Archive for the ‘Educação e Trabalho’ Category

Para onde vai o trabalho

abril 1, 2017

Há muitos anos resolvi fazer notas de leitura de modo sistemático. Não durou muito. Mas, se tivesse continuado a aventura, provavelmente teria hoje um acervo respeitável de boas notas de obras importantes. Para terem um ideia do que eu fazia, aqui vai um exemplo.

 

DURAND, C. LE TRAVAIL ENCHAINÉ. EDITIONS DU SEUIL,

 PARIS, 1978.

 

DIVISÃO DO TRABALHO/NEGAÇÃO DA HIERARQUIA

 

 

 

 

 

CONTRACULTURA

 

 

 

 

ESCOLARIZAÇÃO CRESCENTE/PERDA DE CONTEÚDO DO TRABALHO

 

 

·       “A  emergência da divisão do trabalho como um problema social guarda relações com a crise de autoridade e a contestação das hierarquias. Os jovens trabalhadores não aceitam tão somente o trabalho em cadeia mas também a disciplina autoritária das empresas. A revolta e contestação não agravam apenas as tensões internas nas oficinas e escritórios; elas vão mais longe, chegam a uma “depreciação” do trabalho industrial pelos jovens. Os empresários reclamam que não mais encontram uma mão-de-obra disposta a aceitar os trabalhos mais ingratos…” (p.8)

COMENTÁRIO: Durand comenta aqui sobretudo o clima de revolta observado em 1968. Mais recentemente, não se constatam reações globais contra a divisão do trabalho… É preciso, porém, pensar numa contradição latente que tende a agudizar-se: a força de trabalho se educa cada vez mais e, por isto, estará cada vez menos disposta a exercer um trabalho imbecilizante… Há aqui uma sugestão interessante para se entender o relativo sucesso de treinamentos rápidos para qualificar mão-de-obra para funções específicas. A clientela desses treinamentos, geralmente, não é muito educada. Por este motivo, ela está mais disposta a aceitar um trabalho esvaziado de conteúdo… (cf. Ginzberg e Newsweek).

   
DIVISÃO DO TRABALHO/ DURKHEIM/ “NATURALISMO” ·       “Nos primeiros anos de industrialização, a divisão do trabalho parecia ser um processo social normal e natural. Durkheim entendeu a divisão social do trabalho como uma situação de fato, como uma consequência inevitável do crescimento do volume e da densidade das sociedades modernas, nem a indústria, nem a agricultura, nem a ciência. Na evolução das ciências, a especialização do saber substituiria o diletantismo da cultura geral. A divisão do trabalho parecia assim condicionar o desenvolvimento intelectual e material das sociedades e ser, por isto mesmo, fonte de civilização” (p. 8-9)  (cf. Gorz).
   
AVILTAMENTO DO TRABALHO ·       “Com a introdução do taylorismo e da racionalização das tarefas na indústria, a divisão do trabalho chegou a um tal nível que desqualificou o trabalho operário e reduziu, no trabalho em série, a intervenção do trabalhador a tarefas repetitivas e robotizadas de execução. O próprio Dukheim denunciou, no seu início, estas formas de divisão do trabalho como patológicas e aviltantes”. (p.9)
   
TECNICISMO/ASPECTOS SOCIAIS COMO “CONSEQUÊNCIA” ·       “A renovação da organização do trabalho funda-se numa ideologia tecnicista dos engenheiros, que entendem o desenvolvimento das técnicas e o parcelamento das tarefas como necessidades naturais. Mas, este aspecto não é mais do que um elemento da estrutura em matéria de inovação que relega os aspectos sociais da mudança a um status de mera consequência…”(p.12)
   
AUTOMAÇÃO/ AVILTAMENTO DO TRABALHO ·       “A automação do processo de produção não significa total supressão de toda intervenção manual… nem que o trabalho limitado ao controle e monitoração das máquinas deixe de ser tão “enfastiante”  quanto o trabalho parcelar da confecção manual… (p. 13)
   
