Para onde vai o trabalho

Há muitos anos resolvi fazer notas de leitura de modo sistemático. Não durou muito. Mas, se tivesse continuado a aventura, provavelmente teria hoje um acervo respeitável de boas notas de obras importantes. Para terem um ideia do que eu fazia, aqui vai um exemplo.

 

DURAND, C. LE TRAVAIL ENCHAINÉ. EDITIONS DU SEUIL,

 PARIS, 1978.

 

DIVISÃO DO TRABALHO/NEGAÇÃO DA HIERARQUIA

 

 

 

 

 

CONTRACULTURA

 

 

 

 

ESCOLARIZAÇÃO CRESCENTE/PERDA DE CONTEÚDO DO TRABALHO

 

 

·       “A  emergência da divisão do trabalho como um problema social guarda relações com a crise de autoridade e a contestação das hierarquias. Os jovens trabalhadores não aceitam tão somente o trabalho em cadeia mas também a disciplina autoritária das empresas. A revolta e contestação não agravam apenas as tensões internas nas oficinas e escritórios; elas vão mais longe, chegam a uma “depreciação” do trabalho industrial pelos jovens. Os empresários reclamam que não mais encontram uma mão-de-obra disposta a aceitar os trabalhos mais ingratos…” (p.8)

COMENTÁRIO: Durand comenta aqui sobretudo o clima de revolta observado em 1968. Mais recentemente, não se constatam reações globais contra a divisão do trabalho… É preciso, porém, pensar numa contradição latente que tende a agudizar-se: a força de trabalho se educa cada vez mais e, por isto, estará cada vez menos disposta a exercer um trabalho imbecilizante… Há aqui uma sugestão interessante para se entender o relativo sucesso de treinamentos rápidos para qualificar mão-de-obra para funções específicas. A clientela desses treinamentos, geralmente, não é muito educada. Por este motivo, ela está mais disposta a aceitar um trabalho esvaziado de conteúdo… (cf. Ginzberg e Newsweek).

   
DIVISÃO DO TRABALHO/ DURKHEIM/ “NATURALISMO” ·       “Nos primeiros anos de industrialização, a divisão do trabalho parecia ser um processo social normal e natural. Durkheim entendeu a divisão social do trabalho como uma situação de fato, como uma consequência inevitável do crescimento do volume e da densidade das sociedades modernas, nem a indústria, nem a agricultura, nem a ciência. Na evolução das ciências, a especialização do saber substituiria o diletantismo da cultura geral. A divisão do trabalho parecia assim condicionar o desenvolvimento intelectual e material das sociedades e ser, por isto mesmo, fonte de civilização” (p. 8-9)  (cf. Gorz).
   
AVILTAMENTO DO TRABALHO ·       “Com a introdução do taylorismo e da racionalização das tarefas na indústria, a divisão do trabalho chegou a um tal nível que desqualificou o trabalho operário e reduziu, no trabalho em série, a intervenção do trabalhador a tarefas repetitivas e robotizadas de execução. O próprio Dukheim denunciou, no seu início, estas formas de divisão do trabalho como patológicas e aviltantes”. (p.9)
   
TECNICISMO/ASPECTOS SOCIAIS COMO “CONSEQUÊNCIA” ·       “A renovação da organização do trabalho funda-se numa ideologia tecnicista dos engenheiros, que entendem o desenvolvimento das técnicas e o parcelamento das tarefas como necessidades naturais. Mas, este aspecto não é mais do que um elemento da estrutura em matéria de inovação que relega os aspectos sociais da mudança a um status de mera consequência…”(p.12)
   
AUTOMAÇÃO/ AVILTAMENTO DO TRABALHO ·       “A automação do processo de produção não significa total supressão de toda intervenção manual… nem que o trabalho limitado ao controle e monitoração das máquinas deixe de ser tão “enfastiante”  quanto o trabalho parcelar da confecção manual… (p. 13)
   
DEFINIÇÃO DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ·       “Podemos definir sumariamente a organização do trabalho como o sistema de regras e de normas que determinam a maneira pela qual a produção será executada na empresa”. (p. 15)
   
TAYLORISMO E O&M ·       “… a existência de serviços de organização e métodos (O&M) representa uma consequência direta da concepção taylorista do trabalho, separando aqueles que o organizam daqueles que o executam… (p. 19)
   
AUTOMAÇÃO E QUALIDADE ·       “Um modo diferente de intervenção sobre a qualidade do trabalho consiste em intervir tecnicamente para tornar o erro impossível… (p. 26)

·       COMENTÁRIO: estabelecer relação com robotização. Uma das vantagens apresentadas por esta (e, quase sempre, a mais comentada e “assumida” ideologicamente) é justamente “melhor qualidade”. (cf.: comparações entre Japão/outros países quanto à questão da qualidade; especialmente indústrias automobilística Japão/EUA no início dos anos oitenta).

