Archive for the ‘Educação e Trabalho’ Category

Inteligência das mãos

março 27, 2018

Trago para cá comunicação de Matthew Crawford sobre inteligência das mãos. Ele é autor de um livro muito interessante sobre a importância do fazer como expressão de inteligência: Shop Class as Soulcraft: An Inquiry into the Value of Work. Algumas das ideias desenvolvidas no livro aparecem na comunicação de Matthew em sessão do TED.

 

 

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Professores e valores em EPT

março 26, 2018

fazer-bem-feito

Reproduzo aqui sem os necessários retoques texto preliminar que escrevi por ocasião da investigação que fiz sobre valores em educação profissional e tecnológica para a UNESCO. Acho que o texto pode contribuir para conversas sobre ética do cuidado e educação no e para o trabalho.

Neste estudo, a principal fonte de informação sobre aprendizagem de valores é constituída por observações de dinâmicas de atuação dos alunos em oficinas e laboratórios. A emergência de valores na ação mostra uma educação que, nos termos de um pesquisador que participou de uma de nossas sessões de validação, é caracterizada pelo envolvimento. Essa ideia de envolvimento pode ser notada na relação de cada aluno com:

  • os outros colegas,
  • os insumos do que está sendo produzido,
  • as ferramentas necessárias para realização do trabalho,
  • o processo produtivo em todas as suas fases,
  • a obra e seu significado,
  • os possíveis beneficiários do trabalho.

Na lista acima faltou assinalar o envolvimento do e com o professor. Nesta seção, o papel docente merecerá a devida análise, com fundamento nas observações feitas em oficinas e laboratório, em documentação pedagógica dos cursos, em depoimentos espontâneos dos docentes, em declarações dos docentes nas entrevistas semiestruturadas. Cabe reparar que a maioria dos docentes observados são mestres de ofício em suas especialidades produtivas.

Nas observações e contatos realizados, foram incluídos alguns professores que não pertencem à comunidade de prática das ocupações objeto dos cursos de educação profissional e tecnológica que fizeram parte da amostra estudada. As atividades de tais docentes foram observadas em sala de aula, no desenvolvimento de conteúdos voltados para ciência ou tecnologias. Alguns desses professores foram entrevistados formalmente sobre a relação entre valores e educação.

Como o pressuposto deste trabalho é o de que o desenvolvimento de valores acontece principalmente pela interação dos alunos com atividades de trabalho, não se deu destaque a atividades que, nominalmente, são consideradas como componentes curriculares voltados exclusivamente para axiologia, ética e estética. Essa circunstância fez com que este estudo deixasse de lado observações em aulas voltadas para o ensino de conteúdos comportamentais. Essa escolha de foco tem certos limites, pois a investigação não deu destaque ao enfoque curricular que aborda valores numa perspectiva disciplinar. É bem possível que muitas pessoas esperem deste estudo uma análise pedagógica e didática do ensino explícito de valores. Essa expectativa não é contemplada. Análise do ensino voltado nominalmente para aspectos comportamentais deve ser, em minha opinião, um estudo com desenho específico em termos de investigação. Tal desenho precisa ser bastante diferente do planejado para o presente estudo. E ele terá também um limite, uma vez que não contará com dados relativos ao aprender fazendo.

Nos contatos estabelecidos com coordenadores pedagógicos de EPT, com alunos e professores, procurou-se recolher opiniões sobre o ensino de conteúdos atitudinais ou comportamentais, desenvolvidos em momentos específicos em salas de aula, e apresentados por professores não pertencentes à comunidade de prática da profissão alvo do curso. Como já se reparou anteriormente (BARATO, 2013), os alunos revelam pouca ou nenhuma motivação em aulas que abordam no formato de proposições aspectos relacionados com cidadania, meio ambiente, economia sustentável, ética, estética, empreendedorismo etc. Alguns alunos disseram que pretenderam deixar o curso por causa da maneira como tais conteúdos são desenvolvidos. O caráter abstrato do que é apresentado em discursos que abordam valores é, segundo os alunos, uns dos motivos pelos quais eles não apreciam o que se convencionou chamar de parte teórica do curso. Coordenadores pedagógicos apresentam esse mesmo problema de outra forma. Dizem que os alunos tem ânsia de “ir para a prática”.