DEFINIÇÃO DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ·       “Podemos definir sumariamente a organização do trabalho como o sistema de regras e de normas que determinam a maneira pela qual a produção será executada na empresa”. (p. 15)
   
TAYLORISMO E O&M ·       “… a existência de serviços de organização e métodos (O&M) representa uma consequência direta da concepção taylorista do trabalho, separando aqueles que o organizam daqueles que o executam… (p. 19)
   
AUTOMAÇÃO E QUALIDADE ·       “Um modo diferente de intervenção sobre a qualidade do trabalho consiste em intervir tecnicamente para tornar o erro impossível… (p. 26)

·       COMENTÁRIO: estabelecer relação com robotização. Uma das vantagens apresentadas por esta (e, quase sempre, a mais comentada e “assumida” ideologicamente) é justamente “melhor qualidade”. (cf.: comparações entre Japão/outros países quanto à questão da qualidade; especialmente indústrias automobilística Japão/EUA no início dos anos oitenta).

   

 

 

ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO: MENOR CLAREZA FUNCIONAL/       

 MAIOR AUTORITARISMO.

 

 

 

PERSONALISMO/ MENOR CLAREZA FUNCIONAL

 

·          Sobre as empresas onde a organização funcional    não é muito desenvolvida o autor observa:…exige-se um espírito de devotamento: “Se ele (o patrão) precisar de uma ajuda, a gente dá; se precisar de horas extras, a gente faz”. A organização repousa menos sobre um sistema de regras e de relações pré-determinadas, e mais sobre um sistema de contribuições-retribuições pessoais:

“Se alguém tem um problema, a solução será pessoal. Existe uma grande dependência mútua no trabalho” (chefe de serviço de alimentação). Dentro de tal sistema, as relações interpessoais suprem a ausência de normas, o que faz com que se reforcem as decisões de caráter hierárquico. A organização do trabalho, no caso, é menos burocrática, é porém, muito mais autoritária.  (p.30)

   
CONSULTORES/VISÃO DE SINDICALISTAS ·       Durand registra alguns depoimentos de sindicalistas sobre os consultores externos (l’ingenieur conseil) que convém ressaltar: “Eles (os consultores) vendem palavras a preço de ouro”. Os sindicalistas denunciam o charlatanismo da profissão: “Num primeiro momento, eles vendem um contrato para um primeiro diagnóstico (três ou quatro dias; preço: 50.000 F.). O objetivo é obter um segundo contrato, um diagnóstico elaborado por um pseudo-pesquisador (200.000 F.). Este último produz uma dezena de páginas sobre a empresa e demonstra a necessidade de se realizar um treinamento. Terceira etapa: é organizado um programa de treinamento para os trabalhadores. Resultado: nada se aprende efetivamente…” (p. 38)

·       Um outro tipo de consultoria estudado por Durand são os serviços de engenharia. Vale aqui registrar um longo comentário do autor:

“O serviço de engenharia (consultoria externa) facilita o acesso da empresa às descobertas da pesquisa e desenvolvimento; à informação sobre novas tecnologias, sobre as possibilidades das empresas e as condições de financiamento. Mas, ao tecnicizar as decisões, os serviços de engenharia privam as empresas de suas prerrogativas em matéria de concepção e estudo, de coordenação e controle. O desenvolvimento deste tipo de serviço acentua ainda mais a divisão do trabalho entre aqueles que preparam e controlam e aqueles que executam. A concepção do trabalho nesse caso, dada a tendência de automatização e tecnização, deixa de lado a percepção das condições de sua execução. Segundo a doutrina geralmente aceita entre os profissionais do meio, o trabalho de organização é desvinculado da inovação. Um bom número de profissionais acha que deva ser levada em conta: “Não pensamos na organização do trabalho do ponto de vista dos “métodos” […], o industrial coloca os homens na linha de produção e sabe como fazê-los trabalhar”. (p. 41)