   

 

 

ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO: MENOR CLAREZA FUNCIONAL/       

 MAIOR AUTORITARISMO.

 

 

 

PERSONALISMO/ MENOR CLAREZA FUNCIONAL

 

·          Sobre as empresas onde a organização funcional    não é muito desenvolvida o autor observa:…exige-se um espírito de devotamento: “Se ele (o patrão) precisar de uma ajuda, a gente dá; se precisar de horas extras, a gente faz”. A organização repousa menos sobre um sistema de regras e de relações pré-determinadas, e mais sobre um sistema de contribuições-retribuições pessoais:

“Se alguém tem um problema, a solução será pessoal. Existe uma grande dependência mútua no trabalho” (chefe de serviço de alimentação). Dentro de tal sistema, as relações interpessoais suprem a ausência de normas, o que faz com que se reforcem as decisões de caráter hierárquico. A organização do trabalho, no caso, é menos burocrática, é porém, muito mais autoritária.  (p.30)

   
CONSULTORES/VISÃO DE SINDICALISTAS ·       Durand registra alguns depoimentos de sindicalistas sobre os consultores externos (l’ingenieur conseil) que convém ressaltar: “Eles (os consultores) vendem palavras a preço de ouro”. Os sindicalistas denunciam o charlatanismo da profissão: “Num primeiro momento, eles vendem um contrato para um primeiro diagnóstico (três ou quatro dias; preço: 50.000 F.). O objetivo é obter um segundo contrato, um diagnóstico elaborado por um pseudo-pesquisador (200.000 F.). Este último produz uma dezena de páginas sobre a empresa e demonstra a necessidade de se realizar um treinamento. Terceira etapa: é organizado um programa de treinamento para os trabalhadores. Resultado: nada se aprende efetivamente…” (p. 38)

·       Um outro tipo de consultoria estudado por Durand são os serviços de engenharia. Vale aqui registrar um longo comentário do autor:

“O serviço de engenharia (consultoria externa) facilita o acesso da empresa às descobertas da pesquisa e desenvolvimento; à informação sobre novas tecnologias, sobre as possibilidades das empresas e as condições de financiamento. Mas, ao tecnicizar as decisões, os serviços de engenharia privam as empresas de suas prerrogativas em matéria de concepção e estudo, de coordenação e controle. O desenvolvimento deste tipo de serviço acentua ainda mais a divisão do trabalho entre aqueles que preparam e controlam e aqueles que executam. A concepção do trabalho nesse caso, dada a tendência de automatização e tecnização, deixa de lado a percepção das condições de sua execução. Segundo a doutrina geralmente aceita entre os profissionais do meio, o trabalho de organização é desvinculado da inovação. Um bom número de profissionais acha que deva ser levada em conta: “Não pensamos na organização do trabalho do ponto de vista dos “métodos” […], o industrial coloca os homens na linha de produção e sabe como fazê-los trabalhar”. (p. 41)

   
TAYLORISMO/NOVAS TEORIAS DA ADMINISTRAÇÃO/ INFORMÁTICA ·       …o taylorismo e o fordismo permanecem como fundamentos da organização do trabalho. Pode-se perguntar se certas técnicas modernas de administração, assim como o controle da produção pela informática, não contribuem para acentuar a taylorização do trabalho, ou para apresentá-la com uma nova face mais aceitável… (p. 46)
   
AUTOMAÇÃO GERA LIBERAÇÃO? ·       A automação foi vista como uma liberação da condição operária, como liberação da dependência do trabalhador com relação à máquina. A automação introduziu uma pseudo-liberação: suprimiu o salário por produção, fez desaparecer as normas de produção. Mas, estas normas se encontram de fato integradas ao processo tecnológico. O operário que controla e alimenta uma máquina automatizada não tem mais como escapar do ritmo por ela determinado. (p. 46)
   
IDÉIAS DE TAYLOR ·       COMENTÁRIO: Durand sumariza as principais idéias tayloristas de modo muito claro. Vamos lá:

– “Segundo Taylor, existe “apenas uma única maneira” (one best way) de executar uma tarefa. Maneira esta evidenciada pelos estudos de movimentos e tempos”.

