Archive for the ‘Bobagens’ Category

Novas tecnologias e mentiras bem intencionadas

maio 24, 2016

A admiração pelas novas tecnologias da comunicação e informação produzem deslumbramentos. A gente deslumbrada perde a medida das coisas. Acredita que os milagres da internet vão mudar o mundo, vão mudar per se a educação. Para tanto, assimilam de maneira equivocada boas teorias e convertem-nas em panaceias. Acabo de ver uma delas em site indicado por uma amiga do Facebook.

No site indicado há uma matéria sobre “comunidades de aprendizagem”. O texto utiliza de maneira equivocada a ideia de que aprendemos com os outros. Destaco aqui as pérolas:

  • Você sabia que discutir um tema em grupo gera uma aprendizagem 1000% mais efetiva do que uma aula expositiva?
  • As discussões em grupo também proporcionam uma taxa de aprendizagem 500% melhor do que a leitura.

Essas duas informações utilizam números para passar ideia de que há pesquisa séria que mostra a efetividade do trabalho em grupo. Até onde sei, não há pesquisas assim. Há abordagens teóricas que sinalizam que a aprendizagem é social. Mas, as tramas do aprender são um fenômeno complexo que pode inclusive integrar aulas expositivas em percursos de aprendizagem significativa. Nenhum pesquisador sério diria que trabalho em grupo proporciona taxa de aprendizagem 500% melhor que a leitura. Isso é uma bobagem.

Os altos números referidos a atividades em grupo são utilizados para justificar usos de redes sociais como loci de comunidades de aprendizagem. Mas, do modo com as coisas são apresentadas, fica a impressão de que simples uso de um blog, por exemplo, produz comunidades de aprendizagem. Isso não é sequer má teoria. É pura empulhação.

Não me canso de repetir uma frase que ouvi da professora Allison Rossett: “tecnologia educacional não é uma questão de máquinas e equipamentos, é uma questão de cabeça”. E a situação me lembra também um alerta do meu amigo Steen larsen, grande educador dinamarquês: ” a sofisticação das propostas de tecnologia educacional não está nas tecnologias digitais, está nas teorias avançadas e sólidas de aprendizagem que dão consistências ao trabalho dos educadores”.

Não quero ir muito longe nessa fala. Paro por aqui. Fiz apenas um registro para mostrar meu desconforto com uma matéria que minha idade avançada me permite chamar de boba. Ou para ser cruel, uma matéria que conta mentiras bem intencionadas para promover usos de TI.

Para quem quiser ver a matéria que critico, clique aqui.

 

Prova de tecnologia educacional

junho 22, 2014

Entre os meus guardados, tenho provas que fiz para cumprir o dever de elaborar instrumentos que pudessem me ajudar a dar nota para os alunos. Eu nunca fui muito rigoroso em dar notas. Sempre utilizei critérios para que meus estudantes já partissem para a prova com nota 4, pois ninguém é ZERO. Nunca cheguei a dizer isso claramente para meus alunos. Eu partia da nota 4 como mínimo, o que tornava muito difícil a reprovação de quem eu avaliava. Neste post não vou conversar sobre avaliação. Vou apenas matar saudades, reproduzindo uma prova de tecnologia educacional que elaborei em 2006.

Tecnologia Educacional 4apgn
Avaliação Semestral

Universidade São Judas Tadeu
Curso de Pedagogia
Prof. Jarbas N Barato
Parte 1 (3 pontos)

Nas questões que seguem, escolha a melhor alternativa.

1. Atualmente, com a divulgação das novas TIC’s –Tecnologias da Informação e Comunicação – é comum um modo de pensar que pode ser chamado de instrumentismo. Esse modo de pensar pode ser caracterizado como:
___a) um entendimento de que os novos meios são “apenas ferrramentas” cujo uso depende de planejamento didático-pedagógico.
___b) a idéia de que basta adquirir e usar as novas ferramentas para que haja tecnologia no espaço escolar.
___c) a tendência de achar que o uso de novas ferramentas faz com que os alunos aprendam mais e melhor.
___d) a idéia de que usar ou não as novas ferramentas de comunicação é indiferente.
___e) a convicção de que os educadores precisam necessariamente utilizar as novas ferramentas.

