Alinhado e metáforas tácitas

Reproduzo texto que publiquei no Face

Em post passado falei que não gosto do uso do termo alinhado, muito comum hoje no campo de gestão de empresas. Meu comentário revelou uma das muitas minhas ojerizas com certos modismos no campo da linguagem. Mas meu desgosto não para por aí. Há algo mais nessa história. Vou comentar isso nos próximos parágrafos, num texto com cara de ensaio curto, mas que aqui no Face é chamado de textão. Se você está com tempo e paciência, siga em frente.

Os usos de alinhado nos discursos da organizações me lembra um velho e ótimo texto de Donald Schon: Generative Metaphor: A Perspective on Problem-Setting in Social Policy, publicado em ORTONY, Andrew (Ed.). Metaphor and Thought. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.

Schon comenta que no campo das políticas sociais é preciso examinar as metáforas utilizadas em discursos sobre os fenômenos. Tal análise requer muita atenção porque quase todas as metáforas utilizadas são tácitas. Ou seja, não têm o seu sentido explicitamente revelado. As pessoas as usam como se elas tivessem significado literal.

Não vou comentar o texto de Schon. Em parte porque não tenho competência para tanto. Em parte porque nosso assunto aqui não é política social. Vou apenas aproveitar ideias do autor para examinar como o termo alinhado sugere um metáfora tácita, não apenas um modismo.

Quando alguém fala em alinhado ou alinhamento numa organização o que está por trás dos termos é a ideia de caminho correto, pelo menos no ambiente em que tais expressões aparecem. Quem não está alinhado deve ser corrigido (colocado no bom caminho) ou demitido.

O discurso do alinhamento não garante que as pessoas sigam o bom caminho. Convém exemplificar isso. Na maioria das organizações educacionais é preciso estar hoje alinhado com a pedagogia das competências. É isso que diz a legislação, planos de cursos, literatura pedagógica, discurso de educadores que estão em postos de gestão, teses de doutorado etc. Mas, em sua atuação do dia a dia boa parte dos professores não está alinhada com a pedagogia das competências. Por isso, diz-se que os mestres devem ser reeducados ou punidos.

Outro exemplo que poderíamos explorar é o alinhamento em usos das novas tecnologias educacionais. Deixo isso aos cuidados do leitor.

Metáforas tácitas são uma versão de realidade que não aceita oposição. Não há chance de se pensar que o não alinhamento dos professores com a pedagogia das competências deve levar os gestores a considerar dúvidas quanto ao suposto bom caminho. Alinhamento é a única perspectiva em vista.

Sei que precisaria desvelar muito mais a metáfora subjacente a alinhamento. Talvez um dia eu embarque numa análise mais aprofundada. Por enquanto fiz apenas um registro para não deixar que pensem que não gosto do termo alinhamento apenas porque ele é um modismo.

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