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Ética e estética em educação profissional

dezembro 4, 2021

Um dos lançamentos do meu Fazer Bem Feito aconteceu, anos atrás, no Conselho Nacional de Educação. Para o evento, preparei um roteiro, destacando alguns aspectos que poderiam chamar atenção para o conteúdo do livro. Tal roteiro ficou muito tempo entre meus guardados. Resolvi compartilhá-lo agora, pois acho que ele é uma bom ponto de partida para conversas sobre valores em educação profissional e tecnológica.

Fazer Bem Feito

Em vinte minutos não é possível oferecer um painel bastante completo do estudo que realizamos para a UNESCO, nem apontar todos os aspectos que merecem atenção no livro. Optei por apresentar alguns aspectos que podem provocar maior interesse e/ou um levantar de sobrancelhas de quem estuda e reflete sobre valores em educação.

Escolhi um caminho dividido em dois tempos. No primeiro tempo apresento dois casos exemplares. No segundo, apresento três direções que me parecem interessantes.

Antes de ir para os casos, uma observação. No estudo que fizemos, procuramos não ficar apenas na ÉTICA. Procuramos também examinar ESTÉTICA e AXIOLOGIA. Cumpre reconhecer, porém, que a tentação de ficar apenas no campo da ética é muito grande.

Estrutura geral:

Dois casos:

  • A moça que amava o uniforme da escola.
  • O menino que acariciava madeira

Três direções:

  • Espaços de aprendizagem são essenciais no desenvolvimento de valores.
  • A aprendizagem, de conceitos, competências, valores é um empreendimento coletivo, por isso é de fundamental importância a comunidade de prática para que os alunos se façam trabalhadores.
  • O fazer das instituições profissionais sugerem que o desenvolvimento moral dos alunos é orientado pela ética do cuidado.

Casos

Caso 1: A moça que amava o uniforme da escola.

Curso de salgadeiro. Senai do Porto, Cuiabá. Escolhi a turma que tinha cinco deficientes visuais. Conversei longamente com uma moça de quarenta e poucos, cega desde os dezenove. Alegre, de bem com a vida. Amava dançar. Feliz no curso. Aprendendo muito e cobrando uma política complementar para o PRONATEC: fonte de financiamento para que os salgadeiro pudessem comprar equipamentos profissionais. O ambiente de trabalho/aprendizagem  no Senai do Porto é ótimo. De primeiro mundo, diriam alguns. Além disso, os alunos tinham diversos apoios para que pudessem frequentar o curso. E o Senai forneceu uniforme, um camisa bem transada, com nome da escola e do curso. A moça me disse que vestia aquela camisa com maior orgulho. [A camisa representava todos os cuidados que ela estava recebendo]. A revelação foi inesperada. Alguém talvez esperasse um discurso de caráter econômico, de expectativas quanto a ganhos que o trabalho de salgadeiro poderia trazer. Mas, a moça quis falar sobretudo sobre seu orgulho de voltar à escola, ser publicamente reconhecida como estudante em uma instituição de respeito.

Como diz Mike Rose, citando fala de um aluno adulto que teve uma segunda chance escolar:

“VOCÊ É CAPAZ DE SE DESCOBRIR ALGUÉM QUE NUNCA IMAGINOU SER.”

O caso dessa aluna me permite tirar o foco do aluno e propor reflexões sobre valores no plano institucional. Oportunidade para falar sobre arquitetura e educação. Sobre respeito que transparece naquilo que as instituições oferecem como condições materiais d trabalho/aprendizagem em EPT.

Muito o que falar sobre a moça e o orgulho de uma adulto que volta à escola e encontra condições muito dignas para aprender.

Caso 2: O aluno que acariciava madeira.

Curso de marcenaria. Oficinas artesanal e industrial exemplares. Alunos aprendem fazendo uma obra a cada semestre. Vi a turma desenvolvendo um rack. Comecei a prestar atenção num aluno muito pequeno, apesar de seus 16 anos, que às vezes não conseguia alcançar o painel de controle das máquinas. Ele havia feito um emenda de madeira no fundo do seu rack. Ficou perfeito. Leigos não conseguiriam ver a emenda. Ele passava continuamente a mão sobre a emenda, num gesto de carícia e admiração. O professor chegou. E ele também acariciou a madeira. Muitas leituras para o gesto. Mas vou resumir a ópera: no gesto o menino pequeno revelava admiração pela obra.

Estética e ética num mesmo evento. Compromisso. Engajamento. Admiração. Autoestima. Respeito pela obra. Fazer bem feito, mesmo num fundo de móvel que ninguém vai ver.

Direções

Recomendações. Políticas. Indicações didático-pedagógicas.

  1. Espaços de trabalho/aprendizagem. Em EPT necessariamente espaços de trabalho/aprendizagem. Importância fundamental da arquitetura, das ferramentas, dos insumos, das obras. Os valores estão entranhados em tais espaços e nas tramas que neles ocorrem. Sem tais espaços, temos uma EPT pobre, precária, sem dignidade. Um chamado para considerar arquitetura e educação em conversas sobre valores.
  2. Comunidades de prática. Ao entrar num curso de EPT, caso a aprendizagem aconteça em oficinas, o aluno ingressa numa comunidade de prática [prática social] que tem obras no horizonte. Não aprende o QUE. Aprende a SER. Não aprende simplesmente a faze móveis, aprende a ser marceneiro.
  3. Ética do cuidado. Cuidado com quem? Cuidado com o que? Quem: companheiros e beneficiários. Que: a obra, as ferramentas, o ambiente [meio ambiente e ambiente profissional], os insumos.