O quadro de resistência dos alunos a atividades de sala de aula, a apresentações verbais do que se pensa serem fundamentos do fazer, explica em parte o relativo insucesso do ensino formal de conteúdos que envolvem axiologia, ética e estética. E, para o que importa nesta seção, para a docência. Professores de tais conteúdos tem um desafio que precisa ser considerado. De acordo com os pressupostos deste estudo, os problemas decorrentes de tal desafio precisam ser formulados de uma maneira nova, não de acordo com as formas convencionais de análise.

Nas observações realizadas no âmbito deste estudo, constatou-se que educadores nas funções de supervisão e coordenação não costumam considerar o papel formador de mestres de oficinas no campo dos valores. Atribui-se aos professores da “prática” a função de ensinar técnicas e procedimentos. Numa linguagem simplista, pode se dizer que esses docentes são vistos especialistas que ignoram ou tem saber muito limitado no campo de conteúdos comportamentais e atitudinais. Por essa razão, procuram-se professores com formação humanística para garantir que os alunos desenvolvam-se no campo ético, estético e de valores.

Dados de observação até aqui reunidos mostram que quando ignoram o papel formador dos mestres de oficina no campo atitudinal e comportamental, as instituições de ensino deixam de lado a riqueza da aprendizagem de valores na ação.

No caso dos professores, essas observações iniciais procuram deixar claro que o foco da análise é a atividade docente em momentos nos quais os alunos estão envolvidos com produção de obras. A direção escolhida é a de identificar nos fazeres crenças, sentimentos,

Há um entendimento de que o ingresso de valores em atividades de educação profissional e tecnológica acontece por meio de informações organizadas no formato de saberes declarativos, em sequências estruturadas de argumentos. Esse modo de ver confere à axiologia, ética e estética o mesmo formato de exposição da ciência. Os conteúdos éticos, estéticos e axiológicos são tratados discursivamente, A experiência (práxis) é ignorada ou apresentada na forma de sucedâneos ou, para utilizar um termo de Bruillard (19…), de simulacros. Essa abordagem determina a escolha dos docentes. Eles sempre são profissionais formados nas ciências humanas, preferentemente em filosofia.

Nas estratégias de ensino da abordagem de valores no formato de saberes declarativos, os alunos geralmente estudam casos, julgam descrições de situações em que há dilemas éticos, fazem exercícios em grupo, leem textos que se referem a valores, estudam textos de metaética. As atividades de ensino aprendizagem são sempre de elaboração ou entendimento intelectual de valores, não de sua incorporação e desenvolvimento. Mas, há uma crença de que informações assim apresentadas e processadas pelos alunos poderão resultar em mudança de conduta, desenvolvimento de virtudes, melhoria individual e coletiva no campo da moralidade.

Cabe notar que o tempo dedicado aos valores na perspectiva do saber declarativo ocupa um tempo muito pequeno nos currículos. No caso de um curso de técnico de informática, relatado em artigo recente (BARATO, 2013), por exemplo, as competências comportamentais eram abordadas em quarenta horas. Esse tempo é muito curto, considerando-se um curso que dura cerca de mil horas. Além disso, a concepção curricular que entende que valores é um conteúdo curricular reduzido a umas poucas horas de instrução verbal. Fica a impressão que todas as demais horas do curso serão dedicadas a questões cientificas e tecnológicas.  Fica a impressão de que ciência e técnica são neutras, isentas de qualquer coloração valorativa. Em ermos educacionais, a mensagem implícita é a de que ciência e técnica nada têm a ver com a formação humanística (cf. artigo sobre tecnicismo que deve aparecer no próximo número de BTS).

