Habilidade é conhecimento

ocioA assessoria de imprensa da Editora SENAC me entrevistou para recolher elementos de divulgação do meu livro “Educação Profissional – Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho?”. Creio que a matéria nunca foi publicada. A jornalista que me entrevistou fez perguntas que refletiam ideias hegemônicas sobre educação e trabalho. O que me leva a pensar que ela não leu o livro. Em algumas respostas tive que dar muitas explicações mostrando que a investigação que fiz contrariava modos de pensar que predominam nos meios educacionais e na imprensa.

O texto da entrevista ficou, desde 2007, guardado nos meu arquivos. Resolvi agora divulga-lo, com escassa esperança de que o mesmo venha a ser lido.

 

Texto de entrevista sobre  “Educação Profissional: Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho?” – Editora Senac.sp –  

Jarbas Novelino Barato  

O que o senhor define como saberes do ócio? E saberes do trabalho? 

Há 2500 anos, o grande filósofo Aristóteles, fez um comentário que influencia até hoje nossa maneira de ver o conhecimento. Ao referir-se às obras dos primeiros filósofos do mundo Ocidental (Tales, Anaximandro e Anaxímenes), Aristóteles observou que o conhecimento por eles elaborado só se tornara possível porque a riqueza produzida em Mileto, a cidade onde viveram os citados sábios, gerava tempo livre para alguns cidadãos que podiam então se dedicar a questões importantes como a origem da vida e do universo. Assim, o conhecimento científico foi, desde a sua origem, associado a investigações intelectuais  livres do aqui e agora imposto pelos fazer.O que gerava tempo livre para os nobres de Mileto era um comércio internacional cuja origem estava baseada em técnicas de navegação muito avançadas para a época (século VIII AC). Mas a técnica não foi vista por Aristóteles como conhecimento. Essa contradição persiste até hoje. Nos meios educacionais, e fora deles, estamos acostumados a ver os conteúdos como teoria (conhecimento) e prática (“mera” habilidade ou aplicação do conhecimento). Na verdade, a maior parte das pessoas acha que o único saber é aquele resultante de elaborações intelectuais distantes dos fazeres imediatos dos homens.No meu livro, procuro mostrar que a fórmula teoria/prática é um modo de ver o mundo que causa sérios prejuízos à formação profissional, pois valoriza exclusivamente os saberes do ócio e, por outro lado, desvaloriza os saberes do trabalho.        

Na sua opinião ainda existe uma lacuna entre a qualificação profissional e as exigências do mercado de trabalho? Por quê?

Essa preocupação de relacionar qualificação profissional com demandas do mercado é um falso problema. Quem pensa desse modo acredita que é possível uma relação mecânica entre mercado e educação. Educação conseqüente não é uma preparação para um aqui e agora, é uma tentativa de preparar pessoas para um futuro incerto, dadas as muitas possibilidades que os homens têm de construir a história. Mercado é apenas uma indicação, não um destino ou fatalidade. O importante em educação é pensar o potencial humano de produzir conhecimento e mudar o mundo (incluindo o mercado de trabalho). Sua pergunta parte do princípio que educação, sobretudo a profissional, deve estar a serviço do mercado. Não posso respondê-la, pois se o fizesse estaria me colocando ao lado de pessoas que têm a visão mecanicista que procurei situar no início de minha resposta.É bom reparar que o argumento da lacuna entre mercado e qualificação profissional aparece sobretudo em épocas de desemprego. Essa é uma forma sutil de culpar as vítimas pelo seu destino (o número de gente muito bem qualificada e desempregada em nossos dias, incluindo jornalistas, não é pequeno). As altas qualificações de que tanto se fala atualmente são requisitos para um segmento muito pequeno do mercado de trabalho. Os modos de produzir ficaram muito mais simples que as velhas formas de trabalhar para a maioria dos casos. Ou será que alguém acredita honestamente que montar sanduíches numa cadeia de fast food (assim como muitas outras funções criadas nos últimos tempos  na indústria e em serviços) é trabalho   que demanda qualificação profissional expressiva? Na verdade, o trabalho vem perdendo conteúdo na maioria dos casos. O discurso da mudança contínua, de demandas tecnológicas aceleradas, de competências amplas e mutantes vale apenas, como disse, para uma elite de trabalhadores. E isso não é novo. Já nos anos setenta do século passado, o sociólogo espanhol Alberto Moncada nos informava que ocupações cognitiva e psicologicamente compensadoras representavam apenas dez por cento do mercado de trabalho. O resto eram oportunidades de um trabalho rotineiro e muito pouco exigente do ponto de vista de exercício da inteligência. Não há qualquer evidência de que as tendências apontadas por Moncada tenham mudado. Assim , ao contrário do que se diz, quando olhamos os grandes números o que acontece hoje é uma contradição que tende a aumentar cada vez mais: a escolaridade das pessoas avança significativamente e o conteúdo do trabalho regride  de modo significativo. Infelizmente, a tendência analítica que aponta o problema que estou tentando colocar aqui mal é ouvida (este é o caso, por exemplo, da obra primorosa de Cláudio Salm, Escola e Trabalho, publicada no final dos anos setenta).