   
TAYLORISMO/NOVAS TEORIAS DA ADMINISTRAÇÃO/ INFORMÁTICA ·       …o taylorismo e o fordismo permanecem como fundamentos da organização do trabalho. Pode-se perguntar se certas técnicas modernas de administração, assim como o controle da produção pela informática, não contribuem para acentuar a taylorização do trabalho, ou para apresentá-la com uma nova face mais aceitável… (p. 46)
   
AUTOMAÇÃO GERA LIBERAÇÃO? ·       A automação foi vista como uma liberação da condição operária, como liberação da dependência do trabalhador com relação à máquina. A automação introduziu uma pseudo-liberação: suprimiu o salário por produção, fez desaparecer as normas de produção. Mas, estas normas se encontram de fato integradas ao processo tecnológico. O operário que controla e alimenta uma máquina automatizada não tem mais como escapar do ritmo por ela determinado. (p. 46)
   
IDÉIAS DE TAYLOR ·       COMENTÁRIO: Durand sumariza as principais idéias tayloristas de modo muito claro. Vamos lá:

– “Segundo Taylor, existe “apenas uma única maneira” (one best way) de executar uma tarefa. Maneira esta evidenciada pelos estudos de movimentos e tempos”.

– “O trabalhador não terá mais oportunidade de trabalhar de acordo com o “seu” estilo: ele será ensinado a trabalhar da melhor maneira. Os trabalhadores serão selecionados e treinados para executar o trabalho para o qual serão especializados “a fim de que cada um possa fazer o trabalho mais complexo compatível com suas aptidões naturais, de forma mais rápida e com eficiência máxima”.

– “A especialização, ou seja a limitação da variabilidade das tarefas e do conteúdo das tarefas, é uma conseqüência direta do método taylorista. A preparação do trabalho e a sua execução devem ser divididas entre a direção e os trabalhadores, a idéia de “trabalho o mais complexo compatível com as suas aptidões” será obscurecida pela preocupação com a rapidez de execução e com a eficácia. O trabalho será  “esfacelado” numa série de tarefas parcelares e repetitivas que levarão as tarefas inteiramente desqualificados”.

   
ABANDONO DA DIMENSÃO UTÓPICA DO TAYLORISMO ·       …a utopia social do taylorismo, a crença de que seria possível realizar a felicidade do trabalhador pela prosperidade comum dos empregados e patrões, foi esquecida no meio do caminho; por outro lado, o taylorismo conservou todo o vigor como sistema de opressão e de rigor da organização do trabalho. (p. 50)
   
EXEMPLO DE PARCELARIZAÇÃO DO TRABALHO ·       Em algumas empresas automobilísticas ou de montagem eletrônica, o operário especializado (O.S.) efetua os mesmos gestos a cada trinta segundos. (p.52)
   
HÁ LIMITES PARA CADÊNCIAS INFERNAIS”? ·       Os operários são capazes de se autocondicionar a cadências infernais mesmo quando a empresa não adota explicitamente todo o aparato taylorista de organização e controle e se contenta com a pressão moral de exigência do trabalho bem feito. (p. 53)

·       COMENTÁRIO: O processo de automação levanta uma questão quanto à remuneração por produção (uma prática comum quando o processo industrial ainda combinava habilidades artesanais com linha de montagem). Vale aqui registrar sobre o tema alguma observações do autor:

– “Os sindicalistas recusam o sistema de estimulação salarial e reivindicam, em nome da segurança do salário e da defesa das condições de trabalho, a integração da remuneração por produção (prime)  ao salário fixo. As reações operárias quanto à remuneração por produção são muitas diversificadas, os operários produtivistas julgam-se lesados pela integração do “incentivo” (prime), nivelando resultados. A automação da produção tende a suprimir a remuneração por produção,  pois a automação dissocia o comportamento do trabalhador do ritmo da máquina, ou melhor, a máquina incorpora o ritmo de tal maneira que o trabalhador se vê obrigado a segui-lo: “Não há tempos humanos na fabricação; os trabalhadores devem se adaptar. No setor de embalagem, segue-se o rendimento das máquinas. Elas trabalham sempre na mesma cadência”. (chefe de serviço, empresa de alimentação)”. (p. 54)