A abordagem dos valores em educação como saberes declarativos

 

Neste estudo, uma das suposições é a de que os professores que pertencem às comunidades de prática da área de trabalho relacionada com o curso são os docentes que mais influenciam os alunos no campo de valores. Os motivos para isso são vários. Em primeiro lugar, como já se registrou em outra parte, docentes que exercem papel de mestres de ofício abordam o trabalho em sua integralidade, não separando e execução de seu significado.  [Como observa Jean lave e Etieene Wenger, numa obra clássica sobre o aprender em comunidades de prática (Lave & Wenger, 19  ), aprendizes e mestres se modificam no processo contínuo de negociação do significado da obra que estão construindo de forma compartilhada. ]

Em segundo lugar, ética, estética e axiologia podem se desenvolver sem necessidade de serem apresentadas na forma de saber proposicional. O compartilhar de significados no trabalho é mediado pela obra, pelo processo de produção e pelas ferramentas utilizadas. Cada uma dessas dimensões da execução de um trabalho incorpora ética, estética e valores. A emergência dos valores, e de princípios éticos e estéticos, na ação geralmente não ganha contornos de declarações verbais explícitas. Para perceber as dimensões valorativas é preciso muitas vezes contar com um incidente crítico que possa indicar julgamentos éticos, estéticos e axiológicos na ação. Essa circunstância já foi abordada aqui na seção que examina os valores intrínsecos do trabalho.

Em terceiro lugar, o mestre de ofícios está envolvido com o objeto de seu ensino. Ele não apenas explica o que fazer. Ele vive o que ensina de maneiras muito concreta. Na expressão de um filósofo (BROUDY, 19…), ele mostra não um saber verdadeiro, ele mostra um saber autêntico. A autenticidade no caso é uma qualidade determinada pelo compromisso pessoal com a obra. O mestre identifica-se com o que faz. Ele não apenas domina um saber, mas tem sua identidade definida por aquilo que faz.

O pressuposto aqui delineado não costuma ser objeto de considerações quando se

 

Em texto em que conclui um de seus livros sobre história da educação, Daine Ravitch (….) faz uma observação que sintetiza com muita clareza o papel das escolas:

Grandes organizações sociais só alcançam sucesso quando se voltam para aquilo que fazem melhor. Esta verdade vale para as escolas. O que as escolas podem e devem fazer? Elas não podem alcançar sucesso a não ser que todos os seus alunos se tornem competentes em leitura, escrita e matemática, assim como sejam capazes de obter um bom entendimento de história , ciências, literatura e um idioma estrangeiro. Elas não podem alcançar sucesso a não ser que ensinem às crianças a importância da honestidade, da responsabilidade pessoal, da curiosidade intelectual, da engenhosidade, da bondade, da empatia e da coragem.

Interessa aqui o trecho final desse parágrafo escrito pela educadora americana, onde ela destaca como resultados esperados da educação: honestidade, responsabilidade pessoal, curiosidade intelectual, engenhosidade, empatia e coragem. Quase todos esses modos de ser estão relacionados com valores.

Convém reparar que Ravitch entende que os valores devem resultar da educação integral, não de uma disciplina, atividade ou componente curricular. Modos de ser são resultados da experiência escolar. Por essa razão, em estudos sobre valores e educação é preciso exercer um olhar que não se prenda a uma visão disciplinar.

Infelizmente a visão disciplinar é muito comum em nossa sociedade. Quase sempre, expectativas de que certos valores sejam incorporados pelos estudantes resultam em propostas de criação de disciplinas ou componentes curriculares que, supostamente, promoveriam o valor desejado. Isso acontece, por exemplo, com desejos de que os alunos de ensino fundamental e médio se tornem empreendedores.

http://www.anpae.org.br/iberoamericano2012/Trabalhos/SilvanaAparecidadeSouza_GT7.pdf

Valor do Trabalho

janeiro 13, 2018

 

Gostaria de escrever um texto denso sobre o assunto. Mas, no momento, estou ocupado com outras coisas e tenho pouco tempo para postar aqui no Boteco. De qualquer forma, trago pra cá este vídeo expressivo. E ele me emocionou logo no começo, quando o ator fala sobre o saber do pedreiro. Meu pai era pedreiro.