2. Com as novas tecnologias da informação e da comunicação:
___a) passamos a contar com mais ferramentas para diversificar a comunicação dos conteúdos de conhecimento
___b) começamos a reorganizar os conteúdos e a estruturar maneiras inéditas de pensar
___c) podemos tornar a aprendizagem mais divertida, obtendo conseqüentemente melhores resultados
___d) passamos a enfrentar o desafio de maior dispersão e falta de atenção dos estudantes, dada a superficialidade dos novos meios
___e) assistimos a uma mudança radical no papel do professor.

3. Na história da educação, o deslumbramento causado pelo cinema oferece ótimo exemplo de erros de avaliação quanto ao papel que os novos meios de comunicação podem desempenhar em termos de aprendizagem. Isso fica muito claro em declarações de:
___a) Albert Einstein
___b) Henry Ford
___c) Thomas Edison
___d) Santos Dumont
___e) Emile Freinet

4. Cinema e TV, dos meios de comunicação que se desenvolveram no século XX:
___a) tiveram papel importante na educação escolar
___b) foram usados apenas por educadores inspirados pela Escola Nova
___c) ficaram restritos a programas de educação a distância
___d) educaram as pessoas fora dos muros escolares
___e) sofreram sérias resistência dos educadores

5. Visões negativas caracterizam os blogs como:
___a) forma de comunicação restrita a quem gosta de escrever
___b) publicações que incentivam promoção pessoal, superficialidade e fofocas
___c) instrumento de comunicação que exige muito conhecimento do funcionamento da Web
___d) moda passageira que não criará raízes no universo da comunicação humana publicações que incentivam promoção pessoal, superficialidade e fofocas
___e) produção muito trabalhosa, considerados os resultados de aprendizagem que proporcionam

6. Na linha de crítica ao instrumentismo, especialistas em tecnologia educacional chamam nossa atenção para o fato de tecnologia é:
___a) uma opção entre muitas outras
___b) é inteligência humana, não máquinas e equipamentos
___c) uso bem planejado dos recursos disponíveis
___d) opção que exige muita pesquisa do educador
___e) uso adequado dos novos meios de comunicação

7. O ingresso de novos meios de comunicação não tem efeito aditivo (antigo mundo + nova ferramenta). Há no caso mudança profunda comparável a:
___a) ruptura de paradigmas na ciência
___b) revoluções no campo do comportamento e dos costumes
___c) reformas substanciais na estrutura da educação
___d) alteração profunda de visão de mundo
___e) impacto ecológico de um novo organismo no meio ambiente

8. Especialistas preocupados com os rumos que a utilização dos novos meios de comunicação e informação vêm tomando, previnem-nos contra:
___a) a desumanização provocada pela tecnologia
___b) a idéia de que informação e conhecimento são sinônimos
___c) a perda de valores importantes promovidos pelas antigas tecnologia
___d) a idéia de que toda a aprendizagem precisa ser divertida
___ e) a ilusão de que os novos meios nos tornam mais inteligentes

9. Para serem usados com sucesso em educação, os blogs:
___a) precisam ser entendidos primordialmente como meios de comunicação com virtudes próprias
___b) devem ser replanejados para atender a finalidades específicas de aprendizagem
___c) precisam passar por uma atenta supervisão dos educadores para evitar superficialidades
___d) devem atender a orientações pedagógicas previamente definidas
___e) precisam ser produzidos de acordo com normas éticas e de bom gosto

10. Blogs, se usados como espaço de conversação, promovem aprendizagens não reguladas. Tais aprendizagens são conseqüência:
___a) da liberdade que o aluno ganha ao se tornar efetivamente um autor
___b) da experiência de redação que o aluno vai desenvolvendo à medida que publica seus posts
___c) da interação que vai acontecendo à medida que seus posts repercutem no ciberespaço
___d) das amizades virtuais que vão surgindo à medida que sua obra fica conhecida
___e) do efeito causado pela reflexão necessária à produção de suas mensagens

11. Blogs exigem produção textual. Mas não desenvolvem apenas redação no sentido tradicional. Eles são um instrumento importante para:
___a) familiarizar os alunos com o ambiente Web
___b) desenvolver sentimento de autoria
___c) desenvolver gosto pela redação
___d) aperfeiçoar estilo dos alunos-autores
___e) oferecer oportunidade para aprendizagens de produção hipertextual