COMENTÁRIO: a discussão sobre remuneração de “primes” (produção) é paralela à discussão sobre “merit pay” no sistema educacional dos EUA. A questão maior que se coloca é a de poder. Instalado o sistema de “prime” ou “merit pay”, os trabalhadores se dividem e passam a ser manipulados mais facilmente pelos administradores…

– Relacionar processo de automação com a questão de aprendizagem de habilidades às competências hetero-ritmadas, não deixando espaço para um trabalho “decidido” pelo sujeito. Num trabalho exclusivamente hetero-ritmado, o trabalhador se converte em mero apêndice da máquina. Esta última deixa de ser ferramenta, invertendo papeis na relação/homem instrumento de trabalho. [Ver mais sobre instrumentos (ferramentas) em Weizenbaum…]

Vale notar que este último autor ressalta que a máquina é apenas a “encarnação” de um sistema. É possível um ensino de competências hetero-ritmados mesmo quando o trabalho não está associado a máquinas. Neste último caso, o sistema recusa competências auto-ritmadas como qualquer máquina…

 

Aula no campo

dezembro 12, 2016

Nesta foto, apareço ao fundo, de camisa verde, observando atividade em curso agrotécnico no campus de Araquari do Instituto Federal Catarinense. Minha observação fez parte de trabalho que desenvolvi em Santa Catarina tendo em vista o estudo que estou realizando sobre capacitação docente em EPT para a Unesco.

aula-2

Mais informações podem ser obtidas com um clique aqui.

Comunicações em vídeo

dezembro 3, 2016

 

Já apareci diversas vezes em vídeo, participando de programas de entrevistas ou fazendo comunicações para algum projeto de educação à distância. Alguns desses vídeos estão no youtube, outros não foram divulgados na internet. Neste post indico os vídeos que aparecem de imediato quando procuro por produções a partir do meu nome.

Este é um VT bem antigo. A conversa aconteceu na série Diálogos Impertinentes da TV PUC. Na época, o âncora do programa era Mario Sérgio Cortella. Tema central: Ócio. Minha parceira na conversa foi Claudia Costin.

Este VT aborda a questão da pesquisa. Mais especificamente, aborda a investigação que fiz para a UNESCO sobre valores em educação profissional e tecnológica. A produção é da TV universitária na USJT. O programa foi planejado por ex-alunos meus da área de comunicação social.

Este é um VT produzido para a uma série de comentários de textos que faziam sorte de curso para professores da UNIVESP (Universidade Virtual do Estado de São Paulo). O tema era Educação e Sociedade. O texto comentado era um escrito de António Nóvoa.

Outro vídeo da UNIVESP. Tema: Formação de Professores. Autor do escrito: Professor Palma. Esta é a primeira parte da conversa.

Esta é a segunda parte da conversa sobre Formação de Professores, produção da UNIVESP.

Este é um vídeo produzido por programa do Instituto Federal de Santa Catarina voltado para a capacitação de professores. Tema: Didática do Saber Técnico.

 

Aprendizes

dezembro 2, 2016

aprendizes

 

Achei muito bonita esta ilustração. Ela nos fala sobre aprendizes e aprendizagens. Traduzoa frase:

 

Somos todos aprendizes nesta vida e nunca mais deixaremos de aprender.

Conhecimento do fazer e educação

novembro 24, 2016

Aqui está entrevista minha para meus amigos do Instituto Federal de Santa Catarina. A vídeo foi produzido para subsidiar formação de professores na área de Educação Profissional e Tecnológica. Acho que ficou legal, embora o tempo seja muito para vídeo (mais de vinte minutos).