Trabalho é arte

janeiro 6, 2018

Educação Profissional: Uma Estória

outubro 6, 2017

História de um Plano de Educação Profissional

 

autor desconhecido

 

Era uma vez um educador formado por ótima faculdade de educação. Assim que recebeu o diploma, ele caiu na vida. Saiu a buscar emprego. Moço de sorte, não teve de procurar muito. Conseguiu colocação numa instituição de educação profissional. Salário bom, bem acima da média para recém-formados. Benefícios excelentes. Boas perspectivas de carreira. E, quase certamente, a instituição lhe daria apoio para ingresso no desejado mestrado na USP ou UNICAMP.

O chefe do jovem educador chamou-o pra uma conversa. Cara meio seco, falou pouco. Em síntese, o chefe queria que ele preparasse um plano de educação profissional para formar protéticos, soldadores e carpinteiros.

O moço saiu da sala do chefe ansioso para mostrar serviço. Sentou-se em sua mesa e começou a produzir o plano pedido.

O  jovem educador, antes de qualquer coisa, procurou deixar claros os princípios necessários para fundamentar o plano de educação profissional encomendado. Seu ponto de partida foi a ideia de que os educandos têm, cada qual, seu próprio estilo de aprendizagem. Em seguida, esclareceu que seria preciso levar em conta os tipos de inteligência de cada um dos alunos. Esses dois princípios, explicados pelo brilhante jovem em começo de carreira, sugeriam uma educação capaz de respeitar a individualidade dos alunos.

E logo veio a segunda parte do plano. O jovem educador mergulhou fundo nas competências. Para tanto, em entrevistas com pessoal de RH, levantou a relação de competências esperadas pelo mercado para protéticos, soldadores e carpinteiros.

Essa parte do plano ressaltava de novo a necessidade de personalizar o ensino, usando para tanto as novas tecnologias da informação e comunicação, pois cada aluno deveria aprender no seu próprio ritmo e de acordo com seus tipos de inteligência.

O plano, olhando para as atuais tendências de mercado, dava destaque a competências nos campos da sociabilidade, da comunicação, do trabalho em equipe, da capacidade empreendedora, da criatividade, da prontidão para adaptar-se a uma mundo em contínua mudança.

O jovem educador não se esqueceu de competências nos campos da sustentabilidade, da parceria, do comportamento ético, da cidadania, do respeito às diferenças, da prontidão para utilizar as novas tecnologias digitais. Além disso, deixou a porta aberta para a incorporação de mais competências gerais cuja necessidade aflorasse no mercado.

Na terceira parte, o plano contemplava competências associadas às técnicas próprias de cada ocupação. Mas, o jovem educador não deixou de expressar um alerta para os leitores do plano. Tudo muda, disse ele. O que o profissional aprende a executar hoje tem vida curta. Em pouco tempo, a ciência e a tecnologia criarão novos modos de produzir e os trabalhadores precisarão deixar de lado velhas manhas do ofício para aprender novas. Por esse motivo, dizia ele, não se deve enfatizar as competências técnicas. Frasista, concluía: as competências técnicas já nascem velhas.

Na quarta parte do plano, nosso herói estabeleceu as linhas gerais sobre docência. Sugeriu contratação de professores com sólida fundamentação pedagógica e ótimos conhecimentos técnico-científicos.

O jovem educador insistiu na ideia de que professores são mediadores, são pontes capazes de facilitar travessias de aprendizagens dos alunos. Sugeriu que, em programas de educação continuada, os docentes fossem incentivados a assumir, cada vez mais, seu papel como mediadores no processo de aprendizagem.

No capítulo docência, o plano ressaltava que os atores principais são os alunos. Chamava atenção dos professores para olharem para os interesses dos estudantes. E lembrava que já não cabe mais, em nossas escolas, docentes cuja virtude principal é o domínio de conteúdos. Em tom de brincadeira, mas com a necessária firmeza, gostava de dizer que conteúdo em nossos dias é território do Tio Google. Em vez de perguntar a professores, os alunos vão atrás do Tio que sabe cada vez mais e este pode dar respostas imediatas para suas pesquisas.

O plano tinha muito mais. Mas o leitor talvez não queira saber de tudo tim-tim por tim-tim. De qualquer forma, é bom dizer algumas palavras sobre o capítulo final: avaliação.