12. Nas alternativas que seguem, assinale aquela que não corresponde a um entendimento correto do uso de blogs em comunicação e educação:
___a) eles (os blogs) são uma ferramenta para jovens
___b) para publicá-los, não é necessário muito conhecimento de informática, computadores e internet
___c) conversar, esta é a idéia central da produção e uso de blogs
___d) antes de usar, é preciso que os educadores compreendam a natureza comunicativa dos blogs
___e) ingressar na blogosfera é um meio de exercer cibercidadania

Parte 2 (4 pontos)

O mote de nossa disciplina este ano é a fórmula tecnologia = ferramenta + imaginação. Esse modo de pensar é um pouco diferente dos modos hegemônicos de ver o uso das novas ferramentas comunicativas no processo de ensino-aprendizagem. Explique, num ensaio de pelo menos vinte linhas de texto, as direções que a mencionada fórmula sugere para a atuação dos educadores.

 

Imagina na copa !

junho 11, 2014

Quando vi os coxinhas utilizando o bordão “imagina na copa!” resolvi colaborar. Comecei a pesquisar as grandes preocupações de tão ilustrados compatriotas e ofereci-lhes minha modesta cooperação na forma de indignadas expressões. A série chegou ao fim, pois a copa começa amanhã. Para encerrar, listo aqui algumas das indignações que expressei, pedindo aos leitores que indiquem a que melhor correspondeu à indignação coxista:

• A peteca perdeu as penas. Imagina na copa!

• O paio ficou longe da feijoada. Imagina na copa!

• A manga só tem casca e caroço. Imagina na copa!

• Hoje a salada é jiló com almeirão. Imagina na copa!

• O defunto não compareceu ao velório. Imagina na copa!

• Pombos trocaram estátuas por transeuntes. Imagina na copa!

• Folha contrata mais comentaristas de direita. Imagina na copa!

• Inflacionaram os preços em outlets de Miami. Imagina na copa!

• A sogra esticou sua estada por mais duas semanas. Imagina na copa!

• Pastor diz que número de encapetados aumentou. Imagina na copa !!!!

• Na qualificação, a banca mandou reescrever a tese inteira. Imagina na copa!

Vida e comunicação

junho 6, 2014

Muita informação. Pouco tempo para tudo consumir. Pouco tempo para encontros. O mundo real se dissolve. Tudo que posso fazer é viver no mundo virtual. Lá tenho muitos amigos. Encontro todo mundo. Lá sou amigo de todos os reis da Silicolândia. Celebro. Festejo. Vivo a vida bem vivida que vem lá da telinha. Nada do calor de um abraço. Nada de um beijo roubado. Nada sólido. Tudo se dissolve rapidamente para que eu possa consumir mais e mais informação, mercadoria produzida em fluxos incessantes. Vale a pena? Sei lá. Vou perguntar pro Google. E os amigos? São tantos. Agora mesmo consegui mais três. Vão aparecer uns dias. Depois somem. Tudo é muito confuso. Vou pedir à Apple para organizar minha vida. Deve existir um aplicativo pra isso. Um amigo postou algo sobre isso no Face. Mas, não sei mais onde está.

Escrevi atrás um borbotão de pensares a la Raul Roa em Eu, O Supremo. Um pensar sem regras. Urgente. Mas agora dominado pelas redes onde apareço de maneira fugaz, com gente me prometendo amizades fugazes. Tudo isso tem de ser melhor pensado. Acho que o vídeo que segue pode ajudar um pouco.

A praga do pedagogês

maio 16, 2012

Nas academias e no ministério da educação falam um idioma que não entendo, o pedagogês. Acadêmicos pacientes me explicaram que tal linguagem é necessária para conferir maior objetividade ao discurso. “Ela é”, dizem eles, “uma linguagem científica”. Não fico convencdo. Acho que o tal discurso é obscuro, feio, chato, horroroso.

Hoje, ao ler o texto Limites do relativismo cultural, no ótimo De Rerum Natura, deparei-me com mais uma jóia do pedagogês, trecho de um texto escrito por eduburocrata do ministério da educação de Portugal. Ele nada fica a dever a nossas teses de doutorado das faculdades de educação ou a documentos do nosso MEC:

