Ciência e educação profissional

Em muitos discursos sobre educação profissional acentuam-se as bases científicas do trabalho. Daí se passa para propostas de ensino de ciências que podem ter efeitos desastrosos na educação dos trabalhadores. O filósofo André Gorz chama atenção para o problema num artigo que escreveu opondo-se a uma proposta pseudo-marxista sobre organização do trabalho [conf. GORZ, André. Para una crítica de las fuerzas productivas: respuesta a Mark Rakonski. El Cárabo, 13-14, 1979].

Gorz em seu artigo comenta que a ciência costuma ser ensinada para mostrar ao trabalhador ele é incapaz de entender o saber científico. O filósofo francês entende que tal modo de ensinar afasta o aprendiz do saber. Alunos concluem no final do processo que ciência não é para o bico deles e deve ser deixada para os teóricos que são capazes de entendê-la.

Para conferir o que diz Gorz basta ir até uma sala de aula e acompanhar como os professores ensinam conteúdos científicos em cursos de educação profissional. Jã fiz isso algumas vezes e constatei que os alunos boiam o tempo todo. Outro modo de conferir a crítica de Gorz é a de examinar material didático escrito para ensinar ciências para os trabalhadores. Também  fiz isso e vou mostrar aqui um exemplo bastante concreto de como provar que ciência não é para o bico dos trabalhadores.

No final dos anos de 1980 acompanhei a reestruturação dos cursos de cabeleireiro no Senac de São Paulo. Fiz isso depois de um trabalho que houvera coordenado para envolver todos os docentes do curso na elaboração de um manual de técnicas básicas do ofício de cabeleireiro. O trabalho que propus e coordenei partia do princípio de que o saber fundamental na formação dos profissionais de salão era a técnica. E mais, que o saber técnico era um patrimônio que a organização vinha desenvolvendo com base nos conhecimentos de seus docentes. No processo, todos os docentes contribuíam para a confecção do manual, escolhendo um ou mais técnicas nas quais se julgavam peritos. Não vou aqui contar a história do projeto. Vou apenas assinalar que conseguimos elaborar um manual que tinha autoria compartilhada de todos os docentes do Senac paulista.

Sepois que encerrei minha participação no processo de explicitação do saber técnico dos docentes do curso de cabeleireiro, pessoas que assumiram a coordenação da área de Beleza na organização criticaram muito o manual produzido. Além disso, proclamaram que era preciso garantir boa fundamentação teórica ao  curso. Para tanto, partiram para a elaboração de manuais relacionados com as ciências que “sustentam” o saber dos cabeleireiros.

Os manuais teóricos não foram elaborados pelos docentes da casa. Consultores externos –  professores da Faculdade de Farmácia da USP – foram contratados para a tarefa. Esse consultores elaboraram manuais de biologia e química sobre saberes supostamente relacionados com o ofício de cabeleireiro. E o resultado foi aquele criticado por Gorz, a forma ciência utilizada no material provava cabalmente que ciência não é saber para o bico dos trabalhadores.

Não vou analisar aqui todos os manuais produzidos. Fiz isso por volta de 1988 e escrevi um pequeno resumo de minhas impressões; Mais à frente vou reproduzir tal resumo aqui. Agora quero apresentar um exemplo de como os manuais voltados para as bases teóricas do curso de cabeleireiro mostravam que ciência era assunto para pessoas mais preparadas e inteligentes que os profissionais de salão. No manual de Citologia e Anatomia da Pele encontrei, entre outras, a seguinte joia:

DERME

A derme é a camada intermediária da pele, dando-lhe resistência mecânica. É formada por um gel: a substância amorfa onde estão mergulhadas as fibras colágenas (95%) e as fibras elástica (5%).

É na derme que encontramos ainda:

  • Nervos: responsáveis pela sensibilidade à pressão tátil, térmica e dolorosa.

  • Vasos sanguíneos: distribuídos em um plexo mais profundo no nível dermo-hipodérmico e um plexo mais superficial na derme papilar. Têm função de nutrição da pele e regulação da temperatura corporal.

  • Vasos linfáticos: condutos de fundo cego – capilares – que confluem entre si, levam a linfa a vasos de maior calibre e possuem válvulas para impedir o refluxo. A linfa transporta patógenos e células tumorais até gânglios linfáticos que funcional como filtros.

  • Glândulas sudoríparas: produtoras de suor, um líquido incolor, sem cheiro, composto 99% por água e 1% Na, CI, K, uréia, Ca, P, Fe e lipídios. Existem dois tipos> écrinas, que desembocam diretamente na superfície cutânea e estão localizadas em toda a pele especialmente nas palmas das mãos e plantas dos pés, e apócrinas, que desembocam nos folículos polissebáceos e estão localizadas em axilas, região perimamilar e região anogenital.

O trecho que reproduzi tem alguns problemas de redação. Mas isso é o de menos. O que importa mesmo é a forma ciência do material. O texto passa para os alunos de um curso de cabeleireiro que a ciência é um assunto que está muito além da capacidade de compreensão deles. Há aqui muito o que comentar sobre ensino de ciências a partir de uma material como esse. Mas, isso é uma tarefa que deixo a cargo do amável leitor…

Como disse atrás, escrevi por vota de 1988 ou 1989 uma nota sobre o assunto, criticando o material e, ao mesmo tempo, fazendo algumas indicações sobre caminhos para o ensino de ciências no curso de cabeleireiro. Reproduzo, a seguir, tais notas.

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