Ensino e Internet

No ano 2000. desenvolvi um curso, Comunicação e Aprendizagem, coordenado pelo Fernando Fonseca na Fundação Vanzolini, integrando um programa de formação para professores da rede estadual de educação em São Paulo. Escrevi um texto pensando sempre na mídia utilizada. Nada a ver com papel. Nada a ver com as formas habituais de comunicação. Acho que vale a pena publicar uma parte do que escrevi então. Como todo curso tem uma ementa, vejam como me virei para fazer uma ementa que se casava com  mídia utilizada.

 

(V) Faço uma tentativa de apresentar meu curso num texto escrito para a mídia a ser utilizada. Assim em vez de apresentar uma ementa tradicional, quero sugerir um texto que se adapte às possibilidades de romper com o sequenciamento imposto pelos modelos de publicação em papel. Essa proposta exigiu que eu produzisse um escrito longo. Mas o participante não terá que ler toda minha catilinária. Caberá a ele escolher o que vale a pena ler e na seqüência que achar mais adequada. Talvez eu precisasse de mais tempo para experimentar modos de escrever para esta mídia. Mas, já que não tenho tempo, arrisco uma proposta… (V).

Quem não se comunica se estrumbica

 Abelardo Chacrinha, gênio da TV Brasileira.

Apresento aqui o meu curso Comunicação & Aprendizagem. Você deve estar curioso para saber o que é que vai ser dado. Quer saber se vale a pena estudar a matéria.

Em situações convencionais, cursos são apresentados por meio de uma ementa que resume o conteúdo e justifica a abordagem que o professor acha adequada para a sua disciplina. Tudo isso é feito numa certa ordem, com começo, meio e fim decididos pelo mestre. Em parte, tal modelo é determinado pelo meio de comunicação utilizado, geralmente o papel. Mas quando usamos uma tela de computador podemos ousar algo diferente. Podemos, por exemplo, produzir um texto cuja definição de começo, meio e fim possa ser feita pelo leitor. É essa última alternativa que escolhi para escrever minha ementa.

Não vou apresentar aqui a estrutura do curso. Vou apresentar motivos que justificam a necessidade de estudar os aspectos comunicativos da educação. Para começo de conversa, ofereço um painel com o conteúdo que desenvolvi. Esse painel tem um título e uma conclusão. A cada item, se você achar necessário, clique o título para ler o texto respectivo. Mas, de preferência, não faça isso na seqüência apresentada. Leia antes o painel todo e decida, se for o caso, por onde começar. Dessa forma você poderá ordenar meu texto de acordo com sua curiosidade e interesse.

PAINEL TEMÁTICO DE COMUNICAÇÃO & APRENDIZAGEM

q COMUNICAÇÃO

ê comunicação: colocar em comum

q DAR MATÉRIA

ê dar matéria vai na contramão da comunicação

q REFLEXÃO OU CURSO?

ê proponho mais uma reflexão que um curso

q COMPUTADORES E PRINCÍPIO DO PORCO

ê mais não quer dizer necessariamente melhor

q ENSINAR É COMUNICAR

ê vale a pena repetir: ensinar é comunicar

q IMPOSSIBILIDADE ONTOLÓGICA DE MÁQUINAS DE ENSINAR

ê ensinar é atividade tipicamente humana

q INFORMAÇÃO NÃO É CONHECIMENTO

ê informação é símbolo a espera de agentes de saber capazes de produzir significados

ê conhecimento é produção de significados

q CONHECIMENTO E SABER

ê professores devem ser especialistas em processos de elaboração do saber

COMUNICAÇÃO

Comunicar é colocar em comum um saber. Se sei e não comunico, o meu conhecimento fica aprisionado na minha cabeça. Se não sei, pouco posso aprender sem pessoas dispostas a comunicar seu saber. Parece, portanto, que a comunicação é um fator importante para aprendizagem. Ou, para dizer de outra forma,  compartilhar saberes é uma palavra chave no processo de aprender.

ê COMUNICAR: COLOCAR EM COMUM

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PRÓXIMO ITEM

DAR MATÉRIA

Parece claro e simples que ensinar é compartilhar saberes, comunicar. Mas se a gente levar em conta os papos que acontecem na sala dos professores, nossas crenças sobre aprendizagem não vão no rumo desse entendimento. Normalmente, nós professores costumamos dizer que damos matéria. Essa expressão nada tem a ver com compartilhar. Dar matéria significa passar um conteúdo já organizado, administrado em doses homeopáticas para os alunos. Se estes últimos não aprenderem, cabe-lhes a culpa principal: provavelmente não devem ter prestado atenção…

ê DAR MATÉRIA VAI NA CONTRAMÃO DA COMUNICAÇÃO

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PRÓXIMO ITEM

REFLEXÃO OU CURSO

Como vivemos numa era da comunicação e da informação , estou propondo aqui uma reflexão sobre o problema da comunicação no processo de aprendizagem. Não preparei propriamente um curso. Prefiro dizer que a Comunicação & Aprendizagem é um roteiro de reflexão para que a gente possa superar as idéias predominantes sobre o ato de educar. Se obtivermos sucesso, deixaremos de ver a educação como doação de conhecimentos.