  “Tendo em vista melhorar a eficácia da resposta educativa aos problemas surgidos da diversidade dos contextos escolares e assegurar que todos os alunos aprendam mais e de um modo mais significativo, o Departamento da Educação Básica editou (…) agora “Histórias do Povo Cigano”, adaptadas a crianças, contribuindo para a construção de uma escola de qualidade, mais humana, criativa e inteligente. Os excertos de histórias aqui apresentados resultam de uma recolha (…) entre Junho e Dezembro de 1998, no âmbito do Projecto “ROM-SF” (Programa Sócrates), desenvolvido em parceria com os Ministérios da Educação da Suécia e Finlândia. Conscientes da multiplicidade de situações quotidianas, queremos apenas sugerir-lhe algumas abordagens possíveis, que não se esgotam aqui (…) o(a) professor(a) poderá seleccionar competências, organizar conteúdos e desenvolver o seu trabalho, segundo a concepção de estratégias/actividades diversificadas que criem condições para a transversalidade das aprendizagens, numa perspectiva de desenvolvimento integral do aluno e de uma efectiva educação para a cidadania.”

 

Sem Sistema

abril 20, 2012

Acabo de ser vítima da praga moderna do “estamos sem sistema”. Encomendei um livro via Livraria da Vila, loja do Shopping Center Higienópolis. No quinto dia útil depois do meu pedido, fui até a loja para saber se o livro tinha chegado no tempo prometido. Não tinha. Me deram novo prazo: dia 19 deste mês de abril. Cheguei hoje (20/04) de viagem. Minha mulher não havia recebido aviso da livraria, mas como eu almocei ao lado da loja, resolvi dar uma passada lá para ver se o livro já estava disponível.

Fui até o guichê de reservas. A moça me disse que o livro chegara, mas, como estavam sem sistema, ela havia mandado o produto para a loja. Sem condições de verificar o acontecido no sistema, anotou meu CPF num papelzinho e prometeu que me daria feedback assim que o sistema voltasse à vida. E, por achar que o livro estava em alguma prateleira da livraria, me sugeriu falar com um dos vendedores.

Fiz o que a moça sugeriu. Falei com um dos vendedores. Ele me pediu nome do autor, nome da obra e nome da editora. Forneci-lhe os dados pedidos. E lá foi ele em busca do livro. Demorou alguns minutos. Pensei que ele havia me esquecido. Quando minha irritação chegou à tampa, o moço voltou e me disse que estava difícil a procura porque sem o sistema ele não tinha condições de ver a “cara” do livro. Mostrou certa boa vontade para continuar a busca, mas dispensei a gentileza. Vi que não havia qualquer motivo para esperanças.

Além de minha irritação por causa de um atendimento de qualidade precária, fiquei preocupado com descontinuidades de serviços por causa da ausência de sistemas. O que rolou na livraria foram cenas de personagens perdidas porque o ator principal, o tal de sistema, estava ausente. Isso mostra que a história do cliente-rei, que sempre denuncio, é bobagem para inglês ver. O sistema é muito mais importante que o cliente*[i] .  A moça do guichê de reservas e os vendedores da loja não sabem o que fazer sem sistema. Não há plano B. Os profissionais são apenas periféricos do sistema. Sem este último não funcionam.

Parece que o sistema da Livraria da Vila voltou à vida. A moça do setor de reservas acaba de me telefonar, dizendo que o livro ainda não chegou, pois houve problemas operacionais na editora (acho que o sistema também morreu esses dias na Penso-Artmed!). Promessa: terei o livro certamente na próxima quarta feira. Sei não … E se o sistema cair de novo?

Antes de seguir em frente, quero deixar registrado meu agradecimento à moça que me ligou e cujo nome minha memória de velho não registrou. Possivelmente ela viu minha decepção e procurou entrar em contato assim que possível. Ponto para ela.

Não quero fazer deste post apenas um registro de descontentamento com os serviços da Livraria da Vila. A praga do “estamos sem sistema” é geral. Precisamos examiná-la com cuidado, pois em alguns casos, num atendimento de pronto socorro hospitalar, por exemplo, ela pode ter consequências fatais. Por isso vou continuar a conversa por mais algumas linhas.

Conto um caso antigo. Na metade dos anos 80, meu saudoso amigo Roberto Rocha, gerente da Área de Informática no SENAC de São Paulo, entrou numa loja de construção para comprar cinco preguinhos. O produto custava alguns centavos. O vendedor avisou que a venda seria impossível, pois o sistema estava fora do ar. Roberto insistiu. Ele precisava mesmo dos cinco preguinhos. Sugeriu ao vendedor que lhe doasse a preciosa mercadoria. Propôs-se a pagar cinco pilas pelos preguinhos. Disse ao moço para registrar a venda quando o sistema voltasse. Com isso teria bom lucro, embolsando o troco. Em vão. O vendedor permaneceu irredutível, sem sistema os preguinhos não saiam da loja.