No dia,eu estava com um baita resfriado, e de vez em quando a garganta raspa denunciando que minha voz poderia falhar…

Se algum amigo conseguir ver esse vídeo, peço a gentileza de fazer seus comentários (favoráveis ou desfavoráveis) aqui.

 

Fazer Bem Feito: registro simpático

novembro 4, 2016

Fazer bem feitoAcabo de ver na internet registro muito simpático sobre meu livro Fazer Bem Feito, publicado pela UNESCO em 2015. Para ler a matéria, clique aqui.

Pensar la formación

outubro 9, 2016

Já estão disponíveis na internet, para leitura e cópia sem qualquer custo, os livros da coleção Pensar la formación, publicados pelo Cinterfor. Ajudei a organizar essa coleção e meus escritos recentes sobre educação profissional aparecem em forma de livro nessa iniciativa editorial do Cinterfor.

Interessados poderão acessar as obras clicando aqui.

capa livro cinterfor

Educação profissional no Futura

setembro 30, 2016

Trago para cá vídeo do programa Sala de Debate, Canal Futuro, em que apareço como participante da mesa numa longa conversa sobre o assunto.

 

Confecção de Dignidade

setembro 15, 2016

 

Trago para cá documentário de belíssimo trabalho de capacitação feito pelo Sindicato de la Aguja em presídios do Uruguay. Conheci o pessoal desse sindicado quando estive em Montevidéu para uma palestra sobre formação profissional. Gente admirável.

Não vou comentar extensamente o vídeo. Quero apenas convidar amigos da área de educação profissional e tecnológica a darem uma olhada. Vale!, como dizem os madrilenhos

Aprendizagem do fazer: Kerr

agosto 3, 2016

Apprenticeship

Um dia, em 1973, Maria Elisa, bióloga e professora do SENAC, me convidou para uma cerveja com a turma do Dr. Kerr no Caneca de Prata. Aceitei. Queria conhecer o famoso Warwick Kerr. E gostava muito da cerveja geladíssima do Caneca, assim como do cascudo e do jacaré que a gente petiscava no lugar.

A turma do Kerr tinha umas quatro dezenas de pessoas, pesquisadores e estudantes das áreas de ciências biológicas da USP de Ribeirão Preto. Gente animada. Boa de copo. Alegre. Interessante. E lá estava eu, o único que não manjava nada de ciências. Aproveitei a ocasião para observar aquela tribo.

Das minhas observações resultou uma piada pessoal. Conclui que qualquer jogo de futebol entre a turma do Warwick Kerr e do Isaías Pessotti, com ambos os mestres atuando como goleiros, terminaria sempre em zero a zero. Ninguém abandonaria a área do próprio time. Ninguém ficaria longe do mestre. A bola não rolaria pelo meio do campo. Mas, esse não é o assunto que aqui quero desenvolver. Minha observação sobre a turma do Kerr, passados quarenta e três anos, tem a ver agora com a relação mestre/aprendiz no campo da educação.

Antes de seguir em frente, vale uma observação sobre o Kerr e o Isaías. Eles eram (são ainda…) grandes cientistas. Kerr, um pesquisador de fama mundial na área de genética. Isaías, um dos maiores nomes da psicologia experimental no Brasil e outras partes do planeta. Ambos desenvolveram conjuntamente pesquisas sobre inteligência das abelhas. Kerr, verificando genética dos bichinhos. Isaías, estudando o comportamento daqueles insetos. Cabe uma informação incidental: Kerr é o responsável pela vinda das abelhas africanas para o Brasil. Descuido de um de seus assistentes resultou em fuga de um enxame de local controlado no campus da USP em Ribeirão. A partir daí, as africanas se cruzaram com as europeias e suas descendentes, muito agressivas, atacaram gente e bichos por toda a América. Mas, essa é outra história que posso contar qualquer dia desses. Preciso voltar ao foco: relação mestre/aprendiz.