O ponto central da proposta avaliativa do jovem educador era o de que os docentes e outros agentes educacionais da instituição deveriam dar peso maior para avanços que os alunos individualmente vinham obtendo em sua aprendizagem, no sentido de desenvolver a autoestima da moçada. Não deixava de lembrar que cada um é cada um, e cada um deve ser comparado apenas consigo mesmo.

O plano do jovem educador foi aprovado, com elogios da alta direção. Virou referência na instituição. Outros educadores da casa foram incentivados a fazer planos parecidos. E o moço brilhante, que escreveu o plano, ganhou merecida promoção.

Leitores acostumados com histórias felizes como esta, devem estar achando que já é hora de encerrar a conversa com a moral da história. Mas, por causa de um acidente, é preciso continuar com a narrativa. Vamos, pois, ao acidente.

O elogiado plano foi parar nas mãos de um velho educador que começou sua carreira numa IREP (Inspetoria Regional do Ensino Profissional) no final dos anos de 1950.

Com a nova LDB de 1961, o velho educador, na época ainda muito novinho, foi removido para a diretoria de ensino livre da Secretaria da Educação, um setor sem importância e glamour que cuidava de cursos tais como os de datilografia, corte e costura, auxiliar de cozinha.

O velho se aposentou na função em 1995. Mas continua na ativa, atuando voluntariamente como coordenador de projetos de formação de trabalhadores no sindicato das costureiras.

Por um dos azares ou sortes da vida, o velho educador é tio avô do nosso herói. Por isso, depois de ler o plano, ele chamou o sobrinho para uma conversa turbinada por generosas doses de chope no Bar do Leo.

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Foto do interior do Bar do Leo. Local onde vale a pena conversar sobre tudo, educação inclusa.

O velho falou muito, tentando encantar o sobrinho com outra visão de educação profissional. Segue aqui um resumo muito resumido da fala do antigo inspetor de IREP.

Na primeira e segunda parte, ele disse ao sobrinho, você enfatiza em demasia a noção de individualização na aprendizagem. Não aprendemos isoladamente. Aprendemos com os outros. Aprendemos em companhia. Aprendemos com os companheiros.

O sobrinho disse ao velho que a crítica dele era coisa antiga. O mundo mudou. Mas o tio era um idoso muito atualizado. Sacou de sua sacola de algodão um livrinho que foi eleito uma das dez melhores obras de educação da segunda metade do século XX: Common Knowledge: The developmentof understanding in the classroom, obra de de Derek Edwards e Neil Mercer, dos idos de 1989

 O estudo que o antigo inspetor mostrou para o jovem educador fornece evidências de que aprendemos em processo de compartilhamento de saberes, negociando significados. O sobrinho nunca tinha visto aquele livrinho. O tio lhe disse que os autores eram, e ainda são, pesquisadores importantes no campo do construtivismo.

O velho entrou com certa ironia na parte das competências. Disse ao sobrinho que o primeiro passo para conversar sobre conteúdos do trabalho é o diálogo com os trabalhadores, não com burocratas do RH.

Trabalho tem história. Trabalho tem arte. Trabalho tem compromisso. Trabalho tem sentido. Trabalho tem valor. O velho estava entusiasmado em sua oratória. Mostrou ao sobrinho que era preciso olhar para os trabalhadores com empatia, como gente que sabe, mas tem um saber que é invisível para intelectuais e senhores da academia. Recomendou a leitura de um belo livro de Mike Rose sobre o assunto: O Saber no Trabalho: Valorização da Inteligência do Trabalhador.

Mike (2007) vai até os trabalhadores. Os vê trabalhando. Conversa com eles simpaticamente. E vai descobrindo saberes muito ricos que podem ser vistos apenas por quem se aproxima dos profissionais, de sua história, de seus sonhos, de seus valores, de seu orgulho por trabalhos bem feitos, por sua arte.

Como Mike é um cara de esquerda, gente que o jovem educador olha com alguma desconfiança, o velho resolveu apresentar-lhe gente “neutra” que também faz alertas no sentido da necessidade de mergulhar profundamente nos saberes do trabalho.E para tanto, tirou da sacola um best-seller do New York Times, Shop Class as Soulcraft: An inquiry on the value of work, 2007.