Quando ouvimos a história dos preguinhos da boca do Roberto Rocha, eu e outros amigos dele fomos implacáveis, pois no Centro de Informática, gerenciado pelo Roberto, havia muitos cursos para formar profissionais de sistemas. Dissemos a ele que aquilo era castigo.

No meu caso recente e no caso antigo acontecido com o Roberto, fica evidente nossa  dependência dos sistemas. Estes se tornaram soberanos. Sem eles não sabemos viver. Não sabemos agir. Não sabemos vender. Não sabemos dar respostas satisfatórias para os fregueses.

Os casos que contei e muitos outros que poderiam ser lembrados mostram que precisamos fazer alguma coisa para que não nos tornemos escravos dos sistemas, essa suposta forma impessoal  de melhorar controles, tornar os serviços mais rápidos, buscar informações com mais precisão. Conversas sobre sistemas parecem ter como pressuposto que essa solução baseada em tecnologia digital independe de gente. O sistema parece um bezerro de ouro que veio de  outra galáxia para ser adorado por seres inferiores, nós. Mas, ele é uma criação humana. Pode ser mudado.  Precisamos pensar em sistemas que não sejam imperiais, em sistemas que, se falhos ou ausentes, não impeçam a simples venda de preguinhos, a informação correta para quem fez uma encomenda, o atendimento médico para um acidentado grave que não pode aguardar com paciência que o computador recupere sua saúde digital depois de um engasgo com um bug qualquer.

É bom a gente trazer a conversa sobre sistemas para a área da educação.  Professores e alunos já começam a depender do sistema. E, quando o sistema morre a educação para. Isso acontece com certa frequência com professores que planejaram atividades no laboratório de informática. Se o sistema da escola ou, em outros casos, o sistema externo (a internet, por exemplo) está fora do ar, tudo para, há certa confusão, falta plano B.

Faço uma última observação. Vamos dar nome de sistema ao Google. Ele está se convertendo num “sistema” que gera total dependência na busca de informação. Humanos estão se convertendo apenas em repetidores do Google. Isso pode se converter num pesadelo. Exagero só um pouquinho ao afirmar que a vida sem o Google está se tornando impraticável.


[i] Continuo a preferir a boa e velha palavra “freguês.

Boteco fino

maio 4, 2011

Bottega Veneta. Marca de artigos finos de vestuário. Em tradução direta seria Boteco Veneziano. Como já anotei aqui outras vezes, a velha Apoteke, um tipo de armazém que existia no porto de Atenas deu origem a designações de estabelecimentos comerciais em diversos idiomas europeus. Em português gerou boteco, buteco, bodega, butique. Acabo de descobrir agora este novo uso, Botteca, em italiano para uma marca chic de bolsas, sapatos e outros artigos finos para senhoras. Vi a expressão em algumas lojas nas ruas (calles) mais elegantes de Veneza. Fotografei. Como vêem, esta prima do boteco é coisa sofisticada.

Fiz o registro fotográfico da Bottega Veneta. Com isso mostro que boteco pode ser coisa fina, sofisticada, de extremo bom gosto. Espero que tal registro faça com que muitos pedagogos deixem de ver o nome deste blog como ofensa à nobre causa da educação. O Boteco Escola tem bons companheiros no campo etimológico.

Segue mais uma foto. O nome Bottega Veneta aparece como destaque na vitrine de outra loja.

Nativos digitais e os velhos

fevereiro 15, 2011

Acabo de receber de meu amigo Bertelli indicação de PPS com declarações de um velho sobre sua dificuldade de se adaptar à novidades. Esse velho não fica só em reclamações. Lembra “antiguidades” inventadas por sua geração: Rock, Beatles, liberdade sexual, luta por condições decentes de vida, liberação feminina, briga corajosa contra a ditadura, muita música bonita, muita literatura de primeira água and so on. Ao mesmo tempo, talvez de modo injusto, lembra as “conquistas” da geração atual: pouco gosto pela leitura, música sem melodia, tédios intermináveis, vazio intelectual etc. e tal.