O senhor acha que habilidade substitui conhecimento?

Em meu livro procuro mostrar que habilidade é uma forma de conhecimento, não algo diferente ou resultante do mesmo. Em outras palavras, defendo a idéia de que aquilo que chamam de prática não decorre daquilo que chamam de teoria. Essa é uma idéia de difícil aceitação. Estamos tão acostumados a pares como teoria/prática e conhecimento/habilidade que propostas de uma mudança radical de modos de ver o saber são ignoradas. Durante todos os anos em que andei investigando a questão, a maioria das pessoas me dizia que a solução seria uma integração de teoria e prática ou de conhecimento e habilidade. O que não conseguiam entender é que meus estudos mostravam que as velhas fórmulas eram inadequadas para descrever o saber humano.Coloque sua questão no contexto da mecânica. Como parece que você aceita que habilidade não é conhecimento,  provavelmente diria que conhecimentos de mecânica são um discurso tecnológico e científico dominado por engenheiros de escolas politécnicas. Habilidade, dentro do mesmo contexto, seria aquele domínio de fazeres por parte de um bom mecânico de automóveis. Para quem entregar um carro com problemas? Quase todo mundo não tem qualquer dúvida: leva o automóvel ao mecânico, não ao engenheiro formado pela Poli. Quando a gente pensa um caso como esse fica muito difícil continuar insistindo na idéia de que o mecânico é apenas um profissional com grande perícia ou habilidade. O que ele faz certamente é conhecimento. Não ignoro que o engenheiro de nosso exemplo também tem conhecimento de mecânica, mas é um saber diferente do saber utilizado por profissionais que trabalham em oficinas de automóveis.Em estudos contemporâneos sobre o saber humano costuma-se fazer algumas distinções que podem ser úteis aqui. Uma delas é a que estabelece diferenças entre o conhecimento declarativo e o conhecimento processual. O primeiro é constituído por proposições verbais que se encadeiam em estruturas lógicas capazes de explicar fenômenos e situações que nos cercam. Esse é um tipo de conhecimento que caracteriza o que chamamos de ciência. O segundo é aquele conhecimento que é constituído por uma série operações seqüenciais utilizadas para se obter um produto ou resultado. Esse é um tipo de conhecimento ao qual damos o nome de prática, técnica ou habilidade. O primeiro explica o mundo. O segundo muda  o mundo. O primeiro caracteriza o saber do engenheiro. O segundo, o do mecânico.Mais uma vez minha resposta precisa vir precedida de uma longa explicação. Você me faz uma pergunta com base num modo de pensar que rejeito em meu livro (o modo de pensar que acha, por exemplo, que o conhecimento precede temporal e psicologicamente a habilidade). O que procuro mostrar é que habilidade também é conhecimento. Ou, colocando as coisas com mais clareza, habilidade é conhecimento processual, uma forma de saber que independe do saber “científico”.  

O que um profissional precisa buscar na sua formação que realmente fará a diferença no seu trabalho?

Não abordo esse tipo de questão em meu livro. Mas, mesmo assim, adianto aqui uma resposta. Em termos de preparação para o futuro, creio que as pessoas devem escolher estudar coisas de que gostam, e devem fazer menos apostas quanto a ocupações que lhes garantam sucesso financeiro.  Essa questão me traz à lembrança  um técnico em prótese dental que entrevistei muitos anos atrás. Ele deixou um alto cargo de executivo num banco internacional para fazer um curso técnico. Vivia feliz esculpindo dentes. Ganhava menos, mas tinha deixado um trabalho que lhe tirava o prazer de viver. Acho que mais educação é sempre importante, inclusive para que construamos uma consciência crítica capaz de nos ajudar a julgar possíveis escolhas com conhecimento de causa.

No seu livro, o senhor fala de competência, desempenho e conhecimento. Qual seria a relação entre esses elementos?