A turma do  Kerr via no grande cientista um mestre. Tinha profunda admiração por ele e por sua arte. Eu disse arte. Não disse ciência. A moçada não acompanhava Kerr para aprender processos de pesquisa e princípios científicos. Toda aquela gente era bamba nessas coisas. Não precisava de aulas de um professor afamado sobre o assunto. O que eles queriam aprender com o Kerr era um feeling que o grande cientista tinha para criar experimentos admiráveis e fazer descobertas relevantes. Queriam aprender a fazer ciência. E Kerr não ensinava isso diretamente. Ele atuava como um mestre de ofício, colocando seus aprendizes em aventuras científicas empolgantes. Dava a eles apoio. Desafiava-os. Pesquisava junto com eles. Compartilhava uma visão de ciência no cotidiano de seus laboratórios e experimentos. Tudo isso explicava a grande admiração que todos tinham pelo mestre.

Minha observação sobre a relação mestre/aprendizes de Kerr com seus orientando e auxiliares decorre de um belo texto que acabo de ler,What Kind of Knowledge for the Vocational Curriculum?, de Jeanne Gamble, pesquisadora da África do Sul. Gamble elabora uma interpretação muito interessante sobre o saber tácito no campo da educação profissional e tecnológica. Há vários temas propostos pela autora que valem a pena serem explorados. Nesse momento considero a reflexão sobre relações de mestre/aprendiz no campo da pesquisa científica.

Gamble observa que cientistas que acompanham laureados pelo Nobel ou outros grandes nomes da ciência têm com eles relações de mestre/aprendiz muito parecidas com as mesmas relações existentes em corporações na Idade Média. Há um sentimento de grande admiração pelo mestre e por suas obras. Os aprendizes vêm até ele para aprender uma arte. A arte de criar coisas admiráveis no campo científico, não bobagens formais resultantes da aplicação de processos de investigação sem alma. Como já disse, ao falar do Kerr, os interessados vêm até o mestre para aprender uma “visão”. E o mestre não ensina diretamente, pois ele mesmo não revela sua visão por meio de palavras. Sua visão transparece naquilo que ele faz, não em um discurso.

Grandes cientistas, assim como grandes mestres das artes, desenvolvem um feeling em seus fazeres. Esse feeling é um saber tácito que não pode ser transformado em discurso. Ou, quando transformado em discurso, perde boa parte da sua substância. Esse saber tácito, anota Gamble, é uma visão. Grandes mestres veem o que lhes interessa de um modo diferente, original, criativo.

Vale aqui citar um longo trecho da obra de Gamble:

Kvale (1997) oferece um exemplo de como esse “sentimento” (feel) é desenvolvido quando cita entrevista de Kanigel sobre os mentores, alunos e colegas de Axelrod, que recebeu o Nobel pelo seu trabalho em farmacologia, assim como a investigação de Zuckerman sobre 92 americanos que receberam o Nobel em física, química e medicina. O argumento apresentado é o de que a principal razão pela qual cientistas promissores se tornam aprendizes de laureados do Nobel é a de adquirir um modo de ver os problemas científicos, de tal maneira que cheguem a uma “abordagem, um estilo, um gosto na boca ou um sentimento nas entranhas do que é ‘boa’ ciência” (Kanigel, citado por Kvale, 1997, p. 188)