Não vou entrar no mérito das opiniões do citado velho. Mas, acho que ele chama a atenção para certos pontos meio esquecidos: a geração que hoje enfrenta alguma dificuldade para usar parafernália eletrônica e entender a ânsia por mais e mais diversão; mas, esta mesma geração pertenceu a uma juventude rebelde que contribuiu para mudanças fundamentais no mundo.

Sinto que o educadores valorizam sobremaneira os jovens de hoje e se esquecem das conquistas dos jovens de ontem. Uma pena! Estão jogando história na lata do lixo. E pior: passam para os meninos de agora a sensação de que os jovens de outrora nada fizeram que mereça destaque.

Da coleção de eslaides encaminhadas pelo Bertelli quero destacar um trecho que descreve um pouco de minha experiência atual:

Jovens, posso rir das críticas que me fazem, ainda que às vezes não as ouça muito bem.

A declaração do velho tem muito a ver com coisas que ouvi (ou não ouvi) de alguns de meus alunos.

Metodologia científica e escrita 1

janeiro 13, 2011

Depois de comentar e publicar textos de livros e revistas científicos que mereceram prêmios no Concurso da Escrita Ruim, a revista Philosophy and Literature apresentou a tira que abre este post. Para benefício de visitantes que não arranham o inglês, faço uma tradução ligeira dos quadros:

  • Quadro 1: Antes eu odiava tarefas de redação. Agora eu as amo.
  • Quadro 2: Me dei conta de que as finalidades da escrita são a de inflar idéias fracas; obscurecer argumentação pobre; e inibir clareza.
  • Quadro 3: Com um pouco de prática, a escrita pode ser uma neblina intimidante e impenetrável. Quer ver meu texto sobre o livro?
  • Quadro 4:  “A dinâmica dos imperativos interseres e monológicos em Jim e Jane: um estudo sobre os modos psico-transrelacionais de gênero.” Academia, aqui vou eu!

Piada? Não. Boa parte dos escritos da academia é muito parecida com o texto do quadro 4. Para um bom leitor, quase todos os artigos publicados em revistas científicas parecem ter sido pensados de acordo com as finalidades da escrita anunciadas no quadro 2.

Começo aqui uma série de posts sobre a Escrita Ruim no campo das produções acadêmicas. Textos protegidos por supostos propósitos científicos acabam sendo um discurso pomposo, vazio, chato, desgradável. E isso não é nada bom. Leitores que não pertecem às panelinhas de certos departamentos e “linhas de pesquisa” acabam pensando que a escrita científica tem de ser necessarimente horrorosa. Denis Hutton, de quem pretendo falar em posts futuros, comprou a briga e mostrou o ridículo dos textos mal ajambrados que ocupam a maioria das páginas de revistas e livros científicos. Para tanto, ele usou uma “arma nova”, a Internet.

Aguardem mais informações sobre o tema.

Velho!

agosto 24, 2010

Ando sem tempo e entusiasmo para escrever. Mas, há um registro de fato recente que não posso deixar para depois. A princípio, muitos poderão pensar que o texto que segue não cabe neste espaço onde os temas principais são blogues, educação e assuntos correlatos. Leitores que chegarem até o fim talvez entendam que o registro é pertinente.

Ontem estive na sede do Senac de São Paulo, instituição onde trabalhei durante trinta anos. Fui até lá para entregar um documento pessoal no setor de RH. Tratava-se  de um papel relacionado com mudanças ocorridas num dos benefícios que a organização oferece para seus aposentados.

Na portaria do edifício, me dirigi ao balcão onde dois ou três funcionários controlam a entrada das pessoas. Apresentei-me. Disse que era um aposentado da casa e precisava entregar um documento pessoal no RH. O atendente me pediu para dizer com quem eu iria conversar e ligou para o setor correspondente. A seguir, me pediu número de RG. Passei-lhe minha carteira de identidade. O sistema revelou que eu já estava cadastrado e deve ter mostrado uma antiga foto minha feita por câmara acoplada ao computador que registra entrada dos visitantes. Mas, o moço não ficou contente com tais confirmações. Voltou a me perguntar qual era a razão de minha visita.

Voltei a informar o motivo que me trazia até a sede do Senac. Voltei a informar que era um ex-funcionário que trabalhara na casa por trinta anos. Nessa altura, o moço me pediu o envelope que eu trazia para verificação. Tratava-se de um envelope com logotipo do próprio Senac, contendo documentos de interesse pessoal. Recusei-me fazer o que ele pedia, pois achei que a solicitação extrapolava as funções dele. As coisas quase chegaram a um impasse. Temi não receber o crachá de visitante, peça necessária para transpor a catraca na entrada do saguão do prédio. Fui salvo por outro atendente que talvez já me tivesse visto no local anteriormente. Recebi finalmente o “passaporte” para circular pelo prédio.