Em meus estudos, cheguei a uma formulação que, acho eu, nos ajuda a entender melhor o saber técnico. Nessa formulação, proponho que o saber fazer é constituído por três dimensões em contínua interação: informação, conhecimento e desempenho. Não analiso em detalhe a palavra da moda nos meios educacionais, competência.Qualquer competência é constituída por esses elementos. Um exemplo: dirigir automóveis. Essa habilidade (se quiser, podemos chamá-la de competência) tem três dimensões. É constituída por informações de como mudar marchas, como usar a embreagem, como usar os freios etc. As informações, constituídas sobretudo por instruções verbais do como fazer, são muito evidentes em pessoas que estão aprendendo (mesmo que não tenham um instrutor de auto-escola, usam um discurso interno que as ajuda a entender o que estão fazendo). Os conhecimentos são constituídos por representações internas do fazer (bons motoristas não deixam de saber dirigir quando estão longe de automóveis, há um saber intrínseco que eles carregam mesmo quando não estão dirigindo). Os desempenhos são constituídos pela execução (pelo ato de dirigir, no caso dos motoristas). Esse modo de ver explica habilidades como uma forma particular de saber, envolvendo formas de compartilhar saberes na sociedade (informações), formas de representar subjetivamente informações e experiências vividas (conhecimento pessoal) e a ação humana (desempenho).Considerações sobre informação, conhecimento e desempenho, como componentes do saber humano constituem uma parte um tanto quanto técnica de meu livro. Elas substituem as explicações que considero simplistas porque baseadas nos pares teoria/prática ou conhecimento/habilidade. O que proponho, em síntese, é que  técnicas como cortar cabelo, aplicar uma injeção endovenosa, desfilar na passarela, esculpir um dente, escrever um segmento de programa em Pascal etc. são saberes que não dependem de teorias prévias. Ou, para utilizar uma linguagem mais comum, são conhecimentos com status próprio e que não dependem de uma teoria que lhes daria consistência.O que proponho contraria as visões comuns de conhecimento. Defendo o abandono do par teoria/prática. Advogo o status de conhecimento ou saber para as habilidades. Sugiro que a  explicação sobre nossos fazeres (ciência) é insuficiente como conhecimento capaz de nos ajudar a agir. Defendo a idéia de que a ação é uma forma especial de saber.

No atual cenário profissional, o que se valoriza mais o saber-saber ou osaber-fazer?

No atual cenário, valoriza-se equivocadamente um certo saber-saber. Mas todo o saber-saber do mundo não produz nenhum saber-fazer. A ação tem suas próprias demandas cognitivas. A ação é uma forma de saber, com propriedades independentes de outras formas de saber.

Dentro do seu estudo, existe alguma área que esteja bem servida em termos de educação profissional?  

Meus estudos concentram-se em questões de caráter epistemológicos e metodológicos. Ou seja, preocupei-me em analisar a técnica como uma forma especial de conhecimento (epistemologia) para estudar posteriormente caminhos de como ensinar e aprender esse saber dos homens (metodologia de ensino). Não abordo no livro dimensões sociológicas e econômicas capazes de fundamentar uma resposta para essa sua pergunta.

O que falta aos professores da área de educação técnica?

Assumir seu saber técnico como uma forma de conhecimento. Isso tem implicações importantes em termos de metodologia de ensino e em valorização do aprender a fazer que caracteriza a formação de professores da área de educação profissional. Muita gente diz que os professores da área de educação profissional têm apenas uma visão técnica e precisam de formação pedagógica. Vejo essa afirmação com muita reserva. Programas de capacitação pedagógica desses docentes geralmente valorizam o que chama de teoria (o saber do ócio construído por pedagogos nas academias). Tal enfoque pode significar um esvaziamento do saber do trabalho e das formas mais efetivas de aprender a trabalhar. Aos professores da área de educação técnica falta, ás vezes, o reconhecimento de que seu saber não depende de teorias e deveria ser a base das pedagogias de uma educação para o trabalho.

No seu ponto de vista, qual será o tipo de ensino eficaz na preparação de um profissional?

Nas conclusões do meu livro, sugiro que um caminho interessante para a educação profissional é a Teoria da Atividade. Esse enfoque do ensino, baseado num movimento inaugurado pelo pesquisador russo Lev Vygotsky, entende que o saber é uma forma de ação, não um repertório de idéias já sistematizadas e prontas que podem ser depositadas na mente das pessoas (nem apropriadas pelos educandos). Formar um profissional dentro dessa orientação implicará em medidas que articulem modos de fazer, cultura e ferramentas em objetivos escolhidos pelos homens. Nessa direção são importantes coisas como significado da ação e dimensão histórica do fazer. Não se trata mais de articular teoria e prática, mas de agir em direções conscientemente assumidas para dar sentido ao trabalho. Entendo que esse tipo de ensino ainda precisa ser construído.

 

 

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