Se ligarmos os argumentos a respeito de como conhecimento tácito e competência em ciência são adquiridos e argumentos aqui apresentados a respeito de como conhecimento tácito e competência são adquiridos no trabalho artesanal, chegaremos a uma fórmula: conhecimento tácito e competência são adquiridos por meio de relações de aprendizagem [aprendizagem no sentido corporativo clássico]. Aqueles que trabalham na vanguarda da realização científica não mais precisam  adquirir conhecimento substantivo  e técnicas uma vez que essas “partes” já foram adquiridas através de [muitos] anos de estudo de graduação e pós. O que eles aprendem trabalhando bem próximos ao mestre é o “sentimento” (feel) subjacente  ao coração da inovação científica. É por essa razão que os estudos citados por Kvale confirmam que a ciência permanece como um campo no qual algo muito parecido com a relação mestre/aprendiz ainda prevalece, com o próprio desempenho do mestre oferecendo um modelo a ser emulado (Kvale, 1997, p. 188-189). (p. 73-74)

Taí uma explicação bem completa para a admiração que vi entre os seguidores do Kerr em 1973. Todos aqueles pesquisadores e candidatos a cientistas tinham encontrado um mestre. Com ele estavam aprendendo a arte da ciência. Isso tudo tem pouco a ver com imagens de uma ciência que se faz com muita lógica e fundamentos bem arrumados em proposições expressas de maneira inequívoca. Eles não precisavam do Kerr para aprofundar tecnalidades. Talvez alguns deles dominassem mais certos processos de pesquisa que ele. Mas, isso não importava. Kerr era um criador, um mestre. No que fazia havia muito conhecimento tácito e competência que só seriam percebidos por quem com ele percorresse caminhos de investigação. Era importante ver o mestre fazer ciência. Era importante ter assistência do mestre em projetos científicos.

Na época em que conheci o Kerr, eu frequentava com certa frequência a turma do Isaías Pessotti. Ele também era um mestre e havia algumas dezenas de investigadores e candidatos a cientistas que o seguiam com fervor. E mesmo quem não era da área científica como eu, mas tinha o privilégio de desfrutar de bons momentos com o mestre, muito aprendia. Isaías, mesmo fora da ciência, era muito criativo. E creio que aprendi com ele algumas coisas de criatividade. Nada que seja possível formular em palavras. Creio que aprendi certo feeling, certa visão.

Faço essas notas como um registro de leitura do texto da Jeanne Gamble. Ela procura desvelar o que é o conhecimento tácito. Uma das conclusões é a de que tal conhecimento não cabe inteiramente na comunicação verbal. Parte do conhecimento tácito é uma disposição do  organismo. É um “balé” do corpo ou um estado da mente que sintetiza vários saberes num todo. É uma relação que comporta saberes e afetos simultâneos num mesmo agir. Mestres em qualquer área de conhecimento são capazes de manifestar tal conhecimento na ação. Por isso, é importante estar perto deles, observar e tentar incorporar esse saber de totalidade do conhecimento tácito.

Há pontes que podem ser feitas entre as considerações de Gamble sobre o saber tácito e certas epistemologias. Penso particularmente em Mark Johnson que propõe que todo saber tem como base uma “estética” entendida como nossa relação com o ambiente na busca de significados. Em outra ocasião vou explorar mais as ideias de Johson. Por agora fica apenas essa lembrança.

Volto ao começo dessa conversa. Kerr fazia arte, assim como Isaías. Um e outro grandes cientistas. E essa grandeza não era função apenas de saberes convencionais no campo das ciências. Assim como eles, há artistas em vários ramos de atividades, em enfermagem, em carpintaria, em cozinha, em literatura (talvez até em contabilidade…).  E para aprender em qualquer dessas áreas é preciso aproximar-se de mestres e, com a aprendizagem resultante, fazer-se mestre.

Encerro essas notas reafirmando que o ensino do saber tácito exige mestres e a aprendizagem no caso acontece na relação mestre/aprendiz. Sobre esse assunto, a pedagogia tradicional nada tem o que dizer.

 

Referência:

GAMBLE, JEANNE. What kind of Knowlwdge for the Vocational Curriculum? In MJELDE, L. & DALY, R. Working Knowledge in a Globalizing World: From work to learning, from learning to work. Bern: Peter Lang, 2006.