Um exemplo de inclusão em educação

Sobre inclusão nas escolas.

Em 2014, em investigação que estava desenvolvendo sobre formação profissional e valores, projeto da UNESCO, estive numa turma de salgadeiros em escola do SENAI de Mato Grosso. O professor era um moço de vinte e poucos anos, sem formação universitária. As aulas aconteciam em torno de uma bancada de granito onde os alunos preparavam o salgado do dia. Quando lá estive era dia de pão de queijo. A massa estava semipronta. Era preciso prepara-la sobre a bancada e ir produzindo as porções que iriam ao forno.

Tudo correndo conforme o script esperado. Mas, havia na turma três cegos, um homem e duas mulheres. Segundo alguns intérpretes de situação como a que vi, seria preciso que o docente tivesse apoio de especialistas. Mas, ele não tinha. Tratava os alunos com deficiência visual com muita naturalidade, inventando modos de integra-los ao que estava sendo desenvolvido. O mesmo acontecia com os demais alunos.

Num primeiro momento, para um observador externo, seria difícil perceber que havia alunos sem visão naquela oficina de preparação de alimentos. Eu sabia desde o início que ali havia ali algo diferente porque a coordenação pedagógica me havia dito que a turma era muito especial por causa dos três alunos que não enxergavam. Para fazer as porções de massa que iriam ao forno, os alunos cegos teriam alguma dificuldade para separar quantidades adequadas para o trabalho. Precisavam de alguma pista. O jovem professor fez isso. Preparou tubos de massa suficientes para produzir várias porções de pão de queijo e os colocou frente a cada um dos alunos com problema de visão. Pediu a eles para manipularem aqueles tubos e os orientou para separar cerca de dois dedos de massa para cada porção. A partir disso deixou-os à vontade para fazerem a tarefa. Observei que os três alunos especiais estavam produzindo porções equivalentes às dos outros alunos. Além disso, produziam tanto ou mais que seus colegas.

Acampanhei outras iniciativas do docente para apoiar os alunos cegos. Ele fazia isso com naturalidade e sem prejuízo para aprendizagem dos demais. Estrevistei posteriormente os três aunos. Eles se sentiam perfeitamente integrados à escola e à turma dos salgadeiros. Uma das entrevistadas, mulher de cerca de 40 anos, me disse que usava com orgulho a camisa de uniforme do SENAI, pois era reconhecida como estudante no ponto de ônibus. Esse orgulho de voltar à escola na idade adulta foi observado por meu amigo Mike Rose nos EUA. É algo que emociona. E emociona muito mais quando a estudante é uma senhora que perdeu a visão aos 17 anos e voltou à escola naquele curso, vinte e três anos anos após abandonar o ensino médio.

Registro essa minha experiência para mostrar que o SENAI de Mato Grosso e o jovem instrutor do curso de salgadeiro viam a inclusão de alunos com necessidades especiais com muita naturalidade e encontravam caminhos para que alunos cegos pudessem participar da educação junto com outros alunos. Ao mesmo tempo, minhas observações e as entrevistas com os alunos cegos mostraram que os demais estudantes da escola (alunos de cursos de qualificação profissional, cursos técnicos e cursos tecnológicos) acolhiam sem problemas os alunos especiais. Vale finalmente registrar que os alunos cegos tinham rendimento igual ou superior aos demais.

Redigi este textão para mostrar que alunos cegos, surdos, mudos, cadeirantes etc.. não estorvam os demais. Eles, inclusive, oferecem lições de vida para os colegas. No SENAI de Mato Grosso, os três alunos cegos que entrevistei estavam educando seus colegas de escola de muitas maneiras.

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