. Mas, mais do que isto, o plano procura assegurar o direito de usar as ferramentas e as qualificações profissionais para produzir bens que interessem à sociedade como um todo.
SOBRE O “MERCADO”
“Nós resolvemos ir além daquela divisão absurda que a sociedade nos impõe entre produtores e consumidores. Esta divisão parece sugerir que existem duas nações, uma que trabalha nas fábricas e escritórios e outra, inteiramente diferente, que vive no lar e na comunidade”. (386)
TEMAS DO CONTRA-PLANO
• Escolher a tecnologia

Critério: mais ênfase em necessidades sociais, menos ênfase em oportunidades de lucro.

• Servir a comunidade

Investir em produtos socialmente necessários.

• Humanizar o trabalho

Aplicar tecnologias para melhorar condições de trabalho, sem alienar do trabalhador o conhecimento tecnológico.

Vincular uso intensivo de mão-de-obra com uma tecnologia relativamente avançada e responsável.

• Produtos ecológicos

• Crítica à divisão do trabalho

“Contra-plano constitui um desafio ao direito patronal de determinar que bens produzir. Domínio exclusivo de um “staff” de diretores ou gerentes, de proprietários e quadros superiores, o desenvolvimento industrial tem sido resultado de decisões ditadas por critérios de lucro, pela aceitação inconteste duma especialização estreita (…) e pelo caráter inelutável da automatização e das demissões. (388)

• Reverter o primado valor de troca sobre o valor de uso

“A pesquisa de uma tecnologia alternativa está voltada sobretudo para a superação do vazio existente entre necessidades e a produção real que ocorre na economia capitalista. Nesta economia, o avanço da ciência e das tecnologias é utilizado apenas para a produção rentável, ou seja, para a produção de bens voltados exclusivamente para o valor de troca.

Predomina, portanto, a lógica do mercado: o valor de uso é evocado apenas para incentivar o consumo (publicidade). Os resultados desta dominância da lógica do mercado começa a ser colocada em causa, pois ela implica em: deteriorização da qualidade dos produtos, desperdício dos recursos naturais e sobretudo dos recursos humanos, deteriorização da qualidade de vida”. (390)
CONTRA-PLANO E “FUNÇÃO GERENCIAL”
A formulação de alternativas para uma política de produção ameaçou a “função gerencial” dentro da Lucas. Ao mesmo tempo, ela mostrou que os trabalhadores são capazes de formular as mencionadas alternativas de modo responsável…

 

 

 

Educação profissional na oficina

julho 4, 2014

Segue link para vídeo com versão integral de palestra que fiz no SENAC do Ceará em 2013.

 

A Pedagogia da Oficina

 


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