– “O trabalhador não terá mais oportunidade de trabalhar de acordo com o “seu” estilo: ele será ensinado a trabalhar da melhor maneira. Os trabalhadores serão selecionados e treinados para executar o trabalho para o qual serão especializados “a fim de que cada um possa fazer o trabalho mais complexo compatível com suas aptidões naturais, de forma mais rápida e com eficiência máxima”.

– “A especialização, ou seja a limitação da variabilidade das tarefas e do conteúdo das tarefas, é uma conseqüência direta do método taylorista. A preparação do trabalho e a sua execução devem ser divididas entre a direção e os trabalhadores, a idéia de “trabalho o mais complexo compatível com as suas aptidões” será obscurecida pela preocupação com a rapidez de execução e com a eficácia. O trabalho será  “esfacelado” numa série de tarefas parcelares e repetitivas que levarão as tarefas inteiramente desqualificados”.

   
ABANDONO DA DIMENSÃO UTÓPICA DO TAYLORISMO ·       …a utopia social do taylorismo, a crença de que seria possível realizar a felicidade do trabalhador pela prosperidade comum dos empregados e patrões, foi esquecida no meio do caminho; por outro lado, o taylorismo conservou todo o vigor como sistema de opressão e de rigor da organização do trabalho. (p. 50)
   
EXEMPLO DE PARCELARIZAÇÃO DO TRABALHO ·       Em algumas empresas automobilísticas ou de montagem eletrônica, o operário especializado (O.S.) efetua os mesmos gestos a cada trinta segundos. (p.52)
   
HÁ LIMITES PARA CADÊNCIAS INFERNAIS”? ·       Os operários são capazes de se autocondicionar a cadências infernais mesmo quando a empresa não adota explicitamente todo o aparato taylorista de organização e controle e se contenta com a pressão moral de exigência do trabalho bem feito. (p. 53)

·       COMENTÁRIO: O processo de automação levanta uma questão quanto à remuneração por produção (uma prática comum quando o processo industrial ainda combinava habilidades artesanais com linha de montagem). Vale aqui registrar sobre o tema alguma observações do autor:

– “Os sindicalistas recusam o sistema de estimulação salarial e reivindicam, em nome da segurança do salário e da defesa das condições de trabalho, a integração da remuneração por produção (prime)  ao salário fixo. As reações operárias quanto à remuneração por produção são muitas diversificadas, os operários produtivistas julgam-se lesados pela integração do “incentivo” (prime), nivelando resultados. A automação da produção tende a suprimir a remuneração por produção,  pois a automação dissocia o comportamento do trabalhador do ritmo da máquina, ou melhor, a máquina incorpora o ritmo de tal maneira que o trabalhador se vê obrigado a segui-lo: “Não há tempos humanos na fabricação; os trabalhadores devem se adaptar. No setor de embalagem, segue-se o rendimento das máquinas. Elas trabalham sempre na mesma cadência”. (chefe de serviço, empresa de alimentação)”. (p. 54)

COMENTÁRIO: a discussão sobre remuneração de “primes” (produção) é paralela à discussão sobre “merit pay” no sistema educacional dos EUA. A questão maior que se coloca é a de poder. Instalado o sistema de “prime” ou “merit pay”, os trabalhadores se dividem e passam a ser manipulados mais facilmente pelos administradores…

– Relacionar processo de automação com a questão de aprendizagem de habilidades às competências hetero-ritmadas, não deixando espaço para um trabalho “decidido” pelo sujeito. Num trabalho exclusivamente hetero-ritmado, o trabalhador se converte em mero apêndice da máquina. Esta última deixa de ser ferramenta, invertendo papeis na relação/homem instrumento de trabalho. [Ver mais sobre instrumentos (ferramentas) em Weizenbaum…]

Vale notar que este último autor ressalta que a máquina é apenas a “encarnação” de um sistema. É possível um ensino de competências hetero-ritmados mesmo quando o trabalho não está associado a máquinas. Neste último caso, o sistema recusa competências auto-ritmadas como qualquer máquina…

 

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