Microliteratura: passado e presente.

Nos acostumamos a pensar que o uso de poucas palavras para expressar um todo é invenção recente da sociedade da imagem. E esse nosso modo de pensar é influenciado pela percepção de que nos novos meios de comunicação textos muito compridos não têm vez. Basta verificar o que acontece na internet: alguém sobe um texto que ocupa três ou mais folhas de papel; a gente se dispõe a ler, mas desiste já na primeira página. Como já observei várias vezes em textos meus, nossa cultura é imagética. O próprio texto, para ser lido nas telas, telinhas e telões, precisa ter características de imagem. Sempre fico com a impressão de que, na web, não lemos textos, nós apenas os vemos.

O que escrevi no parágrafo anterior sugere que a microliteratura é uma invenção recente. E mais, sugere que ela predomina nos meios digitais. Isso é uma meia verdade. Bem antes da internet, eram muito populares os microtextos em para-choques de caminhões. Havia razões para escritos de poucas palavras nos para-choques. O espaço era limitado e, para dizer tudo o que era preciso, os autores tinham que ser muito concisos. Fenômeno parecido aconteceu com os microcontos publicados na mídia digital. O espaço limitado da telinha dos celulares dos tempos de antanho exigiu parcimônia dos autores.

Aqui no Boteco Escola já falei várias vezes de microcontos e de literatura de para-choques de caminhões. Se você tiver interesse por eles, aqui vai indicação de dois exemplos de coisas que publiquei neste espaço:

A microliteratura, porém, não é apenas decorrência de limites espaciais para publicação. Ela é uma forma de comunicação muito popular. Prova disso são os textos encontrados nos para-choques de caminhões. Eles retratavam convicções e modos de pensar do povão. Daí seu sucesso. O mesmo vale para os microcontos. Coordenei, anos atrás, a publicação de mil microcontos de autores amigos. A publicação teve bastante sucesso. Ela aparecia num blog em que havia espaço para textos longos. Mas, a parcimônia nas narrativas publicadas conquistaram os leitores e incentivaram muita gente a escrever. Isso aconteceu não apenas com o meu blog; havia (e ainda há) na web diversos sítios dedicados a microcontos, como por exemplo:

>>> A casa das Mil Portas.

>>> Microcontos do Seabra

Como já sugeri anteriormente, microliteratura não é uma invenção de agora. Ela vem de longe. Modos de comunicação em textos curtos sempre foram, desde o tempo antigo, os veículos preferidos da cultura popular. Peter Brown (2012) faz referência ao antropólogo Clifford Geertz para abordar esse assunto. Ele diz que Geertz acentua que a sabedoria popular aparece sobretudo em epigramas, provérbios, obiter dicta, piadas, anedotas, não em textos muito elaborados. Convém recorrer a uma citação para marcar esse ponto.

A necessidade de exprimir cada incidente da vida com um modelo moral, isolar cada parecer numa sentença, adquirindo assim algo substancial e intocável, em resumo, o processo de cristalização do pensamento apresenta sua expressão mais geral e mais natural no provérbio. O provérbio tinha uma função muito viva no pensamento medieval. Havia centenas deles circulando no dia a dia, quase todos concisos e eficazes. A sabedoria que emana dos provérbios às vezes é prática, e às vezes benéfica e profunda; o tom do provérbio costuma ser irônico, é geralmente bem-humorado e sempre resignado. Ele nunca prega resistência, sempre obediência. Com um sorriso ou um suspiro, ele deixa que os egoístas triunfem e que os hipócritas saiam livres. Le grans poisons mangent les plus petis (Os peixes grandes comem os pequenos), Les mal vestus assiet on dos ou vent (Os malvestidos são postos de costas para o vento). Nul n’est chaste si ne besogne (Ninguém é casto se não for necessário). Às vezes o tom é cínico. L’homme est bom tant qu’il craint sa peau (O homem é bom, desde que tema por sua pele). Au besoing on s’aide de diable (Quando é preciso, pedimos ajuda ao diabo). Mas no fundo de todos há um espírito dócil, que não quer julgar as pessoas. Il n’est si ferré qui me glice (Nenhum cavalo tem ferraduras tão boas que não escorregue alguma vez). Em confronto com a lamentação dos moralistas sobre os pecados e a degeneração do ser humano, a sabedoria popular apresenta a sua compreensão sorridente. No provérbio, a sabedoria e a moral de todos os tempos e todas as esferas se condensam numa única imagem. Às vezes o significado do provérbio é quase evangélico; mas às vezes também é ingenuamente pagão. Um povo com tantos provérbios em uso deixa a discussão, a motivação e a argumentação por conta dos teólogos e dos filósofos; o provérbio encerra cada caso referindo-se a um juízo, que acerta bem no alvo. Ele se abstém de muita conversa disparatada e preserva-se da falta de clareza. O provérbio sempre desata os nós; uma vez aplicado o provérbio, a questão está encerrada. A habilidade de cristalizar o pensamento apresenta vantagens significantes para a cultura. (HUIZINGA. P. 381-382).