O autor, Matthew Crawford, mostra que o trabalho de um mecânico que conserta motos antigas oferece desafios cognitivos muito mais aventurosos que o trabalho pseudo-intelectual de trabalhadores de escritório.

Ato contínuo, o idoso sacou de seu embornal mais um livro, de 2004, cujo autor insiste na ideia de que em educação profissional o ponto de partida essencial é o conteúdo do trabalho, a técnica, o fazer-saber: Educação Profissional: Saberes do Trabalho ou Saberes do Ócio?

O velho mudou de tom, deixou os livros de lado e disse ao sobrinho que o saber técnico é essencial. O esvaziamento,  do conteúdo trabalho, disse o educador das antigas, é uma estratégia para simplificar o trabalho e rebaixar salários. E isso não é novo. Taylor começou tal história há quase um século. Assim, atribuir pouco peso a competências técnicas não é uma sacada de modernidade, a não ser que o sacador ache que Taylor ainda deve ditar como o trabalho deve ser realizado.

Na terceira tulipa de chope, o velho inspetor ligou seus motores teóricos, ignorados pelo sobrinho até aquela conversa no Bar do Leo. E o tiozinho foi fundo. Começou a falar de uma teoria arcana. Citou Jean Lave  Etienne Wenger: Situated Learning: Legitimate Peripheral Participation .

Jean lave é responsável pela introdução do conceito de comunidade de prática no campo das ciências sociais. O conceito refinado por Lave teve como base o exame das aprendizagens que ocorrem no e pelo trabalho em ambientes onde os aprendizes aprendem fazendo.

[O tio seguiu em frente, mas, eu vou deixar a história de lado por um tempo e, em outra ocasião, comentarei com certa liberdade interpretativa as ideias de Lave no livrinho que ele apresentou ao jovem educador seu sobrinho]

O velho tinha um repertório imenso – para surpresa de seu sobrinho. Disse ao moço que estava meio cansado e que poderia continuar a conversa outro dia, talvez no Brahma ou num belo boteco chamado Juriti.

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O Juriti é um boteco que fica no Cambuci, SP. Trago para cá foto do balcão da casa. Você não precisa ler cardápios para saber o que há de tira gosto na casa, basta olhar o que está exposto no balcão.

O jovem educador ficou abalado. Sentiu que suas convicções eram ingênuas, meio ceguetas. Prometeu que iria prestar atenção no saber dos trabalhadores dali para frente e começou a admirar a sabedoria do tiozinho que ficou tanto tempo cuidando da inspeção de cursos livres, atividade aparentemente pobre e pouco sintonizada com os avanços das ciências da educação. Mas, aprendeu a lição. Começou a olhar para seu plano como uma bobagem de educador que não se comprometeu com o trabalho e com os trabalhadores.

MORAL DA ESTÓRIA: o trabalho tem muitos saberes que não se manifestam para educadores que acham que a formação profissional é uma prima pobre da educação.

 

Economia e educação

setembro 29, 2017

Volta e meia os meios de comunicação justificam a necessidade de mais escolaridade, assim como de escolas de mais qualidade, porque é preciso avançar a economia, social e individualmente. Nessas justificativas não se diz uma palavra sobre a finalidade maior da educação, avanço da cidadania. Tudo se passa como se a escola fosse exclusivamente uma ferramenta para aumentar poder de compra, oportunidades de emprego. Ele modo de enxergar escolas e educação sistemática foi examinado em pesquisas recentes. Estas mostram que o papel da escola em termos econômicos não é significativo. Há outros fatores muito mais importantes. Estou sem tempo para oferecer aqui um resumo do artigo. Mas, indico-o para leitura dos interessados:

Education Isn’t the Key to a Good Income

Profissionalização precoce: erro insistente

setembro 4, 2017

Acabo de dar uma olhada em velhos arquivos onde guardo papeis de minha vida de trabalho. São subsídios, revistas avulsas, anotações, documentos, relatórios etc. Alguns desses papeis têm mais de quatro décadas e eu não consigo colocá-los no lixo. Vou guardando…