ê PROPONHO MAIS UMA REFLEXÃO QUE UM CURSO

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PRÓXIMO ITEM

COMPUTADORES E PRINCÍPIO DO PORCO

Um grande cientista da computação, Joseph Weizenbaum (1976), diz que os informatas costumam promover o princípio do porco. Mas, o que é o princípio do porco? Simples. O porco quer sempre mais. Ele deve achar que mais é necessariamente melhor. E aí esta o seu erro. Quanto mais ele consome, mais perto fica o dia fatal da viagem para o matadouro.

Com os computadores, consumir mais e mais informação ficou fácil. E há quem diga que isso é um grande avanço. Mas o consumo de mais e mais informação não traz per se sabedoria. É apenas uma aplicação moderna do princípio do porco.

Fartura de informação pode ser coisa enganosa. Muita gente a aprecia, achando que mais informação é sinônimo de conhecimento. Mas há um engano aqui: mais informação disponível não significa necessariamente que haja melhor comunicação

ê MAIS NÃO QUER DIZER NECESSARIAMENTE MELHOR

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PRÓXIMO ITEM

ENSINAR É COMUNICAR

Muita gente descreve aprendizagem com aquisição de conhecimento. Essa mesma gente, com coerência, descreve ensino como transmissão de conhecimento. Nos dois casos, fica ausente a idéia de comunicação.

Uma abordagem comunicativa da educação não admite possibilidades de aquisição de transmissão de conhecimentos. Ela sugere a necessidade de partilhar saberes. É claro que o professor deve saber mais que o aluno. Mas nenhum aluno é ignorante, algum saber o aluno tem; se nada soubesse não poderia entender o professor.

Vale aqui, mais uma vez, o dito de Abelardo Chacrinha: “quem não se comunica…” É por tudo isso que insisto: ensinar é comunicar, é compartilhar saberes para tornar possível a tão afamada construção do conhecimento.

ê VALE A PENA REPETIR: ENSINAR É COMUNICAR

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PRÓXIMO ITEM

IMPOSSIBILIDADE ONTOLÓGICA DE MÁQUINAS DE ENSINAR

Não vou falar de ontologia. Vou apenas afirmar que ensinar não é atividade própria para máquinas. Não é correto, portanto, o termo “máquinas de ensinar”, empregado para nomear um equipamento inventado pelo psicólogo B. Skinner. Não é correto também achar que as novas e maravilhosas máquinas de nosso tempo possam ensinar. Por que? A resposta fica por conta de uma definição do que é ensino.

Ensinar é colocar em comum conhecimentos. Fazer isso exige entender e trocar perspectivas entre dois ou mais parceiros em aventuras de saber alguma coisa.  Nesse sentido, ensinar é uma atividade tipicamente humana. É possível que a gente possa falar em ensino em algumas relações entre animais não humanos. Mas, definitivamente, entender e trocar perspectivas não é uma atividade que possa ocorrer entre homem e máquina.

ê ENSINAR É ATIVIDADE TIPICAMENTE HUMANA

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PRÓXIMO ITEM

INFORMAÇÃO NÃO É CONHECIMENTO

No belíssimo romance de ficção científica Um Canto Para Leibowitz, os monges de uma ordem religiosa copiam fielmente e conservam os escritos científicos que sobraram depois de uma guerra atômica que devastou o planeta Terra. Mas os copistas do legado científico não sabem o que estão copiando. Não entendem os complicados gráficos, as fórmulas e mesmo os textos que reproduzem. Eles apenas evitam a perda da informação que sobrou dos velhos tempos.

Mas um dia surge um gênio que lê e entende a documentação científica reproduzida pelos monges de São Leibowitz. E com isso volta a ameaça à vida na Terra. O conhecimento de como fabricar bombas atômicas é recuperado e produz a última guerra do nosso planeta…

No cenário dessa história de ficção, vemos claramente que livros são armazéns de informação, não de conhecimento. Este último exige a atividade de alguém capaz de dar sentido aos símbolos copiados pelos monges. Em outras palavras, conhecimento é sempre atividade de agentes capazes de representar o mundo, a experiência etc.

ê INFORMAÇÃO É SÍMBOLO A ESPERA DE AGENTES DE SABER CAPAZES DE PRODUZIR SIGNIFICADOS

ê CONHECIMENTO É PRODUÇÃO DE SIGNIFICADOS

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PRÓXIMO ITEM

CONHECIMENTO E SABER

Neste curso vou usar o termo conhecimento num sentido restrito. Conhecer, dentro dos limites do esquema interpretativo que quero apresentar, é criar representações internas de informações e experiências vividas por sujeitos. Nesse sentido, o conhecimento é a dimensão subjetiva do saber. Ele não se confunde com duas outras dimensões de saber: a informação e a ação humana.

Penso que um novo modo de ver articulações entre conhecimento, informação e ação humana pode explicar melhor a dinâmica do saber. Confesso que esse assunto poderá ser visto como muito teórico. Mas, como já disse alguém, não há nada mais prático que uma boa teoria.

Uma visão compreensiva do saber, mostrando articulações entre conhecimento, informação e ação humana pode fornecer bons elementos para decisão relativas a ensino-aprendizagem. Pode, sobretudo, situar de modo mais equilibrado o papel da informação como elemento constitutivo do conhecimento.

Em todo essa discussão, pretendo argumentar a favor de uma visão de que os professores são profissionais do saber, não produtores de informação ou transmissores de conhecimento. Em resumo:

ê PROFESSORES DEVEM SER ESPECIALISTAS EM PROCESSOS DE ELABORAÇÃO DO SABER

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