Há muitas considerações que podem ser feitas sobre o episódio. Uma delas é a de que os aposentados, ao perderem sua identidade funcional, veem-se como gente estranha em locais onde trabalharam durante décadas. O tema é bastante comum. Por isso, não vou tomar tempo dos leitores com considerações sobre identidade e aposentadoria.

Horas depois do episódio caiu uma ficha sobre a qual quero falar um pouco. Trata-se da interatividade em conversas com velhos. Queremos contar histórias. Queremos que saibam quem somos. Mas os interlocutores não estão interessados. Preocupam-se apenas com informações de caráter funcional, necessárias para tocar o serviço.

Ao pensar sobre o ocorrido, lembrei-me de um dos capítulos de La Realidad Inventada; Como sabemos lo que creemos saber?, livro de filosofia, coordenado por Paul Watzlawick, que aborda questões relativas à construção da realidade.  No capítulo Acerca de estar sano en um medio enfermo, David L. Rosenhan faz observações que talvez iluminem o episódio que acabo de narrar.

Rosenhan coordenou  investigação na qual um grupo de pessoas “sãs” consegue ingressar em hospitais psiquiátricos diagnosticadas como ezquizofrênicas. Durante a internação tais pessoas testam diversas situações relacionadas com encontros entre profissionais de saúde e pacientes de hospitais psiquiátricos. Interessa aqui o experimento de como são consideradas as questões corriqueiras no âmbito de conversações entre profissionais e pacientes.

Questões simples, do dia-a-dia, se perguntadas por “loucos” são desconsideradas. Os profissionais de saúde dialogam com os pacientes apenas em contextos de conversas com fins terapeuticos. Em outros contextos, gente “sã” não dá bola para as falas dos “loucos”. Veja a seguir, um trecho sobre a experiência que relata conversas informais de pacientes com o médico.

O encontro se denvolve frequentemente da seguinte e estranha maneira: Pseudopaciente: “Desculpe por favor, Dr. X, pode me dizer quando posso visitar o jardim?” Médico: “Oi Dave, como vai?” [E segue andando sem esperar resposta]. (p.111)

A pergunta do paciente é ignorada e o médico não pára, continua seu caminho sem dar atenção ao perguntante. Para mostrar que os diálogos podem ser diferentes caso as perguntas sejam feitas por pessoas “normais”, Rosenhan narra encontro (com teor de conversa análogo ao de conversas tentadas por pseudopacientes no hospital psiquiátrico) acontecido nos jardins da Universidade de Stanford. Um “visitante” (pessoa “normal”) aborda um professor de mediciana apressado. Faz-lhe diversas perguntas. Apesar da pressa, o professor pára e fornece ao interlocutor respostas adequadas. Acontece, no caso, uma conversa na qual tudo o que o visitante diz é considerado e merece atenção por parte do professor.

Volto ao episódio ocorrido na recepçao do prédio do Senac. Minhas informações de pessoa idosa foram desconsideradas pelo atendente. Parece que as conversas dos velhos são ignoradas de modo muito parecido com a falta de atenção com que os profissionais veem as perguntas dos “loucos”. E isso deve nos preocupar em termos de educação. Num futuro próximo, mais que trinta por cento da população brasileira será constituída por pessoas com mais de sessenta anos. Essas pessoas, no geral, querem contar história, querem ser ouvidas. Não se contentam com conversas que ficam exclusivamente no nível das conveniências funcionais. Parece-me, portanto, que profissionais de serviços, precisam aprender a conversar com os idosos. Esse meu alerta é uma observação para os tecnófilos que andam tão aflitos com uma educação para o século XXI. Acho necessário falar de competências futuras de modo muito concreto; e uma dessas competências certamente será a de escutar os velhos com empatia. Desde já agradeço a boa disposição de jovens que souberem escutar com interesse minhas histórias de velho.

Não escrevi este post para criticar o moço do Senac. Mas, se a instituição quiser escutar um palpite de idoso que lá trabalhou  durante trinta anos, sugiro que em treinamentos de atendentes de público seja considerada a necessidade de ouvir e entender os velhos.