Entre os meus guardados está um exemplar de revista SENAC.sp. publicação que divulgava feitos do SENAC de São Paulo. O número que tenho é o 5, ano 2, abr/mai/jun de 1998. Em tal número há um pequeno artigo meu, comentando aspecto relacionado com possibilidades de cooperação entre o Seneca College (community college canadense) e o SENAC paulista. Aproveitei a ocasião para propor conversa sobre profissionalização precoce, essa mania de acelerar a formação profissional para os pobres. O tema ainda é muito atual, pois continua firme e forte a ideia de que é muito bom profissionalizar adolescentes, sobretudo por meio de cursos técnicos. Acho isso uma bobagem. E, como verão, já tinha essa convicção em 1998.

 

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Saber no trabalho e educação profissional

setembro 2, 2017

saber no trabalho

Leio textos sobre educação profissional escritos por acadêmicos e vejo que eles são produzidos sem qualquer simpatia pelos trabalhadores. E simpatia pelos trabalhadores é condição indispensável para se produzir pesquisas que não reduzam o trabalho a um fazer sem inteligência. Por isso, acho indispensável leitura de uma obra fundamental sobre o assunto: O Saber no Trabalho. Inicio aqui uma campanha para promover esse livro do meu amigo Mike Rose. Começo com resenha do livro do Mike que escrevi tempos atrás.