O autor destaca também outra formada microliteratura, o lema.

Outra forma de cristalização do pensamento semelhante ao provérbio é o lema, cultivado com uma predileção especial no período medieval tardio. Os lemas não tratam de uma sabedoria aplicada em geral, como o provérbio, mas de um encorajamento [sempre em frente, é o exemplo moderno que me vem à mente] pessoal ou uma lição de vida, elevado a uma insígnia pelo portador, que imprime com letras douradas à própria vida, uma lição que, pela repetição estilizada com que sempre aparece em todas as peças de vestuário e nos objetos pessoais, , deve sugerir tal ideia a servir de apoio para ele e para os outros. Os lemas, na maior parte das vezes, refletem um sentimento de resignação. Assim como os provérbios, ou de expectativa, às vezes com um elemento não articulado que precisa de um ar de mistério; Quand sera ce?; Tots ou tarde vienne; Va outre; Autre fois mieux; Plus dueil que joye (Quando será?; Seja cedo ou tarde; Siga adiante; Melhor na próxima vez; Mais tristeza que alegria). Mas a grande maioria deles está relacionada com o amor… (HUIZINGA, p. 386)

Volto aos provérbios. Vale listar uma relação de deles, utilizados por pregadores medievais segundo o mesmo Huizinga:

>>> Quem cala, consente.

>>> Cabeça bem penteada porta mal o capacete.

>>> Da pele do outro se faz um cinto largo.

>>> Tal chefe, tal serviçal.

>>> Tal juiz, tal julgamento.

>>> Aquele que serve ao comum, não recebe pagamento.

>>> Quem tem piolho não deve tirar o chapéu. (HUIZINGA, p. 383)

Nos dias de hoje, é comum ver lemas em camisetas. Ao contrário do que ocorria na Idade Média, lemas [e palavras de ordem] são produzidos em massa. Lembro-me aqui de lemas que se tornaram ícones em manifestações políticas: no pasaran!; o povo unido jamais será vencido.  Os lemas medievais geralmente representavam escolhas individuais e podiam ser gravados em pedra. Eram sempre curtos, contundentes, sintéticos. Eram, por assim dizer, um gênero em microliteratura.

Lemas e provérbios guardam alguma semelhança com as frases de para-choques de caminhões, embora estas últimas muitas vezes parecessem axiomas filosóficos. Termino por aqui essa minha observação sobre microliteratura. E ao terminar, quero ressaltar que os textos curtos e definitivos sobre princípios, crenças, valores e histórias ganharam mais espaço nos meios de comunicação de massa, muitas vezes apropriados por peças de propaganda. Finalmente, volto a relembrar que a cultura da imagem escanteou o texto longo. Por isso, não sei se você chegou até aqui…

Referências

BROWN, Peter. Through The Eye of A Needle. New Jersey: Princeton University Press, 2012.

HUIZNGA, Johan. O Outono Da IdadeMédia. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

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