ROSE, Mike. O Saber no trabalho: valorização da inteligência do trabalhador. Trad. de Renata Lúcia Bottini. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2007, 253 p.
Descritores do conteúdo do trabalho, sejam eles análises ocupacionais ou definições de competências, ignoram dimensões importantes dos saberes dos trabalhadores. No geral tais descritores padecem de sérios limites por causa de modos de ver as profissões e de metodologias que não levam em consideração as tramas cognitivas e sociais demandadas pela execução de qualquer trabalho. O resultado são modos de ver a atividade produtiva, sobretudo aquela que requer uso das mãos, como uma prática desprovida de inteligência. As conseqüências disso no campo educacional consagram o famoso erro de Descartes, a divisão insuperável entre mão e cérebro, corpo e mente. Mike Rose, professor da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), procura superar esse modo tradicional de ver o saber dos trabalhadores em livro cuja tradução brasileira recebeu o título de O Saber no Trabalho..
Mike Rose cresceu entre ferroviários e foi criado por uma mãe que sustentou a família com seus ganhos como garçonete. Ele chegou à universidade por meio de mecanismos de inclusão que favoreciam estudantes das camadas populares. Esses acidentes biográficos ajudaram-no a construir uma abordagem do trabalho que faz emergir toda a riqueza da inteligência presente em profissões como as de garçonete, cabeleireira, carpinteiro. E tal abordagem é bem diferente daquelas que alicerçam análises ocupacionais ou definições de competências.
No primeiro capítulo, o autor penetra no mundo dos serviços de restaurante a partir de uma análise cuidadosa de entrevistas realizadas com sua mãe e com outras garçonetes de restaurantes populares americanos, complementadas com a bibliografia disponível sobre a profissão. E Rose vê muito mais que competências e habilidades no trabalho das garçonetes. Vê um rico exercício da inteligência que decorre da dinâmica dos fazeres necessários aos serviços de restaurantes. Boa parte dessa dinâmica é invisível para analistas centrados em aspectos observáveis do trabalho. Não fica evidente para esses observadores, por exemplo, estratégias utilizadas para otimizar movimentos num fluxo de atendimento que contempla oito mesas de clientes que chegaram em tempos distintos e têm demandas muito diferentes de serviços, ou estratégias de memória para relacionar pedidos e gostos de clientes num horário de rush no qual cada garçonete atente simultaneamente a cerca de trinta pessoas.
No segundo capítulo, o autor analisa a profissão de cabeleireira com base em encontros com profissionais de diversos tipos de salões de beleza. O resultado é bastante parecido com o obtido a partir da conversa com as garçonetes. Nos três capítulos seguintes, Rose estuda profissões da área de construção civil. Mas desta vez suas observações não foram feitas a partir de diálogos com profissionais experientes. Ele examina o saber de profissões como as de encanador, eletricista e carpinteiro acompanhando o cotidiano escolar de estudantes e professores. E as análises, no caso, mostram o fluxo de um saber que não cabe na forma dicotômica do par teoria e prática. Ao descrever discurso e práticas dos estudantes, Rose mostra desdobramentos estéticos e éticos que análises convencionais do trabalho ignoram completamente.
O sexto capítulo foi construído a partir de duas biografias de trabalhadores: um supervisor de linhas de montagem, uma soldadora que ensina seu ofício num curso de nível tecnológico. O supervisor formou-se em atividades do chão de fábrica. A soldadora aprendeu seu ofício em cursos técnicos e tecnológicos. Ambos, porém, vêem o saber do trabalho a partir de uma cultura operária. Nos capítulos finais, Rose procura articular toda a riqueza de suas análises de profissões manuais, algumas delas de status social muito baixo, com a elaboração do saber. Para isso recorre a estudos contemporâneos no âmbito das ciências cognitivas. E repara que tais estudos, cada vez mais, tornam inadequado o tratamento dicotômico do saber em teoria e prática, conhecimento e habilidade ou fundamentação e execução. Para mostrar que boa parte das considerações que estigmatizam o trabalho manual, o professor da UCLA acompanhou, no regime de residência de um hospital, a formação de cirurgiões. Uma das conclusões de Rose é a de que o fazer-saber de médicos cirurgiões tem uma natureza que pouco difere do fazer-saber de carpinteiros. Ocorre, porém, que o trabalho médico tem um status muito elevado na sociedade americana,circunstância que valoriza as técnicas de cirurgia sem considerar sua natureza de saber em ação.
A escolha da profissão de garçonete como ponto de partida para os estudos que resultaram no livro não foi determinada apenas pela biografia do autor; Rose escolheu a garçonete como um ícone de seus estudos porque essa profissão é vista nos Estados Unidos como atividade que requer pouca inteligência e quase nenhuma capacitação. Referências á garçonete são muito parecidas com as afirmações que se fazem no Brasil com relação ao pedreiro. Num e noutro caso, ambas a profissões são vistas com destino para pessoas de limitadas capacidades intelectuais. Toda a riqueza dos saberes exigidos pelas duas profissões acaba ficando invisível. Num certo sentido, os próprios trabalhadores que exercem tais ofícios são invisíveis. Essa invisibilidade acaba ocorrendo por causa dos pressupostos a partir dos quais pesquisadores e analistas abordam o trabalho manual. A invisibilidade do saber profissional no caso é conseqüência de uma escolha metodológica. Saberes, tradições, visões de mundo e valores elaborados pelos trabalhadores em seus fazeres profissionais acabam não entrando na pauta de investigação dos pesquisadores. Sobram apenas habilidades mensuráveis e objetivamente descritíveis.
O aspecto central do livro de Mike Rose é a interação entre o trabalhador e sua obra. O autor desvela a relação entre o profissional e a vontade de realizar um trabalho bem feito. Este modo de ver não reduz o saber trabalhar a habilidades ou competências, a parcelas de conhecimento desvinculadas de compromissos sociais e da satisfação de produzir. Certamente esta orientação para a obra pode ser muito promissora para investigações sobre conteúdos do trabalho e para orientações metodológicas na área de educação profissional.

Educação Profissional e Tecnológica

agosto 31, 2017

Trago para cá vídeo da aula inaugural do curso e mestrado em tecnologia educacional e tecnológica, iniciado neste mês de agosto de 2017 pelo Instituto Tecnológico de Santa Catarina. Fiz dobradinha no evento com minha querida amiga Lucília Machado.

Luto

julho 12, 2017

lutoluto

Ontem, 11/07/2017, o senado aprovou lei que acabará com a CLT. Nas relações com os patrões, os trabalhadores estarão profundamente enfraquecidos. No campo de direitos dos cidadãos regredimos um século ou mais. Triste.